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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

EXPLICAÇÃO DO CREDO por São Francisco Xavier

Folgai, cristãos, de ouvir e saber como Deus, criando, 
fez todas as coisas para serviço dos homens. 

SCHURHAMMER, ep. 58, em português. Ensinava-se cantando, ao gosto das crianças. 
( t. I, páginas. 352- -354), onde nos fala da catequese rítmica de S. Francisco Xavier, 
tão vulgar no seu tempo.

Primeiramente, criou os céus e a terra, os anjos, o sol, a lua, as estrelas, o dia com a noite, as ervas, os frutos, aves e alimárias que vivem em a terra, o mar e os rios, os peixes que vivem em águas; e acabadas de criar todas as coisas, por derradeiro criou o homem à Sua imagem e semelhança.

E o primeiro homem que Deus criou foi Adão, e a primeira mulher Eva. E depois que Deus criou Adão e Eva, no paraíso terreal, os bem-disse e casou e lhes mandou que tivessem filhos e povoassem a terra de gente. E de Adão e Eva viemos todas as gentes do mundo.

E pois Deus a Adão não deu mais de uma mulher, claro está que contra Deus os mouros e gentios e os maus cristãos têm muitas mulheres; e também é verdade que os que estão amancebados vivem contra Deus, pois primeiro Deus casou a Adão e Eva que lhes mandasse que crescessem e multiplicassem, tendo filhos de bênção.

E assim, os que adoram em pagodes, como fazem os infiéis, e os que creem em feitiços e sortes e adivinhadores pecam, gravemente, contra Deus porque adoram e creem no diabo e o tomam por seu senhor, deixando a Deus que os criou e lhes deu alma e vida e corpo e quanto têm, perdendo os tristes, por suas idolatrias, os céus, que é lugar das almas, e a glória do paraíso, para o qual foram criados.

Mas, os cristãos verdadeiros e leais a seu Deus e Senhor creem e adoram, de vontade e coração, um só Deus verdadeiro, criador dos céus e da terra; e bem o mostram quando vão às igrejas e veem suas imagens que são lembranças dos santos que estão com Deus, na glória do paraíso; põem, então, os cristãos os joelhos no chão, quando estão nas igrejas, e levantam as mãos para os céus, onde está o Senhor Deus, que é todo o seu bem e consolo, confessando o que diz São Pedro:

Creio em Deus Padre todo-poderoso, criador do céu e da terra.

Primeiro, criou Deus os anjos em os céus que os homens na terra. São Miguel, principal de todos, e a maior parte dos anjos adoraram logo ao seu Deus, dando-Lhe graças e louvores que os criou. Lúcifer, pelo contrário, e com ele muitos anjos, não quiseram adorar ao seu Criador, mas com soberba disseram: “Assubamos e sejamos semelhantes a Deus que está nos altos céus”. E pelo pecado da soberba, Deus lançou a Lúcifer e aos anjos, que eram com ele, dos céus ao inferno.

Lúcifer, com inveja de Adão e de Eva, primeiros homens, que em graça Deus criou, os tentou de pecado de soberba, no paraíso terreal, aconselhando-os que seriam como Deus, se comessem do fruto que seu Criador lhes proibia.

Adão e Eva, com desejos de serem como Deus, consentiram na tentação; comeram logo do fruto proibido, perdendo a graça na qual foram criados. E por seus pecados, o Senhor Deus os lançou do paraíso terreal, e viveram fora dele, em trabalhos, novecentos anos, fazendo penitência do pecado que fizeram. E foi tão grande o seu pecado, que nem Adão nem filhos dele o podiam satisfazer, nem tornarem a ganhar a glória do paraíso, a qual perderam por sua soberba de quererem ser como Deus; de maneira que as portas dos céus se fecharam, sem poderem lá entrar nem Adão nem filhos dele, pelo pecado que fizeram.

Ó cristãos, que será de nós, coitados, se os demônios por um pecado de soberba foram lançados dos céus ao inferno, e Adão e Eva, por outro pecado de soberba, do paraíso terreal, como nós, tristes pecadores, subiremos aos céus, com tantos pecados, sendo clara nossa perdição?

São Miguel, nosso amigo verdadeiro, e os anjos que ficaram nos céus, havendo piedade e compaixão de nós, pecadores, os anjos todos juntos pediram ao Senhor Deus misericórdia do mal que nos viram pelo pecado de Adão e Eva.

Diziam os anjos nos céus: “Ó bom Deus e Senhor piedoso, e Pai de todas as gentes! Já, Senhor, é chegado o tempo da salvação das gentes! Abri, Senhor, as portas dos céus aos Vossos filhos, pois nasceu da Santa Ana e Joaquim aquela Virgem sem pecado de Adão, sobre todas as mulheres santíssima, por nome Maria! A virtude e santidade da qual é sem par. De maneira que, em Virgem tão excelente, vós, Senhor, podereis formar, do Seu sangue virginal, um corpo humano, assim como, Senhor, formastes o corpo de Adão, pela Vossa vontade. Em tal corpo, pois sois poderoso, podeis, Senhor, juntamente criar uma alma mais santíssima que todas quantas criastes. Então, no mesmo instante, a segunda pessoa, Deus Filho, desce dos céus, onde está, a encarnar no ventre da Virgem Maria. E, desta Virgem tão excelente, nascerá Jesus Cristo, Vosso Filho, Salvador de todo o mundo. Assim, Senhor, se cumprirão as escrituras e promessas que fizestes aos profetas e patriarcas, amigos Vossos, que estão no limbo, esperando ao Vosso Filho, Jesus Cristo, seu Senhor e Redentor”.

O alto Deus, soberano e poderoso, movido de piedade e compaixão, vendo nossa miséria grande, mandou ao anjo São Gabriel, dos céus à cidade de Nazaré, onde estava a Virgem Maria, com uma embaixada, que dizia: “Deus te salve, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo, benta és tu, entre as mulheres. O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do altíssimo Deus te alumiará, e o que de ti nascer se chamará Jesus Cristo, Filho de Deus”.

A Virgem Santa Maria respondeu ao anjo São Gabriel: “Eis aqui a serva do Senhor, seja feita em mim a sua santa vontade”.

No mesmo instante que a Virgem Santa Maria obedeceu à embaixada que, de parte de Deus Padre, São Gabriel lhe trouxe, Deus formou, em Seu ventre desta Virgem, um corpo humano, do Seu sangue virginal, e juntamente criou uma alma no mesmo corpo. A segunda pessoa, Deus Filho, naquele instante, encarnou no ventre da Virgem Maria, unindo a alma e o corpo tão santíssimos!

E do dia que o Filho de Deus encarnou, até o dia que nasceu, nove meses se passaram. Acabado este tempo, Jesus Cristo, Salvador de todo mundo, sendo Deus e homem verdadeiro, nasceu da Virgem Santa Maria!

Santo André confessou isto, dizendo assim:

Creio em Jesus Cristo, Filho de Deus, um só Nosso Senhor.

E, após ele, logo disse São João:

Creio que Jesus Cristo foi concebido do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria.

Em Belém, perto de Jerusalém, nasceu Cristo Nosso Senhor e Redentor! Então, os anjos e a Virgem, sua Mãe, com seu esposo São José, e os três reis, e outros muitos, o adoraram por Senhor.

Mas Herodes, como mau, sendo rei em Jerusalém, com cobiça de reinar desejou de matá-lo. Foi José pelo anjo avisado que fugisse de Belém para o Egito e levasse a Jesus Cristo e a Virgem, sua Mãe, porque Herodes desejava de matar a Jesus Cristo.

Foi ao Egito São José, com Jesus Cristo e Sua Mãe, onde esteve até que Herodes de má morte morreu; porque foi tão cruel que, em Belém e pelos lugares seus vizinhos, matou todos os meninos que de dois anos para baixo achou, cuidando que Jesus Cristo entre eles matasse. E depois que Herodes faleceu, tornaram a sua terra, à cidade de Nazaré, por mandado do anjo.

Sendo Cristo de doze anos, subiu de Nazaré ao templo de Jerusalém, onde estavam os doutores da lei, e lhes declarou as escrituras dos profetas e patriarcas, que da vida do Filho de Deus falavam, de que todos se espantavam, vendo sua sabedoria. E tornando a Nazaré, esteve aí até idade de quase perto de trinta anos; e daí se partiu ao rio Jordão, onde estava São João Batista batizando a muitas gentes. Neste rio, batizou São João Batista a Jesus Cristo.

E daí se foi Jesus Cristo ao monte, no qual quarenta dias e quarenta noites não comeu. O demônio, no monte, sem saber que Jesus Cristo era Filho de Deus, o tentou de três pecados: de gula e de cobiça e de vangloria; e em todas as tentações, venceu Cristo ao demônio. E do monte, com vitória, descendeu a Galileia e convertia muitas gentes, e aos demônios lhes mandava que dos corpos das gentes se saíssem.

Os demônios obedeciam ao mandado de Jesus Cristo, saindo dos corpos dos homens onde estavam, e as gentes que isto viam se espantavam e diziam: “Que é isto a que os demônios lhe obedecem?” Era de maneira que a fama de Jesus Cristo entre as gentes crescia muito, porque viam que os demônios lhe obedeciam.

Os homens que ouviam as santas pregações de Jesus Cristo e viam o grande poder que tinha sobre os demônios, começaram logo de crer em Jesus Cristo e lhe traziam os doentes de qualquer enfermidade que estivessem: saravam todos, logo, como Jesus Cristo os tocava com suas santas mãos.

E depois, chamou Jesus Cristo os doze apóstolos e aos setenta e dois discípulos e os levava, em Sua companhia, pelas terras onde andava, ensinando os mistérios do reino dos céus; pregando Cristo às gentes, fazendo milagres que provavam ser verdade o que ele pregava, sendo presentes os apóstolos e os discípulos, dava Cristo vista aos cegos, fala aos mudos, ouvir aos surdos, vida aos mortos, sarava aos coxos e aos mancos.

Os apóstolos e os discípulos que isto viam, cada vez mais e mais em Jesus Cristo criam. Deu-lhes Cristo tanta sabedoria e virtude que pregavam às gentes, sendo eles pescadores, e não sabiam letras mais daquelas que o Filho de Deus lhes ensinou.

Em nome e virtude de Jesus Cristo, faziam milagres os apóstolos, saravam muitas enfermidades, e lançando os demônios dos corpos dos homens, em sinal de ser verdade o que pregavam da vinda do Filho de Deus.

Era a fama de Jesus Cristo e seus discípulos entre as gentes tanta, que os judeus principais assentaram de o matar, com inveja que dele e de suas obras tinham, porque viam que todos a doutrina de Jesus Cristo seguiam e louvavam.

Conhecendo os fariseus que perdiam a honra e crédito que primeiro tinham, com os judeus, antes que Jesus Cristo se manifestasse ao mundo, movidos os fariseus de inveja, foram a Pilatos, que então era juiz, e com rogos e com medos e subornos (que tudo acabam) disseram os fariseus a Pilatos que não era amigo de César, se deixava mais pregar nem fazer milagres a Jesus Cristo, porque se fazia rei dos judeus contra César, pois o povo o amava.

Conhecendo Pilatos que os fariseus, com a inveja que de Jesus Cristo tinham, pelas obras e milagres que fazia e o amor que lhe o povo tinha, o acusavam e lhe levantavam os judeus falsos testemunhos, e consentiu Pilatos que os judeus prendessem a Jesus Cristo, sem nunca saberem que era Filho de Deus, cuidando que era homem, assim como Isaías, Elias e Jeremias, ou São João Batista, ou alguns santos homens dos passados.

Depois que os fariseus prenderam a Jesus Cristo, lhe faziam muitas desonras, levando-O de uma casa para a outra, e desprezando-O e fazendo escárnio d'Ele. E, com ódio grande que os fariseus tinham a Cristo, O levaram a casa de Pilatos, onde O acusaram de falsos testemunhos.

E, por fazer Pilatos a vontade aos judeus, mandou açoitar a Jesus Cristo, cruelmente, que dos pés até à cabeça todo o Seu santo corpo foi ferido; e assim cruelmente açoitado, Pilatos entregou Jesus Cristo aos judeus, para O crucificarem.

E, antes que O crucificassem, puseram a Cristo na cabeça uma coroa de espinhos e uma cana na mão direita; e os fariseus, por fazerem escárnio de Jesus Cristo, se punham de joelhos diante d'Ele, dizendo: “Deus te salve, Rei dos judeus!”. E cuspiam-Lhe no rosto, dando-Lhe muitas bofetadas e, com uma cana que Ele levava, O feriam na cabeça. E por derradeiro, no monte Calvário, próximo de Jerusalém, os judeus crucificaram a Jesus Cristo! E assim morreu Jesus Cristo, em a Cruz, para salvar aos pecadores!

De maneira que a santíssima alma de Jesus Cristo verdadeiramente se apartou do Seu corpo precioso, quando na cruz expirou, unida sempre a divindade com a alma santíssima de Jesus Cristo, ficando a mesma divindade com o corpo preciosíssimo de Jesus Cristo, na cruz e no sepulcro.

Na morte de Jesus Cristo, o sol se escureceu, deixando de dar o seu lume, a terra toda tremeu, as pedras se partiram, dando-se umas com as outras, e os sepulcros dos mortos se abriram e muitos corpos dos homens santos ressurgiram e foram à cidade de Jerusalém, onde apareceram a muitos. E os que viram estes sinais, na morte de Jesus Cristo, disseram que, verdadeiramente, Jesus Cristo era Filho de Deus. E por isto ser assim, o apóstolo São Tiago disse:

Creio que Jesus Cristo padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.

E Jesus Cristo era Deus, pois era a segunda pessoa da Santíssima Trindade, Filho eterno; e também era homem verdadeiro, pois era filho da Virgem Maria; e tem alma racional e corpo humano. Enquanto era homem, verdadeiramente morreu na cruz, quando foi crucificado, porque a morte não é outra coisa senão a separação da alma, deixando o corpo em que vive.

A santíssima alma de Jesus Cristo foi apartada do corpo, quando na cruz expirou. Então, acabando de expirar, a santíssima alma de Jesus Cristo, sendo unida com a divindade de Deus Filho, assim como sempre foi, desde instante que o Senhor Deus a criou, desceu ao limbo, que é um lugar que está debaixo da terra, onde estavam os santos padres, profetas, patriarcas e outros muitos justos, esperando pelo Filho de Deus que os havia de tirar do limbo e levar ao paraíso.

Em todo tempo, começando desde Adão e Eva, houve homens bons e, sendo amigos de Deus e por falarem verdade, repreendiam os maus de seus vícios e pecados, porque ofendiam a seu Deus e Criador; e os maus, sendo servos e cativos do demônio, prosseguiam aos bons e amigos de Deus, prendendo-os e desterrando-os e fazendo-lhes muitos males; de maneira que, quando os bons morriam, suas almas iam ao limbo. E o limbo, por estar debaixo do chão, se chamava inferno, e não porque nele haja pena de fogos nem tormentos; e mais abaixo do limbo, está um lugar que se chama purgatório.

A este purgatório vão as almas daquelas pessoas que, quando morrem, estão em graça, sem pecado mortal; e pelos pecados passados, que fizeram em sua vida, dos quais antes da sua morte não fizeram inteira penitência ou pendença, vão a este purgatório, onde há tormentos grandes, para pagarem os males e pecados que fizeram em sua vida; e acabando de pagar a pendença de seus pecados, saindo do purgatório, vão logo ao paraíso.

O derradeiro lugar, que está debaixo da terra, se chama inferno infernal, onde há tão grandes tormentos de fogo e misérias que, se os homens cuidassem nele, cada dia uma hora, não fariam tantos pecados como fazem; e não folgariam de fazer a vontade ao diabo, como fazem, se soubessem os trabalhos do inferno. Lá, está Lúcifer e todos os demônios que foram lançados do céu e todas as gentes que morreram em pecado mortal. E os que vão a este inferno não têm nenhum remédio de salvação: para sempre dos sempre, sem fim dos fins, hão de estar nele!

Ó irmãos, que é isto, que tão pouco medo temos de ir ao inferno! Pois cada dia fazemos maiores pecados, sinal é que temos pouca fé, pois que vivemos como homens que não creem que há inferno infernal.

A Igreja e os santos, que estão no céu com Deus, nunca rogam pelos mortos que estão no inferno, porque estes não têm nenhum remédio para irem ao paraíso; mas, a Igreja e os santos rogam por os mortos que estão em o purgatório e por os vivos que não vão ao inferno.

Jesus Cristo em sexta-feira morreu e a santíssima alma Sua, unida sempre com a divindade, descendeu ao limbo e tirou todas quantas almas lá estavam esperando pelo Filho de Deus, Jesus Cristo. Depois, ao terceiro dia, que é ao domingo, ressurgiu dentre os mortos, tornando sua alma santíssima a tomar o mesmo corpo que deixara, quando em a cruz morreu.

Depois que Jesus Cristo ressurgiu em corpo glorioso, apareceu à Virgem Santa Maria, Sua Mãe, e aos Seus amigos, os quais estavam tristes por Sua morte. Com Sua ressurreição gloriosa, consolou aos tristes desconsolados, perdoando aos pecadores seus pecados; e muitos creram em Jesus Cristo, depois que dentre os mortos O viram ressurgir, os quais, primeiro que morresse e ressurgisse, não quiseram crer. E ser isto assim verdade, São Tomé afirmou, dizendo: 

Creio que Jesus Cristo descendeu aos infernos e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos.

— E depois que Jesus Cristo ressurgiu, quarenta dias esteve, neste mundo, pregando às gentes o que haviam de crer para irem ao paraíso. E neste tempo mostrou Sua santa ressurreição ser verdadeira, e aos que duvidavam, em Sua morte, que não havia de ressurgir. E, nestes quarenta dias, apareceu aos apóstolos e discípulos e a outros Seus amigos que duvidavam que ressurgisse, quando O viram morrer em o monte Calvário, na cruz; e nestes quarenta dias, os que não creram na morte e paixão de Jesus Cristo, que ao terceiro dia havia de ressurgir, acabaram de crer, sem mais duvidar, que Jesus era Filho de Deus verdadeiro, Salvador de todo o mundo, pois da morte à vida ressurgiu.

Ao fim de quarenta dias, foi Jesus Cristo a Monte Olivete, donde aos altos céus havia de subir, e com ele ia a Virgem Santa Maria, Sua mãe, e Seus apóstolos e outros muitos. E deste monte Olivete subiu Jesus Cristo aos altos dos céus, em corpo e em alma, e levou, em Sua companhia, à glória do paraíso, todas as almas dos santos Padres que do limbo tirou.

As portas dos céus se abriram, quando Jesus Cristo aos altos céus subiu, e os anjos do paraíso vieram acompanhar Jesus Cristo, para, com grande glória, O levarem onde estava Deus Padre, de onde, para salvar os pecadores, descendera ao ventre da gloriosa Virgem, tomando carne humana, para nele pagar nossas dívidas. De maneira que Jesus Cristo, Filho de Deus, pelos pecadores se fez homem e nasceu, morreu, ressurgiu e assubiu aos céus, onde à parte direita de Deus Padre se assentou. Sendo isto assim verdade, São Tiago Menor é que o disse: 

- Creio que Jesus Cristo subiu aos céus e está assentado à destra de Deus Padre todo poderoso.

E pois este mundo teve princípio, há de ter fim, de maneira que há de acabar; e assim como Jesus Cristo subiu aos céus, assim, quando o mundo se há de acabar, dos céus descenderá e dará a cada um o que merece. E certo, é verdade que todos os que creram em Jesus Cristo e guardaram Seus santos mandamentos serão julgados para irem à glória do paraíso, e os que em Jesus Cristo não quiseram crer, como são os mouros, judeus, gentios, irão para o inferno, sem nenhuma redenção e os maus cristãos que não quiseram guardar os dez mandamentos serão julgados por Jesus Cristo, para irem ao inferno. E no fim do mundo, todos os que forem vivos morrerão, porque todo homem com esta condição nasce, que há de morrer.

Pois Jesus Cristo, nosso Redentor, pelos pecadores morreu e ressurgiu, todos havemos de morrer e ressurgir; e também porque os corpos dos homens bons, que no fim do mundo forem vivos, não são santos nem gloriosos para que, com eles, possam subir aos céus, por isso é necessário morrerem; e, em sua ressurreição, tomarão os mesmos corpos, não sujeitos à paixão, como dantes eram. De maneira que, quando Jesus Cristo do céu descender, no dia do juízo, a julgar os bons e os maus, todos ressurgirão, começando do primeiro até o derradeiro que morreu. E por ser assim verdade, São Filipe disse:

Creio que Jesus Cristo do céu há de vir julgar os vivos e os mortos.

Quando os cristãos nos benzemos, confessamos a verdade acerca da Santíssima Trindade, como é três pessoas, um só Deus trino e uno. Deus Padre, nem é feito, nem criado, nem gerado; o Filho é gerado de Deus Padre, nem é feito nem criado; o Espírito Santo procede do Padre e do Filho, não criado nem gerado.

Quando nós fazemos o sinal da cruz, mostramos esta ordem de proceder, pondo a mão direita na cabeça, dizendo: “Em nome do Padre”, em sinal que Deus Padre não é feito nem gerado; depois, pondo a mão nos peitos, dizendo: “e do Filho”, em sinal que do Padre é gerado o Filho, e não feito nem criado; e depois, pondo a mão em o ombro esquerdo, dizendo: “e do Espírito”, e passando depois a mão ao ombro direito, dizendo: “Santo”, em sinal que o Espírito Santo procede do Filho e do Padre.

Obrigado é todo o bom cristão a crer firmemente, sem duvidar, no Espírito Santo, e em Suas santas inspirações, que nos defendem de mal fazer e nos movem os corações a guardar os dez mandamentos do Senhor Deus e os da santa madre Igreja universal, e a cumprir as obras da misericórdia corporais e espirituais. E por ser isto verdade, o apóstolo São Bartolomeu é que disse:

Creio em o Espírito Santo.

Todos os fiéis cristãos somos obrigados a crer, sem duvidar, o que creram de Jesus Cristo os apóstolos e discípulos e mártires e todos os santos, crendo de Jesus Cristo tudo o que é necessário crer para nossa salvação, acerca de sua divindade e humanidade, depois que Jesus Cristo foi Deus e homem verdadeiro.

E também em geral somos obrigados a crer firmemente, sem duvidar, em tudo o que creem os que regem e governam a Igreja universal de Jesus Cristo, pois pelo Espírito Santo são. inspirados e regidos do que hão de fazer, acerca da governação da Igreja universal e das coisas da nossa santa fé, e nas quais não podem errar, porque são regidos pelo Espírito Santo; de maneira que, das escrituras da nossa lei, de Jesus Cristo, pelo demais que somos obrigados a crer, como são santos cânones e concílios, que são ordenados da Igreja, feitos pelo Papa e cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e prelados da Igreja, quando em todas estas coisas crermos, sem duvidar, cremos tudo o que creem os que regem e governam a Igreja universal de Jesus Cristo, e o que nos encomendou o apóstolo e evangelista São Mateus, quando disse:

Creio na santa Igreja Católica.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Pequeno Catecismo - por São Francisco Xavier

Xavier chegou a Goa a 6 de Maio de 1542 e logo começou a ensinar a doutrina cristã. Este catecismo breve, de que se servia, é quase igual ao que em 1539–1540 publicou em Lisboa o célebre cronista da Índia, João de Barros. Como, porém, além das partes tomadas do de Barros, inclui outras novas acomodadas à Índia, é provável que o tenha composto logo ao chegar a Goa, a não ser que já na viagem o tenha feito. Na edição crítica da Monumenta Historica Societatis Iesu1que seguimos, pode ver-se em paralelo o texto de Barros e o de Xavier, onde ressaltam as inovações.
1. Senhor Deus, tende misericórdia de nós. Jesus Cristo, Filho de Deus, tende misericórdia de nós. Espírito Santo, tende misericórdia de nós.

2. Creio em Deus Pai todo poderoso, criador do céu e da terra. Creio em Jesus Cristo seu Filho único, Nosso Senhor. Creio2 que foi concebido do Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria. Creio que padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Creio que desceu aos infernos; ao terceiro dia ressurgiu dos mortos. Creio que subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso. Creio que dos céus há-de vir julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo. Creio na santa Igreja católica. Creio no ajuntamento dos santos e na remissão dos pecados. Creio na ressurreição da carne. Creio na vida eterna. Ámen.

3. Verdadeiro Deus, eu confesso de vontade e coração, como bom e leal cristão, a Santíssima Trindade, Pai, Filho, Espírito Santo, três pessoas, um só Deus. Eu creio firmemente, sem duvidar, tudo o que crê a santa mãe Igreja de Roma; e bem assim eu prometo, como fiel cristão, viver e morrer na santa fé católica de meu Senhor Jesus Cristo. E quando à hora da minha morte não puder falar, agora, para quando eu morrer, confesso ao meu Senhor Jesus Cristo com todo o meu coração.

4. Pai nosso que estás nos céus; santificado seja o teu nome; venha a nós o teu reino; seja feita a tua vontade, assim como nos céus, na terra. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, e perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores, e não nos tragas em tentação, mas livra-nos de todo o mal.

5. Deus te salve, Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres e bento é o fruto do teu ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós pecadores, agora e à hora da minha morte. Ámen.

6. Os mandamentos da lei do Senhor Deus são dez. O primeiro é amar a Deus sobre todas as coisas. O segundo é não jurar o nome de Deus em vão. O terceiro é guardar os domingos e festas. O quarto é honrar teu pai e tua mãe, e viverás muitos anos. O quinto, não matarás. O sexto, não fornicarás. O sétimo é não furtarás. O oitavo é: não levantarás falso testemunho. O nono é: não desejarás as mulheres alheias. O décimo: não cobiçarás as coisas alheias.

7. Diz Deus: os que guardarem estes dez mandamentos irão para o paraíso. Diz Deus: os que não guardarem estes dez mandamentos irão para o inferno.

8. Rogo-vos, meu Senhor Jesus Cristo, que me deis graça hoje, neste dia, em todo o tempo da minha vida, para guardar estes dez mandamentos.

9. Rogo-vos, minha Senhora Santa Maria, que queirais rogar por mim ao vosso bento Filho, Jesus Cristo, que me dê graça hoje, neste dia, todo o tempo da minha vida, para guardar estes dez mandamentos3.

10. Rogo-vos, meu Senhor Jesus Cristo, que me perdoeis os meus pecados que fiz hoje, neste dia, em todo o tempo da minha vida, em não guardar estes dez mandamentos.

11. Rogo-vos, minha Senhora Santa Maria, Rainha dos Anjos, que me alcanceis perdão do vosso bento Filho, Jesus Cristo, dos pecados que fiz hoje, neste dia, em todo o tempo da minha vida, em não guardar estes dez mandamentos.

12. Os mandamentos da Igreja são cinco. O primeiro é ouvir missa inteira aos domingos e festas de guardar. O segundo é confessar-se o cristão uma vez na Quaresma ou antes, ou se espera entrar nalgum perigo de morte. O terceiro é tomar comunhão, por obrigação, em dia de Páscoa, ou antes ou depois, segundo o costume do bispado. O quarto é jejuar quando manda a santa Igreja, a saber, Vigílias, Quatro Têmporas e a Quaresma. O quinto é pagar dízimo e primícias.

13. Deus te salve, Rainha, Mãe de misericórdia, doçura da vida, esperança nossa, Deus te salve! A ti bradamos, desterrados filhos de Eva. A ti suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, volve a nós aqueles teus olhos misericordiosos. E, depois deste desterro, amostra-nos Jesus, bento fruto do teu ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria. Ámen. Roga por nós, que sejamos merecedores dos prometimentos de Jesus Cristo. Ámen Jesus.

14. Eu pecador, muito errado, me confesso ao Senhor Deus e a Santa Maria, a São Miguel, o anjo, a João Baptista, e a São Pedro e São Paulo e São Tomé4, e a todos os santos e santas da corte dos céus.
E a vós, Padre, digo a minha culpa, que pequei grandemente por pensamento e por palavra e por obra, de muito bem que pudera fazer, que não fiz, e de muito mal de que me pudera apartar e não me apartei: de tudo me arrependo e digo a Deus minha culpa, minha grande culpa, Senhor, minha culpa. Peço e rogo, a minha Senhora Santa Maria e a todos os santos e santas, que por mim queiram rogar ao meu Senhor Jesus Cristo, que me queira perdoar os meus pecados presentes, confessados, passados e esquecidos, e daqui para diante me dê a sua graça, que me guarde de pecar e me leve a gozar a glória do paraíso. Ámen.

15. Os pecados mortais são sete. O primeiro é soberba. O segundo é avareza. O terceiro é luxúria. O quarto é ira. O quinto é gula. O sexto é inveja. O sétimo preguiça.

16. As virtudes morais contra os pecados mortais são sete. A primeira é humildade contra a soberba. A segunda é largueza contra avareza. A terceira é castidade contra a luxúria. A quarta é paciência contra a ira. A quinta é temperança contra a gula. A sexta é caridade contra a inveja. A sétima é diligência contra a preguiça.

17. As virtudes teologais são três. A primeira, fé; a segunda, esperança; a terceira, caridade.

18. As virtudes cardeais são quatro. A primeira, prudência; a segunda, fortaleza; a terceira, temperança; a quarta, justiça.

19. As obras de misericórdia corporais são sete. A primeira é visitar os enfermos. A segunda, dar de comer a quem tem fome. A terceira, dar de beber a quem tem sede. A quarta, é remir os cativos. A quinta, é vestir os nus. A sexta, é dar pousada aos peregrinos. A sétima, é enterrar os finados.

20. As obras de misericórdia espirituais são sete. A primeira, é ensinar os simples sem doutrina. A segunda, dar bom conselho a quem o precisa. A terceira, é castigar quem precisa de castigo. A quarta, é consolar os tristes desconsolados. A quinta, é perdoar ao que errou. A sexta, é sofrer as injúrias com paciência. A sétima, é rogar a Deus, pelos vivos, que os guarde de pecados mortais; e, pelos mortos, que os tire das penas do purgatório e os leve para o paraíso.

21. Os sentidos corporais são cinco. O primeiro é ver. O segundo é ouvir. O terceiro é cheirar. O quarto é gostar. O quinto é palpar.

22. As potências da alma são três. A primeira, memória. A segunda, entendimento. A terceira, vontade.

23. Os inimigos da alma são três. O primeiro é o mundo. O segundo é a carne. O terceiro é o diabo.

24. Oração à HóstiaAdoro-te, meu Senhor Jesus Cristo, bendigo-te a ti, pois pela tua santa Cruz remiste o mundo e a mim. Ámen.

25. Oração ao CáliceAdoro-te, sangue do meu Senhor Jesus Cristo, que foste derramado na cruz para salvar os pecadores e a mim. Ámen.

26. Ó meu Deus poderoso e Pai piedoso, Criador de todas as coisas do mundo, em vós, meu Deus e Senhor, pois sois todo o meu bem, creio firmemente sem poder duvidar que me tenho de salvar pelos méritos infinitos da morte e paixão de vosso Filho Jesus Cristo, meu Senhor, ainda que os pecados de quando era pequeno sejam muito grandes, com todos os demais que tenho feito até esta hora presente, pois é maior a vossa misericórdia que a maldade dos meus pecados. Vós, Senhor, me criastes, e não meu pai nem minha mãe, e me destes alma e corpo e quanto tenho. E vós, meu Deus, me fizestes à vossa semelhança, e não os pagodes, que são deuses dos gentios em figura de bestas e alimárias do diabo. Eu renego de todos os pagodes, feiticeiros, adivinhadores, pois são escravos e amigos do diabo. Ó gentios, que cegueira de pecado é a vossa tão grande, que fazeis de Deus bestas e demónio, pois o adorais em suas figuras! Ó cristãos, demos graças e louvores a Deus trino e uno, que nos deu a conhecer a fé e a lei verdadeira de seu Filho, Jesus Cristo5.

27. Ó Senhora Santa Maria, Esperança dos cristãos, Rainha dos anjos e de todos os santos e santas que estão com Deus nos céus, a vós, Senhora, e a todos os santos, me encomendo, agora e para a hora da minha morte, [para] que me guardeis do mundo, da carne e do diabo, que são meus inimigos desejosos de levar a minha alma para os infernos.

28. Ó senhor São Miguel, defendei-me do diabo à hora da minha morte, quando estiver dando conta a Deus da minha vida passada. Pesai, Senhor, os meus pecados com os méritos da morte e paixão do meu Senhor Jesus Cristo, e não com os meus poucos merecimentos, assim serei livre do poder do inimigo e irei a gozar para sempre sem fim dos fins.

29. A bênção da mesaV. Bendizei. R. O Senhor. V. A nós e aos alimentos que vamos tomar, Deus trino e uno nos abençoe. Bendigamos ao Senhor. R. Graças a Deus. V. Louvor a Deus, paz aos vivos, descanso aos defuntos. Amen.

Deus nos ajunte no paraíso. Amen.

Fonte: Obras Completas – São Francisco Xavier – Editorial A.O. – Braga e Edições Loyola – São Paulo, Brasil

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Notas:
1 MHSI-EX I 106-116.
2 Xavier repetia de propósito a palavra creio ao princípio de cada artigo da fé, «para actuar o povo com esta repetição, na confissão da nossa santa fé» (SEBASTIÃO GONÇALVES, 2,4; cf. Xavier-doc. 20,3).
3 Cf. Xavier-doc. 20,4.
4 Acrescenta Xavier o nome de S. Tomé apóstolo, por ser o patrono da Índia.
5 Oração original de Xavier, como se vê pelo contexto.

Fonte:
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