quinta-feira, 31 de março de 2016

A PREDESTINAÇÃO DE SÃO JOSÉ E SUA EMINENTE SANTIDADE

Qui minor est inter vos, hic major est.” (Luc., IX, 48)
Não se pode escrever um livro sobre a Santíssima Virgem sem falar da predestinação de São José, de sua eminente perfeição, do caráter próprio de sua missão excepcional, de suas virtudes e de seu atual papel na santificação das almas.
Sua preeminência sobre todos os outros santos cada vez mais afirmada na Igreja
A doutrina segundo a qual São José é o maior dos santos depois da Virgem Maria tende a tornar-se uma doutrina comumente aceita na Igreja, que não teme declarar o humilde carpinteiro superior em graça e em beatitude aos patriarcas, a Moisés, aos maiores dos profetas, a São João Batista, e também aos apóstolos, a São Pedro, a São João, a São Paulo, e por mais forte razão superior em santidade aos maiores mártires e aos maiores doutores da Igreja. O menor, por sua profunda humildade, é em razão da conexão das virtudes, o maior pela elevação da caridade: “Qui minor est inter vos, hic major est” (Luc. IX, 48).
Essa doutrina é ensinada por Gerson1 e por São Bernardino de Sena2. A partir do século XIV, torna-se cada vez mais corrente, é admitida por Santa Teresa, pelo dominicano Isidoro de Isolanis, que parece ter escrito o primeiro tratado sobre São José3, por São Francisco de Sales, por Suárez4, mais tarde por Santo Afonso Maria de Ligório5, mais recentemente pelo cônego Sauvé6, pelo cardeal Lepicier7 e por M. Sinibaldi8; essa doutrina está bem exposta no Dicionário de Teologia Católica, no artigo Joseph (saint), por A-M. Michel.
Além disso recebeu a aprovação de Leão XIII na encíclica Quanquam pluries, de agosto de 1899, escrita para proclamar o patrocínio de São José sobre a Igreja universal. Ele diz: “Certamente a dignidade da Mãe de Deus é tão alta que nada pôde ser criado acima dela. No entanto, como José foi unido à bem-aventurada Virgem pelo laço conjugal, não se pode duvidar que ele se tenha aproximado, mais do que ninguém, dessa dignidade supereminente pela qual a Mãe de Deus ultrapassa tanto todas as naturezas criadas. A união conjugal é, com efeito, a maior de todas; em razão de sua própria natureza, ela acompanha-se da comunicação recíproca dos bens dos dois esposos. Se, pois, Deus deu à Virgem José como esposo, certamente não somente o deu como apoio na vida, como testemunho de sua virgindade, guarda de sua honra, mas o fez também participar, pelo laço conjugal, da eminente dignidade que ela recebeu.”9
Tendo Leão XIII afirmado que São José se aproximou mais do que ninguém da dignidade supereminente da Mãe de Deus, segue-se que, na glória, ele está acima de todos os anjos? Não o poderíamos afirmar com certeza; contentemo-nos em exprimir a doutrina cada vez mais aceita pela Igreja, dizendo: De todos os santos, José é o mais elevado no céu depois de Jesus e Maria; ele está entre os anjos e os arcanjos.
A Igreja, na oração A cunctis, nomeia-o imediatamente depois de Maria e antes dos apóstolos. Se não está mencionado no Cânon da missa,10 não só tem um prefácio especial mas todo o mês de março lhe é consagrado como o protetor e defensor da Igreja universal.
A ele, em sentido real, ainda que oculto, é particularmente confiada a multidão de cristãos de todas as gerações que se sucedem. É o que exprimem as belas ladainhas aprovadas pela Igreja que lhe resumem as prerrogativas: “São José, ilustre filho de Davi, luz dos patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, guarda da Virgem pura, nutrício do Filho de Deus, zeloso defensor de Cristo, chefe da Sagrada Família, José justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amador da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida doméstica, custódia das virgens, amparo das famílias, alivio dos miseráveis, esperança dos enfermos, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor da santa Igreja.” Nada é tão grande depois de Maria.

quarta-feira, 30 de março de 2016

NO CÉU GOZA-SE UMA FELICIDADE PERFEITA

Satiabor cum apparuerit gloria tua  — “Saciar-me-ei, quando aparecer a tua glória” (Ps. 16, 15).
Sumário. Posto que no mundo se encontrem muitas coisas formosas, não são, todavia perfeitas, e sempre deixam alguma coisa para desejar. Se, porém, tivermos a ventura de entrar no céu, o nosso coração estará perfeitamente satisfeito nessa ditosa pátria. Ali nada haverá que possa desagradar, e haverá tudo aquilo que se possa desejar. Ah, meu Jesus! Peço-Vos o céu, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar de todo o coração.
São Bernardo, falando do paraíso, diz: Ó homem, se queres saber o que seja a pátria bem-aventurada, fica sabendo que ali nada há que desagrade, e que se encontra tudo aquilo que se possa desejar; Nihil est quod nolis; totum est quod velis. — Se bem que nesta terra haja alguma coisa que agrada aos nossos sentidos, quantas coisas não há que afligem? Se agrada a luz do dia, aflige a escuridão da noite. Se agradam a amenidade da primavera, a abundância do outono, afligem o frio do inverno e o calor do verão. Acrescentai a isso os sofrimentos na enfermidade, as perseguições da parte dos homens, as privações da pobreza. Acrescentai as angústias interiores, os temores, as tentações dos demônios, as dúvidas da consciência, a incerteza da salvação.
Mas quando os bem-aventurados entram no céu, não terão mais nada a sofrer: Absterget Deus omnem lacrimam ab oculis eorum (1). Deus enxugará de seus olhos todas as lágrimas derramadas sobre a terra; e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais haverá dor; porquanto as coisas d’outrora desapareceram. — No céu não há doença, nem pobreza, nem incômodos. Deixam de existir a alternação dos dias e das noites, do frio e do calor; é um dia perpétuo e sempre sereno, uma primavera contínua e sempre deliciosa. Ali não há perseguições, nem ciúmes; neste reino de amor, todos os habitantes se amam mútua e ternamente e cada qual goza da ventura dos outros, como se fosse a própria. Não há receios, porque a alma confirmada na graça já não pode pecar; nem perder a seu Deus.
Ó meu Jesus, pelo sangue que derramastes por mim, fazei-me digno de entrar um dia na pátria bem-aventurada. Não mereço o paraíso, mas o inferno, porque Vos hei ofendido tantas vezes pelos meus pecados; porém, a vossa morte me faz esperar de possuí-Lo um dia.
Totum est quod velis. No céu não somente nada há que desagrade, mas encontra-se tudo quanto se possa desejar. Ali tudo é novo e saciará os nossos desejos: Ecce nova facio omnia (2) — Eis que faço novas todas as coisas. Os olhos se deslumbrarão com a vida daquela cidade, cuja beleza é perfeita. Que maravilha não nos causaria a vista de uma cidade cujas ruas fossem calçadas de cristal, cujas casas fossem palácios de prata, ornados de cimalhas de ouro e de festões de flores! Oh, quanto mais bela ainda é a cidade celeste! Que delicioso não será ver todos os seus habitantes vestidos com pompa real, porque todos efetivamente são reis, como os chama Santo Agostinho: Quot cives, tot reges! Que será o ver a Maria, que aparecerá mais bela que todo o paraíso! Que será o ver o Cordeiro divino! Um dia Santa Teresa viu apenas uma mão de Cristo e ficou arrebatada em êxtase à vista de tão grande beleza.
Os perfumes suavíssimos e incomparáveis do paraíso regalarão o olfato. O ouvido será deleitado pelas harmonias celestes. Um anjo deixou um dia ouvir a São Francisco  um único som da música celeste, e o Santo julgou morrer de contentamento. O que não será ouvir todos os santos e todos os anjos cantarem em coro os louvores de Deus? In saecula saeculorum laudabunt te (3) — “Eles te louvarão pelos séculos dos séculos”. O que não será ouvir Maria celebrar as glórias de Deus! A voz de Maria, diz São Francisco de Sales, é no céu o que é num bosque a do rouxinol, que vence a de todas as aves. Numa palavra, o paraíso é a reunião de todos os gozos que se podem desejar.
Ó meu Deus! Eu desejo e Vos peço o paraíso, não tanto para Vos gozar, como para Vos amar. Suplico-Vos, para glória de vossa misericórdia, fazei que os bem-aventurados vejam abrasado em vosso amor um pecador que tantas vezes Vos ofendeu. Tomo a resolução de ser d’aqui por diante todo vosso e de não pensar senão em Vos amar. — Assisti-me com a vossa luz e a vossa graça, que me dê força para executar esta resolução que Vós mesmo pela vossa bondade me inspirais. — Ó Maria, vós que sois a Mãe da perseverança, impetrai-me a fidelidade em minha promessa. (*II 133.)
  1. Apoc. 21, 4.
    2. Apoc. 21, 5.
    3. Ps. 83, 5.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

terça-feira, 29 de março de 2016

São João Bosco e a Modéstia nas vestimentas

Dom Bosco recusou entrar em uma casa onde tinha sido convidado, pois quando ao entrar encontrou com umas senhoras com os braços cobertos só até a metade.


