sábado, 31 de maio de 2014

Do Modo de Combater a NEGLIGÊNCIA

Excertos do Livro
O Combate Espiritual
Dom Lorenzo Scúpoli
(Clique acima, no título em azul, para obter a resenha do livro e baixá-lo)

 

Capítulo XX

Do Modo de Combater a Negligência
A negligência é um obstáculo à perfeição, pois entrega os que têm este vício, nas mãos dos inimigos. Para que não te tornes escrava deste pecado, é preciso que fujas da curiosidade, do apego aos bens terrenos e de qualquer ocupação que não convenha ao teu estado.
É preciso que faças esforço para corresponder com presteza a toda a boa inspiração e a qualquer ordem de teus superiores, fazendo tudo no seu tempo, e do modo que os superiores querem.
Não demores, por pouco que seja, a obedecer. Esta falta de diligência acarretará uma segunda, logo uma terceira e outras muitas. Os sentidos se habituam à negligência e cederás então, mais facilmente que no princípio, pois já estás presa do prazer que provaste.
E assim te irás habituando a começar teu trabalho muito tarde, ou então, deixá-lo-ás muitas vezes, como coisa merecida. Pouco a pouco, irá se formando o hábito de negligencia, que se tornará totalmente forte, que, no momento da falta, reconheceremos que somos muito negligentes, sentiremos repugnância de nós mesmos, mas somente faremos o propósito de, mais tarde, em outra ocasião, sermos solícitos e diligentes.
Esta negligência atingirá a toda a nossa alma. Seu veneno infeccionará não somente a vontade, fazendo-a aborrecer aquele trabalho, mas chegará a obcecar a inteligência, de modo tal que ela não verá como são vãos aqueles propósitos de resistir, no futuro, diligentemente, às tentações a que agora, voluntariamente, sucumbirmos.
Não basta fazer, a qualquer momento, o que devemos fazer. É preciso esperar o seu tempo, que será marcado pela hora de realizá-lo, importa fazê-lo com toda a diligência, para que seja cumprido o dever, com toda a perfeição possível.
Fazer um trabalho antes do tempo, não é diligência, mas finíssima negligência. Fazê-lo apressadamente e sem cuidado, com os olhos fitos no descanso que poderemos desfrutar depois, também não passa de negligência.
Estes atos acarretam grande mal à alma, porque não se considera o valor da obra boa, feita no seu tempo, e não se enfrenta com animo resoluto, a fadiga e as dificuldades, que o vício da negligência apresenta, sempre, aos soldados novos.
Deves lembrar-te que uma só elevação da mente a Deus e uma genuflexão em sua honra, vale mais que todos os tesouros do mundo. E que, sempre que fazemos violência a nós mesmos e às nossas paixões viciosas, os anjos nos trazem do reino dos céus uma coroa de gloriosa vitória.
Aos negligentes, Deus vai tirando as graças que lhes dava, e aos diligentes as graças vão crescendo, para que aquelas almas gozem, um dia, no Senhor.
Se nos primeiros princípios, não tens energia para reagir generosamente contra a fadiga e as dificuldades, sempre que as ocultes, para que pareçam menores do que os negligentes as dizem.
Às vezes, é preciso que faças muitos e muitos atos para conquistar uma virtude, e te afadigues muitos dias. Os inimigos te parecem então muito fortes. Começa por isso, a produzir atos, como se fizesses pouca conta deles. Imagina que é por pouco tempo que te precisas afadigar. Combate contra um inimigo, como se não te restassem outros a serem combatidos. E tem sempre uma grande confiança no auxilio que Deus te dispensará, mais forte que o poder dos inimigos. Deste modo, tua negligência começará a se enfraquecer e tua alma se irá dispondo a adquirir a virtude contrária.
Digo o mesmo a respeito da oração. Se ela, por exemplo, deve durar uma hora e isto parece pesado à tua negligência, começa a rezar como se fosse fazer somente durante um oitavo de hora. Passarás depois, com facilidade, ao segundo oitavo, ao terceiro e assim por diante. Mas se, no segundo ou em algum outro oitavo de hora, sentisses que a repugnância e a dificuldade eram fortes demais deixa para depois a oração, para não te cansares em demasia. Mas não te esqueças de retomar, pouco depois, o exercício.
Do mesmo modo deves proceder quanto aos trabalhos manuais, quando acontece que precises fazer muitas coisas e pareçam dificultosas demais, à tua negligência, e te causam aflição.
Começa o teu trabalho corajosamente, e empreende uma das obras, como se fosse a única. Cumprirás assim, todo aquele mister que, à tua negligencio, parecia de grande fadiga.
Se assim não fizeres e não combateres a negligência, prevalecerá em ti este vício, que, não somente a fadiga que sentires durante o exercício da virtude te assustará, mas temerás sempre as dificuldades que te advirão dos trabalhos futuros. E estarás sempre ansiosa, temerás sempre os futuros assaltados do inimigo e recearás a todo o momento, que alguém te venha impor alguma coisa desagradável. Viverás sempre inquieta.
E lembro-te, filha, de que este vício da negligência, pouco a pouco, com seu veneno escondido, não somente ataca as primeiras e pequeninas raízes, que fariam crescer os hábitos das virtudes, mas ferem também os hábitos já adquiridos. É perfeitamente, como o cupim. O vício vai roendo insensivelmente e consumindo o âmago da vida espiritual. O demônio arma este laço contra todos os homens, especialmente contra os mais piedosos.
Vigia, portanto, reza e pratica o bem e não te demores a tecer a fazenda para a veste nupcial, pois deves estar sempre pronta para ir ao encontro do esposo.
E lembra-te todo o dia, de que quem te dá a manhã não te promete a tarde, e quem te dá a tarde não te promete a manha.
Usa, portanto, de todos os teus segundos e minutos, de acordo com a Vontade Divina, e como se fossem os últimos momentos de tua vida. Além disto, deverás prestar conta minuciosíssima de todos os teus instantes.
Concluo, aconselhando-te a que tenhas como perdido o dia em que, mesmo se trabalhaste muito, não conseguiste muitas vitórias contra as tuas más inclinações e contra a tua vontade própria, ou não agradeceste ao Senhor dos benefícios que te concedeu, particularmente a penosa Paixão que Ele sofreu por ti, e paterno e doce castigo, com que te puniu, te fez digna do tesouro inestimável de algumas tribulações.

