segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Sagrado Coração e o Santíssimo Sacramento

Se tivéssemos uma fé mais viva, nós o veríamos presente no altar em meio ao sagrado peito de Jesus, e, então, quantas graças esta fé viva atrairia sobre nossas almas!


Mons. De Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: O Sagrado Coração de Jesus reside entre nós na terra, enquanto, ao mesmo tempo, no céu. Inseparável da santíssima e adorabilíssima humanidade de Jesus Cristo, da qual é como o centro e a vida, este divino Coração, tão amante e tão amado, reside em cada uma de nossas igrejas sob os véus eucarísticos, como é de fé.
Frequentemente esquecemos a realidade desta viva presença de Nosso Senhor na terra. Em teoria todos nós cremos nela (do contrário, seríamos hereges), mas não todos na prática; e esta é talvez a causa principal dessa tibieza, dessas mil e mil faltas que somos os primeiros a lamentar. Não temos, ao menos na medida que seria necessário, o espírito de fé na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia.
O mesmo sucede relativamente com o seu Sagrado Coração. Nós olhamos muitas vezes como uma espécie de abstração celestial, belíssima contemplada de longe, mas inacessível. Se tivéssemos uma fé mais viva, nós o veríamos presente no altar em meio ao sagrado peito de Jesus, e, então, quantas graças esta fé viva atrairia sobre nossas almas!
Do fundo de seu tabernáculo Jesus Cristo nos aguarda, chama-nos: como à beata Margarida Maria, mostra-nos e às vezes nos abre o seu Coração abrasado de amor: “Olhai, diz-nos, vede aqui o Coração que tanto tem amado os homens, e como reconhecimento pelo meu amor deles não recebo senão ingratidões, irreverências e ultrajes!” O altar é, com efeito, o trono do divino amor, como o tribunal da Penitência é o trono da divina misericórdia. Do alto deste o Coração de Jesus se entreabre para perdoar e purificar: do alto daquele dá-se substancialmente, abre-se para amar, para fortificar, para santificar.
No altar o sacerdote de Jesus tem em suas mãos consagradas o Corpo e o Coração do Filho de Deus, e no santo cálice contempla e bebe o mesmo Sangue que, vertendo do Sagrado Coração, vivificava a carne do Verbo humanado. E como a Eucaristia é por excelência o mistério de amor, pode-se dizer que o sacerdote católico é verdadeiramente o consagrante, o depositário e o dispensador do Sagrado Coração de Jesus.
Quando comunga na santa missa, recebe em seu interior este divino Coração e este Sangue adorável. Recebe-o, e também nós o recebemos quando comungamos, com todas as suas chamas, com todos os seus ardores. Foco vivíssimo do amor é a Comunhão onde se come e bebe o Amor eterno, Jesus Cristo, sua carne, seu Coração e seu Sangue gloriosos!
O que o amor de nosso Salvador faz no mistério da Eucaristia apresenta um tal cúmulo de prodígios, que em vez de falar deles, sente-se inclinado, por respeito, a calar e adorar. Tudo o que disto se pode dizer é nada.
São Bernardo chama a este grande sacramento “o amor dos amores, amor amorum.” Certamente, o amor, só o amor impulsiona Nosso Senhor a encerrar-se sob essa humilde aparência, despojado de todo esplendor, e morar assim nesta terra de misérias, de lodo e de impurezas, exposto a mil e mil ultrajes, e isso há dezenove séculos, e até o fim dos tempos, até o seu segundo advento.
O amor é o que obriga Jesus a viver entre nós para nos cobrir aos olhos de seu Pai celestial, como a galinha cobre e protege com suas asas os seus pintainhos. Ali, sobre o altar, seu divino coração, suprindo a fraqueza de sua Igreja militante, faz subir incessantemente ao céu adorações, louvores, ações de graças, súplicas e orações dignas da majestade divina. “Sempre vivo para interceder por nós”,[1] ama por nós e nos obtém graças. Abençoa-nos com incessantes bênçãos, segundo a bela expressão de São Pedro: “Deus enviou o seu Filho para vos abençoar”.[2]
O amor, sim, o amor lhe fez resumir no Santíssimo Sacramento todos os seus mistérios de misericórdia e ternura,[3] pois ali está, sob os véus eucarísticos, como Criador e Senhor eterno dos Anjos e dos homens, do céu e da terra, santificador de todos os escolhidos, Santo dos Santos, Cabeça e Soberano pontífice da Igreja, Rei dos Patriarcas e Profetas, Salvador e Redentor. Ali está com a graça do mistério da Encarnação, com seu amplo sacrifício de trinta e três anos, com todas as suas palavras e todos os seus milagres; ali com tudo o que operou na santa alma de sua Mãe, em sua Igreja e em todos os seus eleitos; ali, enfim, com todo o mundo da graça e todo o mundo da glória, de que é princípio, centro e vida. Que oceano de amor encerra a Eucaristia!
E todo este mistério dos mistérios, este Amor dos amores, não é, no fundo, outra coisa que o vosso Sagrado Coração, oh, dulcíssimo Jesus! E nós, ingratos, correspondemos a este prodígio de bondade esquecendo-O no silêncio de seus Tabernáculos, e mostrando-nos mais frios para com Ele, mais endurecidos, e mais insensíveis que o mármore dos altares!
Notas
[1] “Semper vivens ad interpellandum pro nobis”. (Hb. VII, 25.)
[2] “Deue suscitans Filium suum, misit eum benedicentem vobis”. (Act. III, 26.)
[3] “Memoriam fecit mirabilium suorum misericors et miserator Dominus; escam dedit timentibus se.” (P s. C X .)
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 125-129. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

