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terça-feira, 16 de abril de 2019

Primeira Meditação para a Quarta-feira Santa - Quarta Dor de Maria Santíssima – Encontro com Jesus, que carrega a cruz



Primeira Meditação para a Quarta-feira Santa

Vidimus eum, et non erat aspectus, et desideravimus eum – “Vimo-Lo, e não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos” (Is 53, 2)
Sumário. Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setas que lhes traspassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.
I. Medita São Boaventura que a Bem-aventurado Virgem passou a noite que precedia a Paixão de seu Filho sem tomar descanso e em dolorosa vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos a seu Filho na casa de Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela o que Jeremias tinha predito: Non est qui consoletur eam ex omnibus caris eius (1) — “Não há quem a console entre todos os seus queridos”.
Veio finalmente São João e lhe disse:
“Ah, Mãe dolorosa! Teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando Ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se O queres ver e dar-Lhe o último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar”.
Ao ouvir isto, Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma por uma estrada mais breve e coloca-se na entrada de uma rua para se encontrar com o aflito Filho, nada se-lhe dando das palavras insultuosas dos judeus, que a conheciam como mãe do condenado. — Ó Deus, que causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a sentença pronunciada contra o seu Jesus.
Mais eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! Um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até a cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para Ele, e quase não O conhece, dizendo então com Isaías: Vidimus eum, et non erat aspectus (2) — “Nós O vimus e não havia n’Ele formosura”. Mas finalmente o amor lho faz reconhecer e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó olhares dolorosos, com que, como tantas flechas, foram então traspassadas aquelas almas amantes!
II. Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue — muito embora preveja que a vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a tornaria rainha dos mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após Ele, para ser crucificada com Ele.
Se víssemos uma leoa que vai após o filho conduzido à morte, aquela fera nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós? Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. — Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis ser só, mas a levar a Cruz quis ser ajudado pelo Cirineu? E responde: Ut intelligas, Christi crucem non sufficere sinne tua: Não basta para nos salvar só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até a morte também a nossa.
Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber acompanhar-vos com a minha cruz até a morte! Vós e Jesus, sendo inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.
Referências:
(1) Lm 1, 2
(2) Is 53, 2
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 405-408)

Segunda Meditação para a Terça-feira Santa - Jesus é condenado e vai ao Calvário



Tunc ergo tradidit eis illum ut crucifigerunt – “Então entregou-lhes Jesus, para ser crucificado” (Jo 19, 16)
Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo que escuta a injusta sentença de morte, aceita-a por nosso amor, e abraçando a cruz, se encaminha para o Calvário. Os judeus temendo que a cada momento expire, e desejosos de O ver morrer crucificado, obrigam a Simão Cirineu a levar a cruz atrás de Jesus. Unamo-nos ao ditoso Simão, e abraçando com resignação a nossa cruz, carreguemo-la atrás de Jesus, que no-la manda para nosso bem.
I. Considera como Pilatos, depois de proclamar diversas vezes a inocência de Jesus, finalmente a torna a proclamar, lavando as mãos e protestando que é inocente do sangue daquele justo. Se, pois, havia de morrer, os judeus deveriam responder por Ele. Em seguida lavra a sentença e condena Jesus à morte. Ó injustiça nunca mais vista no mundo! O Juiz condena o acusado ao mesmo tempo que o declara inocente!
Lê-se a iníqua sentença de morte na presença do Senhor condenado; este escuta-a, e todo conformado com o decreto de seu Eterno Pai, que o condena à cruz, aceita-a humildemente, não pelos delitos que os judeus lhe imputavam falsamente, mas pelas nossas culpas verdadeiras, pelas quais se tinha oferecido a satisfazer com a sua morte. Na terra, Pilatos diz: Morra Jesus; e o Pai Eterno confirma a sentença no céu dizendo: Morra meu Filho. E o mesmo Filho acrescenta: Eis-me aqui, obedeço e aceito a morte, e a morte de cruz: Humiliavit semetipsum, factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis (1) — “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz.”
Meu amado Redentor, aceitais a morte que eu devia sofrer, e pela vossa morte me alcançais a vida. Agradeço-Vos, ó amor meu, e espero ir ao céu para cantar eternamente as vossas misericórdias: Misericordias Domini in aeternum cantabo (2) Mas, já que Vós inocente aceitais a morte de cruz, eu pecador aceito de boa vontade a morte que me destinais; aceito-a com todas as penas que a tenham de preceder ou de acompanhar, e desde agora ofereço-a a vosso Eterno Pai em união com a vossa santa morte. Vós morrestes por meu amor, eu quero morrer por vosso amor.
II. Lida a sentença, o povo desgraçado levanta um brado de júbilo e diz: “Felizmente Jesus é condenado à morte! Vamos depressa, não percamos tempo, prepare-se a cruz, e façamo-Lo morrer antes do dia de amanhã, que é a Páscoa.” — E no mesmo instante agarram a Jesus, tiram-Lhe o manto vermelho dos ombros e entregam-Lhe os seus próprios vestidos; a fim de que, segundo diz Santo Ambrósio, fosse reconhecido pelo povo por aquele mesmo impostor (assim o chamavam) que poucos dias antes fora recebido como Messias. Depois tomam duas rudes traves, que compõem em forma de cruz, e mandam-Lhe com insolência que a leve sobre seus ombros até o lugar do suplício. Ó Deus, que crueldade, carregar com tamanho peso um homem tão maltratado e enfraquecido!
Jesus abraça a cruz com amor e encaminha-se para o Calvário. O seu aspecto naquele caminho é tão lastimoso, que as mulheres de Jerusalém, ao vê-Lo, O acompanham, chorando e lamentando tamanha crueldade. Mas, nem assim os pérfidos judeus são levados à compaixão! Ao contrário, desejando, por um lado, ver Jesus crucificado, e, por outro, temendo que expirasse no caminho, visto que caía quase a cada passo, tiraram-Lhe a cruz dos ombros e obrigaram certo homem, de nome Simão, a carregá-la. — Minha alma, une-te ao ditoso Cirineu; abraça a tua cruz por amor de Cristo, que por teu amor padece tanto. Vê como Ele vai adiante e te convida a segui-Lo: Qui vult venire post me, tollat crucem suam, et sequatur me (3) — “Se alguém quiser vir após mim, tome a sua cruz e siga-me”.
Não, meu Jesus, não quero deixar-Vos; quero seguir-Vos até morrer. Pelos merecimentos desse caminho doloroso, dai-me força para carregar com paciência a cruz que quiserdes mandar-me. Ah! Vós nos fizestes nimiamente amáveis os sofrimentos e os desprezos, abraçando-os por nós com tanto amor! Ó Mãe de dores, Maria, rogai a vosso Filho por mim.
Referências:
(1) Fl 2, 8
(2) Sl 88, 2
(3) Mt 16, 24
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 403-405)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Primeira Meditação para a Terça-feira Santa - Jesus é coroado de espinhos e apresentado ao povo



Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius – “E entrançando uma coroa de espinhos Lha puseram na cabeça” (Jo 19, 1)
Sumário. Depois de terem açoitado a Jesus, os algozes, tratando-O como rei de comédia, atiram-Lhe sobre os ombros um manto de púrpura, colocam-Lhe um caniço na mão, e põem-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos, na qual batem fortemente com o caniço, a fim de que penetre mais. O Senhor ficou reduzido a tão triste estado, que Pilatos julgou que comoveria de compaixão os próprios inimigos, só com apresentá-Lo. Contemplemo-Lo também, e pensando que foi tão maltratado por nosso amor, não tenhamos a crueldade de dizer com os judeus: Crucifigatur — “Seja crucificado”.
I. Contemplemos os outros bárbaros suplícios que os soldados infligiram a nosso Senhor já tão atormentado. Instigados, e, como afirma São João Crisóstomo, subornados pelo dinheiro dos Judeus, reúnem ao redor de Jesus toda a corte, põem-Lhe aos ombros um manto vermelho a servir de manto real, nas mãos colocam-Lhe um caniço a servir de cetro e na cabeça um feixe de espinhos a servir de coroa. Os espinhos estavam entrelaçados em forma de capacete, de modo que Lhe cobria a cabeça toda: Et plectentes coronam de spinis, posuerunt super caput eius.
Mas, porque os espinhos com a força das mãos não penetravam bastante na cabeça sagrada, já tão ferida pelos açoites, tomam-Lhe o caniço, e enquanto Lhe escarravam também no rosto, batem com toda a força sobre a cruel coroa, de sorte que rios de sangue corriam da cabeça ferida pelo rosto e sobre o peito. Ah, espinhos ingratos! É assim que atormentais o vosso Criador? — Mas, para que acusar os espinhos? Ó pensamentos perversos dos homens, sois vós que transpassastes a cabeça do meu Redentor.
Eia, minha alma, prostra-te aos pés de teu Senhor coroado; detesta ali os teus consentimentos pecaminosos, e roga-Lhe que te traspasse com um daqueles espinhos, consagrados pelo seu preciosíssimo sangue, a fim de que não o tornes mais a ofender. — Enquanto os bárbaros algozes, juntando o escárnio à dor, o tratam como rei de comédia, d’Ele motejam e o esbofeteiam, tu, pelo menos, reconhece-O pelo Supremo Senhor de tudo, como na verdade é; feito agora Rei de dor por amor dos homens.
II. Voltando outra vez Jesus ao pretório de Pilatos, depois da flagelação e coroação de espinhos, este, ao vê-Lo todo dilacerado e desfigurado, capacitou-se de que comoveria o povo à compaixão, só com mostrá-Lo. Saiu, pois, para a varanda com o nosso aflito Salvador, e disse: Ecce homo — “Eis aqui o homem”. Como se dissesse: Judeus, contentai-vos com o que este inocente tem sofrido até agora; vede a que estado se acha reduzido. Que medo ainda podeis ter que Ele queira fazer-se vosso rei, visto que não pode mais viver? Deixai-O ir morrer em sua casa. Exivit ergo Iesus, portans coronam spineam, et purpureum vestimentum (1) – “Jesus saiu coroado de espinhos e vestido de um manto de púrpura”.
Minha alma, tu também contempla naquela varanda a teu Senhor, ligado e arrastado por um algoz. Vê-O, como ali está meio despido, se bem que coberto de chagas e sangue, com as carnes todas rasgadas, com aquele farrapo de manto purpúreo, que serve tão somente para escarnecê-Lo, e com a cruel coroa que continuamente o atormenta. Vê a que estado se acha reduzido o teu Pastor, para te achar, a ti, sua ovelha perdida.
Ah meu Jesus! Quantos papéis de teatro fazem-Vos os homens representar, mas todos eles de dor e de ignomínia. Ó dulcíssimo Redentor, inspirais compaixão às próprias feras, mais aí não achais piedade! Ouve o que aquele povo responde Crucifige, crucifige eum! (2) — “Crucifica-o, crucifica-o!” Mas, ó Senhor meu, o que dirão no último dia, quando Vos virem na glória, sentado como Juiz num trono de luz? Ai de mim! Jesus meu, houve um tempo em que eu também disse: “Crucifica-o, crucifica-o!” Foi quando Vos ofendi pelos meus pecados.
Agora arrependo-me deles mais que de todos os outros males e amo-Vos sobre todas as coisas, ó Deus de minha alma. Perdoai-me pelos merecimentos de vossa Paixão. — Ó Mãe de dores, Maria, fazei que no dia do juízo eu veja vosso Filho aplacado e não irado para comigo.
Referências:
(1) Jo 19, 5
(2) Jo 19, 6
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 400-403)

