quinta-feira, 30 de novembro de 2017

NOVENA À IMACULADA CONCEIÇÃO – PRIMEIRO DIA

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ORAÇÃO PARA TODOS OS DIAS 
Deus vos salve, Maria, cheia de graça e bendita mais que todas as mulheres, Virgem singular, Virgem soberana e perfeita, eleita por Mãe de Deus e preservada por Ele de toda culpa desde o primeiro instante de sua Concepção:

Da confiança em Deus no conhecimento das nossas misérias

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Não somente a alma que conhece a sua miséria pode ter uma grande confiança, em Deus, mas nem mesmo pode ter uma grande confiança, sem conhecer a sua miséria, porque este conhecimento e confissão da nossa miséria conduz-nos naturalmente para Deus. É por isso que os grandes santos, como Jó, Davi, e outros, começavam as suas orações pela confissão da sua miséria e indignidade, de maneira que é belíssima coisa o reconhecer-se pobre, vil, abjeto e indigno do comparecer à presença de Deus.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Maria Santíssima conduz os seus servos ao paraíso


Qui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino – “Aquele que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação” (Pv 8, 35)
Sumário. De que serve inquietarmo-nos com as sentenças das escolas sobre a predestinação para a glória? Quem é verdadeiramente servo de Maria está certo de que está escrito no livro da vida e se salvará; porque de todos aqueles que perseveram na sua devoção a esta bem-aventurada Mãe, ninguém se perdeu. Só se condena aquele que não recorre a ela ou deixa de ser seu servo. Procuremos, portanto, entrar sempre mais e permanecer nesta arca da salvação; e cada vez que nos for possível, procuremos, por palavras e exemplos, fazer que outros também ali entrem.
I. Oh! Que belo sinal de predestinação têm os servos de Maria! A santa Igreja aplica a esta bem-aventurada Mãe as palavras da Sabedoria divina e lhe faz dizer: In omnibus requiem quaesivi et in haereditate Domini morabor (1) — “Em toda parte busquei repouso e morarei na herança do Senhor”. A Santíssima Virgem, pelo amor que tem para com os homens, procura fazer que em todos reine a sua devoção. Muitos ou não a recebem, ou não a conservam; porém, bem-aventurado aquele que a recebe e a conserva, porque nesta devoção habita em todos aqueles que são a herança do Senhor, isto é, que irão ao céu louvá-Lo eternamente.
Qui audit me, non confundetur (2) — “Aquele que me ouve, não será confundido”. De todos aqueles que recorreram a esta Rainha de misericórdia, nenhum ficou confundido. A experiência de todos os dias demonstra que aqueles que operam por ela, que a honram, e especialmente aqueles que com palavras e exemplos procuram que outros também a amem, nunca cairão em pecado e viverão eternamente. Numa palavra, diz Maria Santíssima: Aquele que me achar, achará a vida, e haverá do Senhor a salvação. Ao contrário, aquele que de mim se afastar, achará infalivelmente a morte; porque ficará privado daqueles socorros que não se dispensam aos homens senão pelo meu intermédio. — É assim que a santa Igreja, de acordo com todos os Doutores, faz a divina Mãe falar, para conforto dos seus servos. — De que serve, pois, inquietarmo-nos com as sentenças das Escolas, sobre se a predestinação para a glória é anterior ou posterior à previsão dos merecimentos? Se estamos ou não escritos no livro da vida? Se formos verdadeiros servos de Maria, e alcançarmos a sua proteção, seguramente nele havemos de ser inscritos e nos salvaremos.
II. Santa Maria Madalena de Pazzi viu no meio do mar uma pequena nau, em que estavam embarcados todos os devotos de Maria, e ela, fazendo ofício de piloto, seguramente os conduzia ao porto do céu. Procuremos, pois, entrar nesta nau bem aventurada da proteção de Maria, sejamos devotos verdadeiros da Virgem, pois assim estaremos seguros de alcançar o reino do céu.
Não nos contentemos com amar, só por nós, esta Senhora amabilíssima; mas sempre que nos for possível, em público ou em particular, esforcemo-nos para que ela seja também amada dos outros. Fazendo isso, exerceremos um apostolado muito frutuoso, pois que todos aqueles que por nosso intermédio abraçarem a devoção para com Maria Santíssima, serão depois os nossos eternos companheiros no céu.
Ó Rainha do paraíso, que assenta acima de todos os coros angélicos, ocupais o primeiro lugar junto do trono de Deus! Do fundo deste vale de lágrimas, eu, miserável pecador, vos saúdo, e peço vos digneis volver para mim vossos olhos cheios de misericórdia. Vêde, ó Maria, em que perigos me acho e acharei enquanto viver nesta terra, de perder minha alma, o paraíso e meu Deus. Em vós, ó minha Rainha, hei posto todas as minhas esperanças. Amo-vos, e suspiro pelo momento de vos ir ver e louvar no paraíso. Ah, Maria! Quando chegará o dia em que me verei já salvo aos vossos pés? Quando beijarei essas mãos que me dispensaram tantas graças?
É verdade, ó minha Mãe, que muito ingrato vos tenho sido durante a minha vida; mas se chego ao paraíso, lá vos amarei a cada instante durante toda a eternidade, e repararei a minha ingratidão passada por bênçãos e ações de graças sem fim. A Deus agradeço por me dar esta confiança no sangue de Jesus Cristo e na vossa poderosa intercessão. Assim esperam os vossos verdadeiros servos e nenhum foi frustrado na sua esperança. Também eu não o serei.
— Ó Maria, suplicai a Jesus, vosso divino Filho, — assim como eu também o faço pelos merecimentos da sua Paixão, — que confirme e aumente sempre mais em mim estas esperanças. Amém.
Referências:
(1) Eclo 24, 11
(2) Eclo 24, 30


