segunda-feira, 30 de julho de 2018

O ABANDONO DE JESUS SOBRE A CRUZ E A PENA DE DANO NO INFERNO



Sustinui qui simul contristaretur, et non fuit, et qui consolaretur, et non inveni – “Esperei se algum se entristecia comigo, e não houve ninguém; esperei se alguém me consolava, e não achei” (Ps. 68, 21).
Sumário. O que mais atormentou Jesus, pregado na cruz, foi o abandono completo em que se viu. Não achando na terra quem o console, levanta os olhos para o Pai Celestial. Este, porém, vendo-o carregado dos nossos pecados, recusa-se a dar-lhe alívio e deixa-o morrer sem consolo. O Senhor quis padecer um abandono tão cruel, para nos livrar de outro abandono mais cruel ainda, qual é a pena de dano no inferno. Contudo, quão poucos são os que cuidam em render-Lhe graças, e em retribuir-lhe o seu amor!
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São Lourenço Justiniani diz que a morte de Jesus Cristo foi a mais amarga e a mais dolorosa de todas, pois que o Redentor morreu na cruz sem o mais pequeno alívio. Nas outras pessoas que sofrem, a pena é sempre aliviada, ao menos por algum pensamento consolador; mas a dor e aflição de Jesus padecente foi uma dor pura, uma aflição sem alívio. Por esta razão, São Bernardo, contemplando o Salvador morto sobre a cruz, Lhe diz, suspirando: Meu amado Jesus, olhando-Vos sobre esta cruz, desde a cabeça até aos pés, não vejo senão dor e aflição.
A pena, porém, que mais atormenta o coração amante de Jesus é o abandono completo em que se acha; eis porque Jesus se queixa pela boca do Profeta: Esperei se alguém me consolava, e não achei. – Maria Santíssima conservava-se, é verdade, ao pé da cruz, afim de lhe procurar algum alívio se pudesse; mas esta Mãe terna e aflita contribuiu antes pela dor que lhe causava a sua compaixão, a aumentar a pena do Filho que tanto a amava. São Bernardo diz que as dores de Maria contribuíam todas para afligir mais o Coração de Jesus; de tal sorte que, quando o Salvador lançava os olhos para sua Mãe aflita, sentiu o coração mais penetrado das dores de Maria que das suas, como a mesma Bem-aventurada Virgem o revelou a Santa Brígida.
Jesus, então, vendo que não achava na terra quem o consolasse, elevou os olhos e o coração a seu Pai, para lhe pedir alívio; mas o Eterno Pai, vendo seu Filho em forma de pecador, Lhe disse: Não, meu Filho, não te posso consolar agora, que estás satisfazendo à minha justiça por todos os pecados dos homens. É justo que te entregue a teus padecimentos e te deixe morrer sem algum alívio. Foi então que nosso Salvador exclamou em alta voz: “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” – Clamavit Iesus você magna, dicens: Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (1) Ó abandono tão cruel para o Coração de Jesus!
A reflexão sobre a pena que sofreu Jesus Cristo, vendo-se abandonado de todos, chama nossa atenção sobre a desgraça terrível da alma abandonada para sempre de Deus no inferno. São grandes as outras penas daquele lugar de tormentos(2): o fogo que devora, as trevas que ofuscam, os gritos lancinantes dos réprobos que ensurdecem, o mau cheiro que infecciona, a estreiteza que oprime: todas estas penas, porém, não são nada em comparação com a perda de Deus. Foi desta perda irreparável que o Coração de Jesus nos quis livrar, aceitando tão cruel abandono sobre a cruz. E nós nem sequer pensamos em Lhe dar graças!
Ah, meu terno Jesus, queixais-Vos sem razão, quando dizeis: Meu Deus, porque me abandonastes? Porque, assim direi eu, porque Vos quisestes encarregar de pagar por nós? Não sabíeis que por nossos pecados merecíamos ser abandonados de Deus? Foi, pois, com justiça que vosso Pai Vos abandonou e Vos deixa morrer num mar de dores e amarguras. Ah, meu Salvador, vosso abandono aflige-me e me consola: aflige-me, porque Vos vejo morrer entregue a tantos sofrimentos, mas consola-me, porque me faz esperar que, pelos vossos merecimentos, não serei abandonado da divina misericórdia, como merecia, por Vos haver abandonado tantas vezes para seguir os meus caprichos.
Fazei-me compreender, ó Senhor, que, se vos foi tão penoso o ser privado por alguns momentos da presença sensível da Divindade, qual seria o meu suplício, se fosse privado de Deus para sempre. Suplico-Vos, pelo cruel abandono que sofrestes, que nunca me abandoneis, ó meu Jesus, sobretudo no artigo da morte. Quando todos me tiverem abandonado, não me abandoneis Vós, meu Salvador. Ah! Meu Senhor, abandonado de todos, sêde o meu consolo nas desolações. Sei que, se eu Vos amar sem consolação, mais contentarei o vosso Coração. Mas Vós conheceis a minha fraqueza; dai-me perseverança, paciência e resignação. – Ó Maria, a Vós também peço esta graça, que espero obter pelos merecimentos da dor que sentistes, vendo vosso Filho abandonado de todos.
  1. Matth. 27, 46.
    2. Luc. 16, 28.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso
Fonte:

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A excelência da oração do Pai Nosso segundo S. Tomás de Aquino



I. As cinco qualidades requeridas para todas as orações.

1. — A Oração Dominical (Pai Nosso), entre todas, é a oração por excelência, pois possui as cinco qualidades requeridas para qualquer oração. A oração deve ser: confiante, recta, ordenada, devota e humilde.

