sexta-feira, 30 de junho de 2017

O TRABALHO


“Ora et labora – Reza e trabalha!” Era esta a divisa usada por uma antiga Ordem. Quanto mais fielmente os membros daquela Ordem se apegavam a esta divisa, tanto melhor se tornava para a sua virtude e perfeição, para a sua alegria e felicidade, para o bom êxito e prosperidade de seu trabalho. Mas, isto que com proveito se aplica aos habitantes do claustro, tem também a sua repercussão para as pessoas do mundo, e para estas, talvez, com mais vantagens do que para as primeiras. Como já incuti em teu coração o amor à oração, quero agora recomendar-te o trabalho.
1º- Trabalha com fidelidade e diligência; pois o trabalho é um dever.
Já no paraíso o homem devia trabalhar, segundo a vontade de Deus. Está escrito no Gênesis (2,15): Deus, o Senhor, tomou o homem e o colocou no paraíso, para que ele o cultivasse. Aliás, o trabalho, era para o homem uma distração doce e suave. Depois da queda, Deus renovou a ordem, o preceito do trabalho. Dirigindo-se a Adão, que representava toda a humanidade, disse: Comerás o pão no suor da tua face, até que tornes a terra, donde foste tirado. (Gênesis 3, 19). Homem algum está isento da lei do trabalho, nem o rico, nem pobre, nem o rei, nem a mocidade (esta principalmente) que é a primavera da vida, o tempo da semeadura.
Na mocidade é que se deve preparar a terra, para que há seu tempo, se logre colher, com abundância: a mocidade é a quadra em que se deve cuidar da árvore, para que mais tarde não produza frutos amargos, insípidos e envenenados. Na mocidade é que se hão de aprender os meios de ganhar a vida e sustentar-se na idade futura. Se a mocidade transcorre-se na vadiagem, então está perdida, e esta perda é, na maioria dos casos irreparável, irremediável. De modo que, justamente para ti, na tua mocidade, a obrigação de trabalhar é muito séria e importante, e deverás cumpri-la conscienciosamente.
Trabalha com fidelidade e diligência, pois o trabalho é uma honra. Não é de fato uma honra o tornar-se semelhante ao divino Salvador, trabalhar, como Ele o fez? Como Jesus trabalhava com diligência e boa vontade! Na oficina de Nazaré, no decorrer de muitos anos, dia a dia, o suor Lhe gotejou de face, quando com a enxó na mão, desbastava a madeira.
Aquelas gotas de suor do Divino Salvador restituíram honra e dignidade ao trabalho corporal, que no tempo do paganismo era tão desprezado e, por isso confiado somente aos escravos. Mais tarde, na vida pública, como não trabalhou o Senhor, fielmente! Com que zelo entregou-Se à pregação do Seu santo Evangelho! Com que amor afadigou-Se pelos pecadores! Os raios dardejantes do sol, Ele esperava, junto ao poço de Jacó, a Samaritana pecadora, para a converter. Nas horas mais avançadas, exausto do trabalho pesado, ainda instruía o povo. Ao Salvador te assemelharás, se trabalhares física ou intelectualmente, com ardor e esforço, o que será para ti uma honra.
Não será ainda uma honra para ti, se por meio dos favores que fazes a outrem, te tornares útil e serviçal? O levar a efeito alguma iniciativa, o proporcionar aos demais os meios e o caminho para a sua felicidade, sobretudo ser útil e obsequiosa para com os outros, equivale mais ou menos a tomar parte na atividade criadora, conservadora e providente de Deus infinito. Isto é grande e belo e sumamente honroso, mil vezes mais do que viver, indolentemente, à custa do que os outros acumularam e realizaram.
Eis porque um operário de face tostada pelo sol e mãos calejadas, merece muito mais estima e veneração do que o preguiçoso e vadio, que não quer trabalhar e que tão só ao gozo aplica seus sentimentos e esforços. Das retalhadas mãos do trabalhador brotam bênçãos, enquanto que a vida do ocioso folgazão vem a ser, apenas, desdita para a humanidade. Razão tem, portanto, o poeta W.Weber, quando diz: “Der beste Orden, den ich weiss, ist eine Hand voll Schwellen – o melhor ornato que eu conheço, é a mão cheia de calos.”
Trabalha com fidelidade e afinco, pois o trabalho é finalmente uma bênção.
O trabalho assíduo far-te-á progredir na vida. Quem é que progride? Não é o que é capaz e habilitado? o que aprendeu alguma coisa? o que, extremamente ativo, de manhã até a noite, se dá com prazer ao trabalho? o que se entrega, de corpo e alma e com grande escrúpulo, aos deveres do próprio estado? O vadio, o preguiçoso, nunca chegará a um ramo verde, como costumam dizer os alemães, e que se aplica principalmente aos nossos dias, quando, em todos os setores da vida, reina uma enorme concorrência, e os indolentes são postos à margem.
2º- O trabalho diligente enobrece e aperfeiçoa o teu caráter.
Queres trabalhar constantemente de acordo com a tua consciência e atender sempre de modo fiel às exigências muitas vezes sérias e graves, de tuas obrigações? Deverás, então, renunciar a ti mesma e combater, resolutamente, a tendência inata para a indolência e comodismo. Esta abnegação, de ti própria, comunicará ao teu caráter, força e energia, tornando-o equilibrado.
