sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O poder de Maria contra os demônios e as tentações









Felizes de nós se recorrermos sempre a esta Mãe divina e imaculada

Santo Afonso Maria de Ligório diz, com muita razão, que a Santíssima Virgem Maria é comparada a um exército em ordem de batalha, porque ela sabe ordenar o seu poder e a sua misericórdia para confusão dos inimigos infernais e benefício dos seus devotos. Felizes de nós, se nas tentações recorrermos sempre a esta Mãe divina e imaculada, invocando o seu doce nome juntamente com o de seu Filho Jesus Cristo.
O ato de benevolência mais agradável a Virgem Maria é recomendarmo-nos muitas vezes a ela e colocarmo-nos debaixo da sua proteção, como faziam os primeiros cristãos: “Sub tuum praesidium confugimos, sancta Dei Genitrix – Sob tua proteção nos refugiamos, ó santa Mãe de Deus!”
O poder da Virgem Maria contra os demônios
Maria Santíssima não é somente a Rainha dos Céus, dos Anjos e dos Santos, mas também, de certo modo, do inferno e dos demônios, pois os venceu intrepidamente com as suas virtudes. Todos os Santos Padres concordam em dizer que a Bem-aventurada Virgem Maria é aquela mulher poderosa, prometida por Deus desde o princípio do mundo, que juntamente com o Filho estará em perpétua inimizade com a serpente infernal e, a seu tempo, haverá de lhe esmagar a cabeça, abatendo-lhe o orgulho: “Inimicitias ponam inter te et mulierem … Ipsa conteret caput tuum – Porei inimizade entre ti e a mulher… Ela te esmagará a cabeça” (Gn 3, 15). Por isso, Satanás se vê constrangido a prostrar-se aos pés da Virgem Maria.
O espírito maligno, para vingar a sua derrota, volta toda a sua fúria contra nós, devotos da Mãe de Deus. A Santíssima Virgem, porém, não permite que este espírito do mal nos cause o menor dano.
Maria foi simbolizada na coluna, ora de nuvem, ora de fogo, que guiava o povo de Israel para a Terra prometida (cf. Ex 13, 21). A coluna representava os dois ofícios que a Virgem Santíssima exercita continuamente em nosso favor. Como nuvem, ela nos protege do ímpeto da justiça divina e, como fogo, nos defende dos demônios. Assim como os homens caem por terra quando um raio do céu parece cair sobre eles, da mesma forma, os espíritos do mal caem abatidos somente ao ouvir o nome de Maria.
Pela mesma razão, a Virgem Santíssima é chamada pelo divino Esposo de terrível contra o poder do inferno, como um exército bem-ordenado: “Terribilis ut castrorum acies ordinata” (Ct 6, 4). Ela sabe ordenar bem o seu poder, a sua misericórdia e as suas súplicas para confusão dos inimigos e benefício dos seus devotos e servos, que nas tentações invocam o seu poderosíssimo socorro.
O auxílio de Nossa Senhora nas tentações
Conforme uma revelação divina a Santa Brígida, o orgulhoso Lúcifer antes quer que se multipliquem as suas penas no Inferno do que ver-se dominado pelo poder de uma Mulher. Felizes seremos nós se, nas nossas lutas contra o Inferno, recorrermos sempre a Maria Santíssima e invocarmos o seu belo e santo nome.
Habituemo-nos à bela prática de invocar sempre os nomes santíssimos de Jesus e Maria em todas as nossas necessidades, nos perigos de ofender a Deus, especialmente nas tentações contra a pureza. Entre todos os favores que possamos prestar a Santíssima Virgem, nenhum agrada mais a nossa Mãe do que recorrermos frequente e insistentemente à sua intercessão e colocarmo-nos debaixo da sua poderosa proteção:
“Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genetrix. Nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta. Amen.
À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó virgem gloriosa e bendita. Amém”
Oração de Santo Afonso a Maria Santíssima nas tentações
“Eis aqui a vossos pés, ó Maria, minha esperança, este pobre pecador, que tantas vezes por sua culpa se fez escravo do inferno. Reconheço que me deixei vencer pelos demônios, porque não recorri a vós, meu refúgio. Se eu tivesse recorrido sempre a vós, e vos tivesse invocado, nunca teria caído. Espero, Senhora minha amabilíssima, que por vosso intermédio já estou livre das mãos do demônio e que Deus me perdoou. Mas temo que no futuro venha a cair de novo no cativeiro do inferno. Sei que meus inimigos ainda não perderam a esperança de me tornar a vencer. Já me preparam nossos assaltos e novas tentações. Ah! Minha Rainha e meu refúgio, ajudai-me metei-me debaixo de vosso manto; não permitais que torne a ser escravo dos demônios.
Sei que vós me ajudareis e me fareis vitorioso, sempre que eu vos invocar. É este, porém, o meu receio, receio de que nas tentações eu me esqueça de chamar por vós. Eis, portanto, a graça que vos peço e de vós espero, oh Virgem Santíssima, que eu me lembre sempre de vós, especialmente quanto estiver em luta com o demônio. Fazei com que então não deixe de vos invocar frequentemente, dizendo: Maria, ajudai-me, ajudai-me, Maria! – E quando chegar finalmente o dia da minha última contenda com o inferno, na hora da minha morte, ah, Senhora e Rainha, assisti-me então muito mais e lembrai-me de vos invocar então com mais frequência, com os lábios ou com o coração, afim de que, com o vosso dulcíssimo nome e com o de vosso Filho Jesus na boca, possa ir bendizer-vos e louvar-vos, para nunca mais me apartar dos vossos pés por toda a eternidade, lá no paraíso.”

