sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Sto. Afonso Maria de Ligório dá exemplos da Escritura que mostram que os pecados de um homem são limitados e, em certo ponto, a misericórdia de Deus cessa para o homem e a Sua justiça começa


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Deus está pronto para curar aqueles que sinceramente desejam mudar suas vidas, mas não pode ter pena do pecador obstinado. O Senhor perdoa pecados, mas Ele não pode perdoar aqueles que estão determinados a ofendê-lo

Querendo ou não, a relativização do conceito de livre-arbítrio da criatura bem como a equivocada concepção de misericórdia e justiça de Deus — disseminados pelas falsas doutrinas da “espiritualidade planetária” neopagã e liberal vigente — sua nefasta influência acabou por contaminar muitos teólogos e peritos progressistas, arquitetos do Concílio Vaticano II. Por isso, em todo lugar se ouve uma estranha e inédita exaltação à misericórdia ilimitada de Deus e que a paciência de Deus não tem limites.
Mas não é isto o que ensina Nosso Senhor, nem o magistério bimilenar, conforme claramente podemos constatar no presente exemplo de pregação do grande Doutor da Igreja, Santo Afonso Maria de Ligório. 
O Fundador dos Redentoristas, em seu sermão do primeiro domingo do Advento, adverte os fiéis de que o homem não deve abusar da misericórdia de Deus e imaginar que sempre haverá tempo para se arrepender e ser salvo. De fato, a misericórdia de Deus não tem limites, até o ponto em que esses limites são exigidos pela Sua sabedoria e justiça. A partir dessa premissa, meditemos nas seguintes e fundamentais advertências de Sto. Afonso Maria de Ligório sobre o verdadeiro conceito de Misericórdia e Justiça de Deus:
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No Evangelho deste dia, lemos que, depois de ter ido para o deserto, Nosso Senhor Jesus Cristo permitiu que o Diabo o colocasse sobre o pináculo do templo e lhe dissesse: “Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra (Sl 90,11s). ” Mas o Senhor respondeu que nas Sagradas Escrituras também está escrito:.. “Não tentarás o Senhor teu Deus”.
O pecador que se abandona numa vida de pecado sem que se esforce para resistir às tentações, ou sem, pelo menos, pedir a ajuda de Deus para vencê-las, e espera que o Senhor, um dia, o atraia a partir desse abismo, tenta Deus para que faça milagres, ou melhor, para que mostre a ele uma misericórdia extraordinária não estendida à maioria dos cristãos.
Como diz o Apóstolo, Deus “quer que todos os homens sejam salvos ” (I Tim 2: 4.), mas Ele também quer que todos nós desejemos trabalhar para a nossa própria salvação, pelo menos, adotando os meios de superar os nossos inimigos e de obedecê-lo quando Ele nos chama ao arrependimento.
Os pecadores ouvem os apelos de Deus, mas se esquecem desses apelos e continuam a ofendê-lo. Mas Deus não os esquece. Ele contabiliza as graças que nos dispensa, bem como os pecados que nós cometemos. Assim, quando o tempo que Ele fixou se completa, Deus nos priva de suas graças e começa a infligir o castigo.
Pretendo mostrar neste discurso que, quando os pecados alcançam um determinado número, Deus não mais perdoa. Preste atenção.

O número de pecados que Deus perdoará é fixo

1. São Basílio, São Jerônimo, São João Crisóstomo, Santo Agostinho e outros Padres ensinam, que, assim como Deus fixou para cada pessoa o número dos dias de sua vida, e os graus de saúde e talento que Ele lhes dará — de acordo com as palavras da Escritura: “Vós ordenastes todas as coisas na medida, número e peso” (Sb 11, 21) — assim também Ele determinou para cada um o número de pecados que Ele perdoaráE quando este número for concluído, Ele não perdoará mais.
2. “O Senhor me enviou para curar os contritos de coração” (Is 61, 1). Deus está pronto para curar aqueles que sinceramente desejam mudar suas vidasmas não pode ter pena do pecador obstinadoO Senhor perdoa pecados, mas Ele não pode perdoar aqueles que estão determinados a ofendê-lo.
Também não podemos exigir de Deus a razão pela qual Ele perdoa uma pessoa de uma centena de pecados, e a outros os arrebata dessa vida, enviando-os para o inferno, logo após três ou quatro pecados. Por Seu Profeta Amós, Deus disse: “Por causa de três transgressões de Damasco, e por quatro, não irei convertê-la” (1:3).
No entanto, devemos adorar os juízos de Deus, e dizer com o Apóstolo: “Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos!” (Rm 11, 33).
Aquele que recebe o perdão, diz Santo Agostinho, é perdoado pela pura misericórdia de Deus; e os que são castigados, são justamente punidos. Quantos Deus têm enviado para o inferno com a primeira ofensa?
São Gregório relata que uma criança de cinco anos, que havia chegado ao uso da razão, foi arrebatada pelo diabo e levada para o inferno por ter pronunciado uma blasfêmia.
A Santíssima Mãe de Deus revelou a uma grande serva de Deus, Benedita de Florença, que um rapaz de 12 anos, foi condenado após o seu primeiro pecado.
Outro menino de oito anos morreu depois de cometer seu primeiro pecado e se perdeu.
Você diz: “Eu sou jovem; há muitos que cometeram mais pecados do que eu”. Mas, por esse motivo, será Deus obrigado a esperar o seu arrependimento e sua obstinação em ofendê-lo?
No Evangelho de São Mateus (21, 19), lemos que o Salvador amaldiçoou uma figueira na primeira vez em que a viu sem frutos. “Que nenhum fruto cresça em ti doravante para sempre. E imediatamente a figueira secou.”
Você deve, então, tremer só de pensar em cometer um único pecado mortal, especialmente se você já tiver sido culpado de pecados mortais.