“Jesus gosta que nos lembremos do que Ele sofreu por nós”

Pensai muitas vezes na eucaristia e na vida oculta de Jesus no tabernáculo. Lá, sobretudo, é que haveis de ver o Seu amor. Ficar sozinho sem adoradores, na maior parte das igrejas do mundo! Esperar em vão que alguém venha lhe dizer: eu vos amo!
























Dizei cada manhã ao levantar:
Meu Jesus, eis-me aqui para cumprir a Vossa santa vontade; que quereis que eu faça hoje para Vos agradar?
Fazei todos os exercícios de piedade sob o olhar de Jesus, e com muito amor.
Só se pode fazer bem às almas na medida da união com Deus.
Deus procura almas que reparem os ultrajes que Ele recebe, que O amem, e que O façam amar. Ele vos quer neste número.
Jesus, antes de conceder a uma alma uma união íntima com Ele, a purifica pela provação, e quanto maiores desígnios têm sobre esta alma, tanto maior é a prova.
Fixai vossa morada habitual no Coração de Jesus. Que o amor seja a cadeia que una vosso coração àquele Coração adorável. Vosso coração tão miserável se purificará, se há de desapegar ao contato com um Coração tão puro!
Ide buscar no Coração de Jesus o que necessitais para vós e para os outros. Ele nada vos há de recusar.
Os sofrimentos do coração são bem mais penosos do que os do corpo. Para uma alma que ama a Jesus, a dor maior é magoar a Jesus por suas ingratidões e pecados.
Pedi ao Coração de Jesus força de alma necessária para que Ele cumpra em vós Seus desígnios.
Para fixar o espírito na presença de Deus, tomais cada dia uma das catorze estações de Nosso Senhor na Paixão, e pensai bastante nela. Jesus gosta que nos lembremos do que Ele sofreu por nós. Nos dias de festa tomais um dos mistérios gloriosos, a ressurreição, a ascensão. Pensai também muitas vezes na eucaristia e na vida oculta de Jesus no tabernáculo. Lá, sobretudo, é que haveis de ver o Seu amor. Ficar sozinho sem adoradores, na maior parte das igrejas do mundo! Esperar em vão que alguém venha lhe dizer: eu vos amo!
Tudo passa, e passa depressa! Não tenhamos tanta preocupação pelas coisas que um dia hão de se acabar! Olhemos sempre o que nunca mais se há de acabar. Por nossas ações santas e unidas a Jesus, embelezaremos nosso trono no céu. Façamos nosso trono mais alto, alguns degraus mais próximo daquele que havemos de contemplar e amar por toda a eternidade. Eis qual deve ser a vossa ocupação na terra.
(*) Trecho do livro “O Manuscrito do Purgatório”, disponível abaixo.
Una-se à Associação pelas Santas Almas
do Purgatório (Purgatorial Society),
uma iniciativa de Rorate Caeli que já se estende
por alguns anos.
Atualmente há 50 sacerdotes oferecendo
Missa Tradicional para as almas associadas,
e milhares inscritas
.
As inscrições são sempre gratuitas,
não há nenhum tipo de finalidade econômica
— nem sequer na forma de donativo —
na Associação.Saiba como se inscrever gratuitamente.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Homens, confessem-se agora mesmo!

