domingo, 29 de setembro de 2013

Dor e Propósito

Discípulo — Padre, é coisa importante sentir a dor dos pecados cometidos?

Mestre — A dor dos pecados é coisa importantíssima, de todo indispensável mesmo, para cada confissão. Sem ela o Sacramento não terá lugar. Assim como o Sacramento do Batismo não se pode realizar sem água, também não é possível o Sacramento da Penitência sem dor...

D. — Então todos aqueles cuja principal preocupação é a procura dos pecados, e que pouco se importam de excitar a dor, não fazem boas confissões?

M. — Fazem todos confissões sacrílegas ou nulas; sacrílegas quando se conhece a própria falta de dor; nula se se ignora o fato. É verdade que a boa vontade de se confessar bem, e na diligência em fazer bem o exame a dor está incluiria; portanto não há motivos para sustos.

D. — Como é que se deve fazer para excitar a dor dos pecados?

M. — Deitemos um olhar para o inferno, merecido com os nossos pecados; contemplemos o Paraíso, perdido, com os nossos pecados. Deitemos um olhar para o crucifixo, onde Jesus agoniza por causa das nossas culpas. Pensemos que Deus é tudo e nós nada; que de uma hora para outra pode abandonar-nos; que muitos, mais moços do que nós, já estão no inferno e que, se nós ainda estamos aqui, é porque Ele usa conosco de misericórdia. Era uma quinta feira santa. Um oficialzinho elegante chegou ao confessionário e, sem mais nada, foi dizendo:

— Padre, desculpe a minha franqueza: sou militar; não vim aqui para me confessar, mas somente para satisfazer o desejo de minha mãe e de minhas irmãs, que me observam do banco. Elas querem que eu comungue na Páscoa, mas eu não creio nisso, até me rio.

— Então o senhor se ri da religião e dos Sacramentos?

—Sim, Padre, eu me rio da religião e dos Sacramentos.

— Ri-se também da verdade eterna, do inferno e do Paraíso?

— Sim senhor, Padre, rio disso também.

— Sendo assim, o senhor mesmo pode compreender que não posso absolvê-lo, nem mandá-lo para a Comunhão.

— Mas eu tenho que comungar para contentar à minha mãe e ás minhas irmãs.

— Bem, façamos então assim: o senhor trate de temporizar com sua mãe e com suas irmãs. Diga-lhes que o Confessor lhe impôs uma penitência antes de Comungar. Enquanto isso, o senhor, cumprirá a penitência que lhe vou dar e voltará aqui.

— Quê penitência vai me dar se não me confessei?

— Quê importa? O senhor, vindo aqui simula uma confissão. Penso que não quer fazer caçoada de mim, portanto fará a penitência: quero que me prometa como bom soldado.

— Seja como quiser: farei a penitência; mas qual?

—Nestas três noites o senhor renunciará o clube e os divertimentos e, assim que se deitar, deverá dizer: Meu Deus, eu creio em Vós, mas me rio da Vossa Religião e dos Vossos Sacramentos. Creio em Vós, mas me rio da morte e do juízo final. Creio... mas me rio do inferno e da eternidade. Depois disso dormirá tranqüilo; fá-lo-á?

— Padre eu lho prometo: palavra de soldado, palavra de rei! Levanta-se e Vai embora. Sábado à noite ei-lo de novo no confessionário ajoelha-se, e:
— Padre, exclama, eu sou o oficial da penitência; eu a cumpri e venho para dizer-lhe que, pensando seriamente, não sinto mais vontade de rir de tudo aquilo: pelo contrário, temo tudo. Tenha a bondade de me ajudar a fazer uma boa confissão.

O efeito desejado estava obtido. O pensamento dos "Novíssimos" tinha conseguido o arrependimento do militar, que, no fundo, ainda conservava a fé, mas uma fé adormecida pela má vida a que se tinha entregue, e da qual, em face de Deus, da morte e da eternidade, se tinha envergonhado.

D. — Padre, de quantas espécies pode ser essa dor?

M. — Pode ser de duas espécies: dor perfeita também chamada contrição, e dor imperfeita, também chamada atrição. Aquele que se arrepende dos pecados só por medo dos castigos nesta e na outra vida, ou seja, movido por amor interessado, tem só atrição, essa dor é moeda legal, mas é cobre. Aquele que pelo contrário, se arrepende porque ofende a Deus, nosso Pai, ou seja, movido por um amor filial, tem a contrição perfeita, que é moeda de ouro.

D. — É importante ter-se a contrição perfeita?

M. — É importantíssimo, porque, aliada ao propósito nos c confessarmos assim que for possível, ela obtém a remissão mesmo antes da confissão: se alguém morresse em tal estado salvar-se-ia.

D. — E pode-se comungar?

M. — Não, para a comunhão, a confissão prévia é indispensável.

D. — Mas, Padre, se depois a gente mudar de propósito e não confessar, esses pecados revivem?

M. — Não, um pecado perdoado não revive mais; mas a pessoa comete uma grave omissão pela qual será sempre responsável.

Portanto, cada vez que por desgraça você cometer um pecado mortal, faça logo o ato de contrição perfeita com o propósito de se confessar o mais breve possível, afim de tranqüilizar a sua consciência.

D. — Padre, é necessário sentir a dor dos pecados?

M. — Não, não é necessário sentir essa dor como se sente dor de cabeça ou de dentes; basta tê-la no coração.

— O quê está fazendo, menino? Perguntou o confessor a um garoto que, enquanto esperava para a confissão dava com a cabeça na parede.

— Oh, Padre, estou tratando de sentir a dor dos meus pecados!

D. — Coitadinho... talvez era ainda inocente!... E o quê é propósito?

M. — É a vontade resoluta de não cometer o pecado e fugir das ocasiões. É uma conseqüência da dor sendo impossível conceber-se uma verdadeira dor dos pecados, sem se estar, ao mesmo tempo resolvido a não mais os cometer.
D. — Como deve ser o propósito?

