terça-feira, 9 de maio de 2017

Jesus livrou-nos de todo o mal para dar-nos todo o bem

Ao dar-se a mim, o Coração de meu Salvador deu-me tudo o que há na terra: sua Igreja, seu Vigário, sua verdade, seus Sacramentos, sua Eucaristia, seu Corpo e seu Sangue, sua Mãe, sua santa cruz, todas suas graças, todas suas riquezas espirituais; e no céu me espera para ser Ele mesmo minha bem-aventurança e minha recompensa sem medida





O amor do Redentor resplandece maravilhosamente entre todos os bens que o seu Coração nos cumulou

Monsenhor de Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: A misericórdia de Nosso Senhor me livrou do pecado e do inferno. Mas isto não é mais do que o lado negativo do que o seu amor infinito se dignou fazer por mim: o lado positivo, o bem que me mereceu, é ainda mil vezes mais precioso. Se me livrou de todo o mal, foi para dar-me todo o bem. Sim, todo o bem; porque com seu zelo, com sua bem-aventurança e sua eternidade entrega-me a si mesmo, e como dizia Santa Ângela de Foligno, Ele é Todo-Bem.
O que pode ser comparável à posse do céu, ou seja, a posse da felicidade perfeita e eterna, do perfeito e eterno gozo, do perfeito e eterno amor? O céu é o seio de Deus no qual a criatura deificada se encontra abismada, com Jesus Cristo, por Jesus Cristo e em Jesus Cristo, no oceano da luz divina e da eterna bem-aventurança. O céu é o Amor convertido em nossa vida, nosso estado, nossa atmosfera, nosso tudo. Não mais medos, não mais escuridão, não mais privações, não mais desfalecimentos, não mais separações, não mais lágrimas, não mais sofrimentos; ao contrário, superabundância incomensurável e imutável de todos os bens, seja do espírito, do coração, ou dos sentidos. Viver com Jesus e Maria, com os bem-aventurados Serafins, Querubins, Arcanjos e Anjos, com todos os Santos, com todos os eleitos; ver a Deus face a face, possuir a Deus por completo, gozar de Deus, estar pleno da paz e alegria de Deus; e isto para sempre, sem inquietação, sem possibilidade de perder uma só gotinha daquele oceano de felicidade… Que perspectiva, meu Deus!
Que ditoso ser eternamente companheiro dos Anjos, viver a vida dos Anjos, estar revestido de sua glória, gozar de sua bem-aventurança; em uma palavra, “ser semelhante aos Anjos!”[1]
Que ditoso ocupar para sempre a categoria de filhos de Deus, ser eternamente membros glorificados do Unigênito de Deus, coerdeiros e irmãos seus![2]
Que felicidade ser com Jesus rei de um reino eterno, possuir o mesmo reino que o Eterno Pai deu a seu Filho, sentar-se à sua mesa com Maria e com todos os escolhidos![3] Que glória estar revestido do celeste manto de luz, do vestido real e glorioso do Rei dos reis!
No céu nos sentaremos em um mesmo trono com o soberano Monarca dos céus e terra;[4] descansaremos com nosso Salvador no seio de seu Pai;[5] possuiremos todos os bens de Deus;[6] seremos, enfim, inteiramente transformados em Deus,[7] ou seja, estaremos plenos e penetrados de todas as perfeições de Deus, mais intimamente que o ferro metido na frágua está revestido e penetrado das qualidades do fogo. Em Jesus Cristo não formaremos mais do que um só com Deus, não por unidade, senão por união; o que Deus é por natureza e por essência, o seremos nós por graça e por participação.
Oh, Senhor, que felicidade tão grande e incomparável a do céu! E ainda tudo o que conosco dele é nada em comparação da realidade. Vós mesmo me haveis dito: “Nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem o entendimento humano pode compreender o que Deus tem reservado aos que o amam!”[8]
E a quem devo eu a imensidade desconhecida deste celestial e incompreensível tesouro? Ao amor misericordioso e infinito do Coração de meu Salvador. Ao dar-se a mim, deu-me tudo o que há na terra: sua Igreja, seu Vigário, sua verdade, seus Sacramentos, sua Eucaristia, seu Corpo e seu Sangue, sua Mãe, sua santa cruz, todas suas graças, todas suas riquezas espirituais; e no céu me espera para ser Ele mesmo minha bem-aventurança e minha recompensa sem medida.
Graças, pois, graças infinitas ao Coração de Deus por seus inefáveis dons![9] Se, tudo tenho em Jesus Cristo; e seu Sagrado Coração, onde repouso se lhe sou fiel, é o abismo de todo bem, que me livra do abismo de todo mal.