Neste texto Dom Bosco nos ensina a perfeita modéstia com o seu exemplo.

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Em 1855, noutra circunstancia, deu a conhecer sua intransigência para com algumas senhoras.

Era D. Bosco esperado por uma certa Marquesa, benfeitora assídua dos seus jovens, a qual para acolher a Dom Bosco convidara numerosas amigas. Muitas senhoras luxuosamente vestidas acorreram logo, ansiosa; por se entreter com D. Bosco. Duas dentre estas foram receber D. Bosco; mal este pusera o pé no vestíbulo da entrada, estavam um tanto decotadas e com os braços cobertos só até a metade.

Logo que as viu, o santo sacerdote abaixou os olhos e disse:

- Desculpem-me, enganei-me, julgava entrar numa casa e penetrei noutra. Assim dizendo dispôs-se a sair.

- Não, D. Bosco, o senhor não se enganou, é justamente aqui que o aguardamos.

- Não, replicou o santo, não pode ser. 

Eu estava certo de que na casa para a qual me convidaram um padre pudesse entrar livremente. Tenho pena das senhoras, porém, pois a moda as faz empregar tanta seda na cauda do vestido que depois fica faltando para cobrir os braços. E Dom Bosco continuou a se afastar.

Percebendo então as senhoras que que estavam faltando contra a modéstia enrubeceram e cheias de confusão foram buscar algum chale que as cobrisse. Assim vestidas voltaram rogando a D.Bosco que já se achava na escada, que as perdoasse e fizesse o favor de voltar.

- Agora sim respondeu D. Bosco sorrindo, assim está bem.

Assim foi D. Bosco homenageado por todos os convivas e as duas senhoras não tiraram aquelas vestes improvisadas durante todo o tempo do almoço.