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 331-334)

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Solicitude maternal de Maria para com Jesus Cristo


Numquid oblivisci potest mulier infantem suum, ut non misereatur filio uteri sui? – “Pode acaso uma mulher esquecer-se de seu filhinho, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas?” (Is 49, 15)
Sumário. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe para com seus filhos, o que dizer das que a Santíssima Virgem teve para com Jesus Cristo, seu Filho e juntamente seu Criador? Se quisermos imitar a divina Mãe, nós também podemos ter as mesmas solicitudes para com nosso Senhor, não somente na pessoa do próximo que o represente, senão para com Ele mesmo, visto que está realmente presente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Visitemo-Lo amiudadas vezes e recebamo-Lo em nossos corações.
I. Se em geral são indizíveis as solicitudes de uma mãe qualquer para com seu filho, o que dizer então das que Maria teve para com o Menino Jesus, visto que em seu coração se uniu o amor natural mais perfeito ao supremo amor sobrenatural? Tanto que viu Jesus nascido na gruta de Belém, abraçou-O com ternura maternal, tomou-O nos braços, cobriu-O de beijos, e, segundo a revelação feita a Santa Brígida, procurou aquece-Lo com o calor do seu rosto e do seu peito. Em seguida, como refere São Lucas, envolveu-O em paninhos (1). Ó Deus, que grande estima devia a Santa Virgem conceber da pobreza, da humildade, da obediência, ao contemplar o Filho de Deus que estendia as suas mãozinhas para se deixar enfaixar!
Depois de O ter enfaixado, a divina Mãe chega o santo Menino a seu peito virginal para O alimentar com o seu leite. Enquanto assim O alimentava, repetia consigo, cheia de assombro: Ó caridade, ó amor incompreensível de um Deus para com os homens! — Que terão dito os anjos do paraíso vendo o Filho do Pai Eterno feito por nosso amor tão débil, que precisa de um pouco de leite para conservar a vida?
A pobre Virgem não possui penas nem lã a fim de preparar uma caminha para seu Filho. Por isso ajunta um pouco de palha numa manjedoura, onde O deitou. Apesar da dureza da cama e do rigor do frio, Jesus adormece no meio de tantas incomodidades, porque a necessidade vence a natureza. Mas nem por isso Maria descansa. Prostra-se diante daquele rude berço, contempla o rosto do divino Menino, adora-O, e não deixa de fazer continuamente atos de amor a seu Filho. — Unamos o nosso amor e as nossas adorações com o amor e as adorações do coração de Maria. Se nos tempos passados imitáramos o cruel Herodes, perseguindo até à morte o divino Filho e afligindo sua santíssima Mãe, peçamos humildemente a ambos que nos queiram perdoar.
II. As solicitudes maternais de Maria não se limitaram à infância de Jesus; continuaram, ou antes, iam aumentando na sua adolescência e idade viril. Com efeito, quanta aflição, quanta fadiga não sofreu a pobre Mãe durante a longa demora de Jesus no Egito, na volta para a Galiléia, na perda do Filho no templo, e durante os três anos do seu apostolado!
Considerando essas solicitudes maternais, sentis o vosso coração abrasado de amor a Jesus; experimentais uma santa inveja a São José, que foi o companheiro fiel da divina Mãe, e dizeis convosco: Oxalá tivesse a ventura de servir a meu bom Redentor! Consolai-vos; podeis ter a ventura de servir a Jesus, praticando a caridade para com o próximo, porquanto Jesus Cristo disse: Quandiu fecistis uni ex his fratribus meis minimis, mihi fecistis (2) — “Tudo que fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”. — Além disso, a fé ensina-vos que Jesus Cristo mora pessoalmente em nossas igrejas, dentro do Sacrário. Mostrai-vos, pois, solícitos para com o Santíssimo Sacramento, ornando os altares, visitando-O amiudadas vezes, propagando tão bela devoção e, sobretudo, recebendo-O dentro de vosso peito com digna preparação e ação de graças. Para este fim, cada vez que receberdes a santa Comunhão, e muito mais, se sois sacerdote, quando subirdes ao altar para celebrar a santa Missa, imaginai que a divina Mãe vos diz o que certo dia o Bem-aventurado João de Ávila disse a uma pessoa pouco devota: Por piedade, tratai melhor a Jesus Cristo, porque é filho de um bom Pai.
Ó Maria, agradeço-vos, tanto em meu nome como no de todo o gênero humano, toda a solicitude que tivestes para com o nosso divino Redentor Jesus e proponho seguir sempre os vossos santos exemplos. Pelo amor do mesmo Jesus Cristo, concedei-me a graça de vos ser fiel.
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Se entre a Epifania e este sábado houver um dia sem meditação própria, tome-se a do dia entre 2 e 5 de Janeiro no qual se celebrou a festa do Santíssimo Nome de Jesus.

