terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sugestões de penitências e mortificações na quaresma



A Quaresma está chegando e muitos católicos ainda estão perdidos sobre quais penitências deve adotar neste tempo de reflexão e preparação para a Páscoa. Pensando nisso, o Padre José Eduardo separou algumas sugestões de mortificação:

1) Penitências gastronômicas:


- Trocar a carne por peixe, ovos ou queijo (ou mesmo comer puro)
- Comer menos arroz, feijão, pão, macarrão, para sair da mesa com um pouco de apetite
- Eliminar todos doces, refrigerantes, chocolate e demais guloseimas
- Nas refeições, acrescentar algo que seja desagradável, como diminuir a quantidade de sal ou colocar um condimento que quebre um pouco o sabor
- Comer algum legume ou verdura que não se goste muito
- Diminuir ou mesmo tirar as refeições intermediárias (como o lanche da tarde).
- Tomar café sem açúcar, ou água numa temperatura menos agradável
- Reservar algum dia para o jejum total ou parcial


2) Penitências corporais:


(apenas para ajudarem a não perdermos o sentido do sacrifício ao longo do dia, a não sermos relaxados, devendo ser pequenas e discretas).
- Dormir sem travesseiro
- Sentar-se apenas em cadeiras duras
- Rezar alguma oração mais prolongada de joelhos
- Não usar elevadores ou escadas rolantes
- Trabalhar sem se encostar na cadeira
- Cuidar da postura corporal
- Descer um ponto antes do ônibus e fazer uma parte do caminho à pé
- Deixar de usar o carro e pegar um transporte coletivo

3) Penitências Morais:


(são as mais importantes)

- Não reclamar das contrariedades do dia, mas agradecer e louvar a Deus
- Sorrir sempre, mesmo quando haja um nervoso
- Moderar a frequência às redes sociais, celular e computador (reduzir a poucas vezes ao dia)
- Desligar as notificações do celular
- Fazer os serviços mais incômodos na casa e no trabalho, ajudando os outros
- Acordar mais cedo para fazer oração
- Não ouvir música no carro
- Não assistir TV, mas dedicar este tempo à leitura
- Não usar jogos eletrônicos, caso seja viciado
- Fazer algum trabalho voluntário
- Rezar mais pelos outros, do que por si mesmo
- Reservar dinheiro para dar esmolas, mas sobretudo atenção aos mendigos
- Falar bem das pessoas que se gostaria de criticar
- Ouvir as pessoas incômodas sem as interromper
- Dormir no horário, mesmo sem vontade.

Fonte:

Preparação para Quaresma



  De Santo Eusébio conta-se que, quando ainda era diácono, enquanto levava ao altar um cálice preciosíssimo, tropeçando deixou-o cair. E o cálice espatifou-se. Por um instante ele ficou estarrecido e olhava os rubis lascados, e os esmaltes em pedaços, e a taça dividida em duas sobre o pavimento. Depois, esquecido de que por trás das suas costas a igreja estava apinhada de povo, chorando fortemente recolheu os fragmentos e depositou-os sobre a mesa do altar. E eis que milagrosamente todos os pedaços se unem e se soldam perfeitamente, de modo a reconstruírem o cálice precioso, inteiro e intato (Brev. Ambr., 12 agosto).

 Cada um de nós trás dentro de si um cálice de valor infinito, lavado com o sangue de Cristo: a própria alma. Mas talvez que, num momento de paixão, numa hora de tentação, numa feia noite de carnaval, a tenhamos deixado cair na lama e nas pedras do pecado. E logo a nossa alma se partiu, fazendo fugir o Espírito Santo que nela tinha a sua doce morada, perdendo o esplendor precioso  nos resta senão imitar EUSÉBIO: esqueçamos tudo, curvemo-nos dentro de nos, e recolhamos os cacos da nossa alma despedaçada pelo demônio,e , chorando, coloquemo-la no altar de Deus: também para ela se renovará o prodígio do cálice quebrado.
 Seja então bem vida a quaresma: em todo o ano não há tempo mais propício do que este para aplacar a ira do Senhor nem dias mais favoráveis do que estes para remediar os danos da nossa alma.
  Por isto, recebei de bom grado alguns conselhos que vos ajudarão a aproveitar destas semanas; para vós os extraio do santo Evangelho.

1. Jesus deixa os homens, as suas casas, os seus campos, as suas lojas, as suas estradas, e embrenha-se no deserto, onde o silencio é rei, e a solidão é soberana.
2. Jesus por quarenta dias e quarenta noites não tocar em alimento, mas ora.
3. Jesus, ao demônio que vem tentá-lo para que se converta as pedras em pão para comer, responde: "Nem só de pão precisa o homem, mas sobretudo de toda palavra que brota dos lábios de Deus".

Do exemplo de Nosso Senhor derivam para nós três normas precisas:

Fujamos para longe de todas as ocasiões.
Façamos penitencia e oração.
Alimentamo-nos, à saciedade, da palavra de Deus e dos seus sacramentos.