segunda-feira, 28 de março de 2016

DA VIRGINDADE

rezSão Cipriano (De disc. et hab. virg.) denomina a multidão de virgens que se consagram ao amor de seu Divino Esposo, de “a mais nobre porção da Igreja de Cristo”. Vários outros Santos Padres, como Santo Efrém, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo, São Crisóstomo, escreveram livros inteiros em louvor da virgindade.
Não é minha intenção expor aqui todos os méritos e vantagens que adquirem as pessoas que consagraram a Deus sua virgindade; disso tratarei extensamente no capítulo IV da III parte, que trata do voto de castidade [que reproduzimos logo abaixo]. Aqui farei seguir, simplesmente, uma instrução para os que levam uma vida virginal sem terem emitido o voto de castidade.
As almas virgens são extraordinariamente belas aos olhos de Deus: “Serão como os Anjos de Deus no Céu” (Mat 22, 30). Barônio conta que na morte de uma virgem, chamada Geórgia, uma multidão de pombos adejavam ao redor da casa e, quando seu cadáver foi transportado à igreja, pousaram no teto, exatamente em cima do lugar onde se achava o caixão, e daí não se retiraram até ser sepultada a piedosa virgem (An. 480). Essas pombas certamente eram Anjos, que queriam prestar as últimas honras àquele corpo virginal.
As almas virginais, que renunciaram ao casamento para se dedicarem exclusivamente ao amor de Jesus Cristo, tornam-se esposas do Filho de Deus. Nos Santos Evangelhos, Jesus Cristo é chamado Pai, Mestre, Pastor das almas; referindo-se às virgens, porém, dá-Lhe o nome de Esposo: “Elas saíram a receber o Esposo e a Esposa” (Mat 25, 1). Por isso, tinha razão Santa Inês, respondendo, segundo Santo Ambrósio, aos que lhe ofereciam a mão do filho do prefeito de Roma: “Ofereceis-me um esposo? Já encontrei um muito melhor” (De virg., 1.. 1). Semelhante resposta deu Santa domitila, sobrinha do imperador Domiciano, aos que queriam persuadi-la a casar­se com Aureliano: “Dizei-me: a quem deveria escolher por esposo uma jovem pedida em casamento por um monarca e por um camponês? Para casar-me com Aureliano, teria de renunciar ao Rei do Céu. Ora, isso seria uma loucura inominável, que nunca praticarei”. E, firme nessa resolução, deixou-se queimar viva, para poder permanecer fiel a Jesus Cristo, a Quem consagrara sua virgindade.
Quem poderá imaginar a glória que Deus reserva a Suas castas esposas lá no Céu? Os teólogos são de opinião que no Céu existe uma glória especial reservada às virgens, uma coroa ou alegria particular, de que estão privados os outros Santos.
Mas, dir-me-á uma ou outra jovem: ‘Ora, casando-me também poderei santificar­me’. Não receberás a resposta da minha boca, mas da de São Paulo, que te dirá também a diferença que existe entre as virgens e as casadas: “A mulher virgem pensa nas coisas que são do Senhor, para que seja santa no corpo e no espírito. Mas, a que é casada, pensa nas coisas que são do mundo, em como agradar ao marido. Em verdade, digo isso para vosso proveito… para vos exortar ao que vos convém e vos facilita a orar ao Senhor sem embaraço” (I Cor 7, 34).
Deve-se, pois, notar que as casadas, sem dúvida alguma, podem ser santas segundo o espírito, ao passo que as virgens, que amam a Deus, o são de corpo e espírito. Tome-se também em consideração estas palavras: “O que facilita servir a Deus sem impedimento” . Quantos impedimentos não encontram as casadas na sua tendência à santidade! E esses obstáculos são tanto maiores, quanto mais elevada a sua condição [social].
Para nos fazermos santos temos de empregar os meios e, antes de tudo, nos consagrar à oração mental, receber amiúde os Santos Sacramentos, e pensar sem interrupção em Deus. Ora, quando uma senhora casada achará tempo para cuidar naquilo que é do Senhor? Ela se ocupará com as coisas deste mundo, diz São Paulo, cuidará em agradar a seu marido, olhará pelas necessidades de sua família, pelo seu sustento e vestes, vigiará a educação de seus filhos, atenderá aos parentes e amigos, pensará continuamente nos seus afazeres; seu coração ficará assim dividido entre seus filhos, seu marido e Deus. Como encontrar tempo para se entregar a longas orações mentais, para receber muitas vezes a Comunhão, se nem lhe resta tempo para cuidar de todas as obrigações de sua casa e estado? O marido quer ser atendido, os filhos gritam e choram, querendo mil coisas diversas. Como meditar entre tantos cuidados e perturbações? Muitas mães de família nem mesmo aos domingos podem ir à igreja. É verdade, ela pode conservar a sua boa vontade, mas sempre lhe será custoso cuidar, como convém, do que é do Senhor. Não há dúvida de que pode adquirir grandes merecimentos em razão de tais provações, entregando-se à Vontade de Deus que, em tais condições, não que mais do que um sacrifício perene de resignação e paciência; mas, no meio de tantas distrações e tribulações, é quase impossível, é mesmo heroísmo, praticar a virtude da paciência e conformidade, sem o exercício da oração e a recepção dos Sacramentos. .. Mas, prouvera a Deus que as senhoras casadas nada mais tivessem a deplorar que a falta de tempo necessário para seus exercícios de piedade.
A má conduta do marido, os desgostos causados pelos filhos, os negócios da casa, as molestas atenções que se devem à sogra e aos cunhados, as suspeitas, as inquietações de consciência quanto à vida conjugal e educação dos filhos, tudo isso origina um mar de tribulações, no qual passam sua vida entre suspiros e lágrimas. E felizes se conseguirem salvar sua alma e alcançarem de Deus a graça de não deixarem o inferno desta vida para se precipitarem no inferno eterno! Esta é a bela sorte das jovens que se consagram ao mundo… [grifo do original]
Mas, entre tantas mulheres casadas, não haverá uma só que se santifique? Sim, existem também Santas casadas. Porém, quais são estas? As que se santificam pelo martírio, que sofrem tudo por amor de Deus, com uma paciência que nada abala. Mas, quantas se elevarão a tal perfeição? Ah! Mui poucas. E se encontrares uma tal, verás que deplora amargamente ter escolhido o partido do mundo, tendo podido, com tanta facilidade, consagrar-se a Jesus Cristo.
Verdadeiramente felizes são aquelas virgens que se consagram por inteiro e exclusivamente ao seu Divino Salvador. Estas estão livres dos perigos em que se achão as casadas. Seu coração está desembaraçado do apego aos filhos e marido, aos bens transitórios, ao luxo vão ou a outras coisas do mundo.
E, quando as mulheres casadas se vêem obrigadas a empregar muitos cuidados e grandes somas com seu traje, para aparecer ao mundo à altura de sua posição e agradar a seu marido, a virgem que se consagrou a Jesus Cristo se contenta com um vestido simples e desataviado, pois, do contrário, daria escândalo. Todos os seus pensamentos e cuidados tendem a agradar a Jesus, a quem dedicou seu corpo, sua alma, seu amor todo. Assim, possui ela também mais liberdade de espírito para pensar em Deus e mais tempo para se entregar à oração e receber os Sacramentos.
Se não te sentes chamada, alma cristã, ao estado conjugal, nem ao religioso, mas desejas fazer-te santa no mundo, como verdadeira esposa de Jesus Cristo, toma a peito os seguintes conselhos: Para a santificação, não é suficiente que uma virgem traga ilibada a sua pureza e use o nome de esposa de Jesus Cristo; é preciso também praticar as virtudes de uma esposa de Jesus. No Evangelho é o reino dos Céus comparado a umas virgens. Mas que virgens? Às virgens prudentes e não às loucas. Aquelas foram introduzidas na sala das núpcias; a estas foi a porta fechada e ouviram do Esposo: Não deixais de ser virgens, mas eu não vos reconheço por esposas minhas. As verdadeiras esposas de Jesus seguem o Esposo para onde quer que Ele vá (Apoc 14, 4). que quer dizer seguir o Esposo? Santo Agostinho explica que é prender-se a Ele (De s. virg., c. 7). Depois de Lhe teres sacrificado teu corpo, deves ainda consagrar-Lhe todo o teu coração, de tal forma que só te ocupes em amá-lO. Para isso, deves empregar os meios para pertencer exclusivamente a Ele.
O primeiro é a oração mental, a que te deves dedicar com todo o zelo. Não julgues que, para isso, é necessário se recolher a um convento ou passar todo o dia na igreja. Não há dúvida que em uma casa de família há barulho e perturbações de pessoas que entram e saem; mas quem tem boa vontade encontra sempre jeito e tempo para fazer suas orações; por exemplo, de manhã, antes de se levantarem as pessoas da casa, ou de noite, depois de já se terem recolhido. Também não se requer que se esteja sempre de joelhos; podem-se recitar as orações durante o trabalho ou caminhando; basta elevar o pensamento a Deus, pensar na Paixão de Cristo ou meditar sobre qualquer outro assunto devoto.
O segundo meio é a recepção assídua dos santos sacramentos da Penitência e Eucaristia. (….) Quanto à Comunhão, não é muita coisa se for recebida só por obediência; deve-se ter deselo delA, e pedi-lA. Esse Divino Pão quer ser desejado e que se tenha fome dEle. A Comunhão é que faz com que as esposas de Jesus permaneçam fiéis a seu Divino Esposo, já que a Ela devem em especial a conservação de sua pureza. Este Divino Sacramento conserva na alma toda espécie de virtudes, sendo, porém, seu efeito principal, conservar ilibado o lírio da virgindade, dando-Lhe o profeta, por isso, o nome de “nutrimento dos escolhidos e vinho que gera virgens” (Zac 9, 17)..
O terceiro meio é o recolhimento e a vigilância. O Divino Esposo compara Sua esposa com um lírio entre os espinhos (Cânt 2, 2). Uma donzela que quer viver na sociedade, entre divertimentos e distrações mundanas, não poderá permanecer fiel a Jesus Cristo. Deve, pelo contrário, estar sempre circundada dos espinhos da abstinência e mortificações, e guardar, em especial no trato com homens, a maior reserva, e rigorosa modéstia dos olhos e palavras e, mesmo, se necessário, mostrar-se austera e descortês.
Os espinhos são o que protegem os lírios, isto é, as virgens; sem eles, perder-se­ão em pouco tempo. O Senhor compara a beleza de Sua esposa com a da pomba (Cânt 1, 9). Por quê? Porque a pomba, por instinto natural, evita a companhia dos outros pássaros. Assim, uma virgem é bela aos olhos de Jesus, se leva uma vida retirada e se se esconde, quanto possível, aos olhos do mundo.. São Jerônimo diz (Ep. ad Eust.) que o Esposo das almas é cioso. Desgosta-se muito, por isso, de uma virgem que, depois de se haver consagrado ao Seu amor, gosta de mostrar-se e procura agradar aos homens.
Pessoas verdadeiramente virtuosas preferem desfigurar-se a si mesmas a tornar­se objeto de amor criminoso. Se, por desgraça, acontecer tornar-se uma virgem vítima de uma violência qualquer, sem culpa sua, não deve inquietar-se com isso, já que sua pureza não fica alterada. Foi o que Santa Lúcia respondeu ao tirano que a ameaçava de entregá-la ao prostíbulo: “Se eu for desonrada contra minha vontade, receberei uma coroa dupla”. Com razão se diz: Não o sentimento, mas o consentimento fere a alma. Além disso, podemos ficar convencidos que uma virgem modesta e reservada saberá também fazer-se respeitar.
O quarto meio é a mortificação dos sentidos. Uma virgem que quer conserva-se pura, diz São Basílio, deve ser pura na língua, falando sempre com decoro e, se for necessário tratar com homens, só dizer o indispensável; pura nos ouvidos, evitando ouvir conversas mundanas; pura nos olhos, conservando- os fechados ou, ao menos, baixos, quando na companhia de homens; pura no tato, usando do máximo cuidado quanto aos outros e quanto a si mesma; pura principalmente no espírito, esforçando-se por resistir aos maus pensamentos, recorrendo a Jesus e Maria.
Para conseguir isso, é preciso que ela mortifique seu corpo com jejuns e outras penitências. Jesus Cristo é um ‘Esposo de Sangue’ (Ex 4, 26), que desposou nossa alma na ara da Cruz e, por amor dela, derramou até a última gota de Sangue. Por esse motivo, Suas esposas suportam angústias, doenças, dores, maus tratos e injúrias, não só com paciência, mas até com alegria. Assim deve-se entender o texto da Escritura, que diz: “As Virgens seguem o Cordeiro para onde quer que Ele vá” (Apoc 14, 4). Elas seguem jubilosas e cantando a Jesus, seu Divino Esposo, mesmo no meio dos opróbrios e penas, a exemplo de milhares de virgens que foram ao encontro da morte e das torturas, cheias de alegria.
Finalmente, deves recomendar-te instantemente a Maria, a Rainha das Virgens, se quiseres perseverar no teu estado de virgindade perpétua. Ela é que prepara e conclui a união das almas com Seu Divino Filho; Ela que alcança para essas almas escolhidas a graça da preseverança, pois, sem a Sua assistÊncia, todas tornar-se-iam infiéis.  
Vós, que ledes estas linhas, -dirijo-me àquelas que se sentem chamadas pelo Divino Esposo a renunciar ao Matrimônio -vós, que quereis pertencer a Jesus Cristo, não vos obrigueis desde logo por um voto, nem façais, logo no começo, o voto de castidade perpétua; fazei esse voto quando Deus vo-lo inspirar e o confessor o permitir. Aconselho-vos, porém, que agradeçais a Jesus Cristo, vos ter chamado a Seu especial amor, e vos ofereçais ao Senhor como coisa que Lhe é consagrada e própria para todo o sempre. E, por isso, dizei-Lhe assim: Ó meu Jesus, meu Deus e Salvador, que por mim morrestes, perdoai-me se também eu ouso chamar-vos meu Esposo. Ouso porque vejo que Vos agrada chamar-me a essa honra. Essa graça é tão grande, que não Vo-la posso agradecer suficientemente. Eu merecia estar agora ardendo no inferno, porém, em vez de me castigar, escolheis-me para esposa Vossa. Pois bem, meu Divino Salvador, eu renuncio ao mundo, eu renuncio a tudo por amor de Vós e a Vós me entrego inteira e irrevogavelmente. De hoje em diante sereis meu único bem, meu único amor. Vejo que quereis possuir meu coração inteiro: ei-lo, entrego-o sem restrição. Aceitai meu sacrifício e não me repulseis como eu mereceria. Esquecei-Vos de todas as ofensas que Vos tenho feito até hoje: detesto-as de todo o coração. Ah! Tivesse eu morrido antes de Vos haver ofendido! Perdoai-me em Vosso amor, e concedei-me a graça de Vos permanecer fiel e nunca mais Vos abandonar. Vós, ó meu Esposo, Vos entregastes todo a mim; eis-me aqui, eu também quero entregar-me toda a Vós. Ó Maria, minha Rainha e minha Mãe, prendei meu coração ao Coração de Jesus Cristo; ligai-me tão fortemente a Ele, que nunca mais possa desprender-me de Vosso Divino Filho. 
Tratado da Castidade – Sto Afonso de Ligório

