sábado, 31 de março de 2012

A necessidade da oração

 
E assim como na natureza cada organismo exige uma alimentação diversa, segundo a idade, os trabalhos e o gasto das forças, assim também cada alma precisa de uma particular dose de oração.

Notais que a vida divina [isto é, a vida da graça] não se sustenta de virtude, mas de oração, já que a virtude é um sacrifício, um gasto, e não um alimento.

Quem sabe orar de acordo com as suas necessidades, tem a sua lei de vida. Não é a mesma para todos. Uns precisarão de um grau maior de oração para se manter no estado de graça; outros de um grau menor. Esta afirmação não pode ser posta em dúvida, pois a experiência no-la prova. Uma alma se conservará em estado de graça com pouca oração – basta-lhe esse pouco – mas não há de voar muito alto, enquanto outra, pelo contrário, dificilmente nele se manterá sem muita oração. Sente necessidade de mais. Que ore, e ore sempre! Assemelha-se a essas naturezas fracas, que precisam comer com freqüência para não definhar.

A oração é o caráter da religião católica, a marca de santidade da alma, sua própria santidade. Ao verdes alguém que vive de oração podereis dizer: "É um santo". (...) Jamais, porém, se tornará santo o homem que não ora.

Não vos deixeis levar nem pelas palavras, embora belas, nem pelas aparências. O demônio tem muito poder, é douto, transforma-se em anjo de luz. A ciência, tampouco, forma santos; não vos fieis nela. Só o conhecimento da verdade não pode santificar, é preciso acrescentar-lhe o amor. Que digo? Há um abismo entre o conhecimento da verdade e a santidade. Quantos gênios não se têm perdido!

Insisto. Nem as boas obras de zelo e de caridade podem, por si, santificar. Deus não imprimiu à santidade este caráter. Os fariseus – e no entanto Nosso Senhor os chama de sepulcros caiados – observavam a Lei, davam esmolas, consagravam os dízimos a Deus. Trabalhavam muito sem que, no entanto, seu trabalho se mudasse em oração. O Evangelho no-lo confirma. É que a prudência, a temperança, a dedicação se podem aliar a uma consciência viciada.

A oração não é, [por assim dizer,] na ordem divina, senão a mesma graça. Já notaste que as tentações, as mais violentas, são contra a oração? Esta inspira tanto medo ao demônio que, de bom grado, ele nos deixaria fazer todas as [boas] obras imagináveis, se pudesse nos impedir de orar, ou, pelo menos, se conseguir viciar a nossa oração. Devemos, pois, estar de sobreaviso, alimentar sempre o espírito de oração, fazer da oração nosso dever primordial.

O Evangelho não nos manda antepor a salvação do próximo à nossa própria salvação, pelo contrário, diz-nos que nada vale ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder sua própria alma. A primeira lei imposta – infelizmente violada todos os dias – é a da salvação própria. Descuidamo-nos de bom grado de nós mesmos para servir aos outros, entregando-nos a obras de caridade. De fato, a caridade é fácil e cheia de consolações, eleva-nos, enobrece-nos, mas enquanto isso, fugimos da oração por indolência. Por ser sem ruído e silenciosa, é humilhante, e não ousamos, portanto, nos entregar a ela.

(...) Nada se faz de grande para Jesus sem a oração, que nos reveste de Suas virtudes.

Se não rezardes, nem os Santos, nem o próprio Deus vos farão progredir no caminho da perfeição.

A oração está de tal forma ligada à santidade que, Deus, ao querer elevar a alma, não intensifica suas virtudes, mas sim, seu espírito de oração, isto é, a sua capacidade de poder orar.

Aproxima-a de Si, e nisto está o segredo da santidade.

Consultai vossa experiência própria. Sempre que a voz de Deus se fez ouvir, haveis procurado com maior insistência a oração e o retiro. E os Santos, cientes da importância da oração, amavam-na mais que a tudo e suspiravam continuamente pela hora em que a ela se poderiam entregar. Sentiam-se atraídos a ela como o ferro ao ímã. A oração foi-lhes, portanto, a recompensa: no Céu oram continuamente.

Se não rezardes, perder-vos-ei. E se fordes abandonado por Deus, podeis atribuir isto, com toda certeza, ao fato de não rezardes. Sois qual o desgraçado náufrago que recusa a corda que lhe lançam com intuito de arrancá-lo à morte. Que fazer? Está perdido!


Fonte: 

Excertos de “A Divina Eucaristia” - Pedro Julião Eymard; retirado do blog A Grande Guerra.

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