terça-feira, 31 de outubro de 2017

Jesus tratado como o último dos homens


Vidimus eum… despectum et novissimum virorum – “Vimo-Lo… feito um objeto de desprezo e o último dos homens” (Is 53, 3)
Sumário. Considera a grande maravilha que se viu um dia na terra: o Filho de Deus, feito homem por amor dos homens, foi desprezado por estes mesmos homens, como se fosse o mais vil de todos, e tratado como doido, bêbado, blasfemador e réu de mil mortes. Meu irmão, representemo-nos bem vivamente o nosso maltratado Senhor: demos-Lhe graças pelo muito que por nós sofreu, consolemo-Lo com nosso arrependimento das injúrias que Lhe fizemos, e digamos-Lhe que por seu amor queremos de hoje em diante suportar com resignação as dores, as humilhações e os desprezos.
I. Eis a grande maravilha que se viu um dia no mundo: o Filho de Deus, o Rei do céu, o Senhor do universo, foi desprezado como o mais vil de todos os homens. Afirma Santo Anselmo que Jesus Cristo quis ser desprezado e humilhado nesta terra a tal ponto, que os desprezos e as humilhações que sofreu não podiam ser maiores. – Foi tratado como homem de baixa condição: Não é Ele porventura filho de um carpinteiro? (1) Foi desprezado por causa da sua terra: Pode vir de Nazaré alguma coisa boa? (2) Foi tido por doido: Perdeu o juízo, porque o estais ouvindo? (3) Foi tido por glutão e amigo do vinho: Vejam o homem glutão, que bebe vinho (4). Por feiticeiro: É pelo poder do príncipe dos demônios que Ele expulsa os demônios (5). Por herege: Não dizemos nós bem que és samaritano? (6)
As maiores injúrias, porém, Lhe foram feitas durante a sua Paixão; e particularmente durante a noite em que foi preso pelos Judeus. Quando Jesus declarou ser Filho de Deus, o ímpio Caifás, tratando-O de blasfemo, disse aos demais sacerdotes: “Blasfemou: que necessidade temos agora de testemunhas? Vós mesmos ouvistes a blasfêmia. Que vos parece?” E eles responderam: “É réu de morte.” (7) Então, assim continua o Evangelista, cuspiram-Lhe na face, e o feriram a punhadas, e tratando-o como falso profeta, disseram: “Advinha, Cristo: quem é que te bateu?” (8)
Numa palavra, foi então que se realizou a profecia de Isaías: “Entreguei o meu corpo aos que me feriam, e minhas faces aos que me arrancavam os cabelos da barba; não virei o rosto aos que me afrontavam e cuspiam em mim.” (9) – No meio de tantas ignomínias que nosso Salvador sofreu naquela noite, sua dor foi ainda aumentada pela injúria que Lhe fez Pedro, seu discípulo, renegando-o três vezes, e jurando que nunca o tinha conhecido.
II. Almas devotas, vamos a visitar o nosso Salvador aflito naquele cárcere, onde se acha abandonado de todos, tendo por única companhia os seus inimigos, que porfiam em escarnecê-Lo. Agradeçamos-Lhe o muito que por nós sofreu com tamanha paciência, e consolemô-Lo com nosso pesar das injúrias que Lhe fizemos, visto que no passado nós também fomos do número daqueles que O desprezaram e pelo pecado negamos conhecê-Lo.
Ó meu amável Redentor, quisera morrer de dor ao pensar que amargurei tanto o vosso Coração que tanto me amou. Por piedade, esquecei os desgostos que Vos dei, e lançai sobre mim um olhar de amor, assim como o lançastes sobre Pedro depois da sua renegação; desde então até ao fim de sua vida ele nunca mais deixou de chorar o seu pecado. Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, Vós que sofrestes por esses mesmos homens que Vos odeiam e maltratam; Vós sois o objetivo da adoração dos anjos, a majestade infinita, e seria uma honra bem grande para os homens, se os admitísseis a beijar-Vos os pés. Mas, ah, céus, como é que naquela noite quisestes fazer-Vos ludibrio de uma multidão infame?
Ó meu desprezado Jesus, deixai-me ser desprezado por vosso amor. Como poderei recusar os desprezos, vendo que Vós, meu Deus, sofrestes tantos por meu amor? Ah, Jesus crucificado, fazei-Vos conhecer e fazei-Vos amar; fazei também que eu sempre tenha na mente a vossa Paixão. – Oh céus! Que pena não sofrerão os réprobos no inferno, vendo o muito que o Senhor sofreu para os salvar e que, não obstante isto, se quiseram perder! Meu Jesus, não permitais que eu seja do número daqueles infelizes. Não, nunca mais quero esquecer-me do amor que me mostrastes sofrendo por mim tantas penas e ignomínias. Ajudai-me a amar-Vos e a lembrar-me sempre do amor que me haveis tido. – Ó minha Mãe dolorosa, Maria, peço-vos a mesma graça.
Referências:
(1) Mt 13, 55
(2) Jo 1, 46
(3) Jo 10, 20
(4) Lc 7, 34
(5) Mt 9, 34
(6) Jo 8, 48
(7) Mt 26, 65-66
(8) Mt 26, 68
(9) Is 50, 6


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 71-73)

Fonte:

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A Santa Missa é um meio eficaz para obtermos as graças de Deus

