quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Como Nosso Senhor pratica os mais e excelentes atos de amor.

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Jesus amou-nos com um amor de complacência, porque as suas delícias foram estar com os filhos dos homens e atrair os homens a si, fazendo-se Ele próprio homem. Amou-nos com um amor de benevolência, fazendo compartilhar ao homem a sua divindade, de forma que o homem fosse Deus. 

 Uniu-se a nós com uma união tão incompreensível, que se uniu e aderiu à nossa natureza tão forte, indissolúvel e infinitamente, que nada jamais se uniu tanto à humanidade como agora a santíssima  divindade na pessoa do Filho de Deus. Derramou-se todo em nós, e, por assim dizer, fundiu a sua grandeza reduzindo-a à nossa pequenez, e é assim que ele é chamado fonte de água viva, orvalho e chuva celeste. Esteve em êxtase, não só como diz São Dionísio, porque, em razão do excesso da sua amorosa bondade ficou como fora de si, estendendo a sua providência sobre tudo e encontrando-se em tudo, mas, como diz São Paulo, deixou-se a si mesmo, despojou-se da sua gradeza e da sua glória e demitiu-se do trono da sua incompreensível Majestade, e por assim dizer aniquilou-se para se unir à nossa humanidade, encher-nos com a sua divindade e bondade, elevar-nos à sua dignidade e dar-nos o divino título de filhos de Deus.

 E aquele do qual se escreveu: "Eu vivo por mim mesmo, diz o Senhor", poderia dizer com o Apóstolo: "Não sou eu que vivo por mim; é o homem, que vive em mim. A minha vida é o homem, e morrer pelo homem é o que me agrada; a minha vida esta oculta com o homem em Deus".

 O que habitava em si mesmo, habita agora em nós, e o que estava de toda a eternidade no seio de seu Pai Eterno, veio habitar, tornando-se mortal, no seio de sua Mãe temporal; o que vivia eternamente da sua vida divina, veio viver temporalmente da vida humana, e o que foi Deus de toda a eternidade será doravante homem eternamente, a tal ponto o arrebatou o amor do homem. Muitas vezes admirou-se, por amor, como fez com o Centurião e com a Cananéia. Contemplou o jovem que até então tinha guardado os mandamentos e que desejava ser encaminhado à perfeição. Demorou-se com quietação em nós e mesmo com alguma suspensão de sentidos no seio de sua Mãe e na sua infância. Foi terno para as criancinhas, que tomava nos braços e acariciava amorosamente; para com Marta e Madalena, para com Lázaro, que chorou, e para com a cidade de Jerusalém.

 Animou-se em um zelo sem igual, que, como diz São Dionísio, se converteu em ciúme; remindo todo o mal da sua amada natureza humana com o preço da sua própria vida; expulsando o demônio, príncipe deste mundo, que parecia ser seu rival e companheiro. Teve mil delíquios amorosos; pois donde podiam provir estas divinas palavras: "Eu devo receber o batismo, e como estou angustiado até que o receba?" Aguardava a hora de ser batizado no seu sangue e angustiava-se por ele não chegar: impelindo-o o seu amor a ver-nos livres pela sua morte da morte eterna. Assim permaneceu triste e suou sangue no jardim das Oliveiras, não só pela extrema dor que a alma sentiu na parte inferior da razão, pois que a dor lhe dava horror da morte e o amor fazia-lhe desejável, de forma que houve um rijo combate e uma cruel agonia entre o desejo e o horror da morte, que chegou a uma grande efusão de sangue, manando como de uma fonte viva por sobre a terra. Enfim este Deus amoroso morreu nas chamas do seu amor pela infinita caridade que tinha para conosco e pela força e virtude do amor; isto é, morreu de amor, por amor, em amor e para amar. Porque embora os cruéis suplícios fossem suficientes para fazer morrer quem quer que fosse, embora a morte não pudesse entrar na vida d'Aquele que tem as chaves da vida e da morte, se o amor divino que maneja estas chaves não tivesse aberto as portas à morte, afim de que ferisse este divino corpo e lhe tirasse a vida; não se contentando o amor em o tornar mortal sem lhe dar a morte. "Ninguém me tira a vida, diz Ele; mas entrego-a eu. Tenho o poder de a entregar e retomar quando me apraz. Foi oferecido, diz Isaias, porque quis".

 Não obstante, não diz que o seu espírito se separou dele e o deixou; mas, pelo contrário, que o entregou nas mãos de seu Eterno Pai. Santo Atanásio nota que Jesus baixou a cabeça para morrer, para consentir e inclinar-se diante da vinda da morte, a qual de outra forma não ousaria aproximar-se d'Ele, e, bradando em voz alta, entregou o espírito a seu Pai, por mostrar que, assim como tinha bastante alento e força para não morrer, também tinha tanto amor, que não podia viver mais sem fazer reviver por sua morte os que sem ela não podiam evitar a morte, nem aspirar à verdadeira vida. Eis porque motivo a morte do Salvador foi um verdadeiro sacrifício, sacrifício de holocausto que Ele próprio ofereceu a seu Pai por nossa redenção. Embora as penas e dores da sua paixão fossem tão fortes que qualquer outro homem morreria, quanto a Ele, não morreria se quisesse e foi o fogo da sua infinita caridade que lhe consumiu a vida.

 Foi Ele próprio o sacrificador que se ofereceu a seu Pai e se imolou  por amor e em amor. Mas não digais que esta morte amorosa do Salvador não fosse por uma espécie de enlevo; porque o objeto pelo qual a sua caridade o entregou à morte não era tão amável que lhe pudesse arrebatar aquela alma divina, que de seu corpo saia por forma de êxtase, impelida e lançada por afluência e força de amor como nós vemos a mirra expulsar o seu primeiro licor, somente por abundância, sem que a espremam de forma alguma, como Jesus Cristo dizia: "Ninguém me tira ou arrebata a alma; dou-a eu voluntariamente". Oh! Deus! que fogo tão próprio para nos inflamar a praticarmos exercícios de amor para com um Salvador tão bom, vendo que tão amorosamente os praticou para conosco, que tão maus somos! Esta doce caridade de Jesus Cristo esmaga-nos.