sábado, 26 de março de 2016

RESPONSABILIDADES DOS CRISTÃOS

Do pecado original, que contraís através do pai e da mãe na concepção, restou-vos somente uma cicatriz. Ela é apagada, embora não completamente, pelo batismo, ao qual o Sangue de Cristo concedeu a virtude de infundir a vida da graça. Quando alguém é batizado, imediatamente cancela-se o pecado original e infunde-se a graça; a inclinação para o pecado, descrita antes como uma cicatriz, fica enfraquecida e submetida ao controle da pessoa. Assim, o homem dispõe-se a receber e aumentar a graça em si mesmo. O resultado, para mais ou para menos, depende do seu esforço em servir-me com amor e anseio. Embora possuindo a graça batismal, a pessoa pode encaminhar-se livremente para o bem ou para o mal. É ao atingir o uso da razão que praticará o bem ou o mal, conforme agradar ao arbítrio de sua vontade.
Aliás, tão grande é a liberdade humana, de tal modo ficou fortalecida pelo precioso Sangue de Cristo, que demônio ou criatura alguma pode obrigar alguém à menor culpa, contra o seu parecer. Acabou-se a escravidão; o homem ficou livre. Agora, ele pode dominar a sensualidade e chegar à meta para a qual foi criado. Ó homem infeliz, que prazerosamente te enlameias no lodo, como um animal, e não reconheces os imensos favores que te dei! Pobre criatura! Mais não poderias receber, e no entanto vives cheia de misérias!
Minha filha, procura compreender! Ao obter a graça, os homens são recriados no Sangue do meu Filho unigênito. Como disse, a graça foi restituída aos homens; mas se não a aceitam, passarão do mal para o pior. Desprezando meus benefícios, de pecado em pecado me ofendem. Além de não reconhecerem o auxílio da graça, até acham que cometo ofensas; afirmam que não desejo a sua santificação! Pois bem, quero esclarecer: semelhantes pessoas merecem um castigo mais severo! Agora que tiveram a redenção mediante o Sangue de meu Filho, a punição será mais grave do que antes, quando ainda não fora cancelada a ferida causada pela culpa de Adão.
É razoável que produza mais frutos aquele que mais recebeu; é razoável que seja maior sua dívida diante daquele de quem recebeu. Muito já me devia a humanidade. Dera-lhe o ser, ao criar o homem a minha imagem e semelhança. Então ele possuía a obrigação de dar-me glória. Recusou-se a fazê-lo, glorificou a si mesmo, não aceitou a obediência por mim imposta, tornou-se meu inimigo. Então, com humilhação, destruí sua soberba. Humilhei-me (em Cristo), assumi vossa natureza, libertei-vos da escravidão do demônio, tornei-vos livres. Se prestares atenção, não somente vos fiz livres; de fato o homem tornou-se Deus e Deus se fez homem, graças à união (hipostática) da natureza divina com a humana.
O tesouro do Sangue, pelo qual a humanidade foi recriada ficou sendo uma dívida. Entendes, pois, como depois da redenção, o homem tem maior obrigação para comigo. Devem-me glória e louvor. Uma dívida de amor para comigo e o próximo, que é paga quando as pessoas seguem as pegadas de meu Filho unigênito, Palavra encarnada, mediante a prática das virtudes interiores, das quais já falei (2.8).
Por causa desta obrigação de amar-me muito, em caso negativo, o pecado é maior. Eis a razão por que minha justiça divina pune com pena maior, com a condenação eterna. O cristão infiel padecerá mais que o homem não batizado. Embora sem destruí-lo, por justiça divina o atormenta mais o fogo. Como? Pelo tormento e aflição do remorso. Sem destruí-lo, porque os condenados (ao inferno) não são aniquilados por nenhum de seus padecimentos. Digo-te que eles bem que pedem sua destruição, mas não a alcançam, pois jamais serão reduzidos ao nada. Devido à culpa, perderam o ser da graça, não o ser da natureza.
Desse modo, após a redenção da culpa é punida com mais rigor do que antes. Os redimidos receberam mais. No entanto, parece que não se preocupam com isso, não temem os próprios pecados. Tornaram-se inimigos meus, embora resgatados pelo Sangue do meu Filho.
O Diálogo – Santa Catarina de Sena  

quarta-feira, 23 de março de 2016

A devoção à Sagrada Paixão (Santo Afonso Maria de Ligório)


§I. A meditação da Paixão de Cristo esclarece nosso entendimento

1. A Paixão de Cristo faz-nos conhecer
a Justiça e a Misericórdia de Deus
2. A Paixão de Cristo nos mostra o amor
do Eterno Pai para com os homens
3. Por Sua Paixão Jesus Cristo
dá a conhecer quanto Ele nos ama

§II. A meditação da Paixão de Cristo nos enche de consolação

1. Nas nossas angústias
2. Nas nossas tribulações
3. Nas nossas enfermidades
4. Na hora da nossa morte

§III. A meditação da Paixão de Cristo nos conduz à perfeição

1. A meditação da Paixão de Cristo constitui a ciência dos Santos
2. A meditação da Paixão de Cristo inflama-nos no fogo do amor divino
3. A meditação da Paixão de Cristo excita-nos à prática de todas as virtudes

§IV. Avisos práticos

§V. Ladainha da Paixão do Senhor

+ + +
§I. A meditação da Paixão de Cristo esclarece nosso entendimento

Sabendo os Santos quão agradável é a Jesus Cristo a recordação constante de Sua Paixão, estavam sempre ocupados em meditar continuamente nas dores e ultrajes que esse amável Salvador sofreu durante toda a Sua vida, mas, em especial, no fim da mesma. Oh! Quanta luz nos traz a meditação sobre um Deus a padecer por nós!

1. A Paixão de Cristo faz-nos conhecer a Justiça e a Misericórdia de Deus

Segundo São João Crisóstomo, não é tanto o inferno com o qual Deus castiga o pecador, mas sim a vista de Jesus Cristo na Cruz, que nos dá uma idéia do rigor da Justiça Divina, pois no inferno são as criaturas que são castigadas por seus pecados: na Cruz, porém, padece um Deus para expiar os pecados dos homens. Estava Jesus Cristo talvez obrigado a morrer por nós? De nenhuma forma, responde Isaías, mas “foi sacrificado porque Ele mesmo o quis” (Is 53, 7). Ele podia, com toda justiça, abandonar o homem à sua ruína livremente escolhida; Seu amor, porém, não Lhe permitiu entregar-nos à perdição eterna e, por isso, quis submeter-se a uma morte tão dolorosa para obter-nos a salvação. “Ele nos amou e se entregou a si mesmo por nós” (Ef 5, 2).

Deus amou o homem desde toda a eternidade. “Com amor eterno amei-te Eu” (Jer 31, 3). Vendo-se, porém, Sua Justiça obrigada a condenar o homem e a lançá-lo eternamente no inferno, sentiu-se levado por Sua Misericórdia a inventar um meio de o salvar. E que meio foi esse? Devia em pessoa satisfazer à Justiça Divina por meio de Sua Morte. O Senhor quis por isso que o decreto que condenava o homem à morte eterna fosse pregado na Cruz e apagado com Seu Sangue.