O trabalho diligente dar-te-á íntima alegria e felicidade. De fato. Quando é que estás mais contente contigo mesma? Não é naquela tarde que podes dizer a ti mesma que nada negligenciaste ao teu dever? Com razão exclama o provérbio alemão: Arbeitmacht das Leben suss – O trabalho faz doce a vida. É o que também a sagrada Escritura confirma: “A vida do homem laborioso, que se contenta com o que tem, será doce e suave, e tu nela encontrarás um tesouro.” (Ecli., 40,18)
O trabalho diligente é de grande utilidade para a conquista da virtude. Diz o Espírito Santo: “A ociosidade ensina muita coisa má”. A esta máxima combina perfeitamente o provérbio alemão: “Mussigang ist aller aster Anfang” – A indolência é o começo de todos os males. Quantos pensamentos desatinados e pecaminosos não se mantêm longe de nós, enquanto nos ocupamos séria e utilmente nalguma coisa! Quantas ocasiões más e quantos perigos de pecado não removemos, quando, com grande alegria, cumprimos as obrigações do nosso estado! Assim, será mais fácil permanecermos bons e virtuosos, se formos amigos do trabalho sério e esforçado. A água que corre apressada e ativa sobre os rochedos duros e ásperos, permanece límpida e clara, fresca e pura; aquela, porém, que repousa preguiçosa, corrompe-se e oculta, em si, toda sorte de animais feios e imundos.
O trabalho diligente torna-te útil à sociedade. Já o bom exemplo da tua diligência e amor ao trabalho será útil aos demais, principalmente aos de classe obscura. Vendo estes que também os ricos e distintos trabalham, que empregam o seu tempo a seu trabalho no serviço dos pobres, sentem-se mais aliviados, mais dispostos a uma reconciliação. O trabalho, pois, concorrido, eficazmente, para a solução do problema social, que está hoje causando tantos cuidados e inquietações.
Quão útil e benéfica poderás tornar-te se distribuíres, entre as famílias pobres, em tempo de infortúnio, peças de roupa que tu mesma confeccionastes; se ornares a mesa de Natal dos desamparados, com os produtos da tua diligência e solicitude; ou se, com o proveito do teu trabalho, tornares possível às crianças pobres, a freqüência à escola e à igreja. Quantas alegrias não poderás, assim, proporcionar aos teus semelhantes e que grande benefício lhes farás! Se cumprires, alegre e diligentemente, os deveres domésticos, só isto já bastará para encher-te a vida de graças abundantes! Quanto há, numa família, uma senhora que tem o senso doméstico e, portanto que de tudo se preocupa conscienciosamente; quando as filhas adultas animadas do mesmo espírito, se mantêm ao seu lado, não se é aí mais feliz, mil vezes mais feliz do que numa família onde falta, de todo, esse espírito?
Sim, precisamente a execução conscienciosa do trabalho doméstico feminino contribui, sobremodo, para a felicidade da família, e ao mesmo tempo para a felicidade social. É por isso que tece o Espírito Santo um alto elogio à mulher trabalhadora, quando diz: “Muitas filhas ajuntaram riquezas; tu superastes a todas”. (Prov., 31,29).
Visto ser o trabalho causa de tantas bênçãos, ama-o e aproveita as graças que Deus te concedeu. Reflete freqüentemente na grave sentença do Senhor: “Toda a árvore que não produzir bons frutos, será arrancada e lançada ao fogo”. Não te coloques no número das moças em que a ociosidade já se tornou como que uma segunda natureza e que dedicam todo o seu tempo aos prazeres, divertimentos, ao luxo, aos galanteios. À noite, lá se acham elas no cinema; de manhã levantam-se tarde. Passam toda a manhã diante do espelho, à tarde consagram-na no piano, ou aos passeios, ou às visitas ou aos clubes, ou à leitura de romances, ou ao jogo de tênis. Nenhum pensamento para o trabalho sério. Ah! pobres criaturas!
Pode-se, porventura, esperar que, mais tarde na família ou em seus deveres, trabalhem com êxito? que venham exercer um nobre e feliz influxo sobre todas as que se relacionam de modo mais íntimo com elas? Certamente que não. Não pertenças ao número destas! Aplica-te desde cedo, aperfeiçoa-te e aprende alguma coisa útil! Preza
também a ocupação proveitosa. Executa, porém, os teus trabalhos com intenção reta, por amor de Deus e para a Sua honra. As boas intenções, freqüentemente renovadas, tornarão suaves as dificuldades do trabalho e da vida, aumentarão o amor de Deus em teu coração e granjear-te-ão muitos merecimentos para a eternidade.
Se escreveres sobre uma lousa uma porção de zeros, não apresentará estes nenhum valor numérico, embora sejam algarismos bem traçados. Antepõe-lhes, porém, uma unidade, e imediatamente, adquirem grande valor. O mesmo sucede mais ou menos com os teus trabalhos e ocupações diárias. Ainda que sejam muito importantes e os executes com a máxima perfeição, e mereças, por isso, muitos louvores e reconhecimentos dos outros, se os realizares sem nenhuma reverência a Deus, sem uma boa intenção, mas apenas com intuitos mundanos, não passarão de zeros para a eternidade.
Se, porém, os executares “para a glória de Deus e por Seu amor”, se lhes acrescentares aquela misteriosa unidade da boa intenção, adquire grande valor aos olhos de Deus, ainda mesmo que sejam trabalhos insignificantes e diários. Segue, pois em teus trabalhos quotidianos a admoestação do Apóstolo dos gentios: “Tudo o que fizeres, em palavras ou em obras, faze-o em nome do Senhor Jesus Cristo”. (Col. 3,17)
Donzela Cristã – Pe. Matias De Bremscheid
Fonte:

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Quanto menos uma pessoa reza, mais o interior dela é acessível às ações do demônio



Quando o espírito impuro sai do homem, perambula em lugares áridos, procurando repouso, mas não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa, de onde saí. Chegando lá, encontra-a varrida e arrumada. Diante disso, vai e toma outros sete espíritos piores do que ele, os quais vêm habitar aí. E com isso a condição final daquele homem torna-se pior do que antes“.(S. Lucas 11, 24-26)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Havia dito que hoje trataria de coisas úteis à Quaresma, e o Evangelho de hoje dá muitos pontos para isso. Gostaria de usá-lo fazendo, ao mesmo tempo, um paralelo com as obras de penitência que devemos fazer durante essas 6 semanas que nos preparam para a Paixão e a Ressurreição de Nosso Senhor. As três obras de penitência que devemos fazer são oração, jejum e esmola. Hoje lançaremos um pouco de luz sobre a oração, para ver o quanto ela é importante não só na Quaresma, mas todos os dias até o fim da vida.
Como acabamos de dizer, a oração é algo que deve ser intensificado na Quaresma. Isso quer dizer que ela já deve fazer parte habitual de nossas atividades quotidianas. Temos um corpo e uma alma. Comemos todos os dias, dormimos todos os dias, cuidamos de nossa higiene todos os dias; rezamos todos os dias.
Porém, é necessário constatar que a prática da oração sofreu um colapso na vida católica nos últimos 50 anos. E isso é um problema, porque isso quer dizer que as pessoas estão mais expostas à ação do demônio sobre elas. Quando uma pessoa reza com regularidade, isto é, todos os dias, isso quer dizer que ela reza bem, por dois motivos. Primeiramente, porque é rezando que se aprende a rezar bem, pois um hábito é adquiridos por repetição de atos, e um hábito faz com que algo seja bem feito, com facilidade e de modo agradável. Em segundo ligar, porque manter a prática quotidiana da oração só é possível tendo uma vida organizada: levantar cedo e, por isso, dormir cedo; dominar os olhos e os ouvidos, não assistir filmes e televisão, não ouvir músicas ruins e controlar inclusive o uso das músicas boas, controlar o uso de celulares e internet, para evitar aquilo que causará distrações na oração e perda do tempo que será usado para a oração; cumprir os deveres de estado, porque é na oração que Deus nos pune quando pecamos antes, tirando graças e luzes que seriam dadas nela se tivéssemos cumprido sua lei (isso quem di é o Pe. Faber).
A imaginação, de acordo com os padres tomistas, é a faculdade mais facilmente “habituável” que temos em nós, a mais fácil de ser moldada na direção que queremos lhe dar. Isso quer dizer que em muito pouco tempo as imagens que vemos na televisão, no celular, nos filmes, na rua, etc., tudo isso facilmente estabelece na imaginação um modo de funcionar agitado e inquieto, e nos faz considerar as coisas ruins que vemos como menos graves do que são realmente. Por isso as pessoas que não evitam a televisão, os filmes e não usam o celular de modo virtuoso e não guardam os olhos na rua, quando elas param para rezar, imediatamente elas ficam inquietas, porque a imaginação fica tomada de imagens totalmente alheias à oração, simplesmente porque a imaginação está fora de controle e elas têm distrações sem parar. É por causa disso que as pessoas encontram problemas para rezar, porque elas não têm controle sobre si mesmas, e naquela capacidade (a imaginação) que é mais fácil de dominar.
Por esses motivos, os demônios têm pavor de se aproximar das pessoas que rezam regularmente, simplesmente porque 1) isso faz com que elas tenham uma vida natural e sobrenaturalmente organizada, bloqueando a maior parte dos ataques que os demônios podem fazer e 2) porque a oração regular faz com que essas pessoas usem os cinco sentidos externos, a memória, a imaginação, o instinto, os sentimentos, a inteligência e a vontade de modo voltado a Deus e, consequentemente, tudo isso é muito menos poroso às ações do demônio. É verdade que os demônios não têm acesso direto à inteligência e à vontade, mas têm acesso à tudo o mais, o que não é pouca coisa.
Os livros de espiritualidade são unânimes em afirmar que há uma clara relação entre a quantidade de oração de uma pessoa e o número e a intensidade de tentações que ela tem, comumente falando. Esses autores estabelecem uma relação clara entre a quantidade de oração de uma pessoa e as tentações que ela tem contra a castidade, por exemplo, e as razões disso são muito simples. Quanto menos uma pessoa reza, mais o interior dela é acessível às ações do demônio. Como nossos sentimentos e nossos atos externos e nosso modo de agir têm origem nas imagens internas da imaginação, uma vez que ela é mais influenciável pelos demônios (por culpa nossa, vale a pena notar), mais tentações teremos, mais fortes elas serão, nossa avaliação sobre o que é ruim será cada vez mais branda, mais pecados serão cometidos. E como a pureza é a virtude mais comprometida depois do pecado original, como dizem S. Tomás e S. Afonso, por exemplo), as pessoas que não rezam, ou rezam pouco, terão mais tentações contra a pureza. Não é uma coincidência que a sensualidade de nossa sociedade esteja unida ao colapso do hábito de rezar.
Algumas pessoas dizem: “Minha oração é o meu trabalho”. Isso é uma desculpa para não se recolher, ficar quieto, controlar-se um pouco e rezar. Trabalhar e rezar são coisas absolutamente diferentes. Trabalhar é aplicar-se à produção de uma obra exterior particular. Orar é elevar a alma para Deus. Se trabalhar e rezar fossem a mesma coisa, Cristo teria dito “Vigiai e trabalhai, para não cairdes em tentação”.
Há pessoas que sofrem grandes incômodos do demônio, como obsessão ou mesmo vêem vultos, ou têm muitas e fortes angústias, ou tentações muito fortes e insistentes, sobretudo sobre a fé ou sobre a moral, que têm dificuldade de compreender porque tal ou tal coisa é pecado (elas têm a inteligência coberta por uma espécie de neblina, vinda da ação do demônio sobre a imaginação e sobre os sentimentos), etc., e que simplesmente conseguem fazer com que tudo isso pare a partir do momento em que começam a rezar regularmente, porque os demônios têm pavor das pessoas que rezam regularmente, porque a vida delas vai sendo organizada e dirigida em todas as coisas para Deus, e elas param de pecar, e vêem com muito mais clareza quando e onde e de que modo o demônio age sobre elas e as tenta.
E por isso o demônio faz de tudo para diminuir a oração nos fiéis, para não ser impedido de agir sobre nós por todas as razões que citamos acima. E vendo que a pessoa cede, ele volta com muito mais empenho para nos fazer mal, porque o demônio é tenaz em buscar nossa condenação, e faz um grande estrago, de modo que as quedas das pessoas que tinham melhorado e se convertido são piores do que as anteriores. Piores porque já conhecem a verdade, e ao ouvi-las novamente, ficam menos impressionadas; porque ao caírem novamente, elas repetem as más ações com mais advertência e fazem com que o pecado se torne um hábito mais voluntário e mais difícil de ser arrancado; finalmente, porque uma nova queda é uma ingratidão com as luzes que Deus deu antes, e essa ingratidão pode fazer com que Deus não nos dê sua ajuda eficaz para nos levantarmos novamente: “De fato, os que uma vez foram iluminados — que saborearam o dom celeste, receberam o Espírito Santo, experimentaram a beleza da palavra de Deus e as forças do mundo que há de vir — e, não obstante, decaíram, é impossível que renovem a conversão uma segunda vez, porque da sua parte crucificam novamente o Filho de Deus e o expõem às injúrias. Pois, a terra que bebe a chuva que lhe vem abundante e produz vegetação útil aos cultivadores, receberá a bênção de Deus. Mas, se produzir espinhos e abrolhos, é rejeitada, e está perto da maldição: acabará sendo queimada” (Hebreus 6, 4-8).
Por isso devemos insistir na prática quotidiana da oração. Porque dela depende nossa integridade, nossa perfeição e nossa felicidade eterna.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

domingo, 25 de junho de 2017

O amor é um tesouro que encerra todos os bens



























Amai o Amor!

Infinitus thesaurus est hominibus; quo qui usi sunt, participes facti sunt amicitiae Dei ― Ela é um tesouro infinito para os homens; do qual os que usaram têm sido feitos participantes da amizade de Deus (Sap. 7, 14). 

O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, acha logo a felicidade, porque o Senhor lhe satisfará todos os desejos e o fará contente mesmo no meio das maiores tribulações. Felizes de nós, se conhecemos o grande tesouro do amor divino e procuramos obtê-lo a todo custo, desapegando-nos das coisas criadas! 

O amor é o tesouro de que fala o Evangelho, o qual nos cumpre adquirir a custo de tudo mais. A razão é porque ele é realmente aquele bem infinito que nos faz participante da amizade de Deus. Aquele que acha Deus, acha tudo que pode desejar: Delectare in Domino, et dabit tibi petitiones cordis tui (1) ― Deleita - te no Senhor, e Ele te concederá as petições do teu coração. O coração humano está sempre procurando bens capazes de torná-lo feliz. Enquanto se dirige às criaturas para os obter, nunca se satisfaz, por mais que receba. Ao contrário, um coração que só quer a Deus, Deus lhe satisfará todos os desejos. Quais são com efeito os homens mais felizes da terra, senão os santos? E porque? Porque só querem e buscam a Deus. 

Estando um príncipe a caçar, vi um solitário percorrendo a floresta, e perguntou-lhe o que fazia nesse deserto. Mas vós, Senhor, retorquiu logo o anacoreta, que vindes buscar aqui? – Eu, acudiu o príncipe, ando em busca de caças – E eu, tornou o solitário, busco a Deus. 