PENSAMENTOS SOBRE OS EVANGELHOS E SOBRE AS FESTAS DO SENHOR E DOS SANTOS» - PeJOÃO COLOMBO 

Fonte:

sábado, 25 de fevereiro de 2017

A DESCONFIANÇA DE NÓS MESMOS

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.”
(Mt 26:41)

A desconfiança de nós mesmos, nos é necessária neste combate de tal maneira, que sem ela devemos ter por certo que não só não poderíamos conseguir a desejada vitória, como não venceríamos a menor das paixões. (Mt 26:41)
Importa que desta verdade fiquemos bem persuadidos, porque nossa natureza corrompida nos empurra a ter uma vã e errada estimação de nós mesmos. Apesar de sermos um nada verdadeiramente, nem por isso deixamos de nos persuadir de que prestamos para alguma coisa, e que sem fundamento algum presumimos poder alcançar por nossas forças. (cf. Lc 17:10 ; Ro 6:16-23)

Este defeito se conhece dificultosamente, e desagrada muito aos olhos de Deus, que deseja e quer em nós um fiel conhecimento desta certíssima verdade na qual toda graça e toda virtude vem Dele, que é fonte de todo o bem, e que nós mesmos somos absolutamente incapazes de ter ao menos um pensamento bom, que lhe seja agradável. (cf. 1Co 2:12 ; 2Co 4:7 ; Ef 2:8)

E sendo também esta tão importante desconfiança uma obra do seu poder divino, um dom que ele dá aos Seus amados servos, às vezes através de santas inspirações, outras vezes  com amargas provações, por tentações violentas e quase insuperáveis, ou com outros meios, que não podemos chegar a entender; apesar disto, querendo Ele que juntamente façamos de nossa parte o que convém, eu vos proponho quatro meios, que com a graça de Deus, podereis conseguir esta desconfiança. (1Pe 1:6 ; At 14:22 ; Ro 5:2-5 ; 1Co 2:5)
“Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar,
segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:13)

O primeiro é que vos considereis e conheçais a vossa vileza, e limitado ser, e que não sois capazes de obrar bem algum por vós mesmos, por onde mereçais entrar no Reino dos Céus. (Lc 17:10 ; 2Co 9:8 ; Mc 8:34)
O segundo, é que com fervorosas e humildes orações peçais esta importante virtude ao Senhor, aquele que é o único que nos a pode dar. Confessemos primeiro que, não somente não a temos, mas que por nós mesmos estamos numa plena impotência de obtê-la. Desta maneira nós nos apresentamos aos pés do Senhor com uma confiança firme em Sua bondade, e perseveremos na oração, até quando sua Divina Providência julgue conveniente conceder nosso pedido. (Ef 3:20 ; Ro 15:13)

O terceiro meio é que nos acostumemos pouco a pouco a recear de nós mesmos e de nosso próprio julgamento, temendo a violenta inclinação de nossa natureza ao pecado, os inúmeros inimigos e a incomparável superioridade de suas forças, sua longa experiência de combate, suas astúcias e suas ilusões que os transformam a nossos olhos em anjos de luz, as armadilhas que eles nos pregam por todas as partes do caminho da virtude. (cf  Ef 6:10-18 ;  2Co 11:14)

O quarto meio é de entrarmos em nós mesmos  sempre que acontecer de cairmos em alguma falta, e então considerarmos vivamente até onde vai nossa fraqueza. Se Deus permite que tenhamos algumas quedas, é afim de que pela claridade desta luz, possamos nos conhecer melhor, desprezam-nos a nós mesmos como criaturas vis, e a desejar ser desprezado pelos outros (cf Lc 17:3). Sem esta vontade não pode haver desconfiança virtuosa, a qual tem todo o seu fundamento na verdadeira humildade e no conhecimento, que traz consigo a experiência (cf Ro 5:2-5). Porque bem claro se pode ver que quem deseja unir-se com a Luz Suprema e com a Verdade incriada, necessita do conhecimento de si mesmo, o qual a divina Piedade dá frequentemente aos soberbos e aos presunçosos através da experiência, deixando-os justamente cair em alguma falta da qual imaginam que poderão se livrar; assim desta forma acabam por se conhecer e por aprender a desconfiar em tudo de si mesmos. (2Co 11:30)

Mas não costuma valer-se o Senhor deste meio tão miserável, se não quando os outros meios mais piedosos  não obtiveram o efeito que esperava Sua misericórdia.  Esta permite que caia o homem com mais ou menos frequência, se ele tem mais ou menos orgulho e própria estimação, de modo que  onde não se acha sombra de presunção, como foi na Bem-aventurada Virgem Maria, da mesma maneira não haverá sinal algum de queda.

Assim, quando cairmos, corramos imediatamente com o pensamento ao humilde conhecimento de nós mesmos, e com oração pedir ao Senhor que nos dê a verdadeira luz para nos conhecermos e desconfiarmos inteiramente de nós mesmos, se não queiramos cair de novo nas mesmas faltas ou em faltas ainda mais prejudiciais à salvação de nossa alma.

Retirado do livro " O Combate Espiritual por Dom Lorenzo Scúpoli"

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Sete semelhanças entre a Missa Tradicional e o Rosário

A liturgia tradicional, assim como o Rosário, não se cansam de recordar a memória e invocar a intercessão da toda-gloriosa Mãe de nosso Deus e Senhor, Jesus Cristo




