sábado, 31 de março de 2018

SÁBADO SANTO – MEDITAÇÃO PARA A TARDE


Solenidade de Maria Santíssima depois da sepultura de Jesus.
Posuit me desolatam, tota die maerore confectam — “Pôs-me em desolação, afogada em tristeza todo o dia” (Thren. 1, 13).
Sumário. Ah, que noite de dor foi para Maria a que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! A desolada Mãe volve os olhos em torno de si, e já não vê o seu Jesus, mas representam-se-lhe diante dos olhos todas as recordações da bela vida e da desapiedada morte do Filho. Como se não pudesse crer em seus próprios olhos: Filho, pergunta a João, aonde está o teu mestre? E à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto?… Minha alma, roga a Santíssima Virgem, que te admita a chorar consigo. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor dos teus pecados.
I. Diz São Boaventura que, depois da sepultura de Jesus, as mulheres piedosas velaram a Bem-aventurada Virgem com um manto lúgubre, que lhe cobria todo o rosto. Acrescenta São Bernardo, que na volta do sepulcro para a sua casa a pobre Mãe andava tão aflita e triste, que comovia muitos a chorarem, ainda que involuntariamente: Multos etiam invitos ad lacrimas provocabat. De modo que, por onde passava, todos aqueles que a encontravam, não podiam conter as lágrimas. Os santos discípulos e as mulheres que a acompanhavam, quase que choravam mais as penas de Maria do que a perda de seu Senhor.
Quando a Virgem passou por diante da Cruz, banhada ainda com o sangue do seu Jesus, foi a primeira a adorá-la. Ó santa Cruz, disse então, eu te beijo e te adoro, já que não és mais madeiro infame, mas trono de amor e altar de misericórdia, consagrado com o sangue do Cordeiro divino, que em ti foi imolado pela salvação do mundo. — Deixa depois a Cruz e volta à sua casa. Chegada ali, a aflita Mãe volve os olhos em torno, e não vê mais o seu Jesus; em vez da presença do querido Filho, apresentam-se-lhe aos olhos todas as recordações da sua bela vida e da sua desapiedada morte.
Recorda-se dos abraços dados ao Filho no presépio de Belém, da conversação com ele por trinta anos na casa de Nazaré; recorda-se dos mútuos afetos, dos olhares cheios de amor, das palavras de vida eterna saídas daquela boca divina. E depois se lhe representa a cena funesta presenciada naquele mesmo dia; vêem-lhe à memória os cravos, os espinhos, as carnes dilaceradas do Filho, as chagas profundas, os ossos descarnados, a boca aberta, os olhos escurecidos. E com tão funesta recordação, quem poderá dizer qual tenha sido a dor, a desolação de Maria?
II. Ah, que noite de dor foi para a Bem-aventurada Virgem aquela que se seguiu à sepultura do seu divino Filho! Voltando-se a dolorosa Mãe para São João, perguntou-lhe com voz triste: Ah! Filho. Onde está o teu mestre? Depois perguntou à Madalena: Filha, dize-me onde está o teu dileto? Ó Deus! Quem no-Lo tirou?… Chora Maria, e todos os que estão com ela choram também. E tu, minha alma, não choras? Ah! Volta-te a Maria, e roga-lhe que te admita consigo a chorar. Ela chora por amor, e tu, chora pela dor de teus pecados: Fac ut tecum lugeam.
Minha aflita Mãe, não vos quero deixar só a chorar; não, quero acompanhar-vos também com as minhas lágrimas. Eis a graça que hoje vos peço; alcançai-me uma memória contínua, junto com uma terna devoção para com a paixão de Jesus e a vossa; a fim de que todos os dias que me restam de vida, não me sirvam senão para chorar as vossas dores e as do meu Redentor. Espero que, na hora de minha morte, essas dores me darão confiança e força para não desesperar à vista das ofensas que tenho feito ao meu Senhor. Elas devem impetrar-me o perdão, a perseverança e o paraíso.
E Vós, † “ó meu Senhor Jesus Cristo, que para resgatar o mundo quisestes nascer, receber a circuncisão, ser condenado pelos judeus, traído por Judas com um ósculo, acorrentado, levado para o sacrifício como inocente cordeiro, arrastado com tanta ignomínia diante de Anás, Caifás, Pilatos e Herodes, acusado por falsas testemunhas, flagelado, esbofeteado, carregado de opróbrios, coberto de escarros, coroado de espinhos, ferido com uma cana, vendado, despojado de vossos vestidos, pregado e levantado na cruz entre dois ladrões, abeberado de fel e vinagre e traspassado por uma lança; suplico-Vos, ó Senhor, em nome dessas santas penas que venero, ainda que indigno, suplico-Vos por vossa santa cruz e morte, livrai-me do inferno e dignai-Vos levar-me para onde levastes o bom ladrão crucificado convosco, ó meu Jesus, que viveis e reinais com o Pai e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Assim seja.”(1) (*I 252)
  1. Ajuntando-se 5 Pais-Nosso, Aves Maria, Glória ao Pai e esta oração, pode-se ganhar uma indulgência de 300 dias uma vez por dia.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