Referências:
(1) Lc 2, 7

(2) Mt 25, 40

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 133-136)

Fonte:

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 32 - 2º Mandamento de Deus: Não invocar o Santo Nome de Deus em vão



Catecismo Ilustrado - Parte 32

Os Mandamentos

2º Mandamento de Deus: Não invocar o Santo Nome de Deus em vão

1. Deus, neste mandamento, manda-nos honrar o Seu santo nome e proíbe-nos que o profanemos.

2. Podemos honrar o santo Nome de Deus de três modos: pronunciando-O com veneração e respeito, louvando-O, e invocando-O nas nossas aflições.

3. Profana-se o santo nome de Deus de cinco modos: 1º pela irreverência; 2º pelos maus juramentos; 3º pela blasfêmia; 4º rogando pragas; 5º quebrando os votos.

4. O nome de Deus significa aqui a omnipotente e sempiterna majestade de Deus uno e trino, o próprio Deus.

5. Peca-se por irreverência ao santo nome de Deus quando se pronuncia sem respeito ou com desprezo.

6. Jurar é tomar Deus por testemunha do que se afirma ou promete.

7. Quando se jura pelas criaturas, também se toma a Deus por testemunha, porque, como as criaturas são obra de Deus, de certo modo jura-se por Deus, quando se jura pelas suas criaturas.

8. Há duas espécies de juramento, o afirmativo e o promissório. Afirmativo é quando tomamos a Deus por testemunha para confirmar um fato presente ou passado. Promissório, quando prometemos com juramento; fazer ou não fazer uma coisa.

9. Este mandamento não proíbe toda a casta de juramento; somente proíbe o jurar em vão.

10. Juramos em vão quando faltamos aos juramentos ou à verdade, ou à justiça, ou ao juízo.

11. Faltamos à verdade nos nossos juramentos, quando sabemos que é falso, ou ao menos duvidamos se é falso isso que juramos. Aqueles que juram sem intenção de cumprir o que prometem, também juram sem verdade, porque mentem, fazendo crer que têm intenção de cumprir o que prometem, e não têm.

12. Juramos sem justiça quando se juram coisas injustas e más. Quando juramos fazer uma coisa má não estamos obrigados a cumprir o juramento; antes, se o cumpríssemos, faríamos um novo pecado.

13. Falta aos nossos juramentos a seriedade, quando juramos sem que haja necessidade de jurar, ou por coisas vãs e inúteis.
14. O crime de quem jura falso chama-se perjúrio, e o que jura falso chama-se perjuro.

15. As pragas são uma espécie de juramento, se invocamos o nome de Deus, ou clara, ou indiretamente; de outro modo não o são; mas rogar pragas é sempre pecado, porque as pragas são imprecações sempre contrárias à caridade.

16. O juramento falso é um grande pecado, porque jurando assim fazemos a Deus uma injúria gravíssima, tomando-o por testemunha duma mentira.

17. Fazer juramentos é permitido nas circunstâncias graves, como quando formos chamados à Justiça. Então o juramento deve fazer-se com profundo respeito, isto é, com intenção de honrar a Deus como sendo a mesma verdade.

18. Quando prometemos alguma coisa com juramento, estamos duplamente obrigados por justiça, porque é um dever de justiça cumprir o prometido; estamos obrigados por religião, porque é um dever de religião cumprir o que foi prometido com juramento.

Explicação da gravura

19. A parte superior representa São Pedro no pátio de Caifás, negando a Jesus diante dos soldados e dos criados, afirmando com juramento que não conhecia aquele homem.

20. A parte inferior direita representa Esaú jurando em vão sem necessidade, e cedendo assim o seu direito de primogênito (o morgado) a Jacob por um prato de lentilhas que este tinha guisado.

21. Na parte inferior esquerda vêem-se sete homens crucificados por causa dum juramento violado por Saul, que matou os Gabaonitas contrariamente à promessa e ao juramento de Josué, quando tomara posse da terra de Canaã.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A parábola do joio e a conduta de Deus para com os pecadores