1.- Repetições úteis. Como todos os seres humanos normais sabem, e como aparentemente os reformadores litúrgicos não sabiam, a repetição é extremamente útil e importante no discurso humano, como demonstrado nas linhas rítmicas dos poetas, nas conversas íntimas dos amantes, nas visões elevadas dos místicos, nas arias dos compositores de ópera, e nos frequentes pedidos de crianças pequenas para ouvir a mesma história outra vez. Repetimos o que é agradável para aqueles que são amados por nós. O Rosário exemplifica essa prática, mas o mesmo acontece com a liturgia tradicional, sejam a Missa ou o Ofício Divino. As muitas repetições aqui reforçam, ampliam e dão expressão aos pensamentos e sentimentos do coração.
Foi um exercício cruel do racionalismo eliminar repetições supostamente “inúteis”, como os muitos beijos no altar, as muitas declarações de “Dominus vobiscum”, o duplo Confiteor, as nove vezes do Kyrie, os sinais da cruz, as múltiplas orações antes da comunhão, e as duas repetições tríplices de “Domine, non sum dignus.” Eu me pergunto se os responsáveis por esta deformação não traziam o pesaroso destino de serem crianças negligenciadas que não ouviram poesia ou repetidas histórias com frequência suficiente.
O único tipo de repetição que Nosso Senhor proíbe é a irracional ou a repetição manipuladora, quando se repete vocábulos sem a intenção consciente de alguma coisa, ou repete-se palavras como encantamentos que podem exercer poder sobre algum outro objeto (incluindo os deuses, na maneira tola que os pagãos pensavam deles). A piedade católica tradicional usa a repetição de uma maneira totalmente diferente, para a honra de Deus e o benefício da alma.
2.- O foco está nos mistérios, e não na atividade. O Rosário é o “Saltério de Nossa Senhora”: é, por assim dizer, os 150 salmos do homem pobre. Mas este homem pobre é cada um de nós, todos nós; nós somos pobres mendigos que se ajoelham diante do trono de Deus, buscando Sua misericórdia e bênção pelas mãos de Sua Mãe Santíssima. As orações do Rosário são elas próprias ricas além da medida, inesgotáveis, a fonte de uma vida de união orante com Jesus.
Algum tempo após o aparecimento inicial do Rosário, a meditação dos mistérios da vida de Jesus e Maria foi adicionada como uma estrutura para as dezenas. Observe como o Rosário nos faz desacelerar e concentrar a nossa atenção sobre os mistérios divinos, e não sobre o apostolado externo ou um ativismo frenético. Destina-se mais em ser do que em fazer. A Missa Tradicional em latim, também, é abençoadamente livre da estranha preocupação de nossa época com utilidade, resultados imediatos, e nova-evangelização-em-tudo. O Rosário e a Missa formam-nos profundamente, nutrem-nos e envolvem-nos nos mistérios de Nosso Senhor, por meio do qual somos salvos. Este é o pré-requisito para fazer alguma coisa para o Reino de Deus — e é a meta de qualquer trabalho que possamos fazer.
3.- O foco está no Senhor e Sua Mãe, e não nas pessoas. O Rosário, mesmo quando recitado em grupo, é ainda uma oração “vertical”: não está sobre o grupo, ou apanhado com ele, ou focado em ministrar às suas necessidades reais ou percebidas, ou na tentativa de convencer ou persuadir alguma resposta específica. Como a Missa, o Rosário de fato une as pessoas, ministra às nossas necessidades, e nos leva a obter respostas. Mas a sua atenção, o seu objetivo, toda a sua orientação, estão em outro lugar.
Talvez, este seja o único aspecto mais notável e louvável da Missa Tradicional: em todos os pontos, exceto no sermão, a Missa é manifestamente um ato de adoração dirigida a Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho, e Espírito Santo, um exercício do sacerdócio de Cristo e o sacrifício de Seu Corpo e Sangue. Claramente não é um encontro social em que celebrante e congregação voltam-se uns para os outros e refrescos são servidos.
4.- Escola de disciplina. Embora não haja nada de errado em recitar o Rosário sentado, muitas pessoas rezam-no de joelhos. Isso é difícil para os joelhos e as costas; não é à toa que o ato de ajoelhar é considerado uma postura penitencial nas igrejas orientais, e que os católicos tradicionalmente se ajoelhem no sacramento da Penitência. O Rosário é uma oração que convida e, até certo ponto, exige, disciplina: disciplina do corpo, e ainda mais, disciplina da alma. Sempre que se distrai e se divaga, você tem que trazer a sua atenção de maneira gentil, mas, firmemente, de volta à oração. É uma oração de perseverança: você tem que ficar com ela, venha o que vier. Satanás certamente não quer que continuemos a rezar o Rosário. Pelo menos na minha experiência de vida, o Rosário não é uma oração que você “pega” de imediato; você tem que crescer dentro dela, com confiança nas promessas de Nossa Senhora.
A Missa Tradicional em latim é um verdadeiro campo de treinamento da disciplina espiritual. Em uma Missa baixa, é o costume, pelo menos nos Estados Unidos, ajoelha-se em quase todos os momentos, do início ao fim. Não posso dizer-lhe o quanto isso tem sido uma ajuda para mim, como preguiçoso que sou. Na Missa solene, também, há muitas genuflexões e toda a liturgia é mais longa — sem pressa aqui, e sim, Deus é mais importante do que qualquer outra coisa que você ou sua família poderiam estar fazendo neste momento, de modo que supera a sua impaciência. Se você tem um grande número de filhos, os desafios aumentam[1]. O Rosário e a procura pela Missa antiga – e recompensa — disciplina.
5.- Uso de sinais tangíveis, juntamente com a oração vocal e mental. Estou convencido de que uma das simples razões pela qual nós gostamos do Rosário é porque ele é um objeto físico: um conjunto de contas, agrupadas em padrões, com medalhas e um crucifixo. Os católicos deveriam gostar de coisas físicas, porque Deus as ama. Ele trouxe o mundo material à existência como um de seus modos de Se comunicar com a gente e uma das maneiras em que podemos nos comunicar com Ele.
Portanto, o Rosário não é apenas um monte de palavras (a maldição da verbosidade), nem é apenas um Monte Everest da oração mental (a maldição da devotio moderna que deu errado), mas uma tríade harmoniosa: as palavras repetidas, os mistérios ordenados, e as contas. Há algo para cada parte de nós — e, para ser honesto, isso significa que parte de nós, às vezes, se colocará no lugar do resto de nós. Você já reparou que há dias em que parece que seus dedos estão fazendo a oração muito mais do que os seus lábios ou a sua mente? Precisamos ser humildes o suficiente para sermos carregados por nossas próprias mãos.