Segunda Meditação para a Segunda-feira Santa - Jesus preso à coluna e flagelado



Segunda Meditação para a Segunda-feira Santa

Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum et flagellavit – “Pilatos tomou então a Jesus e o mandou açoitar” (Jo 19, 1)
Sumário. Contemplemos como os algozes pegam dos açoites e a um sinal dado começam a bater por toda a parte em nosso divino Redentor. Seu corpo virginal primeiro torna-se roxo; depois começa a correr o sangue, e com tão grande abundância, que ficam manchados, não só os açoites, senão também as vestes dos algozes e a própria terra. Pelo que o Senhor ficou transfigurado como um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés. E nós continuaremos a acariciar esta carne rebelde?
I. Vendo Pilatos que falharam os dois meios empregados para não ter que condenar ao inocente Jesus, isto é, a remessa para Herodes e a apresentação ao lado de Barrabás, toma o alvitre de lhe dar um castigo qualquer e depois mandá-Lo embora. Convoca portanto os Judeus e lhes diz:
“Apresentastes-me este homem como um agitador; não acho, porém, n’Ele culpa alguma, nem tampouco a achou Herodes. Todavia para vos contentar mandarei castigá-Lo e depois mandá-Lo-ei embora.”
Ó Deus, que injustiça clamorosa! Declara-O inocente, e depois manda-O castigar!
Mas, qual é o castigo, ó Pilatos, a que condenas este inocente? Vais condená-Lo a ser açoitado? A um inocente infliges uma pena tão cruel e tão vergonhosa? Sim, foi o que se fez. Tunc ergo apprehendit Pilatus Iesum, et flagellavit (1) — “Então Pilatos tomou a Jesus e mandou que O açoitassem.”
— Minha alma, contempla como, depois de uma ordem tão injusta, os algozes agarram furiosos o Cordeiro mansíssimo, e entre gritos e alaridos o levam ao Pretório e o prendem à coluna. E Jesus, que faz Jesus? Todo humilde e submisso, aceita por nossos pecados o tormento tão doloroso e ignominioso. Eis como os verdugos já pegam dos açoites, e ao sinal dado levantam os braços e começam a bater por toda a parte, na carne sagrada do Senhor. — Ó algozes, estais enganados, o criminoso não é Ele; fui eu que mereci esses castigos
Ó minha alma, queres ser do número daqueles que indiferentes contemplam um Deus açoitado? Considera a dor, e mais ainda o amor com que o teu dulcíssimo Senhor padece por ti tão grande suplício. Com certeza, entre os açoites Jesus pensava em ti. Se Ele tivesse sofrido por amor de ti um golpe só, já deverias estar abrasado de amor para com Jesus e dizer: “Um Deus quis ser batido por amor de mim!” Jesus porém quis, para satisfação de teus pecados, que Lhe fossem rasgadas e dilaceradas todas as carnes, segundo a profecia de Isaías: Ipse autem vulneratus est propter iniquitates nostras (2) — “Ele foi ferido pelas nossas iniquidades”
II. O corpo virginal de Jesus primeiro torna-se todo roxo; depois o sangue começa a correr por toda a parte. Ó céus! Os algozes já Lhe rasgaram a carne toda, e sem piedade continuam a bater nas feridas e a ajuntar novas dores. Assim o mais famoso de todos os homens fica tão desfigurado, que impossível é reconhecê-Lo. Numa palavra, Jesus é reduzido a um estado tão lastimável, que parece como que um leproso, coberto de chagas desde a cabeça até aos pés: Et nos putavimus eum quasi leprosum (3) — “E nós o julgamos como que um leproso”. E para que tudo isso? Para me livrar dos suplícios eternos. Desgraçado e infeliz de quem não Vos ama, ó Deus de amor!
Mas enquanto os algozes O açoitam tão cruelmente, que faz o nosso amável Salvador? Não fala, não se queixa, não geme; mas paciente oferece tudo a Deus a fim de abrandá-Lo para conosco. Sicut agnus coram tondente se, sine voce, sic non aperuit os suum (4) — “Como um cordeiro diante do que o tosquia, emudeceu, e não abriu a sua boca”
Ah, meu Jesus, Cordeiro inocente! Os bárbaros algozes Vos Tiram, já não a lã, mas, sim, a pele e a carne. É esse o batismo de sangue pelo qual suspirastes durante a vossa vida toda. Eia, minha alma, lava-te no sangue precioso de que foi embebida aquela terra ditosa. — Meu dulcíssimo Salvador, como poderei duvidar do vosso amor, vendo-Vos todo ferido e dilacerado por meu amor? Cada chaga é uma prova inegável do afeto que me tendes. Cada ferida pede-me que Vos ame. Uma só gota do vosso sangue era bastante para a minha salvação; mas Vós quereis derramá-lo todo sem reserva, a fim de que eu também me dê a Vós sem reserva. Sim, meu Jesus, sem reserva alguma me dou todo a Vós; aceitai-me e ajudai-me a ser-Vos fiel. Fazei-o pelas dores de vossa e minha querida Mãe Maria.
Referências:
(1) Jo 19, 1
(2) Is 53, 5
(3) Is 53, 4
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 398-400)

domingo, 14 de abril de 2019

Primeira Meditação para a Segunda-feira Santa - Jesus é levado a Pilatos e a Herodes, e posposto a Barrabás



Primeira Meditação para a Segunda-feira Santa

Et vinctum adduxerunt eum, et tradiderunt Pontio Pilato praesidi – “E preso O conduziram e entregaram ao governador Pôncio Pilatos” (Mt 27, 2)
Sumário. Imaginemos ver Jesus Cristo, que em meio de uma multidão de gentalha insolente é conduzido ao tribunal de Pilatos, depois ao de Herodes e afinal novamente ao de Pilatos. Este, para livrá-Lo, apresenta-O ao povo juntamente com um ladrão e assassino; mas o povo responde: Seja livre Barrabás, e Jesus seja crucificado. Ó céus! Todas as vezes que pecamos, fizemos o mesmo, pospondo nosso Deus a um vil interesse, a um pouco de fumo, a um vil prazer.
I. Ao amanhecer, os príncipes dos sacerdotes novamente declaram Jesus réu de morte, e depois conduzem-no a Pilatos, a fim de que este O condene a morrer crucificado. Pilatos, tendo interrogado diversas vezes tanto os Judeus como nosso Salvador, reconhece que Jesus é inocente e que todas as acusações são calúnias. Sai, pois, para fora e declara que não acha em Jesus culpa alguma para condená-Lo. Vendo, porém, que os Judeus se empenhavam sumamente em fazê-Lo morrer, e ouvindo que Jesus era da Galiléia, para tirar-se dos apuros, remisit eum ad Herodem (1) — “devolveu-O a Herodes”.
Herodes ficou muito contente ao ver Jesus levado à sua presença. Esperava ver um dos muitos milagres obrados pelo Senhor e dos quais tinha ouvido falar. Interrogou-O muito, mas Jesus se calou e não lhe deu resposta alguma; castigando assim a vã curiosidade daquele insolente: At ipse nuhil illi respondebat (2). Ai da alma a qual o Senhor não fala mais.
— Meu Jesus, eu também tinha merecido este castigo, por ter resistido tantas vezes às vossas misericordiosas inspirações. Mas, meu amado Redentor, tende piedade de mim e falai-me: Loquere, Domine, quia audit servus tuus (3) — “Falai, Senhor, porque o vosso servo escuta”. Dizei-me o que desejais de mim; quero obedecer-Vos e contentar-Vos em tudo.
Herodes, vendo que Jesus não lhe respondia, desprezou-O e tratando-O como a um doido, fez escárnio d’Ele, mandando-O vestir uma túnica branca, e motejou dele com toda a sua corte, e assim desprezado e escarnecido mandou-O de novo a Pilatos. Eis que Jesus, vestido com aquele manto de escárnio, é levado pelas ruas de Jerusalém.
— Ó meu desprezado Salvador, faltava-Vos ainda esta injúria, a de ser tratado como um doido. Cristão, vede como o mundo trata a Sabedoria eterna! Feliz de quem se compraz em ser considerado pelo mundo como doido, e não quer saber outra coisa senão a Jesus crucificado, amando os sofrimentos e os desprezos! Perante Deus terá mais valor um desprezo suportado em paz por amor d’Ele, do que mil disciplinas.
II. O povo israelítico tinha direito a exigir do governador romano no grande dia da Páscoa que deixasse ir livre um dos prisioneiros. Pelo que Pilatos lhes mostrou Jesus e Barrabás, homem criminoso, dizendo: Quem vultis dimittam, vobis, Barabbam an Iesum? (4) — “Qual quereis que vos solte, Barrabás ou Jesus?” Pilatos esperava que o povo com certeza preferiria Jesus a Barrabás, um celerado, homicida e salteador, que todos deviam detestar. Mas o povo, instigado pelos príncipes da sinagoga, de repente e sem deliberar, pede Barrabás. — Pilatos, surpreso e indignado ao ver um inocente posposto a tão grande malfeitor, diz: Quid igitur faciam de Iesu? — “Que farei então de Jesus?” Todos gritam: “Seja crucificado!” Pergunta outra vez Pilatos: “Mas, que mal fez Ele?” Eles porém gritam com mais força: “Seja crucificado!” Crucifigatur!
Assim como Jesus e Barrabás foram apresentados ao povo, assim também perguntou-se ao Pai Eterno, qual Ele queria que fosse salvo, seu Filho ou o pecador. E o Pai Eterno respondeu: Morra meu Filho e seja salvo o pecador. É o que nos afirma o Apóstolo (5); é o que nos diz Jesus Cristo mesmo: Sic Deus dilexit mundum, ut Flium suum unigenitum daret (6) — “Tanto amou Deus ao mundo, que lhe deu seu Filho unigênito”. — Mas, como é que os homens correspondem a estas supremas finezas do amor?
Ai de mim, meu Senhor! Todas as vezes que cometi o pecado, fiz como os Judeus. A mim também se perguntava o que desejava: a Vós ou ao vil prazer; e respondi: Quero o prazer e pouco se me dá perder o meu Deus. É assim que falei então; mas agora estou arrependido de todo o coração, e digo que prefiro a vossa graça a todos os prazeres e tesouros do mundo. Ó Bem infinito, ó meu Jesus, amo-Vos acima de todos os outros bens; só a Vós quero e nada mais. — Ó Mãe das dores, minha Mãe Maria, impetrai-me a santa perseverança.
Referências:
(1) Lc 23, 7
(2) Lc 23, 9
(3) 1Rs 3, 10
(4) Mt 27, 21
(5) Rm 8, 32
(6) Jo 3, 16
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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 395-397)

sábado, 17 de março de 2018

DEZ REFLEXÕES DO SANTO PADRE PIO SOBRE A QUARESMA


Santo Padre Pio de Pietrelcina acompanha-nos também durante este período de mortificação, através da sabedoria de suas palavras.
1 – Precisamos entender a necessidade da guerra espiritual
Que sempre tenhamos diante de nossos olhos o fato de que aqui na Terra estamos em um campo de batalha e que é no paraíso que receberemos a coroa da vitória.
Que aqui é um banco de provas, o prêmio será outorgado lá em cima.
Que estamos agora em uma terra de exílio, enquanto nossa verdadeira pátria é o Céu a que devemos aspirar continuamente.
Satanás é um leão rugindo à procura de alguém para devorar e devemos manter isso sempre em mente durante a Quaresma.
2 – O Rosário é a arma secreta para a batalha
Empunhar o Rosário com firmeza. Ser gratos à Virgem porque foi ela quem nos deu Jesus.
Por amor à Virgem e para merecer o seu amor, rezar sempre o Rosário e com a maior frequência possível.
3 – A humildade é a chave mestra, a pureza o nosso escudo
A humildade é infinita. A pureza é poder. Imaginar a pureza e segui-la.
Estas também são armas na batalha. Humildade e pureza são as asas que nos levam a Deus e nos tornam quase divinos.
4 – Não espere êxito imediato
A vida espiritual é uma jornada longa. É o trabalho de toda a vida. Há que tomar um dia após o outro e encetar um passo de cada vez.
Se tropeças e cais, levanta-te imediatamente e segue adiante. Nunca desistas.
Na vida espiritual, deves dar um passo adiante a cada dia em uma linha vertical, de baixo para cima.
5 – Tua infelicidade não é tudo e tampouco tua felicidade é tudo
Não deixes que teus sentimentos determinem teus pensamentos sobre se estás fazendo progresso espiritual ou não.
As regras do mundo sobre felicidade e “sucesso” são completamente diferentes do progresso espiritual.
Mantenha teus olhos fixos nEle, que é teu guia para a pátria celestial, de onde Ele está a guiar-te.
O que te importa se Jesus deseja guiar-te para o céu através do deserto ou através do prado, conquanto Ele estiver sempre contigo e tu chegues a uma eternidade feliz?
6 – Desconecte das distrações para a Quaresma
Lê bons livros. Alimenta a alma.
Não me considero exigente demais se te peço mais uma vez para que estabeleças uma atividade de grande importância, ir aos livros sagrados e ler tanto quanto te sejas possível. Esta leitura espiritual é necessária para ti como o ar que respiras.
“É o limiar do Céu e o único sacrifício completo e final posto no momento presente, com seus benefícios aplicados às nossas necessidades”
7 – Preste atenção à Missa
O Senhor está presente. Não se trata apenas de uma “refeição familiar” ou uma conversa em que decidimos como vamos fazer do mundo um lugar melhor.
É o limiar do céu e o único sacrifício completo e final posto no momento presente, com seus benefícios aplicados às nossas necessidades.
Renova tua fé assistindo à missa. Mantém tua mente focada no mistério que está se desdobrando diante dos teus olhos.
O olho de tua mente irá transportar-te para o Calvário e medita sobre a vítima que se oferece à Justiça Divina, pagando o preço pela tua redenção.
Se soubéssemos como Deus se refere a este sacrifício, arriscaríamos nossas vidas por não estar presente em uma única missa.
8 – Tua disciplina durante a Quaresma
É um passo para que possas amar adequadamente as coisas que são eternas.
Portanto, não desanimes. Faze pequenos sacrifícios, mas dá-lhes de sua importância.
Aquele que se apega à terra permanece preso a ela. É pela violência que às vezes deves deixá-la.
É melhor desprender-se um pouco de cada vez, ao invés de tudo de uma só vez. Mas sempre temos que pensar no Céu.
9 – Não desanimes
Pensa que estás fazendo um bom trabalho porque Deus está fazendo isso dentro de ti.
Quando deres conta disso, esforça-te ainda mais em cooperar com a vontade de Deus e isto te levará ainda mais ao longo do caminho e com mais rapidez.
Humilhemo-nos e confessemos que se não fosse Deus nossa armadura e escudo, seríamos transpassados por todo tipo de pecados.
É por isso que temos que viver em Deus, perseverando em nossas práticas e aprender a servi-lo a nosso custo.
10 – Deves estar totalmente comprometido com o Senhor e Ele não falhará
Lembra-te da passagem da Bíblia: Confia no Senhor com todo teu coração e não te apoies em tua própria prudência. Em todos os teus caminhos, reconhece-O e Ele dirigirá o teu caminho.
Vamos tratar de servir o Senhor com todo nosso coração e vontade. Ele sempre nos dará mais do que merecemos.
Fonte:

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A lembrança da morte e o jejum quaresmal


“Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”
Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Meditação para Quarta-feira de Cinzas

Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris – “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar” (Gn 3, 19)
Sumário. Os insensatos que não creem na vida futura estimulam-se com o pensamento da morte a passarem bem a vida. De maneira bem diferente devemos nós proceder, os que sabemos pela fé que a alma sobrevive ao corpo. Nós, lembrando-nos de que em breve temos que morrer, devemos cuidar da nossa eternidade e por meio de oração e penitência aplacar a justiça divina. É com este intuito que a Igreja, depois de por as cinzas sobre a cabeça, nos ordena o jejum da Quaresma.
I. Para compreendermos em toda a sua extensão o sentido destas palavras, imaginemos ver uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro. Ó Deus, a cada um que vê este corpo, inspira nojo e horror. Não passaram bem nem vinte e quatro horas depois que aquela pessoa morreu e já o mau cheiro se faz sentir. É preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso, a fim de que o fedor não infeccione a casa toda. Os parentes com pressa mandam levar o defunto para fora da casa e entregar à terra.
Metido que foi o cadáver na sepultura, vai se tornando amarelo e depois preto. Em seguida, aparece em todos os membros uma lanugem branca e repelente, donde sai um pus infecto que corre pela terra e donde se gera uma multidão de vermes. Os ratos veem também procurar o pasto neste cadáver, roendo-o uns por fora, ao passo que outros entram na boca e nas entranhas. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; escarnam-se os braços e as pernas apodrecidas, e afinal os vermes, depois de consumidas todas as carnes, consomem-se a si próprios. E deste corpo só restará um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, ficando reduzido a um punhado de pó.
Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos: Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.
II. Os insensatos que não creem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem. Comedamus et bibamus; cras enim moriemur (1) — “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo e que, depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. — O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: Canite tuba in Sion: sanctificate ieiunium (2) — “Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum”.
Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma “mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos” (3); e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, “sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”.
Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una a minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante” (4), a fim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.
Referências:
(1) Is 22, 13
(2) Joel 2, 15
(3) Hymn. Quadr.
(4) Or. Fer. curr.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 288-290)

Sermão sobre a Quaresma - São Leão Magno




Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo.

Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu Mestre.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

[Aviso] Práticas quaresmais



Prezados, Salve Maria!
Falta uma semana para o início da Quaresma. É preciso pensar nas práticas Quresmais e fazer resoluções que realmente ajudem no amor a Deus e ao próximo. A Igreja recomenda, em geral, três tipos de práticas:
1) Oração. Por exemplo, rezar o terço todos os dias (se ainda não faço), ou fazer uma boa leitura espiritual sólida e segura (se ainda não faço), ou fazer meditação católica todos os dias (se ainda não faço), ou rezar a via-sacra alguns dias da semana (definir os dias), ou rezar a coroa das dores de Nossa Senhora.
2) Penitência. Por exemplo, pode ser ao relacionado à comida, mas pode ser também com relação à internet, a redes sociais, a whatsapp, todas essas coisas que, de modo geral, nos atrapalham bastante na vida espiritual, se não são muito bem reguladas, o que é difícil de fazer. Pode ser também com relação a assistir futebol (esporte em geral) ou ver notícias disso para os homens, o que faz perder um tempo imenso com futilidade. Para as mulheres, deixar, por exemplo, de buscar informações fúteis sobre outras pessoas na internet e fora dela. E são coisas que podem durar depois da Quaresma.
3) A caridade para com o próximo. Sobretudo no seio da família. Fazer algum bem material ou espiritual ao próximo, ter mais paciência com o próximo (marido com esposa e vice-versa), evitar falar mal do próximo, rezar por pessoas específicas e com maior intensidade, rezar por quem nos fez algum mal.
Escolher algo bem determinado e concreto em cada uma dessas frentes. E combater seriamente todo pecado, sobretudo o que mais nos atrapalha na união com Deus.
E que se façam os propósitos por amor a Deus, para avançar na santidade, na virtude e também em reparação pelos nossos pecados. Assim, receberemos graças abundantes na Quaresma, na Páscoa e ao longo da vida. As resoluções de Quaresma não obrigam, por si, sob pena de pecado.
Deus abençoe. Padre Daniel Pinheiro, IBP.

Fonte:

quarta-feira, 8 de março de 2017

“Via Crucis”

Que a fraqueza do Redentor que o prostrou por terra, seja a nossa fortaleza, e não nos permita aceitar um meio-catolicismo ao sabor da sensualidade feito mais de quedas do que de virtudes


ORAÇÃO PREPARATÓRIA
Dom Antônio de Castro Mayer: Meu Senhor Jesus Cristo, disponho-me a acompanhar-Vos no caminho que trilhastes do pretório de Pilatos ao Calvário, para Vos imolardes por minha salvação. Peço-Vos a graça de nos conceder grande dor e arrependimento de ter pecado, causando vossos atrozes sofrimentos, e que vosso Sangue preciosíssimo infunda em minha alma o propósito firme de nunca mais pecar.
ANTES DE CADA ESTAÇÃO
Dirigente: Nós Vos adoramos, Senhor, e Vos bendizemos;
Todos: Porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.
No final da consideração, depois da Ave Maria:
Todos: PESA-ME, SENHOR, de todo o meu coração ter ofendido a vossa infinita bondade, proponho com vossa graça a emenda, e espero que me perdoeis por vossa infinita misericórdia. Amém.
Dirigente: Compadecei-vos de nós, Senhor!
Todos: Compadecei-vos de nós!
Dirigente: Que as almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
Todos: Amém.
OBS.: O FIEL DEVE FICAR:
DE PÉ: Durante o Cântico e a Leitura do Texto.
DE JOELHOS: Durante a leitura do texto da 12.ª Estação e demais orações.
I ESTAÇÃOA morrer crucificado
Teu Jesus é condenado
Por teus crimes, pecador.
Jesus é condenado à morte
Dirigente: Cedendo aos clamores dos judeus, Pilatos condenou Jesus à morte na Cruz.
O que levou os judeus a pedirem a morte de Jesus Cristo foi sua infidelidade. Quiseram seguir uma religião do seu agrado, e não a Religião revelada pelo Filho de Deus humanado. Nisto imitaram a desobediência de Adão e a rejeição da vontade de Deus.
Nós estamos na mesma miserável condição. Humilhemo-nos e peçamos a Nossa Senhora nos alcance a graça de sermos fiéis à Santíssima Vontade de seu Divino Filho.
Ave Maria…
II ESTAÇÃOCom a cruz é carregado
E do peso acabrunhado:
Vai morrer por teu amor.
Jesus com a Cruz às costas
Dirigente: Depois da vigília no Horto das Oliveiras e da atrocíssima flagelação, Jesus se submete ainda ao sacrifício de carregar a Cruz até aa Calvário.
Jesus o fez para reparar os nossos pecados. Aprendamos que sem sacrifício e o habitual espírito de mortificação, nossa religião é vã, vazia, sem merecimento. Peçamos a Nossa Senhora a graça de aceitar com alegria as mortificações que nos impõe o cumprimento de nossos deveres de estado.
Ave Maria…
III ESTAÇÃOPela Cruz tão oprimido,
Cai Jesus desfalecido
Pela tua salvação.
Jesus cai pela primeira vez
Dirigente: Já esgotado pela insônia, fome e perda de sangue, Jesus sucumbe ao peso da cruz e cai por terra.
Nos desígnios de Deus, esta queda é para descontar as ofensas de nossos pecados, e para nos alertar contra nossa presunção. Por nós mesmos só vamos de pecado em pecado, de queda em queda.
Peçamos a Nossa Senhora nos alcance a graça da vigilância na oração e na fuga das ocasiões de pecado.
Ave Maria…
IV ESTAÇÃODe Maria lacrimosa,
Sua Mãe tão dolorosa,
Vê a imensa compaixão.
Jesus encontra-se com sua Mãe Santíssima
Dirigente: Na agonia, do Horto do Getsêmani e no processo infame a que foi submetido seu Divino Filho, esteve ausente Maria Santíssima. Quando, porém, vai Ele consumar o sacrifício da redenção do mundo. Ela se apresenta. É que ambos, Jesus e Maria, no decretos do Altíssimo, estão como identificado na missão redentora do homem. É como Mãe dos remidos que Maria coopera na obra da salvação.
É a esta Mãe que recorremos para nos assegurar a fidelidade a seu Divino Filho, e meio da sociedade paganizada que nos envolve
Ave Maria…
V ESTAÇÃOEm extremo desmaiado,
Deve auxílio, tão cansado,
Receber do Cirineu.
Simão Cirineu ajuda Jesus a levar a Cruz
Dirigente: A breve trecho, no caminho do Calvário, convencem-se os verdugos do Salvador de que pela extrema debilidade, conseqüência das torturas a que tinha sido submetido, Jesus Cristo não estava em condições de carregar o seu patíbulo até ao cimo do monte. Forçaram Simão de Cirene a carregar a cruz do Salvador.
Nossa salvação, por vontade de Deus, não se realiza sem nossa cooperação. Precisamos, a nosso modo, ajudar Jesus Cristo a carregar a Cruz. E o fazemos quando não nos conformamos com a maneira de proceder de uma sociedade que, na prática, se afastou da austeridade cristã. Que Nossa Senhora nos alcance esta graça.
Ave Maria…
VI ESTAÇÃOO seu rosto ensanguentado,
Por Verônica enxugado,
Eis no pano apareceu.
Verônica enxuga a face de Jesus
Dirigente: Do meio daquela multidão sádica que formava o séquito nefando do Salvador no caminho do Calvário, destaca-se uma mulher forte que, arrostando a arrogância dos soldados, aproxima-se de Jesus e com uma toalha Lhe limpa o sagrado rosto desfigurado pelo sangue da coroa de espinhos pelos escarros dos sicários do Sinédrio e pelas bofetadas da soldadesca bestial.
Admiremos envergonhados a fortaleza desta mulher e peçamos a Nossa Senhora nos alcance a graça de nunca trairmos por respeito humano nossa religião, com nosso procedimento.
Ave Maria…
VII ESTAÇÃOOutra vez desfalecido,
Pelas dores abatido,
Cai em terra o Salvador.
Jesus cai pela segunda vez
Dirigente: Não obstante o auxílio do Cirineu, a enorme fraqueza do Salvador fê-lo cair uma segunda vez no caminho do Calvário.
Esta segunda queda do Salvador lembra nossas repetidas culpas e, de outro lado, da infinita misericórdia de Deus que só espera nosso arrependimento para nos soerguer.
Que a fraqueza do Redentor que o prostrou por terra, seja a nossa fortaleza, e não nos permita aceitar um meio-catolicismo ao sabor da sensualidade feito mais de quedas do que de virtudes.
Ave Maria…
VIII ESTAÇÃODas matronas piedosas,
De Sião filhas chorosas
É Jesus consolador.
Jesus consola as filhas de Jerusalém
Dirigente: Ao ver os tormentos a que os sicários do Sinédrio submetiam Jesus no caminho do Calvário, umas piedosas mulheres de Jerusalém não contiveram as lágrimas e expandiram em altos prantos suas consternação. Jesus, agradecido, exortou-as a que tornassem profícuos seus prantos, chorando mais por elas e seus filhos, do que por Ele.
O que Jesus deseja é a nossa salvação. Por isso ferem-Lhe mais nossos pecados do que O afligem as chagas de seu corpo ou Lhe pesa a coroa de espinhos. “Chorai por vós e por vossos filhos” – nos repete o Senhor, quando nos vê mais preocupados com nossas moléstias e os bens terrenos do que com os nossos pecados. Abra-nos os olhos a virgem Santíssima para purificar nosso catolicismo.
Ave Maria…
IX ESTAÇÃOCai terceira vez prostrado,
Pelo peso redobrado
Dos pecados e da cruz.
Jesus cai pela terceira vez
Dirigente: Novamente a extrema debilidade prostra a Jesus por terra. É mais uma humilhação que se junta a todas, as outras igualmente atrozes a que se sujeitou o Salvador na sua Paixão.
Fê-lo por nosso amor, nossa salvação, mas também para que compreendêssemos que, sem a aceitação amorosa das humilhações que Nosso Senhor nos envia, não participamos da Redenção, porquanto não nos assemelhamos a Jesus Cristo.
Que a Virgem Santíssima, Mãe das Dores, nos compenetre desta verdade.
Ave Maria…
X ESTAÇÃODos vestidos despojado,
Por verdugos maltratado
Eu Vos vejo, meu Jesus.
Jesus é despojado de suas vestes
Dirigente: Chegado ao Calvário, foi , Jesus despudoradamente despido de suas vestes pela soldadesca imunda.
Jesus, o cândido lírio da inocência, mais branco, mais puro do que o mais puro arminho e que a mais branca neve, é apresentado nu aos olhos da multidão, tendo apenas para velar seu corpo sagrado a túnica do seu sangue sacrossanto.
Foi certamente a mais sensível das humilhações a que nossos pecados submeteram o Filho de Deus. No entanto, é a humilhação a que mesmo as pessoas que se dizem cristãs e tementes a Deus, continuam a submeter o Divino Salvador. A Virgem Mãe, pureza alvinitente, nos alcance o apego ao recato, à modéstia, ao comedimento, que são as condições indispensáveis para a prática da virtude.
Ave Maria…
XI ESTAÇÃOSois por mim à Cruz pregado,
Insultado, blasfemado
Com cegueira e com furor.
Jesus é pregado na Cruz
Dirigente: Estirado Jesus sobre a Cruz, esticaram-Lhe violentamente os membros e os cravaram no madeiro com grossos e pontiagudos cravos.
O suplício da Cruz era reservado aos escravos, com os quais era legítimo não ter a menor comiseração. Além disso, Jesus Cristo foi crucificado entre dois ladrões, como a indicar – diz S. Boaventura – que era o pior deles.
Tudo concorria para levar aos extremos os sofrimentos físicos e morais do Divino Salvador. Cravado na Cruz após a flagelação e coroação de espinhos, não é possível imaginar sofrimentos mais atrozes. Considerado malfeitor vil e abjeto como os crucificados, é impossível humilhação maior.
Pois esses sofrimentos, essas humilhações foram o preço de nossos pecados. Foi assim que Ele nos libertou da escravidão do demônio da morte eterna, e nos mereceu o céu no seio de Deus.
Com o coração agradecido, aprendamos a apreciar as humilhações e os sofrimentos com que Deus purifica a nossa alma, especialmente quando exigidos pelo cumprimento dos deveres de nosso estado.
Ave Maria…
XII ESTAÇÃOPor meus crimes padecestes.
Meus Jesus, por mim morrestes.
Como é grande a minha dor!
Jesus morre na Cruz
Dirigente: Depois de três horas de tormentosa agonia, Jesus inclinou a cabeça e morreu.
Consumou-se o sacrifício. O véu do templo rasgou-se de alto a baixo anunciando a abolição da lei mosaica substituída pela lei de Cristo que a aperfeiçoa e supera, e atinge todos os homens.
Exclama São Paulo: “Estou pregado na cruz com Cristo.” É este também o ideal da vida do fiel: unir-se a Jesus Crucificado. Ou seja, tomar o caminho da renúncia de si mesmo na obediência aos legítimos superiores, nas humilhações, no espírito de mortificação, nos sacrifícios exigidos para o cumprimento dos próprios deveres. São as disposições da alma que pedimos à Virgem Santíssima presente ao pé da Cruz.
Ave Maria…
XIII ESTAÇÃODo madeiro Vos tiraram
E à Mãe Vos entregaram,
Com que dor e compaixão.
Jesus é descido da Cruz
Dirigente: Nicodemos e José de Arimatéia obtiveram de Pilatos o corpo de Jesus. Cuidadosamente O retiraram da Cruz e O entregaram à sua Mãe, Maria Santíssima, a quem Ele pertencia por direito materno.
A Virgem Mãe contemplou em silêncio a retidão profunda daquele rosto sempre senhor de si mesmo, embora desfigurado pelos atrozes sofrimentos e morte violenta. Contemplou, adorou, e O apresentou ao Padre Eterno como propiciação pelos nossos pecados, nossos de seus filhos adotivos.
Habituemo-nos a viver com Maria. Ela nos levará a Jesus. Ela nos dará sua graça e seu vigor para triunfarmos da multidão dos atrativos para o mal que emergem de uma sociedade imersa no egoísmo e na sensualidade.
Ave Maria…
XIV ESTAÇÃONo sepulcro Vos deixaram,
Sepultado Vos choraram,
Magoado o coração.
Jesus é depositado no sepulcro
Dirigente: Atendida a exigência de seu direito materno, Maria Santíssima acompanho o enterro de Seu Divino Filho organizado por Nicodemos e José de Arimatéia. Foi Ele deposto num sepulcro novo, aberto na rocha, no qual ninguém tinha ainda sido sepultado.
Sobre todos desceu um ambiente de paz que sepultou o alarido da multidão infrene, quando pedia a morte do Salvador.
A paz do Senhor é a paz de consciência que repercute no homem todo, dando-lhe a sensação de um profundo bem-estar. Esta paz encontramo-la quando desalojamos de nosso coração os sentimentos egoístas e sensuais para enche-lo de caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Virtude que obteremos pela intercessão de Maria Santíssima.
Ave Maria…
Meu Jesus, por vossos passos,
Recebei-me em vossos braços,
A mim, pobre pecador.
ORAÇÃO FINAL À VIRGEM DOLOROSA
Ó Maria, minha Mãe, compartilho conVosco as dores e sofrimentos que suportastes no corpo e na alma, ao acompanhardes Vosso Divino Filho no caminho do Calvário, e ao assistirdes à sua dolorosa e humilhante morte na Cruz.
Peço-Vos que me guardeis sob vossa proteção para que não torne a pecar, renovando a Paixão de Vosso Divino Filho.
(Padre-Nosso e Ave-Maria, na intenção do Sumo Pontífice para se lucrarem as indulgências).
Pela Virgem Dolorosa,
Vossa Mãe tão piedosa,
Perdoai-me, meu Jesus!

Publicado originalmente em 2010 por Fratres in Unum.