In omnibus divites facti estis in illo – “Em todas as coisas fostes enriquecidos nele” (1 Cor 1, 5)
Sumário. Posto que o Senhor esteja sempre disposto a nos conceder as suas graças, dispensa-as todavia com mais largueza no tempo da missa aos rogos do sacerdote, juntos aos de Jesus Cristo que é o oferente principal. Os mesmos anjos aproveitam o tempo da missa para intercederem mais eficazmente em nosso favor; e o que então se não obtém, obter-se-á dificilmente em outro tempo. Que tesouros podemos, pois, ajuntar pela celebração devota do divino sacrifício e pela sua devota assistência!
I. Considera que a Santa Missa é um verdadeiro sacrifício Impetratorio, isto é, instituído para alcançar de Deus os auxílios e as graças de que necessitamos. É uma verdade da fé que o Pai Eterno dispensa seus favores sempre que forem pedidos pelos merecimentos de Jesus Cristo: Si quid petiertis Patrem in nomine meo, dabit vobis – “Se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, ele vô-la dará”(1). Observa, porém, São João Crisóstomo que no tempo da missa Deus os dispensa com maior largueza aos rogos do sacerdote, porque estes então são acompanhados e reforçados pelos rogos do próprio Jesus Cristo, o oferente principal, que neste sacrifício se oferece ao Pai, a fim de nos obter as graças. Pelo que um grande servo de Deus dizia: Quando celebro e tenho Jesus Cristo na mão, alcanço tudo que desejo.
Se soubéssemos que todos os Santos do paraíso, em união com a divina Mãe, intercedem por nós, que confiança não teríamos de tudo suceder para nosso proveito? Pois bem, é certíssimo que só pedido de Jesus Cristo vale infinitamente mais do que todos os pedidos dos Santos. Este pedido, posto que, na palavra de São Paulo, Jesus Cristo o faça por nós continuamente no céu (Qui etiam interpellat pro nobis – “Que também intercede por nós” (2)), fá-lo todavia especialmente na hora da missa, na qual se renova o sacrifício da Cruz.
Eis porque, como se exprime o Concílio de Trento, o tempo da celebração da missa é exatamente aquele em que o Senhor está no trono de graça, ao qual o Apóstolo nos exorta que recorramos com confiança para obtermos a divina misericórdia: Adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae (3). São João Crisóstomo atesta que os mesmos anjos esperam o tempo da missa, para intercederem mais eficazmente a nosso favor; e acrescenta que o que não se alcança na missa, dificilmente se alcançará em outro tempo. Oh! Que tesouros de graças podemos ajuntar celebrando devotamente o divino sacrifício ou assistindo a ele com atenção: Em todas as coisas fostes enriquecidos nele!
II. Se tivesses certeza de que perto de tua casa se acha uma rica mina de ouro e que cada dia te é permitido nela entrar meia hora para tirar quanto quiseres, qual não seria o teu contentamento? Aviva, porém, a tua fé e lembra-te de que o Rei do céu na Santa Missa põe à tua disposição uma mina incomparavelmente mais preciosa, porque contém os merecimentos infinitos de Jesus Cristo, pelos quais podes alcançar todas as graças. Propõe-te, portanto, a assistir todos os dias à missa, mesmo a custo de algum incômodo. Pondera que, se o Senhor se oferece mil vezes sobre o altar por teu amor, justo é que tu também sacrifiques alguma pequena comodidade, algum pequeno interesse. E sendo-te impossível ouvir a missa, assiste a ela ao menos em espírito.
Infeliz de mim! Quantas graças, ó meu Deus, tenho perdido pelo meu descuido em as pedir, celebrando ou ouvindo a Santa Missa! Mas já que me iluminais, não me quero mais descuidar disso. Ó Pai Eterno, uno as minhas orações às de Jesus Cristo e pelo amor desse vosso Filho, que por meu amor se imola sobre o altar, Vos rogo antes de tudo que me perdoeis todos os meus pecados, visto que os detesto de todo o coração.
Fazei-me, além disso, conhecer os direitos infinitos que tendes ao meu amor, e dai-me força para me livrar de todos os afetos terrestres e de empenhar todo o meu coração unicamente em Vos amar, que sois o Bem supremo, digno de amor infinito. – Peço-Vos também que ilumineis aqueles que Vos não conhecem, ou vivem privados da vossa amizade. Meu Pai, dai a todos o dom da vossa graça; dai a todos o dom do vosso santo amor. Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo e pela intercessão de Maria Santíssima.
Referências:
(1) Jo 16, 23
(2) Rm 8, 34
(3) Hb 4, 16


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 108-110)

sábado, 28 de outubro de 2017

Necessidade da oração mental


Desolatione desolata est omnis terra; quia nullus est qui rerogitet corde – “Toda a terra está inteiramente desolada, porque não há nenhum que considere no seu coração” (Jer 12, 11)
Sumário. Afeiçoemo-nos à oração mental e nunca a deixemos de fazer. É ela necessária, para que tenhamos luz na viagem que estamos fazendo para a eternidade e também para que conheçamos os nossos defeitos e os emendemos. Assim como sem a oração mental, não faremos bem a vocal, à qual estão ligadas as graças, assim igualmente nos faltará a força para vencer as tentações e praticar as virtudes. Infeliz, portanto, da alma que não faz oração mental; ela não precisa de demônios para lançá-la no inferno, visto que de si mesma nele se precipita.


I. A oração mental é, em primeiro lugar, necessária, para que tenhamos luz na viagem que estamos fazendo para a eternidade. As verdades eternas são coisas espirituais, que não são vistas pelos olhos do corpo, senão somente pela consideração do espírito. Quem não faz oração, não as vê, e assim andará com dificuldade no caminho da salvação. — Além disso, quem não faz oração, não conhece os seus defeitos, e assim, como diz São Bernardo, não os aborrece. Tampouco vê os perigos em que se acha a sua salvação e não pensa em evitá-los. Mas quem faz oração logo descobre os seus defeitos e os perigos de perder-se; e vendo-os, pensará em aplicar-lhes o remédio. Por isso o mesmo São Bernardo afirma que “a meditação regula os afetos, endireita as ações e corrige os defeitos”.