Colligite primum zizania, et alligate ea in fasciculos ad comburendum– “Colhei primeiro o joio, e atai-o em feixes para o queimar” (Mt 13, 30)
Sumário. O joio que cresce no meio do bom trigo é figura dos pecadores, que pela benignidade divina vivem juntamente com os justos no campo da Igreja Católica. Mais ai daqueles, se continuarem obstinados no pecado e deixarem passar o tempo de misericórdia! Chegará o dia da colheita, isso é, do juízo, e então os anjos separarão os maus dos bons, para levarem a estes ao paraíso e lançarem aqueles no fogo do inferno, onde serão atormentados por toda a eternidade.
I. “O reino dos céus”, diz Jesus Cristo no Evangelho deste dia, “é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. Mas, quando dormiam os homens, veio o seu inimigo e sobressemeou o joio no meio do trigo, e foi-se. Tendo, porém, crescido a erva e dado fruto, então apareceu também o joio. E chegando-se os servos do pai de família, disseram-lhe: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde, pois, lhe veio o joio? Disse-lhes ele: Um homem inimigo fez isso. E os servos disseram-lhe: Queres que vamos e o apanhemos? Ele disse: Não! Não seja que apanhando o joio arranqueis juntamente com ele o trigo. Deixai crescer um e outro até a ceifa, e no tempo direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio, e ataio em molhos para o fogo; mas o trigo recolhei-o no meu celeiro.”
Nesta parábola vê-se de um lado a paciência do Senhor para com os pecadores, e por outro o seu rigor para com os obstinados. Diz Santo Tomás que todas as criaturas, por natural instinto, quereriam castigar o pecador e assim vingar as injúrias feitas ao Criador.
Visimus et colligimus ea? — “Queres que vamos e o apanhemos?”
Deus, porém, pela sua misericórdia, as impede. E assim faz, não só pelo amor dos justos, aos quais não quer tirar a ocasião para praticarem a virtude, suportando os maus; senão também, e muito mais, pela sua longanimidade para com os próprios pecadores, a quem quer dar tempo para se converterem:
Propterea expectat deus, ut misereatur vestri (1) — “Por isso o Senhor espera, para ter misericórdia de vós”.
Mais ai deles se continuarem obstinados em seu pecado e deixarem passar o tempo da divina misericórdia. Chegará o dia da colheita, isso é, assim como Jesus mesmo explica, o fim do mundo e o juízo universal. Então ordenará aos ceifeiros, a saber, aos anjos, que separem os maus dos justos a fim de fazerem estes entrar no eterno gozo do paraíso e lançarem aqueles no fogo do inferno, onde serão atormentados por toda a eternidade.
II. Eis aí, cristão, aonde irão parar aqueles pecadores que se obstinam em seus pecados e que abusam do tempo de penitência, que Deu lhes concede, para se tornarem mais soberbos (2) — irão queimar para sempre, alma e corpo, no fogo do inferno, sem esperança de saírem em tempo algum:
Et mittent eos in caminum ignis (3) — “E lança-los-ão na fornalha de fogo”
Com razão; porquanto não merece mais a misericórdia divina aquele que, enormemente ingrato, se prevalece da mesma misericórdia para ofender o Senhor mais gravemente. O que ofende a justiça, diz Afonso Tostato, pode recorrer à misericórdia, mas a quem poderá recorrer o que ofende a própria misericórdia?
Ó meu amabilíssimo Jesus! Eis-me aqui; eu fui um daqueles que continuaram a ofender-Vos, porque éreis bom para mim. Esperai, Senhor; não me abandoneis agora, já que pela vossa graça espero nunca mais dar-Vos motivo para que me abandoneis. Peza-me, ó Bondade infinita, ter-Vos ofendido, e ter abusado tanto de vossa paciência. Agradeço-Vos por me terdes esperado até agora. De hoje em diante não Vos quero mais trair, como no passado tenho feito.
Vós, ó Senhor, me aturastes tão longo tempo, a fim de me verdes um dia cativo amante da vossa bondade. † Jesus, meu Deus, amo-Vos sobre todas as coisas; e estimo a vossa graça mais que todos os reinos do mundo; antes quero perder mil vezes a vida que perder a vossa afeição. Vós, porém, ó Redentor meu, dai-me a santa perseverança. Pelo sangue que por mim derramastes, Vos rogo: “guardai-me, ó Senhor, com vosso auxílio contínuo, para que, esperando só na graça celeste, seja sempre munido com a vossa proteção.”(4) † Doce Coração de Maria, sede a minha salvação.
Referências:
(1) Is 30, 18
(2) Jó 24, 23
(3) Mt 13, 42
(4) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 208-210)

Fonte:

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Excelência da Santíssima Eucaristia


“Dize-me, meu irmão, que é que o Senhor podia fazer mais a fim de se fazer amar de nós?”