Pensamentos Consoladores
São Francisco de Sales

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Catecismo Ilustrado - Parte 36 - 3º Mandamento de Deus (continuação): Santificar os Domingos e as Festas de preceito


Catecismo Ilustrado - Parte 36

Os Mandamentos

3º Mandamento de Deus (continuação): Santificar os Domingos e as Festas de preceito

1. As obras liberais, nas quais o espírito toma mais parte que o corpo, como escrever, ler, ensinar desenhar, estudar, tocar instrumentos de música etc. são permitidas ao domingo.

2. São também permitidas as obras que se chamam comuns, como varrer, caçar, pescar etc.

3. A profanação do domingo é muito nociva à sociedade, e muitas vezes Deus a pune nesta vida com terríveis castigos.

4. O descanso do domingo é muito útil ao nosso corpo, porque assim reparam-se as forças, conserva-se a saúde e prolonga-se a vida.

5. Na lei antiga, a profanação do sábado era castigada com a morte. Por isso, os fariseus e os escribas, que buscavam sempre a ocasião de por Jesus em contradição com a lei de Moisés, acusavam-No de violar a lei do sábado, porque fazia milagres nesse dia curando os doentes. Eis aqui o que nos narram os evangelistas a esse respeito: “Naquele tempo passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer. E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: “Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado”. Ele, porém, lhes disse: “Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes? Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa? Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo.
Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes. Porque o Filho do homem até do sábado é Senhor”. E, partindo dali, chegou à sinagoga deles. E, estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para o acusarem, o interrogaram, dizendo: “É lícito curar nos sábados?” E ele lhes disse: “Qual dentre vós será o homem que tendo uma ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não lançará mão dela, e a levantará? Pois, quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por conseqüência, lícito fazer bem nos sábados”. Então disse àquele homem: “Estende a tua mão”. E ele a estendeu, e ficou sã como a outra. E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem. Jesus, sabendo isso, retirou-se dali, e acompanharam-no grandes multidões, e ele curou-os a todas.” (Mat XII, 1-14)

Lemos no Evangelho de São Lucas: “Jesus estava ensinando numa sinagoga, num dia de sábado. Havia aí uma mulher que, fazia dezoito anos, estava com um espírito que a tornava doente. Era encurvada e totalmente incapaz de olhar para cima. Vendo-a, Jesus a chamou e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua doença”. Ele impôs as mãos sobre ela, que imediatamente se endireitou e começou a louvar a Deus. O chefe da sinagoga, porém, furioso porque Jesus tinha feito uma cura em dia de sábado e, tomando a palavra, começou a dizer à multidão: “Existem seis dias para trabalhar. Vinde, então, nesses dias para serdes curados, mas não em dia de sábado.” O Senhor lhe respondeu: “Hipócritas, cada um de vós não solta do curral o boi ou o jumento, para dar-lhe de beber, mesmo que seja dia de sábado? Esta filha de Abraão não devia ser libertada dessa prisão, mesmo em dia de sábado?” Esta resposta envergonhou todos os inimigos de Jesus. E a multidão inteira se alegrava com as maravilhas que Ele fazia”. (Lucas XIII, 10-17)

Explicação da gravura

6. A lei antiga mandava lapidar os profanadores do sábado. Vê-se, na parte superior, o suplício de um homem que tinha apanhado lenha ao sábado.

7. Na parte inferior esquerda, está representado o Senhor com os seus discípulos que, tendo fome, colhem espigas e as comem

8. Na parte inferior direita vê-se a cura, feita num sábado, do homem que tinha a mão ressequida.




Índice das sessenta e oito gravuras

Sumário

1.- Introdução

O Símbolo dos Apóstolos


2.- A Santíssima Trindade
3.- A Criação
4.- Incarnação - Transfiguração
5.- Incarnação - Anunciação
6.- A Natividade
7.- A Redenção
8.- A descida aos Infernos
9.- A Ressurreição
10.- A Ascensão
11.- Jesus Cristo à direita de Deus Pai
12.- Juízo Final
13.- Pentecostes
14.- A Igreja
15.- A Comunicação dos Santos
16.- A Remissão dos pecados
17.- A Ressurreição da carne
18.- O Paraíso
19.- O Inferno

Os Sacramentos

20.- A Graça
21.- O Baptismo
22.- A Eucaristia
23.- A Confirmação
24.- A Penitência
25.- A Extrema-Unção
26.- A Ordem
27.- O Matrimônio

Os Mandamentos


28.- Os mandamentos da lei de Deus


29.- 1º Mandamento de Deus: Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas


30.- 1º Mandamento (continuação): Adorar a um só Deus e amá-Lo sobre todas as coisas


31.- 2º Mandamento de Deus: Não invocar o Santo Nome de Deus em vão


32.- 2º Mandamento de Deus (continuação): Não invocar o Santo Nome de Deus em vão


33.- 2º Mandamento de Deus (continuação): Não invocar o Santo Nome de Deus em vão


34.- 3º Mandamento de Deus: Santificar os Domingos e Festas de preceito


35.- 3º Mandamento
36.- 4º Mandamento
37.- 4º Mandamento
38.- 4º Mandamento
39.- 4º Mandamento
40.- 5º Mandamento
41.- 5º Mandamento
42.- 5º Mandamento
43.- 6º Mandamento
44.- 7º Mandamento
45.- 7º Mandamento
46.- 8º Mandamento
47.- 8º Mandamento
48.- 8º Mandamento
49.- 9º Mandamento
50.- 10 Mandamento
51.- Os Mandamentos da Igreja
52.- Os Mandamentos da Igreja
53.- Os Mandamentos da Igreja

