terça-feira, 10 de novembro de 2015

Nossas faltas, outras tantas janelas esclarecendo as nossas misérias


    Contra tamanho inimigo duma virtude tão necessária, ninguém estará suficientemente armado e, já que não nos é dado exterminá-lo nesta vida, devemos, ao menos, conhecer avidamente todos os meios de o enfraquecer e neutralizar-lhe as investidas. Ora, um dos mais eficazes dentre esses meios é precisamente fornecido pelas nossas próprias faltas. A semelhança da mandíbula dessecada dum vil animal, a qual nas mãos de Sansão se transformou num engenho de morte contra os filisteus, podem também os nossos pecados, por mais hediondos que sejam, transformar-se numa potentíssima arma contra o orgulho e vir a ser, destarte, ensejo para operarmos a nossa salvação e perfeição.

    Com efeito, o orgulho provém duam estima e amor desornado de nossa pretendida excelência, a humildade, diz o nosso amável Santo, essa vem do "conhecimento verdadeiro da abjeção própria voluntariamente reconhecida". E que há mais de molda a dar-nos este reconhecimento voluntário do que a consideração dos nossos pecados? São eles, verdadeiramente, na engenhosa expressão do Padre Álvarez, outras tantas janelas, pelas quais entra a luz a incidir com maior clarão sobre a nossa miséria.
    Mas eficazmente do que as humilhações que nos vem dos acontecimentos ou dos homens, as nossas quedas evidenciam e convencem de que as forças vivas mais íntimas da alma não valem nada. "E, diz São Francisco de Sales, não nos faz perturbar este conhecimento do nosso nada, antes torna-nos mansos, humildes e abate-nos a altivez; porque é o amor-próprio que nos faz impacientes ao vermo-nos vis e abjetos."

    - Mas eu sou tão miserável, tão cheio de imperfeições!
    - Conheces bem o teu estado? Pois bendize a Deus por te dar conhecimento, e não te lamentes tanto. És bem feliz em conhecer que és a miséria em pessoa.
Devemos confessar a verdade: somos umas pobres criaturas que não podem fazer bem algum. Eu te digo que serás mais feliz se fores humilde.
      - E eu serei humilde?
      - Sim, se quiseres sê-lo.
      - Mas eu quero.
      - Pois então és.
      - Mas eu conheço que não o sou.
      - Tanto melhor, pois isso serve par ao seres com mais firmeza.
     As imperfeições que cometemos em tratar dos negócios, tanto interiores como exteriores, são um motivo eficaz de humildade, e a humildade produz e alimenta a generosidade.
     Com efeito, como confiar em si e julgar-se alguma coisa, quando ao primeiro sopro da tentação a derrota se verifica, quando vemos cederem as resoluções formadas e esvaírem-se como "uma centelha, como uma pouca de estopa atirada à chama, ut favilla stuppae... quasi scintilla?" (Is. 1,31)
    Ah! Como o orgulho se enfraquece naquele em quem uma queda mostra a realidade da sua miséria, e como então a humildade assenta melhor na verdade! Não se julga ouvir uma voz bradar: "Recta iudicate! Sejam retos os vossos juízos! ? (Sl 57,1). "Eis-vos pesados na balança, e viu-se que não tínheis o peso que queríeis." (Dan 5,27) "Pensáveis que éreis mais, e eis que sois menos." (Ag 1,9).


As três espécies de cajados

      Tal é, segundo os santos doutores, o principal desígnio de Deus, permitindo os nossos pecados. O Bom Pastor usa três espécies de cajados para com as ovelhas: um, de correção: as adversidades; outro, de provação: as tentações; o terceiro é um cajado de indignação, e esse consiste em permitir que pequemos. 
    Sob o peso de qualquer deles, o homem é forçado a reconhecer o seu nada e humilhar-se; mas nunca melhor o faz do que quando está sob o jugo do terceiro: pois é na observação das suas quedas que ele vê realmente a sua miséria, no dizer de Jeremias: "Eu sou um homem que vejo a minha indigência sob a vara da indignação do Senhor." (Lam. 3,1)
     Este cajado é tão salutar que Deus não hesita em empregá-lo ainda com os seus melhores amigos. Como a sua humildade encontra nas próprias virtudes o mais temível escolho, deixa-os Deus às vezes cair em imperfeições ou lhes permite que as suas antigas inclinações más levantem de súbito a cabeça, para lhes fazer ver pela experiência da sua fragilidade que não podem contar com as suas forças.
     Permite Nosso Senhor, que nestes pequenos encontros fiquemos por baixo, para que nos humilhemos e saibamos que, se vencermos certas tentações maiores, não foi por nossas forças, mas pela assistência da sua divina bondade.
     Tende paciência... Se Deus vos deixar tropeçar, será para vos fazer conhecer que, se Ele vos não amparasse, cairíeis redondamente.

Retirado do livro: A arte de aproveitar as próprias faltas de São Francisco de Sales.

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