2. — A oração deve ser confiante, como São Paulo escreve aos Hebreus (4, 16): Aproximemo-nos com confiança do trono da graça, a fim de alcançar a misericórdia e achar graça para sermos socorridos no tempo oportuno. 

A oração deve ser feita com fé e sem hesitação, segundo São Tiago. (Tg 1,6): Se algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus... Mas peça-a com fé e sem hesitação.

Por diversas razões, o Pai Nosso é a mais segura e confiante das orações. A Oração Dominical é obra de nosso advogado, do mais sábio dos pedintes, do possuidor de todos os tesouros de sabedoria (cf. Cl 2, 3), daquele de quem diz São João (I, 2, 1): Temos um advogado junto ao pai: Jesus Cristo, o Justo. São Cipriano escreveu em seu Tratado da oração dominical: «Já que temos o Cristo como advogado junto ao Pai, por nossos pecados, em nossos pedidos de perdão, por nossas faltas, apresentemos em nosso favor, as palavras de nosso advogado».

A Oração Dominical parece-nos também que deve ser a mais ouvida porque aquele que, com o Pai, a escuta é o mesmo que no-la ensinou; como afirma o Salmo 90 (15): Ele clamará por mim e eu o escutarei. «É rezar uma prece amiga, familiar e piedosa dirigir-se ao Senhor com suas próprias palavras» diz São Cipriano. Nunca se deixa de tirar algum fruto desta oração que, segundo santo Agostinho, apaga os pecados veniais.

3. — A nossa oração deve, em segundo lugar, ser recta, quer dizer, devemos pedir a Deus os bens que nos sejam convenientes. «A oração, diz São João Damasceno, é o pedido a Deus dos dons que convém pedir». Muitas vezes, a oração não é ouvida por termos implorado bens que verdadeiramente não nos convêm. «Pediste e não recebeste, porque pediste mal», diz São Tiago (4, 3).

É tão difícil saber com certeza o que devemos pedir, como saber o que devemos desejar. O Apóstolo reconhece, quando escreve aos Romanos (8, 26): Não sabemos pedir como convém, mas (acrescenta), o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis.

Mas não é o Cristo que é o nosso doutor? Não foi Ele que nos ensinou o que devemos pedir, quando os seus discípulos disseram: Senhor, ensinai-nos a rezar? (Lc 11, 1). Os bens que ele nos ensina a pedir, na oração, são os mais convenientes. «Se rezamos de maneira conveniente e justa, diz Santo Agostinho, quaisquer que sejam os termos que empregamos, não diremos nada mais do que o que está contido na Oração Dominical».

4. — Em terceiro lugar, a oração deve ser ordenada, como o próprio desejo que a prece interpreta.

A ordem conveniente consiste em preferirmos, em nossos desejos e preces, os bens espirituais aos bens materiais, as realidades celestes às realidades terrenas, de acordo com a recomendação do Senhor (Mt 6, 33): Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o resto — o comer, o beber e o vestir — ser-vos-á dado por acréscimo. Na Oração Dominical, o Senhor ensina-nos a observar esta ordem: primeiro pedimos as realidades celestes e em seguida os bens terrestres.

5. — Em quarto lugar, a oração deve ser devota.

A excelência da devoção torna o sacrifício da oração agradável a Deus. Em vosso nome, Senhor, elevarei minhas mãos, diz o Salmista, e minha alma é saciada como de fino manjar. A prolixidade da oração, no mais das vezes, enfraquece a devoção; também o Senhor nos ensina a evitar essa prolixidade supérflua: Em vossas orações não multipliqueis as palavras; como fazem os pagãos, (Mt 6, 7). S. Agostinho recomenda, escrevendo a Proba: «Tirai da oração a abundância de palavras; no entanto não deixeis de suplicar, se a vossa atenção continua fervorosa». Esta é a razão pela qual o Senhor instituiu a breve oração do Pai Nosso.

6. — A devoção provém da caridade, que é o amor de Deus e do próximo. O Pai Nosso é uma manifestação destes dois amores.

Para mostrar nosso amor a Deus, chamamo-Lo «Pai» e para mostrar nosso amor ao próximo, pedimos por todos os homens justos, dizendo: «Pai Nosso», e empurrados pelo mesmo amor, acrescentamos: «perdoai as nossas dívidas»,

7. — Em quinto lugar, a nossa oração deve ser humilde, segundo o que diz o Salmista (Sl 101, 18): Deus olhou para a prece dos humildes.

