quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Breve método para conhecer a vontade de Deus


São Francisco de Sales
Tratado do amor de Deus
Livro oitavo, Capítulo XIV


São Basílio diz que a vontade de Deus nos é manifestada por Suas ordens ou mandamentos, e que então nada há que deliberar; porque se deve fazer com simplicidade aquilo que é ordenado; mas que, quanto ao mais, na nossa liberdade está o escolhermos a nosso gosto o que bem nos parecer, embora não se deva fazer tudo o que é lícito, mas só o que é conveniente; e que, enfim, para bem discernir o que é conveniente, deve-se ouvir o conselho do prudente pai espiritual.

Mas, Teótimo advirto-vos de uma tentação aborrecida que múltiplas vezes sobrevém às almas que têm grande desejo de em tudo seguir aquilo que é mas conforme à vontade de Deus; pois em todas, as ocorrências o inimigo as põe em dúvida sobre se é a vontade de Deus que elas façam uma coisa de preferência a outra; como, por exemplo, se é vontade de Deus que elas comam com o amigo ou não comam, que usem roupas cinzentas ou pretas, que jejuem na sexta-feira ou o sábado, que vão à recreação ou que dela se abstenha coisa em que elas consomem muito tempo; e, enquanto se ocupam e embaraçam em querer discernir o que melhor, perdem inutilmente o tempo de fazer vários bens, cuja execução daria mais glória a Deus do que poderia dá-la o discernimento do bom e do melhor em que elas se distraíram.

Não se costuma pesar a moeda miúda, mas some nas moedas de importância. O comércio seria por demais aborrecido e consumiria muito tempo se fosse preciso pesar os soldos, os "liards", os dinheiros e as pitas[1]. Assim não se devem pesar toda sorte de pequeninas ações para saber se elas valem mais do que outras. Há mesmo muita superstição em querer fazer esse exame: porquanto, a que propósito se há de pôr em dificuldade se é melhor ouvir missa numa igreja do que noutra, fiar do que coser, dar esmola a um homem do que a uma mulher? Não é servir bem um amo empregar tanto tempo em considerar o que se deve fazer quanto em fazer o que é necessário. Cumpre medirmos a nossa atenção pela importância daquilo que empreendemos: seria um cuidado desregrado dar-se tanto trabalho para deliberar sobre uma viagem de um dia a fazer, como sobre uma de trezentas ou quatrocentas léguas.

A escolha da vocação, o projeto de algum negócio de longa consequência, de alguma obra de longo fôlego, ou de alguma despesa muito grande, a mudança de residência, a escolha das conversas, e tais coisas semelhantes, merecem que pensemos seriamente sobre o que é mais conforme à vontade divina. Mas nas pequenas ações diárias, em que a própria falta não é nem de consequência nem irreparável, que necessidade há de fazer de atarefado, de atento e de embaraçado em fazer consultas importunas? A que fim me hei de pôr em despesas para saber se Deus gosta mais de que eu reze o rosário ou o ofício de Nossa Senhora, já que não haveria tanta diferença entre um e outro que para isso seja preciso fazer uma grande investigação? que eu vá ao hospital visitar os doentes, de preferência a ir às vésperas, que eu vá ao sermão de preferência a ir a uma Igreja onde há indulgência? Ordinariamente não há numa dessas coisas mais do que noutra nada tão aparentemente notável, que por isso se deva entrar em grande liberação. Deve-se andar com toda boa fé e sem sutileza em tais ocasiões; e, como diz São Basílio, fazer o que bem nos parecer, para não cansarmos o espírito, não perdermos o tempo e não nos põem em perigo de inquietação, escrúpulo e superstição. Ora, eu aqui entendo sempre o caso em que não há grande desproporção entre uma obra e outra, e não se encontra circunstância considerável de uma parte mais do da outra.

Nas próprias coisas de consequência, deve-se ser humilde, e não pensar achar a vontade de Deus à força de exame e de sutileza de raciocínio. Mas, depois de havermos pedido a luz do Espírito Santo, de te termos aplicado a nossa consideração à indagação do Seu plácito, tomado o conselho do nosso diretor e, se for o caso, de outras duas ou três pessoas espirituais, devemo-nos resolver e determinar em nome de Deus, e não devemos depois pôr em dúvida a nossa escolha, mas cultivá-la e sustentá-la devota, tranquila e constantemente. E, embora as dificuldades, tentações e diversidades de sucessos que se encontrem no progresso da execução do nosso desígnio possam suscitar-nos alguma desconfiança de não havermos escolhido bem, devemos todavia permanecer  firmes, e não olhar a tudo isso, considerar que, se houvéssemos feito outra escolha, talvez tivéssemos achado cem vezes pior: além de que não sabemos se Deus quer que sejamos exercitados na consolação ou na tribulação, na paz ou na guerra. Esta resolução santamente tomada, nunca se deve duvidar da santidade da execução: porquanto, se ela não depende de nós, não pode falhar; fazer diversamente é uma prova de grande amor-próprio ou de infância, fraqueza ou parvoíce de espírito.



[1] Pitas, moedinha de cobre, cunhada em Poitiers, latim Pictavum, valendo um quarto de um dinheiro.



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