sábado, 13 de abril de 2019

A REAÇÃO CATÓLICA

Mons. Louis-Gaston de Ségur
Somos reacionários? Não, se por reacionários entendemos os espíritos amuados, sempre ocupados em lamentar o passado, o antigo regime, a Idade Média. “Ninguém, bem dizia o bom Nicodemos, pode retornar ao ventre de sua mãe para nascer novamente”; sabemo-lo muito bem, e não desejamos o impossível.
Sim, somos reacionários, se se entende por isso os homens de fé e de coração, católicos antes de tudo, que não transigem nenhum princípio, não abandonam nenhuma verdade, respeitando, em meio às blasfêmias e ruínas revolucionárias, a ordem social estabelecida por Deus, decididos a não recuar um passo sequer diante das exigências de um mundo pervertido, e guardando como um dever de consciência a reação anti-revolucionária.
Dizemo-lo a toda hora, a Revolução é o grande perigo que ameaça a Igreja hoje. Seja o que digam os mistificadores, este perigo está às nossas portas, no ar que respiramos, em nossas ideias íntimas. À véspera de grandes catástrofes, sempre se encontram estes incompreensíveis cegos, surdos e mudos, que querem nada ver, nada compreender. “Está tudo bem, dizem eles; o mundo jamais foi tão esclarecido, a fortuna pública tão próspera, o exército tão bravo, a administração melhor organizada, a indústria mais florescente, as comunicações mais rápidas, a pátria mais unida”. Eles não enxergam, não querem ver que esta ordem material acoberta uma profunda desordem moral, e que a mina prestes a desabar é a base do edifício. Mistificados e mistificadores, eles abandonam a defesa, deixam-na aos demais e oferecem à Revolução a Igreja desarmada. (continue a ler)
Todavia, é mais claro que o dia, a Revolução é o anticristianismo que chama a si todas as forças inimigas da Igreja: incredulidade, protestantismo, cesarismo, galicanismo, racionalismo, naturalismo, falsa política, falsa ciência, falsa educação: “Tudo isto é meu, tudo é obra minha, brada a Revolução; marchemos todos contra o inimigo comum! Não mais o papa, nem a Igreja; enfraquecimento do julgo católico, emancipação da humanidade!”.
Eis o terrível adversário contra o qual cada cristão é obrigado a reagir, como nós já dizemos, com toda a energia que dá o amor de Deus, unido ao verdadeiro patriotismo. Eis o inimigo comum; ele vai vencer ou perder.
Como venceremos? Primeiramente, repito, não se acobardando. Um cristão, um católico, um homem honesto não deve temer senão a Deus. Ora, Deus está conosco, e estamos certos de vencer cedo ou tarde. Talvez será necessário o sangue como aos primeiros séculos, o sangue e as humilhações e sacrifícios de todo gênero; seja. Mas nós terminaremos por vencer: “Tenham confiança, eu venci o mundo: Confidite, ego vici mundum!”.
Em segundo lugar, devemos pôr a serviço da grande causa todas as influências, todos os meios dos quais podemos dispor. Se, pela nossa posição social, podemos exercer uma grande ação sobre a sociedade, seja por nossa escrita, seja por outro meio legítimo, não faltemos ao nosso dever católico de homem público. Façamos o bem numa maior escala possível.
Se só podemos exercer uma ação individual e restrita, evitemos crer que esta influência está perdida em meio a um turbilhão. O oceano é formado de gotas reunidas, e foi convertendo os indivíduos que a Igreja teve êxito, após três séculos de uma indubitável paciência, a converter, a transformar o mundo. Façamos o mesmo; frente à Revolução, universal como o paganismo d´outrora, procuremos, mesmo individualmente, “o reino de Deus e sua justiça, e todo o resto nos será dado abundantemente”. Jovens, homens feitos, idosos, crianças. Mulheres, meninas; ricos, pobres; padres, laicos, quem quer que sejamos, trabalhemos com confiança, e façamos a obra de Deus; se o mundo se enche de santos, se a maioria dos membros que compõe a sociedade torna-se profundamente católica, a opinião pública reformará por si e sem abalos esta sociedade que perde-se, e a Revolução desaparecerá.
Tenhamos para o bem a energia que a Revolução emprega para o mal. Nós queremos-lo dizer a toda hora aos filhos das trevas: “O trabalho que nós temos empreendido não é obra de um dia, nem de um mês, nem de um ano; ele pode durar muitos anos, um século talvez; mas em nossas posições, o soldado morre e o combate continua. Não nos acovardaremos nem por um choque nem por um revés; é de derrota em derrota que alcançaremos a vitória”.
