segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Milagre da Escada de São José.


O Milagre da Escada de São José.


        A piedosa tradição
Há na cidade de Santa Fé, no Estado do Novo México, EUA, uma capela conhecida como Loretto Chapel. Nela destaca-se uma bela e despretensiosa escada. A piedade tradicional atribui a construção a São José.
Cidade de Santa fé, no Estado do Novo México nos EUA.
Em 1898 a Capela passou por uma reforma. Um novo piso superior foi feito, porém faltava a escada para subir. As Irmãs consultaram os carpinteiros da região e todos acharam difícil fazer uma escada numa Capela tão pequena.
As religiosas, então, rezaram uma novena a São José para pedir uma solução. No último dia da novena, apareceu um homem com um jumento e uma caixa de ferramentas. Ele aceitou fazer a escada, porém exigiu que fosse com as portas fechadas.
Meses depois a escada estava construída como queriam as Irmãs. No momento de pagar o serviço, o homem desapareceu sem deixar vestígios. As religiosas puseram anúncios no jornal local e procuraram por toda a região sem encontrar quaisquer notícias ou informações sobre o ignoto carpinteiro. Nesse momento as Irmãs perceberam que o homem poderia ser São José, enviado por Jesus.
Há vários elementos que reforçam a aura de piedoso mistério que envolve a construção da escada: A madeira utilizada não é da região, e ninguém sabe como foi parar lá. Também não foi utilizado prego na escada, apenas pinos de madeira.
Além do mais, hoje soa misterioso que ela se mantenha em pé pois é do tipo caracol e não tem apoio central. Na verdade apenas um apoio colateral metálico foi acrescentado a posteriori que não resolve a essência do incógnita. Diz-se que engenheiros e arquitetos não conseguiram desvendar a física por trás da obra.
Por fim, a escada tem 33 degraus, a idade de Jesus Cristo, o que reforça ainda mais a suposição de um fenômeno de origem sobrenatural.
A Capela recebe em média 200 casamentos e mais de 250 mil visitantes por ano. Ela ficou conhecida como a Escada Milagrosa. Grande número de artigos e programas de TV foram dedicados a ela e seus “mistérios”.
O milagre Segundo São Tomás de Aquino.
Milagre equivale a cheio de admiração, quer dizer, aquilo que tem uma causa oculta em absoluto e para todos. Esta causa é Deus.
“Portanto, chamam-se milagres aquelas coisas feitas por Deus fora da ordem de causas conhecidas por nós. (...) O milagre é uma obra difícil porque excede a natureza. Pela mesma razão se diz que é insólito porque acontece fora da ordem costumeira.” (Suma Teológica, I, q. 107, art 7).
Santo Tomás divide os milagres em três categorias:
A primeira, e a mais impressionante, é a dos fenômenos que contradizem as regras da natureza. Por exemplo, se o sol voltar atrás ou parar. Estes são os milagres maiores.
A segunda categoria é a dos fatos admiráveis produzidos por alguém ou algo que não tem capacidade para realizá-los. Por exemplo, um santo ressuscitar um morto ou fazer andar um paralítico.
O santo, por exemplo, é um ser humano e não pode fazer isso, logo se conclui que interveio a propósito dele uma força superior capaz de fazer o prodígio. E esta força só pode ser sobrenatural, Angélica ou Divina. São os milagres de segunda grandeza.
Por fim, a terceira categoria, é a dos fatos que excedem a natureza pelo modo e pela ordem que são produzidos. Por exemplo, um encadeamento de fenômenos que é inexplicável para os homens. Em si cada elo da corrente é explicável, mas a sucessão é tão rara que na prática nunca acontece.
Enche de maravilha por tanto que aconteça, e tem propósito falar de milagre, pois interveio uma causa sobrenatural que fez funcionar a natureza com um modo e com uma ordem que maravilha aos homens. É a categoria ínfima dos milagres.
Fonte: Site Oficial da Capela. http://www.lorettochapel.com/staircase.html

DESESPERO DOS RÉPROBOS NO INFERNO

inferMortuo homine impio, nulla erit ultra spes — “Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma” (Prov. 11, 7).
Sumário. Enquanto o pecador vive, há sempre esperança de conversão; mas quando a morte o arrebatou no estado de pecado, não lhe resta mais esperança alguma e verá sempre diante dos olhos a sentença de sua eterna condenação. Sim, porque o inferno tem uma porta de entrada, mas não de saída. O que o réprobo começa a sofrer no primeiro dia da sua entrada, terá de sofrê-lo sempre. Qual não seria, pois, o nosso desespero, se por desgraça nos viessemos a condenar!… Ó Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, castigai-me como quiserdes, mas poupai-me na eternidade.
Quem entra uma vez no inferno, nunca mais dele sairá. Este pensamento fazia Davi exclamar tremendo: “Ó Senhor, não me afogue a tempestade, nem me absorva o mar profundo, nem cerre o poço a sua boca sobre mim.” (1) Mal cai um réprobo neste poço de tormentos, logo se fecha a entrada e não se abre mais. O inferno tem uma porta de entrada, mas não de saída, diz Eusébio Emisseno: Descensus erit, ascensus non erit. Eis como ele explica as palavras do salmista: Não cerre o poço a sua boca sobre mim: Enquanto vivo, pode o pecador ter esperança de conversão, mas se a morte o surpreender no estado de pecado, perdê-la-á para sempre: Morto o homem ímpio, não restará mais esperança alguma.
Se os condenados pudessem ao menos embalar-se em alguma falsa esperança e assim achar algum alívio na sua desesperação! O homem enfermo mortalmente e estendido no leito, apesar de desenganado pelos médicos, ainda busca iludir-se e consolar-se dizendo: “Quem sabe se ainda não se encontra um médico ou um remédio que me possa curar?” Um criminoso condenado às galés perpétuas acha também uma consolação neste pensamento: “Quem sabe se algum acontecimento não me tirará destas cadeias?” Se o réprobo pudesse ao menos dizer igualmente: “Quem sabe se um dia não sairei desta prisão?” E assim iludir-se com alguma falsa esperança. Mas não: no inferno não há esperança, nem verdadeira nem falsa; não há o quem sabe.
Statuam contra faciem (2) — “Eu t´o porei diante de tua face”. O desgraçado réprobo terá incessantemente diante da vista a sentença que o condena a gemer eternamente nesse abismo de sofrimentos. O condenado não sofre somente a pena de cada instante, mas sofre a cada instante a pena da eternidade, vendo-se obrigado a dizer: O que sofro atualmente, sofrê-lo-ei sempre.Pondus aeternitatis sustinent, diz Tertuliano: os réprobos gemem sob o peso da eternidade.
Dirijamos ao Senhor a súplica que lhe fazia Santo Agostinho: “Meu Deus, queimai e cortai aqui, não me poupeis, a fim de que possais perdoar-me na eternidade.” As penas da vida presente são passageiras: Sagittae tuae transeunte; mas os castigos da outra vida nunca têm fim. Temamo-los, pois, temamos esse trovão: Vox tonitrui tui in rota (3); esse trovão da condenação eterna, que, no dia do juízo, sairá contra os réprobos da boca do divino Juiz: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (4). Diz-se: in rota; porque a roda é a imagem da eternidade, que não tem fim. Será grande o suplício do inferno, mas o que mais nos deve assustar é ser o castigo irrevogável.
Ó meu Redentor, se eu atualmente estivesse condenado, como mereci tantas vezes, não haveria para mim esperança de perdão. Ah, Senhor, agradeço-Vos o tempo e as luzes que ainda me concedeis e prometo mudar de vida. Como? Esperarei porventura que me mandeis ao inferno? Eis-me aqui prostrado aos vossos pés; recebei-me na vossa graça. Outrora fugia de Vós; mas agora estimo a vossa amizade mais do que a posse de todos os reinos da terra. Não quero mais resistir aos vossos convites. Vós me quereis todo para Vós; todo inteiro me consagro a Vós. Sobre a cruz Vos destes todo a mim, eu me dou todo a Vós.
Prometestes: Si quid petieritis me in nomine meo, hoc faciam (5) — “Se me pedirdes alguma coisa no meu nome, fá-lo-ei”. Ó meu Jesus, confiado na vossa bela promessa, no vosso nome e pelos vossos merecimentos peço-Vos a vossa graça e o vosso amor. Fazei que na minha alma reine a vossa graça e o vosso santo amor, assim como nela reinou o pecado. Graças Vos dou por me terdes animado a fazer-Vos este pedido; pois isto me afiança que serei atendido. Atendei-me, ó meu Jesus, e dai-me um grande amor para convosco, dai-me um grande desejo de Vos agradar e a força para o executar. — Ó minha poderosa Advogada, Maria, atendei-me também vós, e rogai a Jesus por mim. (*II 124.)
Ps. 68, 16.
2. Ps. 49, 21.
3. Ps. 76, 19.
4. Matth. 25, 41.
5. Io. 14, 14.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

