segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Catecismo Ilustrado - Parte 55 - A Oração




Catecismo Ilustrado - Parte 55

A Oração

A Oração em geral

1. A oração é uma elevação da nossa alma e do nosso coração a Deus para pedir-Lhe o que é mais conveniente para a nossa salvação eterna.

2. Temos todos obrigação de orar, e por duas razões. A primeira é porque Nosso Senhor o mandou formalmente, dizendo que convinha orar sempre a Deus, e a segunda, são as nossas necessidades contínuas.

3. Há duas espécies de oração: mental e vocal; ou, dito doutro modo, de coração e de boca.

4. A oração mental ou de coração é aquela em que se ora a Deus com a mente e com o coração, sem recorrer a certas palavras de costume.

5. A oração de boca ou vocal é aquela que se faz com palavras.

6. Deus conhece as nossas necessidades, mas quer Ele que Lhe dirigiamos as nossas preces, porque, com impetrar o que pedimos, quer que reconheçamos e exaltemos a sua benignidade para conosco.

7. Pode-se fazer oração em todo o lugar e em todo o tempo, mas devemos orar principalmente de manhã e à noite, nas tentações e tribulações, e na igreja porque é o lugar consagrado a Deus e a casa propriamente da oração; porque ali se celebram os sagrados mistérios; porque o concurso de muitos que oram juntos torna a oração mais eficaz e poderosa.

8. A nossa esperança de que havemos de ser ouvidos na oração funda-se nas promessas de Deus omnipotente, misericordioso e fidelíssimo, e nos merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, e nome do qual, como Ele mesmo nos ensinou e como faz a Igreja, havemos de pedir as graças na oração.

9. Da oração provêm os seguintes frutos: 1º honra-se e louva-se a Deus; 2º aumenta-se a virtude; 3º enfraquecem-se as paixões; 4º aplaca-se a justiça de Deus.
10. A oração não é ouvida por culpa de quem ora, quando quem ora não está na graça de Deus sem vontade de converter-se.

11. A oração não é ouvida por causa do modo como é feita, quando lhe faltam as condições necessárias, cujas principais são: a atenção, humildade, Fé e perseverança.

12. Orar com atenção, quer dizer, que nos devemos aplicar à oração sem nos distrairmos voluntariamente, e orar de coração enquanto rezamos com a boca.

13. Orar com humildade, quer dizer, que nos devemos reputar indignos de alcançar o que pedimos e acompanhar a oração com reverente atitude e posição do corpo.

14. Orar com Fé, quer dizer que Deus pode e quer ouvir-nos pelos merecimentos de Seu Divino Filho.

15. Orar com perseverança, quer dizer, não cessar de pedir a Graça de que havemos mister, acrescentando sempre: “Se for da vossa vontade”.

16. As nossas orações não são ouvidas pelo motivo da coisa que pedimos, quando pedimos coisas que não convêm à nossa eterna salvação.

17. O que devemos pedir é o que se encontra no Pai Nosso.

18. Podemos pedir a Deus a saúde e os bens temporais, contanto que isto se faça com submissão à Sua vontade.

19. Devemos orar por nós, pelos nossos pais, pelos nossos superiores espirituais e temporais, em geral por todos os homens, não excetuando os nossos inimigos, pela nossa pátria, e pelas almas do Purgatório afim de livrá-las das suas penas e introduzi-las no Céu.

Explicação da gravura

20. No meio, está Moisés orando numa colina enquanto os hebreus lutam na planície contra os inimigos.

21. Vê-se no ângulo superior esquerdo, uma família a rezar em comum. No ângulo superior direito, uma família reza antes da comida. No ângulo inferior esquerdo, uma família rezando antes do trabalho.

22. No ângulo inferior direito, vê-se Santo Antão orando com atenção e fervor diante do Crucifixo, enquanto os demônios procuram distraí-lo e tentá-lo de mil maneiras.