Em segundo lugar, sem a oração não haverá força para vencer as tentações e praticar as virtudes. Dizia Santa Teresa que quem omite a oração, não precisa de demônios para levá-lo ao inferno, visto que de si mesmo nele se precipita.
— A razão disso é que sem a oração mental não haverá oração vocal. Deus quer dispensar-nos as suas graças; porém, diz São Gregório que para no-las dispensar quer ser rogado e como que coagido pelas nossas petições: Vult Deus rogari, vult cogi, vult quadam importunitate vinci. Sem a oração faltará a força para resistir aos inimigos e tampouco se obterá a perseverança no bem. Escreve monsenhor Palafox:
“Como é que o Senhor nos dará a perseverança, se nós não lha pedirmos? E como lha pediremos sem a oração mental?”
Ao contrário, quem faz oração, é como que uma árvore que está plantada junto às correntes das águas, que sempre cresce e está sempre virosa. Erit tamquam lignum secus decursus aquarum (1).
II. A oração mental é a feliz fornalha na qual as almas se abrasam no amor divino; é qual laço de ouro que prende a alma a Deus. Dizia a sagrada Esposa:
Introduxit me rex in cellam vinariam (2) — “O rei me introduziu na sua adega”
Esta adega é a oração, na qual a alma se embriaga de tal modo pelo amor divino, que perde quase inteiramente o gosto das coisas da terra. Não vê mais senão o que agrada a seu amado, não fala senão no amado, nem quer ouvir falar senão nele e toda outra conversação a aborrece e aflige.
Na oração, a alma recolhe-se para tratar a sós com Deus e assim se eleva acima de si mesma. Sedebit solitarius et tacetib, quia levavit super se (3). Diz o profeta Sedebit: assentar-se-á, isto é: a alma em seu repouso, contemplando na oração quanto Deus é amável e quão grande é o amor que lhe tem, começará a saborear as coisas de Deus; o espírito se lhe encherá de santos pensamentos; ela se desprenderá dos afetos terrestres, conceberá grande desejo de se fazer santa e finalmente resolverá dar-se toda a Deus. Onde é que os santos formaram as resoluções generosas, que os sublimaram a um alto grau de perfeição, a não ser na meditação? Por isso São Luiz de Gonzaga dizia que nunca chegará a alto grau de perfeição quem não chega a fazer muita oração mental.
— Afeiçoemo-nos, pois, à meditação e não a omitamos, seja qual for o aborrecimento que nela achemos. Deus remunerará abundantemente o aborrecimento sofrido pelo seu amor.
Ó meu Deus, perdoai-me a minha preguiça. Que tesouros de graças perdi por ter deixado tantas vezes a oração! Para o futuro dai-me força a fim de que seja fiel a conversar sempre convosco nesta terra, visto que espero conversar eternamente convosco no céu. Não aspiro aos regalos das vossas consolações; não as mereço. Basta-me que me permitais ficar a vossos pés para Vos recomendar a minha pobre alma, que tão pobre se acha por se ter afastado de Vós. Ó meu Jesus crucificado, na oração só a lembrança de vossa Paixão me desprenderá da terra e me unirá convosco.
— Santíssima Virgem Maria, assisti-me na minha meditação.
Referências:

(1) Sl 1, 3
(2) Ct 2, 4
(3) Lm 3, 28

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 229-232)


Fonte:

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

União da alma com Jesus na Santa Comunhão



Qui manducat meam carnem et bibit meum sanguinem, in me manet et ego in illo – “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e Eu nele” (Jo 6, 57)
Sumário. Jesus tinha-se dado aos homens como mestre, como modelo e como vítima; restava-Lhe somente que se desse como alimento, a fim de fazer-se uma coisa conosco. É o que fez instituindo a santa Eucaristia. Ó dignação de um Deus para com os homens! Mas como é que há tantos homens que não O amam e Lhe respondem com ingratidão!… Se no passado nós também temos sido do número desses ingratos, esforcemo-nos para amá-Lo tanto mais para o futuro.
I. Diz São Diniz, o Areopagita, que o efeito principal do amor é procurar a união com o objeto amado. Exatamente para se unir com as nossas almas foi que Jesus Cristo instituiu a santa Comunhão. Tendo-se dado a nós como mestre, como modelo e como vítima só Lhe restava dar-se a nós como nosso sustento, para fazer-se um só conosco, assim como o sustento se identifica com aquele que o toma. Foi o que fez instituindo este Sacramento de amor.
Jesus Cristo não pode contentar-se com unir-se à nossa natureza humana; com este sacramento quis ainda achar o modo de unir-se a cada um de nós e de ser todo de quem o recebe. A este respeito escreveu São Francisco de Sales:
“Em nenhuma outra ação pode o Salvador ser considerado nem mais terno nem mais amoroso, do que nesta, na qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a manjar, a fim de entrar em nossas almas, e unir-se aos corações dos seus fiéis”.
Numa palavra, porque Jesus nos ama ardentemente, quer unir-se conosco pela Eucaristia, a fim de que nos tornemos uma coisa com Ele, e o seu coração seja um só coração com o nosso. “Voluisti, ut tecum unum cor haberemus”, diz São Lourenço Justiniani: “Quisestes que tivéssemos um só coração convosco”. E primeiro já o dera a entender o próprio Jesus: Qui manducat meam carnem, in me manet et ego in illo — “Quem come a minha carne permanece em mim e Eu nele”. — Assim, na comunhão Jesus une-se com a alma e a alma com Jesus, e esta união não é de mero afeto, mas verdadeira e real. “Como dois pedaços de cera derretidos se misturam”, diz São Cirilo de Alexandria, “assim o que comunga se torna uma coisa com Jesus Cristo. Ó condescendência infinita de um Deus para com os homens! Mas como é então possível que estes não O amem e Lhe respondam com ingratidão?
II. Para nos mantermos sempre em união com Jesus Cristo, aproximemo-nos frequentemente e com as devidas disposições da Mesa Eucarística; e se és diretor de almas, exorta as tuas dirigidas à comunhão frequente. Costumava o Bem-aventurado João de Ávila dizer que os que censuram as pessoas que frequentam a comunhão fazem o papel do demônio, que tem grande ódio a este sacramento, porque dele as almas recebem o fervor para progredirem na perfeição. — Quando comungamos, afiguremo-nos que Jesus Cristo nos diz o que um dia disse à sua querida serva Margarida de Ypres: “Vê, minha filha, a bela união entre nós; pois, ama-me, fiquemos sempre unidos no amor e nunca mais nos separemos”.
Ah, meu Jesus! Eis o que Vos peço e quero sempre pedir-Vos na santa comunhão: Unidos fiquemos sempre, e jamais nos separemos. Sei que não vos separareis de mim, se não for eu o primeiro a me separar de Vós. Ai! Todo o meu medo é que no futuro venha eu a separar-me de Vós pelo pecado, como fiz outrora. Por piedade, não o permitais, ó meu amadíssimo Redentor: Ne permittas me separari a te. Até a morte, estarei sempre exposto a este perigo; ah! Conjuro-Vos, pelos merecimentos de vossa Paixão, deixai-me antes morrer do que cair nesta desgraça. Repito-o e Vos peço a graça de repeti-lo sempre: Não permitais que me separe de Vós! Não permitais que me separe de Vós!
Ó Deus de minha alma, amo-Vos, amo-Vos; quero amar-Vos sempre, e não amar senão a Vós. Protesto à face do céu e da terra, só a Vós quero e nada mais. Jesus meu, escutai-me, eu o repito: só a Vós quero e nada mais. Ó Mãe de misericórdia, Maria, intercedei neste momento por mim; obtende-me a graça de não me separar mais de Jesus, e não amar mais senão a Jesus.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 367-369)