domingo, 29 de novembro de 2015

MARIA SANTÍSSIMA LIVRA OS DEVOTOS DO INFERNO

Qui audit me, non confundetur: et qui operantur in me, non peccabunt— “Aquele que me ouve, não será confundido, e os que obram por mim, não pecarão” (Ecclus. 24, 30).
Sumário. É impossível que se perca um devoto de Maria que fielmente a serve e a ela se recomenda. Com efeito, como poderíamos imaginar que Maria, a mais amante de todas as mães, podendo livrar um filho seu da morte eterna só com um pedido ao Juiz da graça, deixe de o fazer? Eis porque o demônio detesta tanto a alma devota da divina Mãe e se esforça por fazê-la relaxada. Examina a tua devoção à Santíssima Virgem, e toma a resolução de a fazer crescer mais e mais.
A asserção de que é impossível um devoto de Maria Santíssima condenar-se não se estende àqueles devotos que abusam da sua devoção a fim de pecar com menos temor; porque esses presumidos, pela sua confiança temerária, merecem castigo e não misericórdia. Estende-se tão somente àqueles devotos que, com o desejo de se emendarem, são fiéis em obsequiar à divina Mãe e em recomendar-se a ela. Estes digo eu que é moralmente impossível perderem-se, porquanto a benigníssima Senhora alcançar-lhes-á luz e força para saírem do estado de perdição.
Esta sentença é conforme à doutrina dos Padres e Doutores da Igreja. Santo Anselmo diz que “assim como quem não é devoto de Maria nem dela é protegido, é impossível que se salve; assim também é impossível que se condene quem se encomenda à Virgem e dela é visto com complacência”. Confirma isto Santo Antonino quase com as mesmas palavras. E Santo Hilário acrescenta que isto sucederá ainda àqueles que no tempo passado ofenderam muito a Deus. Pelo que Santo Efrém dá à Nossa Senhora o belo título de Protetora dos condenados: Patrix damnatorum; e chama a devoção à Virgem salvo-conduto para não ser desterrado para o inferno:Charta libertatis.
E na verdade, se é certo o que diz São Bernardo, que à Maria não pode faltar nem poder nem vontade de nos salvar, como poderá suceder que um devoto fiel seu se perca? Que mãe, podendo facilmente livrar seu filho da morte com um só pedido de graça ao juiz, deixaria de o fazer? E poderemos pensar que Maria, a Mãe mais amorosa que possa haver, podendo livrar um filho da morte eterna, e podendo-o fazer tão facilmente, não o queira fazer? Ah! Isso é impossível!
Eis porque tanto desagrada ao demônio ver uma alma que persevera na devoção à divina Mãe, e porque ele se esforça tanto para fazê-la perder esta devoção. O espírito maligno sabe que nunca sucedeu e nunca jamais sucederá que um servidor humilde e obsequioso de Maria se perca eternamente.
Examina a tua devoção à Maria, e toma uma resolução firme de a aumentar continuamente. Dá graças ao Senhor por te haver dado esse afeto e confiança para com a divina Mãe, porque Deus não faz esta graça senão com aqueles aos quais quer salvar. Dá graças também à Santíssima Virgem pela proteção que te dispensou até agora, livrando-te tantas vezes de cair no inferno; pede-lhe perdão de tua pouca correspondência ao seu amor, e pede-lhe que para o futuro continue sempre a proteger-te.
Ó Mãe de Deus, Maria Santíssima, quantas vezes tenho, pelos meus pecados, merecido o inferno! Talvez se houvesse executado a sentença desde o primeiro pecado meu, se, na vossa misericórdia para comigo, não tivésseis suspendido a ação da divina justiça; triunfado depois da dureza do meu coração, me reduzistes a pôr em vós a minha confiança. Ai! em quantas outras faltas não teria caído depois, no meio dos perigos que me cercavam, se vós, ó Mãe amantíssima, não me tivésseis preservado pelas graças que me alcançastes. Ó minha Rainha, de que me servirão vossa misericórdia e os favores com que me tendes prevenido, se vier a condenar-me? Se houve um tempo em que não vos amava, de presente amo-vos, depois de Deus, acima de todas as coisas.
Não permitais, eu vos conjuro, que me separe de vós e de Deus, que por intermédio vosso me cumulou de tantas misericórdias. Amabilíssima Soberana minha, não consintais que eu vá odiar-vos e maldizer-vos eternamente no inferno. Podereis sofrer que se condene um dos vossos servos que vos ama? Ó Maria, que me respondeis? Condenar-me-ei? Serei condenado se vos abandono; mas quem teria coragem para vos abandonar? Como poderia esquecer o amor que me tendes consagrado? Não, não se perderá aquele que fielmente se recomenda a vós e a vós recorre. Ó minha Mãe, não me abandoneis a mim mesmo; de contrário perder-me-ei. Fazei que sempre recorra a vós. Salvai-me, esperança minha, preservai-me do inferno e, primeiro que tudo, do pecado, que só me pode precipitar no inferno. (*I 114.)
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

