segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Da oração depende a nossa Salvação

Si quis vestrum indiget sapientia, postulet a Deo, qui dat omnibus affluenter, et non improperat — “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera” (Iac. 1, 5).

Sumário. A oração é não só útil à salvação, mas mesmo necessária, porque de um lado somos incapazes de fazer obras boas sem o auxílio de Deus, e do outro, o Senhor, ainda que nos queira dar este auxílio, de ordinário não o dá senão a quem ora. Se, pois, queremos salvar-nos, devemos orar até à morte, pois desde que cessemos de orar, estaremos perdidos. Devemos orar não só por nós mesmos, como também pelo próximo e especialmente pelos pecadores e pelas almas do purgatório.

I. A oração não só é útil à salvação, mas também necessária. Pelo que Deus, querendo salvar-nos, nos impõe o preceito da oração: Oportet semper orare et non deficere (1) — “Importa orar sempre e não cessar”. A razão desta necessidade de nos recomendarmos muitas vezes a Deus, baseia-se na nossa impotência para fazer, sem o auxílio divino, uma boa obra qualquer (2), mesmo para concebermos algum bom pensamento (3), e daí para nos defender contra o demônio, que não deixa de andar ao redor de nós para nos tragar.

É verdade; foi erro de Jansênio, condenado pela Igreja, o dizer que nos é impossível guardar certos mandamentos e que algumas vezes nos falta a graça para podermos observá-los. Deus é fiel, diz São Paulo, e não permitirá que sejamos tentados acima de nossas forças (4). Mas é igualmente verdade que Deus quer ser rogado; quer que nas tentações a Ele recorramos a fim de obtermos a graça para resistir. “Deus quer dar as suas graças”, diz Santo Agostinho, “mas, especialmente no tocante à perseverança, não a dará senão a quem a pedir.” E em outra parte acrescenta: “Lex data est, ut gratia quaereretur; gratia data est, ut lex impleretur — A lei foi dada para que se procure a graça; a graça foi dada para que se cumpra a lei.” O que exprimiu muito bem o Concilio de Trento quando disse: “Deus não manda coisas impossíveis; mas mandando, exorta-nos a que façamos o que está ao nosso alcance, e que peçamos o que excede nossas forças, a fim de que possa vir em nosso auxílio.” (5)

Numa palavra, o Senhor está todo disposto a dar-nos o seu auxílio, para não sermos vencidos; mas só dá este auxílio àqueles que o invocam no tempo das tentações, especialmente nas tentações contra a castidade, como disse o Sábio: Et ut scivi, quoniam aliter non possem esse continens, nisi Deus det... adii Dominum et deprecatus sum illum (6) — “Como eu sabia que de outra maneira não podia ter continência, se Deus ma não desse... recorri ao Senhor, e fiz-Lhe a minha súplica”.

II. Oremos, pois, e oremos com confiança. Jesus Cristo está agora assentado num trono de graças para consolar a todos os que a Ele recorrem e diz: Petite et dabitur vobis (7) — “Pedi e ser-vos-á dado”. No dia do juízo Jesus estará também assentado num trono, mas num trono de justiça. Que loucura seria a daquele que, podendo ser aliviado de suas misérias indo agora a Jesus, que oferece as suas graças, quisesse somente dirigir-se a Ele quando for juiz e não tiver mais misericórdia?

Avisa-nos São Tiago: “Se alguém de vós necessita de sabedoria, suplique-a de Deus, que a todos dá liberalmente, e não impropera... Mas suplique com fé, nada duvidando.” Por sabedoria se entende aqui o saber salvar a alma, e para que tenhamos tal sabedoria, se diz que devemos pedi-la a Deus. E Deus nô-la dará, e nô-la dará superabundantemente, mais do que nós pedimos. — Se quisermos salvar-nos, é mister que até à morte oremos, dizendo: Meu Deus, ajudai-me!  Meu Jesus, misericórdia!  Doce Coração de Maria, sêde minha salvação! — No dia em que deixamos de rezar, estaremos perdidos.

Roguemos por nós mesmos e pelos pecadores, especialmente pelos que estão em agonia e hão de morrer neste dia. Esta oração agrada muito a Deus. Roguemos também cada dia pelas almas do purgatório; estas santas prisioneiras são em extremo gratas a quem ora por elas. — Em todas as nossas orações, peçamos a Deus as graças pelos merecimentos de Jesus Cristo, porquanto Ele mesmo nos ensina que nos será dado tudo quanto pedirmos a Deus em seu nome: Amen, amen, dico vobis: si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (8) — “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, Ele vô-la dará”. — Meu Deus, eis o que antes de tudo Vos peço pelos méritos de Jesus Cristo: fazei que em toda a minha vida, e especialmente no tempo das tentações, me recomende a Vós e implore o vosso auxílio por amor de Jesus e Maria. — Virgem Santíssima, obtende-me esta graça, da qual depende a minha salvação. (*II 258.)

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1. Luc. 18, 1.
2. Io. 15, 5.
3. 2 Cor. 3, 5.
4. 1 Cor. 10, 13.
5. Sess. 6, c. 11.
6. Sap. 8, 21.
7. Matth. 7, 7.
8. Io. 16, 23.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 47 - 49.)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Meios contra as grandes tentações, por São Francisco de Sales


Logo que notes uma tentação, imita as criancinhas que, vendo um lobo ou um urso, lançam.-se em seu socorro. Recorre assim a Deus e implora o socorro de sua misericórdia: este é o meio que Nosso Senhor mesmo nos indica nas palavras: Orai para não cairdes em tentação.

Se a tentação continua e se torna mais forte, abraça em espírito a santa cruz, como se estivesses vendo Jesus Cristo diante de ti; protesta-lhe que não hás de consentir; suplica-lhe que te defenda do inimigo e continua renovando esses protestos e súplicas até que passe a tentação.