Oh, bom Jesus! Perdoai a todos os que não vos amam! Ah! Quão grande é seu número! Não é verdade que, mesmo nos países cristãos, multidão de homens tratam a este adorável Salvador como se nada lhe devessem? Não é verdade que o tratam quase como inimigo, esquecendo-o, blasfemando, descuidando de seu serviço, burlando de seus sacerdotes, de seu Vigário, de sua santa Igreja, rindo-se da Confissão, ridicularizando a Eucaristia, chegando algumas vezes a ultrajar sua Santíssima Mãe?
No entanto, que mais houvera podido fazer para atestar-lhes o seu amor?[10] “Se fosse possível, dizia um dia à Santa Brígida, se fosse possível que eu sofresse os tormentos de minha Paixão tantas vezes quantas almas há no inferno, com gosto os sofreria”. E em recompensa, a maior parte daqueles a quem resgatou e enriqueceu com seus dons, voltam a crucificá-lo. Sim, voltam a crucificá-lo; pois quem peca mortalmente “crucifica de novo em si mesmo o Filho de Deus…, pisoteia-lhe, despreza o Sangue da aliança, na qual havia sido santificado”.[11]
Meu Deus! Agradecemos profundamente qualquer demonstração de afeto, o mais insignificante serviço que se nos preste; que digo? Professamos carinho a um animal que nos diverte ou nos é útil em algo; e deixaremos de amar a Deus, que é nosso Criador, nosso misericordioso Redentor, nosso fidelíssimo amigo, nosso bondosíssimo irmão, nosso tesouro, nossa glória, nosso soberano bem, nossa vida, nosso coração; a este Deus, que é todo coração e todo amor por nós?
“Oh, filhos de Adão! Tendes um Redentor; vinde a Ele, que bom e misericordioso é para os que querem ser redimidos. Sois fonte de água viva; rio caudaloso, que procede do trono de Deus, que sem receber de ninguém, a todos dá largamente sem que os seus fluxos se extingam: correi, sedentos, a saciar vossa sede. Sois mina sem fim dos tesouros eternos; os que os desentranhais por adquirir riquezas que dificilmente se revelam aos olhos, correi ávidos, que nunca tantos tesouros alguém levará sem que não restem para repartir aos demais, infinitos. Vinde, cegos, à luz; aflitos, atormentados, ao gozo sem fim; vinde, presos à liberdade; desterrados, à vossa pátria; mortos, à vida. Que aguardais? Vinde, que bom Deus tendes. Que fazeis atados, como bestas vis, aos cochos do mundo, roendo palha de gostos vãos sem suco nem substância de bem? Rompei vossas ataduras; correi, que boa e rica mesa vos espera, abastecida de verdadeiros deleites e regalos sem taxa. Oh, filhos de Adão! Despertai, que a luz se vos entra por vossas portas; abri, não fiqueis às escuras e em trevas de morte”.[12]
Notas
[1] Erunt sieut Angeli Dei in coelo… Sunt sicut Angeli in coelis… Aequales, enim Angelis, sunt. (Matth. XXII, 30; Marc. XII, 25; Luc. XX, 36.)
[2] Ipse enim Spirims testimonium reddit spintui nostro, quod sumus filii Dei. Si autem filii et haeredes; haeredes quidem Dei, cohaered es autem Christi. (Rom. VIII, 17.)
[3] Et ego dispono vobis sicut disposuit mihi Pater meus regnum, ut edatis et bibatis super mensam meam in regno meo. (Luc. XXII, 29) Charitatem quam dedisti mihi, dedi eis. (Joan. XVII, 22.)
[4] Qui vicerit, dabo ei sedere mecum in throno meo. (Apoc. III, 21.)
[5] Pater, quos dedisti mihi, volo ut ubi sun ego, et illi sint mecum… Unigenitus Filius, qui est in sinu Patris. (Joan. XVII, 24; 1, 18.)
[6] Amen dico vobis super omnia bona sua constituet eum. (Matth. XXIV, 47.)
[7] Nos vero omnes, revelara facie gtoriam Domini speculantes, in eamdem imaginera transformamur a charitati in claritatem, tamquam a domine spiritu. (II Cor. III, 18.)
[8] Oculus non vidit, nec auris audivit, nec in cor hominis ascendit quae praeparavit Deus iis qui diligunt illum. (I Cor, II, 9.)
[9] Gratias Deo super inenarrabili dono ejus. (IICor. X, 15.)
[10] Quid est quod debui ultra facere vineae, et non feei! (Isai. V, 4.)
[11] Rursum crucifigentes sibimetipsís Filium Dei… Quanto
magia putatis deteriora mereri supplida qui Filium Dei conculcaverit, et sanguinem testamenti pollutun duxerit, in cuo santificatus est et spiritui gratiae contumeliam fecerit. (Hebr.
VI, 6; X, 29.)
[12] Estas palavras inspiradas foram pronunciadas pela serva de Deus, Doña Sancha Carrillo, momentos antes de sua morte, segundo lê-se em sua “Vida” escrita pelo Pe. Martín de Roa.
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 105-111. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

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