sábado, 28 de novembro de 2015

A SANTÍSSIMA EUCARISTIA, NOSSA FORÇA CONTRA NOSSOS INIMIGOS

eucaParasti in conspectu meo mensam adversus eos, qui tribulant me — “Preparaste uma mesa diante de mim, contra aqueles que me angustiavam” (Ps. 22, 5).
Sumário. Meu irmão, se te achas languido no bem, fraco no combate espiritual, põe a culpa sobre ti mesmo, porque não recebes a divina Eucaristia, ou a recebes sem as devidas disposições. Todos os Santos testemunham, e a experiência o confirma, que este divino Sacramento apaga o fogo das paixões, dá força e coragem para vencer o mundo com as suas vaidades, e debela todas as forças dos inimigos infernais. Numa palavra, os demônios, vendo uma alma incorporada no seu divino Chefe pela santa comunhão, ficam atemorizados e sem forças contra ela.
É com razão que a Santíssima Eucaristia foi simbolizada pelo pão milagroso que o Anjo preparou para Elias; pois, assim como o Profeta se sentiu de tal modo fortalecido, que pôde subtrair-se à fúria de Jesabel e chegar ao monte do Senhor, assim os cristãos fortalecidos por este pão divino terão força para vencer todos os formidáveis inimigos que lhes estorvam o caminho da perfeição.
Diz São Cirilo de Alexandria, e confirma-o Santo Tomás, que, “quando Jesus Cristo está dentro de nós, mitiga o ardor da nossa concupiscência, acalma as inclinações desregradas da carne, e robustece a piedade”. Este Sacramento, qual fonte de água, apaga o fogo das paixões que nos consomem; por isso, quem se sentir abrasado pelo fogo de alguma paixão, aproxime-se da Mesa sagrada e logo a paixão será morta ou amortecida. — Pelo que dizia São Bernardo: “Meus irmãos, se alguém não sente tão freqüente nem tão violentamente os movimentos da ira, da inveja, da incontinência, agradeça-o ao Santíssimo Sacramento, que operou nele tão salutar mudança.”
Mais admirável ainda é a força que este alimento divino nos comunica para vencermos o mundo com as suas vaidades. D´onde credes que tiraram os primeiros cristãos aquela força heróica pela qual arrostavam a perda de todos os bens e mesmo a vida, entre os tormentos mais cruéis? Da recepção freqüente da santíssima Eucaristia: Erant perseverantes in communicatione fractionis panis — “Eles perseveravam na comunhão do partir do pão”. Foi ali também que todos os santos acharam a força para se porem acima de todo o respeito humano.
Pelo seu entranhado amor a Jesus sacramentado, São Wenceslau, rei da Bohemia, não se contentava com a comunhão freqüente nem com as visitas repetidas do Santíssimo Sacramento, também durante as noites e no mais rigoroso do inverno; mas com as suas próprias mãos colhia o trigo e as uvas, preparava as hóstias e o vinho para uso no sacrifício da missa, desafiando desta maneira o mundo, que não podia com os seus dictérios desviá-lo daquela boa obra que ao pé dos altares ele resolvera praticar.
A santíssima Eucaristia mostra sobretudo o seu poder irresistível em combater por nós e conosco o inferno e em repelir todos os assaltos do demônio. O Doutor Angélico diz que os demônios, quando, pela santíssima Eucaristia, nos vêem unidos e, por assim dizer, incorporados a Jesus, nosso Chefe e Mestre, eles tremem, fogem e deixam de nos molestar, ou se ainda voltam ao assalto, as tentações pouca força têm para nos vencer: Repellit omnem daemonum impugnationem.
Acrescenta São João Crisóstomo que, vendo-nos tintos com o sangue de Jesus Cristo na santa comunhão, os demônios põem-se em fuga e os anjos acodem para nos fazer companhia. De tal modo que nos levantamos da sagrada Mesa como leões, animados de um ardor santo, e longe de temermos os espíritos infernais, somos para eles terríveis e formidáveis: Tamquam leones ignem spirantes ab illa mensa surgamus, diabolo formidabiles. — Daí provém essa profunda paz interior, essa forte inclinação para o bem, essa prontidão na prática das virtudes, essa facilidade em andarmos no caminho da perfeição.
Portanto, meu irmão, se por desgraça te sentes languido no bem, fraco no combate espiritual, acusa-te a ti próprio dizendo com Davi: “Fui ferido como feno, e o meu coração se secou, porque me esqueci de comer o meu pão” (1), que é a santíssima Eucaristia; e ao mesmo tempo toma a resolução de seres mais diligente no futuro.
† “Eis aqui a que ponto chegou a vossa excessiva caridade, ó meu amantíssimo Jesus! Vós me preparastes uma divina mesa com a vossa carne e preciosíssimo sangue, para Vos dardes todo a mim. Quem pode impelir-Vos a tais transportes de amor? Foi unicamente o vosso amorosíssimo Coração. Ó Coração adorável do meu Jesus, fornalha ardentíssima do divino amor, recebei na vossa sacratíssima chama a minha alma, para que, nesta escola de caridade, aprenda eu a pagar com amor ao meu Deus que me deu provas tão admiráveis de seu amor.” (2) — Fazei-o pelo amor de vossa e minha querida Mãe, Maria. (*IV 294.)
Ps. 101, 5.
2. Indulg. de 100 dias.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Os danos do pecado venial - Dos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loiola


A gravidade do pecado venial é a sua disposição para o pecado mortal:

(Se o pecado venial é desta gravidade, qual não será a do pecado mortal?) -  (Padre Alexandrino Monteiro, S. J.) 

Entre os hebreus usavam-se duas sortes de pesos e de balanças. Havia o chamado peso do Santuário, que era verdadeiro e justo; e o chamado peso público, que era falso e injusto.
Ora, com duas sortes de balanças se pesam também os pecados dos homens. Se se pesam na balança pública do mundo, que é mentirosa e falaz (Prov 11, 1), dir-se-á que o pecado mortal não é coisa de valor, e que o venial, como leve que é, não tem nenhuma importância. Mas esse modo de pensar já o lamentava Santo Antônio de Pádua em seu tempo (Dom. 4 post Trin.).

