quarta-feira, 28 de junho de 2017

Quanto menos uma pessoa reza, mais o interior dela é acessível às ações do demônio


Quando o espírito impuro sai do homem, perambula em lugares áridos, procurando repouso, mas não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa, de onde saí. Chegando lá, encontra-a varrida e arrumada. Diante disso, vai e toma outros sete espíritos piores do que ele, os quais vêm habitar aí. E com isso a condição final daquele homem torna-se pior do que antes“.(S. Lucas 1, 24-26)
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.
Ave Maria…
Havia dito que hoje trataria de coisas úteis à Quaresma, e o Evangelho de hoje dá muitos pontos para isso. Gostaria de usá-lo fazendo, ao mesmo tempo, um paralelo com as obras de penitência que devemos fazer durante essas 6 semanas que nos preparam para a Paixão e a Ressurreição de Nosso Senhor. As três obras de penitência que devemos fazer são oração, jejum e esmola. Hoje lançaremos um pouco de luz sobre a oração, para ver o quanto ela é importante não só na Quaresma, mas todos os dias até o fim da vida.
Como acabamos de dizer, a oração é algo que deve ser intensificado na Quaresma. Isso quer dizer que ela já deve fazer parte habitual de nossas atividades quotidianas. Temos um corpo e uma alma. Comemos todos os dias, dormimos todos os dias, cuidamos de nossa higiene todos os dias; rezamos todos os dias.
Porém, é necessário constatar que a prática da oração sofreu um colapso na vida católica nos últimos 50 anos. E isso é um problema, porque isso quer dizer que as pessoas estão mais expostas à ação do demônio sobre elas. Quando uma pessoa reza com regularidade, isto é, todos os dias, isso quer dizer que ela reza bem, por dois motivos. Primeiramente, porque é rezando que se aprende a rezar bem, pois um hábito é adquiridos por repetição de atos, e um hábito faz com que algo seja bem feito, com facilidade e de modo agradável. Em segundo ligar, porque manter a prática quotidiana da oração só é possível tendo uma vida organizada: levantar cedo e, por isso, dormir cedo; dominar os olhos e os ouvidos, não assistir filmes e televisão, não ouvir músicas ruins e controlar inclusive o uso das músicas boas, controlar o uso de celulares e internet, para evitar aquilo que causará distrações na oração e perda do tempo que será usado para a oração; cumprir os deveres de estado, porque é na oração que Deus nos pune quando pecamos antes, tirando graças e luzes que seriam dadas nela se tivéssemos cumprido sua lei (isso quem di é o Pe. Faber).
A imaginação, de acordo com os padres tomistas, é a faculdade mais facilmente “habituável” que temos em nós, a mais fácil de ser moldada na direção que queremos lhe dar. Isso quer dizer que em muito pouco tempo as imagens que vemos na televisão, no celular, nos filmes, na rua, etc., tudo isso facilmente estabelece na imaginação um modo de funcionar agitado e inquieto, e nos faz considerar as coisas ruins que vemos como menos graves do que são realmente. Por isso as pessoas que não evitam a televisão, os filmes e não usam o celular de modo virtuoso e não guardam os olhos na rua, quando elas param para rezar, imediatamente elas ficam inquietas, porque a imaginação fica tomada de imagens totalmente alheias à oração, simplesmente porque a imaginação está fora de controle e elas têm distrações sem parar. É por causa disso que as pessoas encontram problemas para rezar, porque elas não têm controle sobre si mesmas, e naquela capacidade (a imaginação) que é mais fácil de dominar.
Por esses motivos, os demônios têm pavor de se aproximar das pessoas que rezam regularmente, simplesmente porque 1) isso faz com que elas tenham uma vida natural e sobrenaturalmente organizada, bloqueando a maior parte dos ataques que os demônios podem fazer e 2) porque a oração regular faz com que essas pessoas usem os cinco sentidos externos, a memória, a imaginação, o instinto, os sentimentos, a inteligência e a vontade de modo voltado a Deus e, consequentemente, tudo isso é muito menos poroso às ações do demônio. É verdade que os demônios não têm acesso direto à inteligência e à vontade, mas têm acesso à tudo o mais, o que não é pouca coisa.
Os livros de espiritualidade são unânimes em afirmar que há uma clara relação entre a quantidade de oração de uma pessoa e o número e a intensidade de tentações que ela tem, comumente falando. Esses autores estabelecem uma relação clara entre a quantidade de oração de uma pessoa e as tentações que ela tem contra a castidade, por exemplo, e as razões disso são muito simples. Quanto menos uma pessoa reza, mais o interior dela é acessível às ações do demônio. Como nossos sentimentos e nossos atos externos e nosso modo de agir têm origem nas imagens internas da imaginação, uma vez que ela é mais influenciável pelos demônios (por culpa nossa, vale a pena notar), mais tentações teremos, mais fortes elas serão, nossa avaliação sobre o que é ruim será cada vez mais branda, mais pecados serão cometidos. E como a pureza é a virtude mais comprometida depois do pecado original, como dizem S. Tomás e S. Afonso, por exemplo), as pessoas que não rezam, ou rezam pouco, terão mais tentações contra a pureza. Não é uma coincidência que a sensualidade de nossa sociedade esteja unida ao colapso do hábito de rezar.
Algumas pessoas dizem: “Minha oração é o meu trabalho”. Isso é uma desculpa para não se recolher, ficar quieto, controlar-se um pouco e rezar. Trabalhar e rezar são coisas absolutamente diferentes. Trabalhar é aplicar-se à produção de uma obra exterior particular. Orar é elevar a alma para Deus. Se trabalhar e rezar fossem a mesma coisa, Cristo teria dito “Vigiai e trabalhai, para não cairdes em tentação”.
Há pessoas que sofrem grandes incômodos do demônio, como obsessão ou mesmo vêem vultos, ou têm muitas e fortes angústias, ou tentações muito fortes e insistentes, sobretudo sobre a fé ou sobre a moral, que têm dificuldade de compreender porque tal ou tal coisa é pecado (elas têm a inteligência coberta por uma espécie de neblina, vinda da ação do demônio sobre a imaginação e sobre os sentimentos), etc., e que simplesmente conseguem fazer com que tudo isso pare a partir do momento em que começam a rezar regularmente, porque os demônios têm pavor das pessoas que rezam regularmente, porque a vida delas vai sendo organizada e dirigida em todas as coisas para Deus, e elas param de pecar, e vêem com muito mais clareza quando e onde e de que modo o demônio age sobre elas e as tenta.
E por isso o demônio faz de tudo para diminuir a oração nos fiéis, para não ser impedido de agir sobre nós por todas as razões que citamos acima. E vendo que a pessoa cede, ele volta com muito mais empenho para nos fazer mal, porque o demônio é tenaz em buscar nossa condenação, e faz um grande estrago, de modo que as quedas das pessoas que tinham melhorado e se convertido são piores do que as anteriores. Piores porque já conhecem a verdade, e ao ouvi-las novamente, ficam menos impressionadas; porque ao caírem novamente, elas repetem as más ações com mais advertência e fazem com que o pecado se torne um hábito mais voluntário e mais difícil de ser arrancado; finalmente, porque uma nova queda é uma ingratidão com as luzes que Deus deu antes, e essa ingratidão pode fazer com que Deus não nos dê sua ajuda eficaz para nos levantarmos novamente: “De fato, os que uma vez foram iluminados — que saborearam o dom celeste, receberam o Espírito Santo, experimentaram a beleza da palavra de Deus e as forças do mundo que há de vir — e, não obstante, decaíram, é impossível que renovem a conversão uma segunda vez, porque da sua parte crucificam novamente o Filho de Deus e o expõem às injúrias. Pois, a terra que bebe a chuva que lhe vem abundante e produz vegetação útil aos cultivadores, receberá a bênção de Deus. Mas, se produzir espinhos e abrolhos, é rejeitada, e está perto da maldição: acabará sendo queimada” (Hebreus 6, 4-8).
Por isso devemos insistir na prática quotidiana da oração. Porque dela depende nossa integridade, nossa perfeição e nossa felicidade eterna.
Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

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