segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A arte de estragar as crianças



Há dois grandes meios: o mau exemplo e os mimos.

O mau exemplo. Todos os homens se imitam entre si. As crianças mais do que ninguém estão expostas a macaquear os grandes, e, antes de quaisquer outros, os da sua imediata convivência, sobretudo os pais, que lhes aparecem como seres privilegiados em que nada há de condenável.

A mãe é arrebicada? A filha será vaidosa. Falará, agirá, adornar-se-á, não por ideal de beleza conforme com a sua condição, com a sua posição, mas para que dela se tenha uma opinião levantada, há-de passar adiante de todas as suas companheiras, das amigas, pelo corte ou pela singularidade dos seus vestidos, ligará uma importância considerável, exagerada, a ínfimos pormenores do trajar, despertará crises de terrível ciúme quando se julgar desbancada.

O pai é orgulhoso? Procura acaso encarecer as suas qualidades, rebaixar as dos outros, ou não as querer reconhecer? O rapaz há-de ser presunçoso, desdenhoso, gabarola, pretensioso, arrogante, obstinado, dará mostras de incompreensão com relação aos outros.

Os pais são faladores, questionadores, picantes nas suas palavras? Os filhos hão-de ser intemperados em palavras, bulhentos, ciumentos.

Os pais são fingidos? Os filhos arriscam-se a tornarem-se mentirosos. Há indiscrições nas conversas, julgando-se a torto e a direito as ações alheias? Os filhos, já inclinados a julgarem de tudo do alto da sua grandeza, farão apreciações indiscretas, injustas, inoportunas.

Os pais manifestam gosto pelas comodidades, pela riqueza, ambição até de adquirirem por todos os meios? Os filhos arriscam-se a fazerem-se egoístas, apegados ao bem-estar, e se a ocasião se proporcionar, a serem fraudadores.

2º- Mimos. – Certos pais são demasiados duros, não animam. Outros – é o maior número – são bonacheirões, lisonjeiam os filhos, condescendem com todos os seus caprichos.

Amimar os filhos não é querer-lhes bem, não é amá-los por eles mesmos. É antes umretorno dos pais sobre si mesmos. Buscam-se a si nos filhos. Assim não poderão dar firmeza à educação, nem castigar quando for necessário, nem prevenir extravagâncias, nem fazerem-se obedecer. Deixarão de censurar qualquer fantasia.
Mas se não somos bondosos, a criança foge-nos; nas horas difíceis deixará de desabafar, ficaremos privados das suas confidências. Se, pelo contrário, multiplicarmos as nossas atenções, será sempre franca e teremos mãe nela.

Não se trata de faltar à bondade, trata-se de não ser fraco. Se dois criteriosos firmes, longe de perderdes a confiança dos vossos filhos, mais confiança terão eles ainda, porque sois prudentemente fortes. Se eles vêem que nas provas de afeição que lhes dais não vos buscais a vós mesmos, mas unicamente o bem deles, compreenderão que nas vossas atitudes de severidade não há vestígios de capricho, mas só o interesse deles. É precisamente isso que os educa, esse contato com uma alma forte e desprendida.

(Cristo no lar, meditações para pessoas casadas, por Raúl Plus, S.J, tradução de Pe. José Oliveira Dias, S.J. ; 2ª Edição, Livraria Apostolado da Imprensa, 1947, com imprimatur)

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