Os Santos, porém, e as almas iluminadas pela fé, pesam o pecado venial com a balança do Santuário, e por isso, o choravam e detestavam de morte. Santa Catarina de Gênova quase morria ao considerar a gravidade do pecado venial; e São Luís Gonzaga [em sua primeira confissão] caiu desfalecido aos pés do confessor, depois de confessar suas levíssimas culpas. São João Crisóstomo chegou a dizer que lhe parecia que se deviam evitar com mais cuidado os pecados veniais que os mortais. E dá a razão: os pecados mortais por sua natureza repelem [a alma justa]; porém, os veniais, por isso mesmo que são leves, não amedrontam, e se cometem facilmente.

Meditemos, pois, sobre o pecado venial, para nos enchermos de um grande temor de o cometer. Dividiremos a meditação em três pontos:
I. O que é o pecado venial;
II. Os danos que causa à alma;
III. Como Deus o castiga. (...)

Ah! Meu Deus, meu divino Samaritano, eu, pelos meus pecados veniais, me encontro ferido e despojado dos bens sobrenaturais, e só me encontro com a vida da graça. Tende compaixão de mim, curai a minha alma de tantos pecados veniais. Curai-me com o óleo das Vossas divinas inspirações, e com o vinho do Vosso amor fortificai a minha vontade para me levantar, e começar a viver uma vida mais fervorosa.


I. O que é o pecado venial


Verdadeiramente sábio é aquele que julga das coisas como elas são. Ora, vejamos à luz da fé e da teologia o que é o pecado venial. São Tomás diz que o pecado mortal é uma desordem da alma, pela qual volta as costas a Deus, seu último fim, para aderir à criatura. Para adquirir algum bem temporal, perde o princípio da vida espiritual, que é a caridade do amor de Deus e a graça. Pelo pecado venial, a alma adere a algum bem mundano, mas não de modo que renuncie ao seu último fim, e sem perder o princípio vital da graça. Está enferma, mas não está morta.


1. Suposto isto, discorramos. É certo que o pecado venial não despreza a Deus como o mortal; todavia não faz de Deus a devida estima. Não se opõe de todo à Vontade divina, mas opõe-se-lhe ao menos no modo, como diz S. Tomás (1-2, q. 88, a. I). Desgosta a Deus, não observando perfeitamente os Seus mandamentos.
E se é assim, como se pode chamar leve? Quem tal dissesse proferiria uma blasfêmia, segundo afirma São Bernardo.

No pecado venial não se há de considerar tanto a leve transgressão do divino preceito, quanto a infinita majestade de Deus, que só se contenta com a perfeita observância dos Seus mandamentos. São Jerônimo, escrevendo a Celância, diz: 'Não sei se podemos chamar leve algum pecado que se comete com desprezo de Deus. E só é prudentíssimo aquele que não considera só o que se manda, mas quem manda; nem quão grande é a ordem, mas a dignidade do que ordena'.

2. Ajuntemos a isto que, se o homem falta ao divino preceito em uma coisa pequena, por isso mesmo comete uma falta indesculpável, porque poderia facilmente evitá-la.
Foi maior a culpa de Adão por não obedecer a Deus em coisa tão leve, como era privar-se de comer um fruto, ordem que tão facilmente podia cumprir. Naamam foi censurado também por não cumprir uma lei tão fácil, que lhe impôs o profeta para o curar da lepra, como era banhar-se sete vezes no Jordão. A culpa de Naamam está em que, sendo-lhe imposta condição tão fácil para o curar da lepra, a não quis aceitar por achá-la tão ligeira. Se lhe impusesse o profeta algum remédio violento, certamente que o tomaria. O mesmo motivo tira toda escusa a quem comete um pecado venial; pois, se para evitá-lo tivesse de suportar grande fadiga e vencer uma grande repugnância, poderia haver alguma desculpa se não o evitasse; mas para vencer-se numa coisa tão fácil, que desculpa pode haver?

3. Além disto, devemos considerar o pecado venial em duas relações importantes: em relação à pessoa ofendida, que é Deus; e em relação à pessoa ofensora, que é o pecador.
Com relação à majestade da pessoa ofendida: quem não sabe que, tratando-se de um alto personagem, ninguém tem por leve a menor falta de respeito? Com freqüência lemos nas histórias como grandes príncipes castigaram, com a pena de morte, as menores faltas de atenção e respeito dos seus vassalos. E será o pecado venial uma coisa tão ligeira, ofendendo e desgostando a infinita majestade de Deus? 'Nunca é leve desprezar a Deus numa coisa pequenina', diz São Bernardo. A Lei de Deus se há de guardar como a menina dos olhos, aos quais basta um argueiro para lhes causar uma grande dor.

Com relação à qualidade da pessoa ofendida, que é Deus sob o título de Pai, que filho haverá tão desleal e ingrato, que diga: 'A meu pai não quero tirar-lhe a vida, nem feri-lo mortalmente. Isso não; mas quero desgostá-lo de manhã até à noite, e magoá-lo nas mais pequenas coisas'. Que filho desnaturado seria este! Pois outro tanto faz o pecador com Deus, seu Pai, pagando-Lhe os benefícios com ingratidões, com desacatos, com indelicadezas. É semelhante aos judeus, que não só crucificaram a Cristo, mas O flagelaram, coroaram de espinhos, e insultaram com palavras sarcásticas e afrontosas. E parecerá a alguém coisa leve tanta impiedade?

Com relação ao ofensor, quanto aumenta a malícia do pecado venial o ser cometido por uma alma justa, que pela graça santificante é amiga de Deus, filha adotiva e esposa do Espírito Santo? Quem não sabe que os desgostos e ofensas que se recebem de um amigo, e muito mais de um filho ou de uma esposa, são sempre muito mais sensíveis, que as ofensas recebidas de um estranho ou de um inimigo?

O patriarca Jacó não acabava de se lamentar de que Ruben, seu primogênito, e a quem amava como a pupila dos seus olhos, tivesse cometido em sua própria casa um delito (Gn 49, 3). E o divino Salvador, na traição de Judas, parece sentir menos a entrega a Seus inimigos, que a ingratidão de um discípulo, de uma pessoa, por assim dizer, de Sua família, que por tantos títulos Lhe estava obrigada. Do que se lamentou por boca do profeta Davi: Se meu inimigo me atraiçoasse, eu o suportaria facilmente; mas, tu, meu discípulo e apóstolo?... (Sl 54, 13).
Aqui é o lugar de refletir, como sendo eu tão amado de Deus, de Quem estou recebendo continuamente tantos benefícios, ouso desgostá-lO com as minhas infidelidades, com as minhas culpas, ligeiras sim, mas que ferem profundamente o Seu amoroso Coração. A estas culpas e ingratidões chama o Senhor, pelo profeta Zacarias, feridas profundíssimas que recebe dos que Lhe são mais caros: ' -Que querem dizer estas feridas em meio de tuas mãos? -Delas fui traspassado na casa daqueles que me amavam' (Zac 13, 6).