  Fazendo esses protestos, não penses tanto na tentação mesma, mas olha unicamente para Jesus Cristo, porque, detendo com Ele o teu espírito, poderia facilmente, se é forte, arrebatar o pensamentos, ocupando-te com alguma reflexão o deleite da tentação, pela posse que tomará de teu coração.

O grande meio de vencer todas as tentações, grandes e pequenas, é abrir o teu coração a um diretor espiritual, pondo-o a par das sugestões do inimigo e das impressões que deixam. O silêncio é, pois, a primeira condição que o inimigo impõe aquele que quer seduzir, à semelhança do libertino que querendo seduzir uma mulher ou uma moça, antes de tudo lhe sugere ocultar tudo a seu marido ou a seu pai; conduta do demônio, inteiramente oposta a Deus, que quer que até as suas inspirações sejam examinadas pelo confessor e pelos superiores. Se a tentação ainda continua, importuna, a nos perseguir e aborrecer, nada mais temos que fazer senão recusar com generosa constância o nosso consentimento. Uma pessoa nunca se poderá casar, enquanto diz que não; e também uma alma nunca poderá ser vencida por uma tentação, enquanto recuse o seu consentimento. 

Não disputes com o inimigo e a todas as suas sugestões não lhe responde senão com as palavras que o Salvador o confundiu: Retira-te, satanás, adorarás ao Senhor teu Deus e só a Ele servirás. 

Uma mulher honesta abandona honrosamente um homem desonesto, sem o olhar e sem lhe responder, voltando para o esposo o seu coração e renovando secretamente os sentimentos de fidelidade que lhe prometeu; a alma devota, atacada pelo seu inimigo, não deve estar aí e lhe dar resposta ou disputar com as tentações; basta-lhe voltar-se simplesmente para Jesus Cristo, seu esposo, e lhe protestar que lhe quer pertencer sempre e exclusivamente e com a mais perfeita fidelidade. 

Filotéia, de São Francisco de Sales. 

Fonte: 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Eis os efeitos que o 'pecado mortal' produz na alma do pecador:



Eis os efeitos que o 'pecado mortal' produz na alma do pecador:
1. Perda da Graça santificante, das virtudes infusas e dons do Espírito Santo.
Supressão do influxo vital de Cristo, como o sarmento separado da videira.
Priva a alma da Graça de Deus e da amizade de Deus.
2. Perda de presença amorosa da Santíssima Trindade na alma.

3. Perda dos méritos adquiridos em toda a vida passada, tornando-a incapaz de adquirir novos méritos.
4. Feiíssima mancha na alma, «mácula animae», que a deixa tenebrosa e horrível, à Visão Divina.
5. Torna a alma escrava de Satanás, aumento das más inclinações e remorsos de consciência.
6. Fá-la merecer o Inferno, e também os castigos desta vida.

O pecado mortal é o Inferno em potência. É um verdadeiro suicídio da alma e da vida da Graça de Deus em nós.


Fonte:

http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

FRUTOS DA MEDITAÇÃO DAS DORES DE MARIA SANTÍSSIMA

Sicut qui thesaurizat, ita et qui honorat matrem suam ― “Como quem ajunta um tesouro, assim se porta o que honra sua mãe” (Eclo 3, 5).
Sumário. Por causa do imenso amor com que Jesus Cristo ama sua querida Mãe, são-Lhe muito agradáveis os que com devoção meditam nas dores de Maria Santíssima e inúmeras são as graças que lhes comunica. Mas infelizmente, quão poucos são os que praticam tão bela devoção! Muitos cristãos, em vez de se compadecerem das dores de Maria, lh’as renovam com seus pecados ou sua tibieza. Irmão meu, serás tu também um destes ingratos?
Para compreender quanto agrada à Bem-Aventurada Virgem que nos lembremos de suas dores, bastaria somente saber que ela, no ano de 1239, apareceu a sete devotos seus (que depois foram os fundadores da Ordem dos Servos de Maria), com um hábito negro na mão e ordenou-lhes que, desejando fazer-lhe causa agradável, meditassem com freqüência em suas dores. Por isso queria que em memória delas trouxessem daí em diante aquele hábito lúgubre. Jesus Cristo mesmo revelou à Bem-aventurada Verônica de Binasco, que quase Lhe agrada mais ver compadecida sua Mãe que Ele mesmo, pois que lhe disse assim: Filha, são-me caras as lágrimas derramadas pela minha Paixão; mas como eu amo com amor imenso a minha Mãe, me é mais cara a meditação das dores que ela padeceu na minha morte.
Por isso são muito grandes as graças que Jesus prometeu aos devotos das dores de Maria. Refere o Padre Pelbarto ter sido revelado a Santa Isabel, que São João Evangelista, depois que a Santíssima Virgem foi assunta ao céu, desejava vê-la mais uma vez. Foi-lhe concedida a graça e apareceu-lhe sua cara Mãe e juntamente com ela também Jesus Cristo. Ouviu depois, que Maria pediu ao Filho alguma graça especial para os devotos das suas dores e que Jesus lhe prometeu para eles quatro graças especiais: 1º. Que o que invocar a divina Mãe pelos merecimentos de suas dores merecerá fazer, antes da morte, verdadeira penitência de todos os seus pecados. 2º. Que ele defenderá aqueles devotos nas tribulações em que se acharem, especialmente na hora da morte, 3º. Que imprimirá neles a memória de sua Paixão e que no céu lhes dará depois o competente prêmio. 4º. Que entregará os tais devotos nas mãos de Maria, afim de que deles disponha à sua vontade e lhes obtenha todas as graças que quiser. Em comprovação de tudo isto encontram-se nos livros inúmeros exemplos.
Se é tão agradável a Maria Santíssima que nos lembremos das suas dores e se são tão grandes as graças que Jesus Cristo prometeu a quem pratica esta devoção, claro está que, juntamente com a devoção à Paixão do Redentor, devia ser a de todos os cristãos. Mas infelizmente, quantos não há que, especialmente nestes dias de carnaval, em vez de honrarem a Virgem dolorosa, ainda lhe aumentam as penas e pela sua tibieza e pelos seus pecados lhe traspassam o coração com novas espadas?
É isso que, como conta o Padre Roviglione, a divina Mãe quis ensinar a um jovem seu devoto. Tendo este caído em pecado mortal e ido na manhã seguinte visitar uma imagem da Virgem que tinha sete espadas no peito, viu não sete, mas oito espadas. Ouviu então uma voz que lhe disse que aquele seu pecado tinha acrescentado a oitava espada no coração de Maria.
Ah, minha bendita Mãe! Não só uma espada, mas tantas espadas quantos têm sido os meus pecados acrescentei ao vosso coração. Ah Senhora! Não a vós, que sois inocente, mas a mim, réu de tantos delitos, se devem as penas. Mas já que vós quisestes padecer tanto por mim, ah! pelos vossos merecimentos impetrai-me uma grande dor dos meus pecados e paciência para sofrer os trabalhos desta vida, que serão sempre leves em comparação com os meus deméritos, pois que tantas vezes tenho merecido o inferno. Impetrai-me também, ó minha Mãe, uma devoção constante e terna à Paixão de Jesus Cristo e às vossas dores, afim de que, depois de Vos ter acompanhado na terra em vossas penas, mereça participar da vossa glória no céu. (*I 230.)
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