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Retirado do livro: O Combate Espiritual e o Caminho do Paraíso - Ven. Servo de Deus Lourenço Scúpoli - Edição de 1939

Fonte:

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Deus...

Dom Marcel Lefebvre
A exemplo de Santo Tomás e seguindo-o, nossas considerações serão estabelecidas sobre a fé, sobre a Revelação, e mesmo eventualmente sobre argumentos de razão. “Justus ex fide vivit”o justo, o santo, vive da fé. Porque a fé trás em si, como que em germe, a visão beatífica, ora, nós fomos criados para esse fim. A fé ilumina nossa inteligência, conferindo-lhe uma sabedoria incomparável.

O primeiro assunto apresentado para estudo na Suma Teológica é Deus. E também o primeiro assunto da oração de Nosso Senhor. “Pai nosso que estais no céu”. É a primeira afirmação do Credo: “Creio em Deus…”, é o primeiro mandamento: “Adorarás a um só Deus”.

Deus é o primeiro bem do homem e é o último, sua origem e seu fim, sua felicidade de todos os dias e da eternidade. Desde os seus primeiros momentos de consciência, a alma da criança deve-se voltar para Deus e desabrochar banhada pelo grande sol de Deus qui iIluminat omnem hominemvenientem in hunc mundum”: “que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo. 1, 9).

Bem-aventurados os anjos que guardaram inscrito em seus corações “ quis ut Deus.”, “quem é como Deus” e que perseveraram na provação.
Bem-aventurada a Virgem Maria, imaculada em sua Conceição, que voltou para sempre sua alma a Deus, desde a mais tenra infância.
Bem-aventurada a alma de Nosso Senhor, iluminada pela visão beatífica desde o instante da Criação.
Por que esta lentidão, por que este atraso, por que esta cegueira no conhecimento do amor de Deus, mesmo em muitos batizados?…
Esta constatação suscita lamentações de Nosso Senhor nos Salmos, nos impropérios da Sexta-feira Santa, no primeiro capítulo de São João. Pode-se dizer que a sua agonia no Jardim das Oliveiras era a comprovação desse ateísmo… O amor não é amado: “Non requirunt Deum”… “Non receperunt”,“Não procuram a Deus”, “Não O receberam”.
Este drama nos deixará indiferentes? Esta realidade da ignorância sobre Deus nos excede. O que podemos fazer? Toda a sociedade moderna leva a esta ignorância. Mas não haveria muito dessa ignorância até mesmo em nós? Fazemos um esforço para meditar em Deus, para nos aproximar desse mistério insondável do “Alpha et Omega”, do “Principium et Finis”, do Mistério do amor manifestado no Verbo Encarnado?
Santo Tomás nos convida a conhecer melhor a Deus em sua unidade, em sua Trindade, em suas obras.
Essa contemplação da Trindade bem-aventurada, que fará nossa felicidade eterna, não poderá, na fé do Espírito Santo, dar-nos um esboço, um eflúvio dessa felicidade?
Eis abaixo, alguns estudos que podem ajudar a completar ou explicar o ensinamento da Suma Teológica de Santo Tomás:
-        “O Mistério da Santíssima Trindade”, Pe. Emmanuel
-        “Jesus Cristo Ideal do Monge” cap. I, Dom Marmion
-        “Lês Perfections Divines” do Pe. Garrigou-Lagrange
-        “Commentaires de la Somme Théologique”, Pe. Pegues e Pe. Hugon
-        “Lês Noms Divins” do Pe. Lessius.