Filhos da luz, tomem esta regra para vós, e apliquem-na com o zelo do amor. A Igreja é pobre: vós sois ricos, dai-a vosso ouro; vós sois pobres: parti com ela vosso pão. A Igreja é atacada com armas em punho: um sangue generoso corre pelas vossas veias; oferecei vosso sangue. A Igreja é indignamente caluniada: vós possuís uma voz, faleis; uma pena, escreveis para sua defesa. A Igreja está abandonada, traída por aqueles que se dizem seus filhos. Sua confiança está em Deus somente: implorai por vossas preces o auxílio do alto. Que nossa divisa para todos seja a bela palavra de Tertuliano: “Hoje todo católico deve ser soldado: In his omnis homo miles”.
Antes de tudo, é preciso, no século em que vivemos, se moldar com cuidado o espírito e a inteligência; é necessário apoiar sua vida sobre os princípios puramente católicos, a fim de não serem levados, como tantos outros, por todo alento de doutrina. Quase todos os jovens que se assentam nas ideias liberais e revolucionárias carecem de princípios refletidos e sérios cuja fé seja inamovível neste ponto de partida. Uma terrível responsabilidade pesa desta feita nos homens encarregados de instruir a juventude; há muito tempo a educação e o ensino são o berçário secreto da Revolução.
Prestemos atenção às nossas leituras. Há poucos livros bons, livros verdadeiramente puros em matéria de princípios, sobretudo de princípios políticos e sociais. Quase todos desconhecem totalmente a missão social da Igreja; ou repudiam-na, ou não se dignam a comentá-la. Não tendo mais, como ponto de partida, que a autoridade divina, eles são forçados a fazer tudo se basear somente no homem; sobre o soberano, se são monarquistas, e é o absolutismo ou o cesarismo; se forem democratas, sobre a soberania do povo, e é a Revolução propriamente dita. Duma ou d´outra parte, erro fundamental, princípio social anticristão. Os mais perigosos destes livros, pelo menos para os leitores honestos, não são os panfletos explicitamente ímpios; são antes os livros de falsa doutrina moderada, que concordam com a Igreja num certo aspecto. 1789 é mais perigoso que 1793.
Desconfiai sobretudo dos livros de história. Há poucos anos apenas, uma feliz reviravolta valeu-nos algumas obras preciosas que há pouco bastaram para dissipar os preconceitos e os erros. Há três séculos a história foi transformada pelos ódios protestantes, e mais tarde pelo voltairianismo, numa verdadeira máquina de guerra contra o cristianismo. Ela tornou-se, disse o conde de Maistre, “numa conspiração permanente contra a verdade”.
O que é verdadeiro para os livros aplica-se aos jornais, esta peste pública que envenena o mundo inteiro. Quase todos são os campeões juramentados ou secretos da Revolução. Nada é mais perigoso que a leitura de um jornal não-católico; repetido a cada dia, ela insinua-se pronta e profundamente nas cabeças mais sólidas, e termina por falsear seu julgamento. Suplico-vos, não crediteis nenhum destes folhetins, e menos ainda a aqueles que cobrem suas más doutrinas duma máscara de honestidade, e se pretendem conservadoras. “Não há água pior que aquela que estagna”.
Enfim, recomendo aos jovens uma instrução religiosa muito forte e sólida. Não ouso falar-lhes da Suma de Santo Tomás, obra-prima incomparável, resumindo, numa magnífica ordem, toda a doutrina religiosa, toda a tradição católica; as inteligências tanto se degradaram, desde que a fé não sustenta mais a razão, que esta não está em condições de compreender hodiernamente o que este grande Doutor oferecia aos estudantes da Idade Média como “leite para os iniciantes!”.
As luzes do espírito não bastam; é necessário por outro lado a santidade do coração. Todo homem que quer reagir seriamente contra o mal que nos devora deve viver na verdade cristã, levar uma vida pura, inocente, distante do mundo, e animada do espírito do Evangelho; ele deve rezar muito, comungar freqüentemente, e buscar em suas fontes vivas a verdadeira vida cristã e católica. Os homens de fé, de oração e caridade possuem o segredo das grandes vitórias.
Tal deve ser a nossa reação contra a sedução dos falsos princípios e contra o arrebatamento universal. Tal é nosso dever a todos, dever pelo qual prestaremos contas a Deus quando aparecermos diante Dele. Este dever diz respeito antes de tudo àqueles que direta ou indiretamente encarregam-se das almas: os pastores da Igreja, os bispos e os padres, os doutores do povo cristão, incumbidos por Deus do cuidado de instruir os homens de todos os seus deveres, e de proteger-lhes contra as ciladas da mentira; os chefes de Estado, que devem, como já vimos, velar pela salvação dos povos, facilitando à Igreja sua missão redentora; os pais e as mães, cujo ministério consiste antes de tudo fazer de seus filhos cristãos sólidos e homens devotados.
Que Deus bendiga nossos esforços! e que o mundo, uma vez mais, seja salvo pelos cristãos!
Retirado de La Révolution expliquée aux jeunes gens, capítulo 23, 1861.
Tradução: Permanência – Adquira esse livro na nossa livraria

quinta-feira, 11 de abril de 2019

"As tentações não te devem assustar" Padre Pio




As tentações não te devem assustar; por elas Deus quer testar e fortificar a tua alma e ao mesmo tempo dá-te a força de as vencer. Até aqui, a tua vida foi como a de uma criança; a partir de agora, o Senhor quer tratar-te como adulto. Ora, as provações de um adulto são muito superiores às duma criança, e é por isso que, a princípio, te sentes tão perturbado. Mas a vida da tua alma encontrará rapidamente a sua calma. Tem um pouco de paciência e tudo correrá pelo melhor.


Deixa, pois, de lado essas vãs preocupações. Lembra-te de que não é a sugestão do maligno que faz o mal, mas o consentimento dado às suas sugestões. Só uma vontade livre é capaz da fazer o bem ou o mal. Mas, quando a vontade geme sob a provação infligida pelo Tentador, se não quer o que lhe é proposto, isso não é falta mas virtude.

Guarda-te de cair na agitação ao lutar contra as tentações, pois isso só as fortalecerá. É preciso tratá-las com desprezo e não lhes ligar. Volta o teu pensamento para Jesus crucificado, para o seu corpo deposto nos teus braços e diz: «Eis a minha esperança, a fonte da minha alegria! Ligo-me a Ti com todo o meu ser, e não Te deixarei enquanto não me colocares em segurança.»

São (Padre) Pio de Pietrelcina in Ep 3, 626 e 570; CE 34

Jesus é preso, ligado e conduzido a Jerusalém


Prisão de Jesus (Cavalier d’Arpino)
Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos
para se fazer a Oração Mental proposta por Santo Afonso!
Comprehenderunt Iesum et ligaverunt eum – “Eles prenderam a Jesus e o ligaram” (Jo 18, 12)
Sumário. Imaginemos ver a Jesus, que, abandonado de seus discípulos, é preso, ligado e levado a desoras e com grande tumulto pelas ruas de Jerusalém. Ao verem-No assim, todos que O veneraram, já O odeiam e se envergonham de O terem tido pelo Messias. Se nós, à vista de um Deus tão humilhado por nosso amor e para nosso ensino, ainda amarmos os bens fugazes da terra, ambicionarmos as honras e preeminências, não somos dignos do nome de cristãos.
I. O Redentor, sabendo que Judas se aproximava, acompanhado dos Judeus e dos soldados, levanta-se, banhado ainda no suor da agonia mortal. Com o rosto pálido, mas com o coração todo abrasado em amor, vai-lhes ao encontro para se lhes entregar nas mãos, e vendo-os chegados perto, diz: Quem quaeritis? — “A quem buscais?” — Afigura-te, minha alma, que neste momento Jesus te pergunta também: Dize-me, a quem buscas? Ah, meu Senhor, a quem poderei buscar senão a Vós, que descestes do céu à terra para me buscar e não me ver perdido?
Comprehenderunt Iesum, et ligaverunt eum — “Eles prenderam a Jesus e o ligaram”. Ó céus, um Deus ligado! Que diríamos, se víssemos um rei preso e ligado pelos seus servos? E que dizemos agora vendo um Deus entregue às mãos da gentalha? Ó cordas bem-aventuradas! Vós que ligastes o meu Redentor, ah! Liga-me a Ele, mas liga-me de tal modo que nunca mais me possa separar de seu amor. — Considera, minha alma, como um lhe liga as mãos, outro o injuria, mais outro o empurra, e o Cordeiro inocente se deixa ligar e empurrar quanto quiserem. Não procura fugir das mãos deles, não chama por auxílio, não se queixa de tantas injúrias, nem mesmo pergunta por que é tratado assim. Eis, pois, realizada a profecia de Isaías: Oblatus est quia ipse voluit, et non aperuit os suum; sicut ovis ad occisionem ducetur (2) — “Foi oferecido, porque ele mesmo quis, e não abriu a sua boca; ele será levado como uma ovelha ao matadouro”.
Mas onde é que se acham os seus discípulos? Que fazem? Já não podendo livrá-Lo das mãos de seus inimigos, ao menos que o tivessem acompanhado para defenderem a inocência de Jesus perante os juízes, ou sequer para o consolarem com a sua presença! Mas não; o Evangelho diz: Tunc discipuli eius, relinquentes eum, omnes fugerunt (3) — “Então os seus discípulos desamparando-O, fugiram todos”. Qual não devia ser a tristeza de Jesus, vendo que até os seus discípulos queridos fugiam e O desamparavam? Mas, ó céus, então o Senhor viu ao mesmo tempo todas aquelas almas que, sendo por Ele mais favorecidas, haviam de abandoná-Lo depois e de Lhe virar as costas.
II. Ligado como um malfeitor, o nosso Salvador entra em Jerusalém, onde poucos dias antes fora aclamado com tantas honras e louvores. Passa a desoras pelas ruas, entre lanternas e tochas, e tão grande é o alarido e tumulto, que todos deviam pensar que se levava qualquer grande criminoso. A gente chega à janela e pergunta: quem é que foi preso? e respondem-lhe: Jesus, o Nazareno, que foi desmascarado como sendo um sedutor, um impostor, um falso profeta e réu de morte. — Quais não deviam ser então em todo o povo os sofrimentos de desprezo e indignação, quando viram Jesus Cristo, acolhido primeiro como o Messias, preso por ordem dos juízes, como impostor!
Ah! Como se trocou então a veneração em ódio, como se arrependeu cada um de O ter honrado, envergonhando-se de ter honrado um malfeitor, como se fosse o Messias! — Eis, pois, a que estado se reduziu o Filho de Deus para nos mostrar o nada das honras e dos aplausos do mundo! E como é que eu, apesar de ver um Deus tão humilhado e injuriado por meu amor, como é que eu hei de viver tão amante dos bens fugazes da terra, ambicionar as honras, as dignidades, as preeminências, e não saber sofrer o mínimo desprezo? Ai de mim, pecador e soberbo!
Donde, ó meu Senhor, me pode vir tamanho orgulho, depois que mereci tantas vezes o inferno? Meu Jesus, suplico-Vos pelos merecimentos dos desprezos que sofrestes, dai-me a graça de Vos imitar. Proponho com o vosso auxílio reprimir de hoje em diante todo o ressentimento e receber com paciência, alegria e contentamento todas as humilhações, todas as injúrias e todas as afrontas que me possam ser feitas. Proponho, além disso, para Vos agradar, fazer todo bem possível a quem me despreza; ao menos falarei sempre bem dele e rogarei por ele. Vós, ó meu Senhor, pelas dores de Maria Santíssima, fortalecei estes meus propósitos e dai-me a graça de Vos ser fiel.
Referências:
(1) Is 53, 7
(2) Mc 14, 50

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 385-387)

segunda-feira, 8 de abril de 2019

A Selva - Máximas Espirituais para um padre



   Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


APÊNDICE

Máximas Espirituais
Para um padre


Antes perder tudo, que perder a Deus.
Antes desagradar a todo o mundo, que desagradar a Deus.
Só é para temer o pecado, que nos deve causar horror.
Antes morrer do que cometer com advertência um só pecado, mesmo venial.
Tudo acaba; o mundo é uma cena, que passa depressa.
Cada momento vale um tesouro para a eternidade.
O que apraz a Deus é bom.
Fazei o que quereríeis ter feito à hora da morte.
Vivei como se no mundo só houvesse Deus e vós.
Só Deus contenta o homem.
Nenhum bem há senão Deus; nenhum mal senão o pecado.
Nada façais para vossa própria satisfação.
Quem mais se mortifica nesta vida, mais gozará na outra.
Para os amigos de Deus, o amargo é doce e o doce é amargo.
É nas doenças que se vê quem tem virtude.
Quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer.
A vontade de Deus torna doce o que é amargo.
Quem nada deseja do mundo, de nada tem necessidade.
Não retardeis o cumprimento dos vossos bons propósitos, se não quereis atrasar.
Perturbar-se com as faltas cometidas não é humildade, mas orgulho.
Só somos o que somos diante de Deus.
Quem ama a Deus, mais deseja amar do que saber.
Quem quer santificar-se, deve banir do seu coração tudo quanto não é Deus.
Não é todo de Deus quem busca alguma coisa que não é Deus.
A dor, a pobreza e a humilhação foram as companheiras de Jesus Cristo; que sejam também as nossas.
Venha donde vier, nunca a perturbação vem de Deus.
O humilde crê-se indigno de toda a honra e digno de todo o desprezo.
Quando se pensa no inferno que se mereceu, sofrem-se com resignação todas as penas.
Esquecei-vos a vós mesmos, e Deus pensará em vós.
Amai os desprezos, e encontrareis a Deus.
Quem se contenta com um bem mínimo, não está longe do mal.
A quem procura ser estimado, estima Deus pouco.
Os santos falam sempre de Deus; sempre dizem mal de si próprios, e sempre bem dos outros.
Os curiosos são sempre dissipados.
Desgraçado de quem ama mais a saúde que a santidade!
Sempre o demônio anda à caça dos ociosos.
Um padre vaidoso é uma pela nas mãos do demônio.
Quem quer estar em paz, deve mortificar todas as suas paixões, sem excetuar uma só.
S. José Calasâncio dizia: “Um servo de Deus fala pouco, trabalha muito e sofre tudo”.
Cuidam os santos de ser santos, e não de o parecerem.
Quem não amar muito a oração, jamais chegará a um alto grau de perfeição.
Primeiro se há de ser reservatório para recolher, e depois canal para difundir.
Todo o apego impede de ser inteiramente de Deus.
É Jesus Cristo e o seu beneplácito que o padre deve trazer diante dos seus olhos, e nada mais.
Nas obras que falam à vista se esconde muitas vezes o orgulho.
Oferecer-se por completo a Deus é uma excelente preparação para a comunhão.
Quando andardes por lugares povoados, conservai os olhos baixos; pensai que sois padre e não pintor.

domingo, 7 de abril de 2019

Quem ama a Jesus Cristo...



A caridade tudo crê


QUEM AMA A JESUS CRISTO, CRÊ TODAS AS SUAS PALAVRAS


1. - Uma pessoa que ama, dá crédito a tudo o que diz o amado, e, por isso, quanto maior é o amor duma alma a Jesus Cristo, tanto mais firme e viva é a sua fé. O bom ladrão, vendo o nosso Redentor que estava na cruz morrendo sem culpa, e sofrendo com tanta paciência, começou a amá-lo. Por isso, movido deste amor e iluminado depois pela luz divina, creu ser Ele verdadeiramente o Filho de Deus, e por esta razão lhe pediu se lembrasse dele, quando entrasse em seu reino.

2. - A fé é o fundamento da caridade, mas a caridade depois é que aperfeiçoa a fé. Quem mais perfeitamente ama a Deus, mais perfeitamente crê. A caridade faz que o homem creia não só com a inteligência, mas também com a vontade. Muitos creem com a inteligência, mas não com a vontade, como são os pecadores, os quais sabem serem mais que certas as verdades da fé, mas depois não querem viver segundo os divinos preceitos. Estes têm uma fé muito fraca, pois que, se tivessem uma fé viva, crendo que a divina graça é um bem maior do que todo o bem, e que o pecado é um mal maior do que todo o mal, porquanto nos priva da graça divina, com certeza mudariam de vida. Se, pois, preferem a Deus os míseros bens deste mundo, é porque não creem, ou muito fracamente creem. Aqueles que, pelo contrário, creem não só com a inteligência, mas ainda com a vontade, de modo que não só creem, mas querem crer em Deus revelador pelo amor que Ele lhes tem, e gostam de crer, estes, sim, creem perfeitamente, e, por isso, procuram informar a sua vida com as verdades que creem.

3. - A falta de fé naqueles que vivem em pecado, não nasce da obscuridade da mesma fé; pois que, bem que Deus tenha querido que as coisas da fé nos fossem em grande parte obscuras e encobertas, para que tivéssemos merecimento em crer, contudo as verdades da fé se nos tornam tão evidentes pelos sinais que as manifestam, que não crê-las, seria não só imprudência, mas impiedade e loucura. Nasce, portanto, a fraqueza da fé de muitos, dos seus maus costumes. Quem despreza a amizade de Deus para não se privar dos prazeres proibidos, quisera que não houvesse lei que os proibisse, nem castigo para os que pecam, e por isso esforça-se por evitar a consideração das verdades eternas, da morte, do juízo, do inferno, da divina justiça. E, porque estes objetos lhe causam demasiado terror, e tornam amargos os seus deleites, chega por isso a atormentar a cabeça para descobrir razões, ao menos verossímeis, com que possa persuadir-se, ou convencer-se de que não há alma, nem Deus, nem inferno, para viver e morrer como os brutos que não conhecem lei nem razão.

4. - É a relaxação dos costumes a fonte de que têm nascido e de que todos os dias saem tantos livros e sistemas de materialistas, indiferentistas, socialistas, deístas e naturalistas. Uns deles negam a divina existência, outros negam a divina providência, dizendo que Deus, depois de criar os homens, não se importa mais deles, indiferente a respeito de amarem ou ofenderem a Deus, a salvarem-se ou a perderem-se; outros negam a divina bondade, afirmando que Deus criou muitas almas para o inferno, induzindo-as Ele mesmo a pecarem para que se condenem e vão amaldiçoá-lo para sempre no fogo eterno.

5. - Ó ingratidão e malvadez dos homens! Deus os criou, por sua misericórdia, para fazê-los eternamente felizes no céu; cumulou-os de tantas luzes, benefícios e graças, a fim de que alcançassem a vida eterna; para o mesmo fim os remiu, com tantas dores e tanto amor, e eles esforçam-se por não crerem nada, para viverem à sua vontade, entregues aos seus vícios. Mas não; que por mais esforços que façam, jamais poderão os míseros libertar-se do remorso da má consciência e do temor da vingança divina. Acerca desta matéria, dei à estampa um obra intitulada  A Verdade da Fé, na qual demonstrei com clareza a insubsistência de todos os sistemas dos incrédulos modernos. Oh, se deixassem os vícios, e se aplicassem a amar a Jesus Cristo, certamente não poriam mais em dúvida as verdades da fé, acreditariam firmemente toda a doutrina revelada por Deus.

6. - Quem ama a Jesus Cristo de todo o coração, tem sempre diante dos olhos as máximas eternas e por elas regula as suas ações. Quem ama a Jesus, oh, como entende bem o que disse o Sábio: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (Eccl. I, 2); que toda a grandeza terrena é fumo, engano e podridão, que o único bem e felicidade duma alma consiste em amar o seu Criador e fazer-lhe a vontade, que nós somos tanto quanto somos diante de Deus; que nada vale ganhar todo o mundo, se a alma se perde; que todos os bens da terra não podem contentar o coração do homem, mas só Deus o contenta; em suma, que é preciso deixar tudo para ganhar tudo!...

7. - A caridade crê tudo. Há cristãos que não são tão perversos como os de que acabamos de falar, que tomaram não acreditar em nada para viverem nos vícios sem remorso e com mais liberdade. Há cristãos, digo, que creem, mas têm uma fé lânguida, creem os sagrados mistérios, creem as verdades reveladas no Evangelho: a Trindade, a Redenção, os sacramentos e outras, mas não nas creem todas. Jesus Cristo disse: Felizes os pobres; felizes os atribulados; felizes os que se mortificam; felizes aqueles que são perseguidos, criticados e escarnecidos dos homens: Bem-aventurados os pobres (Lucas, VI-20). Bem-aventurados os que choram (Mateus V-5). Bem-aventurados os que têm fome de justiça (Ibid.). Bem-aventurados os que sofrem perseguição. Sereis bem-aventurados quando vos amaldiçoarem e disserem todo o mal contra vós (Ibid.). Assim falou Jesus Cristo no Evangelho. Mas como pode dizer-se depois que creem no Evangelho os que dizem: Bem-aventurados os ricos; bem-aventurados os que não sofrem; bem-aventurados os que procuram os prazeres; desgraçados os que são perseguidos e maltratados dos outros? Destes é forçoso dizer ou que não creem no Evangelho, ou que só creem em parte. Quem crê tudo, considera sua dita e benefício de Deus ser neste mundo pobre, enfermo, mortificado, desprezado e maltratado dos homens. Isto crê e diz quem crê tudo o que se diz no Evangelho e tem verdadeiro amor a Jesus Cristo.


Colóquios e súplicas

Meu amado Redentor, vida da minha alma, eu creio que Vós sois o único bem digno de ser amado. Creio que Vós sois o que com maior amor amais a minha alma, porque só por amor chegastes a morrer consumido de dores por mim. Creio que nesta vida, nem na outra não há maior felicidade do que amar-vos e fazer a vossa vontade. Tudo eu creio firmemente e por isso renuncio a tudo para ser todo vosso e não possuir mais do que a Vós. Pelos méritos da vossa paixão ajudai-me e fazei-me qual quereis que eu seja.

Verdade infalível, eu creio em Vós, Misericórdia infinita, em Vós confio. Infinita bondade, eu vos amo. Amor infinito que vos destes a mim na vossa paixão e no sacramento do altar, todo me dou a Vós.

E a Vós também me recomendo, ó refúgio dos pecadores, Maria, Mãe de Deus.


Santo Afonso Maria de Ligório: "PRÁTICA DE AMAR A JESUS CRISTO", Cap. XV.

sábado, 6 de abril de 2019

O que você faria pela vida eterna?


São Camilo de Lélis, ao aproximar-se de alguma sepultura, fazia estas reflexões: 
Se estes mortos voltassem ao mundo, que não fariam pela vida eterna? E eu, que disponho de tempo, que faço eu por minha alma? Este Santo pensava assim por humildade; mas tu, querido irmão, talvez com razão receies ser considerado aquela figueira sem fruto, da qual disse o Senhor:“Três anos já que venho a buscar frutas a esta figueira, e não os achei”(Lc 13,7).

Por Santo Afonso Maria de Ligório, em Preparação para a Morte.