Quid est bonum eius et quid pulchrum eius, nisi frumentum electorum et vinum germinans virgines – “Qual é o bem dele e qual é a sua formosura senão o pão dos escolhidos e o vinho que gera virgens?” (Zc 9, 17)
Sumário. O mais digno e excelente entre todos os sacramentos é o Santíssimo Sacramento do Altar, porque os demais sacramentos contém os dons de Deus, mas este contém o próprio Deus. Por isso não há outro meio mais eficaz para conduzir uma alma à perfeição do que a santa comunhão, que a une a Jesus Cristo e a faz uma só coisa com Ele. Dize-me, meu irmão, que é que o Senhor podia fazer mais a fim de se fazer amar de nós? Todavia não somente O temos amado pouco até hoje, mas ainda Lhe temos sido ingratos.
I. O mais nobre e excelente entre todos os sacramentos é o Santíssimo Sacramento do Altar. Os demais sacramentos contém os dons de Deus, mas o sacramento da Eucaristia contém o próprio Deus. Afirma o Doutor Angélico, que os outros sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo a fim de preparar o homem para a recepção ou administração da Santíssima Eucaristia, a qual, na frase do Santo, é a consumação da vida espiritual, porquanto deste Sacramento deriva toda a perfeição de nossas almas.
Segundo o ensino dos mestres espirituais, toda a perfeição de uma alma consiste na união com Deus; pois bem, não há melhor meio para nos unir mais com Deus, do que a santa comunhão, pela qual a alma se forma uma só coisa com Jesus Cristo, como ele mesmo disse: Qui manducat meam carnem… in me manet, et ego in eo (1) – “O que come a minha carne, fica em mim e eu nele”. É belíssima a comparação que a este respeito faz São Cirilo de Alexandria. Diz ele que na santa comunhão o Senhor se une à nossa alma assim como se unem dois pedaços de cera derretida. — Foi exatamente para este fim que nosso Salvador instituiu o Santíssimo Sacramento em forma de alimento; para nos dar a entender que, assim como o alimento se transforma em nosso sangue, assim este pão celeste se torna uma coisa conosco.
Há, porém, esta diferença entre o alimento terrestre e a Santíssima Eucaristia: aquele se transforma em nossa substância, ao passo que na recepção desta, nós somos transformados na natureza de Jesus Cristo, segundo esta palavra que o abade Ruperto lhe põe na boca: Tomai-me por vosso alimento e sereis pela minha graça o que Eu sou por natureza. O Senhor deu a entender isso também a Santo Agostinho, quando lhe disse: Non ego in te, sed tu mutaberis in me — “Não sou eu que serei transformado em ti, mas tu serás transformado em mim”. — Ó prodígio de amor! O Deus tão poderoso, que tem o céu por seu trono, a terra por escabelo, os exércitos dos anjos por ministros, as estrelas por coroa, esse Deus tão grande, tão imenso, que nem os céus podem conter em seus vastos espaços, esse Deus se tornou nosso sustento para nos fazer participar de sua natureza divina!
II. Quid est quod debui ultra facere vineae meae, et non feci? (2) — “Que coisa há que eu devesse ainda fazer à minha vinha, que não lhe tenha feito?”. Ó minha alma, ouve o que te diz teu Deus: Que devia Eu fazer por ti e não o tenho feito: por teu amor Eu me fiz homem; de Senhor me fiz escravo; humilhei-me até nascer numa gruta, como um verme; cheguei mesmo a morrer por ti, e a morrer sobre um madeiro infame. Parecia, pois, que Eu não podia ir mais longe; mas por teu amor ainda excogitei e efetuei mais. Depois da minha morte, Eu me quis deixar ficar contigo no Santíssimo Sacramento. Dize-me, que é que devia fazer mais para cativar o teu amor? Quid est quod debui ultra facere?
Ó meu Senhor e meu Redentor, tendes razão: que Vos poderei responder? Não sei que dizer. Foi excessiva a vossa bondade para comigo, excessiva foi a minha ingratidão para convosco. Cheio de admiração pela vossa imensa bondade, e envergonhado à vista de minha ingratidão, me prostro a vossos pés e Vos digo: Meu Jesus, compadecei-Vos de mim, que paguei o vosso amor com tamanha ingratidão. Tomai vingança, assim Vos digo, tomai vingança de mim e castigai-me; mas não me castigueis desamparando-me; castigai-me e mudai-me. — Ó Senhor, que podeis esperar de mim, se Vós mesmo não o fizerdes? Nada posso fazer, senão dar-Vos o meu pobre coração, a fim de que façais dele o que for de vossa vontade. Eis que Vô-lo dou todo inteiro, Vô-lo consagro, Vô-lo sacrifico. Possui-o para sempre; não o quero mais. Se o quiserdes amar, achareis também o meio para o guardar. Peço-Vos que não o deixeis mais em minhas mãos; aliás tornarei a Vô-lo roubar.
Ó Deus amabilíssimo, ó amor infinito, já que me obrigastes tanto a amar-Vos, peço-Vos: fazei com que eu Vos ame, fazei com que eu Vos ame. Vós, que tão grande milagre fizestes neste Sacramento para entrardes em meu coração, fazei mais este: fazei que eu seja todo vosso, mas todo, todo, todo, sem partilha, sem reserva, de sorte que eu possa dizer nesta vida e na eternidade, que Vós sois o único Senhor de meu coração e a minha única riqueza: Deus cordis mei et pars mea, Deus in aeternum (3). — Ó Maria Santíssima, mãe e esperança minha, ajudai-me e serei certamente atendido.
Referências:
(1) Jo 6, 57
(2) Is 5, 4
(3) Sl 72, 26


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 253-256)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Do eterno amor de Deus para conosco.




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Considerai o amor eterno que Deus vos tem, porque muito antes que Jesus Cristo sofresse na Cruz por vós, como homem, a sua divina Majestade vos destinava à vida e vos amava extremamente. Mas quando começou Ele a amar-vos? Quando começou a ser Deus. E quando começou a ser Deus? Nunca; existiu sempre, e sem princípio nem fim, e desta forma amou-vos sempre e desde toda a eternidade vos preparou os favores e graças que vos tem concedido.  
Ele diz pela boca do profeta: "Amei-te com uma caridade perpétua e atraí-te misericordiosamente à mim." Entre outras coisas, pois, Deus tratou de vos fazer tomar boas resoluções de o amar e servir. Oh! como é amável este bom Deus, que pela sua infinita bondade, destinou a seu Filho para redentor do mundo, de todos em geral, mas em particular por mim, que sou o primeiro dos pecadores. Ah! amou-me, digo eu: amou-me a mim próprio e deu-se à morte por mim. É preciso considerar os benefícios divinos na sua origem primária e eterna. Oh! Deus, meu Teótimo! que amor digno poderemos nós consagrar à infinita bondade do nosso Criador, que de toda a eternidade projetou criar-nos, conservar-nos, remir-nos, glorificar-nos, a todos em geral, e a cada um em particular? 