Não se trata de fazer um estudo teológico, mas de aproximar-nos um pouco da grande
realidade de Deus e, diante de seus atributos e suas perfeições infinitas, nos lançarmos em adoração, em humildade, em oblação ardente imitando Jesus Cristo e a Virgem Maria.
Um pouco mais de conhecimento da infinidade de Deus, de sua infinita caridade e misericórdia deveria nos fazer progredir na Caridade de Deus, afastar-nos do pecado e nos confirmar na virtude; aliás, é este o caminho que seguiram as almas santas, sob a influência do Espírito de Jesus.
A EXISTÊNCIA DE DEUS
A fé, que é a ciência mais certa, à qual nos referimos, nos ensina a existência de Deus: “Credo in unum Deum Patrem Omnipotentem, creatorem coeli et terrae, visibilium et invisibilium”.
Ela nos ensina que Deus é espírito: “Deus spiritu est”, Nosso Senhor o ensinou à Samaritana. É, pois, um Espírito todo poderoso que tudo criou.
Houve um momento em que o mundo não existia, onde somente Deus existia eternamente, em sua santidade e sua felicidade, perfeita e infinita, não tendo nenhuma necessidade de criar. No princípio de sua oração sacerdotal, Jesus faz alusão a esta época: “E agora Pai, glorificar-me-ei com aquela glória que eu tinha junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jô XVII,5).
A fé nos ensina que a razão pode chegar à conclusão da existência de Deus, e São Pedro em sua primeira Epístola (IPÊ I,18) repreende os homens com veemência por não haverem conhecido o verdadeiro Deus que se manifesta em suas obras.
Realmente, tudo o que é, tudo o que somos, proclama a existência de Deus e canta suas perfeições divinas. Todo o Antigo Testamento e, particularmente, os Salmos e os Livros Sapienciais cantam a glória do Criador. É por isso que na oração litúrgica e sacerdotal os Salmos têm um lugar primordial.
É bom meditar sobre a criação “ex nihilo sui et subjecti”, feita do nada, pela simples decisão do Criador“qui putas se esse aliquid, cum nihil sit, ipse seducit: se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, ilude-se a si mesmo” (Gal VI,5).
Quanto mais nos aprofundamos nessa realidade, mais ficamos espantados com a onipotência de Deus e com nosso nada, com a necessidade de toda criatura ser constantemente sustentada nesta existência, sob pena de desaparecer, de voltar ao nada. É isso que nos ensinam tanto a fé como a filosofia.
Essa meditação e essa constatação deveriam bastar para nos lançar humildemente em adoração profunda, numa atitude imóvel semelhante à imobilidade do próprio Deus. Deveríamos ter uma confiança sem limites naquele que é nosso Tudo e que decidiu nos criar e nos salvar.
Com que devoção e sinceridade deveríamos todas as manhãs, no começo das Matinas, recitar o Salmo XCIV: “Vinde, alegremo-nos… Vinde, adoremos… Seu é o mar pois Ele o fez, e a terra firme que suas mãos formaram, vinde adoremos e prosternemo-nos diante de Deus, choremos diante do Senhor que nos criou, porque Ele é o Senhor nosso Deus e nós somos seu povo e as ovelhas que Ele pastoreia”.
Como não agradecer à Igreja que põe suas palavras em nossos lábios para exprimir os mais profundos sentimentos de nossas almas de criaturas!
Se a criação é um grande mistério, é que Deus é para nós o grande Mistério e o permanecerá eternamente na visão beatífica. “Jamais alguém viu a Deus, senão aquele que vem de Deus”, somente o Verbo e o Espírito Santo vêm Deus, sendo de Deus e um só Deus com o Pai. (Jo VI,46).
Abordar os atributos e perfeições de Deus, realidade espiritual que abrange tudo, que vivifica tudo, que sustenta tudo na existência, só poderá aumentar o Mistério divino, para nossa maior satisfação, edificação e santificação.
Santo Tomás diz: “Quanto mais conhecermos perfeitamente a Deus aqui em baixo, melhor nós compreenderemos que Ele ultrapassa tudo o que a inteligência compreende” (II-II/8/3).
Vindo a fé em socorro da razão para nos convencer da existência de Deus e nos abrindo horizontes maravilhosos sobre a intimidade de Deus pela Revelação e, sobretudo, pela Encarnação do Verbo divino, devemos interroga-la para saber se podemos dar a Deus um nome que será próprio de Deus e nos ajudará a melhor conhecê-lo.
Ora, é precisamente o que Deus fez, tanto no Antigo Testamento como no novo. Disse Moisés: “Eu lhes direi, o Deus de vossos pais me enviou a vós. Se eles me perguntarem qual é o seu nome, que lhes responderei? E Deus diz a Moisés: eu sou Aquele que sou. E ele continua: é assim que responderá aos filhos de Israel: Aquele que é, me envia a vós” (Ex III,13-14); assim também Nosso Senhor com os judeus, que lhes dizem: “Vós não tendes ainda cinqüenta anos e vistes Abraão? Jesus lhes respondeu: Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão fosse, eu sou” (Jô VIII,5-9).
Nunca serão suficientemente admiradas essas respostas luminosas que correspondem, aliás, às conclusões de nossa razão. “Deus é”, Ele é “ens a se”, o ser por Ele mesmo; todos os outros seres são“ab alio”, não têm sua razão de ser por eles mesmos.
Essas afirmações simples são uma fonte de meditação e de santificação interminável. Quer seja o olhar sobre Deus que termina no infinito, quer seja a constatação dos laços da criatura ao Criador, ou a visão do nada da criatura, estamos diante do que há de mais verdadeiro, de mais profundo e de mais misterioso em Deus e em nós.

Novena ao Divino Espírito Santo Meditações de Santo Afonso de Ligório


Primeiro dia – Sexta feira

Et apparuerunt illis dispertitae liguae, tanquam ignis – “E apareceram sobre eles repartidos como que línguas de fogo.” (At. 2,3).

A novena do Espírito Santo é a primeira de todas, porque foi celebrada pelos santos apóstolos e por Maria Santíssima no Cenáculo, entre muitos prodígios. Lembremos de que ao Divino Paráclito é atribuído especialmente o dom do amor. Convém, portanto, que nesta novena consideremos o grande valor do amor divino. Em primeiro lugar, o amor é aquele fogoque inflamou todos os santos a fazerem grandes coisas por Deus. Se quisermos também ficar abrasados, apliquemo-nos sempre, mas em particular nestes dias, à oração, que é a fornalha onde o fogo do amor divino se acende.

I – Deus ordenou na antiga Lei que o fogo ardesse continuamente no seu altar. Diz São Gregório que os altares de Deus são nossos corações, onde Ele quer que o fogo de seu santo amor arda sem cessar. Por isso o Eterno Pai, não satisfeito em ter-nos dado Jesus Cristo, seu Filho, para nos salvar por sua Morte, quis dar-nos ainda o Espírito Santo, para que habitasse em nossas almas, e as conservasse continuamente abrasadas de amor.

Jesus mesmo declarou que descera à Terra exatamente para inflamar com este fogo sagrado nossos corações, e que seu único desejo era vê-lo acesso: “Vim lançar fogo à Terra e que coisa Eu quero senão que se acenda?” (Lc 12, 49). Eis aqui porque, esquecendo as injúrias e ingratidões dos homens, logo que subiu ao Céu, nos enviou o Espírito Santo. – Assim, ó Redentor amadíssimo, na vossa glória, como nos vossos sofrimentos e humilhações, nos amais sempre?