Índice das sessenta e oito gravuras



Diversos

55.- A Oração
55.- O Pai Nosso
56.- Ave Maria
57.- Os Novíssimos do homem
58.- A Morte
59.- O Juízo
60.- O pecado original
61.- Os pecados capitais
62.- Os pecados capitais
63.- Os pecados capitais
64.- As Virtudes teologais
65.- As Virtudes cardeais
66.- As Virtudes evangélicas
67.- As obras corporais de misericórdia
68.- As obras espirituais de misericórdia



domingo, 24 de novembro de 2019

Meditação da Morte - Imitação de Cristo

A diferença entre morrer em estado de graça ou em pecado mortal




1. Bem depressa a tua vida terminará na terra; por isso vê como te conduzes: hoje vive o homem e amanhã já não existe. E em desaparecendo aos olhos, também depressa se apaga da lembrança.

Oh! loucura e dureza do coração humano, que só pensa no presente, e não prevê o futuro! De tal modo te devas portar em todas as obras e pensamentos, como se hoje houvesses de morrer. Se tivesses boa consciência, não recearias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado, do que fugir da morte. Se hoje não estás preparado, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto; e quem sabe se te será concedido?

2. De que serve viver muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Ai! a vida longa nem sempre leva à emenda; muitas vezes aumenta mais as culpas. Prouvera a Deus, que, ao menos, tivéssemos vivido bem um só dia neste mundo! Não falta quem conte os anos da sua conversão; mas a quantos terão eles servido para se emendarem. Se é terrível morrer, talvez seja mais perigoso viver muito.

Bem-aventurado aquele que tem sempre diante dos olhos a hora da sua morte, e que todos os dias se prepara, para morrer. Se já viste morrer alguém, considera que também tu hás-de passar por aquela hora.

3. Quando amanhecer, pensa que não chegarás à noite. E quando anoitecer, não ouses contar com a manhã seguinte. Por isso anda sempre preparado, e vive de tal modo, que nunca a morte te encontre desprevenido. 

Muitos morrem repentina e inesperadamente. Porque o Filho do Homem há-de vir, na hora em que menos se espera. Quando essa última hora chegar começarás a julgar de modo muito diferente de toda a tua vida passada, e muito te arrependerás de teres sido tão negligente e remisso.

4. Quão feliz e prudente é aquele, que se esforça por ser na vida, como deseja que a morte o venha encontrar! (...) Agora é o tempo mais precioso; agora são os dias da salvação; agora é o tempo propício.

Mas ai! porque não empregas mais utilmente este tempo, em que podes ganhar merecimentos para a vida eterna? Tempo virá, em que hás-de querer um dia ou uma hora para te emendares, e não sei se a conseguirás.

6. Ah! meu irmão, de quantos perigos te poderias livrar, e quão grande temor evitar, se nesta vida andasses sempre penetrado do temor e desconfiança da morte! Procura agora viver de tal modo, que à hora da morte mais tenhas motivos para te alegrar, do que para temer. 

Aprende agora a morrer para o mundo, para então começares a viver com Cristo. Aprende agora a desprezar todas as coisas, para então poderes ir livremente para Cristo. Castiga o teu corpo pela penitência, para então poderes ter sólida confiança.

7. Oh! louco! Como pensas que hás-de viver largos anos, se nem sequer um dia tens seguro Quantos, julgando viver muito tempo, se enganaram, e foram inesperadamente arrancados ao corpo? (...) Faz agora, meu irmão, o que puderes; porque não sabes quando morrerás, e ignoras também o que será de ti depois da morte.

Enquanto tens tempo, entesoura para ti riquezas imortais. Não penses em mais nada, senão da tua salvação; trata tão somente das coisas de Deus.

9. Considera-te sobre a terra como peregrino e hóspede, que nada se preocupa com os negócios do mundo. Conserva o teu coração livre e levantado para Deus, porque não tens aqui morada permanente.