A comparação com a Missa Tradicional em latim não é difícil encontrar. Está muito mais saturada com sinais físicos do sagrado, do início ao fim, dando-nos mais “apoios” para pendurar as nossas orações. Abençoadamente permite uma grande latitude para a meditação: você não está sendo constantemente esperado para fazer isso ou aquilo, dizer “todos juntos agora!” Há um silêncio para descansar, o canto para se expandir, um cerimonial para assistir, tempo e espaço para rezar, e, quando Deus nos favorece, uma conexão atemporal com Ele que nada mais poderia trazer. A antiga Missa não é muito cerebral ou detalhada, como se fosse uma palestra destinada a melhorar moralmente os fiéis (muitas vezes um esforço vão, mesmo na melhor das vezes). É um ato de adoração em que se pode dar a si mesmo, em que se pode encontrar Deus.
6.- Recebido como algo praticamente inalterado durante séculos. O Rosário tem sido o que é durante longo tempo e não nos atrevemos a brincar com ele.[2] Não sugerimos um “Rosário reformado” a partir do qual todas as “repetições inúteis” foram removidas. Nós não nos desfazemos de sua forma recebida de dentro para fora para torná-lo mais aceitável ou passível do homem moderno. Nós não nos desfazemos dele como um acréscimo medieval ou uma relíquia ultrapassada de crédula Mariolatria. Não; nós o mantemos, nós o estimamos, nós o preservamos, nós o repassamos inalterado para nossos filhos.
A lógica, a atitude, a espiritualidade é a mesma quando se trata da Santa Missa. Na sua forma clássica, o Rito Romano em Latim se desenvolve organicamente por 1.500 anos — com o seu desenvolvimento, diminuído nos últimos séculos porque tinha alcançado a perfeição da forma, perfeitamente proporcional à glorificação do Deus Trino e às necessidades da comunidade de culto. Temos humildemente o privilégio de receber este imenso tesouro. Nós o amamos e o repassaremos aos nossos filhos.
7.- Nossa Senhora é invocada, pelo nome, muitas vezes. Isto é obviamente verdadeiro no Rosário, o que torna esta devoção um corretivo saudável para o racionalismo protestante que reduziria a oração em um exclusivo endereçamento a Deus, ignorando Sua Mãe e todos os seus descendentes, os Santos, e, assim, insultando-O e pecando contra as Suas disposições providenciais.
De modo semelhante, a Missa Tradicional apropriadamente exalta Nossa Senhora, ao mencioná-La muitas vezes — nas orações imutáveis por si só, 10 ou 11 vezes, dependendo do dia. [3] Neste honrar frequente da Santíssima Theotokos, o Rito Romano mostra o seu parentesco com todas as outras liturgias cristãs autênticas, tais como a Divina Liturgia de São João Crisóstomo. Em contraste, os arquitetos da Missa Novus Ordo procuraram minimizar Nossa Senhora por razões “ecumênicas”. Seu Santo Nome, o terror dos demônios, e a consolação dos pecadores, é reduzido de 1 para 4 menções; na prática, na Missa diária, uma única menção somente.[4]
A liturgia tradicional, assim como o Rosário, não se cansam de recordar a memória e invocar a intercessão da toda-gloriosa Mãe de nosso Deus e Senhor, Jesus Cristo.
* * *
Talvez, parte da razão para a contínua popularidade do Rosário é que ele nutre a vida espiritual em muitas das formas que a Missa Tradicional em latim usa para fazê-lo (e ainda o faz, onde quer que exista). Isso também pode explicar o ajuste natural entre assistir a uma Missa baixa e rezar o Rosário. Embora rezar o Rosário durante a Missa pode não ser a forma ideal de participação interior na riqueza da sagrada liturgia, sabemos que a Igreja, no entanto, não proíbe ou desencoraja rezá-lo em uma Missa baixa, e estou simplesmente apontando que há um parentesco entre a oferta tranquila da oração pública da Igreja e a quietude da oração do terço de Nossa Senhora.
E isso é consolador. Pois, se eu estiver correto, a oração do Rosário está preparando um grande contingente de Católicos Marianos para redescobrir e retornarem à Missa antiga, tão profunda e puramente Mariana em sua espiritualidade.[5]
Salve, Rainha do Santíssimo Rosário! Salve, Nossa Senhora das Vitórias! Rogai por nós pecadores neste vale de lágrimas, e obtende de Vosso Filho a restauração almejada da grande e bela liturgia da Igreja Romana. Amém.
Notas
[1] Veja meu artigo “Ex ore infantium: Children and the Traditional Latin Mass” e os links fornecidos lá. Nota de Sensus fidei: Traduzido ao português em “Ex ore infantium”: Crianças e a Missa Tradicional em latim
[2] É claro, os mistérios luminosos são uma espécie de inovação, mas a ideia de usar mistérios alternativos da vida do Senhor remonta muitos séculos e é recomendado pelo próprio apóstolo do Rosário, São Luís Maria de Montfort Gringnion. Daí eu respeitosamente discordo com meus irmãos tradicionalistas que rejeitam esses mistérios e sugiro que eles procurem se familiarizar com a amplitude da tradição do Rosário. Isso não quer dizer, contudo, que os católicos devem adotar os Mistérios Luminosos; mesmo João Paulo II tendo-os apresentado como opcionais.
[3] A variação é causada pela diferença entre a Missa baixa e uma Missa solene. Aqui estão todos os lugares onde o Santo Nome de Maria é mencionado: (1-2) no Confiteor do sacerdote; (3-4) no Confiteor do servidor; (5) no Credo; (6) no “Suscipe, sancta Trinitas” do ofertório; (7) no Cânone Romano; (8) no “Libera nos”, após a oração do Senhor; (9-10) no Confiteor antes da comunhão; (11) na Salve Regina das orações leoninas depois da Missa; (12) na colecta após a Salve Regina.
[4] Na Missa Novus Ordo, o nome de Maria é mencionado (1) na Oração Eucarística, e, sempre que exigido pelas rubricas, (2) no Credo. (3-4) entram em jogo se o Confiteor opcional é utilizado, o que não é comum em Missas diárias.
[5] Algo parecido com isto, é claro, estava acontecendo de forma espontânea e orgânica nos Frades Franciscanos da Imaculada, até sua nova vitalidade ter sido brutalmente reprimida em nome da uniformismo pós-conciliar. Vemos um paralelo nos esforços nefastos feitos depois de o Concílio suprimir a devoção mariana. Ambas as formas de iconoclastia, a anti-litúrgica e a anti-Mariana, nascem do ódio de Satanás pela Encarnação.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