Uma oração humilde é uma oração que certamente será ouvida, como nos mostra o Senhor, no evangelho do Fariseu e do Publicano (Lc 18, 9-15) e Judite, rogando ao Senhor, dizia: Vós sempre tivestes por agradável a súplica dos humildes dos mansos. Esta humildade está presente na Oração Dominical, pois a verdadeira humildade está naquele que não confia nas suas próprias forças, mas tudo espera do poder divino.

II. Os bons efeitos da oração.

8. — Notemos que a oração produz três espécies de bens.

Primeiramente, constitui um remédio eficaz contra todos os males. Livra-nos dos pecados cometidos: «Remistes, Senhor, a iniquidade de meu pecado, diz o Salmista (Sl 31,5-6) por isso todo homem santo dirigirá a Vós sua prece». Assim pediu o ladrão sobre a cruz e obteve o perdão, pois Jesus lhe respondeu: «Em verdade vos digo, hoje mesmo estareis comigo no paraíso». (Lc 23, 43), Do mesmo modo rezou o publicano e voltou para casa justificado (cf. Lc 18, 14).

A oração liberta-nos do medo dos pecados que virão, das tribulações e da tristeza. Alguém está triste entre vós? Reze com a alma tranquila (Tg 5, 3).

A oração livra-nos das perseguições dos inimigos. Está escrito no Salmo 108, 4: Em resposta ao meu afecto me fizeram mal; eu, porém, orava.

9. — Em segundo lugar, a oração é um meio útil e eficaz para a realização de todos os nossos desejos. Tudo o que pedirdes na oração, diz Jesus, crede, recebereis. (Mc 11, 24)

Se não somos atendidos, será porque — ou não pedimos com insistência: é preciso rezar sem descanso (Lc 18, 1) — ou então não pedimos o que é mais útil à nossa salvação. «O Senhor é bom, diz Santo Agostinho, muitas vezes não nos concede o que queremos, para nos dar os bens, que desejaríamos receber, se nossa vontade estivesse bem de acordo com a sua divina vontade». São Paulo é exemplo disso, pois, por três vezes, pediu para ficar livre de um forte sofrimento em sua carne e não foi atendido (cf. II Cor 12, 8).

10. — Em terceiro lugar a oração é útil, porque nos torna familiares de Deus. Que a minha oração suba até vós, como o fumo do incenso, diz o Salmista (Sl 140, 2).

S. Tomás de Aquino in "O Pai Nosso e a Avé Maria" 
Tradução: Permanência

quarta-feira, 25 de julho de 2018

7 conselhos de São Bento muito úteis para a nossa vida



Na sua Regra, São Bento dirige, aos seus monges, estas recomendações que também nos podem ajudar. 

É este zelo que, com ardentíssimo amor, devem exercitar os monges:

1. Antecipem-se uns aos outros na estima recíproca;

2. Suportem com muita paciência as vossas enfermidades, físicas ou morais;

3. Rivalizem em prestar mútua obediência;

4. Ninguém procure o que julga útil para si, mas antes o que o é para os outros;

5. Amem-se mutuamente com pura caridade fraterna;

6. Vivam sempre no temor e no amor de Deus;

7. Amem o vosso abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente anteponham a Cristo, o qual nos conduza todos juntos à vida eterna.

Fonte:

terça-feira, 24 de julho de 2018

DESEJO DE JESUS DE SOFRER POR NÓS


Baptismo habeo baptizari: et quomodo coarctor, usque dum perficiatur? – “Tenho de ser batizado com um batismo: e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra” (Luc. 12, 50).
Sumário. Sendo o sofrimento suportado pela pessoa amada a prova mais patente do amor, e o que mais cativa o amor da pessoa amada, nosso Senhor suspirou em todo o correr de sua vida pelo dia em que havia de ser batizado com o seu próprio sangue. Na véspera da sua Paixão foi ele mesmo ao encontro dos seus inimigos, como se viessem para o levarem, não ao suplício, mas à posse de um grande reino. Ó amor imenso de Jesus! E todavia, este amor é tão mal correspondido pela maior parte dos homens!
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É excessivamente terna, amorosa e constrangedora a declaração que o nosso Redentor fez acerca dos motivos da sua vinda à terra, quando disse que tinha vindo para acender nas almas o fogo do divino amor, e que tinha o vivíssimo desejo de ver esta santa chama acender-se em todos os corações dos homens: Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?(1)
E porque o padecer pela pessoa amada patenteia melhor o amor do objeto amado, Jesus Cristo logo em seguida acrescentou que esperava ser batizado com o batismo do seu próprio sangue, afim de lavar os nossos pecados, pelos quais tinha vindo satisfazer com as suas penas: Baptismo habeo baptizari. Para nos fazer compreender todo o ardor do desejo que tinha de morrer por nós, disse, com as mais doces expressões de amor, que experimentava vivas ânsias pela chegada do tempo em que devia cumprir-se a sua Paixão: Et quomodo coarctor usque dum perficiatur!
Mas ouçamos o que disse o Senhor na noite bem-aventurada que precedeu a sua Paixão, na véspera de ser sacrificado sobre o altar da cruz: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco” – Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum (2). São Lourenço Justiniano, meditando nestas palavras, diz que elas foram todas expressões de amor. É como se nosso amável Redentor tivesse dito: Homens, sabei que esta noite começará a minha paixão e o tempo de minha vida pelo qual tenho suspirado mais, porque é agora que pelos meus padecimentos e pela minha morte cruel vos farei conhecer quanto vos amo, e assim vos obrigarei, o mais que me é possível, a me amardes. – Um autor diz que na Paixão de Jesus a onipotência divina se uniu com o amor. O amor quis amar o homem com toda a extensão da onipotência e a onipotência quis secundar o amor em toda a extensão de seu desejo.
O desejo que tinha Jesus de sofrer por nós foi tão grande que, na noite que precedeu a sua morte, não somente foi por sua livre vontade ao horto, onde sabia que os judeus haviam de o vir prender; mas ainda, sabendo que o traidor Judas se aproximava acompanhado dos soldados, disse a seus discípulos: Levantai-vos, vamos; eis aí que se aproxima o que me entregará: Surgite; eamus: ecce qui me tradet, prope est(3).
Estando já pregado na cruz, Jesus disse que tinha sede: Sitio. Com esta palavra, na explicação de Santo Tomás com São Lourenço Justiniano, nosso divino Salvador quis manifestar-nos menos a sede do seu corpo, que o desejo que tinha de padecer por nós, mostrando-nos por tantos sofrimentos o seu amor, juntamente com o desejo de ser amado por nós.
Ó Deus, abrasado em amor pelos homens, que podíeis dizer e fazer mais, para me por na necessidade de Vos amar? E que vantagem podia trazer-Vos o meu amor, se para o obter quisestes morrer e tanto suspirastes pela vossa morte? Se um dos meus servos houvesse somente desejado morrer por mim, teria ele adquirido o meu amor; e poderei viver sem Vos amar de todo o meu coração, a Vós, meu Rei e meu Deus, que morrestes por mim, e tanto desejastes morrer a fim de conquistar o meu amor?
Ó meu amabilíssimo Redentor, não quero mais resistir às finezas do vosso amor; eu Vos dou todo o meu amor. Entre todas as coisas, Vós sois e haveis de ser sempre o único bem amado de minha alma. Vós vos fizestes homem para terdes uma vida a dar por mim; eu queria ter mil vidas a sacrificar por Vós. Amo-Vos, bondade infinita, e quero amar-Vos com todas as minhas forças. Quero fazer tudo quanto possa para Vos agradar. Fortalecei, ó meu Jesus, este desejo que Vós mesmo me inspirais. Fazei-o pelo amor da vossa e minha querida Mãe, Maria. (*I 551.)
  1. Luc. 12, 49.
    2. Luc. 22, 15.
    3. Marc. 14, 52.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso

sábado, 21 de julho de 2018

AMIGAS QUE ESCOLHERÁS A DEDO (AS LEITURAS)



Quais são? As páginas dos livros que queres ler. Pois a influência dessas amigas é terrível. Próprio é da amizade encontrar semelhantes ou fazê-los tais. É ilusão pensar a senhorita que um livro não lhe fará mal, ainda que mau seja. Devagar, ela tornar-se-á cúmplice de certas atitudes citadas no livro, depois acertar-lhe-á  as idéias, lhe aprovará as descrições. Finalmente, entregar-lhe-á ao livro com ele já entregou à sua leitora.
E então acontece, aquilo que Perreyve chama de “magno ilogismo”. Vemos muita leitora ser amiga de livros, conviver com eles, quando não teria coragem se ser amiga e conviver com… os autores desses livros. O autor passa por ser inconveniente por causa das coisas que escreve. Entretanto, essas coisas que ele escreveu tornam-se íntimas confidentes da candíssima leitora! A moça escusa-se de uma má companhia, porque o povo falaria dessa duvidosa companhia. Fecha a porta da sua casa a tal pessoa, mas aceita-lhe o livro mau de que é autor!
Queres a amizade de umas páginas? Aceita aquelas que te fazem melhor, que te entusiasmam por um nobre e possível ideal, que te levam para mais perto de Deus. Se te causam o contrário, larga-as. Não são de Deus; vêm do demônio. Disse Lacordaire: “É o demônio que inspira todos os livros que não são inspirados por Deus“.
Indaga primeiro se o livro merece tua intimidade. Pois que é a leitura senão uma íntima conversa, de alma a alma, no silêncio de um canto, à luz de uma lâmpada, à noite clama? Mesmo que tua melhor amiga viesse te apresentar uma pessoa desconhecida, não a aceitarias logo de coração escancarado, não lhe poria nas mãos todas as chaves de teus cofres. E por que és tão sem cerimônia em aceitar e ler, em relatar e em recomendar as páginas de um livro?! – Outra coisa: reflete bem na responsabilidade que assumes, quando aconselhas um livro a uma amiguinha. Ficarás responsável pelo mal que lhe provier da leitura.
Audi Filia! – Pe. Geraldo Pires de Souza