Por esse mesmo motivo Jesus Cristo, ao morrer na Cruz em satisfação de nossos pecados, só tinha palavras de compaixão para conosco. Ele pediu a Seu Pai que usasse de misericórdia não só com os judeus que desejavam a Sua Morte, como também com os verdugos que O executaram: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Em vez de castigar os dois ladrões que blasfemavam, o Divino Salvador prometeu a um deles, que Lhe pedia misericórdia, no excesso de Sua compaixão, que lhe daria o paraíso naquele mesmo dia: “Em verdade, Eu te digo que hoje mesmo estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). Do alto da Cruz Jesus Cristo nos deu a todos, na pessoa de São João, a Santíssima Virgem por Mãe: “Ele disse ao discípulo: Eis aí tua Mãe” (Jo 19, 27). Na Cruz deu-se Ele por feliz por ter feito tudo o que exigia a nossa salvação e terminou o Seu Sacrifício dando Sua Vida por nós.

Assim, pela Morte de Jesus Cristo, o homem foi libertado do pecado e do poder do demônio; foi reintegrado na Graça de Deus e, mesmo, em maior Graça do que a que perdera pela queda de Adão. “Quando abundou o pecado, superabundou a Graça” (Rom 5, 20).

2. A Paixão de Cristo nos mostra o amor do Eterno Pai para com os homens

“Assim amou Deus ao mundo, diz Nosso Senhor, que lhe deu Seu Filho Unigênito” (Jo 3, 16).

Devemos considerar, nessa dádiva, primeiramente, quem é que no-la faz; segundo, o que nos é dado e, terceiro, com que amor é ela feita.

1. Quanto mais nobre é aquele que nos presenteia, tanto mais valiosa é a dádiva. Se alguém recebe uma flor da mão de um rei, ele a preza mais do que um presente valioso recebido de outra pessoa. Em que consideração, pois, não devemos ter uma dádiva que nos vem das mãos do próprio Deus?!

2. E qual é o presente que Deus nos fez? É o Seu próprio Filho. Para o amor que Deus nos tinha parecia pouco todos os outros bens que Ele nos tinha dado; queria dar-nos a si mesmo na Pessoa de Seu Filho Humanado. “Ele não nos deu nenhum servo, nenhum anjo, mas Seu próprio Filho Unigênito”, diz São João Crisóstomo.

3. E por que fez Ele isso? Por nenhum outro motivo senão por amor. Pilatos entregou Jesus aos judeus por temor; o Padre Eterno, porém, deu-nos Seu Filho Unigênito por amor. Se alguém nos dá alguma coisa, o primeiro benefício que recebemos, segundo São Tomás de Aquino (I, q. 38, a. 2), consiste no amor que o doador patenteia pelo presente, pois que a causa única de um verdadeiro presente é o amor; o presente perde o caráter de um verdadeiro presente, quando é dado por um outro motivo fora do amor.

O presente, porém, que o Padre Eterno nos fez de Seu Divino Filho, foi um verdadeiro presente que Ele nos deu sem que tivéssemos o mínimo direito a ele. E por isso foi que a Encarnação, como nota o mesmo Santo Doutor, foi operada pelo Espírito Santo, isto é, pelo Amor (III, q. 32, a. 1).

Deus, porém, não só nos deu Seu único Filho por puro amor; Ele no-lo deu também com amor infinito. Foi justamente isso o que Nosso Senhor queria significar quando disse: “Tanto assim amou Deus ao mundo”. A palavra “Tanto assim”, diz São João Crisóstomo, significa a grandeza do amor com Deus nos fez esse inefável presente. Que maior amor poderia Deus nos mostrar do que condenar à morte Seu Filho inocente para nos remir a nós, miseráveis pecadores? “Não poupou a Seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós” (Rom 8, 32).

Que dor não deveria sentir o Padre Eterno, se Ele estivesse sujeito à dor, vendo-se obrigado, de certo modo, por Sua Justiça, a condenar a uma morte tão cruel e degradante esse Seu Filho, que Ele amava tanto como a si mesmo! O Senhor queria vê-lO consumido pelas dores (Is 53, 10).

À vista da grandeza desse amor de Deus para conosco, exclamava São Paulo: “Deus, que é rico em misericórdia, pela extremada caridade com que nos amou, ainda quando estávamos mortos pelo pecado, nos deu vida justamente em Cristo” (Ef 2, 4). O Apóstolo diz: Pelo excessivo amor com que nos amou. Mas como poderá existir em Deus um excesso? O Apóstolo assim se exprime para nos mostrar que Deus fez pelo homem coisas que não seriam acreditadas por ninguém, se a fé não nos convencesse delas. Por isso a Igreja exclama, fora de si de admiração: Ó admirável condescendência de Vosso amor para conosco! Ó infinito amor de nosso Deus que, para libertar o servo, entregou Seu próprio Filho!

3. Por Sua Paixão Jesus Cristo dá a conhecer quanto Ele nos ama

(Crucifixo pintado por Santo Afonso)

É um dogma que Jesus Cristo nos amou e que, por nosso amor, se entregou à morte. Quem poderia matar um Deus onipotente, se Ele mesmo, por livre vontade, não quisesse morrer por nós? “Eu dou a minha vida; e ninguém a tira de mim, mas Eu mesmo a entrego” (Jo 10, 17), diz o Salvador. É por isso, diz São João, que Jesus Cristo com Sua Morte, nos deu a prova mais evidente possível de Seu Amor. Com Sua Morte Jesus Cristo nos deu uma prova tão clara de Seu Amor, nota um piedoso escritor, que não Lhe ficou mais nada para nos convencer da grandeza de Seu Amor.

Na consideração da palavra: “Tenho sede”, pronunciada por Jesus agonizante na Cruz, diz São Lourenço Justiniano que essa sede não provinha da necessidade de beber, mas da ardente chama de Seu Amor para conosco. Com essas palavras o divino Salvador não queria tanto dar a conhecer Sua sede corporal, como Seu desejo de sofrer por nós, do mesmo modo como quis Ele mostrar por Suas dores todas o Seu Amor para conosco e o ardente desejo de ser amado por nós. São Basílio de Seleucia acrescenta que Jesus disse que tinha sede para nos dar a conhecer que Ele morria por amor de nós de tal modo que esse Seu desejo foi [ainda] maior que todos os sofrimentos que padeceu realmente.

Quem compreenderá jamais o amor que o Verbo Divino tem a cada um de nós? Pergunta São Lourenço Justiniano. Ele sobrepuja imensamente o amor de um filho para com sua mãe e o de uma mãe para com seu filho. Ele é tão grande que Nosso Senhor revelou a Santa Brígida (Ver. 1. 7, c. 14) que Ele estaria pronto a padecer tantas vezes quantas são as almas que se acham no inferno, se elas ainda fossem capazes de redenção. Segundo São Tomás (III, q. 47, a. 4), o divino Redentor, justamente para nos mostrar Seu Amor imenso, pediu a Deus perdão para Seus algozes (Lc 23, 34). Ele pediu o perdão e foi atendido, de forma que eles, depois de O verem morto, se arrependeram de seus pecados.

“E que Vos importava, ó bom Jesus, digo eu com São Bernardo, que Vos importava se nos perdêssemos e fossemos castigados como merecíamos? Por que quisestes sofrer em Vosso corpo inocente os castigos devidos a nossos pecados? Por que quisestes morrer, ó Divino Mestre, para nos livrar da morte? Oh! Maravilha que jamais se deu igual e nunca mais se repetirá! Oh! Graça que nunca poderíamos merecer! Oh! Amor que jamais poderemos compreender!

Oh! Meu amadíssimo Salvador! Exclama, suspirando, São Bernardo, que crime cometestes para que fosseis condenado à morte e à morte de cruz? Ah! Bem sei, continua o Santo, conheço a causa de Vossa morte; sei que pecados cometestes: Vosso crime é Vosso excessivo Amor pelos homens; foi ele e não Pilatos que Vos condenou à morte. Não, eu não vejo outra causa de Vossa morte do que Vosso excessivo Amor por nós, exclama São Boaventura. Em verdade, conclui São Bernardo, um tal excesso de Amor obriga-nos a consagrar-Vos, ó amável Redentor, todos os afetos de nosso coração” (Serm. 20, in Cant.).

Além disso, devemos pensar em que o Divino Salvador padeceu em especial por cada um de nós tudo o que Ele sofreu durante a Sua Paixão: “Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim”, diz São Paulo (Gal 2, 20). O que diz o Apóstolo deve também dizer cada um de nós. Por isso escreve Santo Agostinho (De dilig. D., c. 6) que o homem foi resgatado por um tão grande preço que parece valer muito mais do que o próprio Deus. E o Santo ousa até acrescentar: Senhor, Vós não só me amastes como a Vós mesmo, mas até mais que a Vós, porque quisestes sofrer a morte para dela me livrardes.