SÁBADO SANTO – MEDITAÇÃO PARA A MANHÃ


Sétima Dor de Maria Santíssima – Sepultura de Jesus.
Involvit sindone, et posuit eum in monumento — “Amortalhou-O no sudário, e depositou-O no sepulcro” (Marc. 15, 46).
Sumário. Consideremos como a Mãe dolorosa quis acompanhar os discípulos que levaram Jesus morto à sepultura. Depois de O ter acomodado com suas próprias mãos, diz um último adeus ao Filho e ao sepulcro, e volta para casa, deixando o coração sepultado com Jesus. Nós também, à imitação de Maria, encerremos o nosso coração no santo tabernáculo, onde reside Jesus, já não morto, mas vivo e verdadeiro como está no céu. Para isso é mister que o nosso coração esteja desapegado de todas as coisas da terra.
I. Quando uma mãe assiste a seu filho que padece e morre, sem dúvida ela sente e sofre todas as penas do filho; mas quando o filho atormentado, já morto, deve ser sepultado e a aflita mãe deve despedir-se dele, ó Deus! O pensamento de o não tornar a ver é uma dor que excede todas as outras dores. Essa foi a última espada que traspassou o coração aflito de Maria.
Para melhor considerá-la, voltemos ao Calvário e observemos atentamente a aflita Mãe, que ainda tem abraçado seu Jesus morto e se consome de dor ao beijar-Lhe as chagas. Os santos discípulos, temendo que ela expirasse pela veemência da dor, animaram-se a tirar-lhe do regaço o depósito sagrado, para o sepultarem. Com violência respeitosa tiraram-lh’O dos braços, e embalsamando-O com aromas, envolveram-No em um sudário adrede preparado. — Eis que já O levam à sepultura; já se põe em movimento o cortejo fúnebre. Os discípulos carregam o corpo exânime; inúmeros anjos do céu O acompanham; as santas mulheres O seguem e juntamente com elas vai a Mãe aflitíssima, acompanhando o Filho à sepultura.
Chegados que foram ao lugar destinado, a divina Mãe acomoda nele com suas próprias mãos o corpo sacrossanto; e, ó! Com quanta vontade Maria se sepultaria ali viva com seu Jesus! Quando depois levantaram a pedra para fechar o sepulcro, afigura-se-me que os discípulos do Salvador se voltaram para a Virgem com estas palavras: Eia, Senhora, deve-se fechar o sepulcro: tende paciência, vede pela última vez o vosso Filho e despedi-vos d’Ele. — Ah! Meu querido Filho (assim deve ter falado então a aflita Mãe), não te hei então de tornar a ver? Recebe, pois, nesta última vez que te vejo, recebe o último adeus de mim, tua afetuosa Mãe.
II. Finalmente os discípulos levantam a pedra e encerram no santo sepulcro o corpo de Jesus, aquele grande tesouro, a que não há igual nem na terra nem no céu. Diz São Boaventura, que a divina Mãe, antes de deixar o sepulcro, abençoou aquela sagrada pedra. E assim dando o último adeus ao Filho e ao sepulcro, volta para sua casa, mas deixa o seu coração sepultado com Jesus.
Sim, porque Jesus é todo o seu tesouro, e, como disse Jesus: Ubi thesaurus vester est, ibi et cor vestrum erit (1) — “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. E nós, onde teremos sepultado o nosso coração? Talvez nas criaturas? No lodo? E porque não o teremos sepultado com Jesus, o qual, bem que subido ao céu, contudo quis ficar, não morto, mas vivo, no Santíssimo Sacramento do altar, precisamente para ter consigo e possuir os nossos corações? Imitemos, pois, Maria; encerremos os nossos corações no santo Tabernáculo, para não mais o tornarmos a tomar. Entretanto, colocando-nos em espírito com a dolorosa Mãe junto ao sepulcro de Jesus, unamos os nossos afetos com os de Maria e digamos com amor:
Ó meu Jesus sepultado! Beijo a pedra que Vos encerra. Mas ressuscitastes ao terceiro dia. Ah! Pelos méritos de vossa gloriosa ressurreição, fazei com que no último dia eu ressuscite convosco na glória, para estar sempre unido convosco no céu, para Vos louvar e amar eternamente. Eu Vo-lo peço pela vossa paixão, e pela dor que sentiu a vossa querida Mãe, quando Vos acompanhou ao sepulcro. (*I 251.)
  1. Luc. 12, 34.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

Carta inédita da Irmã Lúcia sobre a tibieza dos católicos


J.M.J.
Tuy, 1-12-1940

Revmo. Senhor Padre Superior,

Muito obrigada pela carta que fez o favor de me escrever de Braga. Gostei muito da inspiração que teve para a renovação da consagração de todas as dioceses e freguesias ao Imaculado Coração de Maria. Isso é muito agradável ao Nosso bom Deus e ao Coração da nossa tão querida Mãe do Céu. 

Mas, apesar de tudo, o Coração do nosso bom Deus e da nossa boa Mãe do Céu continuam tristes e amargurados. Portugal, na sua maioria, não corresponde às suas graças, nem ao seu amor. Lamentam-se com frequência da vida pecaminosa da maioria do povo, mesmo daqueles que se dizem católicos práticos. Mas sobretudo queixam-se muito da vida tíbia, indiferente e comodista da maioria do clero, religiosos e religiosas. 

É pequenino, muito limitado o número das almas com quem se encontra no sacrifício e na vida íntima no amor. Estas confidências rasgam-me o coração, sobretudo por ser eu do número dessas almas infiéis. Nosso Senhor não se retrai de me aí pôr, mostrando-me a montanha das minhas imperfeições, que eu reconheço com imensa confusão...

Apesar de tudo isto, Nosso Senhor continua a comunicar-se à minha alma. Parece preocupado com a sorte de algumas nações e deseja salvar Portugal. Mas ele é também muito culpado. Se me não engano, dizia-me Nosso Senhor na quinta-feira, às 11 da noite: Se o Governo português, em união com o Episcopado, ordenasse, para os próximos dias de carnaval, dias de oração e penitência, com preces públicas pelas ruas, suprimindo as festas pagãs, atrairiam sobre si e sobre a Europa graças de paz.

Se V. Rev.ª puder fazer alguma coisa neste sentido, aí vai, se para isso precisar fazer algum uso desta carta, o meu consentimento. Desculpe-me tanta maçada.