DA DIGNIDADE DE SÃO JOSÉ, ESPOSO DA VIRGEM MARIA



Iacob autem genuit Ioseph, virum Mariae, de qua natus est Iesus ― “Jacob gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (Matth. 1, 16)
Sumário. Para formarmos uma idéia da dignidade de São José, basta ponderarmos que, na qualidade de esposo de Maria e chefe da sagrada Família, tinha verdadeiros direitos sobre a Mãe de Deus e seu divino Filho, que assumiram a obrigação de lhe obedecer, e lhe obedeceram em tudo. Quanto devemos, pois, honrar àquele a quem Deus honrou tanto! Quanto devemos confiar na eficácia de sua proteção! ― E tu, és-lhe realmente devoto?… Recorres prontamente a ele em tuas necessidades?
Considera em primeiro lugar a dignidade de São José por ser esposo de Maria. Nesta qualidade adquiriu o direito de lhe dar ordens, e Maria, na qualidade de esposa, assumiu a obrigação de obedecer a São José. O humílimo São José nunca se serviu de mandos para com a santa Virgem, mas somente de pedidos, por venerar nela a grande santidade e a dignidade de Mãe de Deus. A humílima Esposa, porém, entre todas as criaturas a mais humilde, considerava sempre aqueles pedidos como outras tantas ordens. ― Ó Maria, ó José, ó Esposos santíssimos, que por vossa grande humildade vos fizestes tão amados de Deus, suplico-vos que me alcanceis o perdão de todos os meus atos de soberba, e a graça de sofrer d’aqui por diante com paciência todos os desprezos e injúrias que me vierem da parte dos homens, porquanto hei merecido ser pisado aos pés dos demônios no inferno.
Considera em segundo lugar a alta dignidade de São José por lhe ser conferido por Deus o ofício de pai de Jesus Cristo: Et erat subditus illis (1) ― “E era-lhes submisso”. Quem é que estava submisso? O Rei do mundo, o Filho de Deus e também verdadeiramente Deus todo-poderoso, eterno, perfeito, em tudo igual ao Pai. Este é quem na terra quis estar submisso a São José. Por si mesmo não tinha José autoridade sobre Jesus, por não ser o pai verdadeiro, mas tão somente o pai putativo. Como esposo, porém, e chefe de Maria, foi o chefe também de Jesus Cristo, enquanto homem, por ser o fruto das entranhas de Maria. Quem é dono de uma árvore, o é também dos frutos.
Eis porque a Beata Virgem o chamou pai de Jesus: Pater tuus et ego dolentes quaerebamos te (2) ― “Eu e teu pai angustiados te procuramos”.
Foi portanto a São José, como chefe daquela pequena Família, que coube o ofício de mandar, e a Jesus o de obedecer; de sorte que Jesus nada fazia, não se movia, não tomava alimento nem repouso, senão segundo as ordens de José. Ó dignidade inefável!
Devemos honrar muito aquele a quem Deus mesmo tanto tem honrado. E grande confiança devemos pôr na proteção de São José, que viu nesta terra o Senhor do mundo submisso às suas ordens. Escreve Santa Teresa: “O Senhor nos quis dar a entender que, assim como na terra quis ficar submisso a São José, assim faz agora no céu tudo o que o Santo Lhe pede”.
Meu santo Patriarca, pela grande reverência que, como a seu esposo, vos teve Maria, rogo-vos que me recomendeis a ela, e me alcanceis a graça de ser o seu verdadeiro e fiel servo até à morte. E pela submissão que na terra vos mostrou o Verbo encarnado, obtende-me a graça de Lhe obedecer e de amá-Lo perfeitamente. No céu Jesus se compraz em conceder todas as graças que vós pedis em favor daqueles que a vós se recomendam. Eu também, miserável como sou, me recomendo a vós, escolho-vos por meu advogado especial e prometo honrar-vos cada dia com algum obséquio particular. Meu Pai, São José, por piedade, alcançai-me aquela graça que vós sabeis ser mais útil à minha alma, e especialmente a virtude da santa pureza.
“Sim, glorioso São José, pai e protetor das virgens, guarda fiel, a quem Deus confiou Jesus, a mesma inocência, e Maria, a virgem das virgens, eu vos peço e conjuro por Jesus e Maria, este duplo depósito a vós tão caro, com vosso eficaz auxílio dai-me conservar meu coração isento de toda mancha, e que, puro e casto, sirva constantemente a Jesus e Maria em perfeita castidade” (3). ― E vós, ó Mãe de Deus e minha Mãe Maria, pela santa humildade e obediência com que executastes tudo que vosso santo Esposo José vos pedia, alcançai-me de Deus a graça da santa humildade e da perfeita obediência a seus preceitos divinos (4).
  1. Luc. 2, 51.
    2. Luc. 2, 48.
    3. Indulgência de 100 dias.
    4. Esta meditação, embora não se ache nas obras completas de Santo Afonso, é todavia do santo Doutor.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

