quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

São Tomé, o Apóstolo que duvidou



Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Só este discípulo estava ausente; e, ao voltar e ouvir contar o que acontecera, negou-se a acreditar no que ouvia. Veio outra vez o Senhor e apresentou ao discípulo incrédulo o seu lado para que lhe pudesse tocar, mostrou-lhe as mãos e, mostrando-lhe também a cicatriz das suas chagas, curou a ferida daquela incredulidade. Que pensais, irmãos caríssimos, de tudo isto? Julgais porventura ter acontecido por acaso que aquele discípulo estivesse ausente naquela ocasião, que ao voltar ouvisse contar, que ao ouvir duvidasse, que ao duvidar tocasse e que ao tocar acreditasse?

Tudo isto não aconteceu por acaso, mas por disposição da providência divina. A bondade de Deus atuou de modo admirável, a fim de que aquele discípulo que duvidara, ao tocar as feridas do corpo do seu Mestre curasse as feridas da nossa incredulidade. Mais proveitosa foi para a nossa fé a incredulidade de Tomé do que a fé dos discípulos que não duvidaram; porque, enquanto ele é reconduzido à fé porque pôde tocar, a nossa alma põe de parte toda a dúvida e confirma-se na fé. Deste modo, o discípulo que duvidou e tocou, tornou-se testemunha da realidade da ressurreição. Tocou e exclamou: Meu Senhor e meu Deus. Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, acreditaste. 

Ora, como o apóstolo Paulo diz: A fé é o fundamento dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se vêem, torna-se claro que a fé é a prova da verdade daquelas coisas que não podemos ver. Pois aquilo que se vê já não é objecto de fé, mas de conhecimento directo. Então, se Tomé viu e tocou, porque é que lhe diz o Senhor: Porque me viste, acreditaste? É que ele viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Ele viu a humanidade de Jesus e fez profissão de fé na sua divindade exclamando: Meu Senhor e meu Deus. Portanto, tendo visto acreditou, porque tendo à sua vista um homem verdadeiro, exclamou que era Deus, a quem não podia ver.

Muita alegria nos dá o que se segue: Felizes os que não viram e acreditaram. Por esta frase, não há dúvida que somos nós especialmente visados, pois não O vimos em sua carne, mas possuímo-l’O no nosso espírito. Somos nós visados, desde que as obras acompanhem a nossa fé. Na verdade só acredita verdadeiramente aquele que procede segundo a fé que professa. Pelo contrário, daqueles que têm fé apenas de palavras, diz São Paulo: Professam conhecer a Deus, mas negam-n’O por obras. A este respeito diz São Tiago: A fé sem obras é morta.

São Gregório Magno (Papa) in Hom. 26, 7-9: PL 76, 1201-1202 (Séc. VI)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

A Vinda de Cristo à Alma. Como Preparar-se?



“Eu sou a voz do que clama no deserto” (Jo 1, 23)

Exórdio: o Pregador, outro João Batista

Perguntaram a São João Batista quem era, e ele respondeu:
– “Eu não sou o Messias, nem Elias, nem aquele profeta a quem Deus se referiu ao falar com Moisés: Eu suscitarei um profeta como tu dentre os teus irmãos, e a quem recusar ouvir o que ele disser da minha parte, pedir-lhe-ei contas (cf. Jo 1, 20-21; Dt 18, 18-19). Não sou nenhum desses”, disse São João.
– “Se não és nenhum desses”, disseram eles, “como ousaste impor um novo rito ao povo? Como é que batizas?”
– “Não vos assusteis, porque o meu batismo apenas limpa com água a cabeça e o corpo; a sua função é somente fazer que os que dele se abeiram professem que são pecadores e necessitam de alguém que os limpe dos pecados. (Aquele batismo não era como o nosso, que transmite a graça). Mas no meio de vós está quem vós não conheceis e vos seria conveniente conhecer; esse limpa com água e com fogo, e introduz a mão nas almas, limpando-as de toda a sujidade, e eu sou tão diferente dEle que não sou digno de desatar a correia das suas sandálias; este é aquele que já profetizei e que vos preguei outras vezes, o qual há de vir depois de mim e era antes de mim. É tão superior a mim que eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias nem de servi-lo como escravo”.
– “Não sou quem pensais”, disse João Batista. – “Então quem és?”. E ele disse-lhes: – “Eu sou a voz do que clama no deserto, e este é o meu ofício, a minha honra, a minha dignidade e o meu ser. Eu não sou o Messias, mas a voz do Senhor que quer vir até vós: Endireitai os caminhos do Senhor” (cf. Jo 1, 23).
Pobre de mim e de outros como eu, que temos o ofício de São João Batista sem possuir a sua santidade. O sacerdote, o pregador, anjo – porque “anjo” significa mensageiro -, o pregador é mensageiro de Deus, e Deus fala por sua boca. Somos mensageiros de Deus, anfitriões do rei, mas não sei se é por não sabermos desempenhar este papel, ou por qualquer outro motivo, que os ouvintes nos olham com os meros olhos da carne e atentam apenas para a nossa aparência externa.
Se o pregador começasse por lamentar não ser digno de tal ofício, e suplicasse a Deus que desse às pessoas a graça de virem ao sermão dizendo: – “Vamos ouvir a Deus”; e se vós vos preparásseis para ouvir bem a palavra de Deus – pois, ainda que seja um homem pecador e miserável quem as pregue, como eu, as palavras são de Deus e não dele, e é em nome de Deus que vo-las diz -; se desse modo e com essa fé viésseis ouvir os sermões, de outra forma creríeis no que neles vos é dito e tiraríeis deles outro proveito.
Eu não sou João Batista, mas, por ser pregador, tenho o seu ofício, e digo-vos da parte de Deus e em seu nome que deveis preparar as vossas almas. Deus quer vir morar em cada um dos que estais aqui. Daqui a oito dias terá nascido, e vós ouvireis o seu choro no presépio de Belém.
Pensai quão preocupada e alegre andava a Virgem Maria nestes oito dias, quantas apreensões trazia no seu coração, não como as vossas, pois estareis pensando agora em que comereis na noite de Natal e que roupas usarei. Não andaria ela pensando nisso, mas estaria preparando os paninhos para o Menino que daria à luz. E como o próprio Jesus Cristo disse que “todo aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é minha mãe” (cf. Mt 12, 50), a vossa ocupação nestes oito dias deverá ser preparar-vos.
se Jesus Cristo há de nascer na minha alma, como a prepararei, como a adornarei, para que, mal chegue, a encontre bem preparada? Se até este ponto do Advento fomos preguiçosos e descuidados, nestes oito dias que faltam para o Natal sejamos diligentes em preparar-nos. E já que não o podemos fazer sem receber uma graça do alto, supliquemos à Santíssima Virgem que no-la alcance.