Quando a medida da culpa é completada, Deus castiga o pecador com Sua justiça

3. “A propósito de um pecado perdoado, não estejas sem temor, e não acrescentes pecado sobre pecado”.(Eclesiastes 05:05) Por isso — oh pecador! — Não diga: “Uma vez que Deus me perdoou outros pecados, Ele vai me perdoar este se eu cometê-lo.” Não diga isso, pois, se para o pecado que lhe foi perdoado você adiciona outro, você tem razão para temer, pois este novo pecado deve ser unido à sua ex-culpa, e, portanto, o número será completado, e você deve ser abandonado.
Eis como a Escritura se desenvolve essa verdade mais claramente em outro lugar: “Quanto às outras nações, o Senhor espera pacientemente, antes de puni-las, que tenham enchido a medida de suas iniquidades”. (2 Mac 6, 14)
Deus espera com paciência, até que certo número de pecados seja cometido, mas, quando a medida da culpa é completada, ele não mais espera, mas castiga o pecador. “Tu selaste como num saco os meus crimes, puseste um sinal sobre minhas iniquidades”. (Jó 14:17)
Os pecadores multiplicam seus pecados sem fazer-lhes conta, mas Deus contabiliza o número deles; então, quando a colheita está madura, ou seja, quando o número de pecados se completa, Ele pode vingar-se deles. “Tomai as foices, porque a colheita está madura”. (Joel 3:13)
4. Há muitos exemplos desses nas Escrituras. Falando dos hebreus, o Senhor em um só lugar diz: “Nenhum dos homens que viram a minha glória e os prodígios que fiz no Egito e no deserto, que me provocaram já dez vezes e não me ouviram, verá a terra que prometi com juramento aos seus pais. Nenhum daqueles que me desprezaram a verá”. (Num 14: 22-23)
Em outra passagem, Ele diz que conteve sua vingança contra os amorreus, porque o número de seus pecados não fora concluído: “Porque a iniquidade dos amorreus não chegou ainda ao seu cúmulo”. (Gen 15: 16)
Temos novamente o exemplo de Saul, que, depois de ter desobedecido a Deus uma segunda vez, foi abandonado. Ele suplicou a Samuel para interceder perante o Senhor em seu nome: “Agora, peço-te, perdoa o meu pecado, e volta comigo para que eu adore o Senhor”. (1 Sm 15:25) Mas, sabendo que Deus tinha abandonado Saul, Samuel respondeu: “Não voltarei contigo!, exclamou Samuel. Rejeitaste a palavra do Senhor, por isso o Senhor te rejeita, e não quer mais que sejas rei de Israel”, etc (15: 26) Saul, você abandonou Deus, e Ele o abandonou.
Nós temos outro exemplo em Baltazar que, depois de ter profanado os vasos do templo, viu uma mão escrevendo na parede, Juba, Thecel, Farés. Daniel foi chamado para expor o significado dessas palavras. Ao explicar a palavra Thecel, disse ao rei: “Pesado foste na balança, e foste achado em falta” (Dn 5:27) Por esta explicação, deu a entender ao rei que o peso de seus pecados na balança da justiça divina havia pendido desfavoravelmente para ele. “Na mesma noite Baltazar, o Rei caldeu, foi morto”. (Dn. 5:30)
Oh! Quantos pecadores têm encontrado o mesmo destino! Continuando a ofender a Deus até que seus pecados chegaram a certo número, eles têm sido feridos de morte e merecido o inferno! “Passam os seus dias na riqueza, e em um momento são lançados no Inferno”. ( Jó 21:13)
Tremam, irmãos, pois se vocês cometem outro pecado mortal, Deus deveria lançá-los no inferno.
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Alphonsus Liguori, Sermons for All the Sundays in the Year, London: James Duffy & Sons, 1882, pp. 113-115.

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