Pela mesma razão o Espírito Santo quis aparecer no Cenáculo sob forma de línguas de fogo: “E apareceram sobre eles repartidos como que línguas de fogo.” (At. 2,3). Por isso também a Igreja nos faz rezar com estas palavras: “O Senhor, fazei que o vosso divino Espírito nos inflame com o fogo que Jesus Cristo veio trazer sobre a terra, e que desejou tão ardentemente ver brilhar nela.” – Foi este amor o fogo que inflamou os santos a fazerem grandes coisas por Deus: amar os inimigos, a desejar os desprezos, a despojar-se de todos os bens terrenos e a abraçar com alegria os tormentos e a morte. O amor não pode ficar ocioso e nunca diz: Basta. A alma que ama a Deus, quanto mais faz por seu amado, mais quer fazer ainda para mais lhe agradar e ganhar mais e mais a sua afeição.

II – O Espírito Santo acende o fogo do amor divino por meio da meditação: “Na minha meditação se acenderá o fogo.” (Sl 38,4). Se então, desejamos arder em amor para com Deus, amemos a oração; ela é a feliz fornalha em que o coração se abrasa neste ardor celeste.

Meu Deus, até aqui nada tenho feito por Vós, que tão grandes coisas fizeste por mim. Ah! Quanto a minha frieza deve mover-Vos a rejeitar-me! Peço-Vos, ó Espírito Santo: Aquecei o que está frio. Livrai-me de minha frieza e inspirai-me um grande desejo de Vos agradar. Renuncio a todas as minhas satisfações, e antes quero morrer do que Vos dar o menor desgosto. – Aparecestes sob a forma de línguas de fogo; consagro-Vos minha língua, para que não Vos ofenda mais. Ó Deus, Vós me destes a língua para Vos louvar, e dela tenho me servido para Vos ultrajar e levar os outros também a Vos ofender! Arrependo-me de toda minha alma.

Ah! Pelo amor de Jesus Cristo, que na sua vida Vos honrou tanto com a língua, faça com que de agora em diante não cesse de Vos honrar, celebrando Vossos louvores, invocando-Vos muitas vezes, falando da Vossa bondade e do amor infinito que mereceis. Amo Vos meu soberano bem; amo Vos Deus de amor. – Ó Maria Santíssima, sois Vós a Esposa fidelíssima do Espírito Santo; obtende este fogo divino.


Nove dias até o Pentecostes: retiro, caridade, oração e boas obras!

Ontem, foi a Festa da Ascensão de Nosso Senhor, e no dia 8 de junho será a Festa de Pentecostes

Daqui para lá, começa a espera e a primeira novena, uma espera feita de meditação e oração, conforme Cristo ordenou. 

No “Manual do Cristão” de Goffiné, lemos hoje, na hora da reza, uma passagem interessante. Após umas breves notas sobre a Ascensão de Nosso Senhor, Goffiné conclui:
“Depois da Ascensão, voltaram os Apóstolos a Jerusalém, e, conforme a ordem do Senhor, conservaram-se retirados em uma casa, em contínua oração, até receberem o Espírito Santo. 
Imitemo-los do melhor modo que pudermos, retraindo-nos algum tempo dos negócios da nossa obrigação, empregando estes dias no exercício da caridade, oração e boas obras, pedindo que nos encha o Espírito Santo como aos Apóstolos”. Goffiné. 1944. p. 552.

Como é praticamente impossível executarmos ao pé da letra esse precioso conselho, façamos, então, “do melhor modo que pudermos”, o nosso retiro espiritual para esperarmos pelo Pentecostes: “caridade, oração e boas obras”. 


Se puder deixar uma sugestão, podemos repetir o jejum de TV, Internet, entretenimento variados que fizemos na Quaresma. 


  
  1. http://precantur.blogspot.com.br/2012/05/novena-de-pentecostes.html
  1. http://precantur.blogspot.com.br/2013/05/pentecostes-2013.html
  1. http://farfalline.blogspot.com.br/2010/04/novenas-catolicas-compreendendo-as.html - aqui tem duas. 
  1. http://www.acheoracao.com.br/oracoes/881.html
  1. http://oracoesgruporenascer-rcc.blogspot.com.br/2010/05/novena-de-pentecostes.html
  1. http://servimariae.blogspot.com.br/2013/05/novena-em-honra-ao-espirito-santo.html
  1. http://www.oracoes.info/div05.html
  1. http://www.oracoes.info/div09.html
  1. http://www.oracoes.info/div06.html
Uma boa semana a todos. 