M. — Deve ser eficaz, ou seja, devemos desligar-nos por completo e a todo o custo de cometê-lo novamente; e isto sem protestos nem rodeios ou intenções pouco honestas.

Um tal confessava que tinha roubado uns feixes de lenha.

— Quantos? perguntou o confessor.

— Padre, eu tirei cinco, mas o senhor pode calcular sete.

— Como! são cinco ou sete?

— Eu explico Padre. Dos sete feixes que encontrei tirei cinco, mas hoje à noite irei buscar os outros dois. Confesso-me antecipadamente; por isso o senhor pode calcular sete.

Uma moça que tinha acabado de se confessar, perguntou depois de receber a absolvição:

— Padre, posso comungar hoje?

— Pode sim, e não só hoje como amanhã e nos dias seguintes.

— Ah, amanhã já não poderei mais porque marquei um encontro no baile hoje á noite e não posso faltar.

— Você falou em baile? Mas você não acabou agora mesmo de prometer a Jesus que não O ofenderia mais e que evitaria as ocasiões?

— Padre, eu prometi para o passado e não para o futuro! Eis aí. A maior parte das vezes promete-se para o passado, isto é, não se promete nada, e assim, a história se repete sempre: confissões e pecados, pecados e confissões. Mas, confessar-se sem se emendar é o caminho certo para a perdição.

D. — De quê modo podemos manter esse propósito?

M. — 1) Não devemos confiar muito nas nossas próprias forças, mas devemos pedir constantemente a Deus o auxílio da sua graça.

2) Devemos impor-nos, a cada recaída, uma penitência que, além de contribuir para a expiação do pecado, servirá também para conservar-nos vigilantes.

3) Devemos voltar à confissão o mais breve e frequentemente possível para enfraquecermos o demônio e sairmos vitoriosos sobre ele no futuro.

Os missionários da África contam que, naquele continente, há um animal pouco maior do que o gato comum; justamente por isso é chamado gato selvagem. Esse animal é continuamente assaltado pelas serpentes que abundam na região; muitas vezes trava

combates com elas, mas sai quase sempre vencedor. É que ele tem o seu segredo: conhece uma erva cujas virtudes contra a mordedura de cobra são extraordinárias. Assim que se sente mordido, corre para se esfregar nessa erva e volta pronto para a luta. Ferido uma, duas, três vezes, recorre sempre ao mesmo remédio e sara sempre. Dessa maneira, continua a lutar até arrancar a cabeça do inimigo. Nós também estamos em luta contínua com a serpente infernal que, por todos os meios e com todos os gêneros de pecados nos tenta e nos impele para o mal. Queremos a vitória? O remédio infalível é a confissão freqüente. O demônio não terá então mais nenhum poder sobre nós.

D. Padre, e os que prometem sempre e nunca mantêm?

M. — São pobres infelizes cujo fim será certamente bem triste, porque com Deus não se brinca!

Havia muito tempo que uma mãe amorosa, que vivia no temor de Deus, exortava o filho, malandro e viciado, a mudar de vida. Ele prometia sempre, mas eram promessas ao vento.

Da ultima vez que a pobre mãe, mais com lágrimas do que com palavras, lhe suplicou que se convertesse o filho disse:
— "Pois bem, estou resolvido a seguir os s
eus conselhos; eu também estou envergonhado e cansado desta minha vida tão má; tenha paciência por mais estes 3 dias de carnaval, e depois farei penitência". O infeliz jovem pensava que dessa maneira podia ajustar contas com Deus, preparando-se, com novos pecados, para se confessar e se converter.

Mas com Deus não se brinca. Passaram-se os três dias ocupados em pagodes e vícios. Na noite da terça-feira ele volta para casa a altas horas da madrugada, cansado do longo baile. Poucos instantes depois, ouvem barulho no seu quarto; entram apressados e acham-no estendido no chão sufocado por uma golfada de sangue. Assim se acabaram os seus projetos de conversão e os seus propósitos falazes. 

O inferno está cheio dessas pessoas que prometem emendar-se sem nunca cumprir a promessa.

D. — E os que dizem: não posso, não posso?!

M. - Esses são ainda mais infelizes: isso é sinal de que já são escravos das mais vergonhosas paixões.

D. — Parece-me que quem deseja ardentemente sempre pode; não é mesmo, Padre?

M. — É verdade, porque Deus nunca nega a sua graça aos que a procuram sinceramente, e porque a potência do nosso querer também é grande. Posso prová-lo com um fato histórico.

O General Cambronne morto como um herói em 1842, durante a batalha de Waterloo, quando ainda era simples soldado, estando embriagado, esbofeteou um capitão.

Julgado pelo conselho de guerra foi condenado à morte.

O Coronel, que lhe conhecia a bravura como soldado, interveio em seu favor e obteve-lhe a graça: porém, chamando-o para uma conversa particular, o fez prometer que nunca mais se embriagaria. Cambronne disse, então:

— Coronel, devo-lhe a vida; o que me pede é pouco, e, para fazer um propósito eficaz juro que nunca mais provarei nem vinho nem licores.
Passaram-se vinte e dois anos; o soldado era agora general, e, tendo acompanhado Napoleão de Canes à Paris, foi convidado para jantar pelo seu Coronel, que já estava aposentado. Aceitou o convite, mas durante: o jantar, não provou vinho. O Coronel que já tinha esquecido o que se passara havia tantos anos, perguntou a razão. Cambronne lembroulhe então a promessa feita há vinte e dois anos e à qual se tinha conservado escrupulosamente fiel.
Oh, se no propósito da confissão imitássemos a fidelidade de Cambronne! E se se cumprem as promessas feitas aos homens, por que não cumprir as que se fazem a Deus?