Diocese nos Estados Unidos reage a “crise da masculinidade” e lança campanha para chamar os homens de volta aos lares e à vida da Igreja


National Catholic Register | Equipe CNP: É o apelo de um bispo dos Estados Unidos, que iniciou em setembro de 2015 um movimento para trazer os homens de volta à vida da Igreja e encorajá-los a responderem ao seu chamado de pais, esposos, filhos e irmãos.
A iniciativa de Thomas Olmsted, bispo da cidade de Phoenix, no Arizona, deu origem a uma exortação apostólica intitulada Into the Breach (“Na Brecha”, lit.), que convoca os homens à batalha espiritual que acontece todos os dias à sua volta, desde as suas casas e paróquias até os seus ambientes de trabalho e de estudo.
“Para mim, trata-se simplesmente de um chamado para a ação”, comenta Steven Pettit, de uma organização de homens leigos de Phoenix. “Os homens raramente escutam essa mensagem nas homilias e, muitas vezes, eles não acreditam que a Missa seja para eles. Esse é, portanto, um chamado para eles acordarem. O bispo de Phoenix está falando com cada homem: ‘Você tem que se envolver, e aqui estão as razões, aqui estão as coisas que você é chamado a fazer como homem’.”
O alcance do documento ultrapassa as fronteiras do Arizona. Várias dioceses nos Estados Unidos já estão criando grupos de oração masculinos para se ajudarem na vivência da fé cristã, a partir das linhas da exortação. Além disso, a mensagem já foi traduzida para várias línguas, como o alemão, o francês, o espanhol e também o português.
Também foi realizado um pequeno vídeo de promoção do documento, intitulado A Call to Battle (“Um Chamado para o Combate”, lit.), que pode ser assistido abaixo, com legendas em português:
YouTube
Uma das “brechas” que essa verdadeira campanha de evangelização tenta conter é a perda da fé católica entre as famílias e a falta de participação dos homens nos sacramentos. “O mundo está sob o ataque de Satanás”, adverte Thomas Olmsted. “Muitos homens católicos não estão dispostos a ‘permanecer firmes na brecha’. Um terço deixou a fé e muitos dos que ainda são ‘católicos’ praticam a fé com timidez e sem o mínimo compromisso de transmitir a fé aos seus filhos”.
Para reverter esse quadro, a diocese de Phoenix aposta na doutrina católica de sempre, em contraposição às seduções do mundo moderno, bem como no valor da paternidade, considerado essencial para todo homem. “Para viver plenamente, todo homem deve ser um pai!”, diz a exortação.
O documento propõe ainda alguns hábitos para o homem católico, como o de rezar todos os dias, fazer um exame de consciência diário, ler as Sagradas Escrituras, participar mais frequentemente da Santa Missa e confessar-se regularmente. Constatando que “grandes quantidades de homens católicos estão em grave perigo mortal como consequência dos níveis epidêmicos de consumo de pornografia e do pecado da masturbação”, o bispo Olmsted faz um apelo: ” Meus irmãos, confessem-se agora mesmo! Nosso Senhor Jesus Cristo é um Rei misericordioso que perdoará aqueles que humildemente confessam os seus pecados, mas não perdoará aqueles que se recusam. Abram suas almas ao dom de sua misericórdia!”
YouTube
Para ler a exortação Into the Breach na íntegra em inglês, é só clicar neste link.
Publicado originalmente: Com informações de National Catholic Register | Por Equipe CNP

terça-feira, 25 de outubro de 2016

O sacerdote e Maria

O Padre precisa de Maria como sua mãe espiritual também para protegê-lo de tantas ciladas que podem se apresentar na vida sacerdotal. A primeira dessas ciladas é contra a fé: sucumbir à tentação de agradar aos homens, agradar à mentalidade da época colocando em perigo a doutrina católica




