quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Eu não creio em nada

– Eu não creio em nada, dizia-me duma feita um dêsses doutores da impiedade, com empáfia.

– Como? Vós não credes em nada? repliquei. Então não credes na existência da América, da Oceania…

– Oh! Certamente que sim; queria dizer, não creio em nenhuma coisa sobrenatural.

– Mas, porque credes na existência da América e da Oceania, que nunca vistes?
– Tem graça! Creio porque o afirmam os geógrafos e muitas pessoas que perlustraram essas regiões.

– E se credes na existência de coisas que nunca vistes, só porque o dizem os homens, porque não credes na existência do inferno, do juízo, revelada pela palavra infalível de Deus, confirmada pela razão e proclamada pela voz de todos os povos?

O livre pensador deu de ombros e não soube responder; mas, nem por isso se converteu. Custava-lhe tanto deixar sua vida desregrada e praticar a virtude!

Como são dignos de compaixão êsses libertinos! Pretendem destruir o inferno, negando-lhe a existência; mas, quem nega uma coisa não consegue eliminá-la. Se eu negasse a existência da América ou da África, não conseguiria riscá-las da face do globo, mas subsistiriam, não obstante minha negação. Negai, negai quanto quiserdes a existência do inferno, que apesar disso o inferno continuará a existir e a queimar as suas vítimas, e um dia se abrirá para vós e vos sepultará naquelas chamas, se vos não corrigirdes de vossas desordens. A vossa fanfarrice e a vossa negação estulta não apagarão certamente aqueles ardores sempiternos, ao contrário, servirão para os aumentar e fazer-vos afundar mais naquele abismo. Quanto mais vos obstinardes na infidelidade e na negação do inferno, tanto mais acumulareis pecados e culpas para expiar na eterna prisão.

Uma ocasião, um infeliz, a quem se meteu na cabeça que não havia mais cárcere, nem tribunal, começou a roubar e praticar iniquidades. Avisado várias vezes pelos parentes e amigos, e ameaçado de prisão, replicava sempre que não havia mais cárcere nem tribunal.

Sabeis o que aconteceu? o que já se esperava: dois policiais o prendem; é processado e condenado às galés por tôda a vida.

Eis aí a história de todos os ímpios; abandonam-se aos vícios, acariciam as paixões, cometem pecados e mais pecados, dizendo que tudo acaba com a morte e, no entanto, caem no eterno abismo. E Santa Tereza viu que caíam em grande número, como flócos de neve em dias de inverno!

Monsenhor Ségur conta um fato bastante curioso, acontecido na escola militar de S. Ciro, nos últimos anos da Restauração.

O Padre Rigolot, capelão do estabelecimento, prègava um retiro espiritual aos alunos, que se reuniam por isso tôdas as tardes na capela, antes de subir ao dormitório. Uma das tardes, em que o bom do padre falara do inferno, terminada a função, tomou a lanterna e se retirou para o seu aposento; e quando abria a porta do quarto, percebeu que o chamava alguém que o seguia pela escada. Era um velho capitão de bigode grisalho e de maneiras pouco gentis.

– Desculpe, sr. Padre, lhe falou com ar de zombaria; V. R. fez-nos agora pouco um magnífico discurso sôbre o inferno. Mas se esqueceu de nos dizer se lá nós seremos cozidos, assados ou fritos. Poderia dizer-me?

O capelão, percebendo que se tratava de um zoilo, fitou-o sériamente, e depois enfiando-lhe sob o nariz a lanterna que trazia, respondeu com tôda a calma:

– Haveis de ver, sr. capitão.

Dito isto, fechou a porta; sem poder refrear o riso pela figura ridícula daquele estróina.

Não pensou mais nisso, mas daí por diante notou que o capitão fugia dêle.

Entretanto, veio a revolução de julho e extintas as capelanias militares, o Arcebispo de París nomeou o Padre Rigolot para outro cargo, não menos importante.

Passados quase vinte anos, o venerando sacerdote entretinha-se com os amigos numa tertúlia, quando um velho de bigode, branco, fazendo-se encontradiço, cumprimentou-o e perguntou se era o Padre Rigolot, ex-capelão da escola de S. Ciro. Obtida resposta afirmativa:

– Oh! senhor padre, diz-lhe comovido o velho militar, permita-me que lhe aperte a mão e que exprima o meu reconhecimento; o senhor me salvou.

– Eu?! de que modo?

– Oh! não me conhece mais? Não se lembra do ocorrido naquela noite, que um capitão, instrutor da escola, a propósito de seu discurso sôbre o inferno, lhe fez uma pergunta estúpida e V. R., pondo-lhe a lanterna sob o nariz respondeu: – “Haveis de ver, capitão?”

Aquele capitão sou eu; sabia que desde aquela ocasião suas palavras não me saíram mais da mente, como não me abandonou mais o pensamento que eu devia ir para o inferno. Lutei contra mim mesmo por dez anos; ao cabo dos quais, rendi-me a Deus, confessei-me e agora tornei-me cristão e cristão à militar, isto é, franco, sem respeito humano. A V. R. sou devedor de tanta ventura e folgo muito de poder encontrá-lo para manifestar-lhe o meu reconhecimento.

O Padre Bach, na vida de S. Francisco de Jerônimo, narra a triste sorte duma mulher incrédula que zombava do inferno e dos novíssimos. O fato não deixa nenhuma dúvida, pois foi juridicamente provado no processo de canonização do santo, e atestado com juramento por muitas testemunhas oculares.

No ano de 1707, S. Francisco de Jerônimo prègava, como de costume, nos arrabaldes de Nápoles, falando sôbre o inferno e os terríveis castigos reservados aos pecadores obstinados. Uma mulher insolente, morava na redondeza, aborrecida com aqueles sermões, que lhe acordavam no coração amargos remorsos, procurou molestá-lo com chascos e gritos, desde a janela de sua casa; uma vez, o santo lhe disse: – Ai de ti, filha, se resistes à graça! não passarão oito dias, sem que Deus te castigue.

A desaforada mulher não se perturbou por aquela ameaça e continuou a com suas más intenções. Passaram-se oito dias, e o santo foi prègar de novo perto daquela casa, mas desta vez as janelas estavam fachadas e ninguém o importunava. Os vizinhos que ouviam consternados lhe disseram que Catarina (tal era o nome daquela péssima mulher) tinha morrido de improviso, pouco antes.

– Morreu? disse o servo de Deus; pois bem, agora nos diga de que valeu zombar do inferno; vamos perguntar-lhe.

Os ouvintes sentiram que essas palavras o santo as pronunciara com inspiração, e por isso todos esperaram um milagre. Acompanhado da multidão subiu à sala, convertida em câmara ardente, e após breve oração, descobriu o rosto da morta e:

– Catarina, gritou, diz-nos onde estás!

A esta ordem, a defunta ergue a cabeça, abre os olhos, toma côr o seu rosto, e em atitude de horrível desespêro, profere com voz lúgubre estas palavras:

– No inferno! eu estou no inferno!

Imediatamente cai e volta ao estado de frio cadáver.

Eu estava presente ao fato, afirma uma das testemunhas que depuseram no tribunal apostólico, mas não saberia explicar a impressão que causou em mim e nos circunstantes; ainda hoje, passando perto daquela casa e olhando a tal janela, fico muito impressionado. Quando vejo aquela funesta moradia, parece-me ouvir a lúgubre voz: – No inferno! eu estou no inferno!


Trecho do livro: O Inferno existe, Provas e Exemplos - Pe. André Beltrami, SDB (1945), Cap. V - Págs 12-14.

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