D. — Então, as confissões e as absolvições sem o propósito firme e eficaz de fugir do pecado e das ocasiões, são nulas?

M. — São nulas porque, mesmo que o Confessor diga cem vezes: "eu te absolvo", Jesus Cristo que lê nos corações dirá cem vezes: "eu te condeno".

D. — Então é certo o provérbio que diz: Confessar-se vale menos do que nada, se a confissão feita não refaz a gente.



CONFESSAI-VOS BEM - Pe. LUIZ CHIAVARINO

Fonte:

Da paz e do zelo em aproveitar


1. Muita paz podíamos gozar, se não nos quiséssemos ocupar com os ditos e fatos alheios que não pertencem ao nosso cuidado. Como pode ficar em paz por muito tempo aquele que se intromete em negócios alheios, que busca relações exteriores, que raras vezes e mal se recolhe interiormente? Bem-aventurados os simples, porque hão de ter muita paz!


2. Por que muitos santos foram tão perfeitos e contemplativos? É que eles procuraram mortificar-se inteiramente em todos os desejos terrenos, e assim puderam, no íntimo de seu coração, unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, porém, nos ocupamos demasiadamente das próprias paixões e cuidados com excesso das coisas transitórias. Raro é vencermos sequer um vício perfeitamente; não nos inflamamos no desejo de progredir cada dia; daí a frieza e tibieza em que ficamos.

3. Se estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos e interiormente desimpedidos, poderíamos criar gosto pelas coisas divinas e algo experimentar das doçuras da celeste contemplação. O que principalmente e mais nos impede é o não estarmos ainda livres das nossas paixões e concupiscências, nem nos esforçamos por trilhar o caminho perfeito dos santos. Basta pequeno contratempo para desalentarmos completamente e voltarmos a procurar consolações humanas.

4. Se nos esforçássemos por ficar firmes no combate, como soldados valentes, por certo veríamos descer sobre nós o socorro de Deus. Pois ele está sempre pronto a auxiliar os combatentes confiados em sua graça: Aquele que nos proporciona ocasiões de peleja para que logremos a vitória. Se fizermos consistir nosso aproveitamento espiritual tão somente nas observâncias exteriores, nossa devoção será de curta duração. Metamos, pois, o machado à raiz, para que, livre das paixões, goze paz nossa alma.

5. Se cada ano extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia; mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto.

6. Custoso é deixar nossos costumes; mais custoso, porém, contrariar a própria vontade. Mas, se não vences obstáculos pequenos e leves, como triunfarás dos maiores? Resiste no princípio à tua inclinação e rompe com o mau costume, para que te não metas pouco a pouco em maiores dificuldades. Oh! Se bem considerasses quanta paz gozarias e quanto prazer darias aos outros, se vivesses bem, de certo cuidarias mais do teu adiantamento espiritual.

A Imitação de Cristo - Tomás de Kempis - Livro 1 - Cap. 11

Fonte:

Como se Devem Evitar as Conversas Supérfluas

Avisos úteis para a vida espiritual...
Cap. 10. Como se devem evitar as conversas supérfluas, 38


Evita, quando puderes, o bulício dos homens, porque muitos nos perturbam os negócios mundanos ainda quando tratados com reta intenção; pois bem depressa somos manchados e cativos da vaidade. Quisera eu ter calado muitas vezes e não ter conversado com os homens. Por que razão, porém, nos atraem falas e conversas, se raras vezes voltamos ao silêncio sem dano da consciência? Gostamos tanto de falar, porque pretendemos, com essas conversações, ser consolados uns pelos outros e desejamos aliviar o coração fatigado por preocupações diversas. E ordinariamente sentimos prazer em falar e pensar, ora nas coisas que muito amamos e desejamos, ora nas que nos contrariam.

Mas, ai! Muitas vezes é em vão e sem proveito, pois essa consolação exterior é muito prejudicial à consolação interior e divina. Cumpre, portanto, vigiar e orar, para que não passe o tempo ociosamente. Se for lícito e oportuno falar, seja de coisas edificantes. O mau costume e o descuido do nosso progresso espiritual concorrem muito para o desenfreamento de nossa língua. Ajudam muito, porém, ao aproveitamento espiritual os devotos colóquios sobre coisas espirituais, mormente quando se associam em Deus pessoas que pensam e sentem do mesmo modo.



Livro: Imitação de Cristo 
Autor: Tomás De Kempis 
Edição: 36ª 
Editora: Vozes


Fonte:
http://sanctidominici.blogspot.com.br

A Virgem Maria converte um jovem de vida desregrada que lhe implorou misericórdia



Esquil, jovem fidalgo, foi estudar em Hildesheim por ordem de seu pai. Mas, em vez de estudar, entregou-se a excessos de devassidão. Depois disso adoeceu seriamente, não lhe restando já esperança alguma de vida. Estando próximo da morte, teve a seguinte visão: Viu-se dentro de um quarto cheio de fogo e julgou que se achava no inferno. Pôde felizmente sair por um vão e refugiar-se num grande palácio. Lá encontrou numa das salas a Santíssima Virgem, que lhe disse: Temerário, como ousas apresentar-te diante de mim? Já e já retira-te daqui e mete-te no fogo que muito bem mereceste! Nisso começa o jovem a implorar a misericórdia de Maria, e pede a algumas pessoas ali presentes que também o recomendem à Mãe de Deus. Elas atenderam-no, mas a Santíssima Virgem respondeu-lhes: Este moço levou uma vida muito desregrada e nunca me honrou com uma Ave-Maria sequer. Mas ele corrigir-se-á, amada Rainha, observaram elas. E o jovem ajuntou logo esta promessa: Sim, eu o prometo; quero corrigir-me e consagrar-me todo a vosso serviço, Senhora. Na mesma hora Maria tornou-se meiga e disse-lhe com brandura: Bem; aceito a tua promessa; escaparás da morte e do inferno
.