De V. Rev.ª ínfima serva,
Maria Lúcia de Jesus, R. S. D

Fonte:
http://senzapagare.blogspot.com.br/

sexta-feira, 30 de março de 2018

SEXTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A TARDE


Sexta Dor de Maria Santíssima – Jesus é descido da Cruz.
Ioseph, deponens eum, involvit sindone — “José, depondo-O da cruz, O amortalhou no sudário” (Marc. 15, 46).
Sumário. Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois dos seus discípulos, José e Nicodemos, o descem da cruz e O depõem nos braços da aflita Mãe, que com ternura O recebe e O aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-Lo com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Jesus.
I. Temendo a Mãe dolorosa, que depois do ultraje da lançada outras injúrias fossem feitas a seu amado Filho, pede a José de Arimatéia, obtivesse de Pilatos o corpo de seu Jesus, a fim de que ao menos morto O pudesse guardar e livrar dos ultrajes. Foi José ter com Pilatos e expôs-Lhe a dor e o desejo da aflita Mãe, e diz Santo Anselmo que a compaixão para com ela enterneceu Pilatos e o moveu a conceder-lhe o corpo do Salvador.
Eis que descem Jesus da cruz. Foi revelado a Santa Brígida, que para o descimento encostaram à cruz três escadas. Primeiro, os santos discípulos despregaram as mãos e depois os pés, e os cravos foram entregues a Maria, como refere Metaphrastes. Depois, segurando um o corpo de Jesus por cima, e outro por baixo, o desceram da cruz. Bernardino de Bustis medita como a aflita Mãe se levanta sobre as pontas dos pés, e, estendendo os braços, vai receber o querido Filho; abraça-O e depois senta-se debaixo da cruz.
Vê a boca aberta e os olhos escurecidos; examina aquelas carnes dilaceradas, aqueles ossos descarnados; tira-Lhe a coroa e examina o estrago feito pelos espinhos naquela santa cabeça; observa as mãos e os pés traspassados, e diz: Ah, meu Filho! A que estado te reduziu o amor para com os homens! Que mal lhes fizeste para assim te maltratarem? Ah! Meu Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me; mas já não me vês. Fala, dize-me uma palavra e consola-me; mas já não falas, porque estás morto… Ó espinhos cruéis, cravos atrozes, bárbara lança, como pudestes atormentar assim o vosso Criador? Mas, que espinhos, que cravos! Ah, pecadores, exclamava, assim tendes maltratado o meu Filho!
II. Ó Virgem Santíssima, depois que vós com tanto amor destes ao mundo o vosso Filho para a nossa salvação, eis que o mundo já vo-Lo restitui. — Mas, ó Deus! Como mo restituis tu? Dizia então Maria ao mundo. Dilectus meus candidus et rubicundus (1). Meu Filho era branco e vermelho, não pela cor, mas pelas chagas que Lhe tens aberto. Ele era belo, agora, em vez de belo, é todo deforme; Ele encantava com o seu aspecto, agora causa horror a quem O vê.
Assim se expressava então Maria e se queixava de nós. Mas se agora fosse ainda capaz de dor, que diria? E que pena sentiria, ao ver que os homens, depois da morte de seu Filho, continuam a maltratá-Lo e crucificá-Lo com os seus pecados? Não continuemos, pois, a atormentar esta dolorosa Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, façamos o que ela mesma nos diz: Redite, praevaricatores, ad cor (2): Pecadores, voltai ao Coração ferido de meu Jesus; voltai arrependidos, e Ele vos acolherá. — Revelou a mesma Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida, que ao Filho descido da cruz ela fechou os olhos, mas não pode fechar-Lhe os braços, dando com isso Jesus Cristo a entender que queria ficar com os braços abertos, para acolher todos os pecadores arrependidos, que voltam para Ele.
Ó Virgem dolorosa, ó alma grande nas virtudes e grande também nas dores, pois que tanto estas como aquelas nascem do grande incêndio de amor que tendes a Deus. Ah, minha Mãe! Tende piedade de mim, que não tenho amado a Deus e O tenho ofendido. As vossas dores me dão grande confiança para esperar o perdão. Mas isto não me basta; quero também amar o meu Senhor, e quem me pode alcançar isto melhor do que vós, que sois a Mãe do belo amor? Ah Maria! Vós consolais a todos; consolai-me também a mim. (*I 249.)
  1. Cant. 5, 10.
    2. Is. 46, 8.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