Referências:

[1]  Sub tuum praesidium é a oração mariana mais antiga de que se tem conhecimento, composta provavelmente no II século da era cristã.
[2]  SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Meditações para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II, p. 90-91.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O que quer dizer cada petição do Pai-Nosso?








Entenda cada uma das 7 petições da oração que Jesus nos ensinou

A oração mais excelente é o Pai-Nosso; porque nos foi ensinado pelo próprio Jesus Cristo. No Pai-Nosso há sete petições e é a oração cristã fundamental e mais perfeita.
Quando for rezar o Pai-Nosso, esteja atento ao que diz e ao que pede, para que sua oração seja mais autêntica.
As Petições do Pai-Nosso
Lendo os Evangelhos, encontramos duas versões da Oração do Pai-Nosso:
Uma mais longa em Mateus, com sete pedidos(6,7-15); e outra no Evangelho de Lucas, mais curta, com cinco pedidos(11,2-4).
A Oração do Pai-Nosso do texto de hoje, consta de sete pedidos:
1 – Na primeira petição: santificado seja o vosso nome, pedimos que Deus seja conhecido, amado, honrado e servido por todos os homens, e por nós em particular.
2 – Na segunda petição: Por venha a nós o vosso Reino entendemos um tríplice reino espiritual, a saber: o reino de Deus em nós, ou o reino da graça; o reino de Deus na terra, isto é, a Santa Igreja Católica; e o reino de Deus nos céus, ou o Paraíso.
3 – Na terceira petição: seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu, pedimos a graça de fazer em todas as coisas a vontade de Deus, obedecendo aos seus santos Mandamentos tão prontamente como os Anjos e os Santos Lhe obedecem no Céu. Pedimos, além disso, a graça de corresponder às inspirações divinas e de viver resignados à Vontade de Deus, quando Ele nos manda tribulações.
4 – Na quarta petição: o pão nosso de cada dia nos dai hoje, pedimos a Deus o que nos é necessário cada dia para a alma (pedimos a Deus o sustento da vida espiritual, isto é, pedimos ao Senhor que nos dê a sua graça, da qual a todo o instante temos necessidade) e para o corpo (pedimos o que é necessário para o sustento da vida temporal).
5 – Na quinta petição: perdoai-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores, pedimos a Deus que nos perdoe os nossos pecados, como nós perdoamos aos que nos ofendem.
6 – Na sexta petição: e não nos deixeis cair em tentação, pedimos a Deus que nos livre das tentações, ou não permitindo que sejamos serrados, ou dando-nos graças para não sermos vencidos.
7 – Na sétima petição: mas livrai-nos do mal, pedimos a Deus que nos livre dos males passados, presentes, futuros, e especialmente do sumo mal, que é o pecado, da condenação eterna, que é o seu castigo.
Amém quer dizer: assim seja, assim desejo, assim peço ao Senhor e assim espero.
Para se alcançarem as graças pedidas no Pai-Nosso, é necessário rezá-lo sem precipitação, com atenção e acompanhá-lo com o coração.
Devemos rezar o Pai-Nosso todos os dias, porque todos os dias temos necessidade do auxílio de Deus.

Catecismo Maior de São Pio X 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Como deveria ser a fila dos católicos que se dirigem ao altar para comungar



Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem.

"Cada alma é um tabernáculo vivo. Tabernáculos puros, brancos, sem mancha, que se dirigem à Sagrada Mesa para receber o Santíssimo Sacramento"

ASagrada Comunhão é tão sublime que, para recebê-la, precisamos do máximo de pureza de alma possível para a nossa natureza de pecadores.
O seguinte texto, do bispo e grande escritor católico húngaro Dom Tihamér Tóth, descreve como é (ou deveria ser) a fila dos católicos que se dirigem até o altar para receber o Sacratíssimo Corpo de nosso Senhor Jesus Cristo:
“Depois da comunhão do celebrante, ouve-se um leve ruído entre os fiéis…
Uma linda procissão encaminha-se para a mesa da comunhão. É uma procissão emocionante. Pequenos e grandes, homens e mulheres, pobres e ricos, instruídos e analfabetos, todos… todos vão… vão para o altar… com a cabeça inclinada, com passos comedidos.
Cada alma é um tabernáculo vivo. Tabernáculos puros, brancos, sem mancha, tabernáculos que se dirigem à Sagrada Mesa para receber o Santíssimo Sacramento.
Ajoelham-se e erguem o rosto para o sacerdote, que passa distribuindo a comunhão. Que rostos! Que olhares! Olhos brilhantes, olhar transfigurado, expressão de profundo regozijo que dificilmente se vê em outra parte.
Assim resplandecia o rosto dos Apóstolos no Tabor. Parecem-se às flores que abrem o seu cálice para receber o primeiro raio de sol matinal. Assemelham-se ao cume das altas montanhas, quando parecem abrasadas pelos raios do sol poente. Parecem-se… mas para que buscar novas comparações?… São como o homem que encontrou o seu Deus! O rosto divino resplandece, brilha nos rostos humanos”
Dom Tihamér Tóth
Conforme citado em “Tesouro de Exemplos”, do pe. Francisco Alves, C. SS. R., Vozes, 1958.