Fonte:
http://catolicosribeiraopreto.com

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A VIDA DOS RELIGIOSOS É MAIS SEMELHANTE À DE JESUS CRISTO

Quos praescivit, et praedestinavit conformes fieri imaginis Filii sui – “Os que conheceu na sua presciência, também predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho” (Rom. 8, 29).
Sumário. Compenetremo-nos bem de que os religiosos, contanto que guardem suas Regras, são os homens mais felizes do mundo; porque mais do que os outros são imitadores da vida de Jesus Cristo. Os mundanos têm-nos por loucos, mas no vale de Josafá conhecerão terem sido eles os loucos, porque deixaram o caminho da verdade e assim condenaram-se para sempre. Demos graças ao Senhor pela escolha que fez de nós e sejamos fiéis à nossa vocação. Ai de nós, se tivéssemos a desgraça de a perder.
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O Apóstolo diz que o Pai Eterno predestina ao reino dos céus só àqueles que têm uma vida conforme a do Verbo Incarnado: Os que conheceu na sua presciência, também predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho. Quanto devem, pois, estar contentes e certos do céu os religiosos, vendo que Deus os chamou a um estado de vida que entre todos é o mais conforme à vida de Jesus Cristo!
Jesus nesta terra quis viver pobre como simples aprendiz de operário, numa casa pobre, com vestidos pobres, com alimentos pobres: Propter vos egenus factus est, cum esset dives (1) – “Apesar de ser rico, ele se fez pobre por vós”. Demais, ele escolheu para si uma vida toda mortificada, apartada de todos os prazeres do mundo e sempre acompanhada de penas e tristezas, do nascimento até à morte, pelo que foi chamado pelos profetas o homem das dores: vir dolorum (2). Com isso fez ver a seus servos, qual deve ser a vida de quem o quer seguir, isto é, uma vida de abnegação e de sacrifício: Si quis vult venire post me, abneget semetipsum, tollat crucem suam, et sequatur me (3) – “Se alguém quiser vir atrás de mim, renuncie a si próprio, tome a sua cruz, e siga-me”.
Seguindo este exemplo e este convite de Jesus, os santos procuravam despojar-se de todos os bens terrenos e carregar-se de penas e de cruzes para assim seguirem seu amado Senhor. – Assim fez um São Bento, que, sendo filho dos senhores de Núrcia e parente do imperador Justiniano, renunciou às delícias e riquezas do mundo, e, jovem de 14 anos, foi viver numa gruta no monte Sublaco. Assim fez um São Francisco de Assis, que, entregando ao pai toda a porção da herança que lhe competia, até o próprio vestido, pobre e mortificado se consagrou todo a Jesus Cristo. Assim um São Francisco de Borgia, um São Luiz Gonzaga, que sendo, o primeiro duque de Gandia e o segundo príncipe de Castiglione, deixaram riquezas, vassalos, pátria, casa e parentes, e foram viver pobres num convento. E assim fizeram outros muito nobres e príncipes, mesmo de sangue real. Só na ordem beneditina se contam setenta e cinco imperadores, reis e rainhas que deixaram o mundo para viverem pobres, mortificados e esquecidos do mundo, em um pobre convento, e assim se tornarem mais semelhantes a Jesus Cristo.
Compenetremo-nos bem de que os religiosos, contanto que guardem as suas Regras, que os religiosos, e não os grandes do mundo, são os verdadeiros felizes, porque, mais do que quaisquer outros, são imitadores de Deus, como filhos prediletos(4). Os mundanos os têm por loucos, mas no vale de Josafá conhecerão terem sido eles os loucos. Vendo então os Santos em seus tronos, coroados por Deus, chorando e desesperados dirão: “São estes de quem nós algum tempo escarnecíamos. Nós, insensatos! Tínhamos a vida deles como uma loucura… Eis como são contados no número dos filhos de Deus e a sua sorte é entre os santos. De que nos aproveitou nosso orgulho? (5)
Meu Mestre e Redentor Jesus, eis-me, portanto, no meio dos ditosos, que Vós chamastes para Vos seguirem. Senhor meu, graças Vos dou! Deixo tudo: desejaria ter mais que deixar para Vos seguir, meu Rei e meu Deus, que escolhestes para Vós uma vida tão pobre e tão cheia de privações por amor de mim e para me dar ânimo com o vosso exemplo. Caminhai adiante, Senhor, que eu Vos seguirei. Escolhei para mim a cruz que quiserdes e ajudai-me porque quero levá-la com constância e amor. – Pesa-me que no passado Vos abandonei para correr atrás de minhas satisfações e das vaidades do mundo; agora não quero mais abandonar-Vos. Prendei-me à vossa Cruz; e se, pela minha fraqueza, eu resistir alguma vez, atrai-me com as doces cadeias do vosso amor e não permitais que eu Vos deixe ainda.
Sim, meu Jesus, renuncio a todos os prazeres do mundo; o meu único prazer será seguir-Vos, amando e sofrendo tudo que for do vosso agrado. Assim espero achar-me um dia em vosso reino, ligado a Vós com o laço do amor eterno, com que, amando-Vos sem véu, não poderei mais temer ver-me solto e separado de Vós. Amo-Vos, meu Deus e meu tudo, e sempre Vos amarei. – Maria Santíssima, vós que, por terdes sido a mais semelhante a Jesus, sois agora a mais poderosa para alcançar aas graças, protegei-me. (*IV 428.)
  1. 2 Cor. 8, 9.
    2. Is. 53, 3.
    3. Matth. 16, 24.
    4. Eph. 5, 1.
    5. Sap. 5, 3.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II – Santo Afonso
Fonte:

terça-feira, 17 de julho de 2018

Nosso Senhor não nos deixa sós nas tentações


Nosso Senhor não nos deixa sós nas tentações 


(...) Magnífica também a história do combate de Santa Catarina de Sena, sempre sobre o mesmo tema. Eis-la aqui, brevemente: 

O espírito maligno recebera de Deus a licença para atacar a castidade daquela santa virgem com toda a raiva que quisesse, contanto que não a tocasse. Se pôs, então, à obra, insinuando-lhe no coração todo tipo de obscenidades e, para criar nela uma emoção ainda mais forte, se-lhe apresentou, com todos os seus diabos com aparência de homens e mulheres, os quais se exibiam diante dela, em todo tipo de obscenidade e de indecências, e com palavras e convites indecentes; não obstante todas aquelas manifestações fossem exteriores, contudo, por meio dos sentidos, penetravam muito profundamente no coração da jovem mulher; o coração estava saturado daquilo. Livre dessa tormenta de obscenidades e de prazeres carnais, lhe restava apenas a sutil e pura vontade superior.  

Isso tudo durou por muito tempo; até que um dia lhe apareceu Nosso Senhor. Logo lhe perguntou: “Onde estavas, meu doce Senhor, quando o meu coração estava tão cheio de trevas e de feiuras?”. Respondeu o Senhor: “Filha minha, Eu estava em teu coração”. “E como”, replicou ela, “podias habitar em meu coração, onde havia tantas obscenidades? Tu habitas em lugares tão vergonhosos?”. Respondeu-lhe Nosso Senhor: “Me diga, aqueles pensamentos sujos do teu coração te davam prazer ou tristeza, amargura ou deleite?”. E ela: “Grande amargura e tristeza”. Replicou-lhe oSenhor: “Quem colocava aquela grande tristeza e amargura no teu coração se não eu que me mantinha escondido na profundeza de tua alma? Creia-me, filha minha, se Eu não estivesse presente, aqueles pensamentos que premiam ao redor de tua vontade sem a poder dobrar, sem mim a teriam vencido e nela teriam penetrado, e o teu livre arbítrio os teria acolhido com prazer, e assim teria dado à morte a tua alma; mas, como Eu estava nela, inculcava desgosto e resistência ao teu coração, de modo que com todas as forças não cedesse à tentação. Não podendo aniquilar a tentação, como teria gostado, provava um desgosto ainda maior e um ódio mais profundo contra ela e contra si mesma; e assim aqueles tormentos eram um grande mérito e uma grande vitória para ti, um grande crescimento de tua virtude e de tua força”. 

São Francisco de Sales, Filotéia ou a Introdução à Vida Devota, Parte IV, Capítulo 4: Avisos necessários contra as tentações mais comuns: Dois belos exemplos sobre este assunto (tentação). 




Aqui pode ser lido online: https://rumoasantidade.com.br/livro-filoteia-introducao-vida-devota/#sumario

Para comprar: ESTANTE VIRTUAL (USADOS E NOVOS)ou GOOGLE SHOPPING.  

Em PDF: http://alexandriacatolica.blogspot.com/2010/12/filoteia.html

Visto:
http://farfalline.blogspot.com/

Catecismo Ilustrado - Parte 43 - 5º Mandamento de Deus: Não matar (continuação)



Catecismo Ilustrado - Parte 43

Os Mandamentos

5º Mandamento de Deus (continuação): Não matar

1. O quinto mandamento ordena: 1º perdoar aos nossos inimigos; 2º fazer-lhes todo o bem que podemos; 3º fazer bem aos necessitados.

2. A primeira obrigação para com os inimigos é a de perdoar-lhes as injúrias por amor de Deus. Devemos amar os inimigos, porque são filhos de Jesus Cristo, que quer que os amemos por repeito d’Ele, e o sinal mais luminoso deste amor é o perdoar-lhes voluntariamente.

3. Nosso Senhor inculca tanto o perdão das injúrias no Evangelho, porque o desejo da vingança está demasiadamente arreigado no coração do homem.