Embora a Igreja nunca tenha escrito uma oração oficial para a Novena de Pentecostes, esta é a "mãe" de todas as novenas. Ela é litúrgica, instituída por um decreto do Papa Leão XIII, na Encíclica Divinum Illud Múnus, em 9 de maio de 1897. Preocupado com a pouca atenção dada à pessoa do Espírito Santo nos escritos da Igreja, e sua escassa presença na liturgia e nos devocionários católicos, Leão XIII escreveu este Documento Pontifício sobre a virtude do Espírito Santo:
“Vede, veneráveis irmãos, os avisos e exortações nossas sobre a devoção ao Espírito Santo, e não duvidamos que por virtude principalmente de vosso trabalho e solicitude, se produzirão saudáveis frutos no povo cristão. Certo que jamais faltará nossa obra em coisa de tão grande importância; mais ainda, temos a intenção de fomentar esse tão belo sentimento de piedade por aqueles modos que julgaremos mais convenientes a tal fim. Entretanto, posto que Nós, há dois anos, por meio do breveProvida Matrisrecomendamos aos católicos para a solenidade de Pentecostes algumas orações especiais a fim de suplicar pelo cumprimento da unidade cristã, nos apraz agora acrescentar aqui algo a mais. Decretamos, portanto, e mandamos que em todo mundo católico neste ano, e sempre no porvir, à festa de Pentecostes preceda a novena em todas as igrejas paroquiais e também ainda nos demais templos e oratórios, a juízo dos Ordinários. Concedemos a indulgência de sete anos e outras tantas quarentenas por cada dia a todos os que assistirem a novena e orarem segundo nossa intenção, acrescida da indulgência plenária em um dia de novena, ou na festa de Pentecostes e ainda dentro da oitava, sempre que confessados e comungados orarem segundo nossa intenção. Queremos igualmente também que gozem de tais benefícios todos aqueles que, legitimamente impedidos, não possam assistir aos ditos cultos públicos, e isto ainda nos lugares onde não puderem celebrar-se comodamente – a juízo do Ordinário – no templo, com tal que privadamente façam a novena e cumpram as demais obras e condições prescritas. E nos apraz acrescentar do tesouro da Igreja que possam lucrar novamente uma e outra indulgência todos os que em privado ou em público renovem segundo sua própria devoção algumas orações ao Espírito Santo cada dia da oitava de Pentecostes até a festa inclusive da Santíssima Trindade, sempre que cumpram as demais condições acima indicadas. Todas essas indulgências são aplicáveis também ainda às benditas almas do Purgatório”.

Então, não há uma fórmula para a Novena, podendo ser adotada a que for de uso comum. Aqui algumas: 

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Oração das Famílias Cristãs à Jesus, Maria e José



Ó Sagrada Família, por quem a humilde Casa de Nazaré se tornou modelo dos lares cristãos, nós nos prostamos em espírito junto de Vossa Santa Casa, que os Anjos transportaram sobre a ditosa colina de Loreto e Vos pedimos as Vossas bençãos.

Fazei que as nossas famílias imitem vosso exemplo e que as nossas casas se tornem templos para amar e adorar a Deus e seguir a Sua Santa Lei. Que as nossas crianças aprendam de Vós, ó Jesus, a obediência e o respeito a seus pais; que as esposas, a Vosso exemplo, ó Maria, vivam na humildade e na pureza; que os esposos, como vós, ó José, amem castamente suas esposas e seus filhos e guardem as santas leis do matrimônio.
Fazei, ó Sagrada Família, que os nossos lares nunca venham a ser manchados pelo pecado mortal, que transgride aos direitos do Criador e destrói os berços; mas que as nossas famílias, a vosso exemplo, e sustentadas com o vosso auxílio, adquiram cada dia mais as virtudes sobrenaturais da Fé, da Esperança e da Caridade.
Assim seja.

Fonte:

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Dos Exercícios Piedosos que se Aconselham o Cristão a fazer a Cada Dia



969) Que deve fazer um bom cristão, pela manhã, apenas acorda?
Um bom cristão, pela manhã, apenas acorda, deve fazer o sinal da Cruz, e oferecer o coração  a Deus, dizendo estas ou outras palavras semelhantes:Meu Deus, eu vos dou o meu coração e a minha alma.


970) Em que deveríamos pensar ao levantar da cama e enquanto nos vestimos?
Ao levantar da cama e enquanto nos vestimos, deveríamos pensar que Deus está presente, que aquele dia pode ser o último da nossa vida; e, entretanto levantar-nos e vestir-nos com toda a modéstia possível.


971) Depois de se levantar e de se vestir, que deve fazer um bom cristão?
Um bom cristão, apenas se tenha levantado vestido, convém pôr-se na presença de Deus e ajoelhar, se pode, diante de alguma devota imagem, dizendo com devoção: “Eu Vos adoro, meu Deus, e Vos amo de todo o coração; dou-Vos graças por me terdes criado, feito cristão e conservado nesta noite; ofereço-Vos todas as minhas ações, e peço-Vos que neste dia me preserveis do pecado, e me livreis de todo o mal. Assim seja”. Reza depois o Padre-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e os atos de Fé, de Esperança e de Caridade, acompanhando-os com um vivo afeto do coração.


972) Que práticas de piedade deveria fazer todos os dias o cristão?
O cristão, podendo, deveria todos os dias:
1o assistir com devoção à santa Missa;
2º fazer uma visita, por breve que fosse, ao Santíssimo Sacramento;
3º rezar o terço do Santo Rosário.


973) Que se deve fazer antes do trabalho?
Antes do trabalho, convém oferecê-lo a Deus, dizendo do coração: “Senhor, eu Vos ofereço este trabalho, dai-me a vossa bênção”,


974) Para que fim se deve trabalhar?
Deve-se trabalhar para glória de Deus e para fazer a Sua Vontade.


975) Que convém fazer antes da refeição?
Antes da refeição convém fazer o sinal da Cruz, estando de pé, e depois dizer com devoção: “Senhor, abençoai-nos a nós e ao alimento que vamos tomar, para nos conservarmos no Vosso santo serviço”.


 976) Depois da refeição, que convém fazer?
Depois da refeição, convém fazer o sinal da Cruz, e dizer: “Senhor, eu Vos dou graças pelo alimento que me destes; fazei-me digno de participar da mesa celeste”.


977) Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, que devemos fazer?
Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, devemos invocar com fé o Santíssimo Nome de Jesus ou de Maria, ou recitar fervorosamente alguma oração jaculatória, como, por exemplo: “Dai-me a graça, Senhor, que eu nunca Vos ofenda”; ou então fazer o sinal da Cruz, evitando porém que as outras pessoas, pelos sinais externos, suspeitem da tentação.