Oh! o que era eu quando não existia, eu que sendo agora alguma coisa, não sou senão um pequeno verme da terra? E no entanto Deus, desde o abismo da eternidade, concebia a meu respeito pensamentos de benção; resolveu e marcou a hora do meu nascimento, do meu batismo, de todas as inspirações que me daria, e enfim todos os benefícios que me ofereceria mais tarde! Ah! haverá porventura consolação igual a esta? 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Via Sacra e o Santo Rosário


Para alívio das almas do purgatório, temos uma fonte de indulgências e de riquezas espirituais — é a Via Sacra. Esta meditação da Paixão e morte do nosso divino Redentor, nos lembra o Sangue Preciosíssimo derramado pela salvação das almas, e nos faz pedir pelo Sangue de Cristo a libertação do purgatório. Quanto alívio não trás às almas sofredoras uma piedosa Via Sacra! É uma devoção santificadora para nós e um sufrágio precioso para as pobres almas. Dizia São Boaventura:
“Se quereis crescer de virtude em virtude, atrair para vossa alma graça sobre graça, entregai-vos muitas vezes ao exercício da Via Sacra”
A Paixão de Jesus Cristo é remédio para nossa alma pecadora, e este Sangue precioso cairá sobre as almas como doce refrigério.
Na Vida da V. Maria d’Antigna se conta que esta serva de Deus tinha o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra pelos defuntos. Depois, com outras ocupações e devoções, se descuidou desta. Um dia, uma religiosa do mosteiro, falecida há pouco tempo, lhe apareceu e lhe disse, gemendo:
“Minha Irmã, porque não faz as estações da Via Sacra por mim e pelas almas como antes?”
Neste momento apareceu-lhe Nosso Senhor:
“Filha, disse-lhe o Salvador, estou muito triste com tua negligência.
É preciso que saibas que a Via Sacra é muito proveitosa para os defuntos, e eis porque permiti que esta alma viesse reclamá-la em seu nome e em nome das outras almas padecentes. É um sufrágio muito importante. É preciso tornar este tesouro mais conhecido em favor das almas”
Desde esse dia, a serva de Deus se dedicou a este exercício e o propagou com muito zelo. Pelo menos às sextas-feiras, se possível, façamos uma Via Sacra pelos mortos. Como a Via Sacra, o Rosário é um tesouro dos mortos também.
Um dia, São Domingos pregava sobre a eficácia do Rosário em favor das almas sofredoras. Era nas planícies do Languedoc. Um homem incrédulo zombou do Santo. Naquela noite teve uma misteriosa visão. Via as almas se precipitarem nos abismos do purgatório e Maria Santíssima, com uma cadeia de ouro, as tirava do abismo e as punha em terra firme. Era uma imagem do Rosário, cadeia de ouro pela qual Nossa Senhora arranca do purgatório as pobres almas sofredoras.
Quantos prodígios faz o Rosário em favor dos seus devotos na vida, na morte e depois da morte no purgatório! Além do mais, o Rosário é um tesouro de muitas indulgências que podemos aplicar em sufrágio das pobres almas. Vamos rezá-lo sempre, nas horas vagas, pelas estradas, em toda parte, não percamos o tempo. Aproveitemos para rezar muitos rosários pelas pobres almas. Temos tantos parentes e amigos e tantas almas queridas no purgatório! Vamos aliviá-las com nosso rosário bendito!

O De Profundis

Que é o De ProfundisÉ o Salmo dos mortos, a oração que outrora nos lábios do Profeta Davi chegou até nós e parece vir das profundezas do abismo do purgatório a implorar nossa compaixão para com as pobres almas. É um dos sete Salmos penitenciais. O padre ajoelha-se diante do cadáver e reza o De Profundis. Depois, ao vir buscar o cadáver para a sepultura, de novo reza o Salmo dos mortos. No cemitério e a caminho da sepultura, sem o De Profundis. Os fiéis, depois do Pai Nosso e da Ave Maria, rezam o De Profundis. Por que esta prece? Por que se tornou a oração dos defuntos? Porque assim começa: De profundis…Das profundezas… Não parece um gemido saído do purgatório? O sentido deste salmo é este: o seu esquema pode ser o seguinte: O salmista, imerso na profundeza dos pecados, invoca a Deus (vs. 1 a 2). Como somos pecadores, só a confiança em Deus, só o perdão de Deus nos pode salvar (3 e 4). Com muita confiança e um desejo ardente, o pecador aguarda este perdão (5 e 6). O povo de Israel também alimenta esta mesma esperança de perdão e de redenção copiosa (6 a 8).
Ora, estes gemidos, estas aspirações de redenção e de perdão copioso, este clamor doloroso colocamos em nossos lábios e suplicamos pelas almas que sofrem no abismo do purgatório. Não é verdadeiramente próprio e significativo para uma súplica dos defuntos o De Profundis? Eis agora o texto do Salmo na tradução nova do Novo Saltério:
“Das profundezas clamo a Vós, Senhor,
Ouvi, Senhor, a minha voz!
Atendam os vossos ouvidos
O brado da minha súplica,
Se conservardes, Senhor, a memória das ofensas,
Quem, Senhor, poderá subsistir?
Mas em Vós está o perdão dos pecados,
Para que sejais servido com reverência.
No Senhor ponho a minha esperança,
Espera minha alma na sua palavra.
Aguarda minha alma o Senhor, mais do que os vigias da noite a aurora,
Sim, mais do que os vigias da noite a aurora aguarde Israel o Senhor,
Porque no Senhor a misericórdia,
Nele a redenção abundante.
E Ele resgatará Israel
De todas as suas iniquidades”
Eis o Salmo na nova tradução. Muita gente nossa o recita já de cor e em outras palavras. Não importa. O essencial é que o recitem com piedade e fervor e se lembrem de que é o Salmo dos defuntos, muito alívio pode trazer às benditas almas do purgatório.