Como um Católico se deve comportar dentro de uma Igreja

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Da Regra de São Bento para todo cristão: os instrumentos das boas obras










O Capítulo 4 da milenar regra-base de toda a vida monástica cristã ocidental se aplica quase totalmente também a nós, leigos, no dia-a-dia!

ARegra de São Bento, escrita por São Bento de Núrsia no século VI, é um conjunto de preceitos que regulam a vivência de uma comunidade monástica cristã, regida por um abade. A partir do século VIII, começou a ser amplamente adotada nos mosteiros de toda a Europa, inclusive pelas comunidades femininas. Desde então, essa regra tem sido parâmetro para praticamente todas as comunidades monásticas cristãs ocidentais.
O espírito da Regra de São Bento é sintetizado no lema da Ordem, “Pax”(paz), e na célebre súmula “Ora et labora” (reza e trabalha), mas sua riqueza é esmiuçada em princípios e critérios esclarecedores e inspiradores, derivados dos Mandamentos da Lei de Deus e da proposta de Jesus nos Evangelhos.
Naturalmente, vários desses preceitos se aplicam especificamente aos monges, mas a maioria deles são pura e simples vida cristã e se esperam de todo e cada um que, seja qual for seu estado de vida, se declare seguidor de Jesus Cristo.
Alguns deles são elencados no Capítulo 4 da Regra, que reproduzimos abaixo a partir da tradução fornecida pelos próprios beneditinos em seu site oficial para o Brasil:

CAPÍTULO 4 – Quais são os instrumentos das boas obras

Primeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças.
Depois, amar ao próximo como a si mesmo.
Em seguida, não matar.
Não cometer adultério.
Não furtar.
Não cobiçar.
Não levantar falso testemunho.
Honrar todos os homens.
E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito.
Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo.
Castigar o corpo.
Não abraçar as delícias.
Amar o jejum.
Reconfortar os pobres.
Vestir os nus.
Visitar os enfermos.
Sepultar os mortos.
Socorrer na tribulação.
Consolar o que sofre.
Fazer-se alheio às coisas do mundo.
Nada antepor ao amor de Cristo.
Não satisfazer a ira.
Não reservar tempo para a cólera.
Não conservar a falsidade no coração.
Não conceder paz simulada.
Não se afastar da caridade.
Não jurar para não vir a perjurar.
Proferir a verdade de coração e de boca.
Não retribuir o mal com o mal.
Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas.
Amar os inimigos.
Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los.
Suportar perseguição pela justiça.
Não ser soberbo.
Não ser dado ao vinho.
Não ser guloso.
Não ser apegado ao sono.
Não ser preguiçoso.
Não ser murmurador.
Não ser detrator.
Colocar toda a esperança em Deus.
O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo.
Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo.
Temer o dia do juízo.
Ter pavor do inferno.
Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual.
Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo.
Vigiar a toda hora os atos de sua vida.
Saber como certo que Deus o vê em todo lugar.
Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um conselheiro espiritual.
Guardar sua boca da palavra má ou perversa.
Não gostar de falar muito.
Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso.
Não gostar do riso excessivo ou ruidoso.
Ouvir de boa vontade as santas leituras.
Dar-se frequentemente à oração.
Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e daí por diante emendar-se delas.
Não satisfazer os desejos da carne.
Odiar a própria vontade.
Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito do Senhor: “Fazei o que dizem, mas não o que fazem”.
Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais fundamento.
Pôr em prática diariamente os preceitos de Deus.
Amar a castidade.
Não odiar a ninguém.
Não ter ciúmes.
Não exercer a inveja.
Não amar a rixa.
Fugir da vanglória.
Venerar os mais velhos.
Amar os mais moços.
Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos.
Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença.
E nunca desesperar da misericórdia de Deus.
Eis aí os instrumentos da arte espiritual: se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: “O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam”. São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Possuído por 15 mil demônios, libertado pelo Santo Rosário






A cada Ave-Maria que São Domingos e o povo rezavam, um grande número de demônios saía do corpo do possesso, em forma de brasas acesas.
Quando São Domingos estava pregando o Rosário perto de Carcassona, trouxeram à sua presença um albigense possesso pelo demônio. São Domingos o exorcizou na presença de uma grande multidão de pessoas; parece que mais de doze mil pessoas tinham vindo ouvi-lo pregar. Os demônios que possuíam este infeliz foram obrigados a responder às perguntas de São Domingos, com muito constrangimento.
Primeiro eles disseram que havia quinze mil deles no corpo deste pobre homem, porque ele atacou os quinze mistérios do Rosário. Continuaram a testemunhar que, quando São Domingos pregava o Rosário, ele impunha medo e horror nas profundezas do inferno; e que ele era o homem que eles mais odiavam em todo o mundo, por causa das almas que arrancou dos demônios através da devoção ao Santo Rosário. Eles depois revelaram várias outras coisas.
São Domingos colocou seu Rosário em volta do pescoço do albigense e pediu que os demônios lhe dissessem quem, de todos os santos nos céus, eles mais temiam, e quem deveria ser, portanto, mais amado e reverenciado pelos homens. Neste momento, eles soltaram um gemido inexprimível, com o qual a maioria das pessoas caiu por terra, desmaiando de medo.
Então, usando de esperteza, a fim de não responder, os demônios começaram a chorar e prantear de uma maneira tão deprimente que muitos da multidão começaram a chorar também, movidos por compaixão natural. Os demônios falaram através da boca do albigense, com uma voz dolorida:
— Domingos! Domingos! Tem piedade de nós, nós prometemos que nunca te machucaremos. Tu sempre tiveste compaixão dos pecadores e daqueles que estão na miséria; tem piedade de nós, pois estamos padecendo. Já estamos sofrendo tanto, por que te comprazes em aumentar as nossas penas? Não te dás por satisfeito com o nosso sofrimento? Tens de aumentá-lo? Tem piedade de nós! Tem piedade de nós!