Cristo vem morar na nossa Alma

Não sei se este sermão não será um fracasso como os outros. Sois tão avessos a receber hóspedes que, embora vos digam que deveis preparar a vossa casa, pois Deus quer ocupá-la, não sei se querereis fazê-lo ou se direis:
“Vai em paz, porque não estou agora com disposição para receber hóspedes”
Hoje, porém, tereis de acreditar em Deus e não em mim. Trata-se de um acontecimento tão importante que, se acreditásseis bem nEle, não há dúvida de que seria bem recebido. Sabeis que coisa importante é essa? Que Deus vai descer do céu para fazer-se homem, e, depois de humanado, nascerá num estábulo e ficará chorando, colocado numa manjedoura; e passados oito dias derramará o seu sangue na circuncisão; e depois, quando crescer, será amarrado a uma coluna, despido, e receberá mil açoites, e subirá numa cruz e nela morrerá por nós e para nossa salvação. Ouvi, pois, uma palavra verdadeira e alegre, ouvi uma notícia saborosa e certa: Deus veio ao mundo para salvar os pecadores; Deus não veio para nos condenar, mas para nos salvar.
“Como é possível? A minha consciência me diz que cometi mil pecados, e foi a Deus que eu menosprezei e tive em pouco. É possível que Aquele que esbofeteei e em cujo rosto cuspi venha agora salvar-me?”
Aí está a bondade de Deus: tu o ofendeste e Ele vem buscar-te para te perdoar e pedir que todos vós sejais seus amigos.
Acreditai em mim hoje: não há ninguém dos aqui presentes a quem Deus, para sempre bendito, não queira vir neste Natal. Deus deseja vir a vossa casa e morar convosco! Aquele que está nos céus, e é adorado pelos serafins, Aquele que se encarnou no seio da Virgem Maria, Aquele que há de nascer daqui a oito dias, quer vir a cada um de vós. Deus, na sua misericórdia, vos ilumine para que hoje fique alojado nas vossas entranhas. Irmãos, preparai-lhe as vossas almas, pois Deus quer vir a elas.
Todos os adventos do Senhor são admiráveis. O primeiro advento, que foi Deus ter vindo em carne, quem o poderá contar? A vinda do juízo, quando Deus vier julgar os vivos e os mortos, e enviar uns para o céu e outros para o inferno, quem vo-la poderá contar? Quem vos contará as graças que Deus faz ao homem a cuja alma Ele vem?
Quereis parar e pensar nisto por alguns momentos?
“Se alguém me ama, diz Jesus Cristo, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 23)
Portanto, o Pai, o Filho e o Espírito Santo moram naquele que ama Jesus Cristo e guarda os seus mandamentos.
“Vós sois o templo de Deus vivo” (2 Cor 6, 16), diz São Paulo
Irmãos, Deus mora em vós. Parai e pensai na diferença que existe entre uma alma em que mora Deus e outra em que mora uma multidão de demônios; vemos juntos, e por fora andamos todas da mesma maneira, mas, por dentro, vede quanta diferença: nuns, mora Deus; em outros, o demônio.
Enfim, Deus quer vir a vós, mas se me perguntardes que significa Deus vir a uma alma, não creio que vo-lo saiba responder. Diz São Paulo que os dons de Deus são inexprimíveis (cf. 2 Cor 9, 15). Pois se não é possível exprimi-los, como saberei dizer-vos que significa Deus vir morar numa alma? Experimentai-o e vereis por vós mesmos o que significa. Basta dizer-vos que o hóspede que quer vir a vós é Deus. Irmãos, Deus quer vir a vós.

Cristo traz consigo o Seu Reino…

Senhor, que coisa dura é dizer a um ladrão: “Aí vem o juiz”. Fugirá, como fez Adão ao ouvir a voz do Senhor. Senhor, para que vindes? Ele próprio o disse através de São João:
“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”
O rei vem e traz consigo o reino para que, se existe alguém tão avarento que pense ser pouco a vinda de Deus a ele, e o atraiam outras coisas e por elas se apaixone mais do que por Deus, saiba que Ele traz muitas riquezas e vem conceder-nos grandes mercês. E assim diz:
“Por isso não deixeis de receber-me, pois vos trago tudo o que podeis querer e desejar, e muito mais”
“Que trazeis, Senhor?” O reino de Deus está dentro de vós (Lc 17, 21). Por acaso já compreendestes alguma vez o sentido desta passagem? Sabei que o reino de Deus está dentro de vós. Não penseis que consiste em ter muitas vinhas e muitos olivais. Na alma à qual vier o amor a Deus e ao próximo, aí estará alojado o reino de Deus; dentro da alma que obedecer a Deus, aí se encerrará o reino de Deus. É o próprio São Paulo quem o diz:
“O reino de Deus não está na comida nem na bebida, mas na justiça, na paz e no gozo do Espírito Santo” (Rm 14, 17)
O Rei vem e traz consigo o reino, e o seu reino é de justiça e paz. Quem haverá que não o receba? “Justiça”, nesta passagem, não significa “fazer justiça”, mas uma virtude pela qual um homem se converte de pecador em justo. é o que Isaías dizia vários séculos antes:
“Que os céus derramem das alturas o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória, abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo germine a justiça! Sou eu, o Senhor, a causa de tudo isso” (Is 45, 8)
E que querem dizer estas palavras? Que a causa pela qual nos tornamos bons é Jesus Cristo. São Paulo diz que Ele se fez para nós redenção, satisfação, justiça e sabedoria (cf. 1 Cor 1, 30). Não penses, irmão, que és justo pelas tuas boas obrinhas, pelo que fazes, mas sim pelas boas obras e pela paixão de Jesus Cristo. Se unes as tuas boas obras a Ele, Ele as faz meritórias. Nasça, pois, o Cordeiro e, com Ele, a justiça e a santificação.
A paz é uma coisa boa para os casados, se estão brigados. Mas quem não está brigado? Quem não pensa que gostaria de servir a Deus e, ao mesmo tempo, alimenta dentro de si outros pensamentos e outra lei que repugnam e contradizem a Deus? Esses são os que dizem, desconsolados e aflitos: “Ofendi a Deus!“, porque esse é o maior dos tormentos e o maior dos desconsolos.
Que pensáveis? Que o maior dos tormentos é: “Não tenho nada que comer, não tenho nada que vestir, estou sendo caluniado, perseguem-me“, etc? Esse é um sofrimento carnal. A queixa que deveis fazer não há de ser contra aquele que vos caluniou ou vos injuriou, mas contra vós mesmos. Ireis para o vosso canto e, diante de Deus, queixar-vos-eis de vós mesmos, dizendo:
– “Senhor, devo-Te tanto que estaria obrigado a padecer por Ti o mesmo que sofreste por mim, e contudo não suporto uma palavrinha, uma ninharia; queixo-me, Senhor, de mim e da minha pouquidão”
A verdadeira dor é a que faz uma pessoa bater no peito, considerar os seus defeitos e maldades e dizer:
– “Oh, ofendi a Deus! Que longe estou do caminho de Deus!”
Este é o verdadeiro tormento e o maior dos desconsolos, e foi para extingui-los que Deus veio a este mundo. Que diziam os judeus néscios? “O Messias vem para nos dar riquezas, vinhas e olivais“. Mas de que me aproveitaria o Messias se me desse tudo isso, mas não curasse o mal que trago no coração? Deus está de mal comigo. Se o Messias deve ser o meu Messias, cure-me esta chaga que trago no coração, e, se não o fizer, não quero bem algum.