quinta-feira, 29 de março de 2018

SEXTA-FEIRA SANTA – MEDITAÇÃO PARA A MANHÃ



Morte de Jesus.
Et inclinato capite, tradidit spiritum — “E inclinando a cabeça, rendeu o espírito” (Io. 19, 30).
Sumário. Contempla como depois de três horas de agonia, pela veemência das dores, as forças faltam a Jesus; entrega o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira. Alma cristã, dize-me: não merece porventura todo o nosso amor um Deus que, para nos salvar da morte eterna, quis morrer no meio dos mais atrozes tormentos? Todavia, como são poucos os que amam e muitos os que, em vez de O amarem, Lhe pagam com injúrias e ultrajes.
I. Considera que o nosso amável Redentor é chegado ao fim da sua vida. Amortecem-se-Lhe os olhos, o seu belo rosto empalidece, o coração palpita debilmente, e todo o sagrado corpo é lentamente invadido pela morte. Vinde, anjos do céu, vinde assistir a morte do vosso Deus. Vós, ó Mãe dolorosa, Maria, chegai-vos mais próxima à cruz, levantai os olhos para vosso Filho, e contemplai-O atentamente, porque está prestes a expirar.
Pater, in manus tuas commendo spiritum meum (1) — “Pai em vossas mãos entrego o meu espírito”. É esta a última palavra que Jesus profere com confiança filial e perfeita resignação com a vontade divina. Foi como se dissesse: Meu Pai, não tenho vontade própria; não quero nem viver nem morrer. Se é vossa vontade que eu continue a padecer sobre a cruz, eis-me aqui, estou pronto para obedecer; em vossas mãos entrego o meu espírito; fazei de mim segundo a vossa vontade. — Tomara que nós disséssemos o mesmo, quando temos alguma cruz, deixando-nos guiar pelo Senhor, conforme o seu agrado. Tomara que o repetíssemos especialmente no momento da morte! Mas para bem o fazermos então, devemos praticá-lo muitas vezes em nossa vida.
Entretanto, Jesus chama a morte, que por deferência não ousava aproximar-se do autor da vida, e lhe dá licença para lhe tirar a vida. E eis que finalmente, enquanto treme a terra, se abrem os túmulos e se rasga o véu do templo, eis que pela veemência da dor faltam as forças ao Senhor moribundo, baixa o calor natural, falha a respiração. Jesus abandona o corpo ao próprio peso, deixa cair a cabeça sobre o peito, abre a boca e expira: Et inclinato capite, tradidit spiritum (2). — Parti, ó bela alma do meu Salvador, parti e ide nos abrir o paraíso, fechado até agora, ide apresentar-Vos à Majestade divina, e alcançai-nos o perdão e a salvação.
As pessoas presentes, voltadas para Jesus Cristo, por causa da força com que proferiu as suas últimas palavras, contemplam-No com atenção silenciosa, vêem-No expirar, e notando que não se move mais, dizem: Morreu, morreu. Maria ouve que todos o dizem, e ela também exclama: Ah, Filho meu, já morreste; estais morto.
II. Morreu! Ó Deus! Quem é que morreu? O Autor da vida, o Unigênito de Deus, o Senhor do mundo. Ó morte, que fizeste pasmar o céu e a natureza! Um Deus morrer pelas suas criaturas! — Vem, minha alma, levanta os olhos e contempla esse Homem crucificado. Contempla o Cordeiro divino já imolado sobre o altar da dor; lembra-te de que Ele é o Filho dileto do pai Eterno, e que morreu pelo amor que te tem dedicado. Vê esses braços abertos para te acolherem; a cabeça inclinada para te dar o ósculo de paz; o lado aberto para te receber. Que dizes? Não merece ser amado um Deus tão bom e tão amoroso? Ouve o que do alto de sua cruz te diz o Senhor: Meu Filho, vê se há alguém no mundo que te tenha amado mais do que eu, teu Deus!
Ah meu Jesus, já que para minha salvação não poupastes a vossa própria pessoa, lançai sobre mim esse olhar afetuoso com que me olhastes um dia, quando estáveis em agonia sobre a cruz; olhai-me, iluminai-me, e perdoai-me. Perdoai-me em particular a ingratidão que tive para convosco no passado, pensando tão pouco na vossa paixão e no amor que nela me haveis mostrado. Dou-Vos graças pela luz que me concedeis de compreender através de vossas chagas e de vossos membros dilacerados, como por entre umas grades, o afeto tão grande e tão terno que ainda guardais para comigo.
Ai de mim, se depois de receber estas luzes deixasse de Vos amar, ou amasse outra coisa que não a Vós. Morra eu, assim Vos direi com São Francisco de Assis, morra eu por amor de vosso amor, ó meu Jesus, que Vos dignastes morrer por amor de meu amor. Ó Coração aberto de meu Redentor, ó morada feliz das almas amantes, não Vos dedigneis receber agora minha misera alma.
Ó Maria, ó Mãe de dores, recomendai-me a vosso Filho, a quem vedes morto sobre a cruz. Vede as suas carnes dilaceradas, vede o seu Sangue divino derramado por mim, e conclui disto quanto lhe agrada que lhe recomendeis a minha salvação. A minha salvação consiste em que eu O ame, e este amor vós mo deveis impetrar, mas um amor grande, um amor eterno. (*I 623)
  1. Luc. 23, 46.
    2. Io. 19, 30.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