Práticas Devotas

Há muitos meios de sufragar os mortos. Escolhamos a segunda feira consagrada pela tradicional piedade do povo a devoção do purgatório. Há o piedoso costume de se fazer tudo quanto possível na segunda-feira pelas almas. Dar esmolas aos pobres, visitar os doentes, praticar algumas mortificações, etc. Felizes se pudermos comungar, assistir a Santa Missa nesse dia, enfim, fazermos por juntar muitos tesouros de sufrágios pelas almas. Temos o Domingo, dia do Senhor, a terça, consagrada aos Santos Anjos, a quarta a São José, a quinta ao Santíssimo Sacramento, a sexta ao Coração de Jesus e à Paixão, o sábado a Nossa Senhora. Seja a segunda-feira dos fiéis defuntos. Dia do nosso sufrágio, da nossa caridade para com as almas que padecem nas chamas expiadoras. Em algumas paróquias e comunidades religiosas há piedosos exercícios neste dia. Por que não havemos de concorrer para que sejam eles frequentados os estabelecidos onde não se fazem? Muitas pessoas entre nós têm um costume que às vezes toma um cunho supersticioso: o de acender velas em portas de cemitérios e em cruzes da estrada, ou pelos campos pelas almas do purgatório. Não poderia ser reprovado se não tivesse às vezes um cunho muito supersticioso. Velas acesas sem orações pouco adiantam para os mortos. A vela é para lembrar Cristo, Luz do mundo, e sendo de cera, e benta, é um sacramental.
Por que não acender então velas bentas? E rezar mais ao invés de queimar tanta vela, sem um sufrágio, sem uma prece pelos mortos?
Nosso povo tem uma grande devoção pela vela acesa. Não a reprovamos, mas desejaríamos que houvesse mais compreensão da necessidade da oração pelos mortos. A vela simboliza a Luz que os defuntos esperam no céu. Diz tantas vezes a Liturgia: Que a luz perpétua resplandeça para eles. Talvez por esta súplica, repetida muitas vezes, este pedido de luz, é que o povo tomando num sentido muito material o belo simbolismo da vela, gosta de acendê-la em profusão. Não deixa de ser edificante e impressionante a multidão de velas acesas nas sepulturas de nossos mortos. Disse e repito: longe de mim reprovar tão piedosa prática, mas desejaria vê-la mais compreendida no seu simbolismo e preferiria ver ace¬sas velas bentas nas sepulturas e nos cemitérios.
Nosso povo tem muitas tradições de devoção às almas. Havia pelos nossos sertões os grupos de suplicantes de orações pelas almas, que muitas vezes degeneraram em abusos. Estão abolindo um costume piedoso e tocante. Quando morre alguém numa família, durante nove dias, a contar do dia da morte, todas as noites se reúnem os parentes e amigos do morto para a recitação do Terço ou da Novena das Almas em sufrágio do morto. Por que não conservar esta bela tradição?
Enfim, já vimos e meditamos durante este mês quanto é necessária e útil a devoção às santas almas do purgatório. Façamos tudo por elas, pobrezinhas, que só tudo esperam de nós. Sejamos dedicados apóstolos do purgatório!

Exemplo: Proteção das Santas Almas

Mons. Louvet, na sua obra “Le purgatoire d’ápres les revélations des Saints”, narra um fato prodigioso da proteção das almas aos que a elas socorrem com sufrágios.
Um padre italiano, Luiz Monaci, religioso dos Clérigos Menores, era um fervoroso devoto das almas. Em toda parte e em todas as ocasiões procurava meios de ajudar as benditas almas sofredoras. Em uma noite teve de viajar e atravessar sozinho uma planície deserta e perigosa, porque, infestada de bandidos e salteadores, haviam já tirado a vida a muita gente para roubar. Pelo caminho, o bom padre não perdia tempo: ia recitando piedosamente o rosário de Maria pelas almas do purgatório. Ao avistar de longe o pobre sacerdote sozinho e desprovido de armas, um grupo de bandidos se preparou para o assaltar e puseram-se de emboscada. Qual não foi o espanto de todos quando ouviram o soar de trombetas e um grupo de soldados que marchava armado aos lados do padre. Aterrorizados, esconderam-se os bandidos; pensaram em soldados que os vinham prender. Viam, entretanto o padre muito tranquilo a caminhar, recitando o rosário. Entrou este numa hospedaria próxima. Enquanto o padre ceava, dois bandidos curiosos se aproximaram e perguntaram curiosos:
— Que padre é este que anda acompanhado pelas estradas de soldados que o protegem?
— Aqui não chegou soldado algum e este padre nunca andou assim em viagem…
Os bandidos, furiosos, procuraram entrar em palestra com o sacerdote e perguntaram-lhe do batalhão que o escoltava.
— Meus filhos, eu ando sozinho pelos caminhos. Só tenho um companheiro, o meu rosário, que recito sempre pelas santas almas do purgatório para que elas me protejam.
— Pois bem, meu padre, confessa um bandido, estas almas vos salvaram. Somos bandidos e estávamos na estrada prontos para vos despojar e matar. E só não o fizemos porque um batalhão vos seguia pela estrada, e, aterrorizados, fugimos e viemos aqui curiosos saber do que se trata. Cremos que as almas das quais sois tão devoto vos salvaram da morte.
Os bandidos, tocados pela graça, ali mesmo de joelhos pediram perdão dos pecados e confessaram-se humildemente.
O Pe. Rossignoli e outros autores contam inúmeros casos de proteção das santas almas em favor dos seus benfeitores.
Na verdade, mesmo nas coisas temporais os devotos caridosos que nunca se esquecem de socorrer as benditas almas do purgatório, podem contar com uma proteção segura da divina Providência em todas as circunstâncias difíceis, porque Deus sempre recompensa esta grande caridade.
(BRANDÃO, Monsenhor Ascânio. Tenhamos Compaixão das Pobres Almas! 30 Meditações e Exemplos sobre o Purgatório e as Almas. 1948, p. 147-153)

