sábado, 18 de novembro de 2017

I - Da inclinação que Deus tem para fazer-nos o bem

LIVRO PRIMEIRO

Pensamentos Consoladores a respeito de

Deus, da Providência e dos Santos

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I - Da inclinação que Deus tem para fazer-nos o bem

Logo que o homem medite um pouco atentamente na Divindade, sente um doce transporte do coração, que lhe certifica que Deus é o Deus do coração humano; e nunca o nosso entendimento encontra tanto gosto como neste pensamento na divindade cujo menor conhecimento vale mais, segundo o príncipe dos Filósofos, do que tudo o que existe, da mesma forma que o menor raio do Sol é mais claro do que o maior raio da lua e das estrelas, e por isso mais luminoso do que o conjunto da lua e das estrelas. E se algum acidente atribula o nosso coração, imediatamente recorre à divindade confessando que quando tudo para ele é mau, ela só é boa, e quando esta em perigo ela só, como seu soberano bem, o pode salvar e proteger.
Este prazer e confiança que o coração humano tem de Deus, não pode de certo provir senão da harmonia existente entre esta divina bondade e a nossa alma; harmonia grande mas secreta, que todos conhecem, mas poucos entendem, e que ninguém  pode penetrar. Somos criados à imagem de Deus; portanto, a sua Divina majestade não é estranha ao homem.
Mas além desta harmonia, ou desta semelhança, há uma correspondência sem par entre Deus e o homem, para a sua recíproca perfeição. Não porque Deus possa receber alguma perfeição do homem, mas porque, como o homem não pode aperfeiçoar-se senão pela sua divina Bondade, da mesma sorte a divina Bondade não pode igualmente exercer a sua obra fora de si senão em nosso proveito. Um tem uma grande necessidade e aptidão para receber o bem e o outro uma grande abundância e inclinação em dispensá-lo. Nada vêem tanto a propósito para a pobreza do que uma afluência liberal, e para afluência senão uma pobreza necessitada, e quanto maior quantidade de bem houver, tanto mais forte será a inclinação a concedê-lo e espalhá-lo.
Quanto mais necessitar o indigente, tanto mais ávido estará de receber, assim como um vácuo de se encher. É pois uma doce conformidade a da abundância e da pobreza, e não se poderia dizer qual sente mais gosto, se a abundância que dá, se a pobreza que recebe, se Nosso Senhor não tivesse dito que é mais feliz o que dá do que aquele que recebe. Ora onde há mais felicidade há mais satisfação; a divina Bondade tem pois mais gosto em dar as mesmas graças do que nós em recebê-las.
As mães têm às vezes os peitos tão fecundos e abundantes, que não podem viver sem os dar a alguma criança, e embora a criança tome o peito com alvides, ainda com maior ardor lho dará a mãe, mamando o filho impelido pela necessidade e amamentando-o a mãe impelida pela fecundidade.
Desta forma a nossa fraqueza tem necessidade da abundância divina para a penúria e miséria que sentimos; mas a abundância divina não tem necessidade da nossa indigência senão por excelência de perfeição e bondade. Bondade que, contudo, se não torna melhor comunicando-se, porque nada adquire espalhando-se fora de si; pelo contrário, dá; mas a nossa indigência ficaria miserável se a bondade divina a não socorresse.
A nossa alma, pois, conhecendo que nada a satisfaz plenamente e que nada no mundo há que a satisfaça, vendo que o seu entendimento tem um desejo infinito de saber cada vez mais e a vontade um apetite insaciável de amar e encontrar o bem, não poderá por ventura exclamar: Ah ! sem dúvida não fui criada para este mundo; há algum soberano Bem, do qual eu dependo, e algum artista infinito que imprimiu em mim este interminável desejo de saber e este apetite insaciável! Urge pois que trate de unir-me à sua bondade, à qual pertenço. Tal é o proveito que em Deus encontramos.

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