terça-feira, 31 de maio de 2016

Como aplicar nossas obras de caridade espiritual as Almas do purgatório?

Vários Concílios o definiram como dogma; Santos Padres e Doutores da Igreja o atestam a uma voz. Há uma prisão da qual não se sairá senão quando tiver pago o último centavo. (Mal. 18).

A Igreja, querendo que não nos esqueçamos das almas, consagrou um dia inteiro todos os anos à oração pelos finados. Determinou que em todas as missas houvesse uma recomendação e um momento especial pelos mortos. Ela aprova, sustenta e estimula a caridade pelos falecidos.

Como são esquecidos os mortos! Exclamava Santo Agostinho! E no entanto acrescenta S. Francisco de Sales, em vida eles nos amavam tanto. Nos funerais: lágrimas, soluços, flores. Depois, um túmulo e o esquecimento. Morreu... acabou-se!

Se cremos na vida eterna, cremos no purgatório. E se cremos no purgatório, oremos pelos mortos. O purgatório é terrível e bem longo para algumas almas, por isso devemos rezar muito pelas almas, socorrendo as almas, praticando a caridade em toda sua extensão. A devoção as almas do purgatório diz São Francisco de Sales encerra todas as obras de misericórdia, cuja prática, elevada ao sobrenatural nos há de merecer o céu.

 A Santa Missa é o sacrifício de expiação por excelência. É a renovação do calvário, que salvou o gênero humano. A cada Missa, diz São Jerônimo, saem muitas almas do purgatório. Depois da Missa...
 A Comunhão. A Eucaristia é um Sacramento de descanso e paz para os defuntos, diz Santo Ambrósio. E o mesmo afirmam São Cirilo e São João Crisóstomo. Procuremos fazer boas comunhões lembrando-nos que quanto melhor as fizermos tanto mais aliviaremos os mortos. O Papa Paulo V estimulou a prática das comunhões pelas almas padecentes. Temos também as indulgências que entregamos a Deus para solver as dívidas das almas. Recitemos pequenas jaculatórias indulgenciadas. É tão fácil repeti-las em toda hora.

É uma mina de ouro que está a nossa disposição. Nossas orações são um meio de ajudar a salvar almas do purgatório.

São João Damasceno diz que há muito testemunho encontrado na vida dos Santos que provou claramente as vantagens da oração que se fazem pelos defuntos. Nossos sofrimentos junto a prece tem uma eficácia extraordinária para obter de Deus todas as graças. Aliviemos as almas do purgatório', com tudo que nos mortifica. A Via Sacra é uma prática das mais ricas de piedade. O Rosário é a rainha das devoções indulgenciadas.

Santa Gertrudes afirmava que uma palavra dita do fundo do coração e animada de sólida devoção tem mais eficácia que grande número de orações, feitas com pouco fervor.
Mais uma forma de ajudar as almas é dar esmola ao pobre em sufrágio das almas benditas. As lágrimas que vossas esmolas enxugarem, o alívio que tiverdes dado aos que padecem fome, sede e frio, serão o alívio no purgatório para as almas sofredoras. É uma dupla caridade, socorrer os pobres por amor das almas. É dar duas vezes. Socorre os vivos e os mortos.


pelas almas do Purgatório.
(Jesus prometeu à Santa Gertrudes
que salvaria  (1000) mil almas do purgatório cada vez,
que cada pessoa rezar com fervor esta Oração)

Eterno Pai, Ofereço-Vos o Preciosíssimo Sangue de Vosso Divino Filho Jesus, em união com todas as Missas que hoje são celebradas em todo o mundo; por todas as Santas almas do purgatório, pelos pecadores de todos os lugares, pelos pecadores de toda a Igreja, pelos de minha casa e de meus vizinhos. Amém.

Fonte: Santas Almas do Purgatório.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O ESPÍRITO DEVE SER TODO TRANQUILIDADE E PAZ

Os Santos, por sua uniformidade com a von­tade divina, gozavam de um Céu sobre a terra.
Os antigos padres, diz Santa Dorotéia, conservavam em si uma paz constante, porque recebiam tudo como vindo da mão de Deus. Santa Maria Madalena de Pazzi ao ouvir somente as palavras — vontade de Deus —, ficou tão consolada que se extasiou de amor. A diversidade, sem dúvida, causa pena e dor em nossos sentidos, mas isto só tem lugar na parte inferior, porque o espírito, que é a parte superior, deve ser todo tranquilidade e paz, estando a vontade unida à de Deus: «O vosso gozo, disse o Senhor aos Seus Apóstolos, ninguém vo-lo tirará, e será completo.» (João XIV. 22 24.)
Aquele que está sempre em uniformida­de com a divina vontade, goza de uma paz inteira e perpétua: inteira, porque ele tem tudo quanto deseja, como acima dissemos: perpétua, porque ninguém o pode privar de tanto prazer, assim como ninguém pode obs­tar ao que Deus quer.
O padre João Thaulero, segundo o padre Sangiore (Tirar. Tom. III. ), e o padre Nieremberg (Vita. Div.), conta de si mesmo, que tendo por muitas vezes pedido a Deus que lhe ensinasse o caminho da vida espiritual, ouviu um dia uma voz que lhe dizia, que fosse a certa igreja, e ali acharia a pessoa que procurava. Ele se dirigiu à dita igreja, e à porta da mesma encontrou um miserável mendigo, descalço e roto, a quem saudou, dizendo: «Bons dias, irmão.» O pobre lhe respondeu: «Não me lembro de ter passado um só dia mau, senhor.» O padre replicou «Deus vos dê uma vida fe­liz»; ao que ele lhe tornou: «Eu nunca fui infeliz, acrescentando: Padre, não foi o acaso que me fez responder-vos que nunca tive um dia mau: porque, se tenho fome, louvo a Deus; quando cai neve ou chove, eu O bendigo; se alguém me despreza, me despede ou me aflige, ou se encontro ou­tra qualquer tribulação, dou sempre graças a Deus. Disse-vos que nunca fui infeliz, falei a verdade, pois que me tenho acos­tumado a conformar-me com a vontade de Deus, sem reserva; assim, tudo quanto me acontece de bem ou de mal, eu o recebo de Suas mãos com alegria, como se fosse a minha melhor sorte, e isto me torna feliz.
— E se Deus quisesse, disse Thaulero, a vossa condenação, que havíeis de dizer? — Se tal fosse a vontade de Deus, respondeu o pobre, eu com humildade e amor me abra­çaria com Nosso Senhor, e me lançaria de tal modo com Ele, que quando me quisesse precipitar no inferno, o obrigaria a ir ali comigo, e me acharia então mais feliz com Ele no abismo, do que gozando das delí­cias do Céu sem Ele. — Onde achastes a Deus? perguntou o padre: — Achei-O onde deixei as criaturas. — Quem sois vós? — Eu sou um rei. — Onde é o vosso reino? — Na minha alma, onde conservo a ordem: as minhas paixões obedecem à razão, e a minha razão obedece a Deus.» Por fim Thaulero lhe perguntou o que tinha feito para se adiantar na perfeição.«Guardei silêncio, respondeu o mendigo: ser silencioso com os homens em ordem a falar com Deus; e na união que tenho conservado com a vontade de meu Senhor, tenho achado e acho toda a minha paz» Tal era, em uma palavra, este pobre homem, pela sua uniformidade com a vontade divina: Ele na sua pobreza era seguramente mais rico de que todos os monarcas da terra, e mais feliz em seus padecimentos, que todos os mundanos no gozo de todos os prazeres. Quão grande é a estupidez daquele, que resiste à vontade divina! Forçoso é sofrer tribu­lações, porque ninguém se pode subtrair ao cumprimento dos divinos decretos. Quem resiste à Sua vontade? (Rom. IX. 19) E sofre-lás-ão sem fruto, e também trarão sobre si maiores castigos na vida futura, e maior ansiedade na presente quem jamais lhe resistiu, e obteve paz? (Job. IX. 4) Se o homem enfermo se queixa de suas do­res e enfermidades, se o que é pobre la­menta a sua sorte perante Deus, e se enfu­rece e blasfema; que lhe resulta senão o aumento de suas aflições? «Que procuras tu, oh homem, diz Santo Agostinho, quando procuras bens? Procura o único bem, no qual se encerram todos os bens.» Que procuras tu exceto Deus? Procura-O, e acha-O; une-te e liga-te a Ele, à Sua vontade, viverás feliz nesta e na outra vida.
Tratado da conformidade com a vontade de Deus – Santo Afonso