“Meu divino Coração está destinado para os últimos tempos”

A Santíssima Virgem apareceu em 19 de setembro de 1846 na montanha de La Salette declarou, entre outras coisas, que a propagação do culto do Sagrado Coração seria um dos meios de que Deus se serviria para combater o anticristianismo e santificar os fiéis, a seus escolhidos dos últimos tempos





Monsenhor de Ségur (*) | Sensus fidei: Deus tudo faz oportunamente. Sua sabedoria tem brilhado ao lado de sua misericórdia, dando à Igreja o divino tesouro do Coração de Jesus em tempos em que esta mais havia de necessitá-lo. O mesmo Salvador disse primeiro à Santa Gertrudes, e depois à beata Margarida Maria: “Meu divino Coração está destinado para os últimos tempos”.
Não há que duvidar: todos os sinais indicados pelo Filho de Deus no Evangelho de São Mateus, (cap. XXIV) reúnem-se, acumulam-se, por assim dizer, com espantosa evidência: a fé diminui e se apaga em muitos; o Evangelho tem sido pregado em quase todas as partes; todas as sociedades cristãs têm apostatado; guerras horríveis, lutas de povo contra povo, de nação contra nação, fazem abalar o mundo; brotam milagres de todas as partes; um conjunto extraordinário de profecias, muitas delas indubitavelmente autênticas, unem-se a um secreto instinto das almas santas; finalmente, os três mistérios que parece devem servir de refúgio à Igreja de Deus nas supremas tribulações, o mistério da infalibilidade do Papa, o da Imaculada Conceição de Maria, o do Sagrado Coração de Jesus, dominam a tempestade universal levantada contra tudo o que é católico, dando aos verdadeiros fiéis firmeza na fé e na obediência, a graça da inocência necessária para o triunfo, e o dom de uma caridade, de uma misericórdia e de uma reparação absolutamente divinas. Tudo nos indica a proximidade mais ou menos imediata destes “últimos tempos” preditos pelo Deus do Sagrado Coração.
Em tempos precedentes, para cada novo mal o Salvador tirava um remédio saudável “do tesouro de seu Coração”; mas em nosso tempo, em que todas as negações e todos os males antigos vêm concentrando-se, unindo-se estreitamente sob a bandeira da Revolução e do anticristianismo, Jesus se digna abrir-nos e dar-nos todo inteiro esse mesmo Coração, esse precioso tesouro, com tudo o que contém. É o último esforço de seu amor; o remédio supremo universal.
Sim, o Sagrado Coração é o que necessita a Igreja nos tempos extraordinários. Para grandes males, grandes remédios; para um mal extremo há que lhe aplicar o remédio mais eficaz. A Europa cristã está gangrenada até o coração; para evitar, pois, a morte, é preciso que os fiéis se lancem a buscar a vida em sua fonte, penetrando no Coração do Rei dos céus. Quanto mais penetrarmos, com mais verdade poderá dizer-se: “Não há salvação fora do Coração de Jesus”.
Vislumbram-se os fins admiráveis da Providência ao retardar a manifestação do Sagrado Coração para finais do século XVII, para aquela época em que Satanás haveria de suscitar Voltaire, Rousseau, a franco-maçonaria, o ateísmo filosófico, a Revolução propriamente dita, ou seja, a grande rebelião da sociedade contra a Igreja, do homem contra o Filho do homem, da terra contra o céu.
Ao terminar o século XVII a heresia quis destruir na teoria e na prática o Sacramento do amor, e por conseguinte o amor mesmo, o amor santo e confiado que nasce da Comunhão. Aos fariseus dos últimos tempos Jesus opõe a revelação de seu Coração adorável, transbordando doçura e humildade, fonte inesgotável de ternura, de caridade, de misericórdia, de verdadeira santidade e de verdadeiro amor.
A impiedade no século XVIII levanta um grito satânico, grito de guerra contra Jesus Cristo: Aplastemos al infame! e com sofismas, com sua propaganda infernal e universal, perturbam as inteligências. Que fará Jesus Cristo? Ele, que fez o homem e que o conhece, vai direto a seu coração e o manifesta sob sua forma mais poderosa, mais íntima, mais sedutora: como soberano Amor. Entrega-lhe seu Coração divino; e pelo coração lhe arranca às mortais seduções do entendimento. Com efeito, nada mais forte do que o amor; e pela revelação de seu Sagrado Coração Jesus se fará amar. Admirável ardil de guerra!
Há mais! Aquelas grandes blasfêmias vão dar por fruto grandes crimes; a seita anticristã vai comover a Igreja até seus alicerces; uma perseguição selvagem vai destruir as antigas instituições católicas na Europa; faz rodar pelo cadafalso a cabeça de Luis XVI, fecha os templos, degola sacerdotes e bispos, destrói as Ordens religiosas, faz subir uma prostituta nos altares, conduz o Papa ao desterro (Pio VI) e lhe faz morrer nele; inaugura uma sociedade nova sem fé, sem Deus, sem Jesus Cristo; propaga por todo o mundo essa grande blasfêmia que se chama a separação da Igreja e o Estado; extingue em milhões e milhões de almas a vida da graça.
A esses crimes que provocam necessariamente as represálias da Justiça divina, a esses sacrilégios públicos e até então inauditos, Nosso Senhor Jesus Cristo opõe uma expiação cuja santidade sobrepuja e sobrepujará a perversidade humana; revela, inaugura o culto público de seu Sagrado Coração, e este culto mil vezes bendito, essencialmente expiatório e reparador, irá propagar-se de tal maneira, que “ali onde abundou o pecado, sobreabundará a graça” sempre. Inspire Satanás quanto queira aos demônios em carne humana que há mais de cem anos fazem ressoar o mundo com suas blasfêmias, insultam e pisoteiam a santíssima e adorabilíssima Eucaristia; incite-lhes a blasfemar da Santíssima Virgem, a assassinar sacerdotes, a cometer toda classe de crimes: tudo em vão: a Igreja tem de hoje em diante um meio de reparação mais poderoso que todas as maquinações do inferno: tem o Sacratíssimo Coração de Jesus, o Coração do mesmo Deus.
Mas estas e outras muitas razões que seria demasiado longo expor aqui, a misericordiosíssima Providência manifestou de um modo admirável revelando o culto do Sagrado Coração no final do século XVII.
Acrescente-se a isto que quando a Santíssima Virgem apareceu em 19 de setembro de 1846 na montanha de La Salette, a fim de salvar, se fosse possível, a sociedade, declarou, entre outras coisas, que a propagação do culto do Sagrado Coração seria um dos meios de que Deus se serviria para combater o anticristianismo e santificar os fiéis, a seus escolhidos dos últimos tempos. Esta revelação tem contribuído muito para propagar por todas as partes o amor e o culto do Sagrado Coração.
Entremos nesta corrente de fé, que é o caminho de salvação. Escutemos a voz da Igreja; escutemos as advertências da Santíssima Virgem; creiamos, aceitemos com amor a palavra de Nosso Senhor. Sim, o Sagrado Coração é o mistério dos últimos tempos. Mas a fim de penetrarmos mais das inefáveis excelências do Sagrado Coração, e por conseguinte da excelência do culto e da devoção que se lhe tributam na Igreja, contemplemos de mais perto com os olhos da fé, e com a felicidade e alegria do divino amor, esse Coração amantíssimo e mil vezes adorável de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Coração santo,
Tu reinarás,
Tu nosso encanto
Sempre será.

(*) Monsenhor de Ségur. El Sagrado Corazon de Jesus. pp. 59-64. Casa Editorial de Manuel Galindo y Bezares. 1888.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A Mortificação Externa - Parte III

Por Santo Afonso de Ligório

Prática da mortificação externa




Aquelas penitências extraordinárias podem ser praticadas por poucos cristãos, chamados por Deus para um tal modo de vida. Mas todos nós devemos manter o nosso corpo em rigoroso regime, porque somos pecadores. E, para isso, cada um de nós tem os meios. Podemos praticar a mortificação externa no uso de todos os nossos sentidos, em todas as nossos ações, em todos os passos e condições de nossa vida.

Para isso, basta abraçar aquilo que é difícil à nossa natureza. Por exemplo, de manhã, levantar-se a uma hora fixa, entregando-se com pontualidade à oração; assistir o Santo Sacrifício da Missa; renunciar a um prazer proibido ou a uma leitura perigosa; obedecer prontamente às ordens dos pais ou superiores; cumprir principalmente com fidelidade os deveres e os trabalhos cotidianos; suportar com paciência tribulações e sofrimentos: são, essas coisas todas, mortificações que, praticadas com pura intenção, são muito agradáveis a Deus e mui meritórias para o Céu.

Falaremos aqui, alma cristã, de várias mortificações pequenas a que te podes sujeitar sem perigo para tua saúde e com sumo proveito para tua alma.

1. Mortificação da vista


As primeiras setas que ferem uma alma casta e, às vezes, a matam, entram pelos olhos. Por meio dos olhos entram no espírito os maus pensamentos. "Não se deseja o que não se vê", diz São Francisco de Sales. Não leias, por isso, nunca, livros proibidos ou perigosos. Renuncia, de vez em quando, ao prazer de ver coisas extraordinárias, ainda que sejam inteiramente decorosas.

Segundo São Jerônimo (Ep. ad Fur.), é o rosto o espelho da alma e os olhos castos dão testemunho da castidade do coração.

2. Mortificação do ouvido


Evita ouvir conversas inconvenientes ou difamações, e mesmo conversas mundanas sem necessidade, pois estas enchem nossa cabeça com uma multidão de pensamentos e imaginações que nos distraem e perturbam mais tarde nas nossas orações e exercícios de piedade. Se assistires a conversas inúteis, procura quanto possível dar-lhes outra direção, propondo, por exemplo, uma importante questão. Se isso não der resultado, procura retirar-te ou, ao menos, cala-te e baixa os olhos para mostrar que não achas gosto em tais conversas.

3. Mortificação do olfato


Renuncia a todos os vãos perfumes, sejam quais forem; suporta, antes, de boa vontade, o mau cheiro que reina em geral nos quartos dos doentes. Imita o exemplo dos Santos que, animados pelo espírito de caridade e mortificação, sentiam tanto gosto no ar corrompido das enfermarias, como se estivessem em jardins de flores odoríferas.

4. Mortificação do tato


Quanto ao tato, esforça-te por evitar qualquer falta, pois cada falta neste sentido contêm um perigo de morte eterna para a alma. Emprega toda modéstia e cuidado não só a respeito dos outro, mas também de ti mesmo, para conservar a bela jóia da pureza. Procura, quanto possível, refrear pela mortificação esse sentido.

São João da Cruz dizia que, se alguém ensinasse que a mortificação do tato não é necessária, não se lhe deveria dar crédito, ainda que operasse milagres. Jesus Cristo mesmo disse uma vez à Madre Maria de Jesus, carmelita: "O mundo precipitou-se no abismo por causa do prazer, e não da mortificação".

Se não temos coragem de crucificar a nossa carne com penitências, ao menos esforcemo-nos por suportar com paciência as pequenas contrariedades que Deus mesmo nos envia, como doenças, calor, frio, etc. Digamos com S. Bernardo (Medit., c. 15): "O desprezador de Deus deve ser esmagado; ele merece a morte: deve ser crucificado". Sim, meu Deus, é justo que quem Vos desprezou seja castigado; eu mereço a morte eterna; seja eu, pois, crucificado neste mundo, para que não sofra eternamente no outro.

5. Mortificação do paladar


Quanto à mortificação do paladar, será bom desenvolver mais a fundo a necessidade e a maneira de nos mortificarmos nesse sentido.

§5.1- Santo André Avelino diz que quem deseja alcançar a perfeição, deve começar com uma séria mortificação do paladar. Antes dele já o afirmara São Gregório Magno (Mor., 1. 30, c. 26): "Para se poder dispor para o combate espiritual, deve-se reprimir a gula". O comer, porém, satisfaz necessariamente ao paladar: não nos será, pois, lícito, comer coisa alguma?

Certamente devemos comer: Deus mesmo quer que, por esse meio, conservemos a vida do corpo para O servirmos enquanto nos permite ficar no mundo. Devemos, porém, cuidar de nosso corpo do mesmo modo, diz o padre Vicente Carafa, como o faria um rei poderoso com um animal que ele, com as próprias mãos, tivesse de tratar várias vezes durante o dia; seguramente cumpriria o seu dever; mas, como? Contrariado e desgostoso e o mais depressa possível. "Deve-se comer para viver, diz S. Francisco de Sales, e não viver para comer".

Parece, contudo, que muitos vivem só para comer, como os irracionais. O homem assemelha-se ao animal, diz S. Bernardo, e deixa de ser espiritual e racional, se gosta da comida como o animal. Assim assemelhou-se aos animais o infeliz Adão, comendo do fruto proibido. Se os animais tivessem tido o uso da razão, acrescenta o mesmo Santo (In Cant., s. 35), ao verem Adão se esquecer de Deus e de sua salvação eterna por causa do miserável desejo de uma fruta, certamente haveriam de exclamar: "Vede, Adão se tornou um animal como nós!" Isso levou Santa Catarina de Sena a dizer: "É impossível que aquele que se não mortifica no comer, conserve a inocência, visato que Adão a perdeu em razão de seu gosto de comer". Como é triste ver homens "cujo Deus é o ventre" (Filip 3, 19).

Tomemos cuidado para que não sejamos subjugados por esse vício animal. É verdade que nos devemos alimentar para a conservação da vida, diz Santo. Agostinho; mas devem-se tomar os alimentos como os remédios, isto é, só tanto quanto necessário, e nada mais. A intemperança no comer prejudica a alma e o corpo. Quanto ao corpo, é fora de dúvida que grande número de doenças provêm desse vício: apoplexia, dor de cabeça, dores de estômago e outros males. As doenças do corpo, porém, são o menor mal; um mal muito pior são as doenças da alma que disso se originam.

Primeiramente, obscurece esse vício o entendiemnto, como ensina S. Tomás, e o torna imprestável para os exercícios espirituais, particularmente para a oração. Assim como o jejum dispõe a alma para a meditação de Deus e dos bens eternos, assim a intemperança retrai disso. Segundo S. João Crisóstomo, aquele que enche o estômago com comidas é semelhante a um navio muito carregado, que apenas se pode mover do lugar: ele se acha em grande perigo de afundar, se uma tempestade de tentações lhe advêm.

Além disso, quem concede toda a liberdade a seu paladar, facilmente estenderá a mesma liberdade aos outros sentidos, pois, se o recolhimento de espírito desapareceu, facilmente se cometem ainda outras faltas por palavras e obras. O pior é que, pela intemperança no comer e beber, expõe-se a castidade a um grande perigo. "Excessiva saciedade produz lascívia", diz S. Jerônimo (Adv. Jovin., 1. 2). E Cassiano afirma que é simplesmente impossível ficar livre de tentações impuras, enchendo-se o estômago de comidas.

Os Santos, justamente porque queriam conservar a castidade, eram tão rigorosos na mortificação do paladar. "Se o demônio é vencido nas tentações de intemperança, diz o Doutor Angélico, não nos continua a nos tentar à impureza".

Os que cuidam em mortificar o paladar fazem contínuos progressos na vida espiritual. Adquirem mais facilidade em mortificar os outros sentidos e em praticar as outras virtudes. Pelo jejum, assim se exprime a Santa Igreja em suas orações, concede o Senhor à nossa alma a força de superar os vícios, de se elevar acima das coisas terrenas, de praticar a virtude e adquirir merecimentos infinitos (Praef. Quadrag.).

Os homens sensuais objetam que Deus criou os alimentos para que nos utilizemos deles. Mas os cristãos fervorosos são da opinião do venerável padre Vicente Carafa, que diz, como notamos acima, que Deus nos deu as coisas deste mundo não só para nosso gozo, mas também para que tivéssemos ocasião de Lhe fazer um sacrifício. Quem é dado à gulodice e não se esforça por se mortificar nesse ponto, nunca fará um progresso notável na vida interior. Regularmente, se come várias vezes durante o dia; quem, pois, não procura mortificar o desejo de comer, cometerá quotidianamente muitas faltas.