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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A santa Missa dá a Deus uma honra infinita



Laudate eum secundum multitudinem magnitudinis eius – “Louvai (a Deus) segundo a multidAão da sua grandeza” (Sl 150, 2)
Sumário. Todas as honras que foram tributadas a Deus, e Lhe serão ainda tributadas por todas as criaturas, sem excetuar a divina Mãe, nunca poderão igualar a honra que Lhe é dado por uma única Missa, porquanto nesta é sacrificada a Deus uma vítima de valor infinito, que Lhe dá uma honra infinita. Que honra, pois, para nós, que se nos permite assistirmos cada dia e até mais de uma vez a este divino sacrifício! Ouçamos quantas Missas possamos, particularmente neste tempo do carnaval, para desagravar o Senhor dos ultrajes que recebe.



I. Nunca um sacerdote celebrará a santa Missa com a necessária devoção, nem nunca o cristão lhe assistirá com o devido respeito, se não tiverem de tamanho sacrifício a estimação que merece. “É certo”, diz o Concílio de Trento, “que o homem não faz ação mais sublime e mais santa do que a celebração da Missa” (1); mais, Deus mesmo não pode fazer que se cometa no mundo ação mais sublime do que esta. — A Missa não é somente uma recordação do sacrifício da Cruz, senão o mesmo sacrifício, porque em ambos o oferente é o mesmo, a mesma é a vítima, a saber: o Verbo incarnado. A diferença está unicamente no modo de se oferecer; porquanto o sacrifício da Cruz foi feito com derramamento de sangue, e o sacrifício da Missa é incruento. No primeiro Jesus Cristo morreu verdadeiramente, no segundo morre de morte mística.
Por isso todos os sacrifícios antigos, apesar da grande glória que deram a Deus, não foram senão uma sombra e figura de nosso sacrifício do altar. Todas as honras que jamais têm dado e darão a Deus os anjos com os seus louvores, os homens com as suas boas obras, penitências e martírios, e mesmo a divina Mãe com a prática das mais sublimes virtudes, nunca chegaram nem poderão chegar a glorificar o Senhor tanto como uma só Missa. A razão é que todas as horas das criaturas são honras finitas, mas a glória que Deus recebe no sacrifício do altar, no qual se Lhe oferece uma vítima de valor infinito, é uma glória igualmente infinita. — Numa palavra, a Missa é uma ação pela qual se tributa a Deus a maior honra que Lhe pode ser tributada. Pela Missa cumprimos o nosso dever primário, sublime e essencial, o de louvarmos a Deus segundo a sua grandeza: Laudate eum secundum multitudinem magnitudinis eius.
II. Se tu, que fazes a presente meditação, tens a grande dita de ser padre, emprega toda a diligência para celebrar este divino sacrifício com a maior pureza e devoção possíveis. Lembra-te de que a maldição fulminada contra aqueles que exercem as funções sagradas negligentemente, diz exatamente respeito aos sacerdotes que celebram a Missa de modo irreverente: Maledictus homo, qui facit opus Domini fraudulenter (2) — “Maldito o que faz a obra de Deus com negligência”.
Se não és padre, esforça-te por ouvir ao menos cada dia devotamente a Missa, mesmo à custa de algum incômodo; especialmente nestes dias de carnaval, para desagravar Jesus dos ultrajes que Lhe são feitos. — Santa Margarida de Cortona desejava ter para amar e louvar a Deus tantos corações e tantas línguas, quantas são as estrelas dos céus, as folhas das árvores, as gotas de água do mar. Mas o Senhor dignou-se dizer-lhe: “Consola-te; se ouvires devotamente uma única Missa, tributar-me-ás toda a glória que possas desejar e infinitamente mais”
Meu Deus, adoro a vossa majestade e grandeza infinita; comprazo-me com as vossas infinitas perfeições e quisera honrar-Vos, tanto quanto mereceis. Que honra Vos posso tributar eu, miserável pecador digno de mil infernos? “Eterno Pai, ofereço-Vos o sacrifício que o vosso dileto Filho fez de si mesmo sobre a cruz, e agora renova sobre o altar. Eu Vo-lo ofereço em nome de todas as criaturas em união com as Missas que já foram celebradas e ainda serão celebradas em todo o mundo, para Vos adorar e louvar como mereceis; para agradecer os vossos inúmeros benefícios; para aplacar a vossa ira, excitada por tantos pecados nossos; e dar-Vos uma satisfação digna, para Vos suplicar por mim, pelo mundo universo e pelas almas do purgatório.” (3)
— Ó Maria, minha Mãe, em vós repousou o Deus que se sacrifica sobre os nossos altares, ajudai-me a ouvir sempre (e celebrar) a Missa com a devida devoção.
Referências:

(1) Sess. 22, Decr. de obser. in celebr. Missae

(2) Jer 48, 10
(3) Indulg. de 3 anos uma vez por dia


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 254-257)


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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 28 - O Matrimônio


Catecismo Ilustrado - Parte 28

Os Sacramentos

O Matrimônio

1. O Matrimônio pode considerar-se como o contrato e como sacramento. Como contrato, é a união conjugal do homem e da mulher que os obriga a viver numa inseparável companhia.