Sermão para a Solenidade Externa da Assunção
21.08.2016 – Padre Daniel Pinheiro, IBP
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Caros católicos, nós festejamos hoje a Assunção de Nossa Senhora, quer dizer, o fato de que Maria Santíssima, em corpo e alma, subiu aos céus. A Assunção de Maria Santíssima foi motivo de imensa alegria no céu, pois anjos e santos receberam a sua Rainha. Uma grande alegria para nós que estamos nesse mundo, por ver a santidade de tão boa Mãe recompensada inteiramente e por ganharmos tal advogada no céu. A Mãe de Deus, tendo vivido tão perfeitamente nesse mundo, tão unida ao seu Filho e à Santíssima Trindade, crescendo sempre no amor a Deus, recebe, assim, o prêmio da bem-aventurança eterna.
Aproveitemos a ocasião dessa primeira Missa do Padre, para rapidamente tratar da relação do sacerdote para com a sua Mãe, Maria Santíssima. Antes de tudo, o sacerdote é filho de Maria. Maria é a Mãe do Sumo e Eterno Sacerdote, Nosso Senhor Jesus Cristo. O ofício próprio do sacerdote é ser mediador entre Deus e os homens, dando aos homens as coisas divinas e oferecendo a Deus as preces dos homens, oferecendo o sacrifício e satisfazendo pelos pecados. Ora, Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem, transmitiu aos homens a doutrina sagrada e as graças de Deus, e ofereceu-Lhe a satisfação perfeita pelo pecado com a sua paixão e morte. Jesus Cristo é o sumo e perfeito Sacerdote. Maria é Mãe de Jesus Cristo Sumo Sacerdote. Ora, o sacerdócio que recebem os padres católicos nada mais é do que uma participação no sacerdócio de Cristo. Dessa forma, o sacerdote tem Maria como mãe de seu sacerdócio.
Podemos nos perguntar, todavia, onde ocorreu a ordenação sacerdotal de Nosso Senhor? Onde e em que momento? A unção sacerdotal dEle deu-se no exato momento de sua Encarnação no ventre de Maria. Nosso Senhor Jesus Cristo é o Sumo Sacerdote pelo fato mesmo de ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Foi, então, no ventre de Nossa Senhora que Jesus foi, se assim podemos dizer, ordenado, feito sacerdote. Os padres recebem o sacerdócio das mãos do Bispo, mas devem se deixar formar por Maria, Mãe do Sacerdócio católico.
Assim, como a criança pequena necessita usualmente da ajuda da mãe em sua educação e formação, o padre precisa do auxílio de Maria Santíssima não somente na sua formação como seminarista, não somente no início de seu ministério sacerdotal, mas durante toda a sua vida. O Padre precisa de Maria como sua mãe espiritual, para dirigi-lo, como estrela do mar, a Nosso Senhor Jesus Cristo.
O Padre precisa de Maria como sua mãe espiritual também para protegê-lo de tantas ciladas que podem se apresentar na vida sacerdotal. A primeira dessas ciladas é contra a fé: sucumbir à tentação de agradar aos homens, agradar à mentalidade da época colocando em perigo a doutrina católica. Outra cilada é o ativismo: entregar-se a atividades sem fim, esquecendo-se da própria vida de oração, da própria vida de união com Deus, esquecendo-se de que o verdadeiro fruto do ministério sacerdotal depende da vida de união do padre com Deus, sendo essa a alma de todo apostolado. Outra cilada, muitas vezes ligada ao ativismo, é colocar o êxito do ministério sacerdotal na quantidade, fazendo de tudo para alcançar quantidade, muitas vezes cedendo, para tanto, na doutrina, na moral, na liturgia. Não é a quantidade o êxito do ministério sacerdotal. O êxito do ministério sacerdotal é a glória de Deus e a santificação das almas, que se pode fazer somente com a fidelidade plena à doutrina católica em todos os seus aspectos. Os frutos de seu ministério, o padre deve entregar a Nosso Senhor Jesus Cristo pelas mãos de Nossa Senhora. Se o padre é fiel, Deus fará frutificar o seu ministério em tempo oportuno. Ainda uma outra cilada é a falta de zelo apostólico. O Padre deve lembrar-se sempre de que foi ordenado sacerdote para levar as almas a Deus. Ele procura manter a maior união com Deus para isso também: para levar as almas mais facilmente ao Senhor. Outra armadilha: o orgulho. Quando parecer ter êxito em seu ministério, o sacerdote deve se lembrar do exemplo perfeitíssimo de Maria: reconhecer que é Deus a causa primeira de todo bem e humilhar-se, como pobre criatura. Assim fez Nossa Senhora na Encarnação, considerando-se mera escrava de Deus, no momento em que se tornava Mãe dEle. Assim fez Maria no Magnificat afirmando a sua humildade. Em todas essas ciladas e tantas outras que podem existir no ministério sacerdotal, Maria, como boa Mãe, ajuda o Padre, se ele tem por ela devoção.
O Padre verdadeiramente devoto de Nossa Senhora procura agradar a tão boa Mãe. Antes de tudo, vai agradá-la não ofendendo seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Em segundo lugar, agrada a Maria tornando-se realmente uma cópia, um retrato, como diz São José Cafasso, de Jesus Cristo, Sumo Sacerdote. Claro, a devoção a Maria pode ter apenas uma finalidade: nos fazer semelhantes a Cristo. O único objetivo de Nossa Senhora, como criatura que é, embora a mais perfeita, é a glória de Deus, é a conversão das almas a Deus.
O Padre deve ter uma devoção profunda a Nossa Senhora, devoção que o leve à imitação de suas virtudes, para melhor imitar Nosso Senhor Jesus Cristo. Mantendo essa sólida devoção a Maria, o padre vai se preservar das ciladas, vai avançar nas virtudes, ganhará almas para Deus, despreocupado do resto. É isso que deve interessar ao sacerdote: a glória de Deus pela salvação das almas. Como dizia Dom Bosco, repetindo São Francisco de Sales, da mihi animas et coetera tolle: dai-me as almas e tirai o resto.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O ódio de Satanás contra a Missa