Dirige ao Céu com lágrimas as orações e gemidos de cada dia, para que a tua alma, depois da morte, mereça passar ditosamente ao Senhor. Ámen.

in Imitação de Cristo (Livro I - cap. XXIII)

sábado, 23 de novembro de 2019

"A humildade é a verdade" - Padre Pio



A humildade é a verdade, e a verdade é que eu sou somente nada. Portanto, tudo o que é bom em mim vem de Deus. Ora, acontece muitas vezes que desperdiçamos o que Deus pôs de bom em nós. Quando as pessoas me perguntam qualquer coisa, acontece-me não pensar no que posso dar-lhes, mas no que não sou capaz de dar, e consequentemente, tantas almas permanecem na sua sede, porque eu não tenho sabido transmitir o dom de Deus.

A ideia de que, em cada dia, o Senhor vem a nós e nos dá tudo deveria tornar-nos humildes. Ora, é o oposto que acontece, porque o demónio faz brotar dentro de nós ataques de orgulho. Isso em nada nos honra. Temos de lutar contra o nosso orgulho. Quando não pudermos mais, paremos um instante e façamos um acto de humildade; então Deus, que ama os corações humildes, virá ao nosso encontro." 

São Pio de Pietrelcina (Padre Pio)

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Os 12 degraus da humildade



S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica (II-IIae, q.161, a.6), resume os 12 degraus de humildade que se encontram na Regra de S. Bento, o pai do monaquismo ocidental:

1) Ter os olhos sempre baixos, manifestando humildade interior e exterior; 
2) Falar pouco e sensatamente, em voz baixa;
3) Não ser de riso pronto e fácil;
4) Manter-se calado, enquanto não for interrogado;

5) Observar o que prescreve a regra comum do mosteiro;
6) Reconhecer-se e mostrar-se o mais indigno de todos;
7) Julgar-se, sinceramente, indigno e inútil em tudo;
8) Confessar os próprios pecados;

9) Por obediência suportar, pacientemente, o que é duro e difícil;
10) Submeter-se, obedientemente, aos superiores;
11) Não se comprazer na vontade própria;
12) Temer a Deus e ter presente tudo o que ele mandou.

A humildade está, essencialmente, no apetite, na medida em que alguém refreia os impulsos do seu ânimo, para que não busque, desordena mente, as coisas grandes. Mas a regra da humildade está no conhecimento que impede que alguém se julgue melhor do que é. E o princípio e raiz dessas duas atitudes é a reverência que se presta a Deus. 

Por outro lado, da disposição interior do homem procedem alguns sinais exteriores de palavras, actos e gestos, que revelam o que está oculto no íntimo, como também ocorre com as outras virtudes, pois, "pelo semblante se reconhece o homem; pelo aspecto do rosto, a pessoa sensata". (Ecl. 19, 26), diz a Escritura. 

Por isso, nos alegados graus de humildade figura um que pertence à raiz dela, a saber, o 12º: "temer a Deus e ter presente tudo o que nos mandou". 

Mas nesses graus há também algo que pertence ao apetite, como o não buscar, desordenadamente, a própria superioridade, o que se dá de três modos. Primeiro, não seguindo a própria vontade (11º); depois, regulando-a pelo juízo do superior (10º) e, em terceiro lugar, não desistindo em face de situações duras e difíceis (9º).

Aparecem também graus relativos à estima em que alguém deve ter ao reconhecer os próprios defeitos. E isso de três modos: primeiro, reconhecendo e confessando os próprios defeitos (8º). Depois, em vista desses defeitos, julgando-se indigno de coisas maiores (7º). Em terceiro lugar, considerando os outros, sob esse aspecto, superiores a si (6º).

Finalmente, nessa enumeração já também graus relativos à manifestação externa. Um deles, quanto às acções, de modo que, em suas obras, não se afaste do caminho comum (5º). Outros dois referem-se às palavras, quer dizer, que não se fale fora do tempo (4º), nem se exceda no falar (2º). 

Por fim, há os graus ligados aos gestos exteriores, como, por exemplo, reprimir o olhar sobranceiro (1º) e coibir risadas e outras manifestações impróprias de alegria (3º).