AS DEVOÇÕES SEM A FÉ

A fé, que para o cristão é o princípio único das obras salutares, é igualmente o princípio da devoção e mesmo, se quiser, das devoções quando a devoção e as devoções são realmente salutares.
Vimos que muitas obras podem nascer ao lado da fé, mas que não são por si só, úteis à salvação. É isto exatamente o que se passa com a devoção e as devoções. Elas podem nascer, se desenvolverem e crescerem, até mesmo de modo prodigioso, paralelas à fé e no entanto serem inúteis para a salvação eterna dos homens.
Certamente gostará de ouvir o que li sobre este assunto no «Année Dominicaine» sob a assinatura do padre Vicent Maumus: – «A prática da devoção sem o conhecimento de Deus, é o grande obstáculo para o progresso das almas.
As almas são pouco esclarecidas, primeiro porque se tem poucas luzes, em seguida porque se taxa facilmente de curiosidade vã uma ciência que não se aprecia. As almas são pois pouco esclarecidas ao mesmo tempo que são cumuladas de práticas de devoção multiplicadas ao infinito; são envolvidas em todas as espécies de confrarias; são levadas a crer, como último esforço de piedade católica, na propaganda ativa de certas devoções cuja corrente, se não for freada, ameaça sufocar o amplo espírito cristão». «Que são hoje os livros de piedade? Pondo à parte algumas raras exceções, não passam de tratados superficiais que só se dirigem à imaginação e à prática exterior de tais ou quais devoções da moda. Há alguns anos um grande bispo se lamentava pela profusão com que se espalhou esse tipo de livro, e Bossuet já dizia: Não compreendo mais nada dos diretores».
A senhora, lendo esta citação com grande atenção, sente todo seu peso. Parece mesmo que daqui a ouço lembrar o que disse Joseph de Maistre: «Deus abençoe a partícula SE!»
De boa vontade aceitarei com a senhora essa desejável benção e terminarei aqui esta carta.
Digamos juntos: Credo.
Cartas sobre a fé – Pe. Emmanuel-Andre

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

X. ALGUNS OUTROS OBSÉQUIOS


1. Celebrar ou fazer celebrar, ou pelo menos ouvir Missa em honra da Santíssima Virgem. É verdade que o Santo Sacrifício só se pode oferecer a Deus, principalmente em reconhecimento de seu supremo domínio. Isso, porém, não impede, diz o Sagrado Concílio de Trento, que ele possa ser oferecido ao mesmo tempo a Deus para agradecer-lhe as graças concedidas aos santos e à divina Mãe, a fim de que, celebrando nós sua memória eles se dignem interceder por nós. Assim o indicam as próprias palavras da Santa Missa. Essa prática, assim como a recitação de três Pai-Nossos, Ave-Marias e Glória Patri à Santíssima Trindade, para agradecer-lhe as graças feitas a Maria, revelou a própria Santíssima Virgem a uma alma ser-lhe muito agradável. Pois, não podendo agradecer plenamente ao Senhor todos os benefícios que lhe foram concedidos, muito gosta que seus filhos a ajudem para esse fim.

2. Venerar os santos que mais próximos foram de Maria, como S. José, S. Joaquim, S. Ana. A própria Virgem encomendou a um seu servo a devoção a S. Ana, sua mãe. Não nos esqueçamos também dos santos mais devotos da Mãe de Deus, como S. João Evangelista, S. João Batista, S. Bernardo, S. João Damasceno, defensor de suas imagens, S. Ildefonso, defensor de sua virgindade.

3. Ler cada dia algum livro que fale das glórias de Maria. Os padres preguem com gosto sobre assuntos marianos e todos se esforcem em insinuar, sobretudo aos parentes, a devoção para com a Mãe de Deus. Disse um dia a Virgem a S. Brígida: Faze que teus filhos sejam também meus filhos!

4. Rezar todos os dias pelos vivos e defuntos mais devotos de Maria.

5. Notem-se as muitas indulgências concedidas aos que honram por diversos modos a esta Rainha do céu. Eis algumas:

1. Bendita seja a santa e imaculada Conceição da bem-aventurada Virgem Maria e Mãe de Deus. (300 dias de indulgência).

2. 5 anos, quando se recitam a Salve Rainha e o Sub tuum praesidium.

3. 7 anos pelas Ladainhas de Nossa Senhora, cada vez.

4. 300 dias quando se diz: Jesus e Maria.

5. Jesus, Maria, José (7 anos).

6. A quem faz diariamente meia hora de oração mental, concedeu Bento XIV indulgência plenária no mês, na forma de costume.

7. 7 anos a quem acompanha o Santo Viático com tocha acesa. Quem não puder acompanhar, ganha 100 dias recitando um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, segundo a intenção do Papado.