Fonte:

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 31 - 1º Mandamento (continuação): Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas


Catecismo Ilustrado - Parte 31

Os Mandamentos

1º Mandamento (continuação): Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas

1. Os principais pecados opostos à virtude da religião e ao culto devido a Deus são: A idolatria ou adoração aos ídolos, e impiedade ou irreligião, a superstição, o sacrilégio e todas as falsas religiões.

2. A idolatria consiste em dar às criaturas o culto supremo que só a Deus é devido.

3. Comete-se o pecado de impiedade ou irreligião quando se trata com desprezo ou indiferença os deveres do cristão, quando se profanam as coisas santas, e quando se mete a ridículo a religião e os seus ministros.

4. A superstição consiste em dar a Deus um culto que não Lhe é devido, ou vicioso por excesso. As principais superstições são três: a 1º é dar culto a Deus por coisas ridículas, em que Deus não pode ter glória; a 2º é considerar mau presságio por coisas que não têm conexão com o que tememos; a 3º querer adivinhar o Futuro observando certos sinais que não podem ter conexão com ele.

5. O sacrilégio é a profanação das coisas santificadas. Entendemos por coisas santificadas as que são especialmente consagradas a Deus; tais são: os templos, os vasos e ornamentos sagrados, os eclesiásticos, as virgens dedicadas a Deus, as coisas prometidas com votos; e outras semelhantes.

6. Há três espécies de sacrilégio: pessoal, local e real. Quando se ofende a santidade dos ministros de Jesus Cristo enquanto são consagrados a Deus, o sacrilégio é pessoal. O sacrilégio local é aquele com que se faz injúria a qualquer lugar sagrado com criminoso derramamento de sangue, com incêndio, com furto e com qualquer exercício profano. O sacrilégio real consiste na profanação ou violação de qualquer coisa sagrada.

7. As coisas sagradas profanam-se de três modos: 1º recebendo ou administrando os sacramentos em pecado mortal ou fazendo deles mau uso; 2º tratando sem reverência os vasos sagrados ou empregando-os para uso profano; 3º ultrajando as relíquias e imagens sagradas.
8. Na seguinte passagem do Evangelho vemos a Jesus expulsando os vendilhões do templo, porque cometiam um sacrilégio. Diz São João: “Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou, no templo, vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados às suas mesas. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo, e com eles as ovelhas e os bois, deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou as suas mesas. Aos que vendiam pombas disse: “Tirai isto daqui, não façais da casa de Meu Pai casa de comércio”. Então lembraram-se os Seus discípulos do que está escrito: “O zelo da Tua casa Me consome”.” (João II, 12-17)

Explicação da gravura

9. Exemplo de idolatria: adoração do bezerro de ouro. Subiu Moisés ao monte aonde Deus o chamou para dar-lhe a Lei. Aí ficou quarenta dias e quarenta noites; depois o Senhor deu-lhe as duas tábuas sobre as quais estavam gravados os mandamentos. Enquanto Moisés estava no monte o povo disse a Aarão: “Não sabemos o que é feito de Moisés; fazei-nos deuses como os dos Egípcios”. Para afastar o povo desta impiedade, Aarão disse: “Trazei-me os brincos de vossas mulheres e filhas”. Contra a sua expectativa, trouxeram-lhe todas as joias, e não ousando resistir, Aarão fundiu-as e formou um bezerro de ouro, ao qual os israelitas ofereceram sacrifícios, tocando e dançando à moda dos pagãos. Vendo isso Moisés, ao descer do monte, irou-se grandemente, e arremessou a terra as duas tábuas, as quebrou. Depois reduziu a pó o bezerro, e mandou os levitas matar quantos encontrassem adorando os ídolos.

10. Exemplo de sacrilégio na parte inferior esquerda. Vê-se Heliodoro, general do rei da Síria, que, querendo roubar o tesouro do templo de Jerusalém, foi atacado por um cavalheiro misterioso que o maltratou, aparecendo-lhe ao mesmo tempo dois anjos que o açoitaram fortemente e o deixaram meio morto.


11. Cometeu Saul um pecado de superstição quando foi consultar a feiticeira de Endor. Deus permitiu que lhe aparecesse Samuel, que lhe disse: “Amanhã morrerás na batalha”. Vê-se representado o fato na parte inferior direita.