4. O que torna fácil o perdão das injúrias é: 1º olhar não a quem ofende, mas a Deus que permite a ofensa para nosso bem; 2º as vantagens que resultam de perdoar; 3º os incômodos que nascem da vingança.

5. As vantagens de perdoar são: 1º perdoar-nos Deus os nossos pecados; 2º adquirimos um grande merecimento para com Deus. Os incômodos que nascem da vingança são contínuos remorsos, gravíssimas agitações do espírito e grande número de pecados.

6. Os remédios contra a vingança e o ódio são: o exemplo de Jesus Cristo e a meditação da morte e do juízo, no qual cada um será tratado, como ele tratou o seu semelhante.

7. Ouçamos Nosso Senhor no Evangelho: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão de cretino, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser louco, será réu do fogo do inferno.

Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto
 não pagares o último centavo”. (Mat V, 21)
E noutra passagem: “Então Pedro, aproximando-se dele, disse: “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?” Jesus lhe disse: “Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete. Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; e, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; e, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então o Senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves. Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida. Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara. Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste.
Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas”. (Mat. XVIII, 21-35)

Explicação da gravura


1º Santo Estêvão perdoando aos seus verdugos, e 2º reconciliação de Jacob e Esaú; 3º são Cipriano manda dar dinheiro aos que hão-de martirizar.



Índice das sessenta e oito gravuras

sábado, 14 de julho de 2018

O perigo e os males da Vaidade Feminina

"A vaidade, para a mulher, é mesmo a tentação perigosíssima, de consequências temíveis. Esta é uma daquelas verdades que saltam aos olhos. Por isso, agem com maturidade e sabedoria as mulheres católicas que não costumam postar fotos suas em rede social. Estas mulheres precavidas fecham as portas da alma para os elogios traiçoeiros e, não raramente, CHEIOS DE MALÍCIA, que homens inconvenientes costumam comentar em fotos de moças em rede social.

Moça católica: eu, de minha parte, não sei se você percebeu, mas as redes sociais, no que diz respeito à publicação de fotos pessoais, encontram a sua razão de ser apenas dentro de uma frívola cultura de exibição individual. E é desnecessário dizer que esta cultura é imoral e ofensiva a Deus. Portanto, você não pertence a ela. Quem pertence são as mulheres do mundo. Estas sim se exibem nas redes sociais, porque condiz com os seus vícios e paixões de mulher insensata. Você, moça católica, deve agir de modo radicalmente diverso. Não deve ficar se exibindo e alimentando a sua vaidade, das outras mulheres, e muito menos atraindo olhares masculinos para si.

E não interessa se você não está usando de roupas indecentes nas fotos, moça. A sua impostura em se exibir já é, por si só, um ato que fere a modéstia.

Você consegue imaginar, moça, uma grande Santa usando um recurso como o Facebook da forma que você usa? Exibindo, amiúde, fotografias pessoais acessíveis a centenas, milhares de desconhecidos, vários homens inclusive, cheios de sensualidade, que fitam as suas fotos e as veem como uma ocasião para comentários ousados e inconvenientes?

Um piedoso Santo católico ensina que as donzelas não devem nem desejar ver, nem serem vistas. Moça, não queira fazer de sua vida, de seu corpo, de sua rotina, uma atração exposta nas vitrines de uma rede social de alcance mundial e com milhões de usuários. Não queira que seus encantos e beleza roubem para si a glória que deve pertencer exclusivamente às virtudes de sua alma de mulher piedosa, reservada e modesta. Você está neste mundo para amar e servir a Deus e nada mais. Deve evitar todos os hábitos que não agradem a Deus, que não conduzam a Deus. Quem se entretém amiúde com Deus, moça, não se interessa em exibir-se em rede social.

Sua ambição deve consistir em imitar as virtudes de Maria. Da Santa Virgem, que, por ser humilde e reservada, desejou ocupar o último lugar no cenáculo; que, pelo desprezo que nutria pelas honrarias, não foi vista no dia de ramos, quando seu Filho foi homenageado; que, pela virtude da mortificação, que possuía em grau elevado, caminhava sempre com a cabeça baixa, como que fugindo dos olhares, e nunca fitava os olhos em ninguém; que tinha uma predileção especial pela solidão e, por amor ao recolhimento da alma, desprezava o mundo, porque cada batida de seu coração era um fervoroso ato de louvor à honra e à glória de Deus, e um fulminante ato de desprezo de si mesma".

Texto de Felipe Lustosa

Fonte:



quarta-feira, 11 de julho de 2018

O PECADO DA MURMURAÇÃO: QUÃO FÁCIL É FALAR E QUÃO DIFÍCIL É CALAR!




A Murmuração é uma língua de víbora, que de um só golpe fere três pessoas (Rm 1,30): O murmurado, o que ouve e o murmurador, odiado por Deus (São Bernardo).
Fonte: FSSPX México – Tradução: Dominus Est

A) Aquele de quem se murmura

As Sagradas Escrituras e os Santos Padres frequentemente chamam a murmuração de homicídio, porque arrebata a vida social, mais estimável que a do corpo.

