quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Fruto da Paixão


Adimpleo ea quae desunt passionum Christi

Eu cumpro em mim o que falta à Paixão de Jesus Cristo

Destas palavras do apóstolo São Paulo tirarei as considerações da simples instrução que me resta fazer-vos como complemento de tudo que deixei dito sobre a Paixão.

Bastantemente meditamos em várias predicas este adorável Mistério, no qual tantos atributos de Deus se nos revelam: a Sua onipotência, sabedoria, santidade, justiça e bondade. A Sua onipotência – porque vimo-lO na Paixão triunfar do universo pelos meios aparentemente mais vis e fracos. A Sua sabedoria – porque vimo-lO conciliar maravilhosamente os direitos da Justiça com os desejos da Misericórdia, punindo o pecado e ao mesmo tempo perdoando ao pecador. A Sua santidade – porque vimo-lO punir inexoravelmente o Inocente, só porque se Lhe mostrou revestido das aparências do pecado. A Sua bondade – porque entregou Seu Filho à morte para nos salvar.

Revelando-Se assim os atributos de Deus, o Mistério da Paixão revela também a enormidade do pecado, a sua pena eterna, e o preço da nossa alma. A enormidade do pecado – porque só o mérito infinito de um Deus crucificado pode expiá-lo. A sua pena eterna – porque, sendo infinito o mérito de Jesus Cristo, a Sua morte foi um remédio infinito. Ora, um remédio infinito supõe uma desgraça infinita, que Jesus Cristo veio evitar; e não haveria proporção entre o pecado e a Sua morte se a pena do pecado não fosse o inferno. O preço da nossa alma – porque para salvá-la não duvidou Deus dar o Seu próprio sangue; e quem de pouca valia pode julgar a sua alma vendo-a assim prezada pelo Deus Redentor?!

Mas, se a Paixão nos ensina tudo isto, qual deve ser para nós o fruto da Paixão?!

Os mistérios que nesta quaresma temos estudado serão cenas teatrais a que viestes assistir; ou fontes de salvação onde viestes beber tantos remédios quantos são os males que em vós tem produzido o pecado?!

Por ventura a Igreja, exibindo aos vossos olhos essas reproduções plásticas da Divina Tragédia da Paixão, tem o intuito de impressionar-vos apenas; e esses quadros que com tanto afã viestes contemplar – a Agonia, a Flagelação, a Coroação de Espinhos, o Caminho do Calvário, a Crucificação – só devem ter o efeito de despertar a vossa sensibilidade e provocar a vossa condolência?!

Não. Porque a Igreja, em relação a Paixão, nos ensina duas verdades capitais: 1.ª, os mistérios da Paixão não são somente fatos que se consumaram há dezenove séculos; são, como todos os mistérios e obras de Nosso Senhor, fatos permanentes, sempre reproduzidos, como se cada dia eles se realizassem de novo.

Jesus Cristo abrange todos os séculos e tempos; o passado, o presente e o futuro: Christus heri et hodie ipse et in secula. Se isto é verdade, máxime em relação a Paixão, pois ela vive sempre no augusto sacrifício da Missa e é sempre eficaz nos Sacramentos que todos tiram sua virtude do precioso sangue de Jesus Cristo.

2.ª: Jesus Cristo, sofrendo por todos os homens, sofreu particularmente por cada um de nós, como se cada um de nós fora o único que tivesse pecado e necessitasse da Sua Paixão; de modo que a cada um foi aplicado o sangue de Jesus Cristo tão exclusivamente como se todos os outros não estivessem nas mesmas condições.

Eis em relação à Paixão as duas verdades capitais sem as quais ninguém pode tirar dela o devido fruto; porque este fruto só provém da aplicação que cada um faz a si próprio dos méritos e satisfações de Jesus Cristo.

Eis porque dizia o apóstolo São Paulo: “eu satisfaço em mim o que falta à Paixão de Jesus Cristo.”