São Domingos, Escola Veneziana, século XVIII
São Domingos não se mostrou nem um pouco movido de compaixão por estes espíritos, e disse-lhes que não os deixaria a sós até que respondessem à pergunta que lhes havia feito. Eles disseram, então, que lhe sussurrariam a resposta de tal forma que apenas São Domingos seria capaz de ouvi-los. Ele retorquiu que eles deveriam responder claramente e em alta voz.
Então os demônios se mantiveram quietos e se negaram a dizer uma só palavra, desconsiderando completamente as ordens de São Domingos. Este, então, ajoelhou-se e rezou a Nossa Senhora:
— Ó, toda poderosa e maravilhosa Virgem Maria, eu vos imploro: pelo poder do Santíssimo Rosário, ordene a estes inimigos da raça humana que me respondam.
Mal acabara de orar, uma chama ardente foi vista saindo dos ouvidos, das narinas e da boca do albigense. Todos tremeram de medo, mas o fogo não machucou ninguém. Então os demônios disseram:
— Domingos, nós te imploramos, pela paixão de Jesus Cristo e pelos méritos de sua santa Mãe e de todos os santos, deixa-nos sair deste corpo sem que falemos mais, pois os anjos responderão a tua pergunta a qualquer momento. E, além do mais, não somos nós mentirosos? Por que haveríeis de nos dar crédito? Não nos tortures mais, tem piedade de nós.
— Pior para vocês, espíritos desgraçados e indignos de serem ouvidos — respondeu o santo servo de Deus aos demônios.
Ajoelhando-se diante de Nossa Senhora, então, São Domingos assim rezou:
— Ó, digníssima Mãe da Sabedoria, oro pelas pessoas aqui reunidas, que já haviam aprendido como rezar devotamente a Saudação Angélica (i.e., a Ave-Maria). Por favor, eu vos imploro, forçai vossos inimigos a proclamar a verdade completa e nada mais que a verdade sobre isto, aqui e agora, diante desta multidão.
São Domingos mal havia concluído esta oração quando viu a Santíssima Virgem perto de si, rodeada por uma multidão de anjos. Ela bateu no homem possesso com um cajado de ouro que segurava e disse:
— Responde ao meu servo Domingos imediatamente. (Lembre-se o leitor que as pessoas não viram nem ouviram Nossa Senhora, mas somente São Domingos.)
Então os demônios começaram a gritar:
Ó, vós, que sois nossa inimiga, nossa ruína e nossa destruição, por que descestes do Céu para nos torturar tão cruelmente? Ó, advogada dos pecadores, vós que os tirais das presas do inferno, vós que sois o caminho certeiro para os céus, devemos nós, para nosso próprio pesar, dizer toda a verdade e confessar diante de todos quem é a causa de nossa vergonha e de nossa ruína? Ó, pobre de nós, príncipes da escuridão!
Ouvi bem, pois, vós, cristãos: a Mãe de Jesus Cristo é todo-poderosa junto de Deus e capaz de salvar seus servos do inferno. Ela é o sol que destrói a escuridão de nossa astúcia e sutileza. É ela que descobre nossos planos ocultos, quebra nossas armadilhas e torna nossas tentações inúteis e sem efeito.
Mesmo relutando, confessamos que nem sequer uma alma que realmente perseverou no seu serviço foi condenada conosco; um simples suspiro que ela oferece à Santíssima Trindade é mais precioso que todas as orações, desejos e aspirações de todos os santos.
Nós a tememos mais que todos os santos nos céus juntos e não temos nenhum sucesso com seus servos fiéis. Muitos cristãos que a invocam na hora da morte e que seriam condenados, de acordo com nossos padrões ordinários, são salvos por sua intercessão.
Ó, se pelo menos essa Maria (era assim que eles a chamavam na sua fúria) não tivesse se oposto aos nossos desígnios e esforços, teríamos conquistado a Igreja e a teríamos destruído há muito tempo atrás; teríamos feito todas as Ordens da Igreja caírem no erro e na desordem.
Agora, que somos obrigados a falar, também vos diremos isto: ninguém que persevera na oração do Rosário será condenado, porque a Mãe de Jesus Cristo obtém para seus servos a graça da verdadeira contrição de seus pecados e, por meio desse instrumento, eles obtêm o perdão e a misericórdia de Deus.
São Domingos fez, então, com que todos rezassem o Rosário bem devagar e com grande devoção. Enquanto isso, algo maravilhoso acontecia: a cada Ave-Maria que ele e o povo rezavam, um grande número de demônios saía do corpo do infeliz, em forma de brasas acesas.
Quando os demônios foram todos expulsos e o herege se viu inteiramente livre deles, Nossa Senhora (que permanecia invisível) deu sua bênção ao povo reunido, e eles se encheram de alegria por isso.
Muitos hereges se converteram por causa deste milagre e ingressaram na Confraria do Santíssimo Rosário.
Referências
  • Extraído e adaptado do livro de S. Luís M.ª Grignion de Montfort, “O Segredo do Rosário”, trad. de Geraldo Pinto Faria Jr., edição em .pdf, pp. 59-61.




segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

DO QUE NECESSITA UM JOVEM PARA SER VIRTUOSO?