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Da dádiva divina de toda a ocasião te mortificares



"Nunca percas de vista esta bela sentença de S. Teresa: Quem julga que Deus admite à sua amizade pessoas que amam a comodidade, engana-se redondamente. 'Os que são de Cristo, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscência', diz o Apóstolo (Gál 5,24). Por isso considera como uma dádiva divina toda a ocasião de te mortificares e não deixes nenhuma sem te aproveitares dela.
Reprime teus olhos e não os detenhas em cosias que satisfazem unicamente a curiosidade. Evita toda conversação em que se trata unicamente de novidades ou de outras coisas mundanas. Esforça-te sempre em mortificar o paladar: nunca comas e bebas unicamente para contentar tua sensualidade, mas só para sustentar teu corpo. 

Renuncia voluntariamente aos prazeres lícitos e dize generosamente, quando ouvires falar das alegrias do mundo: 'Meu Deus, só a vós eu quero e nada mais'.
Faze com fervor todas as mortificações externas que a obediência e as circunstâncias permitirem. Se não puderes mortificar teu corpo com instrumentos de penitência, pratica ao menos a paciência nas doenças, suporta alegremente toda incomodidade que consigo traz a mudança do calor e do frio; não te queixes quando te faltar alguma coisa, alegra-te antes quando te faltar até o necessário,mas principalmente a mortificação interna é que deves praticar, reprimindo tuas paixões e nunca agindo por amor-próprio, por vaidade, por capricho, ou por outros motivos humanos, mas sempre com a única intenção de agradar a Deus.

 Por isso, enquanto possível, deves te privar daquilo que mais te agradar e abraçar o que desagrada a teu amor-próprio. Por exemplo: quererias ver um objeto: renuncia a isso justamente por te sentires levado a contemplá-lo; sentes repugnância por um remédio amargo: toma-o justamente por ser amargo; repugna-te fazer benefícios a uma pessoa que se mostrou ingrata para contigo: faze-o justamente porque tua natureza se rebela contra isso. Quem quer pertencer a Deus, deve se violentar incessantemente e exclamar sem interrupção: Quero renunciar a tudo, contanto que agrade a Deus."

Escola da Perfeição Cristã, Santo Afonso Maria de Ligório.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Quem ama Jesus Cristo deve odiar o mundo

Mihi autem absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo – “Longe esteja de mim o gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14)


Jesus Cristo quis morrer crucificado para nos livrar do amor ao mundo perverso. Tendo-nos chamado ao seu amor, quer que nos coloquemos acima das promessas e ameaças do mundo. Quer que não façamos caso nem das censuras do mundo nem das suas aprovações, e nos alegremos por sermos odiados e perseguidos como o próprio Jesus. Para alcançarmos um fim tão elevado, habituemo-nos a prever já de manhã as contrariedades e os desprezos que nos possam vir do correr do dia, e preparemo-nos para os sofrer com paciência.


I. Quem ama a Jesus Cristo com amor verdadeiro, alegra-se quando se ve tratado pelo mundo assim como foi tratado Jesus Cristo, que por ele foi odiado, vituperado e perseguido até morrer de dor, suspenso num patíbulo infame. – O mundo é diametralmente oposto a Jesus Cristo: e por isso, odiando a Jesus, odeia a todos os que o servem. Pelo que o Senhor animava os seus discípulos a sofrerem com paz as perseguições, dizendo-lhes que, já que tinham abandonado o mundo, não podiam deixar de ser dele odiados (1).

Ora, como as almas amantes de Deus são para o mundo objeto de ódio, assim o mundo deve ser objeto de ódio para quem ama a Deus. Dizia São Paulo: Mihi absit gloriari nisi in cruce Domini nostri Iesu Christi, per quem mihi mundus crucifixus est et ego mundo – “Esteja longe de mim o gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. O mundo abominava o Apóstolo, assim como se abomina um homem condenado e morto na cruz; mas de igual maneira São Paulo abominava o mundo: mihi mundus crucifixus est. – Jesus quis morrer crucificado pelos nossos pecados, para livrar-nos do amor ao mundo perverso (2). Já que Jesus nos chamou ao seu amor, quer que nos coloquemos acima das promessas e das ameaças do mundo. Quer que não façamos mais caso nem de suas censuras, nem de suas aprovações.