“Os pecados cometidos contra o próximo são medidos pelos danos que causam … O homem desfruta de um triplo bem, a saber: o da alma, o do corpo e a dos bens exteriores … Entre esses últimos, a fama supera muito as das riquezas, porque se opõe aos bens espirituais, pela qual se diz nos Provérbios (22,1): “O bom nome vale mais do que riquezas“. Portanto, a murmuração, embora seja um pecado menor que o homicídio e o adultério é, sem dúvidas, maior que o roubo” (São Tomás de Aquino).
Matéria grave é ferir a reputação de alguém, uma vez que é o maior bem do homem, e perde-la lhe impede trabalhar muitos bens que seriam capazes”, conforme o Eclesiástico (41,15): “Cuide do seu nome, que permanece mais que milhares de tesouros ” (São Tomás de Aquino).
O homem de juízo dá por bem empregado qualquer dispêndio destinado a recuperar sua boa reputação. Então aquele que o priva dela prejudica-o mais que roubando-lhe. Eis como o murmurador profissional é mal visto. Apesar disso, temos vergonha de ter cometido um roubo e não temos de haver murmurado vinte vezes.

B) O que ouve murmurar

1- Incita a pecar
“Vamos admitir que ninguém deu ouvidos aos detratores; certamente estes não se atreveriam… Logo, se alguns murmuram, deve-se culpar aqueles que lhes ouvem” (São Jerônimo).
“Se os murmuradores comprovaram que fugíamos deles mais do que aos censurados, eles perderiam o mau hábito” (São João Crisóstomo)
2 – Agrava nossos pecados 
“O demônio nos induz a este, de modo que, descuidando do que nos interessa, aumenta nosso reato, porque não consiste apenas no seu mal na conta que devemos dar aos nossos ditos, senão que os nossos pecados se agravam ao privarmos de todas as desculpas. Aquele que censura duramente o próximo se priva de toda vênia. Deus ditará a sentença atendendo não apenas às nossas falhas, mas à maneira como julgamos os outros. “Não julgueis e não sereis julgados” (Mt 7,1). Nosso pecado não aparecerá então como tem sido neste tempo, mas se somará uma grande e inevitável quantidade devido a nossos julgamentos” (São João Crisóstomo).
3 – Impede a perfeição
O primeiro passo para ela deve ser negar-se a ouvir a murmuração, porque não há nada que inquiete mais a alma e é entrada à ódios, dissensões, animosidades e dissipação do espírito, como ela (São Jerônimo)

C) Ao murmurador


Seu pecado é grande. Por três razões:

  1. Falta à Caridade
  2. Revela um fundo mal. Gozo em derrubar uma reputação.
  3. Normalmente denota hipocrisia. Desejo de justificar suas próprias falhas.
Pecado mortal ou venial? 
1.- Pode ser venial devido à paridade da matéria.
2.- Mas muitas vezes não são pequenas nem levianas (as coisas) como algumas pessoas acham que são (Pe. Alonso Rodríguez). “Não basta dizer que é uma palavra levada pelo vento (à toa), porque a murmuração voa, mas fere gravemente; passa rápido, mas queima atrozmente” (São Bernardo). 

Remédios e conselhos contra murmúrios

Fugir do maledicente
1.- “O prudente vê o perigo e se esconde” (Prov. 22)
2.- Não fugirias daquele que removeu o estrume? (São João Crisóstomo)
Repreender-lhe
1 –  “E aqueles que ouvem os maledicentes lhes aviso que tapem os ouvidos e imitando o profeta digam: “Reduzirei ao silêncio o que detrata em segredo seu vizinho “(Sl 100,5)..
2 – “Diga-lhe: Você tem alguém a quem louvar e exaltar? Te escuto e ouço. Mas, se você quer falar mal, fecho meus ouvidos, porque não estão acostumados a receber estrume e lama” (São João Crisóstomo).
Se o murmurador for superior
Mude a conversa ou mostre um semblante distraído ou triste.

 

O CURA DE ARS
“Ao julgar o próximo, devemos sempre levar em conta a sua fraqueza e sua capacidade de se arrepender. Normalmente, quase sempre, em seguida, é preciso corrigir nossos julgamentos sobre os outros, já que, uma vez examinados bem os fatos, nos vemos forçados a reconhecer que aquilo que foi dito era falso.  Geralmente nos acontece o que ocorreu com aqueles que julgaram a casta Susana fundando-se na delação de duas testemunhas falsas, sem dar-lhe tempo para se justificar (Dn 13,41), outros imitam a presunção e a maldade judeus, que declararam Jesus blasfemo (Mt 9, 3 ..) e endemoniado (Jo 7, 20, etc); outros, finalmente, se comportam como aquele fariseu que, sem se preocupar em investigar se Magdalena havia renunciado ou não às suas desordens, e embora a tenha visto em um estado de grande aflição acusando seus pecados e chorando-os aos pés de Jesus Cristo seu Salvador e Redentor, não deixou de considera-la como uma infame pecadora” (Lc 7, 39).