Diversos

54.- A Oração
55.- O Pai Nosso
56.- Ave Maria
57.- Os Novíssimos do homem
58.- A Morte
59.- O Juízo
60.- O pecado original
61.- Os pecados capitais
62.- Os pecados capitais
63.- Os pecados capitais
64.- As Virtudes teologais
65.- As Virtudes cardeais
66.- As Virtudes evangélicas
67.- As obras corporais de misericórdia
68.- As obras espirituais de misericórdia

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A ESSÊNCIA DA ORAÇÃO É A ELEVAÇÃO DA ALMA PARA DEUS – PALAVRAS DE MONS. LEFEBVRE

Eis aqui algumas palavras de Mons. Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, sobre a parte fundamental da oração, isto é, a elevação da alma a Deus, pois é muito fácil confundir-se com devoções exteriores que, por vezes, podem chegar a nos distrair ao invés de nos ajudar.
Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est
A Igreja medita os ensinamentos recebidos e pede para dispor às almas a buscar santamente a graça.
O essencial da oração é a elevação de nossas almas a Deus. É um erro acreditar que somos obrigados a ler todas as orações da missa para assisti-la. É muito bom associar-se à cerimônia: é algo excelente, mas fez-se dos missais um elemento quase essencial. Aquele que não abre seu livrinho durante a missa e lê as orações escandaliza ao que o vê, embora ele possa rezar melhor do que aquele que lê seu missal. Se essa pessoa conhece bem as diferentes partes da Missa, se associa a todas as orações do sacerdote e se prepara particularmente para a santa comunhão, unindo-se profundamente no amor de Nosso Senhor nela, essa pessoa segue a Missa de modo admirável. As bênçãos de Deus podem ser mais abundantemente derramadas sobre ela do que aqueles que seguiram o missal com exatidão, talvez se distraindo por tentar entender todas as palavras, apegando-se à letra e esquecendo o espírito da Missa.
A Missa Nova foi concebida para que tudo fosse compreendido; há de se seguir tudo; por isso que o sacerdote diz tudo em voz alta, todos devem seguir e os fiéis participam o tempo todo. Na realidade, os fiéis rezam seguramente menos do que rezavam antes. Não à toa o Concílio de Trento afirma: “Se alguém disser que o rito da Igreja Romana que prescreve que parte do Cânon e as palavras da consagração se profiram em voz baixa deva ser condenado, seja anátema“. Isto está nos cânones sobre o santo sacrifício da Missa do Concílio de Trento. 
Em nossa época existem ilusões completas. Há de se ater na definição da oração. O que conta é a elevação de nossas almas a Deus. Agora, não há dúvida de que o santo sacrifício da Missa e toda a liturgia tradicional nos ajuda muito a elevar nossas almas a Deus.

A pena mais grave do Menino Jesus


Quae utilitas in saguine meo, dum descendo in corruptionem? – “Que proveito há no meu sangue, se desço à corrupção?” (Sl 29, 10)
Sumário. Quando Jesus estava ainda no seio de Maria Santíssima, já previa a dureza de coração dos homens, que pela maior parte havia de pisar o seu sangue aos pés e de desprezar a graça que com seu sangue lhes havia merecido. Foi esta a pena que mais O afligiu. Se nós também temos sido do número desses ingratos, não desesperemos, contanto que estejamos resolvidos a converter-nos; porque o divino Menino veio a oferecer a paz a todos os homens de boa vontade. Arrependamo-nos, pois, de nossos pecados e façamos o propósito de amar doravante o nosso bom Deus, e estejamos certos de que acharemos a paz, isso é, a amizade divina.

I. Revelou Jesus Cristo à Venerável Águeda da Cruz, que, quando estava no seio de Maria, o que entre todas as penas mais o afligia, foi a previsão da dureza do coração dos homens, que, depois da Redenção feita haviam de desprezar as graças que ele viera derramar sobre a terra. Jesus exprimiu o mesmo sentimento já pela boca de Davi nas palavras citadas, na explicação comum dos Santos Padres: Quae utilitas in sanguine meo, dum descendo in corruptionem? Interpreta Santo Isidoro as palavras: “se desço na corrupção”, assim: se desço a tomar a natureza humana toda corrompida pelos vícios e pecados.