A Paixão de Jesus Cristo, nossa Consolação



Recogitate eum qui talem sustinuit a peccatoribus adversum semetipsum contradictionem, ut ne fatigemini, animis vestris deficientes – “Não deixeis de pensar naquele que dos pecadores suportou contra si uma tal contradição; para que não vos fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12, 3)
Sumário. O Senhor chama com razão a si todos aqueles que sofrem e gemem sob o peso das tribulações; porque neste vale de lágrimas ninguém nos pode consolar tanto como Jesus crucificado. Em todas as perseguições, calúnias, desprezos, enfermidades, misérias, especialmente em vendo-nos opressos pelos sofrimentos e abandonados por todos, lancemos um olhar sobre a cruz de Jesus, lembremo-nos do muito que Ele sofreu por nós, unamos os nossos sofrimentos aos de Jesus e teremos achado o remédio mais eficaz para todos os nossos males.
I. Neste vale de lágrimas, quem nos pode consolar melhor do que Jesus crucificado? Nos remorsos de consciência, suscitados pela lembrança de nossos pecados que poderá melhor suavizar as nossas angústias, do que a certeza de que Jesus Cristo se quis entregar à morte a fim de satisfazer pelas nossas culpas? Dedit semetipsum pro peccatis nostris — “(Jesus) se deu a si mesmo pelos nossos pecados” (1). Em todas as perseguições, calúnias, desprezos, privações de bens e dignidades que nos sobrevêm na nossa vida, quem nos poderá melhor fortalecer, para sofrermos com paciência e resignação, do que Jesus Cristo desprezado, caluniado e pobre, que morre numa cruz nu e abandonado por todos?
Quando estamos doentes, deitamo-nos numa cama bem arranjada; quando, porém, Jesus estava enfermo na cruz na qual morreu, não teve outro leito senão um rude lenho, em que foi pregado com três cravos; nem teve outro travesseiro senão a coroa de espinhos, que continuou a atormentá-lo até ao último suspiro. Quando estamos doentes, vemos o leito rodeado de parentes e amigos, que se compadecem de nós, e nos procuram distrair; Jesus morreu cercado de inimigos, que ainda na hora da sua agonia e da morte já próxima o injuriavam e escarneciam como a um malfeitor e sedutor.
Nada consola tanto um enfermo nas dores que sofre, especialmente quando na sua enfermidade se vê abandonado por todos os mais, como a vista de Jesus crucificado. Ah! O alívio maior que então pode experimentar um pobre enfermo, é unir os próprios sofrimentos aos de Jesus Cristo. — Ainda nas angústias mais acerbas da morte, tais como os assaltos do inferno, a vista dos pecados cometidos e as contas que em breve se terá que dar ao Juiz divino, a única consolação que pode haver um moribundo, já nas vascas da morte, é abraçar o Crucifixo e dizer: Meu Jesus e meu Redentor, Vós sois o meu amor e a minha esperança.
II. Toda a verdadeira consolação que podemos desejar, todas as graças que Deus nos concede, todas as luzes, inspirações, santos desejos, bons afetos, dor dos pecados, bons propósitos, amor de Deus, esperança do céu: todos estes bens são frutos e dons que nos veem da Paixão de Jesus Cristo. Pelo que São Boaventura nos anima dizendo que “aquele que se aplica a meditar com devoção na vida e paixão santíssima do Senhor, acha ali tudo de que precisa; e nada terá que buscar fora de Jesus”. E Santo Agostinho acrescenta que para obtermos graças celestes especiais vale mais uma só lágrima derramada em memória da Paixão do Senhor, do que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água.
Mas quem mais ânimo nos inspira, é nosso divino Redentor: Venite ad me omnes, qui laboratis et onerati estis; et ego reficiam vos (2) — “Vinde a mim todos os que vos achais em sofrimentos e sobrecarregados; e eu vos aliviarei”. Meus queridos filhos, diz Jesus, vós que gemeis sob o peso das culpas próprias e sois combatidos pela concupiscência e corrupção do homem velho, ah! Não percais o ânimo. Chegai-vos à minha cruz, recorrei a mim e eu vos livrarei de todo o mal; persuadi-vos de que em nenhuma parte achareis remédio tão eficaz, como na meditação de minhas chagas.
Ó meu Jesus, que esperança me poderia restar, a mim, que tantas vezes Vos voltei as costas e mereci o inferno? Que esperança poderia ainda nutrir, de um dia, entre tantas virgens inocentes, entre tantos santos mártires, entre os apóstolos e serafins, ir gozar no céu de vossa bela face, se Vós, meu Salvador, não tivésseis morrido por mim? É a vossa Paixão que, apesar dos meus pecados, me faz esperar de um dia ir na companhia dos Santos e de vossa santíssima Mãe, cantar as vossas misericórdias, agradecer-Vos e amar-Vos para sempre no paraíso. Meu Jesus, assim espero. Misericordias Domini in aeternum cantabo (3) — “Eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”.
— Ó Maria, Mãe de Deus, rogai a Jesus por mim.
Referências:
(1) Gl 1, 4
(2) Mt 11, 28
(3) Sl 88, 2

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 329-331)