2. Como sacramento, o Matrimônio é este mesmo contrato elevado por Jesus Cristo à dignidade de sacramento que dignifica e confere uma Graça especial aos que o celebram.

3. O sacramento do Matrimônio dá aos que o recebem dignamente e que são legitimamente casados virtude e Graça para viverem em paz e caridade, e para educar os filhos no santo temor de Deus.

4. Para que o Matrimônio seja perfeito e abençoado por Deus, os noivos devem: 1º estar em Graça de Deus; 2º saber bem a doutrina cristã; 3º ter boa intenção.

5. Ambos os noivos devem estar em estado de Graça, porque o Matrimônio é um sacramento dos vivos, e não pode ser recebido dignamente senão por quem estiver vivo na Graça de Deus.

6. Devem saber os noivos a doutrina cristã, porque os pais de família têm a obrigação de ensiná-la aos seus filhos e subordinados, e não a podem ensinar sem a saberem bem.

7. As principais obrigações dos que se casam são duas: 1º viver em mútuo amor e união conjugal assim como Jesus Cristo com a sua Igreja, 2º educar bem os seus filhos.

8. O Matrimônio nulo é aquele em que os casados verdadeiramente não estão casados, ainda que fizessem a cerimônia da Igreja.

9. O Matrimônio é nulo por causa dos impedimentos; há 2 tipos de impedimentos no Matrimônio: uns tornam nulo o Matrimônio. Os outros sem o tornar inválido proíbem sob pena do pecado. Os impedimentos mais frequentes que invalidam o Matrimônio são o parentesco até o quarto grau de consanguinidade ou de afinidade, parentesco espiritual que vem do Batismo entre padrinho ou madrinha e a sua afilhada ou o seu afilhado.
10. A Igreja manda publicar antes da cerimônia os banhos, afim de descobrir os impedimentos.

11. A Igreja proíbe casar com os hereges e com os excomungados, durante a excomunhão.

12. Quem souber em segredo algum impedimento tem obrigação de o declarar ao pároco, debaixo de pecado mortal e pena de excomunhão, não havendo razão grave que o dispense.

13. Há um estado que é mais perfeito e mais agradável a Deus do que o Matrimônio, que é a virgindade cristã.

14. Casar em estado de pecado mortal é um sacrilégio que atrai a maldição de Deus sobre as famílias.

15. O Matrimônio é indissolúvel; só se dissolve pela morte de um dos desposados. Nosso Senhor disse no Evangelho que “o homem não pode separar o que Deus uniu”. (Mat. XIX,6)

Explicação da gravura

16. A parte principal da gravura representa o casamento de Nossa Senhora com São José, que tem na mão uma açucena. Quando Maria chegou à idade de se casar, o sumo sacerdote reuniu todos os jovens da família de David que desejavam desposá-l’A, e deu a cada um um ramo bento dizendo que escrevessem o seu nome. Depois colocou os ramos no altar pedindo a Deus que manifestasse a sua vontade. Então se viu que só o ramo de José estava coberto de folhagem e flores. À direita vê-se um jovem que, triste por não ter sido escolhido, quebrou o ramo que lhe dera o sacerdote.

17. Na parte superior, à esquerda, vêem-se Tobias e Sara preparando-se para o casamento com fervorosas orações. O anjo Rafael expulsa o demônio que matara os sete maridos de Sara pelas suas más disposições para o Matrimônio. À direita vê-se Adão e Eva a quem Deus abençoou e disse: crescei e multiplicai-vos.

18. Na parte inferior vê-se um casamento católico.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Inefável dignidade de Maria Santíssima