Conhecimento de Deus
Observai, queridos filhos, tudo o que existe no Céu e na terra.O sol, a lua, as estrelas, o ar, a água, o fogo; tempo houve em que todas estas coisas não existiam.Nenhuma coisa pode jamais dar a existência a si mesma.Deus com a sua onipotência, as tirou todas do nada, criando-as; é por isso que Ele se chama Criador.
Este Deus, que sempre existiu e sempre há de existir, depois de ter criado todas as coisas contidas no Céu e na terra, criou também o homem, que é a mais perfeita de todas as criaturas visíveis.Por isso, os nossos olhos, a boca, a língua, os ouvidos, as mãos, os pés, são todos dons do Senhor.
O homem distingue-se de todos os outros animais, principalmente por ter uma alma que pensa, raciocina, quer e conhece o que bem e o que é mal.Esta alma, por ser um puro espírito, não pode morrer com o corpo; mas, quando este for levado a sepultura, irá ela começar outra vida, que mais há de acabar.Se praticou o bem, será sempre feliz com Deus no Paraíso, onde gozará de todos os bens eternamente; se fez o mal, será punida com um terrível castigo, no inferno, onde padecerá para sempre o fogo e toda a sorte de tormentos.
Considerai contudo, meus filhos que nós fomos criados todos para o Paraíso e Deus, que é Pai bondoso, condena ao inferno somente quem o merecer pelos seus pecados.Óh! quanto o Senhor nos ama e quanto deseja que façamos boas obras para assim poder-nos tornar participante daquela grande felicidade, que tem reservada para todos eternamente no Céu!
Deus tem particular amor à juventude
Persuadidos que estamos, caros jovens, de que fomos todos criados para o Céu, devemos dirigir todas as nossas ações para alcançar este grande fim.A isto nos há de mover o prêmio que Deus nos promete, o castigo com que nos ameaça.Mas o que mais que tudo nos deve levar a amá-Lo e a servi-Lo, há de ser o grande amor que nos têm.Pois que, embora Ele ame a todos os homens, como obra de suas mãos, consagra todavia um afeto todo particular aos meninos e acha as suas delícias em permanecer no meio deles: Deliciae meac esse cum filiis hóminum.Deus vos ama, porque de vós espera muitas boas obras; ama-vos porque estais numa idade simples, humilde, inocente e, por via de regra, não vos tornaste ainda vítima do inimigo infernal.
Há ainda outras provas não menores da especial benevolência que vos tem o Divino Redentor.Ele assegura que considera como feitos a si mesmo todos os benefícios que vos fizerem a vós e ameaça de maneira terrível os que vos escandalizam.
Eis as suas palavras: “Se alguém escandalizar a um destes pequeninos que crêem em Mim, melhor lhe fora que lhe atassem ao pescoço uma mó de moinho e que o lançassem ao fundo do mar”.Gostava muito que os meninos O seguisse, chamava-os para perto de Si, abraçava-os, e lhes dava a sua santa benção. “Deixai, dizia, deixai que os meninos venham a mim: Sínite párvulos veníre ad me”; dando assim evidentemente a conhecer que vós, ó jovens, sois as delícias do seu coração.
Visto que o Senhor vos ama tanto, deve ser vosso firme propósito corresponder-Lhe, fazendo tudo o que lhe agrada e evitando tudo o que o poderia desgostar.
A salvação da alma depende geralmente do tempo da juventude
Dois são os lugares que nos estão reservados na outra vida: para os maus, o inferno, onde se sofre todos os tormentos; para os bons, o Paraíso, onde se goza todos os bens.Mas o Senhor vos diz claramente que se vós começardes a ser bons no tempo da juventude, sereis igualmente no resto da vida, a qual será coroada com uma eternidade de glória.Pelo contrário, se começardes a viver mal no tempo da juventude, muito facilmente continuareis assim até a morte, e isto vos conduzirá inevitavelmente ao inferno.
Por isso, quando virdes homens de idade avançada entregues ao vício da embriaguez, do jogo, da blasfêmia, podereis quase sempre dizer que tais vícios começaram na juventude: Adoléscens juxta viam suam, etiam cum senúerit, non recédet ab ea.Ah! filhos querido, diz Deus, recorda-te do teu criador no tempo de tua juventude.Em outro lugar declara feliz o homem que desde a sua adolescência tenha levado o jugo dos mandamentos: Bonum est viro, cum poratáverit jugum ab adolescéntia sua.
Esta verdade foi bem conhecida pelos santos, especialmente por santa Rosa de Lima e por são Luis Gonzaga, os quais, tendo começado a servir fervorosamente a Nosso Senhor desde a mais tenra idade, quando adultos só achavam gosto nas coisas de Deus e assim se tornaram grandes santos.O mesmo se diga do filho de Tobias que, desde o início de sua juventude, foi sempre obediente e submisso aos seus pais:Este morreram e ele continuou a viver virtuosamente até a morte.