— “Meu Pai” (assim parece dizer o Verbo divino), “eu vou tomar um corpo humano e depois derramarei todo o meu sangue pelos homens; mas quae utilitas in sanguine meo? — que proveito terá o meu sangue? A maior parte dos homens nem sequer se lembrarão deste meu sangue e continuarão a ofender-me, como se nada por amor deles tivesse feito.”
Esta pena foi o cálice de amargura, do qual Jesus pediu que o Pai Eterno O livrasse, dizendo:
Transeat a me calix iste (1) — “Meu Pai, passe este cálice longe de mim”
Que cálice? A vista de tamanho desprezo de seu amor. Foi ela que ainda na cruz O fez exclamar: Deus meu, Deus meu, porque me abandonastes? (2) Revelou o Senhor a Santa Catarina de Sena, que o abandono de que se queixou foi exatamente o ver que seu Pai permitiria que a sua paixão e o seu amor fossem em seguida desprezados por tantos homens, pelos quais devia morrer. — Ora, esta mesma pena atormentou ao Menino Jesus no seio de Maria: o ver desde então tanto empenho de dores, de ignomínias, de sangue e de uma morte cruel e ignominiosa, e tão pouco fruto. Desde então o santo Menino viu como, no dizer do Apóstolo, muitos (quiçá a maior parte) pisariam o seu sangue aos pés e desprezariam a graça que com seu sangue lhes havia merecido: Filium Dei conculcantes, et spiritui gratiae contumeliam facientes (3).
II. Se nós também temos sido do número daqueles ingratos que sempre afligiram o Senhor com as suas culpas, não desesperemos. No seu nascimento Jesus veio oferecer a paz aos homens de boa vontade, como os anjos cantaram:
Et in terra pax hominibus bonae voluntatis (4) — “E na terra paz aos homens de boa vontade”
Mudemos a nossa vontade, arrependamo-nos de nossos pecados, tomemos a resolução de amar o nosso bom Deus, e acharemos a paz, isto é, a amizade divina.
Ó meu amabilíssimo Jesus, quanto Vos tenho feito sofrer durante a vossa vida! Vós derramastes por mim o vosso sangue com tantos sofrimentos e com tamanho amor, e quais são os frutos que até agora Vos tenho produzido? Só desprezos, desgostos e injúrias! Mas, ó meu Redentor, espero que no futuro a vossa paixão há de produzir frutos pela vossa graça, que ainda não me desamparou. Sofrestes e morrestes por meu amor, para serdes amado por mim. Quero amar-Vos sobre todas as coisas, e se for de vosso agrado, pronto estou a dar mil vezes a vida.
Ó Padre Eterno, eu não devia animar-me a comparecer em vossa presença, a fim de Vos pedir perdão e graças; mas vosso Filho me diz que, qualquer que seja a graça que Vos pedir em seu nome, Vós ma concedereis: Si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (5). Ofereço-Vos, pois, os merecimentos de Jesus Cristo e em nome de Jesus Cristo peço-Vos primeiro o perdão completo de todos os meus pecados, peço-Vos a santa perseverança até a morte e sobretudo Vos peço o dom do vosso santo amor, que me faça viver sempre em obediência à vossa santa vontade. — Quanto à minha vontade, antes prefiro mil vezes a morte do que ofender-Vos, e quero amar-Vos de todo o meu coração procurando em tudo o vosso agrado. Para isso, porém, Vos peço a graça de o executar e espero obtê-la de Vós. — Maria, minha Mãe, se vós rogais por mim, estou seguro. Rogai, rogai, e não deixeis de rogar enquanto não me virdes mudado e transformado como Deus quer que eu seja.
Referências:
(1) Mt 26, 39
(2) Mt 27, 46
(3) Hb 10, 29
(4) Lc 2, 14
(5) Jo 16, 23

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 221-224)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

12 Ensinamentos de Santo Agostinho sobre o Pecado


1 – É desígnio de Deus que toda alma desregrada seja para si mesma o seu castigo. A amizade deste mundo é adultério contra Vós.
2 – Eu pecava, porque em vez de procurar em Deus os prazeres, as grandezas e as verdades, procurava-os nas suas criaturas: em mim e nos outros. Por isso precipitava-me na dor, na confusão e no erro.
3 – Quanto mais for destruído o reino da concupiscência, tanto mais aumentará o da caridade.
4 – Há desde o início do gênero humano e haverá até o fim dos séculos duas cidades, uma dos iníquos, outra dos santos.
5 – Haveis de ver muitos ébrios, avaros, trapaceiros, jogadores, adúlteros, fornicadores; verás a muitos que se atam com remédios sacrílegos, ou se entregam aos encantadores, astrólogos e adivinhos de quaisquer artes ímpias.
6 – Se a tristeza se apoderar de nós por um erro ou pecado nosso, lembremo-nos de que um coração esmagado pela dor é um sacrifício digno de Deus.
7 – Um homem bom é livre, mesmo quando é escravo. Um homem mau é escravo, mesmo quando é rei. Não serve a outros homens mas a seus caprichos. Tem tantos senhores quantos vícios. Quando começas a detestar-te pelo pecado que Deus detesta em ti, começas a amar a Deus como és.
8 – O homem é a moeda de Cristo, porém manchada e embaçada pelo pecado… Cristo, com sua vinda, tornou a esculpir sua imagem nela. E, desde então, o homem é moeda de Cristo que ostenta sua imagem, seu nome, sua graça e porte.
9 – Não temo a impureza da comida, mas a do apetite.
10 – O homem se faz réu do pecado no mesmo momento em que se decide a cometê-lo. Pouco vale não realizá-lo apenas por temor ao castigo. Ou destróis o pecado que há em ti ou ele te destruirá.
11 – Toda corrupção leva o homem à própria destruição. Pecar é desmoronar o próprio ser e caminhar para o nada.
12 – Quando a alma abandona o corpo, acontece a morte física. Quando a alma abandona a Deus, dá-se a morte espiritual.

Como rezar o Terço

Aprenda pelo link abaixo;


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Como imitar e viver estas 8 virtudes de Maria



Virtude da Paciência

Nossa Senhora passou por muitos momentos estressantes de provação, de incômodo e de dor, durante toda sua vida, mas suportou tudo com paciência. Sua tolerância era admirável! Nunca se revoltou contra os acontecimentos, nem mesmo quando viu o próprio filho na Cruz! Sabia que tudo era vontade de Deus e meditava tudo isso em seu coração. Maria, nossa mãe, teve sempre paciência, sabendo aguardar em paz aquilo, que ainda não se tenha obtido, acreditando que iria conseguir, pela espera em Deus.

Imitando essa virtude

Ter paciência é não perder a calma, manter a serenidade e o controlo emocional. Além disso é saber suportar, como Maria, os desabores e contrariedades do dia a dia, saber suportar com paciências nossas próprias cruzes. Devemos saber ouvir as pessoas com calma e atenção, sem pressa, exercitando assim a virtude da caridade. Fazer um esforço para nos calarmos frente aquelas situações mais irritantes e estressantes. Quando houver um momento de impaciência pode-se rezar uma oração, como por exemplo, um Pai-nosso, buscando se acalmar para depois tentar resolver o conflito. Devemos nos propor, firmemente não nos queixarmos da saúde, do calor ou do frio, do abafamento no autocarro lotado, do tempo que levamos sem comer nada… Temos que renunciar, frases típicas, que são ditas pelos impacientes: “Você sempre faz isso!”, “De novo, mulher, já é a terceira vez que você…!”, “Outra vez!”, “Já estou cansado”, “Estou farto disso!”. Fugir da ira, se calando ou rezando nesses momentos. A paciência se opõe à ira! “Não só isso, mas nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança.”(Rom. 5,3-4) “Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, esta­rá sujeito ao inferno de fogo.”(Mat 5,22).