§II. A meditação da Paixão de Cristo nos enche de consolação

1. Nas nossas angústias

Quem nos poderá consolar tão eficazmente neste vale de lágrimas como o nosso Salvador Crucificado? Quem nos poderá tranqüilizar quando nos sentirmos atormentados pelos remorsos de nossos pecados? O que mais, senão o pensamento de que Jesus Cristo se deu a si mesmo pelos nossos pecados? (Gal 1, 4). “Meus filhinhos, eu vos escrevo isto para que não pequeis, diz São João na sua primeira epístola (1 Jo 2, 1). Se alguém, porém, pecar, temos junto do Pai a Jesus Cristo por nosso Advogado, e este é a propiciação pelos nossos pecados”.

Jesus Cristo não cessa de pedir por nós ao Eterno Pai, apesar de Sua Morte; ainda agora é Ele nosso Intercessor e, segundo São Paulo, parece que Ele nada mais tem a fazer no Céu senão pedir ao Pai misericórdia para nós. O Apóstolo chega até a dizer que Jesus Cristo subiu ao Céu justamente “para interceder continuamente por nós diante do Pai” (Heb 9, 24). Assim como os rebeldes são expulsos da presença de seu rei, deveríamos também nós, como pecadores, ser repelidos da presença de Deus e nem sequer ser admitidos para pedir perdão; Jesus, porém, se colocou como nosso Salvador diante de Deus e alcançou-nos novamente a Graça que tínhamos perdido.

Muito mais fortemente clama por misericórdia em nosso favor o Sangue de nosso Divino Salvador do que o sangue de Abel por vingança contra Caim. “Depois que Eu me vinguei no corpo inocente de Jesus Cristo, disse um dia o Pai Eterno a Santa Maria Madalena de Pazzi, minha justiça transformou-se em benignidade. O Sangue de meu Filho não pede vingança, como o sangue de Abel, mas misericórdia e compaixão; e, a tal brado, minha justiça fica apaziguada”.

Esse Sangue prende, de certo modo, as mãos do Senhor, de forma que Ele não as pode mais levantar para castigar os pecadores. “Que tens a temer, ó pecador, pergunta São Tomás de Villanova, se pretendes deixar o pecado? Como poderá te condenar esse amante Salvador, que morreu para te não condenar? Como poderá repelir-te quando te voltas para Ele, se Ele, quando fugias de Sua presença, desceu do Céu em busca de ti?”

2. Nas nossas tribulações

Onde encontraremos força para suportar com paciência e resignação todas as perseguições, calúnias, humilhações, perda de bens e honras, senão na meditação de nosso Salvador pobre, desprezado e caluniado, que morre despido e abandonado por todos em uma Cruz? Quando vemos as grandes tribulações de nosso Salvador Crucificado, diz São Bernardo, devemos menosprezar as nossas. “Que coisa não te parecerá doce, pergunta o mesmo Santo, se pensares na amargura de teu Salvador?” Perguntado uma vez São Elzeário por sua esposa Delfina sobre como podia suportar tantas injúrias com tão grande calma, respondeu: Quando me injuriam, penso no que sofreu o Salvador Crucificado, e retenho esse pensamento até que volte por inteiro a calma.

Quando, pois, nos sentimos interiormente abandonados e privados da presença sensível de Deus, unamos o nosso desamparo ao que Jesus Cristo sofreu na Sua Morte. Às vezes o Salvador se esconde às Suas almas mais queridas; nunca, porém, se afasta de seus corações, e continua a auxiliá-las internamente com Sua Graça. Não se dá Ele por ofendido quando, em circunstâncias tais, Lhe dizemos o que Ele disse a Seu Eterno Pai, no Jardim das Oliveiras: “Meu Pai, se for possível, afastai de mim este cálice” (Mat 26, 39). Mas devemos também ajuntar imediatamente: “Não se faça como eu quero, mas como Vós quereis”. E se o desamparo continua, devemos também prosseguir na repetição desse ato de resignação, como o fez Jesus Cristo nas três horas de Sua agonia.

À Irmã Madalena Orsini, que por muito tempo se achava em grandes tribulações, apareceu uma vez o Salvador Crucificado e exortou-a a sofrer com paciência. A serva de Deus respondeu-Lhe: Mas, Senhor, Vós padecestes só três horas na Cruz, ao passo que eu já sofro este tormento há vários anos. Jesus repreendeu-a então, dizendo: Ó ignorante, que dizes? Desde o primeiro instante de minha existência no ventre de minha Mãe experimentei em meu Coração tudo o que sofri mais tarde na Cruz.

III. Nas nossas enfermidades

Que coisa nos poderá consolar mais em nossas doenças do que a vista de Jesus Crucificado? Quando estamos doentes, temos ao menos um leito: Jesus, porém, em Sua Morte dolorosíssima, em vez de um leito, tinha o duro madeiro da Cruz ao qual estava pregado com três cravos; em vez de um travesseiro, tinha, para repousar Sua dolorida cabeça, aquela coroa de espinhos que O atormentou até o Seu último suspiro.

Como quisessem atar com cordas ao santo capuchinho José de Leonissa, para sujeitá-lo a uma dolorosa operação, tomou ele o seu crucifixo e exclamou: Para que cordas? Eis aqui as minhas cordas; meu Senhor e Salvador, que foi pregado na Cruz por amor de mim, é Quem me ata; por Suas dores Ele me obriga a suportar pacientemente, por amor dEle, toda e qualquer dor. E, à vista de Jesus, que na Sua Paixão “não abriu a boca, como um cordeiro diante do que o tosquia”, sofreu ele a operação sem proferir uma só palavra de queixa.

Quando estamos doentes, amigos compassivos e parentes estão ao redor de nós, procurando minorar as nossas penas; Jesus, porém, morreu no meio de Seus inimigos, que não cessaram, mesmo na Sua agonia e até ao Seu último suspiro, de O injuriar e de tratá-lO como um criminoso e sedutor do povo. Certamente nada é tão próprio para consolar a um doente, especialmente se ele se vê abandonado pelos homens, do que a vista de Jesus Crucificado. Oh! Sim, a maior consolação que o doente pode então sentir consiste em poder ele unir seus sofrimentos com os de Jesus Cristo.

IV. Na hora da nossa morte

Quando começa o último combate de um moribundo e os ataques do inferno, a lembrança dos pecados cometidos e das contas que brevemente terá de prestar diante do tribunal de Deus, lhe ocasionam agonias mortais, a única consolação que lhe fica é abraçar a Cruz e dizer: Ó meu Jesus e meu Salvador, Vós sois o meu amor e a minha esperança.

Achando-se uma vez enfermo, São Bernardo foi transportado, em uma visão, diante do tribunal de Deus e, aí, acusado de seus pecados pelo demônio, que lhe afirmava que ele não merecia o Céu. Respondeu então o Santo: Sim, eu não mereço o Céu, mas Jesus tem um duplo direito a ele: primeiro, porque Ele é o verdadeiro Filho de Deus; segundo, porque adquiriu o Céu por Sua Morte. Ele contenta-se com o primeiro título e deixa-me o segundo; por isso peço o Céu e espero alcançá-lo.

Assim podemos também falar, pois São Paulo diz que Jesus Cristo quis morrer consumido pelas dores para abrir o Céu a todos os pecadores arrependidos, que estão decididos a não pecar mais. A vista do Salvador morrendo na Cruz dava aos Mártires a coragem e força de suportar com paciência os mais horrendos tormentos que a crueldade dos tiranos podia imaginar; e isso os fazia não só suportar com paciência, mas até com alegria e com o desejo de sofrer ainda mais por amor de Jesus Cristo.

Eis a célebre carta que Santo Inácio de Antioquia escreveu aos cristãos, quando ele foi condenado a ser lançado aos animais bravios: “Meus filhos, eu sou o trigo de Deus; deixai que eu seja moído pelos dentes dos animais bravios, para que eu me torne um pão delicioso a meu Salvador. Eu procuro somente Aquele que morreu por nós. Deixai-me imitar a Paixão de meu Salvador. Ele, que é o único objeto de meu amor, e o amor que Lhe tenho excita em mim o desejo se ser também crucificado por Ele”.