A Missa está no centro do combate apocalíptico que se desenvolve entre a revolução satânica e a Igreja. Com esta precisão, no entanto: a Missa sim, mas “a Missa dita e bem dita”, ou seja, de acordo com a vontade mesma de Deus expressa pelos sagrados cânones da Igreja





















A Missa é, de fato, a renovação do sacrifício do Calvário, pelo qual a humanidade se reconcilia com Deus, com o qual a ordem inicial é, assim, restaurada por uma nova união, de certa forma, do natural e do sobrenatural: união que nossos primeiros pais haviam destruído e rejeitado. Esquecendo essas verdades fundamentais torna-se difícil as pessoas compreenderem o ódio à Missa e ao sacerdócio mostrado pela Revolução, maçônica ou comunista…


Pe. Guillaume Devillers, FSSPX, Sudamerica | Tradução Sensus fidei (*): Em 1957 Jean Ousset publicava sua obra-prima, “Para que Ele reine”. O texto a seguir se encontra nas primeiras edições, tanto francesas como espanholas. Em perfeito acordo com a doutrina tradicional da Igreja, o autor mostra-nos aqui como a Missa está no centro do combate apocalíptico que se desenvolve entre a revolução satânica e a Igreja. Com esta precisão, no entanto: a Missa sim, mas “a Missa dita e bem dita”, ou seja, de acordo com a vontade mesma de Deus expressa pelos sagrados cânones da Igreja.
Consideremos que a Missa nova como celebrada hoje, ainda não tinha sido inventada pelo Padre Bugnini, de infeliz memória, mas já se começava a difundir no clero um espírito de inovação que logo acabaria em desastre conciliar e pós-conciliar.
Estas páginas são admiráveis e merecem ser lidas e meditadas por todos os que desejam trabalhar de forma eficaz “para que Ele reine”. Trata-se, em primeiro lugar, pela Missa que Nosso Senhor reinará nos corações e nas instituições sociais ou políticas para que as almas se salvem.
Mons. Lefebvre aprovou integralmente não só o livro, mas também a obra da Cidade Católica, com todos os princípios doutrinais e modos de ação que ela professava e que o livro expõe.
Ignoramos as razões pelas quais este capítulo fundamental sobre a Missa foi suprimido das edições posteriores.[1] Mas é evidente que ele não se encaixa absolutamente nem com os novos ensinamentos ecumênicos e liberais do Concílio Vaticano II, nem com o rito reformado da nova missa que os expressa.
O leitor encontrará em um quadro à parte a carta de Monsenhor Lefebvre publicada nas primeiras edições do livro. Enfatizemos esta declaração: “Nosso Senhor reinará na cidade quando alguns milhares de discípulos estiverem convencidos da verdade que lhes é transmitida e que esta verdade é uma força capaz de transformar tudo.”
Apoiados, portanto, na doutrina que nos tem sido transmitida e sobre o Santo Sacrifício da Missa, segundo o rito tradicional, procuremos colaborar com zelo para esta grande obra do reinado de Jesus e Maria.