Após estas palavras terminou a visão. Voltando a si, Esquil agradeceu à Mãe de Deus e a todos relatou o ocorrido. Levou daí em diante uma vida santa, dedicou sempre especial devoção à Santíssima Virgem, e tornou-se mais tarde arcebispo de Lund, na Suécia, onde converteu muitos para a verdadeira fé. Já velho, renunciou ao arcebispado, entrando para a Ordem dos Cistercienses, em Claraval. Aí morreu na paz do Senhor, após quatro anos de edificante vida. Alguns escritores colocaram-no na lista dos santos daquela Ordem.

Oração

Mãe digníssima de meu Deus e Soberana minha, Maria, vendo-me tão desprezível e carregado de pecados, não devia ter a ousadia de chegar-me a vós e chamar-vos minha Mãe. Não quero, porém, que as minhas misérias me privem da consolação e da confiança que sinto, dando-vos este doce nome. Verdade é que mereço me rejeites, mas vos peço considereis o que fez e sofreu por mim o vosso Filho Jesus. Depois rejeitai-me, se o podeis. Sou miserável pecador, mais do que os outros ultrajei a majestade divina.

Ai! o mal está feito: a vós que o podeis remediar imploro agora: Vinde em meu socorro, ó minha Mãe. Não me alegueis que não vos é possível ajudar-me, porque sei que sois onipotente e do vosso Deus conseguis tudo quanto desejais. Se me respondeis que não quereis socorrer-me, dizei-me ao menos a quem me devo dirigir para ser consolado no excesso de minha angústia. Apadrinhando-me com S. Anselmo, ouso dizer a vós e a vosso divino Filho: Ou apiedai-vos de mim, dulcíssimo Redentor meu, perdoando-me, e vós, também, ó minha Mãe, intercedendo em meu favor; ou, mostrai-me a quem devo recorrer, que seja mais poderoso do que vós, e em quem eu possa confiar mais. Mas não; nem na terra nem no céu posso achar quem tenha dos miseráveis mais compaixão que vós, ou quem melhor passa ajudar-me. Vós, Jesus, sois o meu Pai; e vós, Maria, sois a minha Mãe. Vós amais até aos mais miseráveis e ides à procura deles para salvá-los. Eu sou um réu do inferno, o mais indigno de todos. Mas não é necessário ir à minha procura, nem eu pretendo que o façais. Apresento-me espontaneamente a vós, com esperança certa de que não me haveis de desamparar. Aqui estou aos vossos pés, meu Jesus, perdoai-me. Maria, minha Mãe, socorrei-me.

Fonte: Livro Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório

Fonte:

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Para os membros de Jesus Cristo!

Sois membros de Jesus Cristo (64). Que honra! Mas quanta  necessidade de sofrer por causa disto! A cabeça está coroada de espinhos e os membros estariam coroados de rosas? A cabeça esta escarnecida e coberta de lama no caminho do Cálvário, e os membros estariam no trono, cobertos de perfumes?

A cabeça não tem um travesseiro para repousar e os membros estariam delicadamente deitados entre plumas e arminho? Seria monstruosidade inaudita. Não, não vos enganeis; estes cristãos que vedes de todos os lados, enfeitados na moda, maravilhosamente delicados, excessivamente educados e circunspectos, não são verdadeiros discípulos nem verdadeiros membros de Jesus Cristo Crucificado; faríeis injúria a essa cabeça coroada de espinhos e à verdade do Evangelho se acreditássemos o contrário. Ah! meu Deus! quantos fantasmas de cristãos se consideram membros do Salvador e são meus mais traiçoeiros perseguidores, porque, enquanto fazem com a mão o sinal da cruz, são, de coração, seus inimigos!

Se sois conduzidos pelo mesmo espírito, se viveis da mesma vida que Jesus Cristo, vosso Chefe coberto de espinhos, não espereis senão espinhos, chicotadas, pregos, - numa palavra , cruz - porque é necessário que o discípulo seja tratado como o Mestre e o membro como a cabeça. E se o Chefe vos apresentar, como a Santa Catarina de Sena, uma cora de espinhos e outra de rosas, escolhei com ela a de espinhos, sem hesitar, e ponde-a na cabeça, para vos assemelhar em Cristo.


Carta Circular aos Amigos da Cruz

Fonte:

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A mulher forte


Mulierem fortem quis inveniet? Procul et de ultimis finíbus pretium ejus. Confidit in ea cor viri sui, et spoliis non indigebit: Reddet ei bonum et non malum, omnibus diebus vitae suae.

Quem encontrará a mulher forte? Ela é mais preciosa que as pérolas que vêem das extremidades do mundo. O coração do seu marido põe nela inteira confiança e não terá necessidade de riquezas estranhas. Ela dar-lhe-á o bem e não o mal durante os dias da sua vida. (Prov., XXXI, 10-12)

Senhoras.

“Qualquer escrito divinamente inspirado, é útil para instruir e para ensinar, a fim de que nos façamos perfeitos, e próprios para todas as boas ações.” (II. TIM. III, 16-17). A Sagrada Escritura, dizem os Santos Padres, é como um vasto prado, esmaltado de flores, onde as plantas mais formosas, mais variadas, de mais admirável matiz, crescem e se desenvolvem para agrado da vista, preparando para os dias do outono, saborosíssimos frutos. 

Com efeito, nada há mais profundo que o ensino das Divinas Escrituras, nada mais belo, mais simples, e, ao mesmo tempo, mais gracioso. As palavras dos livros santos têm um sabor particular, uma luz que lhes é própria, uma claridade e um calor, que penetram de certo modo, que atraem o coração por um movimento, tão doce quanto enérgico. Nunca as obras dos homens produziram resultado tão maravilhoso. Uma única palavra da Bíblia converte-se em semente que produz centuplicados frutos e desenvolve na alma uma farta seara de virtudes, quando encontra o terreno bem preparado.

