quinta-feira, 1 de junho de 2017

Os esforços do inferno não conseguiram impedir o estabelecimento e a propagação do culto do Sagrado Coração de Jesus

Sob pretexto de penitência e austeridade, e de um retorno mais perfeito às primitivas tradições do Cristianismo, os jansenistas se levantavam com todas as suas forças contra tudo o que há de consolador e misericordioso na Religião: a Comunhão frequente, a confiança na misericórdia divina, o amor e o culto à Santíssima Virgem, a magnificência do culto divino





Monsenhor de Ségur (*) | Sensus fidei: Quanto mais excelente e proveitoso para as almas fosse o culto do Sagrado Coração, mais devia temer-lhe o demônio e impedir seu estabelecimento por quantos meios lhe fora possível. Para seu intento serviu-se principalmente de uma nova seita nascida do calvinismo, e que logo, sob o nome de jansenismo, tomou proporções desoladoras em França.
Sob pretexto de penitência e austeridade, e de um retorno mais perfeito às primitivas tradições do Cristianismo, os jansenistas se levantavam com todas as suas forças contra tudo o que há de consolador e misericordioso na Religião: a Comunhão frequente, a confiança na misericórdia divina, o amor e o culto à Santíssima Virgem, a magnificência do culto divino. Aqueles hereges, de coração de ferro, sem amor de Deus nem dos homens, não podiam ver com bons olhos uma devoção toda impregnada de amor, qual é a do Sagrado Coração. Em uma série de abomináveis intrigas, de libelos difamatórios e de perseguições mais ou menos abertas, fizeram esforços desesperados para afogar em seu berço a devoção nascente do Sagrado Coração de Jesus. Em seu primeiro ensaio a representaram como supersticiosa, absurda, ridícula, ímpia; depois tentaram sublevar contra ela o clero, os fiéis e ainda alguns doutores em Teologia; trataram também de enganar os bispos; esforçaram-se em irritar contra ela o rei Luís XIV, o qual conseguiram momentaneamente. As iras dos hereges recaíram principalmente sobre a benemérita Companhia de Jesus, que em seu zelo ardente e contínuo pela salvação das almas, havia abraçado com amor muito digno dela a devoção do Sagrado Coração. A pobre sóror Margarida Maria foi objeto de burla; e suas luminosas revelações, não obstante o exame e aprovação da autoridade competente; aquelas revelações que Nosso Senhor havia confirmado com milagres, foram rotuladas de delírios.
Já antes a cólera do demônio e dos jansenistas se havia concentrado sobre um santo missionário que a Providência havia suscitado para preparar os caminhos à beata Margarida Maria, e à revelação propriamente dita dos mistérios do Coração de Jesus. Era este o Padre Eudes, discípulo do cardeal de Berulle e do Padre Condren, e amigo de São Vicente de Paula, do venerável Olier e do mais eminente em ciência e virtude que tinha o clero naquele século. Fazia mais de cinquenta anos que aquele admirável religioso, a quem o reverendo Olier chamava “maravilha de seu século”, enchia a França inteira com suas pregações apostólicas, e propagava a seu passo com fervor verdadeiramente inspirado o amor e o culto dos sagrados Corações de Jesus e Maria. Esta era sua devoção predileta, que comunicava, não somente aos povos, mas também ao clero e às Congregações religiosas. Com aprovação e sob os auspícios do Episcopado, fundou uma Congregação de missionários (os padres Eudistas), especialmente dedicada a este culto de amor; fundou seminários, capelas públicas, numerosas e florescentes irmandades que foram aprovadas oficialmente pela Santa Sé, e isto exatamente na mesma época que começava Jesus a revelar-se milagrosamente à beata Margarida no silêncio do mosteiro de Paray-le-Monial.
Com justa razão, portanto, pode e deve chamar-se também o Padre Eudes “apóstolo do Sagrado Coração de Jesus”. Desde 1645 teve a dita de ver que se lhe rendia culto solene nos seminários de sua Congregação e em muitas casas religiosas; e em 1671 vários bispos franceses aprovaram e autorizaram em suas dioceses, sempre às instâncias do Padre Eudes, tão admirável devoção, permitindo se celebrasse publicamente em honra do Sagrado Coração uma festa com Missa e Ofício próprios, que compôs aquele piedoso missionário, e que foram aprovados em duas ocasiões pela Santa Sé. Em 1674, ao tempo em que Nosso Senhor se revelava de um modo tão esplendoroso à beata Margarida Maria Alacoque, Clemente X dava por meio de seis Breves apostólicos a suprema sanção da Santa Sé à legitimidade do culto do Sagrado Coração.
O inferno se desencadeou mais furioso do que nunca contra o Padre Eudes, aproveitando a atitude verdadeiramente sacerdotal que havia tomado o santo missionário nas primeiras contendas com o galicanismo, que, como é sabido, haviam nascido das intrigas jansenistas. O generoso defensor dos direitos de amor a Jesus Cristo e da autoridade de seu Vigário, teve a glória de sofrer o desterro e a perseguição. Morreu à idade de mais de oitenta anos em odor de santidade.
Como a palavra de Deus não pode faltar, não tardaram em ver-se cumpridas as promessas feitas à venerável Alacoque, e o culto do Sagrado Coração se propagou maravilhosamente por todas as partes, produzindo abundantes frutos de graça e conversão. Outorgados já vários Breves de indulgências por diversos Papas, e erigidas com autoridade da Santa Sé muitíssimas Congregações para honrar com particular culto ao Sagrado Coração de Jesus, Clemente XIII concedeu em 1765 Ofício e Missa próprios do Sagrado Coração; elevando-os em seguida à categoria de primeira classe no rito. Pio VI, em sua memorável bula dogmática Auctorem fidei, condenou os erros e impugnações do jansenismo contra a devoção ao Coração divino de nosso adorável Salvador.[1] Pio VII, por um reescrito de 10 de março de 1802, concedeu indulgências aos que se associassem a esta devoção. Pio IX estendeu em 1856 à Igreja universal a festa do Sagrado Coração, que já se celebrava por privilégio quase em todas as dioceses; e por Breve de 19 de agosto de 1864 levou a honra dos altares a beata Margarida Maria Alacoque. Finalmente, para sempre memorável será o ano de 1875, em que Pio IX, movido de sua devoção ao sacratíssimo Coração e das multiplicadas súplicas do Episcopado e de alguns milhões de fiéis[2] dispôs que todos os filhos da Igreja católica se consagrassem solenemente ao Sagrado Coração de Jesus, dando a este objeto a sagrada Congregação de Ritos um decreto acompanhado do ato de consagração, que leva o selo da aprovação do Chefe supremo da Igreja. Em 16 de junho do mesmo ano o céu e aterra contemplaram um solene e magnífico espetáculo: o de todos os fiéis do mundo inteiro, sob o cajado de seus Pastores, oferecendo-se nos mesmos termos, e em união e por mediação do Soberano Pontífice, todos unidos em holocausto de perfeita e eterna consagração, ao santíssimo Coração de Jesus. Assim, no decurso de duzentos anos, a par dos ataques dos inimigos, continua ganhando terreno o mesmo culto tão rudemente atacado, até o ponto de chegar a ser considerada hoje a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, como a devoção providencial dos tempos modernos.
Também eu, amabilíssimo Salvador meu, quero me consagrar inteiramente a vosso adorável Coração. Infundi-me o espírito de vossa Igreja, que é vosso santo Espírito, vosso Espírito de amor. Nele, a sua luz divina, quero aprender a conhece-los, a adorá-los, a servi-los, a ganhar-lhes corações, a consolá-los de tantas ingratidões, a desagravá-los de tantos ultrajes. Vivei em meu entendimento pela fé, e pelo amor em meu coração, e dai-me vida de amor. Reinai, Senhor, agora e sempre em nossas famílias, em nossos governos, em nossa ciência, em nossas artes, em nossos exércitos, em nossas oficinas, em nossos costumes, em nossos corpos e em nossas almas, em tudo o que é nosso, sendo tudo para todos, e todos unicamente de Vós, convosco e para Vós no tempo e na eternidade.
(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 34-40. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.
Notas:
[1] Aquelas hereges, que não haviam podido impedir que a devoção do Sagrado Coração de Jesus fincasse fundas raízes nas almas piedosas, trabalharam por infundir em outras muitas, muito boas por outra parte, lamentáveis preocupações sobre tão santa devoção, que ainda hoje em dia subsistem em alguns. Para desvanecê-las cremos utilíssimas as considerações contidas em seu excelente livrinho que em nossos dias publicou o Ver. Padre Antonio Gació, da Companhia de Jesus, com o título “Declaração e Meditações dos Ofícios do Sagrado Coração de Jesus”, §§ 1.º e 2.º — Barcelona, Tipografia Católica, 1876.
[2] O Padre Chevalier, fundador e primeiro superior da Congregação de missionários do Sagrado Coração de Jesus em Issoudun, apresentou a Sua Santidade uma súplica subscrita em poucos meses por três milhões de católicos de todo o orbe, pedindo a consagração da Igreja e do mundo ao Sagrado Coração de Jesus, formando trinta volumes ricamente encadernados, um dos quais continha cartas de cento e sessenta bispos que apoiavam aquela petição. Esta oferenda, que chegava dos desejos expressos de alguns meses antes por Sua Santidade em manifestar ao mesmo Padre Chevalier “que se teria por ditoso de consagrar o mundo católico ao Sagrado Coração de Jesus se os fiéis o pedissem”, foi recebida pelo Papa com indizível júbilo, contestando ao sentido discurso que aquele lhe dirigiu, nos seguintes termos: “Três milhões! É todo um exército! Pois bem, vou colocar-me à sua frente, e iremos conquistar o mundo”.

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