…Reino de Alegria de Paz

Se vos preparardes para receber este hóspede, Ele é tão poderoso que fará o vosso coração alegrar-se. Se não quereis a Deus por Deus, vede o que Ele traz, vede o reino que traz consigo. Pensais que Ele é pobre? São Paulo escreveu:
“Todas as coisas são vossas: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes, as futuras; tudo é vosso” (1 Cor 3, 22)
Por que chamais pobre a um homem que tem todas as coisas? Dizei-nos, Paulo, por que tudo é nosso? Porque, quando o Pai eterno nos deu Jesus Cristo, o seu Filho, deu-nos com Ele todas as coisas. Esta é a mercê mais alta de todas; este é o espelho em que deves olhar-te: Deus concedeu-nos o seu Filho.
E São Paulo continua:
“Se Deus nos concedeu o seu próprio Filho, como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm 8, 32)
Se Jesus Cristo é nosso, não vos admireis de que o presente e o futuro sejam nossos. Tudo se encerra nesta graça. Não vos admireis de que os santos sejam vossos, pois esse que vem às vossas entranhas é Senhor dos céus e da terra, dos anjos e de todas as coisas. Parai e pensai quem é esse que quer vir à vossa alma, e assim vereis como todas as coisas serão vossas, ou seja, que podereis usar delas para vosso proveito. Sabeis quem é verdadeiro dono dos seus haveres? Aquele que os aproveita para servir a Deus e para proveito próprio e do seu próximo. E se vos parece que é pouco ter a Deus e com Ele todas as coisas, pergunto: o que vos parecerá muito? Que ninguém diga: – “Não quero esse hóspede”, porque, na verdade, a sua vida, por si só, paga bem a pousada.
Mas a maior de todas as coisas que Deus vos dá está por ser dita. Se Ele não vos tivesse concedido a luz da fé, como acreditaríeis num dom tão elevado como é o de que Ele veio para morrer por vós? O que tem mais valor: que Deus se tenha entregado às mãos de verdugos para que lhe fizessem tantas injustiças, ou que se entregue aos corações dos que estamos aqui? Pois se Cristo se entregou à vontade dos que lhe queriam mal, não se entregará aos corações dos que lhe querem bem? Senhor, tanto me amaste que Te entregaste às mãos dos teus inimigos por mim! Praza ao Senhor que creiais nisto.
Que feliz sairá daqui um homem a quem dissessem:
“O rei virá amanhã a tua casa para fazer-te grandes mercês”
Acho que não almoçaria de tanta alegria e preocupação, nem dormiria durante toda a noite, pensando:
“O rei virá a minha casa, como lhe prepararei pousada?”
Irmãos, digo-vos da parte do Senhor que Deus quer vir a vós e que traz consigo um reino de paz, como já ouvistes. Bendita seja a sua misericórdia e glorificado o seu santo nome! Quem vos saberia dizer com que tempero devemos condimentar este manjar? Como? Se Ele é o próprio Deus e o ofendido, e nós homens e os que ofendemos; se é nosso o lucro da hospedagem e Ele quem no-la esta pedindo, seremos nós a desprezá-los? E que pensar se soubermos que Deus está à porta dos corações? Pensais que está longe? Está batendo à porta.

Deus pede que lhe abramos a porta

“Oh, padre! Não é possível que Ele esteja tão perto como dizeis, porque cometi tal e tal pecado e o expulsei para muito longe de mim, e com certeza está muito magoado comigo”
Eis que estou à porta e bato, diz Ele. Se alguém me abrir a porta, entrarei (cf. Ap 3, 20). Pensais que Deus é como vós que, se vos causam um pequeno aborrecimento ou vos perseguem, logo excluís o próximo do vosso amor? E se alguém vos diz: – “Perdoai Fulano porque Cristo vos perdoou”, dizeis: – “Nem mencionai o nome dele na minha frente”. Como podeis pensar que, por vós não perdoardes, Deus também não perdoa? Glorificado sejas Tu, Senhor, pois é isto o que mais cativa os corações humanos! Diz o pecador quando peca:
– “Retirai-vos de mim, Senhor, porque não Vos amo!”
E Deus sai da casa, e põe-se à porta, e fica chamando:
– “Abre-me, minha esposa, minha amiga; ficarei aqui até que, por compaixão, venhas a mim e me abras”
Não minto: Ele nos pede que, por compaixão, lhe abramos a porta!
Que significam estas palavras do Esposo do Cântico dos Cânticos: “Abre-me, minha irmã, minha amiga; a minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos dos meus cabelos cheios das gotas da noite” (Ct 5, 2), senão: “Abre-me, tem compaixão de mim?”É espantoso que Deus nos peça pousada por compaixão e nos diga: – “Abre-me, que não tenho para onde ir“. E quando um coração tocado por Ele toma consciência disso, não há nada que mais o cative de amores ou o derreta. E assim dizia Santo Agostinho (1):
“Eu fugia de Ti, Senhor, e Tu corrias atrás de mim”

Este é o amor de Deus pelos pecadores. Fogem dEle, e Ele vai atrás deles
. E assim diz por Jeremias:
“Se um homem repudia a mulher, e ela o abandona para tornar-se mulher de outro, tornará o marido a recebê-la? Não ficará gravemente maculada? Mas se tu, depois de teres fornicado com inúmeros amantes, voltares para mim, diz o Senhor, eu te receberei (cf. Jer 3, 1). Há de o rancor durar eternamente?” (cf. Jer 3, 5)
Os rancores passados passaram, não me magoes mais, sejamos amigos novamente.
As palavras que a alma deveria dizer a Deus, Deus as diz à alma:
“Continuarás a resistir eternamente? Aproxima-te logo, alma; chama-me, se não sabes chorar. Se tens medo, confia, porque sou Eu mesmo quem te ordena. Se os teus pecados te fecham a boca, Eu te direi como deves chamar-me: Meu Pai e guia da minha virgindade” (cf. Jer 3, 4)
E dir-lhe-ás:
– “Agora sou mau, mas lembrai-Vos, Senhor, de que um dia fui bom; lembrai-Vos de que, quando pequenino, me batizaram, e Vos pertenci, e fizeram em mim o vosso sinal”.
– “Fala assim comigo” – responderá o Senhor -, “faze que eu me recorde de que um dia foste meu: chama-me meu Pai, tu és meu”
Irmão, se Deus manda que chames por Ele, é porque quer receber-te. Se te ensina como chamá-lo, como não há de ouvir-te? Vedes aqui a infalível misericórdia de Deus. Embora o tenhamos ofendido, bate à nossa porta e, embora não o queiramos receber, pede-nos que lhe abramos. Que coisa abominável seria deixar o vosso marido bater-vos à porta à meia-noite:
– “Abri, senhora, porque venho ferido da guerra em que combati por vosso amor; venho depois de ter sofrido muito por vós!”
Que mulher seria tão má a ponto de deixar o marido esperando à porta por muito tempo?
Por que não quereis abrir a Deus? Quem estará dentro de ti para não quereres abrir? Algum rufião deves ter em tua casa para não quereres abrir a porta ao teu próprio marido. E se aquele que bate e diz: – “Minha esposa, eu morri por muitos sofrimentos”, é o próprio Deus! Alguma coisa contrária está dentro de ti, por cujo amor não lhe queres abrir. Peço-vos que me digais: o que é que cativa tanto o vosso coração, que por isso não quereis receber a Deus em vossa casa neste Natal?