Vede esse grãozinho que a brisa suspende no ar: se o examinardes de perto, achá-lo-eis munido de um aparelho, alternativamente sólido e delicado, semelhante a umas asas.

Com ele ondula ligeira e graciosamente! Segue à mercê da Providência, cujo olho maternal o acompanha sempre; e quando lhe chega a hora de germinar, dir-se-ia que uma mimosa e previdente mão o abate sobre um fragmento de terra. Cai, penetra-a, desenvolve-se, cresce e carrega-se de numerosos e fecundos frutos. Assim vão as palavras da Escritura Sagrada: graça à predicação evangélica, o ar está cheio desses germens divinos, e as sementes aladas volteiam por toda a parte; e quando uma alma está preparada, o sopro da graça leva-lhe um destes maravilhosos átomos, que vêm não se sabe de onde, e que pode produzir com o tempo uma floresta de alentadas árvores: - Et terra gignet germen suum, et pomis arbores replebuntur. (Levit. XXVI)

Eu já por várias vezes, senhoras, nas nossas conferências mensais, tive ocasião de apresentar às vossas meditações algumas frases da Bíblia, sobre os vossos principais deveres, e muito feliz me julgo por fazer-vos a justiça de crer que a semente divina caiu sempre em terras excelentes, o que não é, de certo, a menor consolação, nem a menor recompensa do vosso pastor. Havia muito tempo que eu alimentava a idéia de comentar um admirável capítulo dos Provérbios, sobre a mulher forte; parecia-me, até, ter antecipadamente visto nele numerosas e interessantes conclusões para a prática da vossa vida, porque a Bíblia que fala muitas vezes da mulher e dos deveres que lhe cumprem, parece ter resumido, em tal capítulo, a substancia do seu ensino.

Começaremos, pois, agora, e prosseguiremos sucessivamente, a par e passo dos desenvolvimentos que se apresentarão ao meu espírito.

***

Quem encontrará a mulher forte? - Mulierem fortem quis inveniet? O Senhor estabelece as suas obras duas a duas, diz a Sagrada Escritura, e o contraste é uma lei da criação: Intuere in omnia opera Altimissi: duo et duo et unam contra unum (Eccl. XXXIII, 15).

Este contraste é frisantíssimo na criação do homem e da mulher, e na distribuição das suas qualidades diferentes. Ao homem, d'um modo mais especial, conferiu a inteligência, o conselho e a força; a mulher, a inteligência do coração, a flexibilidade. É certo que as riquezas d'uma destas duas maravilhosas criaturas não são completamente recusadas à outra: designo somente as qualidades que, segundo as leis ordinárias, dominam n'uma mistura, em que os dons são continuamente variáveis.

Assim, a força não é geralmente tida como caráter próprio e predominante da mulher, o que, por sem dúvida, não é afirmar que a mulher não possa ser forte e corajosa, nem tão pouco que o homem em muitas circunstâncias não seja mais fraco que a mulher. Trata-se unicamente do que mais habitualmente se apresenta, do que resulta da constituição primitiva, dos dons especiais concedidos a mulher e da sua missão neste mundo.

Diremos ainda que, ao lado de Cada uma das nossas boas qualidades, se acha um defeito posto, e que em conseqüência das enfermidades da natureza e das misérias do pecado, a flexibilidade de caráter, e agilidade de constituição facilmente degeneram em fraqueza e inconstância. Foi isto o que fez dizer a São Tomás que as imperfeições do temperamento entram por muito na fraqueza censurada às mulheres –propter imperfectionem corporalis naturae. (Eth. I.VII, liç. 5.) Também o sábio responde ao pensamento dos séculos e ao julgamento da experiência, quando exclama: - Quem encontrará a mulher forte?

Talvez que a resposta fosse mais fácil se se perguntasse: Quem encontrará a mulher volúvel, inconstante, sucessivamente ardente e fria? Quem encontrará esses caracteres entusiastas, que passam com extrema rapidez duma e outra convicção, cheios de indolência e inconsistência, e semelhantes aos seres gelatinosos, que se decompõem sobre a área, na praia, junto ao mar? Quem encontrará as naturezas móveis como o vento, que mudam de opinião conforme as variações do tempo, oi os caprichos da multidão insensata?

A tais interrogações seriam imediatamente as respostas e numerosas as aplicações.
Quem encontrará a mulher forte? Essa mulher que sabe beber n'uma quotidiana coragem e energia necessária para fazer face a todas as dificuldades da sua posição, aos enfados diários, as preocupações de todas as horas e as contrariedades incessantes? A mulher forte que resiste aos numerosíssimos embates da vida, as tristezas da família, aos atritos da vida interna e a todos os íntimos pesares, que, semelhantes às legiões de insetos do outono, de contínuo cercam o coração da mulher?

A mulher forte, que preside com imperturbável sabedoria aos trabalhos da sua casa, as minudências da vida do lar, aos cuidados dos filhos, a vigilância dos criados, e a ordenança dessa multidão de pequenos serviços, que, na família, se sucedem tão rapidamente como as nuvens no céu? Quem encontrará a mulher forte, mais forte que a desgraça, que os enlaces da fortuna, que as calúnias, que a maldade humana, e que, após a passagem de todas as ondas, permanece como uma coluna do farol, em pleno mar, para iluminar e fortalecer os pobres náufragos? Mulierem fortem quis inveniet?

Mais tarde, na explicação dos versículos seguintes, teremos ocasião, senhoras, de voltar mais minuciosamente a este importante assunto. Limitemo-nos, hoje, a algumas rápidas reflexões. A razão, a firmeza de caráter e um conjunto de qualidades naturais, podem contribuir muitíssimo para edificar esse temperamento moral, essa natureza perfeita que a escritura apelida de mulher forte; e o que admiro em todos os Santos Padres da Igreja é a maravilhosa arte com a qual sabiam cultivar o solo da natureza, explorando-lhe com divina habilidade as menores riquezas, para lhe lançarem a sementeira do Evangelho e a regarem com a graça de Jesus Cristo. Mas só a religião poderá dar ao vosso caráter a fixidez, a superioridade de energia e a perseverança que coroam o uso das nossas mais esplêndidas faculdades. Fora de Deus e da sua assistência sobrenatural, a natureza é muito fraca e demasiado miserável para frutificar e, sobretudo amadurecer o fruto da virtude, essa exquista produção duma árvore por toda a parte sob o nome de mulher forte: Mulierem fortem quis inveniet?

