segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Criar um clima cristão para os filhos



Criar um clima cristão

Capítulo VIII

Uma das condições essenciais da educação cristã consiste em que o âmbito familiar realize uma atmosfera espiritual em que as almas desabrochem e se elevem espontaneamente. A influência exercida nas crianças se apóia melhor no con­junto harmonioso de uma multidão de fatos aparentemente insignificantes do que em manifestações excepcionais ou em discursos solenes.

A religião não é qualquer coisa que se pespegue no in­divíduo, muito menos uma roupa com a qual nos vistamos ou da qual nos desembaracemos à vontade, segundo os dias e as circunstâncias. É preciso que o clima da casa tenha por base uma fé que tudo informe para tudo transfigurar, sem trazer sombras.

O clima de um lar será cristão se a religião exprimir-sc menos por fórmulas, atitudes, tabus ou rotinas, do que por um espírito que tudo penetre, fazendo com que se viva, naturalmente, as realidades sobrenaturais, com .simplicidade, sem respeito humano, porque “é assim mesmo”.

Há um verdadeiro fenômeno de osmose que se produz numa família autenticamente cristã, em que o senso do sa­grado se manifeste pelo respeito das coisas santas, em que as verdades sobrenaturais estejam próximas, inserindo-se na trama da vida cotidiana.

Quando os pais vivem simplesmente na lógica de sua fé tudo se torna luminoso e benfazejo; Jesus Cristo é o grande Amigo divino de Quem se fala como de alguém misteriosamente presente e infinitamente amorável; a Virgem Maria é considerada como a Mãe de Jesus e nossa Mãe, me­diadora de todas as regras; a Igreja é a grande Comunidade cujos chefes são respeitados e os membros, mesmo longín­quos, fraternalmente amados; os acontecimentos de sua vida são prazerosamente comentados, sua história é conhecida, sua liturgia contribui com o seu ritmo de alegria e de es­perança.

Lealdade, caridade em palavras e ações, entre todos e com todos, pureza sem equívoco como sem falso pudor; tudo isto acaba- por se instalar nos costumes, no sentido profundo do têrmo, para a felicidade de todos.

Custa-se a imaginar hoje em dia a sólida piedade dessas famílias camponesas que formam uma Bernadette, um cura d’Ars, um João Bosco... Nada a perturba, nada a abala... Apodera-se da criança no berço; impõe-lhe o seu automatismo antes de lhe dar suas razões, suas alegrias, suas esperanças. Seria insensato pretender que o garo- tinho tenha a capacidade de optar com reflexão c em toda liberdade por tais deveres, tais crenças e tais práticas. A família tem um direito imprescritível relativamente à criança: o de escolher em seu lugar. Na medida do possível deve evitar que a sua escolha caía, um dia, no êrro. E o erro aqui é o esquecimento de Deus.

A lealdade a serviço do Senhor é uma das condições capitais para o desabrochar da vida religiosa dos jovens. O dano mais grave que se pode causar à criança é habituá-la a considerar as virtudes do Cristianismo como coisas que se dizem mas não se fazem. O Cristianismo, então, não é mais do que uma linguagem sublime, deixa de ser uma vida.


Sejamos realistas: nossos filhos não encontrarão sempre exemplos de vida cristã integral e autêntica. É preciso não ter medo de falar-lhes e preveni-los antecipadamente contra a decepção ou o escândalo que disso poderia resultar para eles. De modo algum se trata de lhes provocar o desprezo farisaico em face do pecador, muito ao contrário. Trata-se de fazer aumentar intensamente neles próprios o ardente desejo de que o Senhor dê Sua luz aos cegos e Sua fôrça aos enfermos. O ódio ao pecado pode muito bem aliar-se ao respeito e ao amor ao pecador. Esta é a pedra de toque de uma verdadeira educação evangélica.

Em certas famílias cristãs, no momento mais favorável, quando todos se reúnem à noite, em serão, leem-se algumas linhas de um livro cristão: o Evangelho, a História Sagrada, a vida dos Santos, um comentário litúrgico sobre uma festa próxima. Não há nada melhor para instilar nos espíritos e nos corações as idéias que elevam para solidificar e unir as almas num pensamento comum.

Nada atrai mais eficazmente a bênção de Deus para um lar do que a oração da noite em família, sob a condição, en­tretanto, de que evite dois excessos igualmente prejudiciais: o da rotina aborrecida e morna, e o de uma fantasia dema­siado solta.

Há vários métodos e maneiras de fazer essa oração da noite de modo a torná-la viva, adaptada às circunstâncias, aos tempos litúrgicos, às datas aniversárias, às datas especiais e às preocupações da vida familiar. Podem caber orações usuais ditas em comum. O que importa é que cada um tenha, senão todas as noites, pelo menos regularmente, uma parte ativa, e que a oração seja realmente a expressão de senti­mentos sinceros.

Em muitas famílias cristãs as crianças não se deitam à noite sem receber a bênção de seus pais sob a forma de uma cruz traçada na testa. Poder-se-á ver nisso a expressão da autoridade espiritual do pai e da mãe de família, primeiros mandatários de Deus junto às almas dos filhos.




COURTOIS, Pe. G., A Arte de Educar as crianças de hoje
Editora Agir, 1964

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