De qua natus est Iesus, qui vocatur Christus – “Da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mt 1, 16)
Sumário. É tão grande a dignidade de Maria como Mãe de Jesus Cristo, que só Deus com a sua sabedoria infinita a pode compreender; mas toda a sua onipotência não pode fazer outra maior. Façamos um ato de viva fé acerca desta divina maternidade; alegremo-nos com a Santíssima Virgem, e aumentemos a nossa confiança nela, porquanto de certo modo nos é devedora da sua altíssima dignidade.
I. Para compreender a altura a que Maria foi sublimada, mister se faria compreender quão sublime é a alteza e grandeza de Deus. Bastará dizer que Deus fez a Santíssima Virgem mãe do seu Filho para ficar entendido que Deus não a pode elevar mais alto do que a elevou. Bem disse Santo Arnaldo Carnotense que Deus, fazendo-se Filho da Virgem, sublimou-a acima de todos os Santos e Anjos. Ainda que: em verdade, ela seja infinitamente inferior a Deus: ao mesmo tempo está imensa e incomparavelmente acima de todos os espíritos celestiais, como fala Santo Efrém. Por este motivo lhe diz Santo Anselmo: Senhora, vós não tendes quem vos seja igual, porque tudo quanto há está acima ou abaixo de vos; só Deus vos é superior, e todos os mais vos são inferiores.
Em uma palavra, é tão grande a dignidade da Virgem, que, se bem que Deus só com a sua sabedoria infinita a possa compreender, todavia, no dizer de São Boaventura, com toda a sua onipotência não pode fazer outra maior — Ipsa est qua maiorem facere non potest Deus — Quem considerar isto, deixará de estranhar porque os santos Evangelistas, que tão difusamente registram os louvores de um João Batista, de uma Madalena, tão escassos se mostram em descrever as grandezas de Maria. Tendo dito que desta exímia Virgem nasceu Jesus: de qua natus est Iesus, não julgaram necessário acrescentar outra coisa; porque neste seu maior privilégio se acham incluídos os demais. Qualquer titulo que se lhe dê, nunca chegará a honrá-la tanto quanto o de Mãe de Deus.
Façamos um ato de viva fé na maternidade divina de Maria, alegremo-nos com ela, agradeçamos a Deus por ela e protestemos que estamos prontos a dar a nossa vida em defesa desta verdade, como de todas as outras que lhe dizem respeito.
II. Diz Santo Anselmo que é mais pelos pecadores do que pelos justos que Maria foi sublimada a Mãe de Deus; do mesmo modo que Jesus disse de si próprio que veio para chamar, não os justos, senão os pecadores. A divina Mãe tem, pois, uma certa obrigação de socorrer os miseráveis que se lhe recomendam, porquanto é a eles que é, por assim dizer, devedora de sua altíssima dignidade: Totum quod habes, peccatoribus debes (1) — Congratulemo-nos, portanto, com Maria, sim; mas congratulemo-nos também com nós mesmos e ponhamos nela toda a nossa esperança.
 Ó Mãe de Deus, eis aqui a vossos pés um miserável pecador, que a Vós recorre e em Vós confia. Não mereço que lanceis sobre mim o vosso olhar; mas sei que, vendo vosso Filho morto para a salvação dos pecadores, tendes um extremo desejo de ajudá-los. Ó Mãe de misericórdia, vêde as minhas misérias e tende piedade de mim. Ouço que todos vos chamam refúgio dos pecadores, esperança dos que desesperam, sêde também o meu refúgio, a minha esperança, o meu auxilio. Deveis salvar-me com a vossa intercessão. Socorrei pelo amor de Jesus Cristo. Estendei a mão a um pobre caído que se recomenda a vós. Sei que é a vossa consolação ajudar um pecador, quando é possível; ajudai-me, pois, já que o podeis fazer. Pelos meus pecados perdi a graça divina e a minha alma. Entrego-me em vossas mãos; dizei-me o que hei de fazer para de novo entrar na graça do meu Senhor; quero fazê-lo sem demora. Ele me envia a vós, para que me socorrais, quer que eu me refugie na vossa misericórdia, a fim de que eu me salve não somente pelos méritos de vosso Filho, mas também pelas vossas orações. A vós recorro; e vós rogai por mim. Mostrais como sabeis valer a quem confia em vós. Assim espero, assim seja (2).
Referências:
(1) Guilh. Paris.

(2) Quem recitar esta oração em dia de Domingo, acrescentando três Ave Marias, em reparação das blasfêmias contra a B. Virgem, ganha 300 dias de indulgência.
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 23-25)



Fonte:

sábado, 21 de outubro de 2017

Morte do justo


Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus. – “É preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos” (Sl 115, 15)

PONTO I

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa.
“Preciosa, — disse São Bernardo — porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida”.
E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos.
Os mundanos, desejosos de longa vida — diz Sêneca — que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver — exclama Santo Agostinho — senão continuar a sofrer? A vida presente — disse Santo Ambrósio — não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio — mais parece alívio o morrer do que castigo.
Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar.
“Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Desde hoje — disse o Espírito Santo — que descansem de seus trabalhos” (Ap 14,13).
Os tormentos que afligem os pecadores na hora da morte não afligem os Santos.
“As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e não os atingirá o tormento da morte” (Sb 3,1)
Não temem os Santos aquela ordem de sair desta vida, que tanto amedronta aos mundanos, nem se afligem por terem de deixar os bens da terra, porque nunca apegaram a eles o seu coração.
“Deus do meu coração — repetiram sempre; Deus meu por toda a eternidade” (Sl 72,26).
Sois felizes, — escrevia o Apóstolo a seus discípulos, que tinham sido despojados de seus bens por terem confessado a Cristo. — Suportastes essa perda com alegria, sabendo que vos esperava patrimônio mais excelente e duradouro (Hb 10,34). Não se afligem os Santos por terem de deixar honras mundanas, pois sempre as desprezaram e as tiveram na conta do que são efetivamente: fumo e vaidade, e somente estimaram a honra de amar a Deus e de ser por Ele amados. Não se afligem por terem de deixar seus parentes, porque somente os amaram em Deus, e, ao morrer, os deixam recomendados àquele Pai celestial que os ama mais do que eles; e esperando salvar-se, creem que melhor lhes poderão ajudar lá no céu do que ficando na terra. Em suma: todos aqueles que disseram sempre durante a vida Meu Deus e meu tudo, repetem-no ainda com maior consolo e ternura no momento da morte.
Quem morre no amor de Deus, não se inquieta com as dores que acompanham a morte, antes se compraz nelas, considerando que a vida vai-se acabar e que já não terá mais a sofrer por Deus nem a testemunhar-lhe novas provas de amor. Assim, com afeto e paz, lhe oferece os últimos restos da sua vida e consola-se, unindo o sacrifício de sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós na cruz a seu eterno Pai. Desta maneira morre satisfeito, dizendo:
“Em seu seio dormirei e descansarei em paz” (Sl 4,8).
Que felicidade morrer entregando- se nos braços de Cristo, que nos amou até à morte, e que quis sofrer morte tão cruel para alcançar-nos morte doce e consoladora!