Sede verdadeiras cristãs, sede profundas e sinceramente piedosas, fazei de Deus o alimento habitual de vossas vidas, e só então vos podereis aproximar do ideal da força e do vigor, de que as heroínas cristãs nos deram sobejos exemplos, e que faziam exclamar os filósofos pagãos: - Que admiráveis mulheres não são as cristãs! Papae! Quales mulieres apud christianos sunt! (Chrysost. t.I)

Á força de provar Deus, de O saborear e de constituir como amigo e confidente de vossos pesares e alegrias, indentificar-vos-ei com Ele, pois esse contato superior será o cimento invisível dos vossos pensamentos, dos vossos desejos, das vossas resoluções e sentimentos. As pedras da vossa vida, isto é, as vossas ações, serão conjuntamente unidas e consolidadas, como nos edifícios do povo romano, de que tantas vezes reza e história e que afrontaram a injúria das idades, porque um cimento tão duro como o bronze as converteu em monumentos imperecíveis. Foi assim que se formaram todas as mulheres cristãs que deram tão admiráveis exemplos a posteridade; foi em tal escola que beberam o seu heroísmo as virgens e as mulheres mártires, as Inezes, as Perpétuas, as Apolonias; foi nessas escolas que outras mulheres, cuja força se desenvolveu numa esfera menos brilhante, tomaram a energia que sofre o martírio lentamente, o martírio da vida diária, o martírio em que a natureza se imola e arde sobre o altar do dever, imolação sublime de que santo Ambrósio dizia: -"Que desconhecido número de mártires de Cristo, na secreta obscuridade da vida quotidiana!" e São Gregório o Grande: - " Se conservamos a verdadeira paciência no meio dos pesares da existência somos mártires, sem necessidade de algozes e cutelos!".

É ainda ali, e em conseqüência d'uma infiltração divina, que se exercem e crescem a paciência cheia de doçura e o espantoso vigor dessas virgens consagradas a Deus, nas escolas dos pobres, nos orfanatos, nos hospitais e nas visitas aos desgraçados de toda a espécie. Nada menos é preciso do que a força que criava os mártires, para multiplicar todos os dias semelhantes prodígios. No cristianismo não deve, pois, ser tão difícil a esta interrogação: - Quem encontrará a mulher forte? O sangue de Cristo fez a sementeira e ela germinou por toda a parte. Possa a graça multiplicar-lhe os frutos na nossa Associação! E se houver embaraços em encontrar uma solução às palavras da Bíblia, que facilmente se possa vir procurá-la entre vós, e entre vós se encontrem sempre os exemplos duma rara virtude: - Mulierem fortem quis inveniet? Não foi a uma mulher cristã que São Crisóstomo dirigiu este magnífico elogio? – “Vós possuis uma ciência superior a todas as tempestades; tendes a energia dum espírito superior, que é mais poderoso que numeráveis exércitos, e mais seguro que as altas muralhas e elevadas torres.” (Epist. 6. Olymp.)

Dificilmente poderemos acreditar que a raça de caracteres tão belos se extingue entre as mulheres cristãs. A Sagrada Escritura ajunta, que a mulher forte é mais preciosa que as pérolas que vêm das extremidades do mundo. - “Nada é melhor que uma excelente mulher, diz São Gregório Nazianzo, e nada pior do que uma mulher má." (Orat. In funere patris)

A mulher excelente é um preciosíssimo tesouro para a sua casa; é a vida do lar, a luz com os seus mil reflexos graciosos, a alma que tudo penetra, e em toda a parte deixa vestígios dos seus contatos deliciosos. O Espírito Santo tratando este assunto, não receia empregar um termo de comparação, que ordinariamente é o reservado para descrever a ação benéfica e misericordiosa da Divindade: - "Assim como o sol derrama das alturas a luz e o calor e parece vivificar a natureza inteira, assim o rosto d'uma mulher virtuosa é o ornamento da sua casa." E como se temesse não dizer o bastante continua o seu progressivo elogio, e compara a fisionomia dessa mulher à luz brilhante que cintilava no candelabro d'ouro do templo de Jerusalém : - “Sicut sol oriens mundo in altissimis Dei, sic mulieris bonae species in ornamentus domus ejus: lucerna splendens super candelabrun sanctum.” (Eccl. XXVI, 21-22)

Bem vedes, senhoras, que a Sagrada Escrituras tem palavras severas a respeito das mulheres, ela as redime com usura, prodigalizando louvores as que pelas virtudes e eminentes qualidades fazem glória do vosso sexo. Como ordinariamente nada há de medíocre na vossa natureza, entrai para o número das mulheres excelentes, a fim de que se possa dizer de vós, com inteira verdade, que valeis mais do que as pérolas compradas por alto preço nos países longínquos, e para que, nem mesmo de leve, se vos possa aplicar a outra frase dos livros santos: “A malícia da mulher má encerra e excede todas as outras malícias". (Id. XXV)
“O coração de seu marido, continua o sábio, põe nela inteira confiança, e não terá necessidade de riquezas estranhas.” A confiança, senhoras, é a alma da vida, a ventura da existência, o encanto das relações e o lago dos corações. A confiança é tudo na vida.