Mas, que é que podia faltar à Paixão de Jesus Cristo? Por ventura não foi ela completa? Sim, em relação a Jesus Cristo; não, em relação a cada um de nós.

É preciso que cada um se aproprie dela, torne-a sua, para que então a Paixão de Jesus Cristo seja completa em relação a cada um de nós.

Era isto o que queria significar o Apóstolo. Ele, que tinha evangelizado os Gentios, confundido os Gregos, assombrado o mundo, e que num rapto sublime fora elevado ao terceiro céu, compreendia, não obstante, que se não poderia salvar senão completando em si a Paixão de Jesus Cristo. Vós, pelo contrário, entendeis que, concorrendo apenas a estas solenidades da Igreja; contemplando os quadros alegóricos da Paixão; ouvindo as predicas do orador sagrado e acompanhando pelas ruas da cidade os sagrados préstitos, tendes a vossa salvação segura!...

Eu lamento, porém, a vossa ilusão, e com fraqueza vo-lo declaro: se a vossa piedade se reduz a isto, de nada vos serviria a Paixão de Jesus Cristo; para vós ela é como que se não existisse. De fato, para muitos ela não existe.

Como dizia S. Bernardo, há homens para quem Jesus Cristo ainda não nasceu, não viveu, não sofreu, não morreu, não ressuscitou e não subiu ao céu.

Quais são eles? Todos os que pensam como vós, isto é, todos os que se limitam a ver as cenas da Paixão como cenas de teatro, ou ouvi-las descrever apenas como episódios patéticos e trágicos.

Todos os mistérios de Nosso Senhor têm duas partes; uma exterior: o corpo do mistério; outra interior: o espírito do mistério. O corpo do mistério são as circunstâncias exteriores no meio das quais ele se realizou. O espírito do mistério é o que se passou no espírito de Nosso Senhor quando Ele o operou, isto é, os pensamentos do Seu entendimento, os afetos, os Seus desígnios e, mais que tudo, as virtudes que praticou: humildade, pobreza, obediência, caridade.

Ora, o corpo do mistério nem todos podem reproduzi-los; porque só graças extraordinárias podem transformar um homem numa imagem real e aparente de Jesus Cristo.

O espírito do mistério, porém, todo o cristão pode e deve, quanto comportarem as suas forças, reproduzi-lo em si, adaptando os diferentes estados de sua vida aos correspondentes mistérios de Jesus Cristo; tendo também, como Ele, o seu Belém, o seu Egito, o seu Nazaré, o seu templo, o seu Batismo, o seu Deserto, a sua Missão, a sua Paixão, o seu Calvário, para que, como Ele também, possa ter a Ressurreição e triunfo no céu.

Esta reprodução de Jesus Cristo como se a faz? Imitando-O. É nesta imitação que consiste a nossa garantia de salvação, porque diz o Apóstolo: “Aqueles que Ele conheceu Ele predestinou a serem conformes à imagem de Seu Filho, primeiro nascido entre muitos irmãos.”

Sem essa imitação não há salvação; e, quanto mais perfeita for à imitação, mais segura será a salvação.

Por isso todo intuito da Igreja, nestas como noutras solenidades, é reproduzir em nós a figura de Jesus Cristo; e, se anualmente nos apresenta representados ao vivo os mistérios de Sua Paixão, é para que deles nos apropriemos devidamente.

Todos estes mistérios são meios de santificação que nos devem conduzir a procurar o sangue de Jesus Cristo. Onde o encontramos, esse sangue precioso que único pode nos lavar do pecado? Nos quadros da Paixão que tanto gostais de contemplar?! Nas imagens do Crucificado que tanto vos apraz olhar?! Nas procissões a que com tanta presteza concorreis?!

Não! Nos Sacramentos, canais da Graça, vasos do precioso sangue de Jesus Cristo, expressões sagradas da vontade de Deus, que assim como na ordem física não comunica a vida natural senão por meio de determinados instrumentos, de intermediários, de Sacramentos sobrenaturais.