Afim de chegarmos ali, representemo-nos, na nossa meditação, todos os desprezos, contrariedades e perseguições que nos possam sobrevir, e ofereçamo-nos com grande coragem a sofrê-los por amor de Jesus Cristo, não somente em paz, mas também com alegria de espírito. Procedendo desta maneira, estaremos na ocasião mais dispostos a aceitá-los. Mas sobretudo devemos pedir a Deus, que nos faça esquecer inteiramente o mundo, e alegrarmo-nos quando nos virmos rejeitados pelo mundo.

II. Para que sejamos inteiramente de Deus, não basta que nós abandonemos o mundo; é além disso mister desejarmos que o mundo nos abandone e nos esqueça de todo. Alguns abandonam o mundo, mas não deixam de querer ser por ele louvados, ainda que seja só pelo terem abandonado. Alimentado este desejo de serem estimados pelo mundo, fazem com que o mundo ainda viva neles.

Como o mundo odeia os servos de Deus, e odeia por isso os seus bons exemplos e máximas santas, assim nós devemos odiar todas as máximas do mundo, como sejam: bem-aventurado o rico; bem-aventurado o que não sofre e se diverte, infeliz o que é maltratado e perseguido dos outros! Numa palavra, se desejamos agradar a Deus só, devemos viver em contínua desavença com o mundo, que, na palavra do Apóstolo, não pode deixar de ser inimigo de Deus (3).

Sim, meu Jesus crucificado e morto por mim, só a Vós quero agradar. Que mundo, que riquezas, que dignidades! Quero que Vós, meu Redentor, sejais todo o meu tesouro; a minha riqueza é o amar-Vos. Se me quereis pobre, quero ser pobre; se me quereis humilhado, enfermo e desprezado de todos, aceito tudo de vossas mãos; a vossa vontade será sempre a minha única consolação. Mas eis aqui a graça que Vos peço: fazei que em tudo quanto me acontecer, eu me não afaste, nem sequer uma linha, da vossa santa vontade, e Vos ame de todo o meu coração.

Sei que não mereço esta graça depois de Vos ter virado tantas vezes as costas pelo amor das criaturas, mas, meu Senhor, Vós dissestes que não sabeis desprezar um coração contrito e humilhado, e eu arrependo-me de todo o coração e quisera morrer de dor. – Atendei-me, meu Jesus, fazei que nunca me afaste da vossa santa vontade e Vos ame de todo o coração. Esta mesma graça vos peço, ó grande Mãe de Deus e minha Mãe, Maria

Referências:

(1) Jo 15, 19
(2) Gl 1, 4
(3) Rm 8, 7
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 67-70)

Visto em: http://paramaiorgloriadedeus.blogspot.com.br/

quarta-feira, 25 de maio de 2016

É NO HOMEM QUE SE AMA A DEUS

Como disse, todos os pecados são cometidos através do próximo, no sentido de que eles são ausência da caridade, que é a forma de todas as virtudes. No mesmo sentido, o egoísmo, que é a negação do amor pelo próximo, constitui-se como razão e fundamento de todo o mal. Ele é a raiz dos escândalos, do ódio, da maldade, dos prejuízos causados aos outros. O egoísmo envenenou o mundo inteiro e fez adoecer a hierarquia da Igreja e o povo cristão.
Já te disse que as virtudes se fundamentam no amor pelos outros; é da caridade que a virtudes recebem a vida. Sem ela nenhuma virtude existe, pois as virtudes se adquirem no puro amor por mim. Afirmei igualmente que o autoconhecimento produz na pessoa a humildade e a repulsa da paixão sensível, fazendo-a conscientizar-se da lei perversa que existe em seus membros e continuamente luta contra o espírito. Diante disto, o cristão luta e se opõe à sensualidade, com empenho a submete à razão e procura descobrir em si mesmo a grandeza da minha bondade. Inúmeros são os favores que lhe faço. Ao reconhecer que gratuitamente o retirei das trevas e o transferi para a verdadeira Sabedoria, no autoconhecimento ele se humilha. Assim consciente da minha benevolência, o homem me ama direta e indiretamente. Diretamente, não pensando em si mesmo ou em interesses pessoais; indiretamente, através da prática da virtude. Toda virtude é concebida no íntimo do homem por amor de mim; fora do ódio ao pecado e do amor à virtude, não existe maneira de me agradar e de se chegar até mim. Depois de ter concebido interiormente a virtude, a pessoa a pratica no próximo.
Aliás, tal modo de agir é a única prova de que alguém possui realmente uma virtude. Quem me ama, procura ser útil ao próximo. Nem poderia ser de outra maneira, dado que o amor por mim e pelo próximo são uma só coisa. Tanto alguém ama o próximo, quanto me ama, pois de mim se origina o amor do outro.
O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes a virtude que existe em vós. Como nada podeis fazer de útil para mim, deveis ser de utilidade ao homem. Esta é a prova de que estou presente em vós pela graça: se auxiliais aos outros com orações numerosas e humildes, se desejais minha glória e a salvação dos homens. Quem se apaixona por mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor. Disto já falei antes quando expliquei que a mortificação, sem o amor, é insuficiente para cancelar a culpa.
Assim, graças ao amor que o une a mim, o homem torna-se útil ao próximo; preocupado com a salvação alheia, ama o próximo, presta-lhe serviços em suas necessidades.
Depois de ter cuidado de si pela aquisição interior das virtudes, esforça-se por descobrir as precisões do próximo também no plano individual. Além de ajudar no plano geral, passa a prestar auxílios às pessoas mais próximas, de acordo com os diversos dons que lhe dei, ou seja, ensinando e orientando a uns com palavras, sem interesses pessoais, nem medo; a outros, com o bom exemplo. De fato, é obrigação de todos edificar os demais com uma vida boa, santa e honesta.
São essas as virtudes que o homem pratica no próximo. Existem outras mais e seria impossível enumera-las todas. Idealizei-as em multiplicidade e não as concedo todas a todos; a uns, dou umas; a outros, outras. De fato, quem possui uma delas, possui todas, porque as virtudes são conexas. Embora eu conceda muitas virtude, uma delas será como que a principal entre as demais. Por exemplo, a uma pessoa darei como virtude maior a caridade, a outra a humildade, a outra a fé viva, a outra a prudência, a temperança, a paciência, a fortaleza. Tais virtude, e outras ainda, concedo aos homens diversificadamente; uma delas constituirá o elemento virtuoso preponderante, dispondo o indivíduo a uma vivência maior dessa virtude. Essa virtude maior dominará sobre todas as demais, porém todas elas estarão interligadas pela caridade, como já disse.
Muitos são os dons, graças, virtudes e favores espirituais ou corporais, que concedi aos homens. Corporais são aqueles necessários à vida humana. Dei-os diversificadamente, isto é, não os coloquei todos em cada pessoa, para que fôsseis obrigados vos auxiliar mutuamente. Poderia ter criado os indivíduos dotando-os de todo o necessário, seja na alma como no corpo; mas preferi que um necessitasse do outro; que fôsseis administradores meus no uso das graças e benefícios recebidos. Dessa forma, querendo ou não, o homem haveria de praticar a caridade, muito embora não seja meritória a benevolência não realizada por meu amor. Como vês, a fim de que os homens exercitassem o amor, fi-los meus administradores e os coloquei em diferentes estados de vida, em diferentes posições. Isto vos mostra como existem muitas mansões em minha casa e como nada mais desejo que o amor. O amor por mim se consuma no amor pelo próximo; quem ama o próximo já observou a Lei. Quem me ama, pratica todo o bem possível, em seu estado de vida, para o benefício dos outros.
O Diálogo – Santa Catarina de Sena

