segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Pérola Preciosa - 6.º Mistério

A PÉROLA PRECIOSA

Breves pensamentos sobre o Rosário meditado, para sacerdotes.
pelo
Padre Wendelin Meyer, O.F.M.
Tradução portuguesa por
Alberto Maria Kolb



6.º MISTÉRIO
O GETSÊMANI DO PADRE!

O discípulo não é mais que o Mestre; as horas amargas do Jardim das Oliveiras de Nosso Senhor Jesus Cristo estão preparadas também para o Alter Christus. O que as velhas e veneráveis oliveiras viram e ouviram, isto contem­plam — apesar de ser somente um fraco eixo, uma pequenina imagem ou cópia da crudelíssima noite do Jardim das Oliveiras— isto também contemplam e escutam os quartos solitários, o confessionário, os caminhos daqueles sacerdotes que tomam a sério a sua santa e sublime voca­ção!

O que nos anunciam as páginas dos Evan­gelistas tão singela e simplesmente, isto mesmo nos deixa lançar um olhar bem profundo na ver­dadeira vida sacerdotal. Na meditação do 1.º Mistério veremos o Getsêmani do sacerdote. Contemplaremos e aprofundaremos não só os sofrimentos e a oração do Mestre, mas tam­bém do discípulo.

O Mestre sofreu: ao ver o pecado; — prevendo as dores físicas; — abandonado; — orando; —confortado por um anjo.

  • Ao ver o pecado.

O olhar de Deus vê claramente; nada Lhe pode escapar ou fugir. Penetra até ao fundo dos mares e chega até à essência das coisas. Toda a hediondez de um pecado se desdobra diante d’Ele. E esta revoltante fealdade é somente a síntese da ingratidão, das faltas de fidelidade, de consciência e de amor. Quem jamais poderá perscrutar a profundidade desta palavra?
Santo Agostinho disto não foi capaz; ele escreveu simplesmente: «Peccatum est mysterium». Para Deus, porém, não há mistério; co­mo Ele é a própria clareza, assim Seus olhos perscrutam tudo.

E o Filho do Homem viu a profundeza do pecado; medo e pavor O assaltaram: «coepit pavere». (S. Marc. 14-33), «coepit contristari et moestus esse». (S. Math. 26-37). Como um fantasma olhou o pecado para Ele, sim, o pecado, este assassino das almas e mortal ini­migo de Deus. Jesus viu todo o mundo tomado e dominado pelo pecado; e então suspirava e sofria, pois Ele havia de carregar e expiar este enorme peso que é a multidão de todos os cri­mes do mundo. Isso pesava sobre Ele como o peso de um alto monte.

Sacerdotes que totalmente vivem segundo o espírito de sua vocação, assemelham-se ao Redentor. Eles penetram muita vez, juntamente com Jesus, até às negras profundezas da alma humana, aplicam seus olhares para entrar até o âmago do pecado. Neles, então, pouco a pouco cresce uma delicadeza juntamente com uma con­sciência puríssima para tudo que diz respeito ao pecado, mesmo o mais leve, tomando pro­porções de tal modo, que eles sofrem e sentem tudo que Jesus sofre e sente. Esta compaixão invade todo seu interior. — Cristo, o Cristo vertendo sangue, vive neles e eles n’Ele. Oh, como é sublime, como é divina e ao mesmo tempo cheia de vigor e força esta vida da alma, esta vida interior!

  • Prevendo as dores físicas.

É uma coisa enternecedora assistir a um espetáculo da Sagrada Paixão. A alma sente profundamente, quando se desenrolam na tribuna as cenas sangrentas, apresentadas com majestosa religiosidade, sentidas intimamente pelo re­presentante sem frivolidade nem hipocrisia. Co­mo, porém, saltaria o coração do espectador, como correria o sangue apressado pelas veias, se ele próprio houvesse assim de findar sua vida, se a representação se tornasse realidade... Isso já não seria mais espetáculo. Nestas condições se achava Jesus, pois Ele contemplou o primeiro drama da paixão. Cada circunstâncias Lhe saltava aos olhos: a grossura e o comprimento dos pregos, a pesada cruz, a flagelação, os longos espinhos; tudo Ele viu e também a Si mesmo no meio do povo. Tudo isso pesava-Lhe muito tremor e medo O assaltaram.

O sangue então brotava abundante de Seus poros. Oh, pobre Redentor meu, como tendes padecido!...

É esta também a minha sorte? Devo Vos imitar também nisso, sou Vosso representante também nestes sofrimentos?