Vede: na ordem natural Deus não opera senão por intercessão de coisas ou de pessoas.

Ele poderia nos alimentar diretamente, ou pelo menos dar a nossa própria substância o vigor bastante para subsistirmos. Entretanto, colocou em organismos naturais a vida que se nos comunica; e, se não recorremos a terra, a planta ou ao animal, não poderemos subsistir, não poderemos ter a vida física. Poderia também diretamente curar um doente ou instruir um ignorante; mas não o faz senão por intermediário do médico ou do mestre.

Porque se estranha que Ele proceda do mesmo modo na ordem religiosa? Ele poderia nos dar a Graça diretamente e infundir em nós o Seu precioso sangue. Não o faz, entretanto, senão por meio dos Sacramentos; e, se queremos a vida divina, havemos de recorrer aos mananciais que a contêm.

Aliás, se na vida divina, como todos os cristãos facilmente aceitam, é preciso um Sacramento para nascer, outro para crescer, outro para casar-se: porque não será necessário um Sacramento para curar-se do pecado, que outra coisa não é senão a moléstia da alma; e recuperar a Graça, que outra coisa não é senão a saúde, a vida divina do cristão?!

O doente não se cura sem o remédio,

O pecador não se regenera sem a confissão.

É neste adorável Sacramento que principalmente reside o fruto da Paixão, de cujos méritos não nos podemos apropriar senão recorrendo ao precioso sangue que Ele derrama sobre o pecador arrependido.

A confissão humilha, confunde, abate a vaidade, castiga o orgulho, violenta o amor próprio?! Mas é por isso justamente que cumprimos em nós a Paixão de Jesus Cristo, que se deixou humilhar, abater, confundir em castigo de nossas vaidades, orgulhos, cobiças e sensualidades.

Adimpleo ea quae desunt passionum Christi.
Sem a humilhação da penitência nenhum cristão pode dizer que cumpre em si a Paixão de Jesus Cristo. Sem a confissão, estas festas poderão ter impressionado os vossos olhos; as predicas deste pobre orador poderão ter agradado aos vossos ouvidos; mas tudo isto não terá convertido os vossos corações e de nenhum proveito vos terá sido a Paixão de Jesus Cristo.

O templo encheu-se literalmente para verem-se os quadros, ou para ouvir-se o orador?! As ruas regurgitaram de uma multidão compacta atrás dos emblemas e andores?! Nada disto vos aproveita, se esquecestes o caminho do confessionário; se não fostes receber naquela fonte viva do precioso sangue de Jesus Cristo a água que lava as iniqüidades, e o vigor que garante a vida eterna.

Este é o fruto da Paixão; e quem não foi colher este fruto na árvore de salvação que Jesus Cristo plantou na Sua Igreja não pode dizer que cumpre em si o que falta à Paixão de Jesus Cristo.

Adimpleo ea quae desunt passionum Christi.

Que cegueira a daquele que não compreende estas palavras!
Que confusão não será a sua na eternidade!

Verá, mas muito tarde, que Deus fez tudo por si: - revestiu-Se de sua carne, nasceu, sofreu, foi coberto de opróbrios, foi crucificado – tudo isto para salvá-lo; e toda esta fonte de vida, a Paixão de Jesus Cristo, não foi para ele senão uma fonte de morte!

Pode haver maior desventura, maior infortúnio, cristãos?! Não! Portanto, enquanto é tempo, que cada um se aposse do tesouro infinito do Divino Amor; que cada um se aproprie dos Sagrados méritos do seu Redentor; que cada um se habilite para poder dizer com o Apóstolo: adimpleo ea quae desunt passionum Christi: eu cumpro em mim o que falta à Paixão de Jesus Cristo.

(A Paixão pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa imprensa - Rio, 1937)

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