Virtude da Oração contínua

Nossa Senhora era silenciosa, estava sempre num espírito perfeito de oração. Tinha a vida mergulhada em Deus, tudo fazia em Sua presença. Mulher de oração e contemplação, sempre centrada em Deus. Buscava a solidão e o retiro pois é na solidão que Deus fala aos corações. “Eu a levarei à solidão e falarei a seu coração (Os 2, 14)” Em sua vida a oração era contínua e perseverante, meditando a Palavra de Deus em seu coração, louvando a Deus no Magnificat, pedindo em Caná, oferecendo as dores tremendas que sentiu na crucificação de Jesus, etc.

Imitando essa virtude

Buscar uma vida interior na presença de Deus, um “espírito” contínuo de oração. Não se limitar somente as orações ao levar, ao se deitar e nas refeições, estender a oração para a vida, no trabalho, nos caminhos, em fim, em todas as situações, buscando a vontade de Deus em sua vidas. “Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai”. (Cl 3,17). e “Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a acção de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus.”(Fil 6,6-7).

Virtude da Obediência

Maria disse seu “sim” a Deus e ao projeto da salvação, livremente, por obediência a vontade suprema de Deus. Um “sim” amoroso, numa obediência perfeita, sem negar nada, sem reservas, sem impor condições. Durante toda a vida Nossa Mãezinha foi sempre fiel ao amor de Deus e em tudo o obedeceu. Ela também respeitava e obedecia as autoridades, pois sabia que toda a autoridade vem de Deus.

Imitando essa virtude

O Catecismo da Igreja Católica indica que a obediência é a livre submissão à palavra escutada, cuja verdade está garantida por Deus, que é a Verdade em si mesma. Esforcemo-nos para obedecer a requisitos ou a proibições. A subordinação da vontade a uma autoridade, o acatamento de uma instrução, o cumprimento de um pedido ou a abstenção de algo que é proibido, nos faz crescer. Rezar pelos superiores. Obedecer sempre a Deus em primeiro lugar e depois aos superiores. Obedecer a Deus é obedecer seus Mandamentos, ser dócil a Sua vontade. Também é ouvir a palavra e a colocar em prática. “Então disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Luc 1, 38).

Virtude Mãe do Supremo Amor

Nossa Mãe cheia de graça ama toda a humanidade com a totalidade do seu coração. Cheia de amor, puro e incondicional de mãe, nos ama com todo o seu coração imaculado, com toda energia de sua alma. Nada recusa, nada reclama, em tudo é a humilde serva do Pai. Viveu o amor a Deus, cumprindo perfeitamente o primeiro mandamento. Fez sempre a Vontade Divina e por amor a Deus aceitou também amar incondicionalmente os filhos que recebeu na cruz. Era cheia da virtude da caridade, amou sempre seu próximo, como quando visitou Isabel, sua prima, para a ajudar, ou nas bodas de Caná, preocupada porque não tinham mais vinho.

Imitando essa virtude

Todos os homens são chamados a crescer no amor até à perfeição e inteira doação de si mesmo, conforme o plano de Deus para sua vida. Devemos buscar o verdadeiro amor em Deus, o amor ágape, que nos une a todos como irmãos. Praticar o amor ao próximo, a bondade, benevolência e compaixão. O amor é doação, assim como Maria doou sua vida e como Jesus se doou no cruz para nos salvar, também devemos nos doar ao próximo, por essa razão o amor é a essência do cristianismo e a marca de todo católico. “Por ora subsistem a fé, a esperança e o amor – estes três. Porém, o maior deles é o amor.” (I Cor. 13,13).

Virtude da Mortificação

Maria, mulher forte que assume a dor e o sofrimento unida a Jesus e ao seu plano de salvação. Sabe sofrer por amor, sabe amar sofrendo e oferecendo dores e sacrifícios. Sabe unir-se ao plano redentor, oferecendo a Vítima e oferecendo-se com Ela. Maria empreendeu, e abraçou uma vida cheia de enormes sofrimentos, e os suportou, não só com paciência, mas com alegria sobrenatural. Nada de revolta, nada de queixas, nada de repreensões ou mau humor. Pelo contrário, dedicou-se à meditação para buscar entender o motivo que leva um Deus perfeito a permitir aqueles acontecimentos. Pela meditação, pela submissão, pela humildade, Ela encontrou a verdade.

Imitando essa virtude

Muitas vezes Deus nos envia provações que não compreendemos, portanto devemos seguir o exemplo de Nossa Senhora e meditar os motivos que levam um Deus perfeito a permitir essas provações, aceitá-las e saber oferecer todas as nossas dores a Jesus em expiação dos nossos pecados, pelos pecados de todos e pelas almas, unindo nossos sofrimentos aos sofrimentos de Jesus na Cruz. Não devemos oferecer somente os grandes sofrimentos, devemos oferecer também o jejum, fugir do excesso de conforto e prazeres e, na medida do possível, oferecer alguns sacrifícios a Deus, seja no comer (renunciar de algum alimento que se tenha preferência ou simplesmente esperar alguns instantes para beber água quando se tem sede), nas diversões (televisão principalmente), nos desconfortos que a vida oferece (calor, trabalho, etc.), sabendo suportar os outros, tendo paciência em tudo. É indispensável sorrir quando se está cansado, terminar uma tarefa no horário previsto, ter presente na cabeça problemas ou necessidades daquelas pessoas que nos são caras e não só os próprios. Oferecer os sofrimentos, desconfortos da vida, jejuns e sacrifícios a Deus pela salvação das almas. “Ó vós todos, que passais pelo caminho: olhai e julgai se existe dor igual à dor que me atormenta.” (Lamentações 1,12).