terça-feira, 24 de maio de 2016

JESUS ILUMINA O MUNDO E GLORIFICA A DEUS

Creavit Dominus novum super terram — “O Senhor criou uma coisa nova sobre a terra” (Jer. 31, 22).
Sumário. Antes da vinda do Messias, o mundo estava abismado na ignorância, e o Deus verdadeiro era apenas conhecido num cantinho da terra, na Judéia. De todas aquelas trevas livrou-nos Jesus Cristo, que desde o primeiro instante da sua conceição deu mais glória ao Pai Eterno do que lhe têm dado e darão todos os Anjos e Santos. Tomemos ânimo nós, os pobres pecadores, e ofereçamos a Deus Pai este Menino e ressarci-Lo-emos de todas as ofensas que Lhe temos feito.
Antes da vinda do Messias, o mundo estava abismado na noite tenebrosa da ignorância e do pecado. No mundo o Deus verdadeiro era conhecido tão somente num cantinho da terra, a saber, na Judéia:Notus in Iudaea Deus— “Deus é conhecido na Judéia” (1). Em todo o resto do mundo eram adorados como deuses os demônios, os animais e as pedras. Em toda a parte reinava a noite do pecado, que cega as almas, enche-as de vícios, e priva-as da vista do estado miserável em que se acham, inimigas de Deus e condenadas ao inferno. Dessas trevas veio Jesus livrar o mundo. Livrou-o da idolatria dando-lhe o conhecimento do Deus verdadeiro; livrou-o do pecado com a luz de sua doutrina e dos exemplos divinos: O Filho de Deus veio ao mundo para destruir as obras do diabo (2).
O profeta Jeremias predisse que Deus havia de criar um novo Menino para ser o Redentor dos homens: Creavit Dominus novum super terram. Esse novo Menino foi Jesus Cristo, que faz as delícias do paraíso e é o amor de Deus Pai, que fala assim: Este é o meu Filho dileto em que deposito as minhas complacências (3). É este Filho quem se fez homem. Embora criança nova, deu a Deus mais honra e glória no primeiro momento de sua criação do que lhe têm dado e durante toda a eternidade lhe poderão dar todos os Anjos e Santos juntos. Por isso é que no nascimento de Jesus os Anjos cantaram: Gloria in excelsis Deo — “Glória a Deus nas alturas”. Jesus Menino rendeu a Deus mais glória do que Lhe arrebataram os pecados de todos os homens.
Tomemos, pois, ânimo, nós, pobres pecadores. Ofereçamos ao Pai Eterno o divino Menino; apresentemos-Lhe as lágrimas, a obediência, a humildade, a morte e os méritos de Jesus Cristo e ressarciremos a Deus toda a injúria que com as nossas ofensas Lhe tenhamos feito.
Ah! Meu Deus eterno, eu Vos desonrei, pospondo tantas vezes a vossa vontade à minha, e a vossa santa graça às minhas satisfações vis e miseráveis. Que esperança de perdão poderia eu ter, se Vós não me tivésseis dado Jesus Cristo exatamente a fim de que fosse a esperança de nós, pecadores? Ipse est propitiatio pro peccatis nostris (4) — “Ele é a propiciação pelos nossos pecados”. Sim, porque Jesus Cristo, sacrificando a vida para satisfação das injúrias que nós Vos tínhamos feito, mais glória Vos deu, do que nós Vos desonráramos com os nossos pecados. Aceitai-me, pois, ó meu Pai, pelo amor de Jesus Cristo.
Pesa-me, ó Bondade infinita, de Vos ter ofendido. Não sou digno de perdão; mas Jesus Cristo é digno de ser por Vós atendido. Estando pregado na cruz por mim, Ele Vos pediu um dia: Pater, dimitte — “Pai, perdoai-lhes”; e mesmo agora no céu Vos pede que me aceiteis por filho: Advocatum habemus Iesum Christum, qui etiam interpellat pro nobis (5) — “Temos por advogado Jesus Cristo, que também intercede por nós”. Aceitai um filho ingrato que primeiro Vos deixou, mas agora volta com a resolução de Vos amar. Sim, meu Pai, eu Vos amo e quero amar-Vos sempre. Ah! Meu Pai, agora que conheço o amor que me tendes tido e a paciência que por tantos anos haveis usado para comigo, não quero mais viver sem Vos amar. Dai-me um grande amor que me faça sempre chorar os desgostos que Vos tenho dado, a Vós, meu Pai tão bom, e me faça sempre arder de amor para com um Pai tão amante. Meu Pai, eu Vos amo, eu Vos amo, eu Vos amo. — Ó Maria, Deus é meu Pai e vós sois minha Mãe. Vós podeis tudo junto de Deus; ajudai-me; alcançai-me a santa perseverança e o seu santo amor. (II 329.)
  1. Ps. 75, 2.
    2. 1 Io. 3, 8.
    3. Matth. 17, 5.
    4. 1 Io. 2, 2.
    5. 1 Io. 2, 1.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O DIA DA DESILUSÃO