AFETOS E SÚPLICAS

Ó amado Jesus, que para dar-me morte feliz quisestes sofrer morte crudelíssima no Calvário!
Quando vos tornarei a ver?… A primeira vez que vos verei será quando me julgardes, no momento de expiar. Que vos direi então?… E vós, que me direis?… Não quero esperar até que chegue este instante para pensar nisso; quero meditá-lo desde já.
Dir-vos-ei: “Senhor: vós, amado Redentor meu, morrestes por mim…
Houve tempo em que vos ofendi, e fui ingrato para convosco e não merecia perdão. Mas, ajudado por vossa graça, procurei emendar-me, e no resto de minha vida chorei meus pecados, e vós me perdoastes.
Perdoai-me de novo agora que estou a vossos pés e outorgai-me vós mesmo a absolvição geral de minhas culpas. Não merecia mais amar-vos, por ter desprezado vosso amor. Mas vós, Senhor, por vossa misericórdia atraístes meu coração, que, se não vos tem amado como mereceis, amou-vos sobre todas as coisas, deixando tudo para vos agradar… Que me direis agora?… Verdade é que a glória de vos contemplar no vosso reino é altíssima distinção de que não sou digno; mas não poderei viver afastado de vós, especialmente agora que me mostrastes a vossa excelsa formosura. Peço-vos, pois, o paraíso, não para poder gozar mais, mas para melhor vos amar. Nem quero tampouco entrar nessa pátria de santidade e ver-me entre aquelas almas puras, manchado como estou agora por minhas culpas. Mandai que antes me purifique, mas não me expulseis para sempre de vossa presença… Basta que algum dia, quando vos aprouver, me chameis ao paraíso para que ali cante eternamente as vossas misericórdias. Por agora, meu amado Jesus, dai-me vossa bênção e garanti-me que sou vosso, que sereis sempre meu, que

vos amarei e me amareis para sempre… Aparto-me agora de vós, Senhor, para ir às chamas purificadoras; mas vou contente, porque ali hei de amar-vos, Redentor meu, meu Deus e meu tudo…
Vou contente, sim, mas sabei que, enquanto estiver longe de vós, essa separação temporal será minha maior pena. Contarei, Senhor, os instantes até que me chameis… Tende compaixão de uma alma que vos ama com todas as suas forças, e que suspira por ver-vos para melhor vos amar”. Assim, meu Jesus, espero então falar-vos. Até lá, vos peço a graça de viver de modo que possa dizer-vos então o que agora acabo de pensar. Concedei-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor… e ajudai-me.
Ó Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus por mim!

PONTO II

Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte (Ap 21,4). Na hora da morte, o Senhor limpará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio dos trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma amante de seu Deus, quando sente a proximidade da morte, será pensar que em breve estará livre de tanto perigo de ofender a Deus, como há no mundo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é uma guerra contínua contra o inferno, na qual sempre corremos o risco de perder a Deus e a nossa alma.
Disse Santo Ambrósio que neste mundo caminhamos constantemente entre redutos do inimigo, que estende laços à vida da graça.
Este perigo fez exclamar a São Pedro de Alcântara, quando se achava agonizando:
“Retirai-vos, meu irmão, — dirigindo-se a um religioso que, ao prestar-lhe serviço, o tocava com veneração — retirai-vos, pois vivo ainda e por consequência estou em perigo de me perder”
Por este mesmo motivo se regozijava Santa Teresa cada vez que ouvia soar a hora do relógio; alegrava-se por ter passado mais uma hora de combate, dizendo:
“Posso pecar e perder a Deus em cada instante de minha vida”.
É por isto que todos os Santos sentiam consolo ao saberem que iam morrer: pensavam que em breve se acabariam os combates e os perigos e teriam assegurada a inefável dita de jamais poder perder a Deus. Lê-se, na vida dos Padres, que um deles, de idade avançada, na hora da morte, ria-se enquanto seus companheiros choravam. E como lhe perguntassem o motivo de seu contentamento, respondeu:
“E por que é que chorais, sendo que vou descansar de meus trabalhos?”.
Também Santa Catarina de Sena disse ao morrer:
“Consolai-vos comigo, porque deixo este vale de lágrimas e vou para a pátria da paz”.
Se alguém — disse São Cipriano — habitasse numa casa cujas paredes ameaçassem ruínas, cujo pavimento e teto estremecessem, quanto não desejaria sair dela?… Nesta vida tudo ameaça ruína da alma: o mundo, o inferno, as paixões, os sentidos rebeldes, tudo nos leva ao pecado e à morte eterna.
“Quem me livrará — exclamava o Apóstolo — deste corpo de morte?” (Rm 7,24).
Que alegria sentirá a alma quando ouvir:
“Vem, minha esposa, sai do lugar do pranto, da cova dos leões que te quiseram devorar e fazer perder a graça divina” (Ct 4,11).
Por isso, São Paulo, desejando morrer, dizia que Jesus Cristo era a sua única vida, e que estimava a morte como o maior tesouro que pudesse ganhar, já que por meio dela alcançaria a vida que jamais tem fim (Fp 2,21).
Grande obséquio faz Deus à alma em estado de graça, retirando-a deste mundo, onde poderia transviar-se e perder a amizade divina (Sb 4,11). Feliz aquele que nesta vida está unido a Deus; mas, como o navegante não pode dizer-se seguro enquanto não chega ao porto e ao abrigo da tormenta, assim uma alma só pode ser verdadeiramente feliz, quando sai da vida na graça de Deus. Louva a ventura do navegante que chegou ao porto — disse Santo Ambrósio… Se o navegante se alegra quando, após tantos perigos, está a chegar ao porto desejado, quanto mais se não deve alegrar aquele que está próximo a assegurar sua eterna salvação? Ademais, neste mundo não podemos viver sem culpas, ao menos leves; porque sete vezes cairá o justo (Pr 21,16). Mas aquele que sai desta vida, cessa de ofender a Deus. Que é a morte — disse o mesmo Santo — senão o sepulcro dos vícios?. Mais um motivo para os que amam a Deus desejarem vivamente a morte. O venerável P. Vicente Caraffa consolava-se ao morrer, dizendo: Terminando minha vida, acabam minhas ofensas a Deus. E o já citado Santo Ambrósio dizia: Para que desejamos mais longa vida, se, quanto mais longa for, de maior peso de pecado nos carrega? O que falece na graça de Deus chega ao estado feliz de não saber nem poder ofendê-lo mais. O morto não sabe pecar. Eis o motivo por que o Senhor louva mais os mortos que os vivos, ainda que sejam santos (Ec 4,2). Não faltou quem ordenasse que, à hora da morte, lha anunciassem por estes termos: Alegra-te, que chegou o tempo em que não mais ofenderás a Deus.