Mas dirão alguns: se começamos agora a servir a Deus, tornaremos tristonhos.Respondo-vos que isso não é verdade.Andarás triste quem serve ao demônio, pois que, por mais que se esforce para estar alegre, terá sempre o coração a lhe segredar entre lágrimas: És infeliz, porque és inimigo do teu Deus.Quem mais afável e jovial que São Luis Gonzaga?Quem mais alegre e gracioso do que São Felipe Néri e São Vicente de Paulo?E contudo, a vida deles foi um contínuo exercício de todas as virtudes.
Animo pois, meus caros filhos; dedicai-vos em tempo á virtude e eu vos garanto que tereis sempre o coração alegre e contente e experimentareis quanto é doce e agradável o serviço do Senhor.
A Primeira Virtude de um jovem é a obediência aos seus pais e superiores
Assim como uma plantinha, embora colocada em bom terreno, num jardim, contudo toma forma defeituosa e vai definhando se não for cultivada e, de algum modo, guiada até certa altura, assim vós, meus caros filhos, vos inclinareis fatalmente para o mal, se não vos deixardes guiar por quem está encarregado da vossa educação e do bem da vossa alma.Essa guia vós atendes nos vossos pais e nos que fazem suas vezes; a eles deveis obedecer com docilidade. “Honra teu pai e tua mãe e terás vida longa na terra”, diz o Senhor.
Mas em que consiste essa honra?consiste em obedecer-lhes, respeitá-los e prestar-lhes assistência.Obedecer-lhes e por isso, quando vos mandão alguma coisa, fazei-a prontamente, sem resistir, e guardai-vos de proceder como alguns que resmungam, escolher os ombros, sacodem a cabeça e, o que é pior, respondem mal.Esses fazem grande injúria aos seus pais e também a Deus, pois que nas ordens dos pais se manifesta a vontade de Deus.Nosso Salvador, apesar de ser onipotente, para ensinar-nos a obedecer, foi submisso em tudo a Santíssima Virgem e a São José, na humilde ocupação de artífice: Et erat súbditus illis.Para obedecer a seu Pai celeste ofereceu-Se á morte dolorosíssima da cruz: Factus obédiens usque ad mortem; mortem autem crucis.
Deveis também ter grande respeito a vosso pai e a vossa mãe e não empreender coisa nenhuma sem sua licença, nem dar a conhecer seus defeitos.São Luis Gonzaga não fazia coisa nenhuma sem licença e, na falta de outrem, a pedia aos mesmos criados.O jovem Luis Comolo foi obrigado um dia a estar longe de seus pais por mais tempo do que lhes tinham permitido.Mas ao chegar em casa, todo choroso pediu logo humildemente perdão daquela desobediência involuntária.
Finalmente, deveis prestar aos pais assistência em suas necessidades com o serviços domésticos de que fordes capazes especialmente entregando-lhes todo o dinheiro ou qualquer coisa que vos venha as mãos, usando de tudo conforme suas indicações.É também estrito dever de um jovem rezar de manhã e à noite pelos seus pais, para que Deus lhes conceda todos os bens espirituais temporais.
Tudo o que vos disse a cerca da obediência e do respeito aos pais, deveis também praticar em relação a qualquer outro superior, eclesiástico ou secular, e por isso também em relação aos vossos professores, dos quais igualmente recebereis de boa vontade, com humildade e respeito os ensinamentos, os conselhos as correções, certos de que tudo o que eles fazem é para a vossa maior vantagem e que a obediência prestada aos superiores é como se fora prestada ao mesmo Jesus Cristo e a Nossa Senhora.
Duas coisas vos recomendo com maior empenho.A primeira é que sejais sinceros com os superiores, não encobrindo nunca as vossas faltas com fingimentos, muito menos negando-as.Dizei sempre a verdade com franqueza.As mentiras, além de ofenderem a Deus, vos tornam filhos do demônio, que é o príncipe da mentira, e, vindo-se depois a saber a verdade, passareis por mentirosos, com grande desdouro perante os superiores e os companheiros.Em segundo lugar, vos recomendo que aceiteis os conselhos e as advertências dos superiores como norma de vossa vida e do vosso modo de agir.Felizes vós, se assim fizerdes; os vossos dias serão venturosos, todas as vossas ações serão bem ordenadas e servirão de edificação aos outros.Por isso, concluo dizendo-vos: O menino obediente tornar-se-á santo; pelo contrário, o desobediente segue um caminho que o levará a perdição.
Do respeito que devemos ter ás igrejas e aos ministros sagrados
A obediência e ao respeito aos superiores deve andar unido o respeito ás igrejas e a todas as coisas da religião.Somos cristãos; por isso devemos venerar tudo o que se relaciona com este estado de cristãos e especialmente a igreja, que é chamada templo de Deus, lugar de santidade, casa de oração.Tudo o que pedirmos a Deus na igreja, alcançaremos: Omnis enim qui petit áccipit.Ah! meus caros filhos, quanto sois agradáveis a Jesus Cristo e que belo exemplo dais aos outros, estando na igreja com devoção e recolhimento! Quando São Luis ia à igreja, corria a gente para vê-lo e todos ficavam edificados pela sua modéstia e pelo seu porte.Quando entrardes em uma igreja, evitai correr e fazer ruído; mas, tomando água benta e depois de fazer a devida reverência ao altar, ide ao lugar que vos está marcado e ajoelhando adorai a Santíssima Trindade, rezando três glórias ao Pai.