Sim, também nisso. Porque queres tu fruir de uma vida cômoda, Meu filho? Por acaso salvam-se deste modo as almas imortais? A tua vida será sofrimento e dor, pois o amor assim o exige. E este amor te provocará a sacrificares e imolares as tuas forças em Meu serviço. «In labore et aerumna, in vigiliis multis, in fame et siti, in jejuniis multis, in frigore et nuditate; praeter illa, quae extrinsecus sunt, instantia mea quotidiana.» (2-Corinth. 11-27).

  • Abandonado. 

As dores no homem muita vez não suscitam compaixão. Esmolando passa a tristeza pelo mundo, a lágrima estampada nos olhos. Em súplica — ela levanta as mãos, roga e geme até comover o coração, mas muitos têm ouvidos e não ouvem, olhos e não vêem. Houve um dia em que esta mesma tristeza, esta mesma dor pas­sou pelo Jardim das Oliveiras, pelo Getsêmani personificada no Divino Redentor. Ele pro­curou consolo e não o achou, pois encontrou os Seus discípulos dormindo. Três vezes fez o mesmo caminho, três vezes voltou desolado e triste; es­tava abandonado. Até o céu parecia fechado. Ser completamente só, o Divino Mestre passou esta terrível hora.

Cenas deste gênero muitos sacerdotes tam­bém conhecem. O povo vê e presencia a sua vida de sacrifício sem entender nem ligar importância, paga até os seus esforços e trabalhos com ingratidões. Até o caminho para o altar, para a celebração da Santa Missa, o pode deixar árido, seco, sem consolação.

Parece nestes momentos que Jesus retém: junto de Si a chave do tabernáculo para impedir ao sacerdote usufruir seu tão precioso conteúdo. Os bons e dedicados amigos também se retiram, os parentes estão longe ou já morreram, e o sa­cerdote está só, sem ninguém. Tudo isso ele sabe suportar, mas apesar disso o sente e sente íntima e profundamente.

Isso são cópias do primeiro quadro daquela noite negra que Jesus passou no Jardim de Getsêmani, e tudo isso redunda abundantemente em bem e bênção da Santa Madre Igreja.

  • Orando.

A oração foi para Jesus como um ar refrescante, foi para Sua alma atribulada um verdadeiro bálsamo; a oração Lhe concedeu grandes forças. «Abba, Pai, a vós tudo é possível, afastai de mim este cálice; não seja feita a minha vontade, mas a vossa». (S. Marc. 14-36).

Jesus pediu para ser afastado esse cálice de amargura.

O Seu pedido foi um grito íntimo de um coração angustiado e atribulado. Jesus procurou as consolações do céu; a Sua filial confiança e Seu entretimento com o Pai Celeste Lhe orvalhou Seu interior.

Isso sabia bem o Homem-Deus; por isso levantou Seu espírito a Deus.

O mesmo devemos fazer nós. As horas de amargura devemos converter em horas de oração; então o jugo do Sacerdócio far-se-á doce e Seu peso leve.

Quem sabe orar, sabe também sofrer, sabe suportar.

Passemos nesses transes angustiosos pela nossa memória e pelo nosso espírito os admiráveis salmos e cantos da Paixão. Nestes hinos está tão admiravelmente estampada a vida do sofrimento!...

O breviário educa o sacerdote para sofrer orando e orar sofrendo.

  • Confortado por um anjo.

O céu teve o néctar confortador: Deus enviou um anjo para consolar a Jesus. Este enviado do céu mostrou a Jesus as torrentes de bênçãos que brotariam dos Seus sofrimentos, mostrou-Lhe o trabalho dos segadores nas messes fertilíssimas da humanidade, a conversão dos povos e das nações, a origem e o incremento da Igreja de Deus, espalhada em todo o orbe terrestre, as excelências de Sua santa humanidade, gloriosa eternamente nos céus. Propter hoc laetatum est cor meum et exultavit lingua mea, insuper et caro mea requiescet in spe.» (Ps. 15-9)

Sigamos o ensinamento que vem do alto! Nosso olhar deve convergir para os abundantes frutos que amadurecem por entre o fogo do sofrimento, que frutificam na fornalha da amargura da dor.

Desvasiemos o âmago do cálice e bebamos o seu conteúdo de um só trago, na lembrança de Jesus Crucificado. A coroa celeste, os diamantes dos nossos méritos, a fileira das almas imortais salvas por nós e nossos trabalhos, luzirão como estrelas fulgurantes ao redor da alma sofredora e amargurada.

«Exurge gloria meã exurge psalterium et cithara».

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