morteDormierunt somnum suum, et nihil invenerunt omnes viri divitiarum in manibus suis – “Dormiram o seu sono e nada acharam nas suas mãos todos estes homens de riquezas” (Ps. 75, 6).
Sumário. O dia da morte é chamado dia de desilusão, porque nesse dia de verdade, à luz da vela mortuária, se vêem as coisas deste mundo bem diferentes do que agora nos aparecem. Se, pois, quisermos avaliar bem as honras, as dignidades, os prazeres, as riquezas, imaginemos estar no leito de morte; contemplemos dali os bens deste mundo e digamos: No fim da vida não se fará caso de tudo isso, mas somente daquilo que nos acompanha para a eternidade: De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro?
Coisa maravilhosa! Quão grande é a prudência dos mundanos no que diz respeito aos bens da terra! Quantos passos não dão para adquirirem tal emprego, tal fortuna! Quantos cuidados para conservar a saúde do corpo! Mas que descuido pelo que diz respeito à alma; para a eternidade nada querem fazer! E no entanto é certo que a saúde, as dignidades, as riquezas devem acabar um dia, ao passo que não tem fim nem a alma nem a eternidade.
Mais cedo ou mais tarde chegará o dia da desilusão. Ó Deus, ao clarão da vela mortuária conhece-se a verdade e confessam os mundanos a sua loucura. Então não há nenhum que não exclame: Ah! Porque não deixei tudo para me santificar! – O papa Leão XI dizia na hora da morte: Melhor fora para mim ter sido porteiro num convento do que papa. Onório III, também papa, dizia igualmente na hora da morte: Antes tivesse ficado na cozinha de meu convento para lavar a louça.
Filippe II, rei de Espanha, estando para morrer, mandou chamar o filho, e entreabrindo as vestes seaes, mostrou-lhe o peito roído de vermes, dizendo:
– Príncipe, vê como se morre, e aonde vêm a parar as grandezas do mundo.
Depois exclamou:
– Quem me dera ter sido simples frade de qualquer ordem e não monarca!
Ao mesmo tempo mandou lançar ao pescoço uma corda da qual pendia uma cruz de madeira, e tendo disposto tudo para a morte, acrescentou:
– Meu filho, quis que estivesses presente a este ato para veres bem como na morte o mundo trata os próprios reis. Quem tiver vivido melhor, achará lugar melhor junto de Deus.
Esse filho, depois Filippe II, quando por sua vez estava para morrer na idade de 23 anos, disse:
– Meus vassalos, não faleis no meu elogio fúnebre senão no que estais vendo agora. Dizei que na morte de nada serve ser rei, senão para sentir maior tormento de o haver sido.
Em seguida exclamou:
– Prouvera a Deus que nunca tivesse sido rei e tivesse vivido num deserto no serviço de Deus! Poderia apresentar-me agora com mais confiança ao seu tribunal e não correria tamanho risco de me condenar.
De que servem, porém, tais desejos na hora da morte, senão para maior mágoa e desespero do que não amou a Deus durante a vida?
Com razão dizia Santa Teresa: Não se deve fazer caso das coisas que acabam com a vida; a verdadeira vida consiste em viver de tal modo que não se tenha de recear a morte. Se desejamos ver o que valem os bens da terra, consideremo-los com os olhos fitos na morte e digamos: as honras, as dignidades, os prazeres, as riquezas acabarão um dia: assim atendamos em nos fazer santos e ricos daqueles bens que nos acompanharão para a eternidade e nos tornarão contentes para sempre.
Ah, meu Redentor, padecestes tantos sofrimentos e ignomínias por meu amor, e eu amei tanto os prazeres e bens passageiros deste mundo, que por causa deles cheguei a calcar aos pés a vossa graça. Mas se Vós, quando eu Vos desprezava, não deixastes de me procurar, não posso temer, ó meu Jesus, que me repeleis agora que Vos procuro e Vos amo de todo o coração e me arrependo mais de Vos ter ofendido do que se tivesse sofrido qualquer outra desgraça.
Ó Deus de minha alma, de hoje em diante não Vos quero mais dar o menor desgosto que seja. Fazei-me saber o que Vos desagrada e nem por todos os bens do mundo quero fazê-lo. Fazei-me saber o que Vos agrada e pronto, estou a fazê-lo. Quero amar-Vos com todas as veras. Aceito, oh Senhor, todas as dores, humilhações, cruzes que me vierem de vossas mãos; dai-me somente a resignação necessária. Hic ure, hic seca, vos direi com Santo Agostinho. Castigai-me nesta vida, afim de que na outra Vos possa amar eternamente. – Maria, minha Mãe, a vós me recomendo; não deixeis de rogar a Jesus por mim. (II 61.)
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

sábado, 21 de maio de 2016

Os Doze Degraus da Humildade

 A Regra de São Bento estabelece doze degraus:
1) "ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior";
2) "falar pouco e sensatamente, em voz baixa";
3) "não ser de riso pronto e fácil";
4) "manter-se calado, enquanto não for interrogado";
5) "observar o que prescreve a regra comum do mosteiro";
6) "reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos";
7) "julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo";
8) "confessar os próprios pecados";
9) "por obediência, suportar, pacientemente, o que é duro e difícil";
10) "submeter-se, obedientemente, aos superiores";
11) "não se comprazer na vontade própria";
12) "temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou";

"A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordenamente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se superestime. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, atos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata" (Ecl XIX, 26), diz a Escritura.
Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o décimo segundo: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou".

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às ações, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como , por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º)" (resp.).
 
 Fonte: Santo Tomás de Aquino - (Suma Teológica, II-II, q.161, a.6)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Contra o quê Nossa Senhora queria alertar-nos no Terceiro Segredo de Fátima?