8. 300 dias a quem reverenciar de qualquer forma o Santíssimo Sacramento, ao passar por uma igreja ou capela.

9. 500 dias ao sacerdote que antes da Missa, recita Ego volo celebrare Missam etc.

Prepare-se, pois, cada um para ganhar essas indulgências, fazendo um bom ato de contrição. Omito ainda outras devoções, que se acham em outros livros, e termino esta obra com as belas palavras de S. Bernardino: Ó bendita entre todas as mulheres, sois a honra do gênero humano, a salvação de vosso povo. Vosso merecimento não tem limites, e vosso império estende-se sobre todas as criaturas. Sois Mãe de Deus, Senhora do mundo, Rainha do céu. Sois a dispensadora de todas as graças, o adorno da Santa Igreja, o modelo dos justos, a consolação dos santos, a raiz de nossa salvação. Do paraíso sois a alegria, do céu a porta, de Deus a glória. Temos publicado vossos louvores. Rogamos, pois, ó Mãe de bondade, que vos digneis suprir a nossa fraqueza, escusar a nossa audácia, aceitar nossa servidão e abençoar nosso trabalho, imprimindo no coração de todos o vosso amor, para que, depois de termos honrado e amado na terra vosso Filho, possamos louvá-lo e bendizê-lo eternamente no céu. Amém.

(Glórias de Maria - Santo Afonso de Ligório)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

IX. RECORRER FREQUENTEMENTE A MARIA

Afirmo que, entre todas as práticas devotas, nenhuma há que tanto agrade a nossa Mãe, como recorrer frequentemente à sua intercessão. Peçamos-lhe, pois, auxílio em todas as necessidades particulares. Por exemplo: quando vamos tomar ou dar conselhos, nos perigos, nas aflições e tentações, principalmente nas tentações contra a pureza. Certamente nos há de socorrer a divina Mãe, se a ela recorremos com a antífona Sub tuum praesidium, ou com a Ave-Maria, ou com a simples invocação de seu santíssimo nome, que tem uma força particular contra os demônios.

O beato Sante, franciscano, em uma tentação contra a pureza, recorreu a Maria e ela, aparecendo-lhe imediatamente, lhe pôs a mão sobre o peito e o livrou. Em tais ocasiões também é bom beijar ou tomar na mão o Rosário ou o escapulário, ou então olhar para uma imagem da Virgem Maria. Note-se que lucra cada vez 300 dias de indulgência quem pronunciar devotamente os nomes de Jesus ou de Maria.
(Glórias de Maria - Santo Afonso de Ligório)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

VIII. DAR ESMOLAS EM HONRA DE MARIA


Costumam os servos de Maria, sobretudo aos sábados, dar esmolas em sua honra. S. Gregório fala de um irmão leigo, chamado Deusdedit, que distribuiu aos pobres, no sábado, o que tinha ganho durante a semana, como sapateiro. Ora, a uma alma santa foi mostrado, em visão, um palácio suntuoso que Deus estava preparando no céu a esse servo de Maria, e em cuja construção só se trabalhava aos sábados. O santo confessor Gerardo de Monza (+ 1207) não recusava coisa alguma que lhe fosse pedida em nome de Maria. O mesmo fazia o jesuíta, padre Martinho Gutiérrez. Por essa razão, como ele mesmo confessou, nunca pediu uma graça a Maria sem que a alcançasse. Tendo sido ele morto pelos Huguenotes, apareceu a Virgem a seus companheiros com algumas virgens, pelas quais mandou envolver o corpo num lençol. S. Eberardo, Arcebispo de Salzburgo, tinha a mesma devoção. Por isso o viu um santo religioso, sob a forma de um menino, nos braços de Maria. "Eis o meu filho Eberardo, que nunca me recusou coisa alguma", disse Maria. Igual prática era usada por Alexandre de Hales. Tendo-lhe um leigo de S. Francisco pedido em nome de Maria que se fizesse franciscano, deixou ele o mundo e entrou para a Ordem.

Não deixem, pois, os devotos de Maria de dar cada dia, em sua honra, uma pequena esmola, que devem aumentar aos sábados. E se não podem fazer mais, ao menos, pelo amor de Maria, pratiquem alguma outra obra de caridade, como assistir aos enfermos, rezar pelos pecadores e pelas almas do purgatório, etc. As obras de misericórdia são muito agradáveis ao coração dessa Mãe de misericórdia.
(Glórias de Maria - Santo Afonso de Ligório)

sábado, 20 de fevereiro de 2016

VII. ENTRAR NAS CONGREGAÇÕES DE MARIA



Alguns há que desaprovam as congregações, dizendo que muitas vezes são fontes de litígios, e que muitos entram nelas por fins humanos. Mas assim como não se condenam as igrejas e os sacramentos por haver muitos que deles abusam, pela mesma razão não se deve condenar as confrarias. Longe de reprová-las, os Sumos Pontífices as têm com muito louvor recomendado e enriquecido seculares a entrarem nelas. E que não fez S. Carlos Borromeu para fundá-las e multiplicá-las? Em seus sínodos, sobretudo, insinua aos confessores que se esforcem para que nelas entrem os seus penitentes. E com razão, porque essas confrarias, especialmente as da Virgem, são como outras tantas arcas de Noé, onde os pobres seculares acham um refúgio contra o dilúvio. Nós, com a prática das missões, bem temos podido conhecer a utilidade dessas pias associações. Em regra geral, acham-se mais pecados em um homem que não pertence à confraria do que em vinte que a frequentam. Pode-se compará-la à torre de escudos para a defesa dos heróis" (Ct 4, 4). As confrarias proporcionam a seus congregados muitas armas de defesa contra o inferno, e fornecem-lhes, para conservar a graça divina, muitos meios que fora delas dificilmente serão empregados.