§III. A meditação da Paixão de Cristo nos conduz à perfeição

1. A meditação da Paixão de Cristo constitui a ciência dos Santos

O Apóstolo dizia que não queria saber outra coisa “senão Jesus Cristo, e este crucificado” (I Cor 2, 2). E, realmente, em que livros poderíamos aprender melhor a ciência dos Santos, que consiste em saber amar a Deus, do que em Jesus Crucificado? Os confrades do Beato Bernardo de Corleone, irmão capuchinho, queriam ensinar-lhe a ler, visto que não o sabia. Ele se aconselhou com seu Crucifixo e Jesus respondeu-lhe da Cruz: Para que livros? Para que aprender a ler? Eu sou o teu livro, no qual poderás constantemente ler o amor que te votei”. Oh! Que importante objeto de meditação para a vida inteira e para a eternidade não é este: um Deus morreu por amor de nós... um Deus morto por amor de nós...

Visitando um dia São Tomás de Aquino a São Boaventura, perguntou-lhe de que livro mais se servia para escrever tão belas coisas em suas obras. São Boaventura mostrou-lhe o seu Crucifixo, que já estava enegrecido pelos muitos ósculos, e disse-lhe: Este é o livro do qual tiro tudo o que escrevo; nele aprendi o pouco que sei.

2. A meditação da Paixão de Cristo inflama-nos no fogo do amor divino

Quem poderá amar outra coisa fora de Jesus, vendo como Ele morre com tantas dores e tão desprezado, para alcançar o nosso amor? Um devoto eremita pediu certa vez ao Senhor que lhe dissesse o que deveria fazer para amá-lO perfeitamente. O Senhor revelou-Lhe então que, para se chegar ao amor perfeito de Deus, nada há mais próprio do que a meditação freqüente de Sua Paixão. Oh! Se todos os homens meditassem na Paixão e Morte de Jesus Cristo, não existiria mais nem um só que não amasse esse Deus amoroso. “Cristo morreu por todos para que os que vivem não vivam mais para si, mas para Aquele que morreu por eles”, diz São Paulo (II Cor 5, 15).

A maior parte dos homens, porém, vive só para o pecado e para o demônio, e não para Jesus Cristo, apesar de um Deus ter morrido por eles. [entretanto, já] Platão dizia que o amor inspira amor, e Sêneca repetia amiúdo: “Se quiseres ser amado, ama”.

Ora, Jesus Cristo, morrendo por nós, nos amou quase que até à loucura, como nota São Gregório (Hom. 6 in evang.). Como é, pois, possível que, apesar de tantas provas de amor, não pôde ganhar os nossos corações? Como é possível que Ele não consiga ser correspondido por nós, depois de tanto nos ter amado? Todos os Santos aprenderam a arte de amar a Deus através da meditação do Crucificado.

Todas as vezes que São João do Alverne contemplava o Seu Salvador coberto de Chagas, não podia reprimir suas lágrimas. Jacopone de Todi, ao ouvir ler a Paixão de Cristo, não só derramava lágrimas, mas também rompia em altos soluços, subjugado pelo amor que lhe acendia a recordação de seu amado Salvador. Numa palavra, que cristão, meditando amiúdo a Paixão de Jesus Cristo, poderá viver sem amar a seu Salvador?

As Chagas de Jesus Cristo, diz São Boaventura, são outras tantas Chagas de Amor, são setas e chamas, que ferem os corações mais duros e as almas mais frias. O Beato Henrique Suso, para imprimir mais profundamente em seu coração o amor a seu Salvador Crucificado, tomou certa vez um ferro cortante e com ele feriu-se no peito, escrevendo ali o Santíssimo Nome de seu amado Senhor e, escorrendo sangue, dirigiu-se à igreja, prostrou-se aos pés do Crucifixo e disse-Lhe: Senhor, ó único amor de meu coração, eu quereria imprimir-Vos mais profundamente ainda em meu coração; mas isso me é impossível; Vós, porém, que tudo podeis, supri o que me falta em forças e imprimi Vosso adorável Nome tão profundamente em meu coração, que nem Vosso Nome, nem Vosso Amor possa jamais ser nele apagado.

Imitemos a esposa dos Cânticos, que diz: “Assentei-me à sombra daquele a quem eu desejava” (Cant 2, 3). Detenhamo-nos muitas vezes aos pés de nosso amável Redentor; imaginemo-lo morrendo na Cruz; meditemos Sua Paixão e o amor que nos mostrou lutando com a morte nesse leito de dores. Oh! Pudéssemos todos dizer de nós mesmos: Descansaremos sempre à sombra da Cruz.

Que doce paz não desfrutam as almas que amam a Deus no meio do reboliço do mundo, das tentações do demônio, do temor dos juízos de Deus, quando a sós, aos pés de seu amante Salvador, meditam em silêncio como Ele luta na Cruz com a morte e como Seu Sangue divino corre de todos os Seus membros rasgados pelos açoites, espinhos e cravos.

Em verdade, à vista de Jesus Crucificado, desaparecem de nossa alma todos os desejos de honras mundanas e bens terrenos. Então sopra da Cruz uma aragem suave e celestial, que nos desprende brandamente das coisas terrenas e acende em nós um santo desejo de padecer e morrer por amor dAquele que quis padecer, por amor de nós, tantos tormentos e a mesma morte.

3. A meditação da Paixão de Cristo excita-nos à prática de todas as virtudes

Isaías prometeu (Is 30, 20) aos homens que haviam de ver a seu divino Mestre com seus próprios olhos para poderem imitá-lO. A vida inteira de Jesus foi um exemplo permanente para nós e uma escola de perfeição; em nenhum outro lugar, porém, nos deu Ele uma lição mais perfeita e prática das virtudes do que na cátedra da Cruz. Com que perfeição não nos ensina daí a paciência, principalmente nas enfermidades, visto que suportou na Cruz, com a maior paciência, as dores de Sua dolorosa Paixão.

Do alto da Cruz nos ensina, com Seu exemplo, a mais perfeita obediência aos preceitos de Deus, a inteira submissão à Sua santa Vontade e, acima de tudo, a maneira de como devemos amar a Deus. O padre Paulo Ségneri, o Jovem, aconselhou a um penitente seu que escrevesse as seguintes palavras aos pés de seu Crucifixo: Vede aqui como se ama. Parece que o Salvador nos dirige as mesmas palavras do alto da Cruz, quando nós, para não termos de suportar um pequenos incômodo, deixamos a prática da virtude e até renunciamos à Sua Graça e ao Seu Amor. Ele nos amou até à morte, e não desceu da Cruz antes de dar Sua vida por nós.

Nessa escola do Salvador Crucificado aprenderam os Santos a praticar todas as virtudes. Fortificados pela vista de Jesus desprezado na Cruz, amam o desprezo mais do que os mundanos as honras do mundo. Eles vêem a Jesus morrer nu na Cruz e procuram privar-se de todos os bens da terra. Eles O vêem todo coberto de Chagas e derramando Sangue de todos os membros, e uma profunda aversão a todos os prazeres sensuais se apodera deles; só pensam então em martirizar, de todo modo possível, a sua carne, para se unirem, por meio de suas dores, a seu Salvador Crucificado.

Eles, vendo Jesus obediente em todos os passos e conformado à Vontade de Deus, e esforçam em subjugar todas as suas inclinações que não são conformes à Vontade de Deus. Eles vêem a paciência com que Jesus se submeteu, por amor de nós, a tantas penas e ultrajes, e suportam com resignação e até com alegria as injúrias, doenças, perseguições e maus tratos dos tiranos. Eles vêem, finalmente, o amor que Jesus Cristo nos mostra, sacrificando na Cruz Sua vida por nós, e oferecem a Deus em sacrifício tudo o que possuem: bens, satisfações, honras e a própria vida.

Donde, porém, provém que, apesar de tantos outros cristãos saberem e crerem que Jesus Cristo morreu por eles, em vez de se consagrarem inteiramente ao Seu serviço e Seu amor, parece que só cuidam em ofendê-lO e desprezá-lO por miseráveis e transitórias satisfações? Donde provém uma tal ingratidão? Do esquecimento da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Horríveis, porém, serão, no dia do Juízo, o remorso e a vergonha dos pecadores, quando o Senhor lhes lançar em rosto tudo o que fez e padeceu por eles.