O ódio de Satanás contra Jesus Cristo e Sua Igreja

Satanás luta em todos os lugares – escreve o R. P. Fahey – e em todos os lugarestenta eliminar o sobrenatural. Todo o ser deste puro espírito, toda esta incansável energia, da qual nós, pobres criaturas de músculos e nervos, não podemos ter uma ideia adequada está, sempre e em toda parte, dirigida contra a submissão sobrenaturalmente amorosa à Santíssima Trindade. Mudamos os nossos pensamentos e temos necessidade de descanso e de sono. Não ocorre o mesmo a Satanás. Toda a sua espantosa energia está dirigida, incessantemente, com a obstinação mais infatigável, contra a obra da salvação e de restauração do Verbo feito carne.”
Vimos que o resultado de tal revolta foi, no plano das ideias, o naturalismo.
Do ponto de vista em que nos encontramos agora, o de um combate mais concreto, podemos observar que os ataques do Inferno, primeiramente, tendo como objetivo da humanidade em geral, enquanto privilegiada do Amor divino; seguidamente a ordem cristã mais estritamente considerada, e, finalmente, a Igreja Católica, mais diretamente vulnerável em seus membros, sacerdotes e leigos. Os sacerdotes, especialmente, serão o objeto de ódio infernal, não só porque eles são cristãos por excelência, mas porque eles são os homens da Missa.
A Missa é, de fato, a renovação desse sacrifício do Calvário, pelo qual a humanidade se reconcilia com Deus, com o qual a ordem inicial é, assim, restaurada por uma nova união, de certa forma, do natural e do sobrenatural: união que nossos primeiros pais haviam destruído e rejeitado.
“Esquecendo essas verdades fundamentais – escreve R. P. Fahey – faz com que sejadifícil para as pessoas que não leem mais do que jornais e frequentam cinema, compreender o ódio à Missa e ao sacerdócio mostrado pela Revolução, maçônica ou comunista, na Espanha, no México ou em outros lugares. O treinamento dado por Moscou não é suficiente para justificá-lo…”
De qualquer forma, não é desnecessário saber distinguir o que Satanás buscava com a crucificação de Nosso Senhor e seu objetivo agora perseguido, ao provocar e dirigir os ataques contra os que celebram a Missa e aqueles que a ela assistem.
“Satanás moveu os chefes do povo judeu a se livrar de Nosso Senhor, porque estava ciente da presença no homem Jesus Cristo de uma excepcional intensidade dessa vida sobrenatural que detesta; mas, certamente, não queria e não tinha a intenção de entrar na ordem do plano divino da Redenção. Seu orgulho não lhe permitia compreender o mistério de um Amor que chegava até a divina loucura de uma imolação na Cruz. Os demônios não sabiam, na verdade, que o ato de submissão do Calvário significava o retorno à ordem divina pela restauração da Vida Sobrenatural da Graça para a humanidade”.[2]
São Paulo insiste em dizer que, se (os demônios) “tivessem-no sabido, nunca teriam crucificado o Senhor da Glória” (I Coríntios 11: 8). E Santo Tomás: “Se os demônios estivessem absolutamente certos de que Nosso Senhor era o Filho de Deus e se soubessem antecipadamente as consequências de Sua Paixão e Sua Morte, nunca teriam feito crucificar o Senhor da Glória”.
“Mas, se bem os demônios perceberam tarde demais o sacrifício do Calvário, eles estão, no entanto, perfeitamente conscientes do significado da Missa. Daí se adivinha o seu ódio. Todos os esforços são destinados a impedir a sua celebração. Mas, não podendo acabar totalmente com este ato único de adoração, Satanás tentará limitá-lo aos espíritos e aos corações do menor número possível de “indivíduos…'”
esta luta continuará até o fim dos tempos. Desta forma compreendem-se as recomendações urgentes dos Apóstolos e dos Santos para nos alertar contra Satanás e seus demônios. Conhecemos a fórmula de São Pedro sobre o leão que ruge procurando a quem devorar. São Paulo, por sua vez, não tinha medo de escrever aos Efésios: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares. Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever”. (Efésios VI, 11-13).
Quando se compreende o sentido e o alcance dessa luta, quando se conhece o plano de restauração universal por Jesus Cristo e sua Igreja, parece inevitável que Lúcifer e todo o inferno com ele se encarnicem de fazer fracassar este plano e que a catolicidade (leia-se: a universalidade) da salvação operada pela ação sobrenatural da Graça, Satanás busque opor a negação de um universalismo puramente natural, do qual o Senhor da Glória seria expulso e no qual a obra da redenção estaria neutralizada, anulada.