O tirano que martirizou São Clemente de Ancira, ofereceu-lhe ouro e pedras preciosas para conseguir que ele renegasse a Jesus Cristo; mas o santo, dando um profundo suspiro, exclamou: Pois que! Um Deus posto em paralelo com um pouco de lama! – Feliz de quem conhece o tesouro do divino amor e procura obtê-lo! Quem o conseguir, despojar-se-á por si mesmo de tudo, para não possuir senão a Deus. ―Quando o fogo pega na casa, dizia São Francisco de Sales, ―lançam-se todos os utensílios pela janela. E o Padre Segneri, o moço, grande servo de Deus, tinha costume de dizer: ―O amor divino é um roubador que nos tira todos os afetos terrenos ao ponto de exclamarmos então: Senhor, que desejo senão a vós? Deus cordis mei, et pars mea Deus in aeternum (2) ― Deus de meu coração, e a minha porção, Deus, para sempre. 

Ó mundanos insensatos, exclama Santo Agostinho, ó homens, aonde ides para contentar o vosso coração? Bonum quod quaeritis, ab ipso est. Aproximai-vos de Deus, recuperai a sua graça, buscai o seu amor, porque só Ele pode dar-vos a felicidade que andais procurando – Nós ao menos não sejamos tão insensatos, e como nos exorta o mesmo santo Doutor, de hoje em diante, busquemos unicamente o amor de Deus, busquemos o único bem, no qual estão encerrados todos os outros: Quaere unum bonum, in quo sunt omnia bona. Mas não podemos achar este bem, sem renunciar a todo o afeto pelas coisas da terra, como o ensina Santa Teresa: Desapega o teu coração das criaturas e acharás a Deus

Meu Deus, no passado não foi a Vós que busquei, mas busquei a mim mesmo e às minhas satisfações; e por elas me apartei de Vós, que sois o Bem supremo. Mas Jeremias me consola, assegurando-me que sois  só bondade para os que Vos buscam – Bonus est Dominus animae quaerenti illum (3). Amadíssimo Senhor meu, compreendo o mal que fiz deixando-Vos, e arrependo-me de todo o coraçãoVejo que sois um tesouro de valor infinito; não querendo deixar inútil esta luz, renuncio a tudo, e escolho-Vos para único bem dos meus afetos. 

Ó meu Deus, meu amor, meu tudo, por vós suspiro. Vinde, ó Espírito Divino, e com o santo fogo do vosso amor, consumi em mim todo o afeto de que não sois o objeto. Fazei-me todo vosso, e que tudo vença para Vos agradar. Ó Maria, minha advogada e Mãe, ajudai-me com as vossas orações. 
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1. Ps. 36, 4.
2. Ps. 72, 25.
3. Thren. 3, 25.
Meditações de Santo Afonso Maria de Ligório, Tomo II.

sábado, 24 de junho de 2017

Santa Gema Galgani e os estigmas da Paixão


Nesse mês de Junho, onde celebramos e dedicamos todo ele ao Sagrado Coração de Jesus, com mais fervor e piedade em nossas orações, em reparo e desagravo pelas ofensas sofridas diariamente pelos Sacratíssimos Corações; de forma propícia falarei* dos estigmas da Paixão que Santa Gema recebeu no dia 8 de Junho de 1899 - uma Quinta-feira Santa**, véspera da festa do Sagrado Coração de Jesus. E lá se vão 118 anos...

***

A pobre criatura angelical tinha se recuperado milagrosamente (através da intercessão de Santa Margarida Maria Alacoque, invocando todas as noites o Sagrado Coração de Jesus) de uma grave doença poucos meses antes de receber as chagas de amor - que logo será relatado. Gema havia contraído provavelmente meningite, onde ficou surda, não conseguia andar, tinha um tumor na cabeça, o cabelo caiu e possuia um grande abcesso na região lombar. Ficou meses paralisada numa cama, definhando, até o dia em que foi finalmente operada por médicos, sem ser anestesiada. Já estava sendo preparada para o seu calvário.
No dia 8 de Junho de 1899 Gema saiu de manhã bem cedo para ir a missa, com o desejo ardente de receber Jesus na Sagrada Comunhão. Era o único consolo daquela pobre criatura.

Durante a comunhão, Gema encontra-se profundamente recolhida e desligada do mundo e surge-lhe a certeza de que à noite Jesus há de aparecer para ela. Ela fica em sobressalto. Avalie, estar frente a frente com Jesus! Os próprios Anjos cobrem o rosto com asas para não sucumbirem diante da majestade infinita dEle.

A certeza de ver o Divino Amor é tão real e indiscutível que Gema vai direto ao confessor, Monsenhor Volpi, para eliminar qualquer mancha de sua inocente consciência.

À tarde, já em casa, ela se retira à solidão de seu quarto. A sós, mergulha como que no fundo do mar. Submerge num mundo de trevas para na saída encontrar uma luz diferente da terra.

Gema pôs-se a rezar. Os sentidos do corpo desligam-se, descansam, mas as potências da sua elevada alma estão aguçadíssimas. Seus olhos abertos não veem nada de material. A inteligência penetra a gravidade dos pecados.

A memória liga os pecados aos sofrimentos de Cristo, pendente na Cruz, cujo sangue precioso escorre diante dos olhos espirituais da alma.

A vontade quer eliminar as manchas. Sentimentos de gratidão, arrependimento, esperança e dor misturam-se no seu cálido e pujante coração.

Os sentimentos internos são tão profundos, que o corpo de Gema permanece hirto, imóvel, estático. Perdeu os sentidos. Está absorta na visão interior. Está em êxtase.

Sem nenhum preâmbulo, aparece de chofre diante dos olhos interiores a Mãe de Jesus, que produz nela uma transformação total. À direita da Mãe de Deus, ela vislumbra o seu Anjo da Guarda, que lhe acena para fazer o ato de contrição. Gema pede perdão à Mãe do Céu. Para encontrar-se com Cristo é necessário estar livre de remorsos, angústias, enfim, de qualquer inquietude da consciência. A Mãe fala num sorriso contagiante: "Minha filha..."

Estas palavras provocam um estremecimento, como de corrente elétrica, no corpo rígido de Gema. A Mãe continua, com sua voz que só os ouvidos da alma percebem: "Jesus quer dar-te uma graça... Saberás tornar-te digna?"

Gema não consegue responder, está extasiada. Sem o domínio externo de suas faculdades. Mas ao mesmo tempo embevecida, absorta e até hipnotizada pelo contágio da Virgem Santíssima.

Uma purificação interior e e misteriosa a eleva, como se a própria alma fosse lavada. A Virgem estende o manto azul sobre ela. Neste instante surge a fisionomia terna e amiga de Jesus, com as chagas abertas, mas sem projetar sangue, mas rompem chamas ardentes, que se jogam sôfregas sobre as mãos, os pés e o coração de Gema, que pensa morrer de alegria. Está prestes a cair pesadamente no chão. A Mãe de Deus a sustenta solícita, conservando-a ereta sob o seu manto.