Objeção: Apesar de tudo, o pecado venial não é culpa grave.
Resposta: Primeiramente, o pecado venial é culpa leve em comparação com o mortal, mas não assim considerado em si mesmo. Assim a Terra é um ponto em relação ao Céu, mas em si mesma é uma imensa massa que tem de circunferência vinte e duas mil léguas.
Em segundo lugar, o pecado venial, ainda que seja leve no gênero de culpa, não se pode dizer que o seja também no gênero de mal. E é tão grande mal que, para perdoá-lo, foram necessários os méritos de Cristo, como diz São Bernardo. O divino Redentor derramou todo o Seu Sangue não só para pagar os pecados mortais, mas também para satisfazer pelos veniais; e nas santas indulgências se aplica o tesouro dos méritos de Cristo para satisfazer à divina Justiça tanto pelos pecados mortais quanto pelos veniais.

E pode chamar-se pequeno mal aquele pelo qual a Sabedoria infinita de Deus julgou conveniente derramar o Seu Sangue de infinito valor?
O pecado venial é tão grande mal que não há, acima dele coisa pior, senão o pecado mortal.
Sob qualquer aspecto que se encare, o pecado venial é pior que o inferno, pois, como diz Suárez, sendo o inferno pura pena, poderia escolher-se [de preferência ao pecado]; mas o pecado venial, sendo mal de culpa, não se pode escolher em nenhum caso. [Seria preferível padecer o inferno a cometer um pecado venial.]

É tão grande mal o pecado venial, que não pode cometer-se nem por obter algum grande bem, nem por evitar um grande mal. Se alguém pudesse, com uma leve mentira, salvar todos os condenados do inferno, ou converter todos os infiéis, não deveria, por forma alguma, proferí-la.
Finalmente, supondo mesmo, o que não é verdade, que o pecado venial é coisa leve, tanto em razão da culpa quanto em razão do mal, convêm refletir no número incalculável destas culpas, que se cometem desde pela manhã até à noite. Donde disse Santo Agostinho: 'Se não temes estes pecados quando os pesas, teme-os quando os contas'.
Se o pecado mortal é como o raio que mata, os pecados veniais são como o granizo que fustiga a vinha da alma. Por isso disse Quintiliano: Se não ofendem como raio, prejudicam, ao menos, como saraiva.

Se o pecado mortal é um mar, que faz naufragar o navio, os pecados veniais são outras tantas gotas que, unidas, igualmente o podem afundar. E, no caso de naufragar, pouco importa, diz Santo Agostinho, que isto aconteça por uma furiosa tempestade, ou que a água entre por uma fenda, gota a gota.
Não queremos com isto dizer que muitos pecados veniais façam um mortal; mas que muitos pecados veniais dispõem para o mortal [e com disposição próxima.]


II. Danos do pecado venial


Muitos são os danos que o pecado venial acarreta à alma.

O primeiro é a mancha que lhe imprime, e a torna abominável aos olhos de Deus. O rei Nabucodonosor ordenou a seus ministros que lhe escolhessem para pajens jovens puros, sem defeito e sem mancha, porque doutra forma não seriam aceitos e gratos a seus olhos (Dn 1, 4). Assim também quis Deus que os justos fossem isentos da menor culpa, porque, de outra maneira, os olharia com desagrado e desdém.

Este é, também, o modo de proceder entre os homens. Um vestido só presta quando estiver isento de qualquer mancha, ainda que não esteja rasgado. Uma rainha, por mais rica e majestosa que seja, se tem no rosto um defeito, perde toda a sua graça e beleza, e deixa de ser admirada e estimada pelos homens. Ora, a alma rica de virtudes e de dons sobrenaturais, ainda que seja verdadeiramente rainha pela graça santificante, pelo pecado venial torna-se disforme aos olhos de Deus, que não mais se compraz nela, e a olha como objeto de repulsão.

Uma dama espanhola, dirigida espiritualmente pelo padre João d'Ávila, teve ardente desejo de ver o estado de sua alma, e pediu ardentemente a Deus que lho mostrasse. Apareceu-lhe um Anjo com uma menina cheia de chagas purulentas, que dava compaixão, e disse-lhe: 'Esta é a tua alma'. Ficou a serva de Deus aterrorizada com esta aparição, e correu a manifestar ao seu diretor espiritual o que tinha visto. 'E essa menina estava viva ou morta?', perguntou-lhe o padre. 'Viva', replicou a serva de Deus. 'Consolai-vos em parte, porque, se a menina estava viva, é sinal de que a vossa alma está na graça santificante', disse o venerável padre.

O segundo dano do pecado venial à alma, é privá-la das graças atuais que o Senhor lhe concederia, se fosse mais pura e isenta de culpas. Estas graças atuais são certas luzes mais vivas na mente para conhecer o bem, certas inspirações mais eficazes para mover o coração e a vontade, certa compunção e doçura espiritual na oração, maior coragem para resistir às tentações, e outras semelhantes.

Assim como um pai, desgostado pelas muitas desobediências de um filho, não lhe faz certas finezas, que lhe faria se fosse mais obediente: assim Deus, indignado pela ingratidão do homem que se contenta só com não ofende-lO mortalmente, o priva de muitas graças especiais, que lhe concederia se o visse mais fervoroso em Seu serviço.

Quantos se desgostam e maravilham porque não encontram gosto na oração; porque, pedindo de contínuo a Deus e aos Santos, não são ouvidos; porque se encontram sempre tão fracos e débeis na tentação! E como podem pretender que Deus os favoreça com graças especiais, se eles se tornam indignos delas, pelos freqüêntes pecados veniais, com que se tornam desagradáveis aos divinos olhos? Como podem resistir aos assaltos das tentações se, pelos pecados veniais, se vêem abandonados dos auxílios celestes?

O terceiro e maior dano que o pecado venial causa à alma, é dispô-la para o pecado mortal. Isto sucede de dois modos, como ensina São Tomás: ou indiretamente, porque, retirando-lhe Deus os mais poderosos auxílios de Sua graça, naturalmente enfraquece e cai no pecado mortal; ou diretamente, porque, acostumando-se a cometer muitas vezes culpas leves, pouco a pouco chega, pelo mau hábito, a cair em culpas graves.