AFETOS E SÚPLICAS

“Em tuas mãos encomendo meu espírito. Tu me remiste, Senhor, Deus da Verdade” (Sl 30,6). Ó doce Redentor meu, que seria de mim se me tivésseis entregado à morte quando me achava afastado de vós?…
Estaria no inferno, onde não vos poderia amar. Agradeço-vos o não me terdes abandonado, e me concederdes tantas graças para atrair o meu coração. Arrependo-me de vos ter ofendido. Amo-vos sobre todas as coisas. Rogo-vos que sempre me façais conhecer o mal que cometi, desprezando-vos, e o grande amor que merece vossa infinita bondade.
Amo-vos, e, se assim vos apraz, desejo morrer cedo para evitar o perigo de tornar a perder vossa santa graça, e para estar seguro de vos amar eternamente. Dai-me, pois, ó amado Jesus, durante o tempo que me resta de vida, força e ânimo para vos servir antes que chegue a morte. Dai-me força para vencer a tentação e as paixões, sobretudo aquelas que na vida passada mais me levaram a ofender-vos. Dai-me paciência para sofrer as enfermidades e as ofensas que do próximo receber. Eu, por vosso amor, perdoo a todos os que me ofenderam, e vos suplico que lhes outorgueis as graças que desejarem. Dai-me força para que seja mais diligente em evitar as faltas veniais que a miúdo cometo. Ajudai-me, meu Salvador, tudo espero de vossos méritos…
Deposito toda a minha confiança em vossa intercessão, ó Maria, minha mãe e minha esperança!

PONTO III

A morte não é somente o fim dos nossos trabalhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo. Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2).
São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus.
Disse São João Crisóstomo que, se um rei tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, os mandasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!… Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que David dizia:
“Livrai minha alma da prisão” (Sl 141,8).
E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino-Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cárcere desta vida:
“Agora, Senhor, despede o teu servo…” (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, — pede ser despedido, como se estivesse preso à força”.
Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia:
“Tenho desejo de me ver livre desta carne, e estar com Cristo” (Fl 3,32).
Quanta alegria sentiu o copeiro do Faraó ao saber de José que dentro em pouco sairia da prisão e voltaria ao exercício de seu posto. E uma alma que ama a Deus não se regozijará ao pensar que em breve sairá da prisão deste mundo para ir gozar a Deus? Enquanto vivemos unidos ao corpo, estamos impedidos de ver a Deus, e como em terra estranha, fora da pátria. Com razão disse São Bruno que a nossa morte não se deve chamar morte, senão vida.
Daí vem o chamar-se nascimento a morte dos Santos, porque nesse instante nascem para a bem-aventurança eterna, que não terá fim.
“Para o justo — disse Santo Atanásio — não há morte, apenas trânsito, porque, para ele, morrer não é outra coisa que passar para a eternidade feliz”.
“Ó morte amável! — exclama Santo Agostinho — quem não tem te desejará, pois és fim dos trabalhos, termo das angústias, princípio do descanso!”
E com instância pedia: Oxalá morresse, Senhor, para vos poder ver! O pecador teme a morte — diz São Cipriano, — porque da vida temporal passará à morte eterna, mas não aquele que, estando na graça de Deus, há de passar da morte à vida. Na vida de São João, o Esmoler, se

refere que um homem rico dera ao Santo esmolas avultadas, a fim de pedir este a Deus vida longa para o único filho que ele tinha. Mas o moço morreu pouco tempo depois. Como o pai se lamentasse dessa morte inesperada, Deus lhe enviou um anjo que lhe disse:
“Pediste longa vida para teu filho, pois saibas que já está no céu gozando da eterna felicidade.”
Tal é a graça que vos alcança Jesus Cristo, segundo a promessa que foi feita pelo profeta Oséias:
“Ó morte, eu hei de ser a tua morte” (Os 13,14).
Cristo, morrendo por nós, fez com que a morte se transformasse em vida. Aqueles que conduziram ao suplício o mártir São Piôncio, perguntaram-lhe maravilhados como podia ir tão alegremente para a morte.
“Ah! — respondeu o Santo, — estais enganados! Não vou para a morte e sim para a vida”
Do mesmo modo também a mãe do jovem Sinforiano exortava seu filho quando estava para sofrer o martírio:
“Ó meu filho, não vão tirar-te a vida, senão para convertê-la em outra melhor!”

AFETOS E SÚPLICAS

Ó Deus de minha alma! Ofendi-vos em minha vida passada, afastando- me de vós; mas vosso Divino Filho vos honrou na cruz com o sacrifício de sua vida. Em consideração dessa honra que vos tributou vosso Filho amantíssimo, perdoai-me as injúrias que vos fiz. Arrependo- me, Senhor, de vos ter ofendido, e prometo amar somente a vós doravante. De vós espero minha eterna salvação, assim como reconheço que todos os bens que possuo, houve-os de vossa graça, pois todos são dons de vossa bondade. “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10). Se, pelo passado, vos ofendi, espero honrar-vos eternamente, louvando vossa misericórdia… Sinto vivíssimo desejo de vos amar… Sois vós, Senhor, que mo inspirais, e vos dou, meu amor, fervorosas graças.
Continuai, continuai a ajudar-me como agora, que espero ser vosso, inteiramente vosso. Renuncio aos prazeres deste mundo. Que maior gozo, Senhor, posso ter que comprazer-me em vós, meu Senhor, que sois tão amável e que tanto me tendes amado? Só vos peço amor, ó Deus de minha alma! Amor e sempre amor espero pedir-vos, até que, morrendo em vosso amor, alcance o reino do verdadeiro amor, onde, sem o pedir, de amor me abrase, não cessando de vos amar nem um momento por toda a eternidade, e com todas as minhas forças.
Maria, minha Mãe, que tanto amais a Deus e tanto desejais que seja amado, fazei que muito o ame nesta vida, a fim de que possa amá-lo para sempre na eternidade!
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Preparação para a Morte – Considerações sobre as verdades eternas. Tradução de Celso Alencar em pdf, 2004, p. 77-89)

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