O Terceiro Segredo de Fátima — Se considera-se um católico, então tem de ver este vídeo. Este é extremamente importante: explica em detalhe o que realmente aconteceu à Igreja Católica (1962-1965). Prova que estamos a viver a Grande Apostasia predita para o fim do mundo. Demonstra que a maior parte das pessoas que pensam ser católicas na verdade abraçaram a falsa fé modernista que não é consistente com aquilo que a Igreja Católica sempre ensinou por toda a história. Demonstra que a Irmã Lúcia pós-Vaticano II não pode ter sido a verdadeira Irmã Lúcia, pois ela, além de outras coisas, aprovou a falsa versão do Terceiro Segredo de Fátima do Vaticano. Prova que após a falsa eleição do usurpador João XXIII, uma contra-Igreja dominou as estruturas físicas da Igreja Católica em Roma, e que essa falsa Igreja tem sido liderada por antipapas heréticos e apóstatas cujo principal objectivo é destruir a fé das pessoas: fazer com que a fé católica desapareça da face da Terra. Este vídeo prova que aquilo sobre o qual Nossa Senhora queria alertar-nos no Terceiro Segredo de Fátima está relacionado com o Concílio Vaticano II e as suas horríveis heresias que se espalhariam pelos quatro cantos da Terra. Demonstra como esta apostasia da fé católica foi predita nas Escrituras, e que a Igreja Católica foi quase completamente destruída nos últimos cinquenta anos, mas que ainda existe num remanescente de católicos tradicionais. Nas aparições de Nossa Senhora de La Sallete, França, em 19 de Setembro de 1846, a Santa Virgem Maria predisse que um dia: «Roma perderá a Fé e se tornará o assento do Anticristo... a Igreja estará em eclipse.» A Sagrada Escritura predisse que no próprio «lugar santo» haverá uma «abominação da desolação» (Mt. 24,15), e um engano tão profundo que, se fosse possível, até os eleitos seriam enganados (Mt. 24,24). O Novo Testamento diz-nos que este engano acontecerá no próprio centro das estruturas físicas da Igreja, no «Templo de Deus» (2 Tess. 2,10). Surgirá porque as pessoas não receberam o amor pela verdade (2 Tess 2,10). A Grande Apostasia no fim do mundo será tão horrível que Jesus diz: «Mas quando vier o Filho do homem, julgais vós que achará ele alguma fé na terra?» (Lc. 18,8).

Fonte:
http://www.igrejacatolica.pt/

AMOR DE DEUS PARA COM OS HOMENS NA MISSÃO DO ESPÍRITO SANTO


Et repleti sunt omnes Spirit Sancto, et coeperunt loqui variis linguis – “E foram todos cheios do Espírito Santo, e começaram a falar em várias línguas” (Act. 2, 4).
Sumário. No sacramento da Confirmação todos nós recebemos o mesmo Espírito Santo que Maria Santíssima e os apóstolos receberam hoje tão abundantemente. Consideremos o amor que neste sublime mistério nos mostraram as três Pessoas divinas apesar dos maus tratos que o mundo infligiu a Jesus Cristo. Já que o amor se paga com amor, roguemos ao Espírito divino, que nos abrase o coração com suas felizes chamas, e nos conceda que com a língua louvemos a Deus e o façamos louvar pelos outros.
I. Antes de partir desta terra, o divino Redentor prometeu várias vezes aos apóstolos, que, uma vez voltado para o céu, havia de pedir ao Pai lhes mandasse outro Consolador, o Espírito de verdade, que ficaria sempre com eles. Eis que hoje Jesus cumpre fielmente a sua promessa.
Refere São Lucas que “quando se completaram os dias de Pentecostes, todos os discípulos estavam juntos no mesmo lugar e perseveravam unanimamente na oração com as mulheres e Maria, a Mãe de Jesus. E veio de repente do céu um ruído, como de vento que soprasse com ímpeto e encheu toda a casa onde estavam sentados. E lhes apareceram repartidas umas como que línguas de fogo que repousaram sobre cada um deles. E foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em várias línguas conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem”.
Consideremos aqui o amor que Deus nos mostrou em tão sublime mistério, porquanto no sacramento da Confirmação nós temos recebido o mesmo Espírito Santo, o Consolador, que Maria Santíssima e os apóstolos receberam hoje tão abundantemente e de um modo tão admirável. O Pai Eterno, não satisfeito de nos ter dado seu Filho divino, quis ainda dar-nos o Espírito Santo afim de que habitasse sempre em nossas almas e conservasse nelas aceso o fogo sagrado do amor. O mesmo faz o Filho Eterno, não obstante os maus tratos que os homens lhe infligiram na terra.
O Espírito Santo, pois, desce ao Cenáculo em forma de línguas de fogo, para nos ensinar que por nosso amor assumiu o ofício amoroso de dirigir as línguas dos apóstolos e dos seus sucessores, na pregação do Evangelho. Apareceu também em forma de chamas, para insinuar que alumiará os espíritos, purificará os corações e estimulará as vontades de todos os fiéis, para trabalharem na santificação própria e na dos outros. Oh! Que grande amor da parte da Santíssima Trindade!
II. Amor se paga com amor. Visto, pois, que ao mistério deste dia toda a Santíssima Trindade se esmerou em nos patentear o amor que Deus nos tem, justo é que o amemos com todas as nossas forças. Roguemos, portanto, ao Espírito Santo queira ascender em nossos corações as chamas sagradas do seu amor.
Ó Espírito Santo, divino Paráclito, pai dos pobres consolador dos aflitos, santificador das almas, eis-me aqui prostrado em vossa presença, para Vos adorar com a mais perfeita submissão. Creio firmemente que sois Deus eterno, da mesma substância com o Pai e o Filho divino, e amo-Vos com todos os meus afetos sobre todas as coisas. Ingrato e insensível a vossas santas inspirações, tantas vezes Vos ofendi pelos meus pecados. Peço-Vos humildemente perdão e pesa-me sumamente ter-Vos desagradado, ó Bem supremo.
Ofereço-Vos o meu pobre coração e peço-Vos queirais purificá-lo com a água de vida eterna, e fertilizá-lo com o orvalho celestial, afim de que seja morada digna de Deus e só em Deus ache repouso. Sois fogo; abrasai-me de vosso santo amor; sois um laço, prendei-me com os laços de caridade; sois força; dai-me forças contra os espíritos malignos. Sois finalmente o tesouro de todo o bem; enriquecei-me com todos os vossos dons celestiais, assim como enriquecestes a alma de Maria Santíssima e dos santos apóstolos.
A mesma graça peço-a de Vós, ó Eterno Pai. “Vós, que no presente dia ensinastes os corações dos fiéis com a luz do Espírito Santo, dai-nos pelo mesmo Espírito o conhecimento e o amor do que é reto, e que sempre gozemos da sua consolação” (1). Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria. (III 473)
  1. Or. Dom. curr.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