terça-feira, 27 de março de 2018

A PERFEIÇÃO CRISTÃ



Se queres, filha amantíssima em Cristo, alcançar o cume da perfeição, chegar ao teu Deus, e te unires a Ele – empreendimento mais nobre que quantos outros se possam imaginar – deve primeiro conhecer em que consiste a verdadeira vida espiritual.
Muitos, sem pensar, julgam que ela consiste na austeridade de vida, no castigo da carne, nos cilícios, nos açoites, nas longas vigílias, nos jejuns, em outras penitências e fadigas corporais.
Outras pessoas, mulheres especialmente, pensam ter chegado a grande perfeição, quando rezam muito, ouvem muitas missas e longos ofícios, frequentam as Igrejas e a Sagrada Comunhão.
Outros, ainda, e entre eles, certamente muito religioso de convento, chegaram à conclusão de que a perfeição consiste na frequência ao coro, no silêncio, na solidão e na disciplina.
E assim variam as opiniões, e uns colocam a perfeição nisto e outros, naquilo.
A verdade, porém, é muito outra. Tais ações são, às vezes, meios de adquirir o espírito, e, às vezes, frutos do espírito. Não se pode, porém, dizer que somente nestas coisas consista a perfeição cristã e o verdadeiro espírito.
Sem dúvida são poderosíssimos meios para o espírito, quando delas nos utilizamos com discrição. Dão força à nossa alma contra a nossa maldade e fragilidade; fortalecem-na contra os assaltos e as insídias do inimigo; alcançam-nos auxílios espirituais, tão necessários aos servos de Deus, máxime aos que principiam.
Estas práticas são também fruto do espírito, nas pessoas espirituais que castigam o corpo, por ter este, ofendido o Criador e recolhem-se longe do mundo para se dedicarem ao serviço divino e não ofenderem em nada o Senhor. Dedicam-se ao culto divino e às orações, meditam a Vida e a Paixão de Nosso Senhor, não por curiosidade e gosto sensível, mas para conhecerem sempre mais a própria maldade, a bondade e misericórdia de Deus, e mais se inflamarem no amor divino e no ódio de si mesmo. Seguem com grande abnegação, e com sua cruz às costas, o Filho de Deus, frequentam os santos sacramentos, para a glória de sua Divina Majestade, para mais se unirem com Deus e para adquirirem novas forças contra o inimigo.
Se, porém, põe todo o fundamento de sua virtude nas ações exteriores, estas ações, por não serem defeituosas, pois são santíssimas, mas pelo defeito de quem as usa, serão às vezes, mais que os próprios pecados, a causa de sua ruína. Pois estas almas apenas prestam atenção às suas ações, largam o coração às suas inclinações naturais e ao demônio oculto. Este, reparando já estar aquela alma fora do caminho, deixa-a continuar com deleites naqueles exercícios e embala-a com o pensamento das delícias do paraíso. A alma logo se persuade já estar nos coros angélicos e possuir Deus em sua alma. Embevecendo-se em altas meditações, em curiosos e deleitantes pensamentos, e, quase esquecida do mundo e das criaturas, pensa estar no terceiro céu.
Está, porém, envenenada e longe da perfeição. Pela vida e pelos costumes destas pessoas, muito facilmente poderemos deduzi-lo.
Querem sempre, nas coisas pequenas e nas grandes, ser os preferidos. Querem que sua opinião e sua vontade sejam sempre respeitadas. Não reparam nos próprios defeitos e observam e criticam os defeitos do outros. Querem que os outros façam dele excelente juízo e se comprazem nisto. Mas se tocas de leve em sua reputação, ou se falas da devoção que exibem, logo se alteram e muito se inquietam.
E se Deus, para levá-los ao conhecimento verdadeiro deles mesmos e ir à estrada da perfeição, manda-lhes trabalhos e enfermidades, ou permite perseguições (que nunca vêm sem a vontade divina, que, às vezes, o permite, e são a pedra de toque com que Ele examina a lealdade de seus servos), então se descobre a base falsa da sua devoção. Vê-se que tem o interior corrompido pela soberba, porque, nas diversas circunstâncias, sejam alegres ou tristes, não se humilham perante a vontade divina, respeitando os justos e secretos juízos de Deus. Nem a exemplo de Jesus Cristo abaixam-se perante as criaturas, têm por amigos caros, os perseguidores, e entendem que eles são instrumentos da divina bondade e meios de mortificação, de perfeição e de salvação.
Estes estão em grave perigo de cair, porque têm o olhar interno obscurecido. É com este olhar que contemplam a si mesmos e suas obras externas boas, atribuindo-se muitos graus de perfeição. E, ensoberbecidos, julgam os outros.
A não ser um auxílio extraordinário de Deus, nada os converterá.
Por isso, mais facilmente se converte e se dá ao bem, o pecador manifesto, que o oculto e coberto com o manto das virtudes aparentes.
Vês, pois, claramente, que a vida espiritual, como declarei acima, não consiste nestas coisas.
A virtude outra coisa não é, senão o conhecimento da bondade e grandeza de Deus, e da nossa nulidade e inclinação ao mal; o amor de Deus e o ódio de nós mesmos; a sujeição, não somente a Ele, mas, por seu amor, a toda a criatura; o desapropriamento da nossa vontade e o acatamento total de suas divinas disposições; por fim querer e fazer tudo isso, para a glória de Deus, para seu agrado, e porque Ele quer e merece ser amado e servido.
Esta é a lei do amor, expressa pela mão de Deus nos corações de seus servos fiéis.
Esta é a negação de nós mesmos, que Ele exige de nós. Este é o jugo suave e o ônus leve.
Esta é a obediência a que nosso divino Redentor e Mestre nos chama com sua voz e com seu exemplo.
Se aspiras a tanta perfeição, deves fazer contínua violência a ti mesma, para combateres generosamente e aniquilar todas as tuas vontades, grandes e pequenas. Para isso é necessário que, com grande prontidão de ânimo, te aparelhes para esta batalha, pois só é coroado o soldado valoroso.
Este combate é difícil, mais que nenhum outro, pois combatemos contra nós mesmos. Por maior, porém, que seja a batalha, mais gloriosa, e mais cara a Deus, será a vitória.
Se tratares de sufocar todos os teus apetites desordenados, teus desejos e vontades, mesmo muito pequenas, maior serviço farás a Deus do que se te flagelares até o sangue, jejuares mais que os antigos eremitas e anacoretas, converteres milhares de almas, guardando vivos, voluntariamente, alguns destes apetites.
Naturalmente, o Senhor aprecia mais a conversão das almas do que a mortificação de uma pequenina vontade. Apesar disto, não deves querer nem obrar, senão aquilo que o Senhor restritamente quer de ti. E sem dúvida Ele mais se compraz em que te canses em mortificar as tuas paixões do que em O servires em algum trabalho, por grande e necessário que seja, guardando viva em ti, advertida e voluntariamente, alguma paixão.

Agora que vês, filha, em que consiste a perfeição cristã e como, para a conquistar é preciso empenhar uma contínua e duríssima guerra contra ti mesma, necessitas de quatro coisas como armas seguríssimas e muito necessárias, para vencer nesta batalha espiritual.
São as seguintes:
A desconfiança em ti mesma, a confiança em Deus, o exercício e a oração.
Com a ajuda divina, algo diremos, sucintamente, sobre estes assuntos.