Onde não há confiança existe a morte, e alguma coisa pior ainda do que ela, que é uma existência que não tem os seus elementos e cuja respiração é continuamente opressa. Se eu tivesse de pregar a vossos maridos, dir-lhe-ia: - Fazei por merecer a confiança de vossas esposas, porque a íntima confiança do coração é uma coisa que se não dá, nem se impõe, mas que é necessário conquistar pela virtude. De tão elevadas coisas depende a confiança, que Deus não a quis pôr à livre disposição do homem, e eu devo agraderce- Lh’o, porque Ele não podia proteger mais vitoriosamente o mais nobre patrimônio da humanidade: - o respeito das grandes e das belas coisas. Eu perguntaria ainda a vossos esposos: - Quando perdeis o respeito e a confiança de vossas mulheres, não sois vós os que, principalmente, mereceis a acusação?

Mas é a vós, senhoras, que me dirijo, a vós que eu intento fazer boas, excelentes, perfeitas, quaisquer que possam ser os defeitos que vos rodeiam. Merecei sempre a confiança de vossos maridos, e merecê-la-eis infalivelmente por uma vida exemplar, por uma doce virtude, paciente, constantemente invariável, mesmo em meio de tudo quanto possa fervir-vos. Um homem pode ter grandes defeitos, vícios graves; pode ter as suas horas de irritação, em que tratará a sua companheira com termos tão duros quão injustos. Não importa: se a mulher for o que deve ser, respeitá-la-á, apesar de tudo, porá nela inteira confiança, e a despeito das palavras violentas, nas quais, muitas vezes, a paixão finge crer, quando a cólera as profere, o coração permanecerá fiel, o coração curvasse-a perante a virtude, o coração terá confiança, porque um outro privilégio da verdade é que, não é permitido ao homem desprezar muito tempo e seriamente uma virtude que nada abala, e que persiste no meio de duríssimas experiências.

Mas quando mais feliz não é o lar onde o coração dos dois esposos é atraído por uma confiança recíproca, onde existe a fusão das almas, onde elas se inclinam naturalmente uma para a outra, como dois vasos, um dos quais encerra o licor necessário ao outro! As iguais uniões são uma das mais preciosas bênçãos do céu; são a riqueza e a felicidade da existência, como lhe chama São Crisóstomo, são o paraíso na terra; são depois das alegrias celestes e dos júbilos de fé, neste exílio da terra, o antegosto de melhor da vida, de vida em que tudo quanto o coração pôde sonhar será o objeto da nossa íntima posse: - o respeito, a confiança, o amor puro e a eternidade.

O marido nesta vida de confiança mútua, derrama na alma da mulher a inteligência, a luz, o vigor e o conselho, pelo seu lado, entretece para o esposo uma coroa de flores graciosas; ela dá-lhe, como árvore fecunda, a frescura e os frutos da alma afetuosa, recompensa-o das fadigas da vida, bebe-lhe as lágrimas e infiltra-lhe nas veias um óleo de alegria e de felicidade. “A mulher forte, diz o Espírito Santo, é o jubilo de seu esposo, porque lhe fará viver em paz todos os anos da existência.” (Eccl. XXXVI, 2) “Introduzir-lhe-á o vigor nos ossos - impinguabit ossa illius.” (Id. XXV, 16), Ditoso o homem que possui uma companheira assim! Não terá necessidade de riqueza estranhas: spollis non indigebit. Terá no lar o tesouro do seu coração, e não lhe produzirá atrativos tudo quanto for, além disto, tudo quanto for exterior. A graça, a virtude, a afeição da esposa, serão um laço preparado pela Providência para conservá-lo na linha do dever. Poderia, dizer-se ainda, tomando as expressões em outro sentido, que o marido não terá necessidade de riquezas estranhas, porque a mulher, como mais tarde a explicaremos, se tornará pelos cuidados e atenção, a sua previdência e a sua economia, uma fonte de riquezas no santuário da família, que o despirá da necessidade de recorrer a esses meios de fortuna, cuja indústria fraudulosa, unida à agiotagem, ocorrem a todas as despesas: et spollis non indigebit.

“A mulher forte dará a seu marido o bem e não o mal, durante os dias da sua vida: reddet ei bonum et non malum, omnibus diebus vitae suae.”

Nobre confiança que a Providência concede à mulher! Fazei constantemente o bem e nunca o mal! Fazer o bem, sobretudo a seu marido, porque se identifica com ele; fazer o bem em todas as circunstâncias, e por toda a espécie de meios, pelas palavras, pelas ações, pelos conselhos e mesmo pelo silêncio! Fazer o bem prevenindo em embutes e os pesares que podem ferir o homem, e trabalhando para os desviar! Fazer o bem quando ele é feliz, gozando-o conjuntamente com ele, partilhando-lhe a ventura; fazer o bem, sobretudo quando é desgraçado e mártir, compartilhando das penas, aliviando-as pelas mil delicadas atenções que tão engenhosamente sabe encontrar a mulher quando tem boa vontade! Fazer sempre o bem e nunca o mal: reddet ei bonum et non malum. Não! nunca o mal! E insisto sobre esse ponto, porque sei que a mulher tem muitíssimos meios para praticar quando quer; porque sei que ela tem imensos recursos para se vingar, alastrando de espinhos todas as vias, quando tem o coração ulcerado! Eu peço-vos, senhoras, que não useis semelhantes processos, ainda mesmo que vossos maridos sejam coléricos, vingativos e egoístas, ainda mesmo que sintais o coração ferido no que ele tem de mais íntimo: Peço- vo-lo em nome de Deus, dos vossos mais caros interesses, da vossa família, e do vosso sangue! Mas eu engano-me; tendes, é verdade, um excelente meio de vingança: - fazendo o bem, opondo um ato de abnegação e de renunciamento a cada ato de egoísmo; a cada palavra áspera uma palavra meiga, ou pelo menos o silêncio, não o silêncio provocador, mas o do amor e da paciência, e no dia seguinte, ou na própria noite, como continuação de tão nobre vingança, dai mais verdade a vossa afeição, mais atenção e mais engenho à vossa ternura! Ah se vós soubésseis vingar-vos assim, que de vitórias não alcançaríeis! Que lutas magnânimas! Que triunfos completos e pacíficos!