Deus e o Demônio não podem morar juntos

Mas, se porventura – praza a Deus que não aconteça -, algum dos presentes a este sermão que lhe é pregado da parte de Deus, ao contrário de preparar pousada para Ele, a preparasse para o demônio, seria pior do que um infiel! Que seria dele se dissesse:
– “Neste Natal, tenho de apostar esse dinheiro que guardei até agora?”
Ah, infeliz, então jogas justamente por ser Natal!?
Só posso compreender semelhante situação se pensar que foi o demônio quem inventou essa perversão lá no inferno e depois a trouxe para os homens. Que faremos, dizem os demônios, já que muito perdemos com o nascimento de Cristo? Como poderemos aproveitá-lo para termos algum lucro? E para recuperar o que perderam, ordenam esses jogos. Miserável de ti! Assim pagas a Deus o amor com que veio nascer por ti, numa manjedoura, e assim pagas os sofrimentos pelos quais passou, e o seu choro de recém-nascidos, e o frio que suportou? Isso é coisa do diabo.
Se em algum momento é necessário que sejas bom, é agora; e se antes foste mau, agora tens de ser bom; e se em alguma ocasião jogaste, agora não jogarás. Rogo-vos que me façais esta caridade e me deis este presente pelo amor do Menino e de sua Mãe.
Quem ocupa o vosso coração e impede que Deus entre nele?
– “Ninguém, senhor. Ele chegou em boa hora”.
Bem sei que muitos dizem várias vezes por dia neste tempo do Advento: Vinde, Senhor, e não tardeis. Praza a Deus que não seja da boca para fora. Seria abominável que alguém chamasse por Deus somente com a boca e, com o coração, lhe estivesse pedindo para não vir. E, se já o fizestes, dizei-lhe agora: – “Senhor, ao pedir que viesses falava-te falsamente“; pois Deus não é amigo de burlas, mas da verdade.
Pergunto: Quereis receber a Deus neste Natal?
– “Sim, quero, mas desde que não precise expulsar o outro hóspede que tenho em casa”.
Não sentis vergonha de chamar por Deus tendo um pecado mortal na alma? Quereis colocar Deus ao lado do seu inimigo? Quem ama a Deus só a Ele ama. E deve ter uma faca bem afiada para com ela cortar tudo o que tiver de contrário a Deus, sejam honras, haveres ou qualquer outra coisa. Deveis dizer:
– “Perca-se tudo e fique eu com Deus”.
Portanto, quem quiser receber a Deus na sua alma deve expulsar dela todos os seus inimigos, e quem assim não o fizer ficará sem Deus. Outrora, não se concebia que estivessem juntos no mesmo altar a Arca de Deus e Dagon, o ídolo dos filisteus (cf. 1 Sm 5, 2ss). Será então concebível que Deus more onde mora o pecado? Será aceitável que estejam juntos Ele e o demônio? Deveis fazer Deus sentar-se à cabeceira da mesa e convidar a sair tudo o que possa impedir-lhe a vinda. E assim, se o amardes, Ele virá; caso contrário, não o espereis.
Há outro que diz:
– “Padre, eu o receberei de boa vontade e lhe darei pousada neste Natal, mas depois retornarei os meus hábitos anteriores”.
Irmão, que pensamento é esse? Nem precisas preocupar-te porque, com essa disposição, Ele não virá. Quem o quiser receber deverá fazer um propósito muito verdadeiro e firmíssimo de nunca mais tornar a ofendê-lo.

Como Preparar-se?

Uma palavra para todos os que quiserdes receber a Deus neste Natal:
– “Padre, eu amo a Deus, que farei?”
Se tiverdes a casa suja, varrei-a; se houver poeira, pegai em água e molhai-a.
Haverá aqui alguns que não varrem a casa há dez meses ou mais. Existirá mulher tão desleixada que, tendo um marido muito asseado, fique dez meses sem varrer a casa? Há quanto tempo não vos confessais? Irmãos, não vos pedi na Quaresma passada que vos acostumásseis a confessar-vos algumas vezes ao ano? Pelo menos no Natal, nos dias de Nossa Senhora e em outras festas religiosas importantes do ano, mas penso que vos esquecestes. Praza a Nosso Senhor que não vos exijam contas disso no dia do Juízo. E se disserdes então: “Eu não sabia, por isso não me confessei”, dir-vos-ão: “Bem que vo-lo disseram, bem que vo-lo gritaram, muito se afadigaram em alertar-vos; agora de nada serve puxar dos cabelos porque antes não o quisestes fazer“.
Irmãos, pecamos todos os dias. Se até hoje fostes preguiçosos em varrer a vossa casa, pegai agora na vassoura, que é a vossa memória. Lembrai-vos do que fizestes ofendendo a Deus e do que deixastes de fazer a seu serviço; ide ao confessor e jogai fora todos os vossos pecados, varrei e limpai a vossa casa.
Depois de varrida, molhai o chão.
– “Mas não posso chorar, padre”
E se vos morre o marido ou o filho, ou se perdeis um pouco do vosso dinheiro, não chorais?
– “Claro que choro, padre, e tanto que quase chego ao desespero”
Pobres de nós que, se perdemos um pouco de dinheiro, não há quem nos possa consolar, mas se nos sobrevém um mal tão grande como perder a Deus – pois isso acontece a quem peca -, o nosso coração é de tal forma uma pedra que são necessários muitos pregadores, confessores e admoestadores para que sintamos um pouco de tristeza! Mas valorizas o real perdido do que o Deus que perdes. Quando perdes uma quantia insignificante, não há quem consiga consolar-te, nem frades, nem padres, nem amigos, nem parentes. E, no entanto, não te entristeces quando perdes nada menos que o próprio Deus. Que significa isto, senão que tens tanta terra nos canais entre o coração e os olhos que a água não pode passar?
– “Que me leva a ter o coração tão duro e a não poder chorar?”
De todos os tempos apropriados que há ao longo do ano, este é o mais apropriado para os duros de coração. Valorizai o tempo santo em que estamos, considerai esta semana como a mais santa de todas no ano. É uma semana santa, e se a aproveitardes bem e vos preparardes como já sabeis, certamente vos será tirada a dureza do coração.