A impressão é tão forte que Gema julga saborear uma gota da felicidade eterna. A Virgem inclina-se maternalmente sobre essa pobre alma e lhe imprime um beijo delicado na fronte. No mesmo instante desaparece o cenário. Ela acorda com a posse perfeita dos sentidos do corpo. Encontra-se ajoelhada no seu quarto.

Olha ao seu redor. Localiza-se no tempo e no espaço. Sente uma dor terrível nas mãos, nos pés e no coração. Levanta-se pesarosa. Um calor escorre dos lugares dolorosos.

Gema acabou de receber os estigmas da Paixão de Jesus. Um impulso de defesa a invade. Ninguém pode saber deste segredo. Cobre as mãos com luvas, envolve as outras partes com meias grossas e panos. A noite está avançada. Gema quer deitar-se. Um peso de chumbo a retém. O Anjo da Guarda dá-lhe a mão e a ajuda...

Apesar das dores físicas, uma paz indescritível toma conta de todo seu ser. Jamais experimentou tamanha paz, embora as dores das chagas a torturarem. A semelhança com Jesus, na Cruz, arranca-lhe lágrimas intermináveis. Nunca se lembrara, que Jesus estivesse tão perto e a marcasse com as chagas de seu frágil - e mesmo assim tão forte corpo.
__________
A Gema do Paraíso (1980) - Padre Afonso de Santa Cruz
O texto está baseado no livro de Padre Afonso. Alguns trechos estão idênticos, eu apenas copiei. Com exceção do primeiro parágrafo, que é meu, mas também baseado na vida de Santa Gema. Outros estão adaptados, mas apenas para facilitar o entendimento, de acordo com a linguagem atual. Nenhum sentido foi alterado. Para quem se interessou o texto encontra-se nas pp. 45-48.
** Neste mesmo dia, 8 de Junho de 1899, Santa Gema reza pela primeira vez a Hora Santa, que falarei oportunamente depois.

Fonte:

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Sagrado Coração de Jesus nos ama assim como seu Pai O ama

Santinho católico com representação do Sagrado Coração de Jesus, cerca de 1880. Xoleção Auguste Martin, Bibliotecas da Universidade de Dayton.

Monsenhor de Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: No mesmo dia da instituição da Eucaristia estando ainda no Cenáculo, Nosso Senhor dirigiu a seus discípulos uma palavra admirável, saída como ardente chama do fundo de seu Coração: “Amo-vos: Ego dilexi vos”.[1] Paremos aqui um pouco, e meditemos bem esta palavra.
Oh, quão docemente soa nos lábios do soberano Senhor do universo, do Deus da eternidade! Quão boa e consoladora é para a alma verdadeiramente cristã! “Amo-vos”, disse Jesus.
Se um grande rei se dignasse entrar um dia na choça do último de seus vassalos para dizer-lhe: “Te amo, e venho aqui expressamente para dizer-te isso”, que gozo não sentiria aquele pobre homem!

Se um Anjo do céu ou um Santo, se a mesma Imaculada Virgem Maria, Rainha de todos os Santos, se dignasse aparecer de repente a algum pobre pecador, e dizer-lhe publicamente em presença de todos: “Te amo; tu és meu coração!” que pasmo, que transportes não experimentaria aquele pecador!
Pois bem, vede aqui infinitamente mais; vede o Rei dos reis, o Santo dos santos, o soberano Senhor do céu, baixar expressamente aqui embaixo para dizer a nós, pobres pecadores: “Amo-vos: Eu, Criador de todas as coisas; Eu, que governo todo o universo; Eu, que possuo todos os tesouros do céu e da terra; Eu, que faço o que quero, sem que ninguém possa resistir à minha vontade; Eu vos amo! Ego dilexi vos.
Que consolo, doce Redentor meu! Não houvera sido já demasiado dizer-nos: “Penso algumas vezes em vós: fixo meu olhar em vós uma vez ao ano; tenho alguns bons desígnios sobre vós?” Mas não: quereis assegurar-nos que nos amais, e que vosso divino Coração está cheio de ternura por nós; nós que nada somos; por nós, vermes da terra, criaturas ingratas que os temos crucificado, e que tantas vezes temos merecido o inferno!
Mas como nos ama o adorável Coração do Salvador? Escutai: Sicut dilexi me Pater;[2] amo-vos como me ama meu Pai; amo-vos tão de Coração, com o mesmo amor com que meu Pai ama a Mim.
E qual é esse amor com que Deus Pai ama seu Filho? É um amor que reúne quatro grandes qualidades; qualidades que se falam por conseguinte no amor que Jesus tem por nós.
É antes de tudo um amor infinito, ou seja, sem limites e sem medida: o amor incompreensível é inefável; amor tão grande como a essência mesma de Deus. Medi, se podeis, a extensão e grandeza do amor que Jesus tem por nós.
Em segundo lugar, o amor do Pai a seu Filho é eterno. A eternidade é a duração invariável, imutável; a duração perpétua, sem princípio nem fim. Oh, Jesus, Verbo eterno! Bem mereceis este amor, que compensa em tudo as defecções de vossas criaturas, já rebeldes, já simplesmente débeis, tíbias, inconstantes.
Pois bem, com esse mesmo amor eterno com que Jesus é amado de seu Pai, cabe-nos a dita de ser amados de Jesus; porque, é preciso não esquecer, continua sendo a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, a Pessoa eterna do Unigênito de Deus. Jesus Cristo, pois, ama-nos com amor verdadeiramente eterno.
Não bastará a eternidade para devolver amor por amor, um amor sem fim por um amor eterno. E que fazemos nós no tempo? Amamos a Jesus Cristo? Ai! Quão ingratos somos perdendo este precioso tempo, semente da eternidade, em amar a terra e suas bagatelas!
Em terceiro lugar, o amor do Pai celestial a seu Filho é universal, isto é, que plenifica todos os corações do céu e da terra. Plenifica o céu; pois o Pai ama a Jesus com todos os Anjos e Bem-aventurados. Plenifica a terra; porque ama também a Jesus Cristo em união dos corações de todos os fiéis. Com efeito, que é no fundo esse divino amor do Pai ao Filho e do Filho ao Pai, senão o amor substancial e pessoal, o Espírito de amor, o Espírito Santo?
Com este mesmo amor me ama meu Salvador. Esse mesmo Espírito é o que a todos nos deu, e o que difunde esse amor em nossos corações.[3] Jesus me ama pelo coração e no coração da Santíssima Virgem, de São José, de cada um de seus Anjos e Santos. Que imensidão! Ama-me pelo coração e no coração de todos os membros de sua Igreja, começando pelo Papa, por meu Bispo, por todos os sacerdotes que amam e cuidam de minha alma, por todos meus benfeitores.
Mais ainda: por um efeito deste admirável e universal amor, proíbe a todos os homens, sob pena de pecado e de condenação, que danem a minha alma, meu corpo, minha reputação e meus bens; e além disso lhes manda que sejam verdadeiramente meus irmãos, amando-me como a eles mesmos. É possível levar mais longe a solicitude do amor?
Como disse Santo Agostinho, “o céu e a terra, e tudo o que contém, não cessam de dizer-me que devo amar a Deus”.[4] Deus amando-me em todas as partes; e eu, ingrato, ofendendo-o em todas” Ah! Não o permitas jamais, bondosíssimo Salvador, antes bem fazei vos ame e bendiga sempre.
Finalmente, o amor que o Pai tem ao Filho é essencial e total, ou seja, um amor de todo o seu ser. Este divino Pai ama seu Filho Jesus com tudo o que é, sendo todo amor para com Ele. O amor que Jesus Cristo se digna ter-nos é igualmente um amor essencial, um amor total, pois nos ama com tudo o que é e com tudo o que tem. Sua divindade, sua humanidade, sua alma, seu corpo, seu sangue, todos os seus pensamentos, palavras e ações; suas privações, humilhações e sofrimentos; sua vida e sua morte; seus méritos e sua glória; tudo nEle está empregado em amar-nos.
Mas, sobretudo, emprega em amar-nos seu Sagrado Coração, como o declarou a muitos Santos, em particular à Santa Brígida, cujas revelações gozam de grande crédito na Igreja, dizendo-lhe que na cruz aquele Coração adorável se abriu sobre a pressão da dor e do amor. “Meu Coração, disse-lhe Jesus, estava sumido em um oceano de sofrimentos. Vi minha Mãe e aqueles a quem eu amava sob o peso da aflição: meu coração se partiu sob a violência e o esforço de dor, e então foi quando minha alma se separou de meu corpo”.
Grande Deus! E por mim se cumpriram essas maravilhas; eu indigníssimo pecador, sou o objeto daquele excesso[5] de que falavam Moisés e Elias com Jesus glorificado no Tabor! Jesus me ama com o mesmo amor com que seu Pai lhe ama, amor infinito, eterno, universal, essencial!
Quando, pois, abrirei os olhos para não perder de vista o amor que meu Salvador tem por mim? Quando amarei com todo meu coração a este bom Jesus, que se digna amar-me tanto, e que para estar ainda mais seguro de obter meu coração, promete-me uma eternidade bem-aventurada, se consinto em devolver-lhe amor por amor? E como se isto não bastasse, ameaça-me com o fogo eterno do inferno se recuso a amá-lo.
Oh Jesus! A partir de hoje quero mais amar-vos como Vós me amais: totalmente, sem restrições, com todas as forças, com todo o meu coração. Tende piedade de minha fraqueza, que me faz desfalecer tão amiúdo neste meu querer, não obstante ser muito sincero.
Ajudai-me Vós, Virgem Santíssima, a ser e seguir constante, eternamente fiel a vosso divino Filho.
Notas
[1] Joan. XIII, 34; XV, 9,12.
[2] I Joan. XV.
[3] Charitas Dei difusa est in cordibus nostris per Spiritum Sanctum qui datus est nobis. (Rom. V, 5.)
[4] Coelum et terra, et omnia quae in eis sunt, non cessant mihi dicere ut amem Deum.
[5] Moyses et Elias… dicebant excessum ejus, quem complectururs erat in Jerusalem. (Luc. IX, 31.)
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 112-117. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