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O primeiro passo na busca da verdade é a Humildade



A carta 118 de Santo Agostinho é um texto dirigido a Dióscoro. No ponto 22 dessa carta, o Santo explica que sem humildade nenhuma ação pode ser boa:

O primeiro passo (na busca da verdade) é a humildade. O segundo, a humildade. O terceiro, a humildade. Se a humildade não preceder, acompanhar e seguir cada boa ação que fazemos - sendo ao mesmo tempo o nosso objectivo, o nosso apoio e a nossa moderação -  o orgulho retira-nos qualquer boa obra pela qual nos congratulamos. Todos os outros vícios podem ser facilmente detectados quando os temos, mas devemos temer o orgulho mesmo quando fazemos boas ações.

Santo Agostinho in Carta 118, 22

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

São Macário derrotou o Demónio através da Humildade




Certo dia, São Macário regressava à sua cela, trazendo consigo umas folhas de palmeira. Pelo caminho, o demônio veio ao seu encontro com uma foice de ceifeiro, e tentou atacá-lo, mas não conseguiu. 

Disse-lhe então o demônio: «Macário, sofro muitos tormentos por tua causa, porque não consigo vencer-te. Contudo, faço tudo o que tu fazes: tu jejuas, e eu não como; tu velas, e eu não durmo. Há só um aspecto em que me vences.» «Qual?» «A tua humildade. É ela que me impede de te vencer.» 

in 'Sentenças dos Padres do Deserto'

terça-feira, 19 de novembro de 2019

O poder imenso da vida contemplativa





Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica santa Teresa, cuja alma ardendo em amor de Cristo não podia compreender uma vida contemplativa, uma vida interior que se desinteressasse das solicitudes apaixonadas do Salvador pela redenção das almas. 

'Aceitaria o purgatório, diz ela, até ao juízo final, para livrar uma só dessas almas. E que me importaria a duração dos meus sofrimentos, se assim pudesse livrar uma só alma e sobretudo muitas para maior glória de Deus!' E, dirigindo-se às suas religiosas: 'Dirigi para este fim inteiramente apostólico, minhas filhas, vossas orações, vossas disciplinas, vossos jejuns, vossos desejos'.


Tal é, com efeito, a obra das Carmelitas, das Trapistas, das Clarissas. Vede-as seguir a marcha dos apóstolos, alimentá-los com a superabundância de suas orações e de suas penitências. Suas súplicas precipitam-se do alto, num espaço tão dilatado como a marcha da cruz e o brilho do Evangelho, sobre as almas, essas presas divinas! Ou antes, é seu amor oculto, mas activo, que excita por toda parte, no mundo dos pecadores, as vozes de misericórdia.

Ninguém conhece neste mundo o porquê dessas conversões longínquas de pagãos, da paciência heróica desses cristãos perseguidos, da alegria celeste desses missionários martirizados. Tudo isso está invisivelmente ligado à oração de alguma humilde freira. Com os dedos sobre o teclado dos perdões divinos e das luzes eternas, sua alma silenciosa e solitária preside à salvação das almas e às conquistas da Igreja.

Dom J. B. Chautard in 'A alma de todo apostolado' (Edit. Colecção, São Paulo, 1962, pp., 53-54)

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Amas a Deus? Vê se passas este teste



Amar a Deus de todo o coração é nada amar tanto como Deus, nada amar senão com os olhos em Deus por Deus; é estar habitualmente disposto a fazer e tudo sofrer para agradar a Deus; é não ter no coração inclinação senão para o que conduz a Deus, aversão senão pelo que desvia de Deus.

Amar a Deus com toda a alma é estar pronto a dar a vida por Deus, a tudo perder antes que perder a graça de Deus; é desterrar da alma todas as impressões que possam desagradar a Deus ou impedir a união íntima com Ele.

Amar a Deus com todas as forças é não nos pouparmos a trabalhos nem sofrimentos para buscar a glória de Deus; é consagrar-lhe o nosso tempo, os nossos talentos o nosso corpo, a nossa saúde, o nosso repouso, toda energia da nossa alma e todo o vigor do nosso corpo.

Amar a Deus com todo o nosso espírito é aplicarmo-nos constantemente a conhecer cada vez melhor as infinitas perfeições de Deus, a vontade e o beneplácito de Deus; é não estudar as ciências profanas senão para nos tornarmos mais úteis ao serviço de Deus.