quarta-feira, 18 de maio de 2016

NA CRUZ ACHA-SE A NOSSA SALVAÇÃO

crucificacao-jesusLignum vitae est his, qui apprehenderint eam; et qui tenuerit eam, beatus — “É árvore de vida para aqueles que lançarem mão dela; e é bem-aventurado quem a não largar” (Prov. 3, 18).
Sumário. Se quisermos salvar-nos, é mister que nos resolvamos a carregar com paciência a cruz que Deus nos manda, e a morrer nela por amor de Jesus Cristo, assim como Ele morreu na cruz por nosso amor. É este também o meio para acharmos a paz nos sofrimentos. Quem recusa aceitar a cruz, de ordinário aumenta-lhe o peso; ao passo que quem a abraça e carrega com paciência, tira-lhe o peso e converte-a em consolação.
Na cruz acha-se a nossa salvação, a nossa força contra as tentações, o desapego dos prazeres terrestres; na cruz, em suma, acha-se o verdadeiro amor de Deus. Mister é, pois, que nos resolvamos a carregar com paciência a cruz que Deus nos envia e a morrermos nela por amor de Jesus Cristo, que morreu na sua por nosso amor. Não há outro caminho por onde se entra no céu, senão o da resignação nas tribulações até à morte. — O meio para acharmos a paz nos próprios padecimentos é a uniformidade com a vontade divina. Se não usarmos deste meio, dirijamo-nos aonde quisermos, façamos quanto pudermos, não conseguiremos subtrair-nos ao peso da cruz. Ao contrário, se a carregarmos de boa vontade, a cruz nos levará ao céu, e nos dará a paz nesta terra.
Que é o que faz quem rejeita a cruz? Aumenta-lhe o peso. Mas quem a abraça e carrega com paciência alivia-a e converte-a em doçura. Deus é profuso com as suas graças para com todos aqueles que de boa vontade carregam a cruz para lhe agradarem. O padecimento não apraz a nossa natureza; mas quando o amor divino reina num coração, fá-lo aceitável. — Ah! Se considerássemos bem o estado de felicidade que gozaremos no paraíso, se formos fiéis a Deus em sofrermos sem lamentos os trabalhos da vida, de certo não nos queixaríamos de Deus quando nos envia cruzes. Antes havíamos de lh´as agradecer, e até havíamos de pedir mais sofrimentos ainda. — Se somos pecadores, devemo-nos consolar nas tribulações que vierem e pensar que Deus nos castiga na vida presente; porque é isso sinal certo de que Deus quer livrar-nos do castigo eterno. Ai do pecador que goza de prosperidade na terra! Quem tiver de sofrer alguma grave tribulação, lance um olhar no inferno merecido e toda a pena se-lhe afigurará leve.
Se quisermos ser santos, devemos transformar o nosso gosto. Enquanto não chegarmos a achar doce o que é amargoso, e amargoso o que é doce, nunca nos poderemos unir perfeitamente com Deus. Toda a nossa segurança e perfeição está em sofrermos com resignação todas as contrariedades que nos vierem cada dia, e em sofrermo-las para agrado de Deus, o que constitui o fim principal e mais nobre que possamos ter em mira em todas as nossas obras.
Portanto, ofereçamo-nos sempre a Deus, prontos a carregar toda a cruz que nos queira enviar. Conservemo-nos sempre preparados para sofrer por seu amor todo o trabalho, a fim de que, quando nos venha algum, estejamos prontos a abraçá-lo. — Quando se nos afigurar mais duro o peso da cruz, recorramos logo à oração, para que Deus nos dê força para a carregarmos com merecimento. Avivemos então, mais do que nunca, a nossa fé, e lancemos um olhar sobre Jesus crucificado que está agonizando na cruz por nosso amor. Lancemos também um olhar para o céu e lembremo-nos do que diz São Paulo, a saber, que toda a tribulação terrestre, por mais dura que seja, não está em proporção com a glória que Deus nos prepara na vida futura (1).
Ó meu Jesus, quanto consolo me dá a vossa palavra: Convertimini ad me, et convertar ad vos (2) — “Convertei-vos a mim, e eu me converterei a vós”. Eu Vos deixei por amor às criaturas e às minhas míseras satisfações; mas agora que deixo tudo e me converto a Vós, estou certo de que não me repelireis, uma vez que Vos quero amar. Recebei-me na vossa graça e fazei-me conhecer o grande bem que sois e o amor que me tendes, a fim de que nunca mais me aparte de Vós. Jesus meu, perdoai-me os desgostos que Vos tenho dado, fazei que Vos ame sempre e nada mais quero. — Ó Maria, recomendai-me a vosso Filho; Ele vos concede quanto Lhe pedis; em vós confio. (II 265.)
  1. Rom. 8, 18.
    2. Zach. 1, 3.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