 Do Livro: O Combate Espiritual, D. Lorenzo Scúpoli

segunda-feira, 26 de março de 2018

A PERDA DO ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO



Um dos efeitos da reforma litúrgica é a perda do espírito de sacrifício. O sacrifício já não é mais buscado sem o prazer. Dom Lefebvre denuncia essa nova orientação e lembra por que a Igreja sempre pediu aos fiéis a mortificação.
1 – Se já não há sacrifício da missa, tampouco há espírito de sacrifício
O catolicismo está fundado essencialmente sobre a cruz. Se não existe mais a noção do sacrifício da Cruz, do sacrifício da missa que continua o sacrifício da Cruz, já não se é mais católico. Nesta fé, na Cruz de Jesus e em seu Coração aberto, é onde encontramos a fonte das graças. Quando contemplamos sua cabeça coroada de espinhos e suas mãos transpassadas, encontramos todas as graças de ressurreição e de redenção que necessitamos. Se o sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo é suprimido em nossos altares, apenas uma Eucaristia permanece, ou seja, uma refeição compartilhada, uma comunhão. Esse já não é mais o espírito da Igreja Católica que se fundamenta essencialmente na Cruz e no espírito de sacrifício.
Devemos reconhecer que o espírito de sacrifício está desaparecendo à nossa volta. Ninguém quer se mortificar, mas gozar e aproveitar a vida, mesmo entre os católicos. Por quê? Porque a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo já não está mais lá. E se já não há mais uma Cruz, já não existe mais uma Igreja Católica. É uma questão de considerável gravidade. É a mudança de orientação que foi feita durante o Concílio.
2 – Sem o espírito de sacrifício, toda a vida familiar é afetada
Em razão do fato de que depois do Concílio já não mais se fala do sacrifício da missa, o espírito de sacrifício desaparece e ninguém mais o entende.
“Somos livres! A vida é feita para desfrutar dos bens e das diversões! Todos deveriam ter a mesma quantidade de bens, de prazeres e de oportunidades para desfrutar”.
Assim, a noção de sacrifício é eliminada. Por que os casamentos já não duram mais? “Para quê se sacrificar? Se eles não mais se entendem, deixe-os separar! Os filhos são um fardo…” Ninguém se sacrificará por eles e, portanto, não os conceberão mais, ou assassinam as pobres crianças inocentes por meio do aborto. Esse é o mundo moderno: “Fora com o sacrifício!”
3 – Por que a Igreja pede o desprezo para com as coisas deste mundo?
Em nossas orações, tudo o que concretiza o espírito de desprendimento das coisas deste mundo desapareceu: “Que aprendamos a desprezar as coisas da terra e a amar as do Céu”, porque agora já não é necessário desprezar as coisas da terra. Agora devemos ter estima pelas coisas deste mundo e pelos bens materiais. É inadmissível ter desprezo pelas coisas deste mundo! Evidentemente, é inadmissível se não se reconhece que as coisas deste mundo são uma ocasião de pecado.
As coisas não são desprezíveis em si mesmas, mas para nós são uma ocasião de pecado. À medida que a riqueza e o prazer nos fazem cair em pecado, temos que nos desapegar deles. Infelizmente, todas as coisas na terra, por causa da malícia que há em nós, atraem-nos ao pecado. Daí a necessidade da ascese espiritual. Portanto, em que consiste a nova ascese?
O próprio Deus nos pediu que usemos os bens deste mundo para cumprir nosso dever de estado. Portanto, está claro que temos de usá-los. Mas a desordem introduzida em nós com o pecado original faz com que busquemos esses bens de maneira desordenada e excessiva, o que nos leva a afastar-nos da oração e de Deus. O que, de fato, é a oração, senão a elevação de nossas almas a Deus? Muitas pessoas já não elevam sua alma a Ele porque estão completamente ocupadas com as coisas deste mundo. Já não rezam e já não mais se associam à oração de Nosso Senhor, que é o santo sacrifício da Missa e acabam desertando das igrejas porque estão repletas do espírito do mundo.
Monsenhor Marcel Lefebvre
A MISSA DE SEMPRE

Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

sexta-feira, 23 de março de 2018

MÃES, SEJAM SANTAS!


Santa Mônica com seu filho Santo Agostinho
Eis um texto para nossas mães de família. Rezemos para que Deus nos dê mães santas.

“Lembrem-se desta grande palavra de Cristo: “E através deles me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade.” É o mesmo que toda mãe cristã dever dizer. A santificação é um dever pessoal, mas se infelizmente se se chega a esquecer disso como um dever pessoal, pelo menos deve ser lembrado como um dever maternal, como uma dívida para com seus filhos. Só Deus sabe a influência que tem a santidade de uma mãe tem nas almas de seus pequeninos. Quase todos os grandes santos tinham mães muito piedosas. A primeira graça que é dada a um homem é ter uma mãe segundo o coração de Deus. Temos o hábito de dizer: “Tal pai, tal filho” … mas diríamos de forma ainda melhor: “Tal mãe, tal filho “.
Saibam Mães, que sua maternidade não terminará enquanto, em sua tarefa, não tenham feito crescer Jesus Cristo no coração de seus filhos. A Igreja, esta Mãe divina através da qual Deus exerce principalmente a sua própria maternidade, deu à luz aos seus filhos para a vida eterna. O batismo é apenas uma semente e o batizado nada mais é do que um recém-nascido. Depois de colocar a semente, é necessário cultivá-la … após o nascimento, o crescimento. Esse é o seu dever e as senhoras não poderão fazê-lo sem serem santas. Oh, que missão a sua! Quantas coisas dependem das senhoras! Se a sociedade está tão doente ao ponto que nos perguntamos se está morrendo é porque há muito poucos cristãos. Agora, se há poucos cristãos, há poucas mães suficientemente cristãs. “
Cardeal Pie
Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

“ELES TÊM OS TEMPLOS, VÓS A FÉ APOSTÓLICA”


Carta de São Atanásio, Bispo de Alexandria, aos seus fiéis, onde lhes fala sobre a importância de permanecer dentro da verdadeira fé e adesão à Tradição.
“Que Deus vos conforte! … O que tanto vos entristece é que os inimigos ocuparam vossos templos pela violência, enquanto vós, em todo esse tempo, encontrais-vos fora.
É um fato que eles têm os edifícios, os templos, mas, por outro lado, vós tendes a fé apostólica. Eles conseguiram tirar-nos nossos templos, mas estão fora da verdadeira fé. Vós tendes que permanecer fora dos lugares de culto, mas permaneceis, contudo, dentro da fé.
Reflitamos: o que é mais importante, o lugar ou a fé? Evidentemente, a verdadeira fé. Nesta luta, quem perdeu, quem ganhou: aquele que guardou o lugar ou aquele que guardou a fé?
O lugar, é verdade, é bom, (mas) quando nele se prega a fé apostólica; é santo se tudo o que nele acontece e passa é santo.
Sois afortunados, porque permaneceis na Igreja por vossa fé, que chegou até vós através da Tradição Apostólica e se, sob pressão, um zelo execrável pretendeu quebrantar vossa fé, essa pressão não obteve êxito. São eles os que se separaram, na presente crise da Igreja.
Ninguém jamais prevalecerá contra vossa fé, caríssimos irmãos. E nós sabemos que um dia Deus nos devolverá nossos templos.
Assim, pois, quanto mais eles insistem em tirar nossos lugares de culto, mais eles se separam da Igreja. Eles pretendem representar a Igreja, quando, na realidade, expulsaram-se a si mesmos e se extraviaram.
Os católicos que permanecem leais à Tradição, ainda que reduzidos a um pequeno resto, são a verdadeira Igreja de Jesus Cristo”.
Santo Atanásio

quinta-feira, 22 de março de 2018

Tanto mais agradável a Deus uma alma pecadora, quanto mais vil se considera



  Segundo o texto de Job (11,17) e o pensar de São Bernardo, a alma pecadora parecerá tanto menos vil aos olhos de Deus, quanto for mais a seus próprios olhos, lembrando-se de seus pecados."