§5.2- Vejamos agora o modo como devemos mortificar o nosso paladar.


a) Quanto à qualidade das comidas, diz São Boaventura, que não se devem escolher comidas muito especiais, mas contentar-se com pratos simples.Segundo o mesmo Santo, é sinal de alguém estar muito atrasado na vida espiritual não ficar contente com as comidas que se lhes apresentem e desejar outras que agradem mais ao paladar, ou requerer que sejam preparadas de um modo particular. Mui diversamente procede quem é mortificado: contenta-se com o que se lhe dá e, se diferentes pratos são trazidos, certamente escolherá aqueles que menos satisfazem ao paladar, contanto que não lhe façam mal.

É muito recomendável privar-se, por mortificação, de temperos desnecessários, que só servem para lisonjear o paladar. O tempero de que usavam os Santos era a cinza e o absinto. Não exijo de ti, alma cristã, tais mortificações, nem tampouco muitos jejuns extraordinários. Não sou, de forma alguma, contrário a que jejues com todo o rigor em certos dias particulares, como na sexta-feira ou no sábado, ou nas vésperas das festas de Nosso Senhor ou em dias semelhantes, pois isso costumam fazer os cristãos verdadeiramente piedosos. Se, porém, não possuis tanta piedade ou se tuas enfermidades não te permitem guardar rigorosos jejuns, deves ao menos te contentar com o que te servirem e não te queixar das comidas.

b) Quanto à quantidade das comidas, diz São Boaventura: "Não deves comer mais, nem mais vezes, do que te é necessário para sustentar, e não para agravar, teu corpo". Por isso, é uma regra, para todos os que querem levar uma vida devota, não comer nunca até à saciedade, como São Jerônimo aconselhava à virgem Santa Eustóquio, escrevendo-lhe: "Sê sóbria no comer e nunca enchas o estômago". Alguns jejuam num dia e comem demais no dia seguinte; é melhor, segundo S. Jerônimo, tomar regularmente a alimentação necessária, do que comer demasiadamente depois do jejum. Com razão dizia um Padre do deserto: "Quem come mais vezes, tendo, apesar disso, sempre fome, receberá uma recompensa maior do que aquele que come raras vezes, mas até à saciedade". "Uma temperança constante e regrada, diz S. Francisco de Sales, é melhor que um rigoroso jejum de vez em quando, ao qual se faz seguir uma falta de mortificação" (Filotéia, p. 3, c. 23).

Se alguém quer reduzir seu sustento à justa medida, convém que o faça pouco a pouco, até que conheça, pela experiência, até onde pode ir na mortificação sem se causar sensível dano.

Contudo, todos devem tomar como regra o comer pouco à noite, mesmo quando lhes parecer que necessitam de mais; a fome de noite é, muitas vezes, só aparente e, se se passa um pouco só da justa medida, sente-se muito incômodo na manhã seguinte: sente-se dor de cabeça, dores de estômago, está-se indisposto, e até incapaz de qualquer trabalho espiritual.

Quanto à medida que se deve guardar no beber, sem perigo algum para tua saúde, podes te impôr a mortificação de nada beberes fora da refeição, a não ser que devas ceder a um especial impulso da natureza, para não te causares algum dano, como pode acontecer no verão. São Lourenço Justiniano, porém, nunca bebia coisa alguma fora da refeição, mesmo nos dias de maior calor, e quando se lhe perguntava como podia suportar a sede, respondia: "Como poderei suportar as chamas do Purgatório, se não puder suportar agora esta privação?"

Referindo-se ao vinho, diz a Sagrada Escritura: "Não dês vinho aos reis" (Prov 31, 4). Sob essa expressão de reis, não se entendem os que reinam sobre nações, mas todos os homens que domam suas paixões e as submetem à razão. Infelizes daqueles que são dados ao vício da embriaguês, diz a Sagrada Escritura (Prov 23, 29). E por quê? Porque o vinho torna o homem luxurioso (Prov 20,1). Por isso escreveu S. Jerônimo à virgem Eustóquio: "Se quiseres permanecer pura, como deve ser uma esposa de Jesus Cristo, evita o vinho como veneno: vinho e mocidade são duas iscas" (Ep. 22 ad Eust.).

De tudo isso devemos deduzir que aqueles que não possuem virtude ou saúde suficiente para renunciar por completo ao vinho, devem ao menos servir-se dele com grande sobriedade, para não serem atormentados por mui fortes tentações impuras.

c) Sobre a questão de quando e como se deve comer, São Boaventura nos ensina o seguinte:

Primeiro, não se deve comer fora de hora, isto é, fora da hora da refeição comum. Um penitente de São Filipe Néri tinha esse defeito. O Santo o corrigiu com as palavras: "Meu filho, se não te emendares dessas falta, nunca chegarás a ter uma vida espiritual".

Segundo: nunca se deve comer desregradamente, isto é, com avidez, por exemplo, enchendo a boca demais, com tal pressa que antes de se engolir um bocado já se leva outro à boca. "Não sejas glutão em banquete algum" (Ecli 37, 22), diz-nos o Espírito Santo. Além disso, deves tomar os alimentos com a boa intenção de conservar as forças do corpo, para podermos servir ao Senhor.

A justa medida no comer exclui também um jejum imoderado, pelo qual um se torna incapaz de cumprir com seus deveres de estado. Cometem muitas vezes essa falta os principiantes: levados por aquele zelo sensível que Deus costuma conceder-lhes no princípio para animá-los no caminho da perfeição, impõem-se privações e jejuns excessivos, que tem por resultado transtornar-lhes a saúde e fazê-los abandonar tudo. O patrão que entrega seu cavalo a um criado para que o trate, certamente não só o repreenderá não só se nada der ao cavalo, como se der demais.


Do livro: Escola da Perfeição Cristã - Santo Afonso Maria de Ligório - Livro de 1955

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