Vejamos, segundo estes dados, qual o grau de ama que já atingimos.

Pe. Bruno Vercruysse, S.J. in 'Meditações práticas para todos os dias do ano'

domingo, 17 de novembro de 2019

As aparições das almas do Purgatório



Não ouvimos falar com muita frequência sobre o Purgatório, hoje em dia, o que é uma pena.

Que presente (assustador, mas maravilhoso) receberíamos se, durante a noite, fôssemos despertados pela presença de um falecido parente ou amigo pedindo-nos orações, sacrifícios e Missas para se libertar do purgatório! E seria especialmente bom se essa alma sofredora nos deixasse algum sinal perceptível e duradouro, para que, à luz do dia, tivéssemos a certeza de que aquela visita não foi apenas um pesadelo ocasionado por algum excesso ao jantar…

Na parábola do pobre Lázaro e do rico epulão (Lc 16, 19-31), este último, após morrer e ir para o inferno, implora para que Abraão envie "alguém dentre os mortos" a fim de alertar os seus irmãos ainda vivos e fazê-los se arrepender enquanto há tempo. Abraão responde: "Se eles não ouvem Moisés e os profetas, não se deixarão persuadir nem sequer se alguém ressuscitar dos mortos". A referência, é claro, era à própria ressurreição de Jesus, mas, na Sua grande misericórdia, Nosso Senhor também enviou aos vivos, em várias ocasiões, alguns emissários dentre os mortos. E eles deixaram provas da sua visita.

Por "provas" não me refiro aos muitos testemunhos escritos que tantos santos nos legaram sobre o purgatório e sobre o inferno: Santa Margarida Maria de Alacoque, Santa Gertrudes, Santa Brígida da Suécia, São João Maria Vianney,  Santa Catarina de Sena, Santa Catarina de Gênova… 

Falo de provas materiais tangíveis, como as que são custodiadas numa pequena sala ao lado da sacristia de uma igreja de Roma, a do Sagrado Coração de Jesus em Prati. Também chamada de “Sacro Cuore del Suffragio” ou Sagrado Coração do Sufrágio, essa igreja neo-gótica, cuja construção foi finalizada em 1917, está situada às margens do rio Tibre, a meros dez minutos da Praça de São Pedro. Ela é bastante peculiar porque abriga o “Piccolo Museo del Purgatorio”, ou seja, o Pequeno Museu do Purgatório.

A missão da Ordem do Sagrado Coração, fundada em 1854 na França, era a de orar e oferecer missas em sufrágio das almas do purgatório. A capela da ordem em Roma, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, ficou severamente destruída pelas chamas a 15 de Setembro de 1897. Após o incêndio, o sacerdote designado para a capela, o padre Victor Jouet, ficou atónito ao ver a imagem de um rosto sofrido que parecia ser de uma alma do purgatório em uma das paredes atingidas pelo fogo. Ele pediu e obteve, depois desse episódio, a permissão do Papa Pio X para viajar por toda a Europa a fim de recolher relíquias que servissem como indícios de outras visitas feitas por almas do purgatório ao nosso “mundo dos vivos”.

Uma das relíquias expostas hoje no museu mostra um pedaço de madeira da mesa que tinha pertencido à venerável Madre Isabella Fornari, abadessa do mosteiro das clarissas de São Francisco, em Todi. A Madre Isabella tinha sido visitada pelo falecido Padre Panzini no dia 1º de novembro de 1731. Para lhe mostrar que estava sofrendo no purgatório, ele colocou a sua mão esquerda "em chamas" sobre a mesa de trabalho da religiosa, deixando ali impressa a sua mão queimada, além de gravar na madeira da mesa uma cruz com o dedo indicador, igualmente ardente. Para completar, ele colocou a mão também na manga da túnica da abadessa, queimando o braço da religiosa a ponto de fazê-lo sangrar. Depois de relatar o fatco ao confessor, Padre Isidoro Gazata, este pediu que a religiosa cortasse aquelas partes da túnica e as entregasse à sua custódia juntamente com a pequena mesa.