E além disto, acrescenta São Tomás que o pecado venial difere do mortal como uma coisa, imperfeita no seu gênero, difere de outra, perfeita; e como um menino, de um adulto (1-2, q. 88, art. 6, ad 1). Assim como fugimos de ter ao nosso lado um leãozinho, com receio de que se assanhe e nos mate, assim devemos ter longe de nós toda culpa venial, com receio que, de pequena, se torne uma grande fera, e nos estrangule e mate. Assim foi que a curiosidade de Eva degenerou numa grave desobediência; o afeto de Judas ao dinheiro, em deicídio; a política de Pilatos, na condenação de Jesus; e a imprudência de Salomão em casar-se com pagãs, em idolatria.

Por isso, o profeta Isaías se lamenta de que os pecadores preparem, com os seus pecados veniais, a corda com que hão de ser arrastados ao inferno (Is 5, 18). As cordas, retorcendo em si muitos fios, formam os grandes cabos, que suportam grandes pesos e seguram os navios. Assim os pecadores, comenta Santo Agostinho, multiplicando os pecados veniais, se dispõem para os mortais, que os arrastam à perdição.

Entremos dentro de nós mesmos e examinemos os muitos defeitos a que a nossa alma está habituada, para não nos acontecer o que a muitos têm acontecido. Santa Teresa escreve, em sua Vida, que foi levada ao inferno, e lá viu o lugar que haveria de ocupar, se não se emendasse de certos pecados veniais em sua juventude.
O piloto, quando vê ao longe uma nuvenzinha no céu azul, prevendo a tempestade, colhe as velas e refugia-se em lugar seguro. Quando o céu da nossa alma se escurecer com alguma nuvem de pecado venial, tomemos precaução, porque pode vir a tempestade da tentação e levar-nos a cair no pecado mortal.

Sigamos o conselho dos mestres espirituais, que nos avisam que de pequenos princípios nascem tremendas conseqüências, e que o demônio procura levar gradualmente as almas das pequenas faltas às grandes, como diz São Doroteo (Serm. 3).


III. Castigos do pecado venial


A pena, como uma sombra, segue a culpa; e, assim como da grandeza da sombra se deduz a grandeza do corpo, assim da gravidade dos castigos com que Deus pune o pecado venial, se pode claramente deduzir a gravidade de sua malícia. Tanto mais que, sendo Deus a infinita justiça, castiga com toda a proporção; sendo a infinita sabedoria, sabe até onde deve ir a proporção do castigo; e, sendo incapaz de paixão humana, não pode castigar mais do que deve, nem por arrebatamento da cólera, nem por falsa apreesão, nem por desordenado sentimento.


Posto isto, vejamos como Deus castigou o pecado venial, nesta vida, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

No Antigo Testamento, Moisés, tão favorecido de Deus, caminhando para o Egito a fim de libertar o povo de Israel, saiu-lhe ao encontro um Anjo para o matar (Ex 4, 24). E por qual pecado se viu Moisés nesse perigo? Porque tinha adiado circuncidar seu filho - não porque não o quisesse circuncidar, mas diferia fazê-lo por um terno afeto, que não passava de pecado venial. Mas Séfora, sua consorte, logo circuncidou o menino e com isto se aplacou a ira do Anjo.

Enviou Deus um profeta a Betel, ao rei Geroboão, com ordem de não comer pão pelo caminho, nem beber água (3 Rs 13). Fê-lo assim o profeta, mas, na volta, encontrou-se com outro profeta venerável, que o enganou, dizendo-lhe que entrasse em sua casa, que esta era a Vontade de Deus, e se fortificasse. Assim o fez o crédulo profeta, e comeu pão e bebeu água. Este pecado do profeta foi, certamente, venial. Não obstante, Deus fez sair de uma floresta um leão, que o matou. E para que se entendesse que isto acontecera, não por fome do leão, mas por culpa do profeta, não só o leão não devorou o corpo morto, mas guardou-o até ser sepultado.

Pela curiosidade de ver o incêndio de Sodoma, a mulher de Lot foi convertida em estátua de sal.
Por uma vã complacência que teve Davi em olhar para o seu fortíssimo exército, foi castigado com uma peste, que em três dias matou setenta mil pessoas.

No Novo Testamento, lemos nos fastos da Igreja gravíssimas penas com que Deus tem castigado o pecado venial. São Jerônimo narra de Santo Hilário que, por uma distração não repelida, permitiu Deus que o demônio saltasse sobre ele e o flagelasse.
Santo Odão, abade, escreve de São Gerardo Conte, que ficou cego por ter olhado fixamente para o rosto de uma menina.

Conta Paládio de um santo homem, que vivia em grande austeridade, ao qual Deus por muitos anos mandava, por um anjo, um alvíssimo pão, que lhe bastava para dois dias. Depois de algum tempo começou a pensar, por vaidade, que era melhor do que os outros. Logo Deus o castigou mandando-lhe, em vez de pão branco, pão negro.

Um dia Santa Francisca Romana sentiu que lhe davam uma valente bofetada. Voltou-se para ver quem a tinha ferido, e viu um Anjo que lhe disse: 'Esta bofetada te dei, em castigo do ócio com que estavas perdendo o tempo, que é tão precioso'.

Mas os maiores castigos do pecado venial são na outra vida.

Primeiramente, é sentença de São Tomás, de São Boaventura e do comum dos teólogos que, se um pecador morre sem a graça de Deus, e leva pra o inferno, juntamente com um pecado mortal, um pecado venial não perdoado, deverá sofrer lá uma dupla pena eterna, por um e por outro. E a razão é clara: porque no inferno não há redenção, e não lhe sendo perdoada a culpa venial, também não lhe será remitida a pena que lhe é devida.

Em segundo lugar, os pecados veniais, pelos quais não fizemos penitência, serão castigados no Purgatório com penas atrocíssimas. Se alguém neste mundo, por uma mentira ligeira, devesse ser lançado numa fogueira ardente, que horror não nos causaria! Mas o seu tormento seria breve, pois logo morreria. Mas as almas do Purgatório sofrem e não morrem; e sofrem não por um momento, mas por muitos anos, e até milhares de anos. E não é qualquer fogo o do Purgatório. Santo Agostinho diz que 'com o mesmo fogo é atormentado o condenado e purificado o eleito'.

Não é, pois, o pecado venial, coisa tão ligeira e insignificante, que não temamos cometê-lo.
São Maurício bispo, por se descuidar em batizar um menino, que logo morreu, renunciou ao bispado e se condenou a viver sempre peregrinando.
Santo Eusébio, por uma distração voluntária na oração, condenou-se a ter sempre os olhos baixos e a não olhar para objeto terreno.
O sacerdote Evágrio, em penitência por uma pequena distração, passou quarenta dias sem se sentar.