Das principais graças oferecidas pelas confrarias

1. Um dos primeiros meios de salvação é a meditação das verdades eternas. "Lembra-te das últimas coisas e não pecará jamais" (Eclo 7, 40). Se tantos pecadores se perdem é porque não as meditam. "Tem sido desolada inteiramente toda a terra, porque não há nenhum que considere no seu coração" (Jr 2, 11). Ora, os associados das congregações são levados a pensar nelas, por tantas meditações, leituras e sermões que aí se fazem. "Minhas ovelhas ouvem a minha voz" (Jo 10, 27).

2. Em segundo lugar, para salvar-se é necessário encomendar-se a Deus.
Fazem-no os membros das congregações continuamente, e Deus os atende com mais facilidade, porquanto ele mesmo declarou que de boa vontade concede suas graças às preces feitas em comum. "Ainda vos digo que, se dois de vós se unirem entre si sobre a terra, qualquer coisa que pedirem, ser-lhes-á concedida, por meu Pai que está nos céus" (Mt 18, 19). Aqui observa Ambrosiasta: Muitos fracos tornam-se fortes quando se mantém unidos, e a oração de muitos não pode ficar desatendida.

3. Em terceiro lugar, nas confrarias é mais fácil a frequência dos sacramentos, não só pelos estatutos, como pelos bons exemplos dos confrades.
Ora, com isso garante-se a perseverança na graça. O Santo Concílio de Trento chama a comunhão um remédio que nos livra das faltas de cada dia e nos preserva do pecado mortal.

4. Além de tudo fazem-se nas congregações muitos exercícios de mortificação, de humildade e de caridade para com os confrades enfermos e pobres.
E bom seria que em cada congregação se introduzisse o santo costume de assistir os doentes pobres do lugar. 

Já dissemos quanto aproveita à nossa salvação servirmos a Mãe de Deus. Ora, que fazem os confrades nas congregações, senão servi-la? Aí, quantos a louvam! Quantas orações lhe apresentam! Consagram-se desde o princípio a seu serviço, elegendo-o de um modo especial por sua Senhora e Mãe. Inscrevem-se no livro dos filhos de Maria, e como são servos e devotos distintos da Virgem, ela os trata e protege com distinção, na vida e na morte. De modo que o associado mariano pode dizer que com a congregação recebeu todos os bens.

A duas coisas, porém, precisa atender cada confrade: à intenção com que entra e à fidelidade aos compromissos. A primeira deve referir-se à glória de Deus e de Maria e à salvação da própria alma. Depois seja fiel em comparecer às reuniões marcadas, que não se devem perder para atender aos negócios do mundo. Pois na congregação se trata do mais importante de todos os negócios: a salvação eterna. Deve também procurar para sua associação novos confrades, e especialmente fazer voltar para ela aqueles que a têm abandonado. Tais egressos já têm sido às vezes rudemente punidos por Deus. (Em Nápoles, certo congregado egresso, sendo exortado a voltar para a congregação, respondeu: Voltarei quando me tiverem quebrado as pernas, e cortado a cabeça. Profetizou sem querer: pouco tempo depois lhe quebraram seus inimigos as pernas e cortaram a cabeça). Pelo contrário, os confrades que perseveram são cumulados por Maria de bens espirituais e temporais. "Todos os seus domésticos trazem vestidos forrados" (Pr 31, 21).

Auriema fala de graças que Maria concede a seus congregados durante a vida e na hora da morte, principalmente. Conta Crasset que, em 1586, um jovem perto de morrer, tendo adormecido, disse a seu confessor ao acordar: "Ó meu padre, estive em grande perigo de perder-me, porém a Senhora me livrou. Os demônios apresentaram meus pecados no tribunal de Deus, e já estavam prontos para me arrastarem ao inferno, quando sobreveio a Santíssima Virgem e lhes disse: Para onde levais este moço? Que tendes que ver com um servo meu, que me serviu tanto tempo em minha congregação? O mesmo autor conta que outro rapaz congregado, também na hora da morte, teve de sustentar luta renhida com o inferno; mas triunfando finalmente, exclamou cheio de júbilo: Oh! que grande bem é servir a Mãe Santíssima em sua congregação! E morreu cheio de consolação. Também em Nápoles, o duque de Popoli, moribundo, disse a seu filho: Meu filho, fica sabendo que à minha congregação devo o pouco bem que fiz em vida. Por isso a maior riqueza que tenho para deixar-te é a congregação de Maria. Estimo mais ter sido congregado, que ter sido duque de Popoli.

(Glórias de Maria - Santo Afonso de Ligório)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