terça-feira, 17 de maio de 2016

A GENEROSIDADE DA DONZELA CRISTÃ

donzelaÉ uma virtude altiva e corajosa, que imprime à vontade a força de resistir, de sofrer e de agir segundo o dever, segundo a fé e segundo Deus. Apesar das provações, das dificuldades, dos perigos, dos desânimos, ela segue seu caminho sem se deixar abater, sem desanimar, sem tremer; à maneira do sol, que segue o seu caminho acima das tempestades e que só desaparece à tarde para iluminar outros céus e renascer no dia seguinte.
O P. de Ravignam escrevia: “quero assinalar-me no serviço de Nosso Senhor, distinguir-me para Sua glória e para Seu serviço.” Tende, também vós, esta altiva paixão. Tendes recebido tanto de Deus, sede agradecida! Vós, que sois delicada com todos, sede-o sobretudo com Nosso Senhor: “Que devia eu fazer por vós que não tenha feito?”, diz-vos Ele… Não poderíamos também dizer-vos: “Quanta coisa poderíeis ter feito por Deus e não fizeste!…”?
A generosidade pode às vezes ser ajudada, sustentada por um temperamento feliz, por uma sensibilidade maior, pelas graças trazidas por uma vocação de escolha, mas antes de tudo é uma virtude que pede esforços, renúncias e lutas.
a)Sede generosa e forte no cumprimento do dever cotidiano
Sê-lo-eis facilmente um dia, uma semana; mas todos os dias, até à morte, dura muito! É preciso uma grande soma de energia para assim saber vencer-se sempre. No fundo, basta para isso ver em cada um dos acontecimentos que formam a trama habitual da vossa vida a mão de Deus e a sua santa vontade!
Por que é que não tendes a força de cumprir assim esse dever monótomo, e às vezes tão duro, que se impõe a vós cada manhã? É porque a idéia de Deus está ausente do vosso coração. Se pensásseis em que é Ele quem vos chama e vos envia ao vosso dever, seríeis mais corajosa!
Ora, esse dever só raramente vos pede esforços heróicos, as mais das vezes é modesto, porém exige de vós uma renúncia de todas as honras. É mister aceitá-lo alegremente, e servir a Deus sem ruído, sem brilho, sem murmuração, sem desfalecimento.
É fácil ser generoso nesse minuto “deslumbrante e breve“, nesse “relâmpago que vale a eternidade“, em que o entusiasmo vos soergue acima de vós mesma e vos esconde sob um véu de glória o horror do sacrifício, lançando-vos cegamente na trilha soberba que se abre diante de vós.
Mas ser fiel ao dever cotidiano, durante a longa série dos dias que passam um após outro, pardacentos, monótonos, pesados, frios como dias de inverno, de um inverno que não traria de novo a primavera, eis aí a verdadeira generosidade cristã.
Ainda quando tivésseis de ver despegar-se de vós, pedaço por pedaço, tudo o que faz a vossa alegria ou a vossa razão de viver, juventude, saúde, afetos, “chances”, de felicidade, sonhos de futuro, persisti, resisti, ficai firme, ainda quanto tivésseis de morrer nesse posto que Deus vos deu, e, se preciso for, “morrer longo tempo“.
Sereis, talvez, admirável sem o saberdes, heroína modesta da oficina ou do lar; mas a vossa abnegação e os vossos sofrimentos terão atraído sobre vós, senão o olhar dos homens, certamente os olhares de Deus.
b)Sede generosa e forte nos sofrimentos físicos e morais
A vida é cheia deles, não os evitareis. No Calvário havia três crucificados, um inocente e dois culpados. Jesus era inocente e sofria por amor de nós. E vós, que haveis pecado, quereríeis não sofrer? Os dois ladrões eram culpados, mas um sofreu bem e salvou-se, ao passo que o outro sofreu mal e não obteve a mesma promessa do Salvador.
Em face da dor, uns se enrijam num estoicismo brutal e declaram que não sofrem. Orgulho! Outros murmuram e dizem: “Que fiz eu a Deus para que Ele assim me faça sofrer?” O Cura d’Arc lhes responde: “Infelizes, vós O crucificastes, e Ele, que tinha feito?”
O cristão compreende a sublime beleza do sofrimento, aceita-a, não só em silêncio, com resignação e coragem, mas com amor.
Vós, ide mais longe, ensaiai sorrir ao sofrimento Tirar-lhe-eis assim um boa parte do seu amargor, e agradareis a Deus. Santa Joana d’Arc, ferida, dizia: “Não me lastimeis! não é sangue que corre, é glória!” Dizei também, nos vossos sofrimentos pequenos ou grandes: Não me lastimeis, é por Deus que eu sofro! O sofrimento depura, engrandece, vem de Deus, a Ele nos conduz ou reconduz.
E se, em certas horas vos retém este pensamento lancinante que circula tanto entre os que têm pouca fé:“Por que será que Deus, que é bom, me faz assim sofrer?”, compreendei bem o que segue.
1 – A dor é um instrumento divino que forja nossas almas.
2 – A dor é inseparável do amor; não se pode amar sem sofrer, mormente sabendo como se deve expiar.
3 – O próprio Jesus, o Inocente, descido do céu para vir salver seus “irmãos” culpados, quis aturar os mais terríveis suplícios, por que?…
4 – Maria, a doce e bela criatura, a sublime Mãe de Deus, também sofreu tanto, que a Igreja a chama “Rainha dos mártires“. Ora, compreendeis por que foi que Jesus, que amava Maria tanto quanto um filho pode amar sua mãe (e quanto mais Ele, que era Deus), permitiu que Ela tivesse de sofrer tanto?… Por que foi que Ele quis fazer de Sua mãe a “Mãe das dores”?…
Meditai estes fortes pensamentos nos dias em que não compreenderdes o “por que do sofrimento”.
c) sede generosa e forte mesmo depois de vossas quedas
Podem ocorrer quedas na vida. A nossa existência não se passa em cair e levantar-se? Sabei, pois, levantar-vos sempre, levantar-vos imediatamente, apesar da humilhação da derrota, e repor-vos imediatamente em forma para afrontar novos combates. Quando uma falta vos abater e mordesdes o pó, sereis tentada a dizer como Paulo, após a sua queda no caminho de Damasco:
Que quereis que eu faça?” Uma voz respondeu-lhe: “Levanta-te”… “Levanta-te e anda”, diz o anjo ao profeta Elias. Ele se levantou, e andou até à montanha do Senhor. Não vos deixeis, pois, entorpecer pelas quedas, pelas tentações, por todas essas misérias inevitáveis aos pobres seres frágeis deste mundo. Levantai-vos e andai!
Se sois uma triste vítima do respeito humano, quebrai vossos grilhões, alçai a fronte, reerguei-vos,levantai-vos e andai!
Se sois uma alma desanimada ou adormecida à beira da estrada, acordai, levantai-vos e andai!
Se sois uma cristã de água de rodas, sede-o de água do batismo, regenerada no sangue de um Deus, levantai-vos e andai!
Se sois uma cristã intermitente ou incompleta, que tentais satisfazer, a um tempo, a Deus e ao mundo, não vos esqueçais de que não se pode servir a dois senhores, Jesus vos chama, ide a Ele, levantai-vos e andai!
Se sois como aquele pobre paralítico que “não tinha ninguém para mergulhá-lo na piscina“, tendes um Deus feito homem que vem a vós e que vos quer curar: deixa-O mergulhar-vos na piscina do sofrimento, e depois ide, levantai-vos e andai!
Se sois como Lázaro, se a vossa pobre alma está morta, então, sobretudo, compreendei esta palavra tornada célebre: “De pé, mortos! de pé!” Saí do túmulo do pecado! Jesus aí está, pertinho de vós, que vos chama para quebrar as ataduras que retêm cativa a vossa alma. Saí do túmulo da morte, ressuscitai, de pé, levantai-vos e andai!
Um pequeno ferido dizia, impaciente de voltar ao combate: “Um ferimento é como a sopa, faz crescer!”…Podereis ser ferida na luta pela virtude. Mas, se quiserdes, esse ferimento vos fará crescer com a condição de saberdes ser humilde e generosa.
Formação da donzela – Pe. J. Baeteman