De São Paulo Eremita, escreve São Jerônimo em seu epitáfio, que chorava os pecados leves como se fossem gravíssimos crimes.
E quem terá tão pouco juízo que, podendo neste mundo resgatar a pena devida por seus pecados veniais com menores castigos, deixe para o fogo do Purgatório satisfazer por eles?

(Padre Alexandrino Monteiro, S. J., Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, II Edição, Editora Vozes, Petrópolis: 1959, páginas 116-128)

Fonte:

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Santo Rosário, consolação na hora do Juízo

Evite cuidadosamente fazer o que certa piedosa mas voluntariosa senhora de Roma fez.


Era uma pessoa tão piedosa e fervorosa que com sua vida santa confundiu os religiosos austeros da Igreja de DEUS.


Ao pedir a São Domingos que lhe aconselhasse sobre sua vida espiritual ela pediu-lhe que a ouvisse em confissão. Por penitência, ele lhe mandou que rezasse um Rosário completo e aconselhou-a que o rezasse diariamente. Ela disse que não tinha tempo para rezá-lo, desculpando-se e dizendo que tinha que fazer as Estações de Roma (1) todo dia, que vestia roupas de sacas, camisas de cilício, que tomava disciplina sobre si várias vezes por semana, que tinha tantas outras penitências e que jejuava bastante. São Domingos aconselho-a novamente e várias outras vezes a seguir seu conselho e rezar o Rosário, mas ela continuava a recusar. Ela saiu do confessionário, horrorizada pela tática de seu novo diretor espiritual, que arduamente lhe persuadia a seguir a devoção que não era de seu agrado.



Mais tarde, quando ela estava orando, caiu em êxtase, e viu sua alma se apresentando diante do Trono do Julgamento de NOSSO SENHOR. São Miguel pôs todas as suas penitências e outras orações em dos pratos da balança e todos os seus pecados e imperfeições no outro. O prato das boas obras ficou grandemente suspenso sem conseguir equilibrar ao outro dos pecados e imperfeições.

Cheia de espanto ela clamou por misericórdia, implorando o auxílio da Santíssima Virgem, sua graciosa advogada, que pegou o único Rosário que ela tinha rezado por aquela penitência e o pôs no prato das boas obras. Só este único Rosário era tão pesado que pesava mais que todos seus pecados e também suas boas obras. Nossa Senhora, então, repreendeu-a por não ter seguido o conselho de seu servo Domingos e por não ter rezado o Rosário diariamente.

Logo que voltou a si, correu e se pôs aos pés de São Domingos e lhe disse o que acontecera, implorou seu perdão por não ter acreditado e prometeu rezar o Rosário fielmente todos os dias. Por este meio ela se elevou à perfeição cristã e finalmente à glória da vida eterna.

Vocês que são pessoas de oração, aprendam disto quão grandioso é o poder, o valor e a importância desta devoção do Santíssimo Rosário quando o mesmo é rezado e unido à meditação sobre os Mistérios.

Poucos santos alcançaram as mesmas alturas em oração que Santa Maria Madalena, que era transportada diariamente aos Céus pelos Anjos, e que teve o privilégio de aprender aos pés do próprio JESUS CRISTO e de Sua Santíssima Mãe. Contudo, um dia quando perguntou a DEUS que lhe mostrasse uma maneira certa de como progredir em Seu amor e como chegar à mais alta perfeição, Ele enviou São Miguel Arcanjo para dizer-lhe em Seu lugar, que não havia outra maneira para se alcançar a perfeição do que a meditação na Paixão de Nosso SENHOR. São Miguel então colocou, na entrada de sua caverna, uma cruz e lhe disse que rezasse diante dela, contemplando os Mistérios Dolorosos que ela presenciara com seus próprios olhos.

Que o exemplo de São Francisco de Sales, o grande diretor espiritual de seu tempo, o estimule a unir-se à santa Confraria do Rosário, já que foi um grande santo, fez votos de rezar o Rosário completo todos os dias de sua vida.

São Carlos Borromeo também rezou todos os dias e com insistência, recomendava a devoção aos pregadores, aos eclesiásticos, nas conferências e a todo o povo.

São Pio V, um dos Papas mais eminentes da Igreja, rezava diariamente o Rosário. São Tomás de Villa Nova, Arcebispo de Valência, Santo Inácio, São Francisco Xavier, São Francisco de Borja, Santa Teresa e São Felipe Neri, bem como muitos outros grandes homens que não pude aqui mencionar foram grandes devotos do Santo Rosário.

Segui seus exemplos! Seus diretores espirituais estarão satisfeitos e se ficarem sabendo dos frutos que se ganha desta devoção, eles serão os primeiros a lhe animar a adotá-la.

O Segredo do Rosário - São Luis Maria Grignon de Monfort.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Escolha das Virtudes


