segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Nem os Cartuxos se atrevem a imitar as penitências do Cura d'Ars



Na antiga casa paroquial de Ars conservam-se como troféu de vitória as disciplinas e os cilícios do Cura d'Ars, o P. João Maria Vianney. Mas o seu principal instrumento de penitência não está ali; deixaram-no na igreja: é o confessionário.

Pode-se dizer que o servo de Deus ali se crucificou livremente. Foi 'um mártir da confissão', conforme as palavras de uma testemunha de sua vida. Bem poderia ter fugido dos pecadores, se retirado para um claustro ou para o deserto, mas por amor às almas permaneceu no seu posto. Ele, que passara a juventude no meio dos campos, respirando o ar puro das montanhas da terra natal, nos dias em que o tempo aprazível convida a passear, permanecia naquela caixa, prisioneiro dos pecadores! Coração delicado e sensível, amigo das belezas naturais, percorrera em tempos idos o risonho vale de Fontblin, onde farfalhavam as faias.

Estava separado disso tudo apenas por algumas casas e pelos muros da sua igreja. Entretanto, por trinta anos, privou-se voluntariamente de gozar da frescura, do encanto e das tranquilas alamedas!

Algumas horas de confessionário bastam para alquebrar o sacerdote mais robusto. Sai-se dele com os membros entumecidos, a cabeça congestionada e incapaz de fixar um pensamento. Perde-se o sono e o apetite, e a quem quiser passar, todos os dias, longas horas assentado, faltar-lhe-ão as forças. Pois bem, conforme escreveu a condessa de Garets, o Cura d'Ars impôs-se um trabalho que extenuaria seis confessores. 'Eis, diz o Pe. Raymond, que o viu exercer este ministério, eis o que sempre me pareceu milagroso e superior às forças humanas: Que um sacerdote tão achacado e dum regime tão austero pudesse, de qualquer maneira, passar a vida no confessionário!... A minha saúde, graças a Deus, é excelente, contudo, confesso que me seria impossível suportar aquele modo de vida durante uma semana, e o mesmo ouvi dizer por outros sacerdotes acostumados a confessar em peregrinações'.

Sim; foi ali entre aquelas tábuas, naquele ataúde antecipado, onde o Cura d'Ars mais teve que sofrer. No Verão, a igreja era como um forno. O calor no confessionário, como ele mesmo dizia, dava-lhe uma ideia do inferno. Algumas vezes tinha que ouvir confissões com compressas na fronte, a tal ponto o torturavam as enxaquecas. Era por este motivo que trazia o cabelo muito curto na parte anterior da cabeça. Nos dias de tempestade ou de forte calor, o ar estava tão viciado na estreita nave do templo que o heróico confessor sentia náuseas e não as podia evitar, a não ser aspirando um vidro de vinagre ou de água de colónia. No Inverno, pelo contrário, naquela região de Dombes, sobretudo quando sopra o vento dos Alpes, até as pedras se fendem. Muitas vezes, refere o P. Dubouis, desmaiou no confessionário, ora por causa do frio, ora por causa das suas enfermidades. Perguntei-lhe uma ocasião: 'Como pode V. Revma estar tantas horas assim num tempo tão cruel, sem nada para lhe aquecer os pés?'

-- 'Ah! meu amigo, é por uma razão muito simples: Desde Todos os Santos até a Páscoa não sinto que tenho pés'.

O cónego Aleixo Tailhades, de Montpellier, que passou com ele parte do Inverno de 1838, conta que 'os pés do pobre Cura se achavam tão lastimados que a pele dos calcanhares saía com as meias quando à noite se descalçava'. Para atenuar a dureza da tábua em que se assentava, experimentaram colocar sobre ela umas almofadas de palha. Ele rejeitou-as. (...)

A assiduidade do P. Vianney no confessionário e os sofrimentos que nele suportava teriam bastado para fazê-lo alcançar um grau de alta santidade. Mas procurando as mortificações com o mesmo ardor com que outros buscam os prazeres, jamais estava saciado de penitência. Impôs-se o sacrifício de nunca olhar para uma flor, de não comer frutas e de não tomar uma gota de água em dias de grande calor. Jamais espantava as moscas que lhe pousavam na fronte. Permanecia ajoelhado sem apoio algum. Impusera-se a lei de nunca manifestar os desgostos e de ocultar todas as repugnâncias da natureza. Dominava a curiosidade ainda a mais legítima: nem sequer manifestou o desejo de ver a estrada de ferro que passava a poucos quilómetros de Ars, e que cada dia trazia para ele tão grande número de peregrinos.

O seu coração estava sem pecado, e contudo, jejuou durante 40 anos jejuou e flagelou-se pelos pecadores. Vimo-lo no princípio do seu apostolado como tomava sangrentas disciplinas para obter de Deus a conversão dos seus paroquianos. Quando estes se converteram, não deixou, apesar disso, que os seus instrumentos de penitência se enferrujassem. A diminuição das forças obrigou-o a servir-se menos deles e a tratar com menos crueldade o seu cadáver. Algumas vezes teve que fazer intervalos entre as flagelações e deixar que as feridas cicatrizassem para poder novamente flagelar-se. (...)

Trazia em cada braço um bracelete de ferro eriçado de pontas agudas. 'Pela rigidez dos seus movimentos e pela maneira como se movia, no púlpito e no altar, era fácil ver, diz a senhora de Garets, que estava coberto de cilícios e de outros instrumentos de penitência'. Uma vez o cilício provocou-lhe uma ferida que causou inquietação pelo perigo da gangrena.

Tais mortificações debilitavam-no ainda mais. Como poderia este sacerdote manter-se em pé quando vivia daquilo que a outros faria morrer? Depois das suas 'loucuras da juventude', daqueles jejuns completos de dois ou três dias, que a princípio se impunha, resignar-se-ia, em vista da sua debilidade e do seu trabalho, a tomar o alimento necessário? (...) 

Pura ilusão! Consentiu em comer todos os dias era contudo muito pouca coisa. O jejum, até então nunca interrompido, continuou da mesma maneira. De ordinário, ao meio-dia, entrava na cozinha do orfanato, e ali num canto do fogão esperava-o uma tigela de leite ou sopa. Quase nunca chegava a saborear a comida. Às vezes, além da sopa, comia alguns gramas de pão torrado. Durante muito tempo não tomava nada durante manhã. Em 1834, estando muito fraco, foi obrigado por Mons. Devie a tomar um quebra-jejum. Desde então, depois da Missa, sorvia um pouco de leite, mas nos dias de jejum nem disso se servia.

Nas Quaresmas de 1849, 1850 e 1851, diz o Irmão Atanásio que ele comia só uma vez por dia. Foi visto aceitar algumas vezes um pouco de sobremesa, ou seja, um pouco de doce; mas nos últimos anos também disso se absteve. Até à sua grave doença de 1843, nunca tomava nada à noite. (...)

Quinhentos gramas de pão duravam mais de uma semana. 'Vi um dia no seu aposento, refere o Sr. Camilo Monnin, um pãozinho com aparentes sinais de ter sido roído por um rato; de facto, era um pedaço de pão que o servo de Deus havia tomado para alimentar-se durante uma grande parte do dia'. (...)

'Para chegar a essa sobriedade excessiva ter-lhe-ia custado horrivelmente'. Assim se expressou o conde de Garets, testemunha emocionante de uma existência totalmente mortificada.

E se para apreciar o Cura d'Ars penitente é mister ouvir um especialista em matéria de penitência, eis aqui um padre da Grande Cartuxa: 'Vemo-nos obrigados a confessar, nós os solitários eremitas, monges e penitentes de toda a classe, que não nos atrevemos a seguir o Cura d'Ars senão com o olhar de nossa afectuosa admiração, e que não somos dignos de beijar os seus pés, nem a poeira dos seus sapatos.'''


Francis Trochu in 'O Santo Cura d'Ars' (Edit. Líttera Maciel, 1997, pp. 334-337)

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