Se ainda não for hora de começarem as funções religiosas, podeis rezar as setes alegrias de Nossa Senhora ou fazer algum outro exercício de piedade.Evitai com o maior cuidado ri na igreja ou falar sem necessidade.É suficiente uma palavra ou um sorriso para dar mau exemplo e incomodar os que assistem ás sagradas funções.Santo Estanislau  kostka estava na igreja com tanta devoção, que muitas vezes não ouvia quem o chamava, nem percebia os empuxes com os quais os seus criados o advertiam que já era tempo de voltar para casa.
Recomendo-vos sumo respeito aos sacerdotes e aos religiosos.Por isso recebei com veneração os avisos que vos derem; tirai o chapéu em sinal de respeito, quando falais com eles ou quando os encontrardes na rua.Deus vos livre de que chegueis a desprezá-los com atos ou com palavras.Tendo alguns menino escarnecido do profeta Eliseu dando-lhe apelidos, o Senhor os castigou fazendo sair de uma floresta dois ursos, que, atirando-se a eles, mataram quarenta e dois.Quem não respeita os ministros sagrados deve recear um grande castigo de Nosso Senhor.Sempre que se falar deles, imitai o jovem Luis Comolo, o qual costumava dizer: Dos ministros sagrados ou falar bem ou calar absolutamente.
Por último, quero adverti-los que não deveis envergonhar-vos de ser cristãos também fora da igreja!Por isso, quando passardes de ante das igrejas ou de alguma imagem de Maria ou dos outros Santos, não deixeis de tirar o chapéu em sinal de veneração.Desta arte mostrar-vos-eis verdadeiros cristãos e Deus vos encherá de bênçãos por causa do bom exemplo que dais ao próximo.
Leitura espiritual da palavra de Deus
Além das costumadas orações de manhã e da noite, peço-vos que destineis também um pouco de tempo á leitura de algum livro, que trate de coisas espirituais, como o livro da Imitação de Cristo, A Filotéia de São Francisco de Sales, A preparação para a Morte de Santo Afonso Maria de Ligório, Jesus ao coração do Jovem, as vidas dos santos e outros semelhantes.Da leitura de tais livros tirareis grandes vantagens para a vossa alma.E se repetirdes aos outros o que lerdes ou então se lerdes em presença deles, especialmente dos que não souberem ler, fareis uma obra de caridade muito meritória perante Deus.
Mas ao mesmo tempo que vos inculco as boas leituras, tenho que recomendar-vos, com todas as veras de minha alma, que fujais como da peste dos maus livros e da má imprensa.Por isso, todo livro, todo jornal ou folheto em que se fale mal da religião e de seus ministros ou em que haja coisas imorais e desonestas, lançai-os logo para longe de vós, como farias com um copo de veneno.Em tais casos deveis imitar os cristãos de Éfeso, quando ouviram São Paulo pregar sobre o dano que causaram os maus livros.Aqueles fervorosos fiéis carregaram-nos as braçadas para a praça pública e com eles fizeram uma fogueira, achando melhor queimar todos os livros do mundo do que expor a alma ao perigo de cair no fogo inextinguível do inferno.
Assim como o nosso corpo sem alimento adoece e morre, da mesma forma a nossa alma definha, se não lhe dermos o seu alimento: o alimento da alma é a palavra de Deus, isto é, as práticas, a explicação do Evangelho e o Catecismo.Fazei pois toda diligência em estardes em tempo na igreja, e portai-vos nela com a maior atenção aplicando a vós mesmos as coisas que se relacionam com vosso estado.Recomendo-vos também muito que freqüenteis o catecismo.Não digais: Já o estudei, já fiz a primeira comunhão; pois que também nesse caso a vossa alma precisa de alimento, como vosso corpo.E se a privais deste sustento, vos poreis em gravíssimo perigo espiritual.Tomai também cuidado para não cairdes naquele ardil do demônio, quando o sugere esse pensamento: Isto convém muito ao meu companheiro Pedro; isto serve para Paulo.Não meus caros; o pregador fala a todos e a sua intenção é aplicar a todos as verdades que está explicando.Por outro lado, lembrai-vos que o que não serve para corrigir-vos de coisas passadas, pode servir para preservar-vos de algum pecado no futuro.
Ao ouvirdes algum, procurai recordá-lo e durante o dia e especialmente à noite antes de deitar-vos recolhei-vos um pouco para refletir sobre o que ouviste.Se assim fizerdes tirareis grande vantagem para a vossa alma.
Recomendo-vos também que façais todo o possível esses vossos deveres religiosos nas vossas paróquias, sendo o vosso pároco especialmente destinado por Deus para cuidar de vossas almas.
O Jovem Instruído – São João Bosco