Mas … “ab ortu solis usque ad occasum… in omni loco sacrificatur et offertur Nomini Meo oblatio munda … Do levante ao poente, em toda parte, eis que sacrificam e oferecem ao Meu Nome … uma oblação pura”. Esta frase do profeta Malaquias indica, pelo contrário, a ordem divina.
Que a Missa seja celebrada e bem celebrada (leia-se: segundo a vontade mesma de Deus formulada pelos Santos Cânones da Igreja). Que possa ser celebrada do levante ao poente, em todos os lugares … Que possa haver, para celebrá-la, numerosos sacerdotes, santos e doutos na ciência de Deus… Que tudo esteja em ordem neste mundo, para que os méritos da Missa possam estender-se mais abundantemente, mais completamente sobre o maior número possível, e para isso, operar de tal forma que tudo esteja posto em prática, direta ou indiretamente, sobrenatural e naturalmente, de modo que o maior número possível esteja o melhor preparado para colher, gostar, buscar esses frutos de salvação eterna mais universalmente concedidos… não são estas realmente as razões últimas da ordem universal e, portanto, a primeira justiça?[3] Finalidade de todos os esforços da Igreja, enquanto Ela está diretamente encarregada do magistério e do ministério especificamente religiosos e sobrenaturais. Finalidade muito real, embora indiretamente buscada, do mesmo poder civil e das instituições. Finalidade real desse mínimo, pelo menos, desejável bem-estar, material, intelectual e moral que Santo Tomás ensinou-nos ser indispensável, comumente, para a prática da virtude. Finalidade real dessa defesa dos bons costumes, que é um dos primeiros deveres do Principado. Finalidade real, em suma, dessa paz, dessa comunidade, dessa comunhão entre os indivíduos, as classes ou as nações, das quais, está bastante claro, o mundo está terrivelmente afastado, como está também terrivelmente afastado de Deus.
Eis, então, em sua magnífica unidade, o plano natural e sobrenatural do universalismo cristão ou catolicismo. Sabemos que Santo Inácio fizera disso o “Princípio e o Fundamento” de seus “Exercícios”: “O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, Nosso Senhor, e, mediante isto, salvar a sua alma. E as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para ajudá-lo na busca da finalidade para a qual ele é criado. Daí segue-se que tanto deve usar delas quanto lhe ajudem para seu fim, e tanto deve livrar-se delas, tanto quanto elas lho impeçam”.
Eis, então, que Satanás não pode deixar de combater. Pela perseguição manifesta, ou de outro modo, pela pressão habilidosa de um conjunto de instituições sofisticadas, proibir louvar, honrar, servir a Deus, Nosso Senhor, e, consequentemente, entorpecer a salvação das almas, é impossível não ser esta a maior preocupação do inferno.
R. P. Guillaume Devillers
Notas
[1] O leitor pode verificar, por exemplo, na edição Cruzamante (Buenos Aires, 1980); Este capítulo foi omitido na p. 90.
[2] Como observa Santo Agostinho: “Cristo só foi conhecido dos demônios tanto quanto quis, e Ele só quis tanto quanto foi necessário… Quando Ele julgou bom ocultar-se um pouco mais profundamente, o príncipe das trevas duvidou Dele e O tentou para saber se Ele era Cristo, o Filho de Deus” (“Cidade de Deus”, IX, 21). Cf. Suarez (ter. part. Div. Thomae, q XLI, art 1, co 111 co) “Especialmente para saber se ele era o Filho de Deus, Jesus Cristo, o diabo aproximou-se para tentá-lo.” Suas primeiras palavras expressam o seu pensamento: “Se és o Filho de Deus…”
[3] Todas as revoluções, sejam francesas, russas, espanholas, americanas, etc., destruíram, fecharam igrejas, suprimiram os sacerdotes ou, o que é mais grave, tentaram eliminar-lhes a possibilidade ou mesmo o desejo da celebração cotidiana da Missa. Pode-se ainda observar certas correntes de pensamento que estão espalhadas aqui e ali e de acordo com as quais os sacerdotes devem contentar-se (no transcurso de congressos, por exemplo) com assistir a uma só Missa de um deles e tomar a comunhão como simples fiéis, em vez de ter que celebrar eles mesmos a Missa.