978) Quando uma pessoa reconhece ou duvida que cometeu algum pecado, que deve fazer?
Quando uma pessoa reconhece, ou duvida que cometeu algum pecado, convém fazer imediatamente um ato de contrição, e procurar confessar-se quanto antes.


979) Quando fora da Igreja se ouve o sinal de elevação da hóstia na Missa solene, ou da bênção do Santíssimo Sacramento, que se deve fazer?
É bom fazer, ao menos com o coração, um ato de adoração, dizendo, por exemplo: “Graças e louvores se deem a todo o momento ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento”.


980) Que se deve fazer quando tocam às Ave-Marias, pela manhã, ao meio-dia e à noite?
Ao toque das Ave-Marias, o bom cristão recita o Anjo do Senhor com três Ave-Marias.


981) A noite, antes de deitar, que devemos fazer?
À noite, antes de deitar, convém pôr-nos, como pela manhã, na presença de Deus, recitar devotamente as mesmas orações, fazer um breve exame de consciência, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos durante o dia.


982) Que haveis de fazer antes de adormecer?

Antes de adormecer, farei o Sinal da Cruz, pensarei que posso morrer naquela noite, e oferecerei o coração a Deus, dizendo: “Meu Senhor e meu Deus, eu Vos dou todo o meu coração. Trindade Santíssima, concedei-me a graça de bem viver e de bem morrer. Jesus, Maria e José eu Vos encomendo a minha alma”.


983) Além das orações da manhã e da noite, por que outra forma se pode recorrer a Deus no decurso do dia?
No decurso do dia pode-se invocar a Deus frequentemente com outras orações breves, que se chamam jaculatórias.



984) Dizei algumas jaculatórias.

– Senhor, valei-me;
– Senhor, seja feita a Vossa Santíssima Vontade;
– Meu Jesus, eu quero ser todo Vosso;
– Meu Jesus, misericórdia;
– Doce Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que eu Vos ame cada vez mais;
– Doce Coração de Maria sede minha salvação.


985) É útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias?
É muito útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias, e podem recitar-se também com o coração, sem proferir palavras, caminhando, trabalhando, etc.


986) Além das orações jaculatórias, em que outra coisa deveria exercitar-se com frequência o cristão?
Além das orações jaculatórias, o cristão deveria exercitar-se na mortificação cristã.


987) Que quer dizer mortificar-se?
Mortificar-se quer dizer privar-se, por amor de Deus, daquilo que agrada, e aceitar o que desagrada aos sentidos ou ao amor próprio.


988) Quando é o Santíssimo Sacramento levado a um enfermo, que se deve fazer?
Quando é o Santíssimo Sacramento levado a algum enfermo, devemos, sendo possível, acompanhá-Lo com modéstia e recolhimento; e, se não é possível acompanhá-Lo, fazer um ato de adoração em qualquer lugar que nos encontremos, e dizer: “Consolai, Senhor, este enfermo, e concedei-lhe a graça de se conformar com a Vossa Santíssima Vontade e de conseguir a sua salvação”.


989) Ouvindo tocar o sino pela agonia de algum moribundo, que haveis de fazer?
Ouvindo tocar o sino pela agonia de algum moribundo, irei, se puder, à igreja orar por ele; e, não podendo, encomendarei a Nosso Senhor a sua alma, pensando que dentro em breve tempo hei de encontrar-me também eu naquele estado


990) Ao ouvir sinais pela morte de alguém, que haveis de fazer?
Ao ouvir sinais pela morte de alguém, procurarei rezar um De profundis ou um Réquiem, ou um Padre-Nosso e uma Ave-Maria, pela alma daquele defunto, e renovarei o pensamento da morte.

Fonte:

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Uma Exegese Diferente - Santa Catarina de Sena

Belíssimo comentário de Santa Catarina sobre a parábola do Evangelho de São Mateus (Mt 25)

Carta 23

à sobrinha Nanna

Saudação e objetivo
Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, caríssima filha no doce Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa de ver-te verdadeira esposa de Cristo crucificado, a evitar tudo o que te impeça de ter Jesus como bondoso e sublime esposo.

Nosso coração é como uma lâmpada
Pois tal coisa não conseguiras, se não fores como aquelas virgens prudentes (Mt 25), consagradas a Cristo, que possuíam lâmpadas, óleo e luz. Presta atenção. Para ser esposa de Cristo, e preciso ter uma lâmpada, o óleo e a luz. Sabes, minha filha, o significado dessas coisas?
A lâmpada significa o coração, o qual tem a forma de uma lâmpada. Bem sabes que a lâmpada é larga no alto e estreita embaixo. Também nosso coração é assim, para indicar que devemos possuí-lo espaçoso, em cima, para os bons pensamentos, as santas imaginações e a oração contínua, retendo na memória, continuamente, os favores divinos, sobretudo os benefícios do sangue com que fomos remidos. Minha filha! O bondoso Jesus não nos resgatou a preço de ouro, prata, pérolas e demais pedras preciosas, mas com seu sangue. Tal favor nunca deve ser esquecido, sempre terá de estar diante do nosso olhar com santa e terna gratidão, pois e incomensurável o amor de Deus por nós. Deus Pai não recusou entregar seu Filho único a uma cruel morte na cruz para nos dar a vida da graça.
Eu disse que a lâmpada é estreita embaixo. Também nosso coração deve sê-lo em relação às realidades terrenas. O coração não pode desejar tais bens desordenadamente, nem desejá-los ou procurá-los mais do que for do agrado divino. Vendo que Deus nos prove com amor, nada nos deixando faltar, o coração sempre lhe será grato. Agindo assim, nosso coração realmente será como uma lâmpada.

O óleo é a humildade
Recorda-te porém, minha filha, de que tudo isso não basta se faltar o óleo na lâmpada. Com a palavra "óleo" entende-se uma delicada e oculta virtude, a grande humildade. Pois a esposa de Cristo tem de ser humilde, mansa e paciente. Tão humilde quanto paciente, tão paciente quanto humilde. Mas nunca alcançaremos a humildade sem o autoconhecimento.
E necessário que reconheçamos a nossa miséria e fraqueza, convencidos de que por nós mesmos somos incapazes de praticar qualquer ato virtuoso e superar lutas internas e inquietações. Não somos capazes de afastar de nós as doenças corporais, as dores, as dificuldades íntimas. Se fossemos capazes, fa-lo-íamos imediatamente. De nós mesmos somos apenas vergonha, miséria, mau cheiro, fraqueza e pecado. Importa-nos ficar sempre embaixo, humildes.
Mas não é bom permanecer apenas em tal conhecimento de si. A pessoa cairia no desânimo e na perturbação, chegando até ao desespero. A isso procura levar-nos o demônio. E necessário conhecer também a presença de Deus em nós, refletindo que Ele nos fez à sua imagem e semelhança, nos recriou pela graça no sangue do Verbo, seu Filho unigênito, e a bondade divina age continuamente em nosso favor. Todavia, quem se reduzisse somente a esse conhecimento de Deus em si, cairia na presunção e na soberba.
Ocorre mesclar esses dois conhecimentos: não somente pensar em Deus, nem somente em nós. Assim fazendo, seremos humildes, pacientes, mansos. Possuiremos o óleo na lâmpada.

A luz é a fé
Devemos ter também a luz, a luz da fé. Mas os Santos dizem que a fé sem as obras é morta. Ocorre, pois, agir sempre virtuosamente, abandonar a infantilidade das vaidades, não viver como jovem fútil, mas como esposa fiel, consagrada a Cristo crucificado. Desse modo, teremos a lâmpada, o óleo e a luz.

Deus é ciumento de suas esposas
Diz o Evangelho (Mt 25,2) que as virgens prudentes eram cinco. Pois bem, afirmo-te que cada um de nós há de "ser cinco", sob pena de ficar excluído das núpcias eternas. A palavra "cinco" significa nossa obrigação de dominar e mortificar os cinco sentidos corporais, jamais ofendendo a Deus com eles, na procura de afeições ou prazeres desordenados com todos ou alguns deles. Seremos "cinco" dominando os cinco sentidos do corpo.
Mas recorda-te: o esposo Jesus Cristo é ciumento de suas esposas; eu nem saberia dizer-te quanto! Se ele nota que tu amas outras pessoas mais que a Ele, ficará indignado contigo. E se não mudares (teu comportamento), para ti não será aberta a porta do lugar onde o Cordeiro imaculado celebra as núpcias com todas as suas esposas. Quais adúlteras, seremos rechaçadas a semelhança daquelas cinco virgens imprudentes. Elas se gloriavam única e tolamente da sua integridade e virgindade corporal; por isso perderam a virgindade da alma, pela corrupção dos cinco sentidos do corpo. Faltava-lhes o óleo da humildade e suas lâmpadas se apagavam. Então foi-lhes dito: "Ide comprar o óleo" (Mt 25,9). Nessa passagem o "óleo" indica os atrativos e engodos mundanos, vendidos pelos aduladores e lisonjeadores do mundo. Como se o esposo dissesse: "Não quisestes comprar a vida eterna pela virgindade e boas obras; preferistes os galanteios humanos e por eles vivestes. Ide comprá-los. Aqui não entrareis".

Catarina aconselha a vida consagrada
Minha filha, toma cuidado com os elogios dos homens. Nunca procures ser elogiada por alguma boa ação que praticares. Aporta da eternidade não te seria aberta. E porque eu considero ótima aquela estrada (da vida consagrada), disse antes que desejava ver-te fiel esposa de Cristo crucificado. Peço e suplico que te esforces para o ser.

Conclusão
Nada mais acrescento. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor!

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As Cartas, Santa Catarina de Sena - Tradução Frei João Alves Basílio, O.P. Editora Paulus

Fonte:

A Pérola Preciosa - 14.º Mistério

A PÉROLA PRECIOSA

Breves pensamentos sobre o Rosário meditado, para sacerdotes.
pelo
Padre Wendelin Meyer, O.F.M.
Tradução portuguesa por
Alberto Maria Kolb


4.º MISTÉRIO
PARA O CÉU...

Os dias de Maria declinaram. A mais bela entre as mulheres sentiu aproximar-se o Seu fim; a morte, porém, não tinha pleno poder so­bre Ela. Ela, que teve em Si o Imperecível, havia de deixar este mundo sem se corromper Seu corpo.

O invólucro imaculado elevava-se com Sua alma cândida à terra da Inocência e Pureza.

No céu esperava o Pai a Sua filha, o Fi­lho a Sua mãe, o Espírito Santo a Sua esposa.

O sacerdote tem seu fim de modo diverso. Ele, que tantas vezes teve entre as suas mãos o Se­nhor da Vida, Cristo Jesus, ele que O teve sobre seu peito e encerrado em seu coração, é su­jeito à corrupção.

Ele há de descer à sepultura, há de pas­sar provavelmente pela antecâmara do céu, isto é, pelo purgatório, para satisfazer o que as pobres almas têm que expurgar. Depois, porém participará das alegrias de Maria pela entrada de sua alma ao céu.

Meditemos que o Pai recebe Sua filha, o Filho a Sua mãe, o Espírito Santo a Sua esposa.

O Pai recebe sua filha:

Maria era uma criança privilegiada.