   "A rainha das abelhas nunca sai da colmeia, sem ser rodeada de todo o enxame de seu  povinho, e a caridade nunca entra num coração senão como rainha, seguida de todas as outras virtudes, que aí introduz, dispõe em ordem, segundo a sua dignidade, e fá-las agir, regulando-lhes as funções mais ou menos como um capitão dirige e ordena os seus soldados ; mas não as faz agir todas ao mesmo tempo nem do mesmo modo, nem a todo momento, nem em todos os lugares. O justo - diz David - será corno uma árvore plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará o seu fruto, porque a caridade, animando o coração, o leva à prática de muitas boas obras, que são os frutos das virtudes, mas cada uma a seu tempo e em seu lugar. Esforça-te por compreender exatamente o provérbio da Escritura : A música, sendo em si tão agradável, é importuna no pranto. A evidência nos faz ver este provérbio quanto é defeituoso e fora de tempo o procedimento de muitas pessoas que, entregando-se à prática duma virtude particular, querem opinadamente praticá-la em todas as ocasiões ; são semelhantes àqueles filósofos dos quais um queria rir e outro chorar continuamente e são ainda mais desarrazoados que eles, porque se queixam de quem não faz o mesmo e o censuram. Muito errado compreendem o apóstolo S. Paulo, que diz que nos devemos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram e acrescenta que a caridade é paciente, benigna, liberal, prudente, condescendente. 
   Há, no entanto, · virtudes que se devem exercer por quase toda parte, e que não se limitando aos próprios atos particulares, devem compenetrar de seu espírito todas as outras virtudes. Não se oferecem muitas vezes ocasiões de praticar a fortaleza, a magnanimidade, a paciência ; masa brandura, a temperança, a modéstia, a honestidade e a humildade são virtudes cujo espírito e caráter se devem manifestar em todas as nossas ações. As primeiras são mais excelentes e sublimes, mas as últimas são mais praticadas ; dá-se aqui o que vemos com o sal e o açúcar ; sendo este mais excelente, não é contudo usado tantas vezes e tão geralmente. Por isso nunca nos deve faltar uma boa provisão destas últimas virtudes, tão gerais e comuns. 
   Na prática das virtudes convém preferir as que são mais conformes aos nossos deveres às que são mais conformes ao nosso gosto. Muito se inclinava Santa Paula às austeridades corporais, nas quais pretendia achar abundantes consolações espirituais; mas a obediência correspondia mais aos seus deveres e São jerônimo diz abertamente que, quanto a esse ponto, ela era repreensível, jejuando até ao excesso, contra a vontade de seu bispo. Ao contrário, os apóstolos, a quem Jesus Cristo tinha incumbido ela prega­ção do seu Evangelho e da distribuição do pão celeste às almas, julgaram mui sabiamente que não deviam deixar este ministério para se dedicar a obras de caridade para com os pobres, por mais excelente que seja esta virtude. Todos os estados da vida têm suas virtudes próprias ; assim, as virtudes dum prelado são diferentes daquelas dum príncipe, dum soldado, duma senhora casada ou duma viúva. Embora todos nós devemos possuir todas as virtudes, não as devemos, no entanto, praticar a todas igualmente e cada um deve aplicar-se principalmente àquelas que são essenciais aos deveres de sua vocação. 
   Entre as virtudes que não se referem a nossos deveres particulares, devemos preferir as mais excelentes às mais aparatosas, que muitas vezes nos podem iludir. Os cometas nos parecem em geral maiores que as estrelas, conquanto nem lhes sejam comparáveis nem em grandeza nem em qualidade ; assim os enxergamos, porque estão mais perto de nós que as estrelas.
   Há virtudes que a almas simples parecem maiores que outras e portanto são mais estimadas ; a única razão disto é que estas virtudes, estando mais próximas de seus olhos, lhes dão mais na vista e se adaptam mais a suas idéias, que são muito materiais. Por isso o mundo prefere comumente a esmola corporal à espiritual, os cilí­cios e disciplinas, os jejuns e andar descalço, as vigílias, e toda sorte de mortificação do corpo, à brandura, à benignidade, à modéstia e a todas as mortificações do espírito e do coração, que são, contudo, muito mais excelentes e meritórias. Escolhe, Filotéia, as virtudes que são melhores e não as mais apreciadas, as mais excelentes e não as mais aparatosas, as mais sólidas e


não as que fazem muito alarde e têm muito brilho exterior.
   De grande vantagem é aplicar-se a uma virtude especial, sem negligenciar as demais, para dar maior regularidade às aspirações do coração, mais intensa atenção ao espírito e maior uniformidade às nossas ações.
   Uma donzela de rara formosura, brilhante como o sol, ornada dum modo magnífico e coroada de ramos de oliveira, apareceu um dia a S. João bispo de Alexandria, e lhe disse : Eu sou a filha primogênita do Rei ; se queres granjear o meu amor, conduzir-te-ei a seu trono e acharás graça em sua presença. Conheceu o santo que por esta visão Deus lhe recomendava a misericórdia e desde então se entregou tanto às obras de zelo e liberalidade que mereceu o nome de S. João esmoler. 
   Um homem de Alexandria, por nome Eulógio, querendo fazer alguma coisa de grande por amor de Deus e não tendo ânimo bastante para abra­çar a vida solitária ou viver em comunidade, sob a obediência dum superior, recebeu em sua casa um pobre coberto de lepra, para praticar ao mesmo tempo a caridade e a mortificação ; e, para praticar estas virtudes dum modo mais digno de Deus, ele fez o voto de respeitar, tratar e servir ao seu doente em tudo, como um servo ao seu senhor. 
   Ora. no decorrer do tempo, tanto o leproso como Eulógio foram tentados de se separarem um do outro e contaram ambos a tentação ao grande Santo Antão, que lhes respondeu: Guardai-vos, meus filhos, de separar-vos um do outro ; porque já estais próximos do vosso fim e, se o anjo não vos achar juntos, correis grande perigo de perder as vossas coroas.
   O rei S. Luís visitava os hospitais e cuidava dos doentes com tanto desvêlo como se fosse sua obrigação. S. Francisco amava, sobretudo, a pobreza, a que chamava a sua senhora ; e S. Domingos, a pregação, o que deu o nome à sua Ordem. S. Gregório Magno muito folgava de dar agasalho aos peregrinos, a exemplo do patriarca Abraão, e, como ele, recebeu um dia o Rei da glória na forma de um peregrino. Tobias exercia a caridade, sepultando os mortos. Santa Isabel, sendo uma augusta princesa, achava a sua alegria em humilhar-se a si mesma. Santa Catarina de Gênova, tendo perdido seu marido, dedicou-se ao serviço dum hospital. Cassiano refere que uma jovem virtuosa, que muito desejava se exercer a paciência, recorreu a Santo Atanásio, que a encarregou de uma pobre viúva melancólica, colé­rica, enfadonha e mesmo insuportável, de sorte que como a viúva estivesse constantemente ralhando, a jovem tinha ocasião bastante de praticar a brandura e a condescendência.
   Assim, entre os servos de Deus, uns se dedicam a servir os doentes ; outros a consolar os pobres, outros a ensinar a doutrina cristã às crianças, outros vão atrás das almas desgarradas e perdidas, outros empregam seu tempo a ornamentar os altares e as igrejas, e outros, por fim, levam a vida a restabelecer a paz e a concórdia entre os fiéis.
   Se nos sentimos inclinados e tentados fortemente para um vício, é preciso que envidemos todos os nossos esforços para praticar a virtude que lhe é contrária e a este fim referir a prática das outras virtudes. Deste modo, asseguramo-nos a vitória sobre o inimigo, adquirimos uma virtude que não tínhamos e aperfeiçoamos muito as outras. Se o orgulho e a ira me atacam, é preciso que eu faça o meu coração pender, quanto possível for, para a humildade e a brandura e que convidam para este mesmo fim os meus exercícios espirituais, a recepção dos sacramentos e as outras virtudes, como a prudência, a constância e a sobriedade ; pois, assim como os javalis, para aguçar as presas, as roçam e limam com os dentes, os quais com isso também se afiam e limam, o homem que cultiva uma virtude que tem por mais necessária à defesa de seu coração, deve esforçar-se para se aperfeiçoar neste particular por meio das outras virtudes, que por este modo também vão crescendo em santidade."

Retirado do Livro Filotéia, de São Francisco de Sales, páginas 185 à 192.