Um Coração de Carne

Disse Deus:
“Farei chegar uns dias em que vos tirarei o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 11, 19)
E esse tempo chegou: a partir do momento em que Verbum caro factum est, em que Deus se fez homem (cf Jo 1, 14). Quando se fez carne, Ele nos deu corações de carne. Quando daqui a oito dias o virdes feito criança recém-nascida, colocada numa manjedoura, vê-lo-eis feito carne, e, por ter-se revestido de uma carne tão branda, Ele se torna brando, e não será difícil que vos dê corações brandos. Aproximai-vos do presépio e pedi com fé:
– “Senhor, já que Te tornaste brando, abrandai o meu coração”
Desse modo, sem dúvida alguma, Deus vos dará água para que laveis a vossa casa cheia de pó.
Que é mais necessário para um hóspede que vos bate à porta morto de fome e de frio e desnudo? É necessário que lhes busqueis alguma comida, alguma roupa, e que o agasalheis. Dir-me-á algum de vós:
– “Padre, Cristo não está reinando no céu? Então já não sente fome nem está desnudo”
Irmãos, embora Ele esteja nos céus, também está na terra – e não apenas no Santíssimo Sacramento -, porque, embora a Cabeça esteja no céu, o Corpo está na terra. Dizei-me: se eu agora vos pregasse que neste Natal Jesus Cristo virá a vossa casa, pobrezinho, desnudo, como nasceu em Belém, não o receberíeis? Não tendes pobres no vosso bairro? Não tendes desnudos à vossa porta? Ora, se viste o pobre, viste Jesus Cristo; se consolas o desconsolado, consolas Jesus Cristo, e foi Ele mesmo quem disse:
“O que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40)
Não te angusties dizendo:
– “Por que nenhuma pessoa em Belém quis receber com afeto o Menino e sua Mãe?
Não te aflijas porque, se receberes o pobre, recebes o Menino e sua Mãe; e se de verdades acreditas nisto, andarás mais solícito em procurar o pobre que está nesta rua, e disputarás aos outros a ocasião de fazer o bem que puderes.
Esmolas, irmãos, esmolas: vesti os desnudos, saciai os famintos, e não vos contenteis com dar umas moedas ou algo mais, mas dai esmolas em quantidade, pois é exatamente assim que Deus vos dá tantas coisas. Não sejais mesquinhos à hora de dar, já que Deus é tão generoso em dar-vos. Não deis moedinhas por Deus, já que Deus vos dá o seu Filho. Dai esmolas para bem receber Cristo neste Natal. Irmãos, esse que vem é amigo da misericórdia; que Ele vos encontre misericordiosos.

O Desejado de todos os povos

– “Falta mais alguma coisa, senhor?”
Sim, falta, e creio que é a mais importante: que saibais que o nome de Jesus é o Desejado de todos os povos. Que pena ver como Deus é pouco amado e desejado! Que pena quando vós tendes um filho doente e, ao lhe servirdes um frango assado e bem temperado, o ouvis dizer:
– “Não suporto este prato, tira-o da minha frente e joga-o fora!”
Se é uma pena que se perca esse prato, que pena não será, para quem o experimente, ver que a suma Bondade não é amada e desejada!
Senhor, que poucos vivem querendo seguir-Te, desejando-Te dia e noite? Que poucos perdem o sono por Ti! Diz Isaías: “A minha alma deseja-Vos durante a noite e o meu espírito procura-Vos desde a manhã” (Is 26, 9); não adormecerei nas vaidades desta vida, mas levantar-me-ei pela manhã para louvá-lo!, os nossos corações desfaleceriam. Um dos nossos maiores erros é não desejar a Deus. Quando a águia está saciada de carne, não quer voltar, mesmo que o dono a chame. Por que sentis tão pouco desejo de Deus? Porque estais saciados de carnes mortas e de víboras.
“Até me esqueci de comer o meu pão” (Sl 101, 5)
Se estais saciados de pecados, é de admirar que não tenhais fome de Deus?
O nome de Jesus Cristo é o Desejado de todos os povos. Antes de ter vindo, fora desejado por todos os patriarcas e profetas; todos suspiravam:
“Senhor, vede como Vos desejamos, vinde remediar-nos!”
Fora desejado pela Santíssima Virgem e por todos.
“Ditosos os que Vos esperam” (Is 30, 18)
Irmãos, se nesta semana vierem bater-vos à porta os pecadores, não os recebais. Dizei-lhes:
– “Sai daqui porque estou esperando um hóspede”
Quem está à espera de Deus colocou um grande freio na sua boca e nas suas obras. O que tens de fazer é suspirar por Deus:
– “Senhor, só Tu és o meu bem e o meu descanso; falte-me tudo, mas não me faltes Tu; perca-se tudo, tudo o que me queres dar, se me der a Ti, pouco me importa que me falte tudo”
Deus quer que o ames tanto como uma mulher bem casada, que pouco se importa de perder tudo, contanto que fique com o marido. Tens a Deus e estás infeliz porque falam mal de ti? Deus deixou casa e mãe, perdeu a honra e a vida, e, desnudo, colocou-se numa cruz por ti. E tu, que tens Deus contigo, ainda dizes que te falta alguma coisa? Que dirá Deus?
– “Tens-me a Mim e não te contentas?”
Deus vem a vós, o Desejado de todos os povos. A que vos sabe? Parece-vos sem sabor? Certamente não foi por culpa dEle. Diz o doente que não pode comer nada cozido. Pois para que achasses mais gosto nEle, Deus foi assado pelos tormentos, nem fogo de amor na cruz; e quanto mais o atormentam, mais descanso é para ti. Já seria delicioso sem isso, mas, para te ser mais saboroso, padeceu tudo. Se considerares o que padeceu por ti e por teu amor, quanto mais o vejas padecer, mais saboroso será para ti. Como é possível que não aches sabor em Deus, se Ele morreu por ti? Deves estar com problemas de estômago e será preciso purga-lo.
Diz o doente:
– “Estou fraco e preciso que cortem a carne, porque não consigo fazê-lo sozinho”
E que foram os açoites, os pregos e o golpe de lança senão os cortes que retalharam aquela carne santa para que, quanto mais atormentada, mais saborosa fosse para ti? Deus está cravado na cruz por ti, e tu não o desejas? Não achas saboroso um Deus morto por ti? Então algum pecado há em ti que te estorva; busca-o, joga-o fora e, ao longo desta semana, faze boas obras.
Confessai-vos, dai esmolas, desejai a Deus, suspirai por Ele de coração:
– “Meu Senhor, dentro da minha fraqueza, preparei-Vos a minha pobre casinha e estábulo; não desprezeis os lugares miseráveis, como não desprezastes o presépio e o patíbulo”
Ele quis nascer num estábulo para que, embora eu tenha sido mau e o meu coração tenha sido estábulo de pecados, confie em que não haverá de menosprezar-me. Senhor, embora eu tenha sido mau, preparei-me o melhor que pude; digo-Vos cheio de vergonha:
– “O meu estábulo está preparado; vinde, Senhor, que o estabulozinho está varrido e livre de pó. Não passo de um estábulo; supra a vossa misericórdia o que falta em mim, proveja ao que não tenho”
E se assim vos preparardes, Ele virá sem falta.
Praza à sua misericórdia que de tal modo nos preparemos para este Natal, que Ele nasça em nós, e nos dê aqui a sua graça e, depois a sua glória. Amém.
Referências
(1) Confissões 2, 3, 7; 10, 27 e 38
(Ávila, São João de. O Mistério do Natal. Prefácio e tradução de Gabriel Perissé. Quadrante 1998, 2ª ed., p. 9-28)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Da Submissão à Vontade de Deus


Retirado do livro
Pe. de La Colombière
Excertos
 Livro de 1934 - 54 págs


Da Submissão à Vontade de Deus
Uma das verdades mais bem estabelecidas e das mais consoladoras que jamais nos tenham sido reveladas é que, com ressalva do pecado, nada nos sucede na terra senão porque Deus o quer; é Ele quem dá as riquezas e é Ele quem envia a pobreza; se estais doente, Deus é a causa do vosso mal; se haveis recuperado a saúde, foi Deus quem vo-la restituiu; se viveis, é unicamente a Ele que deveis tão grande bem; e quando a morte vier terminar a vossa vida, será da mão Dele que recebereis o golpe mortal.
Mas, quando os maus nos perseguem, é então a Deus que o devemos imputar? Sim, cristãos ouvintes, é ainda a Ele que deveis então acusar unicamente do mal que sofreis. Ele não é causa do pecado que comete o vosso inimigo maltratando-vos, mas é causa do mal que esse inimigo vos faz pecando. Esse homem injusto é como uma torrente que, do alto dum rochedo, vem despenhar-se num vasto campo. Não é o lavrador que dá a essa torrente rápida o movimento que a arrasta, mas é o lavrador quem, ora rompendo um dique, ora tapando um valado ou levantando uma represa, lhe faz entrar as águas num campo antes que em outro, quer pretenda adubar, quer pretenda desolar por esse meio aquele campo. Ou se preferis, aquele mau homem é nas mãos de Deus como um veneno nas mãos dum artista hábil: não foi o artista que deu àquela erva ou àquele mineral a virtude maligna que lhes é própria, mas foi ele quem as misturou na beberagem que vos apresenta, quer tenha o intento de vos dar a morte, quer talvez o de vos restituir a saúde. Assim, não foi Deus quem inspirou ao vosso inimigo a má vontade que tem de vos prejudicar, mas foi Ele quem lhe deu o poder, foi Ele quem fez voltar sobre vós a malícia daquela pessoa, quem dispôs as coisas de tal sorte que ele se tenha achado em estado de perturbar o vosso repouso, que o tenha efetivamente perturbado. O Senhor quis que caísseis na cilada, já que não a evitou, já que prestou mesmo mão aos que vo-la armavam; é Ele que vos entrega sem defesa aos vossos inimigos, e foi Ele que dirigiu, por assim dizer, todos os golpes que eles vos desfecharam. Não duvideis: se recebeis alguma chaga, foi o próprio Deus quem vos feriu. Quando todas as criaturas se ligassem contra vós, se o Criador não quisesse, se se lhes não juntasse; se lhes não desse tanto as forcas como os meios de executar os seus maus desígnios, nunca o conseguiriam: Não teríeis nenhum poder sobre mim se ele vos não fosse dado do alto, dizia o Salvador do mundo a Pilatos. Nós podemos dizer outro tanto aos homens como aos demônios, mesmo às criaturas que são privadas de razão e de sentimento. Não, vós não me afligiríeis, não me prejudicaríeis como fazeis, se Deus não vo-lo tivesse ordenado; é Ele quem vos envia, é Ele quem vos dá o poder de me tentardes e de me fazerdes sofrer: Não teríeis nenhum poder sobre mim, se ele não vos tivesse sido dado do alto.
Se de quando em quando meditássemos seriamente este artigo da nossa crença, não seria preciso mais para abafar as nossas murmurações em todas as perdas, em todas as infelicidades que nos acontecem. Era o Senhor que me tinha dado todos aqueles bens, foi Ele mesmo quem mos tirou; não foi nem aquela parte, nem aquele juiz, nem aquele ladrão quem me arruinou, não foi aquela mulher que me denegriu a reputação com as suas maledicências; se esse menino morreu, não foi nem por ter sido maltratado, nem por ter sido mal servido; foi Deus, a quem tudo aquilo pertencia, quem não me quis deixar fruir dele por mais tempo.
É, pois, uma verdade de fé que Deus conduz todos os acontecimentos de que a gente se queixa no mundo; e, demais, não podemos duvidar de que todos os males que Deus nos manda nos sejam utilíssimos: não podemos duvidá-lo sem suspeitar a Deus de carecer de luz para discernir o que é vantajoso.
É prova dum orgulho insuportável, diz são Basílio, que nos próprios negócios a gente não necessita de tomar conselho de ninguém, e que tem por si mesmo bastante prudência para escolher o melhor partido. Mas, se nas coisas que nos dizem respeito qualquer outro vê melhor do que nós aquilo que nos é útil, que loucura pensar que o vemos melhor do que Deus mesmo, Deus que é isento das paixões que nos cegam, que penetra o futuro, que prevê os acontecimentos e o efeito que cada causa deve produzir! Sabeis que os acidentes mais molestos têm às vezes felizes consequências, e que, ao contrário, os sucessos mais favoráveis podem finalmente terminar em funestos desfechos. É mesmo uma regra que Deus observa assaz comumente, ir aos seus fins por vias inteiramente opostas às que a prudência humana costuma escolher.
Na ignorância em que estamos do que deve acontecer no futuro, como então ousamos murmurar daquilo que sofremos pela permissão de Deus! E mesmo por simples vantagens deste mundo, quantos exemplos não temos desse proceder! Vendem José, trazem-no em servidão, lançam-no numa prisão: ele se aflige das suas desditas aparentes, aflige-se com efeito da sua felicidade, pois são outros tantos degraus que o elevam insensivelmente ao trono do Egito. Saul perdeu as mulas de seu pai, tem que as ir buscar muito longe e muito inutilmente: é muito tempo e muito trabalho perdido, é certo; mas se essa mágoa o aflige, jamais houve pesar tão desarrazoado, visto que tudo aquilo só foi permitido para o conduzir ao profeta que o deve ungir da parte do Senhor, para ser o rei de seu povo. Qual não há de ser a nossa confusão, quando comparecermos perante Deus, quando virmos as razões que Ele terá tido de nos mandar essas cruzes que nós tão mal lhe agradecemos! Eu lamentei a perda daquele filho único morto na flor da idade: ai! Se Ele tivesse vivido ainda alguns meses, alguns anos, teria perecido da mão dum inimigo, teria morrido em pecado mortal. Eu não me pude consolar do rompimento daquele casamento: se Deus tivesse permitido que ele se concluísse, eu iria passar os meus dias no luto e na miséria. Devo trinta ou quarenta anos de minha vida àquela doença que sofri com tanta impaciência. Devo a minha salvação eterna àquela confusão que me custou tantas lágrimas. Minha alma estaria perdida, se eu não tivesse perdido aquele dinheiro. Com que nos embaraçamos, cristãos ouvintes? Deus se encarrega da nossa direção, e nós estamos na inquietude! Abandonamo-nos à boa fé dum médico porque supomos que ele entende da sua profissão; ele ordena que vos façam as operações mais violentas, às vezes até que vos abram o crânio com o ferro: ali, que vos furem o corpo; aqui que vos cortem um membro para deter a gangrena que poderia enfim chegar até ao coração; a gente sofre tudo isso, fica-lhe agradecido, recompensa-o liberalmente, porque julga que ele não o faria se o remédio não fosse necessário, porque julga que cumpre fiar-se na sua arte; e não queremos fazer a mesma honra ao nosso Deus! Dir-se-ia que desconfiamos da sua sabedoria e que tememos que ele nos transvie! Que? Entregais vosso corpo a um homem que se pode enganar e cujos menores erros vos podem tirar a vida, e não vos podeis submeter à conduta do Senhor!
Se nós víssemos tudo o que Ele vê, quereríamos infalivelmente tudo o que Ele quer; haviam-nos de ver pedir-lhe com lágrimas as mesmas aflições que tratamos de desviar pelos nossos votos e pelas nossas preces. Por isto, é a nós todos que Ele diz nas pessoa dos filhos de Zebedeu: Nescitis quid petitis; homens cegos, a vossa ignorância me faz pena, não sabeis o que me pedis; deixai-me cuidar dos vossos interesses, conduzir-vos à fortuna; Eu conheço o que vos é necessário, melhor do que vós mesmos; se até aqui eu tivesse levado em conta os vossos sentimentos e os vossos gostos, já estaríeis perdidos sem recurso.
Mas quereis, cristãos ouvintes, quereis ficar persuadidos de que em tudo o que Deus permite, em tudo quanto vos sucede, não tem Ele em mira senão as vossas verdadeiras vantagens, a vossa felicidade eterna? Fazei um momento de reflexão sobre tudo o que Ele há feito por vós. Estais agora na aflição: pensai que quem é o autor dela é Aquele mesmo que quis passar toda a sua vida nas dores para vo-las poupar eternas; que é Aquele cujo anjo está sempre ao vosso lado, velando por sua ordem sobre todos os vossos caminhos, e se aplicando a desviar tudo o que vos possa ferir o corpo ou manchar a alma; pensai que quem vos expõe a essa pena é Aquele que nos nossos altares ora incessantemente e se sacrifica mil vezes ao dia para expiar os vossos crimes e aplacar a cólera de seu Pai, à medida que O irritais; que é Aquele que vem a vós com tanta bondade no sacramento da eucaristia; Aquele que não tem prazer maior do que conversar convosco, do que se unir a vós. Que ingratidão, após tamanhas provas de amor, desconfiar ainda Dele, duvidar de se é para nos prejudicar ou para nos fazer bem que Ele nos visita! Mas Ele me fere cruelmente, faz pesar a Sua mão sobre mim. E que temeis duma mão que foi transfixada, que se deixou pregar na cruz por vós? Ele me faz andar por um caminho espinhoso. Se não há outro para ir ao céu, ai de vós se preferis perecer para sempre a sofrer por um tempo! Não foi esse mesmo caminho que Ele seguiu, antes de vós e por amor de vós? Achais acaso Nele um espinho que Ele não tenha marcado, que não tenha enrubescido com o seu sangue?
Ele me apresenta um cálice cheio de amargura. Sim, mas pensai que é o vosso Redentor que vo-lo apresenta; amando-vos tanto quanto vos ama, poderia resolver-se a tratar-vos com rigor se não houvesse uma utilidade extraordinária ou uma urgente necessidade? Ouvistes falar daquele príncipe que preferiu expor-se a ser envenenado, a recusar a bebida que seu médico lhe receitara, porque reconhecera sempre naquele médico muita fidelidade e muito apego à sua pessoa; e nós, cristãos ouvintes, nós recusamos o cálice que Nosso Divino Mestre nos preparou Ele próprio, atrevemo-nos a ultrajá-lo até esse ponto! Rogo-vos não esquecerdes esta reflexão; ela basta, se me não engano, para nos fazer aceitar, para nos fazer amar as disposições da vontade divina que nos parecem mais incômodas, e nos conformarmos desse modo com essa vontade suprema; é, aliás, assegurar infalivelmente a nossa felicidade, mesmo desde esta vida.
Eu suponho, por exemplo, que um cristão está liberto de todas as ilusões do mundo, pelas suas reflexões e pelas luzes que recebeu de Deus; que reconhece que tudo não passa de vaidade; que nada lhe pode encher o coração; que aquilo que há desejado com mais afã é muitas vezes fonte dos mais mortais pesares; que a gente custa a distinguir o que nos é útil e o que nos é contrário, por isto que o bem e o mal estão quase por toda a parte misturados, e porque aquilo que ontem era o mais vantajoso é hoje o pior; que os seus desejos só fazem atormentá-lo; que os cuidados que emprega para lograr êxito o consomem e até lhe prejudicam às vezes os desígnios, ao invés de os adiantar; que, ao cabo de tudo, é uma necessidade que a vontade de Deus se cumpra; que nada se faz senão por suas ordens, e que Ele nada pode ordenar a nosso respeito que não nos reverta em vantagem.
Após todas essas vistas, suponho ainda que ele se lance nos braços de Deus como às cegas; que se lhe entregue, por assim dizer, sem condição e sem reserva, inteiramente resolvido a confiar Nele para tudo, e nada mais desejar, nada mais temer, numa palavra, nada mais querer senão aquilo que Ele quiser; digo que, desde esse momento, essa feliz criatura adquire uma liberdade perfeita, que não pode mais nem ser molestada nem constrangida; que não há autoridade, não há poder na terra que seja capaz de lhe fazer violência ou de lhe dar um momento de inquietação.
«Como me quereis obrigar a fazer o que eu não quero? dizia um santo homem cujos sentimentos são referidos. Seria preciso poder constranger o próprio Deus, para me pôr no caso de fazer algo contra minha vontade; porque, enquanto Deus fizer tudo o que quiser, eu não posso deixar de ser perfeitamente livre, visto que só quero o que Ele faz. Deus quer que eu adoeça? Pois a moléstia me é mais agradável do que a saúde; que eu seja pobre? Pois eu não queria ser rico; que eu seja o repúdio de todos? Consinto que toda a gente me despreze, fundo toda a minha glória nos seus desprezos. Importa que eu viva aqui ou alhures, que eu passe os meus dias no repouso ou na trica dos negócios, que morra na flor ou no declínio da idade? De tudo isso eu não poderia dizer o que gosto mais; mas, desde que Deus tiver feito a sua escolha, e me tiver feito conhecer para que lado pende o seu coração, o meu seguirá esse pendor, e achará nele a sua felicidade.»
Mas não é uma quimera um homem em quem os bens e os males fazem uma igual impressão? Não, não é uma quimera; conheço pessoas que estão igualmente contentes na moléstia e na saúde, nas riquezas e na indigência; algumas conheço mesmo que preferem a indigência e a moléstia às riquezas e à saúde.
De resto, não há nada tão verdadeiro como o que vos vou dizer: tanta submissão temos à vontade de Deus, tanta condescendência tem Ele para com as nossas vontades. Parece que, desde que a gente se apega unicamente a lhe obedecer, Ele próprio só cuida de nos satisfazer: não só ouve as nossas preces, mas até as previne; vai buscar até no fundo do coração aqueles mesmos desejos que a gente trata de sufocar para lhe aprazer, e os realiza, cumula-os, excede-os todos.