Em 1815, Margherite Demmerlé, que viveu na diocese de Metz, foi visitada por uma alma que se identificou como a sua sogra falecida trinta anos antes, ao dar à luz. Ela pediu que Margherite fosse em peregrinação até o Santuário de Nossa Senhora de Mariental e pedisse a celebração de duas Missas por ela. Margherite pediu um sinal e a alma pôs a mão sobre o livro que ela lia: "A Imitação de Cristo". A mão ficou impressa na página aberta. A sogra retornou após a peregrinação, quando as Missas solicitadas já tinham sido rezadas, para agradecer e contar que tinha sido liberada do purgatório.

Em 1875, Luisa Le Sénèchal, morta havia dois anos, apareceu para o marido Luigi na sua casa de Ducey, em França. Pedindo-lhe orações, ela deixou a marca incandescente dos seus cinco dedos nas suas vestes, além de solicitar que a filha do casal encomendasse Missas em intenção do repouso eterno da sua alma.

Cerca de uma dúzia de outras relíquias marcadas por similares eventos sobrenaturais podem ser vistas no Pequeno Museu do Purgatório.

Estes exemplos não pretendem chocar nem assustar. Muitíssimos outros podem ser encontrados, por exemplo, em livros de autoria do renomado padre jesuíta francês do século XIX: François Xavier Schouppe, como "O purgatório explicado". Ele escreveu: “Ao dar-nos esse tipo de aviso, Deus mostra-nos a sua grande misericórdia. Ele exorta-nos, da maneira mais eficaz, a ajudar as pobres almas que sofrem e a permanecermos vigilantes no tocante à nossa própria”.

Quem pensa nos quatro “novíssimos” ou “quatro últimas coisas” (morte, juízo, inferno e paraíso) pode ficar curioso quanto ao Purgatório. Embora a Igreja não afirme conhecer pormenorizadamente a natureza do sofrimento que aflige as almas no purgatório, os comentários do Papa emérito Bento XVI e os escritos de Santa Catarina de Génova (1447-1510), especialmente o seu "Tratado sobre o purgatório", são ilucidantes. A santa descreveu o purgatório não como um lugar envolto em chamas, e sim como um estado em que as almas experimentam o tormento das chamas interiores por reconhecerem a sua profunda pecaminosidade diante da perfeição da santidade e do amor de Deus para com elas.

Rezemos pelas almas do Purgatório, para que, purificadas, possam interceder por nós no Céu.

adaptado de Aleteia

sábado, 16 de novembro de 2019

Não se pode salvar a si mesmo quem permanece voluntariamente fora da Igreja




Que os recentes acontecimentos que agitam a Igreja não nos façam esquecer a grandeza de nossa vocação!
Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est
Não se pode salvar a si mesmo quem permanece voluntariamente fora da Igreja.
Portanto, é uma grande honra e um grande privilégio que, entre bilhões de homens, tenhamos sido escolhidos, por um amor de predileção de Nosso Senhor Todo-Poderoso, para sermos membros de sua Igreja. A consideração de nossa felicidade deve nos tornar apóstolos perante aqueles que não pertencem à Igreja Católica.
Se somos verdadeiros membros da Igreja, não permaneceremos indiferentes às suas necessidades, seus interesses e sofrimentos. Hoje, mais do que nunca, a Igreja sofre: ela sofre em seu Vigário e é para nós um grande mistério; a Igreja sofre em seus bispos, em seus padres, seus religiosos e freiras; ela sofre em seus fiéis, abandonados e dispersos, como ovelhas sem pastor; ela sofre por causa dos erros, dos escândalos, mas também pelas difamações contra ela. E nós, seus membros, permaneceremos indiferentes? Soframos com nossa Mãe, rezemos, trabalhemos, gastemos nossas forças para servi-la, defendê-la. Esqueçamos nossas pequenas preocupações pessoais e dediquemos nossa vida, nossas obras, nossa oração, nossa imolação silenciosa e oculta aos grandes interesses da Igreja.
Pe. Vincent Robin, FSSPX 

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Nem os Cartuxos se atrevem a imitar as penitências do Cura d'Ars



Na antiga casa paroquial de Ars conservam-se como troféu de vitória as disciplinas e os cilícios do Cura d'Ars, o P. João Maria Vianney. Mas o seu principal instrumento de penitência não está ali; deixaram-no na igreja: é o confessionário.

Pode-se dizer que o servo de Deus ali se crucificou livremente. Foi 'um mártir da confissão', conforme as palavras de uma testemunha de sua vida. Bem poderia ter fugido dos pecadores, se retirado para um claustro ou para o deserto, mas por amor às almas permaneceu no seu posto. Ele, que passara a juventude no meio dos campos, respirando o ar puro das montanhas da terra natal, nos dias em que o tempo aprazível convida a passear, permanecia naquela caixa, prisioneiro dos pecadores! Coração delicado e sensível, amigo das belezas naturais, percorrera em tempos idos o risonho vale de Fontblin, onde farfalhavam as faias.

Estava separado disso tudo apenas por algumas casas e pelos muros da sua igreja. Entretanto, por trinta anos, privou-se voluntariamente de gozar da frescura, do encanto e das tranquilas alamedas!

Algumas horas de confessionário bastam para alquebrar o sacerdote mais robusto. Sai-se dele com os membros entumecidos, a cabeça congestionada e incapaz de fixar um pensamento. Perde-se o sono e o apetite, e a quem quiser passar, todos os dias, longas horas assentado, faltar-lhe-ão as forças. Pois bem, conforme escreveu a condessa de Garets, o Cura d'Ars impôs-se um trabalho que extenuaria seis confessores. 'Eis, diz o Pe. Raymond, que o viu exercer este ministério, eis o que sempre me pareceu milagroso e superior às forças humanas: Que um sacerdote tão achacado e dum regime tão austero pudesse, de qualquer maneira, passar a vida no confessionário!... A minha saúde, graças a Deus, é excelente, contudo, confesso que me seria impossível suportar aquele modo de vida durante uma semana, e o mesmo ouvi dizer por outros sacerdotes acostumados a confessar em peregrinações'.

Sim; foi ali entre aquelas tábuas, naquele ataúde antecipado, onde o Cura d'Ars mais teve que sofrer. No Verão, a igreja era como um forno. O calor no confessionário, como ele mesmo dizia, dava-lhe uma ideia do inferno. Algumas vezes tinha que ouvir confissões com compressas na fronte, a tal ponto o torturavam as enxaquecas. Era por este motivo que trazia o cabelo muito curto na parte anterior da cabeça. Nos dias de tempestade ou de forte calor, o ar estava tão viciado na estreita nave do templo que o heróico confessor sentia náuseas e não as podia evitar, a não ser aspirando um vidro de vinagre ou de água de colónia. No Inverno, pelo contrário, naquela região de Dombes, sobretudo quando sopra o vento dos Alpes, até as pedras se fendem. Muitas vezes, refere o P. Dubouis, desmaiou no confessionário, ora por causa do frio, ora por causa das suas enfermidades. Perguntei-lhe uma ocasião: 'Como pode V. Revma estar tantas horas assim num tempo tão cruel, sem nada para lhe aquecer os pés?'

-- 'Ah! meu amigo, é por uma razão muito simples: Desde Todos os Santos até a Páscoa não sinto que tenho pés'.

O cónego Aleixo Tailhades, de Montpellier, que passou com ele parte do Inverno de 1838, conta que 'os pés do pobre Cura se achavam tão lastimados que a pele dos calcanhares saía com as meias quando à noite se descalçava'. Para atenuar a dureza da tábua em que se assentava, experimentaram colocar sobre ela umas almofadas de palha. Ele rejeitou-as. (...)

A assiduidade do P. Vianney no confessionário e os sofrimentos que nele suportava teriam bastado para fazê-lo alcançar um grau de alta santidade. Mas procurando as mortificações com o mesmo ardor com que outros buscam os prazeres, jamais estava saciado de penitência. Impôs-se o sacrifício de nunca olhar para uma flor, de não comer frutas e de não tomar uma gota de água em dias de grande calor. Jamais espantava as moscas que lhe pousavam na fronte. Permanecia ajoelhado sem apoio algum. Impusera-se a lei de nunca manifestar os desgostos e de ocultar todas as repugnâncias da natureza. Dominava a curiosidade ainda a mais legítima: nem sequer manifestou o desejo de ver a estrada de ferro que passava a poucos quilómetros de Ars, e que cada dia trazia para ele tão grande número de peregrinos.

O seu coração estava sem pecado, e contudo, jejuou durante 40 anos jejuou e flagelou-se pelos pecadores. Vimo-lo no princípio do seu apostolado como tomava sangrentas disciplinas para obter de Deus a conversão dos seus paroquianos. Quando estes se converteram, não deixou, apesar disso, que os seus instrumentos de penitência se enferrujassem. A diminuição das forças obrigou-o a servir-se menos deles e a tratar com menos crueldade o seu cadáver. Algumas vezes teve que fazer intervalos entre as flagelações e deixar que as feridas cicatrizassem para poder novamente flagelar-se. (...)

Trazia em cada braço um bracelete de ferro eriçado de pontas agudas. 'Pela rigidez dos seus movimentos e pela maneira como se movia, no púlpito e no altar, era fácil ver, diz a senhora de Garets, que estava coberto de cilícios e de outros instrumentos de penitência'. Uma vez o cilício provocou-lhe uma ferida que causou inquietação pelo perigo da gangrena.

Tais mortificações debilitavam-no ainda mais. Como poderia este sacerdote manter-se em pé quando vivia daquilo que a outros faria morrer? Depois das suas 'loucuras da juventude', daqueles jejuns completos de dois ou três dias, que a princípio se impunha, resignar-se-ia, em vista da sua debilidade e do seu trabalho, a tomar o alimento necessário? (...) 

Pura ilusão! Consentiu em comer todos os dias era contudo muito pouca coisa. O jejum, até então nunca interrompido, continuou da mesma maneira. De ordinário, ao meio-dia, entrava na cozinha do orfanato, e ali num canto do fogão esperava-o uma tigela de leite ou sopa. Quase nunca chegava a saborear a comida. Às vezes, além da sopa, comia alguns gramas de pão torrado. Durante muito tempo não tomava nada durante manhã. Em 1834, estando muito fraco, foi obrigado por Mons. Devie a tomar um quebra-jejum. Desde então, depois da Missa, sorvia um pouco de leite, mas nos dias de jejum nem disso se servia.

Nas Quaresmas de 1849, 1850 e 1851, diz o Irmão Atanásio que ele comia só uma vez por dia. Foi visto aceitar algumas vezes um pouco de sobremesa, ou seja, um pouco de doce; mas nos últimos anos também disso se absteve. Até à sua grave doença de 1843, nunca tomava nada à noite. (...)

Quinhentos gramas de pão duravam mais de uma semana. 'Vi um dia no seu aposento, refere o Sr. Camilo Monnin, um pãozinho com aparentes sinais de ter sido roído por um rato; de facto, era um pedaço de pão que o servo de Deus havia tomado para alimentar-se durante uma grande parte do dia'. (...)

'Para chegar a essa sobriedade excessiva ter-lhe-ia custado horrivelmente'. Assim se expressou o conde de Garets, testemunha emocionante de uma existência totalmente mortificada.

E se para apreciar o Cura d'Ars penitente é mister ouvir um especialista em matéria de penitência, eis aqui um padre da Grande Cartuxa: 'Vemo-nos obrigados a confessar, nós os solitários eremitas, monges e penitentes de toda a classe, que não nos atrevemos a seguir o Cura d'Ars senão com o olhar de nossa afectuosa admiração, e que não somos dignos de beijar os seus pés, nem a poeira dos seus sapatos.'''


Francis Trochu in 'O Santo Cura d'Ars' (Edit. Líttera Maciel, 1997, pp. 334-337)