Virtude da Doçura

Nossa Senhora, é a Augusta Rainha dos Anjos, portanto senhora de uma doçura angelical inigualável. Ela é a cheia de graça, pura e imaculada. Ela pode clamar as Legiões Celestes, que estão às ordens, para perseguirem e combaterem os demônios por toda a parte, precipitando-os no abismo. A Mãe de Deus é para todos os homens a doçura. Com Ela e por Ela, não temos temor.

Imitando essa virtude

A doçura é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera. A doçura é antes de tudo uma paz, a manifestação da paz que vem do Senhor. É o contrário da guerra, da crueldade, da brutalidade, da agressividade, da violência… Mesmo havendo angústia e sofrimento, pode haver doçura. “Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência.” (Col. 3,12).

Virtude da Fé viva

Feliz porque acreditou, aderiu com seu “sim” incondicional aos planos de Deus, sem ver, sem entender, sem perceber. Nossa Senhora gerou para o mundo a salvação porque acreditou nas palavras do anjo, sua fé salvou Adão e toda a sua descendéncia. Por causa desta fé, proclamou-a Isabel bem-aventurada: “E bem-aventurada tu, que creste, porque se cumprirão as coisas que da parte do Senhor te foram ditas” (Lc 1,45). A inabalável fé de Nossa Senhora sofreu imensas provas: – A prova do invisível: Viu Jesus no estábulo de Belém e acreditou que era o Filho de Deus; – A prova do incompreensível: Viu-O nascer no tempo e acreditou que Ele é eterno; – A prova das aparências contrárias: Viu-O finalmente maltratado e crucificado e creu que Ele realmente tinha todo poder. Senhora da fé, viveu intensamente sua adesão aos planos de Deus com humildade e obediência.

Imitando essa virtude

A fé é um dom de Deus e, ao mesmo tempo, uma virtude, devemos pedir a Jesus como fizeram os apóstolos para aumentar a nossa fé. Porém ter fé não é o bastante, é preciso ser coerente e viver de acordo com o que se crê. “Porque assim como sem o espírito o corpo está morto, morta é a fé, sem as obras” Tg (2,26). Ter fé é acreditar que se recebe uma graça muito antes de a possuir e é, acima de tudo, ter uma confiança inabalável em Deus! “Disse o Senhor: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar, e ela vos obedecerá.” (Luc 17,6).

Virtude da Pureza Divina

Senhora da castidade, sempre virgem, mãe puríssima, sem apego algum as coisas do mundo, Deus era o primeiro em seu coração, sempre teve o corpo, a alma, os sentidos, o coração, centrados no Senhor. O esplendor da Virgindade da Mãe de Deus, fez dela a criatura mais radiosa que se possa imaginar. O dogma de fé na Virgindade Perpétua na alma e no corpo de Maria Santíssima, envolve a concepção Virginal de Jesus por obra do Espírito Santo, assim como sua maternidade virginal. Para resgatar o mundo, Cristo tomou o corpo isento do pecado original, portanto imaculado, de Maria de Nazaré.

Imitando essa virtude

Esta preciosa virtude leva o homem até o céu, pela semelhança que ela dá com os anjos, e com o próprio Jesus Cristo. Nossa Senhora disse, na aparição de Fátima, que os pecados que mais mandam almas para o inferno, são os pecados contra a pureza. Não que estes sejam os mais graves, e sim os mais frequentes. Praticar a virtude da castidade, buscando a pureza nos pensamentos, palavras e ações! Os olhos são os espelhos da alma. Quem usa seus olhos para explorar o corpo do outro com malícia perde a pureza. Portanto, coloque seus olhos em contemplação, por exemplo na Adoração, e receba a luz que santifica. Quem luta pela castidade deve buscá-la por três meios: o jejum, a fugida das ocasiões de pecado e a oração. “Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães não fermentados de pureza e de verdade” (I Cor.5,8).
Fonte:

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Como é abundante a remissão do Salvador



Deus, previu ler bem que o primeiro homem abusaria da sua liberdade, e, deixando a graça, perderia a glória; mas não quis tratar com tanto rigor a natureza humana como tinha tratado a angélica. Era da natureza humana que ele desejava tirar uma porção feliz para uni-lá à sua divindade. Conheceu que era uma natureza fraca, um ar que vem e não volta, isto é, que se dissipa ao caminhar.

Cruz, sinal de Vitória!


Sinal de Vitória

Na Antiguidade, a morte na cruz era considerada o mais atroz e humilhante dos castigos, reservado sobretudo aos escravos e também aos malfeitores, assassinos e ladrões, cuja punição pública deveria servir de exemplo para todo o povo.
E esta foi, precisamente, a morte que Cristo permitiu para Si, para nos redimir da escravidão do pecado.
Por ocasião da batalha da Ponte Milvia, no ano 312, o exército de Constantino viu uma cruz luminosa brilhar nos céus, circundada pelos dizeres Com este sinal vencerás – In hoc signo vinces. Ali estava, sem dúvida nenhuma, diante do jovem general, o sinal dos cristãos.
À noite, segundo a tradição, Jesus apareceu em sonhos a Constantino, pedindo que adotasse a cruz como símbolo de seu exército. Na manhã seguinte, o jovem general mandou gravar a cruz de Cristo nos estandartes de seus soldados e alcançou a vitória sobre os seus inimigos. Um ano mais tarde, o Imperador promulgou o Edito de Milão, que deu liberdade para a Igreja Católica.
À medida que o Império Romano foi se convertendo ao cristianismo, dentre as ruínas do paganismo, surgia um mundo novo, banhado pela luz do Evangelho.
A Cruz passou a ser o centro da espiritualidade católica, o símbolo dos seguidores de Cristo, o sinal da vitória sobre a morte e o pecado.

O mais humilhante suplício: a Morte na Cruz!