[Sermão] O culto excelente ao Sagrado Coração de Jesus

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, bem compreendida e bem praticada, é arma necessária para os nossos tempos, caros católicos





Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Aviso para as famílias sobre a Entronização do Sagrado Coração de Jesus nos lares:
Palavras do Santo Padre, o Papa Pio XII: “Não há dúvida de que, se queremos encontrar uma solução durável para a crise atual, será preciso reconstruir a sociedade sobre fundamentos menos frágeis, quer dizer, será preciso reconstruir a sociedade sobre fundamentos mais conformes à fonte primeira de toda civilização, que é a moral de Cristo. É igualmente certo que para fazer isso será preciso, antes de tudo, recristianizar as famílias. Aqueles que querem expulsar Deus da sociedade e jogá-la na desordem se esforçam de tirar da família o respeito devido às leis de Deus, exaltando o divórcio e a união livre, colocando diversos entraves à tarefa providencial dos pais para com os filhos, inspirando aos esposos o medo das fadigas materiais e o medo das responsabilidades morais que advém de uma família numerosa. É contra tais perigos que nós recomendamos que consagrem a família de vocês ao Sagrado Coração de Jesus.”

Sermão
São João, no prólogo de se Evangelho, nos diz que no princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e que Deus era o Verbo. Nós poderíamos dizer igualmente que no princípio era a Caridade e que a Caridade estava em Deus e que Deus era a Caridade. De fato, em sua epístola, São João diz: Deus caritas est. Deus é caridade.
A caridade de Deus se exprime de modo perfeito no Sagrado Coração de Jesus. O Sagrado Coração de Jesus é o símbolo e a imagem da caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, homem e Deus. Como estamos iniciando o mês de junho, caros católicos, mês dedicado ao Sagrado Coração, convém tratar dele, isto é, do Sagrado Coração e da devoção a Ele.
Consideremos, primeiramente, a dupla caridade que se encontra no Sagrado Coração de Jesus. A caridade primeira e que domina o Sagrado Coração de Jesus é a caridade para com Deus, é o amor a Deus. Nem poderia ser diferente. A caridade tem uma ordem e ela começa por Deus. O Sagrado Coração de Jesus é, então, de uma caridade infinita para com Deus. Caridade que se manifesta claramente no Evangelho, quando Nosso Senhor diz que veio fazer unicamente a vontade do Pai e não a sua própria. Mesmo em sua agonia mortal no Jardim das Oliveiras, o Salvador deixa claro o amor que está presente em seu Sacratíssimo Coração: que se faça a vontade do Pai e não a sua própria.
A caridade perfeita no coração de Nosso Senhor Jesus Cristo se exprime precisamente na conformidade com a vontade de Deus. E mais do que em uma conformidade, podemos falar de verdadeira uniformidade. Amar a Deus é fazer a vontade dEle em todas as coisas, amar a Deus é fazer a nossa vontade conforme ou mesmo uniforme com a vontade de Deus. Assim era o Sagrado Coração de Jesus: perfeitamente uniforme com a vontade divina. No Sagrado Coração de Jesus, na sua inteligência, na sua vontade, em seus sentimentos, não havia nada, absolutamente nada, que destoasse, ainda que minimamente, da vontade perfeita de Deus. É esse amor a Deus, essa uniformidade plena com a vontade do Pai que faz do Coração de Jesus o abismo de todas as virtudes, como rezamos na sublime ladainha do Sagrado Coração de Jesus. A uniformidade com a vontade de Deus é a fonte de perfeição de todas as outras virtudes. Portanto, a primeira coisa que devemos considerar no Sagrado Coração de Jesus é a sua caridade para com Deus, a uniformidade com a vontade de Deus. Uniformidade que se mostra de modo ainda mais claro e perfeito nas tribulações, nas perseguições, nos sofrimentos, nas humilhações, nas calúnias. É na sua Paixão e morte sobre a cruz que a caridade de Cristo para com Deus se manifesta de modo absolutamente claro.
A outra caridade presente no Sagrado Coração de Jesus é a caridade para com os homens, é a caridade para conosco, pobres pecadores. O Sagrado Coração de Jesus é a imagem de todo o bem que Deus quer para nós, de todo o bem que já fez por nós e de todo o bem que continua a nos fazer. Esse amor do Sagrado Coração de Jesus pelos homens decorre de seu amor a Deus. Ele nos ama porque ama a Deus. Ele nos ama buscando o nosso bem supremo, que é a nossa salvação. Devemos parar, caros católicos, e pensar realmente em tudo aquilo que Deus fez por nós: primeiramente, a criação. Ele poderia simplesmente não ter criado nada. Mas criou. Criou Adão e Eva, nossos primeiros pais. Tendo eles se revoltado contra Deus com o pecado original, prometeu-lhes o Salvador. Governou toda a história antiga da humanidade preparando os homens para a vinda do Salvador, em particular formando para si um povo, o povo judeu, e mantendo nesse povo a verdadeira fé, a verdadeira doutrina sobre Deus, apesar das muitas infidelidades do povo eleito. Eis que o Verbo vem, então, ao mundo, faz-se homem. Nasce em Belém, de uma jovem virgem. Vem ao mundo para sofrer, para nos ensinar a verdade, para morrer por nós e nos salvar. Funda a Igreja Católica, institui os sacramentos, em particular a eucaristia e a confissão, institui a Santa Missa. Quantos tesouros NSJC nos dá! Seu Coração se inclina somente a isso: à glória de Deus e à nossa salvação. Devemos parar e pensar também em nossas vidas e ver todo o bem que Deus nos fez e continua a fazer. Mas é preciso ver esse bem não somente nas facilidades, nas alegrias e na prosperidade. É preciso ver o bem que Deus nos faz e quer nos fazer também nas tribulações, nos sofrimentos, nas injustiças que padecemos. Enfim, é preciso ver também o amor do Sagrado Coração de Jesus nas cruzes. Devemos ver o amor do Sagrado Coração de Jesus na cruz que Ele, na sua sabedoria e bondade, esculpiu para que nós carregássemos. Devemos, então, ver o amor de Deus também nas cruzes, caros católicos, em que Ele deseja tão ardentemente que nos unamos aos seus sofrimentos, que completemos em nós a sua paixão, que expiemos os nossos pecados, que avancemos no amor a Ele e em todas as virtudes.
O Sagrado Coração deve ser por nós profundamente venerado. Devemos procurar imitar o Sagrado Coração de Jesus no seu amor para com Deus. Devemos buscar a uniformidade com a vontade de Deus em todas as coisas. Principalmente, nas cruzes, que são um tesouro de santidade e de virtudes. Devemos buscar imitar o Sagrado Coração em seu amor pelos homens. Devemos desejar ardentemente a salvação do nosso próximo e agir para isso. Devemos considerar o amor infinito do Sagrado Coração de Jesus para conosco a fim de responder com amor completo. Devemos considerar o amor do Sagrado Coração de Jesus para conosco e nos decidir a amá-lo inteiramente, de uma vez por todas, com decisão firmíssima, abandonando os nossos pecados mortais, combatendo vigorosamente também os veniais, corrigindo as nossas imperfeições, deixando de lado a tibieza, a mornidão digna de ser vomitada por Deus, a preguiça. Devemos deixar o espírito mundano, amaldiçoado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos nos decidir a fazer a vontade de Deus em todas as coisas com constância, com generosidade, sem respeitos humanos. Devemos fazer do nosso coração um espelho do Sagrado Coração de Jesus, repleto do amor a Deus, do amor pelo próximo e repleto de todas as virtudes. Devemos fazer do nosso coração o espelho do Sagrado Coração de Jesus, incendiado pelo fogo do amor divino, incendiado pelo fogo do amor à verdade, incendiado pelo fogo do amor ao bem.
Ao Sacratíssimo Coração de Jesus, caros católicos, devemos o culto de latria, quer dizer, de adoração. Devemos esse culto de adoração em virtude da união substancial que existe entre a humanidade de Cristo e o Verbo. O Coração de Jesus está unido substancialmente ao Verbo de Deus, como tão bem rezamos na Ladainha do Sagrado Coração de Jesus. Devemos adorar o Sagrado Coração de Jesus também por ser símbolo tão perfeito da caridade, para com Deus e para com os homens. O culto tributado ao Sagrado Coração de Jesus é o culto tributado ao amor divino e humano do Verbo Encarnado.
Devemos ter em alta conta, caros católicos, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Essa devoção é muitas vezes despojada de sua mais profunda eficácia porque se torna uma devoção muito sentimental ou muito naturalista. Ao contrário, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não deve ser uma devoção meramente afetiva. Deve ser uma devoção efetiva, que nos leve a amar a Deus com toda a nossa mente, com todas as nossas forças, com todo o nosso ser. Reconhecer o amor divino e humano de Jesus Cristo por nós, cultuar esse amor de Jesus Cristo por nós é elemento básico e essencial de nossa santa religião. Sem isso, não pode haver cristianismo. Esse reconhecimento do amor do Verbo Encarnado por nós e esse culto do amor de Jesus Cristo por nós se faz de modo perfeito com o culto ao Sagrado Coração de Jesus. Recomendo a todos uma verdadeira e profunda devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Recomendo a devoção ao Sagrado Coração de Jesus aos homens, em particular, que às vezes tendem a achar que a devoção ao Sagrado Coração é para as mulheres e para os fracos. Espelhar o Coração de Jesus em nosso próprio coração exige grande força, grande virilidade. Colocar em nosso coração a uniformidade com a vontade de Deus, o amor pelos sofrimentos e contrariedade, colocar em nosso coração todas as virtudes, entre elas a mansidão e a humildade, exige, ao contrário, uma grande força, uma grande virilidade. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é a devoção daqueles violentos que querem arrebatar o reino dos céus pela força, pela força da caridade ardente, pela força de todas as virtudes.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus, bem compreendida e bem praticada, é arma necessária para os nossos tempos, caros católicos. É o que dizia e repetia com frequência o Papa Pio XII. Em sua excelente Encíclica sobre o Sagrado Coração,Haurietis Aquas, ele diz: “À vista de tantos males que, hoje como nunca, transtornam profundamente os indivíduos, as famílias, as nações e o mundo inteiro, onde acharmos, veneráveis irmãos, um remédio eficaz? Poderemos encontrar alguma devoção que seja melhor que o culto augustíssimo do Coração de Jesus, podemos encontrar uma devoção que corresponda melhor à índole própria da fé católica, uma devoção que com mais eficácia satisfaça as necessidades atuais da Igreja e do gênero humano? Que devoção mais nobre, mais suave e mais salutar do que este culto que se dirige todo à própria caridade de Deus? Por último, que pode haver de mais eficaz do que a caridade de Cristo – que a devoção ao Sagrado Coração promove e fomenta cada dia mais – para estimular os cristãos a praticarem em sua vida a lei evangélica, sem a qual não é possível haver entre os homens paz verdadeira?” E diz também o Papa: “desejando ardentemente opor segura barreira às ímpias maquinações dos inimigos de Deus e da Igreja, como também fazer as famílias e as nações voltarem ao amor de Deus e do próximo, não duvidamos em propor a devoção ao Sagrado Coração de Jesus como escola eficacíssima de caridade divina; dessa caridade divina sobre a qual se há de construir o reino de Deus nas almas dos indivíduos, na sociedade doméstica e nas nações.”
A fim de que a devoção ao coração de Jesus possa dar frutos mais abundantes para o indivíduo, para a família e mesmo para toda a humanidade, é preciso unir a ela a devoção ao Coração Imaculado da Mãe de Deus, pois foi vontade de Deus que, na obra da redenção humana, a santíssima virgem Maria estivesse inseparavelmente unida a Jesus Cristo. E no Imaculado Coração de Maria temos o espelho perfeito do Sagrado Coração de Jesus. E, por isso, caros católicos, temos no altar o Sagrado Coração de Jesus e o Coração de Maria unidos. Por isso, sobre o altar, temos a imagem do Sagrado Coração de Jesus, no lado do Evangelho, com uma mão apontando o seu Sagrado Coração, para que consideremos a sua infinita caridade, e, com a outra mão estendida, chamando-nos a imitar o seu Sagrado Coração.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Sagrado Coração e o Santíssimo Sacramento

Se tivéssemos uma fé mais viva, nós o veríamos presente no altar em meio ao sagrado peito de Jesus, e, então, quantas graças esta fé viva atrairia sobre nossas almas!


Mons. De Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: O Sagrado Coração de Jesus reside entre nós na terra, enquanto, ao mesmo tempo, no céu. Inseparável da santíssima e adorabilíssima humanidade de Jesus Cristo, da qual é como o centro e a vida, este divino Coração, tão amante e tão amado, reside em cada uma de nossas igrejas sob os véus eucarísticos, como é de fé.
Frequentemente esquecemos a realidade desta viva presença de Nosso Senhor na terra. Em teoria todos nós cremos nela (do contrário, seríamos hereges), mas não todos na prática; e esta é talvez a causa principal dessa tibieza, dessas mil e mil faltas que somos os primeiros a lamentar. Não temos, ao menos na medida que seria necessário, o espírito de fé na presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia.
O mesmo sucede relativamente com o seu Sagrado Coração. Nós olhamos muitas vezes como uma espécie de abstração celestial, belíssima contemplada de longe, mas inacessível. Se tivéssemos uma fé mais viva, nós o veríamos presente no altar em meio ao sagrado peito de Jesus, e, então, quantas graças esta fé viva atrairia sobre nossas almas!
Do fundo de seu tabernáculo Jesus Cristo nos aguarda, chama-nos: como à beata Margarida Maria, mostra-nos e às vezes nos abre o seu Coração abrasado de amor: “Olhai, diz-nos, vede aqui o Coração que tanto tem amado os homens, e como reconhecimento pelo meu amor deles não recebo senão ingratidões, irreverências e ultrajes!” O altar é, com efeito, o trono do divino amor, como o tribunal da Penitência é o trono da divina misericórdia. Do alto deste o Coração de Jesus se entreabre para perdoar e purificar: do alto daquele dá-se substancialmente, abre-se para amar, para fortificar, para santificar.
No altar o sacerdote de Jesus tem em suas mãos consagradas o Corpo e o Coração do Filho de Deus, e no santo cálice contempla e bebe o mesmo Sangue que, vertendo do Sagrado Coração, vivificava a carne do Verbo humanado. E como a Eucaristia é por excelência o mistério de amor, pode-se dizer que o sacerdote católico é verdadeiramente o consagrante, o depositário e o dispensador do Sagrado Coração de Jesus.
Quando comunga na santa missa, recebe em seu interior este divino Coração e este Sangue adorável. Recebe-o, e também nós o recebemos quando comungamos, com todas as suas chamas, com todos os seus ardores. Foco vivíssimo do amor é a Comunhão onde se come e bebe o Amor eterno, Jesus Cristo, sua carne, seu Coração e seu Sangue gloriosos!
O que o amor de nosso Salvador faz no mistério da Eucaristia apresenta um tal cúmulo de prodígios, que em vez de falar deles, sente-se inclinado, por respeito, a calar e adorar. Tudo o que disto se pode dizer é nada.
São Bernardo chama a este grande sacramento “o amor dos amores, amor amorum.” Certamente, o amor, só o amor impulsiona Nosso Senhor a encerrar-se sob essa humilde aparência, despojado de todo esplendor, e morar assim nesta terra de misérias, de lodo e de impurezas, exposto a mil e mil ultrajes, e isso há dezenove séculos, e até o fim dos tempos, até o seu segundo advento.
O amor é o que obriga Jesus a viver entre nós para nos cobrir aos olhos de seu Pai celestial, como a galinha cobre e protege com suas asas os seus pintainhos. Ali, sobre o altar, seu divino coração, suprindo a fraqueza de sua Igreja militante, faz subir incessantemente ao céu adorações, louvores, ações de graças, súplicas e orações dignas da majestade divina. “Sempre vivo para interceder por nós”,[1] ama por nós e nos obtém graças. Abençoa-nos com incessantes bênçãos, segundo a bela expressão de São Pedro: “Deus enviou o seu Filho para vos abençoar”.[2]
O amor, sim, o amor lhe fez resumir no Santíssimo Sacramento todos os seus mistérios de misericórdia e ternura,[3] pois ali está, sob os véus eucarísticos, como Criador e Senhor eterno dos Anjos e dos homens, do céu e da terra, santificador de todos os escolhidos, Santo dos Santos, Cabeça e Soberano pontífice da Igreja, Rei dos Patriarcas e Profetas, Salvador e Redentor. Ali está com a graça do mistério da Encarnação, com seu amplo sacrifício de trinta e três anos, com todas as suas palavras e todos os seus milagres; ali com tudo o que operou na santa alma de sua Mãe, em sua Igreja e em todos os seus eleitos; ali, enfim, com todo o mundo da graça e todo o mundo da glória, de que é princípio, centro e vida. Que oceano de amor encerra a Eucaristia!
E todo este mistério dos mistérios, este Amor dos amores, não é, no fundo, outra coisa que o vosso Sagrado Coração, oh, dulcíssimo Jesus! E nós, ingratos, correspondemos a este prodígio de bondade esquecendo-O no silêncio de seus Tabernáculos, e mostrando-nos mais frios para com Ele, mais endurecidos, e mais insensíveis que o mármore dos altares!
Notas
[1] “Semper vivens ad interpellandum pro nobis”. (Hb. VII, 25.)
[2] “Deue suscitans Filium suum, misit eum benedicentem vobis”. (Act. III, 26.)
[3] “Memoriam fecit mirabilium suorum misericors et miserator Dominus; escam dedit timentibus se.” (P s. C X .)
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 125-129. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.