     É assim que nos utilizamos das nossas faltas e, como diz Fénelon, maior serviço nos prestarão elas, rebaixando-nos aos nossos olhos, do que as boas obras, dando-nos consolações. "As faltas são sempre faltas; mas é certo que elas tem a virtude de nos confundir e fazer-nos voltar a Deus, e com isto fazem-nos um grande bem."

      Tais matérias há que aparentemente sujam os vestidos e toda via servem para lhes tirar nódoas. Tal é o uso que os justos fazem dos seus pecados, detestando-os sinceramente. Deles se servem para purificar a alma das máculas do orgulho, o maior dos pecados.

    "É destarte que, insiste S. Bernardo, o justo cai sob as mãos de Deus e, por uma estranha maravilha, o pecado por ele cometido contribui para a sua justificação... Não é a mão de Deus que ampara o pecador, quando é a humildade que o abate?"

      Aprendamos a utilizar-nos das nossas faltas por este meio; apenas nos tenham escapado, devemo-las delir pela penitência. Tiremos delas igualmente proveito, quando a sua lembrança nos vier entristecer. Há ervas de muito mau odor que, à força de dessecar, acabam por exalar um aroma agradável. Que o mesmo suceda com os pecados da nossa pobre vida. Sirvam eles para o nosso bem e repitamos mais uma vez as palavras admiráveis do beato Cláudio de la Colombière: "Ditosas misérias, cuja lembrança me faz corar os olhos de Deus e rebaixar-me diante dos homens! Se pois para uma necessidade, não vos quereria trocar pelos méritos e virtudes alheias. Prefiro ser como é força que seja para ser humilde, Renuncio a todas as graças que me hajam de privar deste benefício e, para o não perder, consinto que me tirem tudo o mais."
***
    Semelhantes reflexões encontramos nas obras do ilustre jesuíta Daniel Considine que diz mais ou menos assim:

     Quanto mais te abandonares a Deus, mais poderá fazer de ti; e nunca estarás tão completamente abaixo da sua direção como na hora em que menos confiares em ti e te entregares sem reserva ao seu governo...

     Faze por crescer cada vez mais no profundo conhecimento de que nada podes de ti mesmo, absolutamente nada; mas que dependes inteiramente de Deus. Destarte tornará impossível todo e qualquer sentimento de vanglória....
     Fraquezas e faltas imprevistas não te deveriam aterram nem desnortear; pelo contrário, pode tirar delas grande proveito, humilhando-te por causa das mesmas.
     Não é bom sinal perturbares-te à vista dos teus defeitos. O que importa é voltares-te ao Senhor com amorosa aflição, mas ao mesmo tempo com tão inteira confiança que estejas seguro do seu perdão. E logo continua a amá-lo e a viver feliz em sua companhia. Assim é que procediam os Santos.

     Inquietação interior, perturbação, alheamento de Deus provindo de faltas cometidas - tudo isso nasce do orgulho. Pouco importa o que penses ou sintas, nada disto pode afastar-te de Deus. Só a vontade é que decide.

     Se formos humildes, seremos leais e amantes da verdade, sempre prontos a confessar as nossas faltas a Deus e aos homens, e, convencidos de nossa insuficiência no serviço de Deus, não mendigaremos aos homens a estima que não nos compete. Ponhamos de parte a hipocrisia que pretende fazer-nos aparecer melhores do que de fato somos; sejamos sinceros e amigos da verdade perante Deus e os homens.

     S. Madalena entendia tão bem tratar com o Senhor, que lhe admiramos aquela pia audácia tão sua... Pecados perdoados não constituem impedimento à vossa íntima união com Deus, formam antes como um novo título ao seu amor. Desde a hora em que Jesus disse a Maria Madalena: "Os teus pecados te são perdoados, vai em paz!" - nunca mais se mencionam os pecados da penitente. Nem parece angustiar-se por eles. Nunca mais se conserva arredia do Senhor com o pensamento de que outros tenham feito maior jus ao amor do Mestre do que ela, a grande pecadora de outrora. Aproxima-se de Jesus o mais possível, e o Senhor não a repudia. É só no bondoso Mestre que Madalena pensa, não em si mesma, e é nisto que está o segredo da paz da alma e da santidade.

    Uma vez convencidos de que por nós mesmos não somos senão uma congérie de fraquezas, misérias e más inclinações, o único expediente é abismar-nos completamente no amorosíssimo Coração de Jesus. Não seremos jamais por Ele desprezados nem rejeitados. Destarte acabaremos por esquecer-nos de nós mesmos, unicamente empenhados em agradar a Deus. E já não haverá perigo de temeridade e presunção. A misericórdia do Senhor é mais real e generosa do que o homem possa compreender.

     Esforça-te por viver sempre com Deus. Quanto maior for a tua miséria, mas, sim, o nosso egoísmo. Não receies que seja demasiada a confiança que nele deposites. Avante, pois, com santa alegria! Fora com essas hesitações! Abandona-te completamente ao seu divino amor!

     Desta forma, a par da preciosíssima virtude da humildade e duma santa fortaleza da alma, nasce em nosso coração, por meio delas, a régia tranquilidade dos espíritos devotos. Como amantes da humildade e das humilhações, evitaremos a menor sombra de perturbação, de desassossego e desânimo; banindo de nós toda tristeza, andaremos alegres no Senhor, prazenteiros e amáveis.


Retirado do Livro: A Arte de Aproveitar as Próprias Faltas, São Francisco de Sales.
Fonte: