quarta-feira, 7 de junho de 2017

Quereis ver o que sois, oh Cristãos? - Santo Afonso de Ligório



Considera, ó homem, que foste formado de terra, e à terra hás-de voltar. Dia virá em que hás-de morrer, ser lançado numa sepultura, entregue à corrupção e aos vermes, que te cobrirão, tornando-se o teu único vestido, conforme a expressão de Isaías (14,11):Operimentum tuum erunt vermes. Tal é a sorte reservada a todo e qualquer homem, quer nobre, quer plebeu, príncipe ou vassalo. Saída do corpo com o último sopro, a alma irá para a sua eternidade e o corpo se mudará em pó: Auferes spiritum eorum et deficient, et in pulverem suum revertentur (Ps. 103,29),



Representa diante dos teus olhos uma pessoa que acaba de morrer. Considera esse cadáver ainda estendido no seu leito, vê essa cabeça inclinada sobre o peito, esses cabelos desalinhados e ainda banhados do suor da morte; os olhos encovados, as faces cavadas, o rosto lívido, a língua e os lábios quase negros; todo o corpo inerte e frio. Sentem-se arrepios em presença deste quadro. Quantos ao verem um parente ou um amigo defunto mudaram de vida e renunciaram ao mundo!

Sobe de ponto o horror quando o cadáver entra em decomposição. Ainda não decorreram vinte e quatro horas sobre a morte desse jovem e já a infecção se faz sentir. É necessário abrir-se as janelas e empregar desinfectantes. Apressa-se a saída para a Igreja e o enterramento, com receio que empeste toda a casa. Se esse corpo é dum nobre ou dum rico, o cheiro que exala será ainda mais insuportável, nota Santo Ambrósio.

Eis pois, em que veio parar esse orgulhoso e libertino! Acolhido e estimado ainda há pouco nas reuniões agora só inspira repulsa e horror a quantos o vêem. Os próprios pais procuram afastá-lo de casa quanto antes: é encerrado num caixão e levado para a sepultura. Ainda há pouco talvez era admirado pelo seu espírito, pela sua delicadeza, pelas suas belas maneiras, pelos seus ditos jocosos, veio a morte e lançou sobre ele o esquecimento: pereceu a sua lembrança com o seu renome (Ps. 9,7).

Ao correr a notícia de sua morte, divergem as opiniões: dizem uns que ele geralmente era estimado; ajuntam outros que deixara a sua casa em bom estado. Estes lamentam a sua falta, porque perderam um benfeitor; aqueles folgam, porque a morte dele os fez melhorar de situação. Em breve deixará de ser objeto de conversas. Os próprios parentes a partir do dia da morte, não quererão que se lhe fale nele, seria avivar-lhes as feridas. Nas visitas de pêsames fala-se de outras coisas. Se um ou outro deixa escapar alguma palavra sobre o defunto, logo se lhe atalha: fazei-me um favor, não pronuncieis mais o seu nome na minha presença.

Considerai agora que isso mesmo que tendes praticado na morte dos vossos parentes e amigos, outros praticarão quando vós morrerdes. Os que vos sobrevivem entram em cena, para representarem o seu papel e gozarem os bens e os lugares, que os mortos lhes deixaram. Destes não se importam; lançam-nos ao esquecimento. Nos primeiros tempos, ainda os vossos parentes lamentarão a vossa morte, mas isso será apenas por alguns dias. Recebida a herança que lhes couber, em breve se resignarão e até se darão por satisfeitos. Naquele mesmo quarto em que destes a alma a Deus, em que Jesus Cristo proferiu a vossa sentença, aí se dançará, se comerá, se folgará e rirá como antes. E a esse tempo, onde estará a vossa alma?

Trecho retirado do livro MÁXIMAS ETERNAS; De Santo Afonso Maria de Ligório.

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