quarta-feira, 29 de julho de 2015

Três meios contra a raiva, Por S. Afonso de Ligório

"Para isso sirvamo-nos dos seguintes meios:

1 - Procuremos abandonar os movimentos da ira logo ao nascerem, pensando em qualquer outra coisa ou calando-nos. 

2 -Recorramos a Deus, como os apóstolos, ao verem o mar encapelado, porque só a Ele compete apaziguar os corações.

3 - Se, em consequência de nossa fraqueza a ira se apoderou de nosso coração, façamos todo o possível para recuperar a nossa tranquilidade e nos mostrar humildes e mansos com aqueles que foram causa de nossa excitação.

Tudo isso deve ser feito com discrição e não com ímpetos, pois é de suma importância não rasgar ainda mais a ferida. 

O mesmo santo (S. Francisco de Sales) dizia que lhe havia custado muito vencer suas duas paixões predominantes: a ira e o amor. Quanto à primeira, confessou ele que teve de combater durante doze anos para superá-lá. Quanto à segunda, trocou o seu objeto, desprendendo-se das criaturas para consagrar a Deus todo o seu amor. Dessa maneira atingiu o santo uma tão profunda paz interior, que ela se refletia mesmo no seu exterior uma tão profunda alegria de seu rosto. 

Alguns há que, quando excitados pela raiva, procuram desabafar-se e tranquilizar-se, expandindo-se em palavras ásperas: isso, porém, é engano: sua excitação só se tornará maior. Se quiseres, conservar continuamente a paz, deves evitar cuidadosamente o mau humor, e quando notares que te deixaste levar por ele, esforça-te por volares a tua paz habitual. Toma especial cuidado em não passares a noite em tal estado; procura distrair-te com um bom livro, com um cântico devoto ou uma agradável palestra com um amigo. O Espírito Santo diz: 'A ira descansa no seio do insensato' (Ecli 7,10), que ama pouco a Deus; se ela acha entrada no coração de um verdadeiro sábio, será logo expelida, antes de se poder firmar aí. 

Uma alma que ama verdadeiramente a Deus nunca está de mau humor, pois, querendo só o que Deus quer, se realiza sempre sua vontade, permanece sempre tranquila e igual a si mesma, sua sujeição à vontade de Deus assegura-lhe a paz em todas as contrariedades que lhe advém e, assim, é sempre amável e mansa para com todos. 

Sem um grande amor a Jesus Cristo, porém, nunca poderás alcançar um tal espírito de mansidão. A experiência mostra que, quanto mais terno é nosso amor para com Jesus Cristo, tanto mais mansos e afáveis somos para com os outros. 

Como, porém, nem sempre sentimos em nós esse terno amor, devemos nos preparar na meditação para todas as contrariedades que nos sucederem e fazer o propósito de suportá-las com toda a paciência e mansidão em todas as contrariedades e agravos. Se não nos prepararmos de antemão às injúrias, no momento decisivo dificilmente saberemos o que devemos fazer para não sermos arrastados pela ira. À nossa natureza excitada pela paixão parecerá justo que nos oponhamos com violência à ousadia daqueles que nos ofendem; como, porém, nota S. João Crisóstomo, o fogo não é próprio para extinguir o fogo, em vez de acalmar a raiva do próximo, isso só provocará uma resposta mais violenta ainda. 

A esse respeito diz S. Francisco de Sales: "Combate tua impaciência e pratica a afabilidade e mansidão, não só quando ela é expressamente imposta, mas também quando a impaciência parece justificada" (Carta 231). Em tais casos deves responder afavelmente, pois "uma resposta branda quebra a ira" (Prov. 15,1). Se estiveres, porém, excitado, é melhor que te cales, pois que "o olho ofuscado, pela ira, diz S. Bernardo (De Cons., 1.2c c. 11), não pode mais distinguir o que é justo e o que é injusto.". Por isso devemos imitar S. Francisco de Sales, que se propusera firmemente nunca falar enquanto seu coração estivesse agitado."

Santo Afonso Maria de Ligório - Escola da Perfeição Cristã. 

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