§IV. Avisos práticos

1Não deixemos passar um só dia sem refletir na Paixão de Jesus Cristo, tomando-A por objeto de nossa meditação, ou então rezando a Via-Sacra. Segundo Santo Agostinho, nada existe que, com maior eficácia, nos possa auxiliar na aquisição da perfeição, do que a recordação cotidiana dos sofrimentos que Jesus Cristo suportou por nosso amor. Por isso dizia o padre Baltazar Álvarez que a perdição de tantos cristãos provém da sua ignorância a respeito dos tesouros espirituais que encontramos em nosso Salvador Crucificado.

Costumava, por esse motivo, dizer a seus penitentes que não deviam crer ter feito algum progresso na vida espiritual, enquanto não tivessem conseguido trazer constantemente em seus corações a Jesus Crucificado. Já Orígenes dizia que o pecado não pode reinar em uma alma que reflete muitas vezes na morte de Jesus Cristo. Além disso, diz Santo Agostinho que uma única lágrima que se derrame por causa da Paixão de Cristo vale mais do que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água.

O divino Salvador quis padecer tanto para que nos lembrássemos sempre de Sua Paixão, visto ser impossível refletir nela e não se abrasar em amor de Deus, pois “o amor de Cristo nos constrange”, diz São Paulo (2 Cor 5, 14). Jesus é amado por poucos, porque só poucos meditam nos sofrimentos a que Ele quis se sujeitar por nossa causa; quem os medita amiúdo, não pode viver sem O amar, porque se sentirá constrangido por Seu amor de tal forma, que se lhe tornará impossível não retribuir o amor de um Deus tão amoroso, que padeceu tanto para ser amado por nós.

2. Veneremos também devotamente a imagem de Jesus Crucificado. Santa Gertrudes viu, em uma visão, como escreve Blósio, que Jesus contempla amorosamente todo aquele que olha devotamente um Crucifixo. Muitos cristãos têm em casa um belo Crucifixo, mas infelizmente só como ornato. Admiram sua perfeição, assim como a expressão de dor que reproduz; seus corações, porém, não se comovem ou só muito pouco, como se não fosse a imagem do Filho de Deus Humanado, mas sim de um homem que lhes é inteiramente desconhecido.

3. Consideremo-nos como propriedade absoluta de Jesus Cristo, pois não nos pertencemos mais depois de termos sido comprados pelo Sangue de Jesus Cristo, como escreve o Apóstolo: “Ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rom 14, 8). São João Crisóstomo dá uma bela explicação destas palavras de São Paulo: “Deus se ocupa mais de nós, do que nós mesmos; Ele considera nossa vida como um bem Seu e nossa morte como um mal próprio; se, pois, morremos espiritualmente, nossa morte não é unicamente uma perda para nós, mas também para Deus. Que honra, que consolação para nós podermos dizer neste vale de lágrimas, no meio de tantos inimigos e perigos que nos cercam: nós somos do Senhor; pertencemos a Jesus Cristo; somos bem Seu, Ele cuidará em nos conservar aqui em Sua Graça e em unir-nos eternamente consigo na outra vida”.

4. Pensemos também na Paixão de Jesus Cristo quando visitamos o Santíssimo Sacramento ou recebemos a santa Comunhão, pois Jesus Cristo instituiu o Ss. Sacramento para que a recordação do amor que nos mostrou por Sua morte na Cruz, ficasse sempre viva no meio de nós. Sabemos que nos deu este Sacramento de Amor na noite anterior à Sua morte e que, depois de dar a Comunhão aos discípulos, disse-lhes e, por meio deles, a nós também, que ao receber a Sagrada Comunhão deveríamos nos lembrar de quanto Ele padeceu por nós [e isto significam aquelas palavras: “Fazei isto em memória de mim”]. “Para conservar sempre viva no meio de nós a lembrança do grande benefício da Redenção, diz São Tomás, deixou-nos Jesus Cristo Seu Corpo por comida”.

5. Mais: quando assistimos à Santa Missa, devemos também pensar na Paixão de Cristo, pois que ela nada mais é senão a renovação do Sacrifício da Cruz, pelo que diz Santo Agostinho que a Santa Missa não é menos eficaz, hoje em dia, diante de Deus, do que o Sangue e Água que saíram outrora de Seu lado aberto.

6. Finalmente, tenhamos um grande zelo pela salvação das almas, que custaram tanto ao divino Salvador. O bispo São Carpo teve um dia uma visão, na qual pareceu-lhe ver diante de si um certo homem que, por causa de um mal exemplo, seduzira um inocente ao pecado. O Santo deixou-se levar por seu zelo e queria precipitar aquele sedutor em um abismo, a cuja borda se achava. Mas, eis que Jesus Cristo lhe aparece e, segurando o pecador com Sua mão, lhe diz: “Dirigi a mim o vosso ataque, pois estou pronto a morrer novamente pelos pecadores”. Parecia querer, com isso, dizer: Alto lá: volta antes tua mão contra mim; já dei a minha vida uma vez por esse pecador, e estou novamente pronto a morrer segunda vez por ele, para que não se perca.

§V. Ladainha da Paixão do Senhor


No centro do Brasão da Congregação Redentorista,
Santo Afonso fez questão de gravar os instrumentos da Paixão
  
Dulcíssimo Jesus, no Horto das Oliveiras triste até a morte, profundamente angustiado, oprimido de agonia, coberto de suor de Sangue,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, pelo ósculo traidor entregue às mãos dos Vossos inimigos, maltratado, atado e preso com cordas, abandonado pelos discípulos,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, pelo injusto Conselho dos judeus julgado réu de morte, entregue a Pilatos, desprezado e escarnecido pelo ímpio Herodes,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, despido, preso a uma coluna e acoitado cruelmente,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, coroado de penetrantes espinhos, ferido na sagrada Cabeça com uma cana, vestido, por escárnio, de um manto de púrpura, saciado de opróbrios,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, mais odiado que um ladrão e assassino, reprovado pelos judeus, condenado à morte da Cruz,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, carregado com a pesada Cruz, caído em terra, levado ao Calvário como o Cordeiro ao matadouro,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, Homem das dores, despojado de Vossas pobres vestiduras, contado entre os criminosos, imolado em sacrifício pelos nossos pecados,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, cravado cruelmente na Cruz, ferido dolorosamente por causa das nossas iniqüidades, quebrantado por causa das nossas culpas,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, escarnecido ainda na Cruz, atormentado e oprimido de dores indizíveis, consumido de sede, abandonado na mais dolorosa agonia pelo próprio Pai Celestial,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, morto na Cruz, traspassado por uma lança à vista de Vossa dolorosa Mãe,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, descido da Cruz, depositado nos braços de Vossa Santíssima Mãe e banhado em Suas lágrimas,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

Dulcíssimo Jesus, ungido e embalsamado pelos discípulos amantes com preciosos aromas, envolvido em lençóis limpos e depositado no santo sepulcro,

Tende piedade de nós, Senhor, tende piedade de nós.

V: Ele verdadeiramente tomou sobre Si as nossas iniqüidades.
RE as nossas dores Ele as suportou.

Oração:

Ó Jesus, Filho Unigênito de Deus e da Virgem Imaculada, que pela salvação do mundo quisestes ser reprovado pelos judeus, atado com cordas, conduzido ao matadouro como um cordeiro, apresentado injustamente aos juízes Anás, Caifas, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, ferido com pancadas, saciado de opróbrios e injúrias, cuspido no Rosto, açoitado barbaramente, coroado de espinhos, condenado à morte, despojado dos vestidos, pregado com toda a crueldade na Cruz, suspenso entre dois ladrões, vexado com fel e vinagre, abandonado em tormentosa agonia e, finalmente, traspassado por uma lança: por estes tormentos, Senhor, dos quais nós, indignos filhos Vossos, agora com devoção, gratidão e amor nos lembramos, e pela Vossa Santíssima Morte na Cruz, livrai-nos das penas do inferno, e dignai-Vos conduzir-nos ao Paraíso, aonde levastes convosco o Bom Ladrão. Tende piedade de nós, ó Jesus, que com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais, por todos os séculos dos séculos. Amém.

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(Texto extraído da obra “ESCOLA DA PERFEIÇÃO CRISTÔ – compilação dos escritos de Santo Afonso Maria de Ligório, pelo Padre Saint-Omer, CSSR, tradução do Padre Paulo Leick, Editora Vozes, Petrópolis: 1955, 4ª edição. Imprimatur de vários bispos. Grifos nossos. A Ladainha da Paixão do Senhor acrescentamo-la, tendo-a extraído da obra “AS MAIS BELAS ORAÇÕES DE SANTO AFONSO”, uma compilação da CSSR, publicada pela editora Vozes em 1961)