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

FÁTIMA E O DEVER DE ESTADO



Na aparição de 13 de setembro, Nossa Senhora de Fátima pediu aos três pastorinhos para não usar a corda à noite. Para converter os pobres pecadores, eles tinham decidido oferecer o sacrifício de trazer uma corda amarrada sobre os rins dia e noite, mas Nossa Senhora lhes lembrou que a noite foi feita para descansar.
“O dever antes de qualquer outra coisa”, por mais santa que seja”, dizia o Pe. Pio.
O dever de estado é um grande meio de santificação. Irmã Lúcia escreveu numa carta de 1943 o que Nosso Senhor lhe revelou sobre o assunto:
Esta é a penitência que o bom Deus agora pede: o sacrifício de cada um para impor a si mesmo uma vida de justiça na observância da Sua lei.Ele deseja que se faça conhecer com clareza este caminho às almas; pois muitas, julgando que o sentido da palavra ‘penitência’ restringe-se às grandes austeridades, por não sentirem forças nem generosidade para elas, desanimam e descansam numa vida de tibieza e pecado.
“[…] estando na capela, com licença de meus superiores, às 12 da noite, me dizia Nosso Senhor: ‘O sacrifício que o cumprimento do seu próprio dever e a observância da minha lei exige de cada um, é a penitência que agora peço e exijo.”
À fidelidade à vontade de Deus — significada pelos seus Mandamentos e pelo nosso dever de estado — somemos a conformidade àquilo que Deus deseja para nós, segundo as palavras do Anjo de Fátima aos pastorinhos: “Aceitai e suportai, com submissão, o sofrimento que o Senhor vos enviar”.
“O mais difícil não é o ímpeto do fervor das vigílias noturnas, das procissões de pés descalços sobre o solo pedregoso ou ardente, se isso não passa de um episódio passageiro. O mais difícil é a fidelidade constante aos deveres de católico mesmo quando são incômodos,às práticas piedosas, aos sacrifícios mais pequenos da vida quotidiana, com espírito de reparação, humildade e  amor” (Discurso do Papa Pio XII, 22/11/1946). O que não exclui, evidentemente, se inscrever numa peregrinação, assistir à Missa nos dias de semana ou fazer um retiro, mas com a finalidade, precisamente, de ser mais fiel ainda a seus deveres.
primeira obrigação de nosso dever de estado nos é lembrada por São Francisco de Sales:
“Os meios de chegar à perfeição são diversos, segundo a diversidade de vocações; pois os religiosos, as viúvas e os casados devem procurar a perfeição, mas não do mesmo jeito”.
“Cada um, de bom grado, trocaria sua condição com a dos outros: os Bispos gostariam de não ser Bispos; os casados gostariam de não o serem (prefeririam ser bispos?); e quem não é isso ou aquilo, gostaria de sê-lo”.
“Que cada um permaneça na sua vocação perante Deus. Não se deve levar a cruz dos outros, mas a própria”.
“Cada um ama o que lhe apraz: poucos amam o que é do seu dever e da vontade de Deus. De que serve construir castelos na Espanha, se temos de viver na França?”.
Fiquemos todos no nosso lugar, no nosso pequeno espaço. Deus não recompensará os franco-atiradores ou os elétrons livres, mas os bons servidores, aqueles que se mantiverem fiéis ao seu posto.
segunda obrigação de nosso dever de estado é pôr o heroísmo lá onde deve ser posto: não na nossa inteligência, nem mesmo na vontade, muito menos na imaginação, mas nos atos concretos. “Ao êxtase, eu prefiro a monotonia do sacrifício”, afirmava Santa Teresinha. O dever de estado não tolera faltas reiteradas da parte de quem o assume. Acontece até mesmo que, como escreveu o Fabulista, “um elo rompido ponha toda a obra a perder”.
Pio XI evocava o heroísmo do quotidiano: Ele é fixo, imóvel, impassível. Une-se ao nosso ser a cada dia, debilitando-o se violado, fortificando-o se observado. O cumprimento do dever de estado é sempre acompanhado de contentamento. Não há satisfação maior que ter preenchido a jornada com os diferentes deveres de estado. Para dar apenas um exemplo, que satisfação para os pais verem seus filhos crescerem e se tornarem homens de verdade… É para o católico uma condição necessária de santificação. A fidelidade às obrigações que o cumprimento do dever de estado comporta é o meio de caminhar até a santidade efetiva. Um santo bispo, aprisionado por treze anos no gulag vietnamita, escreveu: “Não há santos fora do cumprimento do dever de estado. A ordenação de uma vida virtuosa e santa nada mais é que a feliz solução trazida ao problema da coexistência de múltiplos e irredutíveis deveres de estado.”
Por esses deveres entendem-se “as obrigações particulares que cada um tem por força de seu estado, de sua condição, da situação que ocupa”. (Catecismo maior de São Pio X, título III, capítulo V).
Não poderíamos nos subtrair das obrigações profissionais, familiares ou civis inerentes a cada estado de vida: para o estudante é preciso estudar; para os pais, educar; para o artesão, fabricar; para o monge, rezar… Nenhum dever de estado pode ser recusado enquanto permanecemos no estado que, precisamente, no-lo impõe. Muito menos podemos recusar um dever de estado sob pretexto de que assim nos engajaríamos melhor em outro, ou por gostarmos mais de outra coisa, ou porque “nos sentimos” investidos de outra missão: tudo não passa de ilusões, miragens, senão covardia.
Por outro lado, alguns utilizam o dever de estado como pretexto para não se engajar em mais nada. É verdade que a família é prioritária, mas não é razão para nos ensimesmarmos no lar. Quando os filhos crescem, os pais têm mais tempo disponível: pode ser este o momento de rever seus compromissos diante do bom Deus e oferecer, por exemplo, sua ajuda ao priorado, inscrever-se na ordem terceira da FSSPX, dedicar-se a uma boa obra etc.
Preparemo-nos pelo heroísmo no “terrível quotidiano” (a expressão é de Pio XI) ao heroísmo que nos será talvez pedido por Deus em circunstâncias extraordinárias.
“As circunstâncias fazem os santos, mas os santos não fazem as circunstâncias” (Dom Prosper Guéranger).
Pe. Bertrand Labouche – FSSPX