Entre os homens da Antiguidade, a crucifixão era conhecida como a mais atroz e humilhante dos castigos – “maldição de Deus’, como se refere o próprio Livro do Deuteronômio (21, 23) – reservado sobretudo aos escravos, mas também aos malfeitores, assassinos e ladrões, cuja punição pública deveria servir de exemplo para todo o povo. Mais tarde, com a dominação de Roma, a lei isentava de tal pena os cidadãos romanos, por mais grave que fosse seu delito, não permitindo, deste modo, que a dignidade do Império ficasse manchada.
E esta foi, precisamente, a morte que Cristo permitiu para Si, assumindo a condição de escravo, não só para redimir-nos da escravidão do pecado, mas até para fazer-nos reis: um suplício usual do direito penal, como procedimento que era aplicado vulgarmente aos bandidos; sem dúvida, o pior.


O Mistério da Cruz

Do ponto de vista humano e materialista, o Cordeiro imolado no alto da Cru não passava de um pobre ser maltratado e injuriado por todos, um homem falido e derrotado para sempre; debaixo da luz sobrenatural, porém – e esta é a única visualização verdadeira – Jesus achava-Se ali elevado como um Rei em toda a sua glória, atraindo para Si todas as criaturas. Este divino mistério, os Apóstolos, sobretudo São Paulo, compreenderam-no com profundidade:
“Julguei não dever pregar outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2, 2)
E ainda:
“Quanto a mim, porém, de nada quero gloriar, a não ser na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6, 14)

O lento despontar da Cruz

Para os primitivos cristãos, embebidos dos conceitos e tradições antigas, a cruz conservava ainda seu terrível significado, a ponto de se terem passado vários séculos antes de aparecerem as primeiras representações do Salvador pregado nela. Tal repulsa via-se acrescida pelo fato de muitos membros da Igreja nascente terem visto em Roma parentes próximos sofrer este tipo de martírio, durante as sangrentas perseguições promovidas pelos imperadores pagãos.
Nos séculos II e III, os fiéis preferiram, pois, adotar a imagem do peixe (em grego Ichthys), como representação de Cristo. Nesta simbologia, as letras da palavra Ichthys contêm as iniciais da frase: Iesous Christos Theou Yios Soter – Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. A partir do século IV, após o reconhecimento da religião católica, por Constantino, o Grande, o simbolismo do peixe diminuiu gradualmente, cedendo lugar à cruz, que começou a aparecer esculpida sobre os sarcófagos, os cofres e outros objetos, tornando-se o principal emblema da Cristandade. Uma das primeiras expressões artísticas ocidentais do sacrifício do Calvário é a famosa porta de cipreste da Basílica de Santa Sabina, no monte Aventino, em Roma, construída nas primeiras décadas do século V.
Foi nessa mesma época que se instituiu o atual Sinal-da-Cruz, embora já antes existisse o piedoso costume de fazer a tríplice marca sobre a fronte, os lábios e o peito, pois as três partes superiores do homem – inteligência, amor e força – ficavam assim sob a proteção da cruz.

Santa Helena resgata a verdadeira Cruz



Encontro da Verdadeira Cruz de Cristo
No início do século IV, um inconcebível abandono pesava sobre os Santos Lugares na Terra Santa, a ponto de achar-se coberta de escombros a própria colina do Gólgota. Movida por forte impulso da graça, a imperatriz Helena – que acabara de obter por suas maternais preces o esplêndido milagre da Ponte Mílvia e a impressionante conversão de seu filho Constantino, com a consequente liberdade para o Cristianismo (28 de Outubro de 312) – decidiu empreender uma longa viagem até Jerusalém, no intuito de descobrir a verdadeira Cruz de Nosso Senhor.
Santa Helena penetrava intimamente no significado dos mistérios: aquela cruz luminosa que brilhara nos céus, circundada pelos dizeres Com este sinal vencerás – In hoc signo vinces, ante o olhar do maravilhado jovem César, não era uma clara manifestação dos desígnios da Providência, prenunciando um triunfal ressurgimento da Igreja, por meio do escândalo da cruz?
Buscar a Cruz era empresa árdua e difícil. Não, porém, para o caráter enérgico da velha imperatriz que não se abatera com os azares da fortuna nem com as duras provações da vida. Após algumas semanas de penoso trabalho e de muita terra removida, durante as quais Helena alentou com seu ânimo e suas orações os numerosos operários, foram encontradas num fosso, em meio ao espanto e à comoção geral, três cruzes!
Apresentava-se, então, um perplexidade: como reconhecer o Lenho sagrado sobre o qual o Redentor padecera sua dolorosa agonia, banhando-o com as últimas gotas de Sangue? Instado por Helena, São Marcário, Patriarca de Jerusalém, logo acudiu em seu auxílio. Reuniu o povo e orou fervorosamente, suplicando ao Senhor uma intervenção que esclarecesse os fiéis, de forma evidente. Mandou em seguida trazer uma pobre mulher que se achava desenganada pelos médicos e prestes a morrer. Em contato com as duas primeiras cruzes, a moribunda permaneceu insensível; mas, ao tocar a terceira, louvando a Deus entre os gritos de alegria da multidão entusiasmada.
A notícia do prodígio espalhou-se com rapidez por todo o mundo cristão. Deu-se início, assim, a uma grande devoção às relíquias da Paixão.
Ao retornar de sua peregrinação, após erigir várias igrejas em honra da Paixão do Senhor, a virtuosa imperatriz levou consigo para a Cidade Eterna um pedaço considerável da Santa Cruz, conservando-se em Jerusalém a parte mais importante. Trouxe também os cinco cravos que encontrara na mesma ocasião, e os deu de presente a seu filho Constantino, o qual mandou colocar um deles na armação do diadema imperial. Talvez esteja esse piedoso gesto na origem do belo costume de encimar com uma cruz as coroas dos soberanos católicos.