JESUS SOFRE! ALMA AMADA, TOME A RESOLUÇÃO DE CONSOLÁ-LO …

Tristis est anima mea usque ad mortem (Mc 14,34)
Minha alma está triste até à morte
Há vinte séculos, quando ninguém pensava ainda em mim, quando ninguém podia ainda suspeitar que um dia eu existiria, um Coração amava, interessava-se pela minha felicidade e se entristecia pelos meus pecados.
Oh! como esse último pensamento me punge a alma de dor e remorso! Jesus entristeceu-se e sofreu por causa de meus pecados e dos de cada homem em particular.
Jesus era Deus. Ele via clara e minuciosamente todos os meus pecados e os crimes do mundo inteiro. Contava-lhes o número e pesava-lhes a gravidade e compreendia a malícia infinita de todos eles. Continuamente Ele tinha diante dos olhos essa montanha de crimes; continuamente pesava no Seu coração a ofensa infinita feita a Deus, ofensa tantas vezes repetida e desejada, de algum modo pela vil criatura humana.
As lágrimas que derramou no presépio foram lágrimas de tristeza à vista de tantas ingratidões. Quando moço, a idéia de todos os sofrimentos e da morte, que o esperavam, jamais o abandonou.
Diz a piedade cristã que, estando Jesus já crescidinho e começando a andar, no vaivém contínuo em torno de São José na sua oficina de operário, tomou dois pedaços de madeira e, dispondo-os em forma de cruz, mostrou-os à santa Virgem. Vendo-os, os olhos da Mãe arrasaram-se de lágrimas e o Coração de Jesus encheu-se de tristeza.
A menor lembrança reabria essa ferida na alma de Jesus e de Maria. A vista de um cordeiro, de uma pomba, a vista de pregos, de um martelo, ou de outros instrumentos da paixão, lembravam os cruéis suplícios que esperavam o inocente Jesus.
Quando Maria revestia seu Filho da pequena túnica, diz Santo Afonso, ela entrevia o dia em que lhe arrancarriam as vestes para flagelá-Lo e crucificá-Lo; quando ela O alimentava com seu leite virginal, pensava no fel e vinagre que Lhe dariam para mitigar-Lhe a sede; quando olhava as mãozinhas que se estendiam para abraçá-la, ela as via perfuradas com grossos cravos e fixadas na Cruz; quando Lhe envolvia em faixas o corpinho, transportava-se em espírito junto ao túmulo onde havia de envolvê-Lo um dia no sudário.
Oh! que amargura para o coração dessa Mãe e desse Filho, que tudo sabiam de antemão!
E a dor aumentava à medida que se aproximava o dia fatal.
Durante a vida pública de seu querido Filho, e sobretudo no último ano, Maria tinha quase sempre os olhos rasos de lágrimas e o pensamento em Jesus, nos Seus sofrimentos, e na Sua morte, não mais a abandonava.
Algumas palavras do Evangelho no-lo dizem quando mesmo não o adivinhassem os nossos corações.
Um dia, atravessando a Galiléia, Jesus disse aos seus discípulos: “O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens que o farão morrer, e, ao terceiro dia, ressuscitará. E os discípulos entristeceram-se profundamente”(Mt 17,21-22). Uma outra vez, indo a Jerusalém, Jesus levou consigo seus doze apóstolos e lhe disse:
Eis que vamos a Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas e eles o condenarão à morte. E eles o abandonarão aos gentios para ser escarnecido, flagelado, e ao terceiro dia ele ressucitará.” (Mt 20,18)
E no dia de sua glória durante a transfiguração no monte Tabor, Moisés e Elias entretêm-se com Ele sobre a cruel morte a que teria de sujeitar-se em Jerusalém (Lc 9,31).
Chega, finalmente, esse dia de suprema tristeza, dia, aliás, tão desejado pelo Amante Redentor. 
Jesus despediu-se de sua Mãe, entreteve-se tristemente com ela sobre os dolorosos acontecimentos que deviam seguir, consolou-a com a visão de sua próxima ressurreição e do resgate do gênero humano. Depois abraçou, pela última vez, a pobre Mãe em lágrimas e afastou-se lentamente, o coração partido, para presidir a Última Ceia, que seus discípulos lhe haviam preparado.
Aqui novas tristezas.
Vinte séculos são passados, e nossos corações tão frios enchem-se ainda de piedade ao ler estas palavras do Evangelho:
Em verdade, em verdade eu vos digo, um de vós há de me entregar“. E outras palavras de Jesus a Pedro: “Em verdade, em verdade eu te digo: Não cantará o galo sem que me tenha negado três vezes.” (Jo 13,21-38). Eis que vem e já é chegada a hora em que sereis dispersos, cada um de seu lado, e me deixareis só.
O que aflige ainda mais o divino Mestre é deixar seus discípulos como ovelhas sem pastor, os quais, na sua ignorância, não compreendem a desgraça prestes a cair sobre eles. Agora, disse Jesus, vou para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: para onde ides? (Jo 16,5)
O bom Jesus, porém, esquecia-se da sua própria dor e, consolando ainda seus discípulos, acrescentou: Agora vós tendes tristeza, mas eu vos tornarei a ver, e vosso coração se há de alegrar, e a vossa alegria ninguém vo-la poderá tirar. (Jo 16,22)
Ao pronunciar estas últimas palavras, Jesus já estava em caminho para o Horto das Oliveiras! Quando lá chegou sentiu-se invadido pela tristeza e pelo tédio e disse: Minha alma está triste até á morte. Ficai aqui e velai comigo. (Mt 26,38) E Jesus foi como que envolvido por mortal angústia, um suor de sangue  cobriu-Lhe todo o corpo e, embebendo-Lhe as vestes, correu até ao chão. (Lc., 22,44).
Oh! quanta tristeza Jesus sofreu pelas nossas ingratidões!
Ele previa então que, de sofrimentos tão intensos, poucos seriam os resultados; que muitos homens passariam indiferentes diante de Sua Cruz, muitos outros recusar-se-iam a conhecê-Lo, mais ainda, haviam de blasfemar e esforçar-se por afastar as almas simples; enfim, um número incalculável de almas jamais ouviriam pronunciar Seu nome.
Oh! como nossos corações se oprimem de tristeza à vista de tanta ingratidão dos homens. Bom Mestre, perdoai as nossas ofensas como perdoastes sobre a Cruz e derramais graças abundantes sobre todos os homens,  afim de que todos sejam forçados a reconhecer-Vos e amar-Vos.
E tu, alma tão amada, toma a resolução de consolar o Coração de Jesus e promete conquistar-Lhe outras almas. 
Oh Jesus! como eu desejava estar lá no Horto das Oliveiras! Como agradeço a Verônica ter afrontado as injúrias, os golpes, para tocar com seu véu o Vosso rosto sagrado; como me consola a compaixão das filhas de Jerusalém pela Vossa sorte; como eu teria desejado ainda ajudar Simão a levar Vossa Cruz e aliviar assim Vossos padecimentos, como, sobretudo, agradecer a Vossa pobre Mãe de Vos ter seguido até ao Calvário, de se ter aproximado bem perto de Vosso patíbulo para melhor partilhar dos Vossos sofrimentos, e ter querido com sua heróica fidelidade poupar-Vos a pena que Vos causariam nossasfuturas pusilanimidades!
Oh Jesus! eu Vos amo, eu quero consolar-Vos a poder de amor e paciência. Auxiliai-me!
O Divino Amigo – Pe. Joseph Schrijvers