Enfim a ventura daquele cuja vontade é submissa à vontade de Deus é uma ventura constante, inalterável, eterna. Temor algum lhe perturba a felicidade, porque acidente algum a pode destruir. Eu mo represento como um homem sentado num rochedo no meio do oceano: vê virem a ele as mais furiosas vagas sem ficar atemorizado, acha prazer em considerá-las e contá-las, à medida que elas se lhe veem quebrar aos pés; quer o mar esteja calmo ou agitado, quer o vento empurre as ondas para um lado ou para outro, ele fica igualmente imóvel, porque o lugar em que se encontra é firme e inabalável.
Vem daí essa paz, essa calma, esse semblante sempre sereno, esse ânimo sempre igual que notamos nos verdadeiros servos de Deus. Que razão não tendes, almas santas, de ser sem inquietações? Achastes na vontade do vosso Deus um retiro inacessível a todas as desditas da vida; elevaste-vos muito acima da região das tempestades: não há dardo que possa chegar até lá. Não podeis temer nem os homens nem os demônios. Façam o que fizerem, suceda o que suceder, sereis sempre felizes, ou então o próprio Deus deixará de sê-lo.
Resta ver como é que poderemos atingir essa venturosa submissão. Isto só se pode fazer, senhores, pela experiência frequente dessa virtude; e por isto que as grandes ocasiões de praticá-la são raras, todo o segredo consiste em aproveitar as pequenas, que são diárias, e cujo bom uso em breve nos porá em estado de sustentar os maiores revezes sem sermos abalados. Não há ninguém a quem cada dia não aconteçam cem pequenas coisas contrárias aos seus desejos e inclinações, seja que no-las atraia a nossa imprudência ou nosso pouco espírito, seja que elas nos venham da inconsideração ou da malignidade alheia, seja enfim que constituam um puro efeito do acaso ou do concurso imprevisto de certas causas necessárias. Toda a nossa vida é semeada dessas sortes de espinhos, que nos nascem incessantemente debaixo dos pés, que produzem no nosso coração mil frutos amargos, mil movimentos involuntários de ódio, de inveja, de temor, de impaciência, mil pequenas mágoas passageiras, mil ligeiras inquietações, mil perturbações, que, ao menos por um momento, alteram a paz da alma. Escapa-nos, por exemplo, uma palavra que não quiséramos ter dito, dizem-nos outra que nos ofende, um criado vos serve mal ou com vagarosidade, uma criança vos incomoda, um estorvante vos faz parar, um estouvado vos encontrou, um cavalo vos cobre de lama, faz um tempo que vos desagrada, a vossa obra não vai como desejaríeis, um pequeno móvel se quebra, uma roupa se mancha ou se rasga; eu sei que não há aí em que exercer uma virtude bem heroica, mas digo que seria o bastante para adquiri-la infalivelmente se o quiséssemos; digo que todo o que estivesse alerta para oferecer a Deus todas essas contrariedades, e para aceitá-las como ordenadas pela sua providência, esse homem, além de adquirir por essa prática grande número de méritos, além de se dispor insensivelmente a uma união muito íntima com Deus, seria ainda, em pouco tempo, capaz de aguentar os mais tristes e os mais funestos acidentes da vida.
A este exercício, que é tão fácil, e não obstante mais útil para nós e mais agradável a Deus do que vos posso dizer, pode-se ajuntar ainda outro. Embora as grandes desgraças não aconteçam todos os dias, pode-se a gente oferecer a Deus todos os dias para aturá-las quando lhe aprouver. Se Deus vos quisesse tirar ou aquele filho ou aquele marido, se permitisse que perdêsseis aquele processo ou aquele dinheiro que colocastes, precisaríeis duma grande forca de espírito para suportar esses golpes tão rudes. Não sabeis ainda qual será a vontade Dele sobre esses pontos; preveni-lhe as ordens, e desde agora submetei-vos a tudo quanto Ele resolveu fazer; renunciai com frequência em sua presença a todos os desejos que podeis ter de aumentar ou de conservar os vossos bens, a vossa saúde, a vossa reputação, e protestai-lhe que estais pronto a lhe sacrificar tudo. Pensai todos os dias, desde a manhã, em tudo quanto vos pode suceder de mais molesto durante o curso do dia. Pode suceder que no correr do dia tragam a notícia dum naufrágio, duma bancarrota, dum incêndio; talvez que antes da noite recebais alguma afronta pesada, alguma sangrenta confusão; talvez que a morte vos roube a pessoa do mundo que mais amais; não sabeis se vós mesmo não morrereis subitamente e duma maneira trágica. Aceitai todas essas desgraças no caso que praza a Deus permiti-las, coagi a vossa vontade a consentir nesse sacrifício, e não vos deis trégua enquanto não a sentirdes disposta a querer ou a não querer tudo o que Deus pode querer ou não querer.
Enfim, quando uma dessas desditas se fizer efetivamente sentir, em lugar de perderdes tempo em vos queixardes ou dos homens ou da fortuna, ide lançar-vos prontamente aos pés do Divino Mestre, para lhe pedir a graça de suportar com constância aquele infortúnio. Um homem que recebeu uma chaga mortal, se é prudente, não corre atrás de quem o feriu. Vai primeiro ao médico que o pode curar. Mas quando, em tais conjunturas, buscásseis o autor dos vossos males, seria ainda a Deus que cumpriria ir, pois só Ele lhes pode ser a causa.
Ide, pois, a Deus, mas ide prontamente, ide na mesma hora, seja o primeiro de todos os vossos cuidados: ide levar-Ihe, por assim dizer, a flecha que Ele vos atirou, o flagelo de que se serviu para vos provar. Beijai mil vezes as mãos do Vosso Senhor crucificado, essas mãos que vos feriram, que fizeram todo o mal que vos aflige. Repeti-lhe muitas vezes estas palavras que Ele próprio dizia a seu Pai no forte da sua dor:Senhor, faça-se a vossa vontade, e não a minha. Eu vos bendigo mil vezes, eu vos dou graças de que as vossas ordens se cumpram sobre mim; e quando estivesse em meu poder resistir-lhes, eu continuaria a me submeter a elas. Aceito esta calamidade em si mesma como em todas as suas circunstâncias; não me queixo nem do mal que sofro, nem das pessoas que me causam, nem do modo por que ele veio até mim, nem da conjuntura do tempo ou do lugar em que ele me surpreendeu ; estou certo de que o quisestes sob todos esses pontos de vista, e gostaria mais de morrer do que de me opor no que fosse à Vossa Vontade: Fiat voluntas tua... Sim, meu Deus, em tudo o que quiserdes de mim, hoje e por todos os tempos, no céu e na terra, faça-se essa vontade, mas faça-se na terra como se cumpre no céu.