sábado, 12 de novembro de 2011

Neste mundo ninguém pode viver sem sofrimentos

"Tome a sua cruz e siga-Me"


Jesus Cristo - Filho, enquanto viveres na terra, não poderás estar isento de tribulação.

Acaso não é a aflição tôda esta vida mortal, em que o homem entra chorando, nela vive e daí sai entre gemidos? Nascendo o homem sujeito à morte, não lhe é possível levar a vida sem dores, porquanto traz em si próprio a causa de suas penas. Já a condição mortal gera naturalmente muitas e várias misérias, enfermidades e penas que não podem cessar enquanto existir a sua causa producente e eficaz. Entretanto, todos estes males embora múltiplos e penosos, são os menores. Do íntimo da natureza corrompida surgem coisas piores, desordenadas e perversas concupiscências, que constrangem o homem, mau grado seu, a sentir o que não quisera. Tais punições geram outras tantas dores e, sendo inerentes ao coração, perturbam-lhe a paz. Suscitam horríveis lutas e, por movimentos contraditórios, expõe a alma a inúmeros perigos e amarguras.

Quantas aflições das quais ninguém pode completamente escapar, sobrevêm exteriormente ao homem!

O frio, o calor, várias intempéries, mil incômodos da parte das criaturas, inúmeros efeitos provenientes de causas físicas que, embora tendam ao bem universal, todavia, em consequência da fraqueza do homem, no estado da natureza decaída e na presente ordem das coisas, não deixam de ocasionar prejuízo aos indivíduos. E, além disso, qual o homem a quem não oprime por vezes algum pesar, visto não ser possível viver neste emundo sem algum fardo? Acrescenta e numera, se puderes, as dores e acerbidades de todo gênero, oriundas das paixões e vícios de outrem, e verás de todos os lados dissabores capazes de abater-te, se não o dominares.

Sem dúvida, filho, sendo a vida mortal fértil em tantas e tão grandes misérias, a muitos pareceria quase intolerável, se o espirito de religião não lhes sugerisse motivos de paciência e o meu coração não lhes suavizassem os males com a unção da graça. Nem toda a sabedoria deste mundo, embora pronuncie belas frases sobre a tolerância do sofrimento, jamais pode descobrir e dar remédio conveniente à dor. Quantos dissertaram com eloquência sôbre a paciência nas tribulações, procurando doutrinar a outrem, conquanto eles próprios se achavam acabrunhados de angústia. Não é, pois, de admirar que pessoas destituídas de espirito religioso e afastadas do meu Coração, por serem incrédulas ou corrompidas, se entreguem ao desespero no meio das tribulações e, tendo a razão obcecada, ponham funesto termo às demais misérias com a máxima desgraça que é a eterna. A religião, porém, torna suportáveis e úteis todas as tribulações, ensinando que só acontecem por consolador efeito da sabedoria e bondade do meu Coração, de modo que, sendo antes justo castigo do pecado e com digna razão das dores humanas, se transformam em remédio salutar da culpa e copiosa matéria de méritos. Os metais são provados no cadinho. O fogo endurece o barro e derrete a cera. A tempestade derruba as plantas, porém consolida as árvores bem arraigadas. O mesmo faz a tribulação em razão aos homens: a uns endurece, a outros abranda. A perseguição a um abate, a outro confirma. Todos seriam conduzidos à bem-aventurança por meio da tribulação, se bem a aceitassem. Se alguém é por ela arrastado à ruína, não é a ela que se deve imputar a culpa, porquanto, bem suportada, oferece caminho seguro para a santidade e, por conseguinte, para a verdadeira bem-aventurança.
Mas, filho, já muito mais leve e consoladora se tornou tôda a aflição, desde que eu, sendo atribulado, santifiquei a tribulação e precedo as almas aflitas, quer pelo exemplo de minha vida, quer pela promessa da recompensa ou também pelo consolo e auxílio da graça. Pelo meu exemplo aprenderão os santos o segredo de bem sofrer e a arte de converter os males em bem. Por isso experimentaram doçuras nas tribulações e a tal ponto hauriram no meu amor o desejo de padecer, que anelavam não viver sem sofrimento e transbordavam de gozo em todas as suas tribulações. Acaso, filho, não podes aspirar ao mesmo? Não é isso tanto do meu interesse como do teu? Que receias? Nenhuma dor pode atingir-te o coração sem ter passado pelo meu, e embebendo-se assim da virtude da divina consolação, perde a força de prejudicar-te.