Relíquias da Paixão de Cristo, contendo um Fragmento do Santo Lenho (primeira imagem à esquerda), conservadas na Basílica da Santa Cruz, em Roma

Entrada triunfal da Santa Cruz em Jerusalém

Três séculos após estes admiráveis acontecimentos, Cosroes II, rei da Pérsia, saqueou a Cidade Santa, matou grande número de cristãos e apoderou-se do precioso Madeiro, levando-o entre as muitas riquezas que compunham seus despojos de guerra.
Grande foi a consternação daqueles fiéis do Oriente, ao saberem estar o mais inestimável de seus tesouros em poder de idólatras. O imperador Heráclito iniciou então uma campanha para recuperá-lo, o que conseguiu após quinze longos anos de esforços e aventuras. Finalmente, chegava Heráclio diante de Jerusalém, dando graças ao Senhor pela vitória alcançada.
Organizou-se uma grande cerimônia, com a maior solenidade e pompa possíveis. de todas as partes acorriam os fiéis para venerar a relíquia felizmente recuperada. Em companhia do patriarca Zacarias e rodeado dos grandes de sua corte, de incontáveis clérigos e de uma fervorosa multidão, o imperador carregou sobre seus ombros a verdadeira Cruz, dispondo-se a entrar na cidade pela porta que conduz ao Calvário. Mas ao chegar diante dela ficou subitamente imóvel, sentindo-se incapaz de avançar um passo sequer. Zacarias, que caminhava a seu lado, inclinou-se para ele e lhe fez ver que a púrpura imperial e suas suntuosas vestes não estavam em conformidade com o exemplo de humildade de Jesus, o qual carregara a sua Cruz às costas, por aquelas mesmas ruas, todo chagado e coberto de opróbrios. Ouvindo isto, Heráclio depôs as insígnias reais e a coroa de ouro. Coberto de saco e descalço continuou sem dificuldade a piedosa procissão. A Cruz foi triunfalmente restituída ao patriarca Zacarias, em meio às aclamações de júbilo da multidão enlevada e reverente.
O tempo confundiu a data dos dois acontecimentos: a descoberta da Cruz pela imperatriz Santa Helena e o resgate desta pelo augusto Heráclio. mas em todo o Ocidente cristão, há séculos, celebra-se no dia 03 de Maio a descoberta do Sagrado Lenho e a 12 de Setembro a sua Exaltação.

A Cruz, sinal de Salvação

Pouco a pouco, por entre as obscuras ruínas do paganismo podre e decadente, surgia um mundo novo, iluminado pela luz pura e coruscante das doutrinas do Evangelho, fazendo sentir de modo suave e misterioso a doce presença de Cristo. Uma inefável atmosfera de paz e de júbilo, decorrente de um forte imponderável de vitória, impregnava o progressivo desenvolvimento da Igreja.
A Cruz passou a ser o centro da espiritualidade católica, o sinal distintivo dos seguidores de Cristo, o ponto para o qual convergem todas as aspirações, todos os amores, toda a ternura e o respeito da alma verdadeiramente cristã.
Vemo-la ornar ricamente as coroas dos monarcas, brilhar com esplendor no peito dos bispos, presidir gloriosa as solenes liturgias; vemo-la elevada sobre as torres dos templos – quer de imponentes basílicas e imensas catedrais, quer das mais modestas e desconhecidas capelas e oratórios – plantada no meio de silenciosos claustros; vemo-la ainda agitada pelas mãos incansáveis do missionário, carregada sobre os fatigados ombros do penitente, osculada pelos lábios trêmulos do moribundo…
A Cruz de Cristo atraiu todos os povos, marcou os tempos e a eternidade!

Orações à Santa Cruz de Cristo

Ó Cruz fiel

O fel lhe dão por bebida
sobre o madeiro sagrado.
Espinhos, cravos e lança
ferem seu corpo e seu lado.
No sangue e água que jorram,
mar, terra e céu são lavados.
Ó cruz fiel sois a árvore
mais nobre em meio às demais,
que selva alguma produz
com flor e frutos iguais.
Ó lenho e cravos tão doces,
um doce peso levais.
Árvore, inclina os teus ramos,
abranda as fibras mais duras.
A quem te fez germinar
minora tantas torturas.
Leito mais brando oferece
ao Santo Rei das alturas.
Só tu, ó Cruz, mereceste
suster o preço do mundo
e preparar para o náufrago
um porto, em mar tão profundo.
Quis o cordeiro imolado
banhar-te em sangue fecundo.
Glória e poder à Trindade.
Ao Pai e ao Filho Louvor.
Honra ao Espírito Santo.
Eterna glória ao Senhor,
que nos salvou pela graça
e nos remiu pelo amor.
(Hino da Sexta-feira Santa, Hora Laudes)

O Triunfo da Cruz

Ó Santa Cruz, nossa proteção, nossa segurança, nossa perfeição e nossa única esperança!
Sois tão preciosa, que uma alma que já está no céu voltaria alegremente à terra para vos abraçar! É por vós, ó Santa Cruz, que se dá a bênção, é por vós que Deus perdoa e concede a remissão! Ele quer que todas as coisas tragam esse vosso selo, sem o qual nada lhe parece belo.
Colocada a cruz em algum lugar, torna-se sagrado o profano e desaparecem as manchas, porque Deus delas se apodera. Ele quer a Cruz em nossa fronte e em nosso coração, antes de todos os atos, para que sejamos vencedores.
(São Luís Maria Grignion de Montfort)

Invocação à Cruz

Ó Cruz, meu refúgio, ó Cruz, meu caminho e minha força, ó Cruz, estandarte inexpugnável, ó Cruz, arma invencível! A Cruz repele todo mal, a Cruz afugenta as trevas. Pela Cruz, percorrerei o caminho que conduz a Deus. A Cruz é minha vida, mas para ti, ó inimigo, ela é a morte. Que minha nobreza seja a Cruz de Nosso Senhor.
(Invocação à Cruz, por Santo Odilon, Abade de Cluny)