Foi assim que Santa Mônica soube combater seu marido, que era violento, arrebatado e entregue a desordens doloríssimas para um coração de esposa. Ela evitava discussões que irritariam ainda chagas abertas e esperava o dia da misericórdia divina. Opunha a todos os arrebatamentos a seriedade e o silêncio somente, e quando julgava conveniente dar-lhe conta do seu procedimento, esperava que ele se acalmasse. Foi isto, continua Santo Agostinho, o que fez com que ela ganhasse a admiração e o respeitoso amor de seu marido: reverenter amabilem atque mirabilem viro (Confess., IX, c.9), e que preparou a conversão daquele que ela havia suportado com tanta paciência. A quantas mulheres vinham queixar-se-lhes das discussões internas respondia ela acusando-lhes as línguas e dando-lhes conselhos, com modos de amável gracejo. E quando estas mulheres, conhecendo o violento amor do pai de Santo Agostinho, não podiam admirar-se muito por não terem nunca ouvido dizer que ele tivesse batido em sua esposa, ou que a sua perfeita harmonia houvesse sofrido um único dia de interrupção, perguntavam a Santa Mônica o motivo de tal coisa e ele ensinava-lhes o seu modo de proceder. As que o ensaiavam felicitavam-se, as que o abandonavam continuavam a viver numa dura escravidão. A própria avó da santa havia-se deixado prevenir contra ela por pérfidas insinuações, mas desarmada por uma paciência infatigável, por um sofrimento cheio de respeito e de doçura, caiu em si e denunciou o seu filho às línguas viperinas que perturbavam a paz no lar, e dali em diante viveram juntas e no encanto da mais afetuosa benevolência: Nullaque Jam audente, memorabili inter se benevolentiae suavitate virxerunt.(Confess., 1. XI, c.9.)

Imitai senhoras, este esplêndido modelo: será a melhor resposta a muitas objeções, o meio mais seguro de evitar numerosos perigos e de fazer desaparecer uma grande parte de obstáculos que se opõem a paz das famílias. Imitai esta santa alma, de que Santo Agostinho dizia, que ainda entre os dissentimentos e as animosidades, intervinha somente para pacificar, e a qual, muitas vezes, confidente de propósitos cheios de fel e azedume, não dava as pessoas interessadas senão as palavras que podiam servir para as aproximar uma das outras: Nisi quod ad eos reconciliandos valeret.

Terminemos este entretenimento com as últimas palavras do versículo: Ela lhe dará o bem e não o mal todos os dias de sua vida! Omnibus diebus vitae suae! Sim, todos os dias da sua existência. Quando o marido é novo, elegante, e conserva os traços de alguns encantos da mocidade, é talvez fácil fazer-lhe bem. Mas chegam mais tarde as rugas da velhice; as enfermidades com o seu cortejo triste batem à porta; o caráter torna-se algumas vezes sombrio, difícil e suscetível em razão da fraqueza. É este o momento da experiência para a verdadeira dedicação; é então que se torna preciso uma duplicação de cuidados, de atenção, de serviços e, sobretudo, de cordial afeição.

Diz-se que o vinho é o leite dos velhos: esta frase é ainda mais verdadeira para o vinho dos afetos. Deveis ter no coração algumas gotas desse licor; deveis tê-lo até em abundância para o pouco que conservais o da juventude e o da virilidade. Ministrai a vosso marido, diariamente, uma taça dele, tão cheia que desborde, a vosso marido que já sucumbe, e em cuja fronte há já os traços dos últimos dias do outono e o selo dos primeiros do inverno. Dai vinho aos que tem coração triste, diz o Espírito Santo:Date vinum his qui amaro sunt animo. (Prov. XXXI, 6) E o melhor líquido, o que mais aquece o sangue da alma, quando ele pudesse ser gelado ao sopro da indiferença, é o vinho da afeição.

A natureza, senhoras, desfaleceria muitas vezes nesta penosa tarefa: mas é a mulheres cristãs que eu me dirijo para lhes dizer que a piedade acabará por aliviar o que nem sempre seria agradável a pobre humanidade, n'uma vida de sacrifícios.
Só a religião pode formar as mulheres verdadeiramente fortes em todas as circunstâncias da vida, as mulheres verdadeiramente superiores, que dominam os acidentes, as desgraças da existência, as repugnâncias da natureza, os defeitos do caráter e os atritos contínuos em que a alma é como que triturada no meio de pesadas pedras, ou, o que não é menos doloroso, lacerada entre mil afiados espinhos. Só uma piedade profunda e séria poderá desenvolver, entre as mulheres, o temperamento moral que resiste às dificuldades, e torná-las semelhantes às aves, para se elevarem acima das nuvens e das tempestades, e melhor cumprirem os seus deveres, na severidade d'uma paz inteiramente celeste. Mas para ser semelhante à ave é necessário ter asas, e Deus só pode das à alma as asas divinas, tão sólidas como leves, com as quais sobe e desce, como para disputar o prêmio da força e da agilidade dos príncipes do ar. Segundo a comparação do Profeta, qui in avibus coeli ludunt (Baruch III, 17). A força consiste,muitas vezes, no emprego dessas asas da alma, sobretudo, quando são animadas por um espírito da inteligência: A spiritus in alis earum (Zach.V,9).

Possa o Senhor dar-vos duas como a mulher de que reza a Sagrada Escrituras, pois não vos serão inúteis para cumprirdes com energia e perseverança a vossa missão de mulheres fortes: Datae sunt muliers alae duae (Apoc. XII, 14).

Fonte: Mulher Forte - Monsenhor Landriot Arcebispo de Reims – Primeira Conferência feita às senhoras da Associação de Caridade

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