Acautela-te, filho, para que a acerbidade do teu coração não torne amargas as tribulações que te sobrevêm saturadas de suavidade do meu coração. É forçoso sofrer. Outro alvitre não te é dado. Depende, porém, da tua escolha: sofrer bem ou mal, à semelhança dos eleItos ou dos réprobos, para tua santificação ou condenação. Prepara-te, filho, ou antes permanece disposto a aceitar os dissabores, que não cessam e não cessarão de ocorrer. Não creias poder passar um só dia sem alguma pena, por quanto não há dia que não traga consigo bastante mal. Nem imagines ser capaz de evitá-lo por mais que fizeres. Ainda que te retires sozinho ao deserto ou atravesses o oceano, e te escondas nos últimos confins da terra em toda parte terás a dor por companheira. E a causa ou ocasião do sofrimento seguir-te-á sempre, como a sombra ao corpo. Eis porque, filho, se possuíres sabedoria, utilizarás para teu proveito o que não te é dado evitar, suportando, com igualdade de ânimo, a exemplo dos santos, a cruz de tuas aflições e seguindo-me corajosamente os passos.  
Se queres padecer com facilidade e fruto a tribulação, suporta-a por meu amor. Este amor, retirando da cruz o peso e a aspereza, há de santificá-la, e por ela a ti. Quem não suporta por meu amor as aflições, não há de carregar por muito tempo a cruz com alegria, mas em breve, ou há de arrastá-la entre penas e gemidos, ou jazerá miseravelmente por ela esmagado. Se experimentas dificuldade em sofrer dêste modo, filho, vem ao meu coração e ora. Aqui hás de alcançar socorro, amor e unção da graça. Filho, até agora não cessei de exortar-te a orar. E não deixarei de repetir, que ores sem desfalecer. Tudo depende da oração. Nela encontra-se libertação dos males, obtenção dos bens, remédio para qualquer miséria, alívio nas dores, consolo e perseverança.

Discípulo – Por conseguinte, Senhor Jesus, não há meio de fugir: quer se queira quer não, é forçoso sofrer. Se o fizer de bom grado, senti-lo-ei menos. Se o aceitar com relutância, aumentar-lhe-ei o peso. É mister, portanto, ter o coração pronto a sofre, a não ser que eu mesmo queira sem proveito tornar-me infeliz. Se tal necessidade parece por vezes dura, o fruto do sofrimento, que me santificará nesta vida e me fará feliz por toda eternidade, basta copiosamente para animar-me e estimular-me o coração. Se deveras vos amar, dulcíssimo Jesus, só a vossa lembrança há de mover-me a seguir-vos com alegria e coragem, a fim de estar convosco e vos ser semelhante, dando prova de meu amor e gozando do vosso. Ó Jesus, doçura infinita! Convosco a amargura torna-se doce. Pois, por haverdes sofrido, tirastes o que havia de mais amargo nas aflições, reservando-o para vós e delas extraístes, para no-los dar, sabor e doçura. Ó preclaríssimo Jesus, que tanto me amastes, dai-me, vo-lo suplico, os sentimentos do vosso coração, afim de que eu santifique todos os meus sofrimento e os faça contribuir para vossa glória e minha perfeição.

Imitação do Sagrado Coração de Jesus
 

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