Reteve em sua alma o sinete de uma pu­reza nunca perdida. A Sua vida era como o brilho da estrela matutina, o manso cintilar da au­rora. «Progreditur quasi aurora!» (Sab. 6-9). Ela passava em brilho todos os filhos de Adão, e até todas as fileiras dos Bem-aventurados; sim, era maior ainda; era a virginal filha do Padre Eterno, que encerrava em Seu coração todos os filhos desta terra, que por eles sofria e por eles orava. Quem poderá enumerar os filhos de Deus que Maria Santíssima já salvara antes de Sua morte? Ela foi a mais diligente e fervorosa fi­lha na casa de Seu Eterno Pai. Quem pois po­derá dizer-nos com que amor Deus Padre a recebeu em Seus braços no dia de Sua assunção!

Pai e Filha se encontraram.

Isto dá ao sacerdote uma idéia de suas fu­turas glórias na eternidade. Afastemos de nós o medo tão desgraçado e pernicioso! Ainda que entre o sepulcro e o céu acharemos o purgatório, contudo, além da Igreja militante, está o Pai de braços abertos, pronto a nos receber. Não somos filhos privilegiados da graça? Não temos em nós o Seu sinal indelével? O selo de nossa preferência? Quando o pai esperava com ardente desejo e entre saudades infindas o filho pródigo, não havia por acaso de saudar com mais carinho e mais afetos o filho sempre obe­diente e sempre disposto para a graça?

Além disso, toda a nossa vida era consagra­da ao dever e à obrigação de preservar da eterna condenação os filhos errantes e rebeldes, e conduzi-los à celeste mansão, levá-los à eterna pátria. Isto o Padre Eterno esquecerá? Não, nun­ca! um coração paterno nos espera. Abba, Pai, vós que habitais sobre as estrelas, longe, bem longe de mim, bendigo a hora e o momento em que me recebereis na mansão celeste, nas eter­nas e imorredouras alegrias do céu.

O Filho recebe Sua mãe:

Poderia Jesus esquecer-Se de Sua carinhosa mãe? Não, certamente não! A noite de Natal era demasiado encantadora e a esta santa noite a imagem de Maria era inseparavelmente uni­da. A casinha de Nazaré era sobremaneira íntima e idílica; nesta, Maria cuidava com tanto desvelo e maternal afeto de Jesus, repartindo estes cuidados com José, Seu casto esposo. Seu estado de Mater-Dolorosa na montanha do Gólgota é frisante exemplo do amor heróico de uma mãe. Não, tal Mãe jamais podia ser esquecida, por isso Jesus tinha saudades de Sua Mãe.

Entretanto da morte de Jesus à morte de Maria decorreram anos. Aproximando-se porém a hora da partida, recebeu Maria a vida celestial da mão d’Aquele a quem Ela deu a vida terrestre. Oh feliz encontro! Palavras humanas, são insuficientes para descrever os sen­timentos da Mãe e do Filho.

Novamente levanta-se o véu da Eternidade. Lancemos segunda vez um olhar sobre as nossas futuras alegrias do céu. Não poderemos por aca­so viver da doce esperança de encontrarmos se­melhante recepção?Quicumque enim fecerit vo­luntatem Patris mei, qui in coelis est, ipse meus frater, et soror, et mater est(S. Math. 12-50).

E a vontade do Pai foi para nós sempre cara e preciosa. Estávamos inúmeras vezes debru­çados sobre as sagradas páginas, pensativos, para tomarmos mais a fundo e compreendermos me­lhor esta vontade; aprofundávamos nesta Lei nosso espírito e nosso coração, quando os si­lenciosos momentos da meditação cercaram san­tamente todo nosso «eu».

E o púlpito sagrado bem poderia contar quanto nos era estimável esta vontade do Pai! «In lege Domini voluntas ejus». (Ps. 1-2), cla­ma este púlpito, esta cátedra da Lei, ao povo e à paróquia. A nossa própria vida, para exemplo do povo, procurávamos em todo o tempo con­formar com as prescrições divinas. — «Este então me é irmão, irmã, mãe...» Oh dia mui vezes feliz; dia de nosso ingresso no céu!

O Espírito Santo recebe a Esposa.

Admirável era a união da alma de Maria com o Espírito Santo. Ele A enchia completamente, A regia descia sobre Ela em línguas de fogo. Em Maria jazia o conteúdo total do «Cantica Canticorum», aquela tenra vida, que se consumia de amor pelo Seu eterno esposo. Separada do mundo e absorta em Deus, des­cansava a Santa Virgem nos braços de Seu Amado. «Adjuiro vos filiae Jerusalem per capreas, cervos que camporum, ne suscitetis neque evigilare faciatis dilectam, donec ipsa velit (Cant. 3-5).

O Espírito Santo edificou n’Ela a Sua ha­bitação. «Tota pulchra es arnica mea, et macula non est in te». (Cant. 4-7).

Esta santa esposa voava à eterna pátria, para contemplar Seu Divino Esposo face a face.

Também esta Assunção ao céu servirá para nós de ensinamento. A nossa vida não está ela em íntima união com o Espírito Santo? Não foi este amado hóspede de nossa alma mão direita em todos os nossos ministérios sacerdotais?

veni, veni Sancte Spiritus! Quantas vezes saíram estas palavras de nossos lábios! E Ele, o Divino Paráclito, ajudava a nossa fraqueza, abrandava a nossa tristeza, inflamava o nosso ânimo. Quem, porém, poderá exprimir em pa­lavras a consolação nas horas tristes e amar­gas que Ele infiltrava, qual bálsamo refrige­rante, em nosso coração atribulado? Este «aduleis hospes anima» nos espera, para nos céus ser-nos ainda mais, do que foi para nós na terra. Exulta satis, filia Sion! (Zach. 9-9).

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