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

JESUS NO DESERTO E AS TENTAÇÕES DAS ALMAS ESCOLHIDAS

Iesus ductus est in desertum a spiritu, ut tentaretur a diabolo — “Jesus foi levado pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo” (Matth. 4, 1).
Sumário. Meu irmão, se o Senhor permite que sejas tentado, não desanimes, porquanto vê nisso um sinal de que Ele te ama e te quer fazer mais semelhante a Jesus Cristo, que, como refere o Evangelho de hoje, foi também tentado. Esforça-te, porém, a exemplo do próprio Redentor, por empregar todos os meios para seres vencedor. Especialmente refreia as tuas pequenas paixões desordenadas, mortificando-as pela penitência e recorre sempre a Deus pela oração contínua.
I. Os trabalhos que mais afligem nesta vida às almas amantes de Deus, não são tanto a pobreza, a enfermidade e as perseguições, como as tentações e as securas espirituais. Quando a alma goza da amorosa presença de Deus, todas as tribulações, em vez de a afligirem, mais a consolam, fornecendo-lhe a ocasião para oferecer a Deus algum penhor de seu amor. Mas ver-se pela tentação em perigo de perder a graça divina e temer na secura que já a perdeu, é isso uma pena demasiado amarga para quem ama deveras a Deus. — Observemos, porém que é esta a sorte comum das almas santas: Quia acceptus eras Deo, necesse fuit, ut tentatio probaret te (1) — “Porque eras aceito de Deus, por isso foi necessário que a tentação te provasse”.
Quem foi mais santo do que Jesus Cristo? Todavia ele foi levado pelo espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo. Em primeiro lugar, foi tentado de gula, porque “tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome. E chegando-se a Ele o tentador, disse: Se és Filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães.”
Depois foi tentado de presunção, porque “o diabo o transportou à cidade santa e O pôs sobre o pináculo do templo e Lhe disse: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, porque está escrito: Recomendou-te aos seus anjos, e eles te levarão nas palmas das mãos, a fim de que nem sequer tropeces numa pedra.” Finalmente foi tentado de idolatria; porque o diabo, vendo-se vencido uma outra vez, “o transportou ainda a um monte muito alto, e mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e Lhe disse: Todas estas coisas te darei, se prostrado me adorares.”
Uma alma, pois, por se ver tentada, não deve ainda temer como se já tivesse caído no desagrado de Deus, que a quer tornar mais semelhante a seu Filho unigênito e dar-lhe ocasião para adquirir grandes méritos para o céu. Quoties vincimus, toties coronamur — “Cada vitória é uma nova coroa”, diz São Bernardo.
II. Os meios de que nos devemos servir para vencer as tentações são os mesmos que nosso divino Redentor nos ensina com o seu exemplo no Evangelho de hoje. — Cum ieiunasset quadraginta diebus – Jesus jejuou quarenta dias. Para vencermos todas as tentações, e em particular a dos sentidos, é mister que nós também, especialmente neste tempo de Quaresma, mortifiquemos a carne pelo jejum, pela penitência, e pelo recolhimento, e que ao mesmo tempo avigoremos o espírito com meditações e orações, porque não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Non tentabis Dominum Deum tuum — “Não tentarás ao Senhor teu Deus”. Para vencermos as tentações, devemos em segundo lugar evitar as ocasiões de pecado. Aqueles que se expõem voluntariamente aos perigos e não pretendem cair, tentam Deus para fazer milagres. A custódia dos anjos, diz São Bernardo, é prometida a quem caminha nos caminhos de Deus,viis suis, e não àquele que se expõe voluntariamente ao perigo de cair num abismo. — Vade, Satana – “Vai-te, Satanás”.
Finalmente o terceiro meio para sairmos vencedores, consiste em expulsarmos o demônio inteiramente de nossa alma e em estarmos resolvidos a adorar a Deus nosso Senhor, e servi-Lo a Ele só. Ó! Quantos há que não cuidam em refrear as suas paixões nascentes e que imaginam poder servir a dois senhores. Mas depois, ao primeiro assalto mais forte de qualquer tentação, acabam por cair e perder-se eternamente!
Ó meu amabilíssimo Jesus, vejo que no passado caí e recaí tão miseravelmente, porque me descuidei de imitar os vossos divinos exemplos. Arrependo-me de todo o coração; peço-Vos perdão e prometo que para o futuro serei mais cuidadoso. Mas fortalecei a minha fraqueza. Eu Vo-lo peço pela mortificação que praticastes, abstendo-Vos por quarenta dias de toda a alimentação, e pela humildade que mostrastes, permitindo ao demônio que Vos tentasse como a qualquer outro filho de Adão. “Ó Deus, que purificais a vossa Igreja com a anual abstinência quaresmal: concedei à vossa família, que com boas obras execute o que de Vós deseja obter com a sua abstinência.” (2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação. (*I 837.)
  1. Tob. 12, 13.
    2. Or. Dom. curr.
    Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso