quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Sagrado Coração de Jesus é o modelo ao qual deve ajustar-se o nosso coração

No adorável Coração de Jesus há um profundo sentimento de desprezo e ódio à corrupção, às vaidades e loucuras do mundo. Detesta tanto o mundo, em outras palavras, aos homens que se unem a Satanás contra Deus, que lhe maldiz formalmente: “Ai do mundo por causa dos escândalos”


Mons. de Ségur (*) | Tradução Sensus fidei: É uma verdade indubitável que o Rei da glória, Jesus Cristo, nos ama tão misericordiosamente, que cada um de nós pode dizer com toda segurança: “O Coração do meu Jesus é meu; eu possuo o Coração do meu Salvador”.
Sim, esse vivo tesouro de amor é meu. Meu, porque seu Pai eterno deu-o a mim; meu, porque a Santíssima Virgem, sua Mãe, deu-o a mim; meu, porque o Espírito deu-o a mim e me une inteiramente a ele no inefável mistério da graça; meu, enfim, porque o próprio Salvador deu-o a mim mil e mil vezes.
Deu-o a mim, não só para que seja meu refúgio e meu oráculo, mas também o modelo e a regra de minha vida e de minhas ações. Este modelo santíssimo quero contemplar e estudar continuamente para imitá-lo com fidelidade.
Bem, o que encontro no adorável Coração de Jesus? É de suma importância que eu o saiba claramente para que possa amar o que ele ama e detestar o que ele detesta. Acerca disto, eis o que me ensinam o Evangelho, a Igreja e os Santos.
O Coração de Jesus nunca aborreceu nem rejeitou senão o mal, ou seja, o pecado em todas as suas formas. Teve o menor ódio aos seus perseguidores e verdugos? De modo algum; ao contrário, perdoou-lhes ante seu Pai celestial no momento mesmo de seu horrível deicídio: “Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem”.[1] Esta é a regra que devo seguir de agora em diante, oh, meu bom Mestre. Como Vós e convosco não quero aborrecer senão o pecado; por amor vosso amarei aos que me aborrecem, perdoá-los-ei de todo o meu coração, e lhes devolverei sempre o bem pelo mal.
O Coração de Jesus detestou com toda a energia de sua divina santidade os fariseus, os hipócritas, os inimigos da verdade e os sedutores das almas. Com ele e como ele detestarei os ímpios e os blasfemos, os inimigos da fé, da Igreja e da Santa Sé; amarei suas almas, e rogarei por sua conversão; mas enquanto permanecerem em sua maldade “odiá-los-ei com ódio perfeito”;[2] detestá-los-ei e combaterei como Jesus Cristo os combate e os detesta. Não é, com efeito, tão vivo no Coração de Jesus o santo horror ao mal e aos que o fazem como o santo amor ao bem e aos que o praticam? Obrar de outro modo não seria caridade, senão debilidade, covarde complacência.
Sendo o divino Coração meu modelo, devo, segundo o preceito de São Paulo, “ter em meu coração todos os sentimentos que plenificaram o de Jesus”.[3] Sem isto não teria o seu Espírito, nem seria d’Ele.[4]
Quais são estes sentimentos?
São, em primeiro lugar, os sentimentos de inefável amor que tem Jesus a seu Pai e à santíssima vontade de seu Pai. Tem tanto amor a esta divina vontade, que nunca, durante sua vida, fez sua própria vontade, mesmo sendo impecável, senão única e amorosamente a vontade de seu Pai celestial. “Eu faço sempre, dizia, o que agrada a meu Pai; e minha comida é fazer a vontade d’Aquele que me enviou”.[5]
É, em segundo lugar, o sentimento de horror e abominação, de que acabamos de falar, relativamente ao pecado, e que o fez preferir toda sorte de humilhações e sofrimentos antes que deixá-lo reinar no mundo. Combatido a todo transe por Jesus Cristo e seus fiéis, ainda quando o pecado triunfe momentaneamente, de antemão está vencido, aproxima-se o dia em que será completamente extirpado da face da terra. A exemplo de Nosso Senhor e com o socorro de sua graça, de agora em diante sofrerei tudo antes que cometer voluntariamente um só pecado, nem mesmo venial.
Em terceiro lugar, são os sofrimentos de amor que têm à cruz e aos sofrimentos. Seu Sagrado Coração foi, por assim dizer, mais crucificado ainda, que sua carne: o Coração de Jesus crucificado é o mais profundo das profundezas da cruz. Ademais, Jesus ama tanto os sofrimentos, que o Espírito, falando do dia de sua Paixão, denominava-o “o dia da alegria do Coração de Jesus”.[6] Não ama os sofrimentos e as humilhações em si mesmas, pois são um mal; senão que as ama, busca-as e as suporta com alegria por causa dos efeitos divinos que produzem. Assim quero, meu Jesus, amar a cruz por vosso amor.
São ademais os sentimentos de amor que tem à sua amadíssima Mãe, a qual ama, como tenho dito, mais do que a todos os Anjos e Santos juntos.
São também os sentimentos de caridade, de bondade e de compaixão que tem para conosco, e de uma maneira muito especial para com os pequenos e humildes, as crianças, os desgraçados, os pobres e os aflitos.
Por último, o que a fé me descobre no adorável Coração de Jesus, é um profundo sentimento de desprezo e ódio à corrupção, às vaidades e loucuras do mundo. Detesta tanto o mundo, em outras palavras, aos homens que se unem a Satanás contra Deus, que lhe maldiz formalmente: “Ai do mundo por causa dos escândalos”.[7] Declara que o mundo é para Ele, como um excomungado! “Não rogo pelo mundo”.[8] Disse aos seus Discípulos que “não sou do mundo, assim como Ele tampouco é do mundo”.[9] E isto é muito natural. Que é, com efeito, o mundo senão um composto satânico de orgulho e de vaidade, de concupiscência e de curiosidade, de impureza e de sensualismo?[10]
Tais são os sentimentos de que está pleno o Coração de Jesus; sentimentos que Ele quer e que devo querer também que inundem meu coração. Meu Deus, meu Deus! Concedei-me a graça de compreender bem estas regras de verdade e de santidade em que se resume a vossa lei; fazei que as medite sem cessar e que as pratique sempre. Oh, Salvador meu! Vosso Coração é a minha regra por excelência; e quanto mais eu me conformar a ela, mais repousarão em mim a paz e a misericórdia de Deus.[11]
Notas
[1] Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt. (Luc, XXIII, 34.)
[2] Odio perfecto oderam illos. (Psalm. CXXXVIII, 22.)
[3] Hoc sentite in vobis quod et in Christo Jesu. (Philip. II, 5.)
[4] Si quis Spiritum Chiristi non liabet, hic non est ejus. (Rom. VIII, 9.)
[5] Quae placita sunt ei, facio semper………..Meus cibus est ut faciam voluntatem ejus qui misit me. (Joan. VIII, 29; IV, 34.)
[6] In die letitiae cordis ejus. (Cant. III, 11.)
[7] Vae mundo a scandalis! {Matth. XVIII, 7.)
[8] Non pro mundo rogo. (Joan. XVII, 9.)
[9] De mundo non sunt, sicut et ego non sum de mundo. (Ibid. XVI.)
[10] Omne quod est in mundo, concupiscentia carnis est, et concupiscentia oculorum, et superbia vitas. (I Joan. II, 16.)
[11] Quicumque hanc regulam secuti fuerint, pax super illos, et misericordia, et super Israel Dei. ( Galat. YI, 16.)

(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 150-155. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

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