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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O SERVIÇO DOS POBRES ACIMA DE TUDO


(Dos Escritos de São Vicente de Paulo - Uma carta raríssima)

Não temos de avaliar os pobres por suas roupas e aspecto, nem pelos dotes de espírito que pareçam ter. Com frequência são ignorantes e curtos de inteligência. Mas muito pelo contrário, se considerardes os pobres à luz da fé, então percebereis que estão no lugar do Filho de Deus que escolheu ser pobre. De fato, em seu sofrimento, embora quase perdesse a aparência humana - loucura para os gentios, escândalo para os judeus - apresentou-se, no entanto, como evangelizador dos pobres: Enviou-me para evangelizar os pobres (Lc 4,18). Devemos ter os mesmos sentimentos de Cristo e imitar aquilo que ele fez: ter cuidado pelos indigentes, consolá-los, auxiliá-los, dar-lhes valor. 

Com efeito, Cristo quis nascer pobre, escolheu pobres para seus discípulos, fez-se servo dos pobres e de tal forma quis participar da condição deles, que declarou ser feito ou dito a ele mesmo tudo quanto de bom ou de mau se fizesse ou dissesse aos pobres. Deus ama os pobres, também ama aqueles que os amam. Quando alguém tem um amigo, inclui na mesma estima aqueles que demonstraram amizade ou prestam obséquio ao amigo. Por isso esperamos que, graças aos pobres, sejamos amados por Deus. Visitando-os, pois, esforcemo-nos por entender os pobres e os indigentes e, compadecendo-nos deles, cheguemos ao ponto de poder dizer com o Apóstolo: Fiz-me tudo para todos (1Cor 9,22). Por este motivo, se é nossa intenção termos o coração sensível às necessidades e misérias do próximo, supliquemos a Deus que derrame em nós o sentimento de misericórdia e de compaixão, cumulando com ele nossos corações e guardando-os repletos.

Deve-se preferir o serviço dos pobres a tudo o mais e prestá-lo sem demora. Se na hora da oração for necessário dar remédios ou auxílio a algum pobre, ide tranquilos, oferecendo esta ação a Deus como se estivésseis em oração. Não vos perturbeis com angústia ou medo de estar pecando por causa do abandono da oração em favor do serviço aos pobres. Deus não é desprezado, se por causa de Deus dele nos afastarmos, quer dizer, interrompermos a obra de Deus para realizá-la de outro modo.

Portanto, ao abandonardes a oração, a fim de socorrer a algum pobre, isto mesmo vos lembrará que o serviço é prestado a Deus. Pois a caridade é maior do que quaisquer regras que, além do mais, devem todas tender a ela. E como a caridade é uma grande dama, faz-se necessário cumprir o que ordena. Por conseguinte, prestemos com renovado ardor nosso serviço aos pobres; de modo particular aos abandonados, indo mesmo à procura, pois nos foram dados como senhores e protetores. 


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

S. Vicente de Paulo e os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola

Os Santos não alcançam a santidade aleatoriamente. Todos percorrem o caminho estreito da ascese espiritual. São Vicente de Paulo se converteu em São Vicente de Paulo graças aos Exercícios que fez em 1611. Foi salvo de uma tentação graças a esta regra
Esta é uma regra muito importante, porque complementa a Sexta Regra.
O inimigo procede como uma mulher, sendo fraco quando lhe resistimos, e forte no caso contrário. Pois é próprio da mulher, quando disputa com algum homem, perder a coragem e pôr-se em fuga, quando este lhe resiste francamente. Pelo contrário, se o homem começa a temer e a recuar, crescem sem medida a cólera, a vingança e a ferocidade dela. Do mesmo modo, é próprio do inimigo enfraquecer-se e perder o ânimo, retirando suas tentações, quando a pessoa que se exercita nas coisas espirituais enfrenta sem medo as suas tentações, fazendo diametralmente o oposto. Ao invés, se a pessoa que se exercita começa a ter medo e a perder o ânimo ao sofrer tentações, não há animal tão feroz sobre a face da terra como o inimigo da natureza humana, na prossecução de sua perversa intenção com tão grande malícia.
O demônio se torna terrível quando vê que alguém tem uma dúvida. Por exemplo: um seminarista duvida diante das tentações com relação a sua vocação: “E se eu deixar o seminário durante alguns meses? Teria experiência do mundo e assim, depois, seria mais forte”Ante a necessidade de boas razões, o demônio o ajudará; se duvida, está perdido. O demônio também lhe trará as maiores dificuldades, lhe fará pensar em uma situação agradável… na excepcional possibilidade de um matrimônio… nas fadigas da santidade, etc.
Lembremos o princípio do Padre Terradas: “Com o demônio não se joga”. Do mesmo modo, se vossa mulher começa a considerar se seus vestidos não poderiam ser um pouquinho, uma coisinha de nada mais curto… depois, será imodesta como as outras. Também se os esposos, depois de várias disputas, começarem a se perguntar se não haveria razão suficiente para se divorciar, o demônio fará das suas, de uma maneira ou outra, porque se lhe fez o jogo. O mesmo acontece com as modas malthusianas. Se o demônio percebe que querem fazer “o que fazem os demais”, então este se desengatilhará.
Procurarão não cometer pecado, mas o demônio chegará a conduzi-los a uma vida de pecado.
Santo Agostinho tem uma frase célebre que resume o jogo do demônio: “Latrare potest, mordere non potest, nisi volentem”;“Pode ladrar, mas morder não pode, a menos que se queira deixar-se morder”. Provavelmente vocês são da mesma opinião minha; se sai um cão furioso e se lança ladrando em cima de vocês, que fazer? Se correm, o cão os seguirá e os morderá. Que fazer então? Enfrentá-lo sem se perturbar, com a maior calma. Então, irritado de ver que vocês não lhe mostram medo, o cão baixa a cabeça, diminui o tom do latido e vai embora. Mas se vocês manifestam temor a tal ponto que se sintam fraquejar diante dele, ele se aproximará com fúria para mordê-los. Não esqueçamos, então, o princípio: ante a presença de uma tentação, não se perturbe; jamais comprometam suas resoluções. Não cedam, nem um poquinho, “mas fazer, diz Santo Inácio, diametralmente o oposto ao que o demônio sugere”. Rezem, multipliquem os atos de virtude contrários, etc.
São Vicente de Paulo se converteu em São Vicente de Paulo graças aos Exercícios que fez em 1611. Estes não eram muito conhecidos embora, mais tarde ele mesmo os propagaria a todas as missões. Ele mesmo os fazia duas vezes por ano, no período de quinze dias em cada ocasião. Foi salvo de uma tentação graças a esta regra. Havia, em Paris, um jovem professor de filosofia que estava a ponto de perder a fé.
O abade Vicente pediu a Deus que afastasse as tentações do professor e as desse a ele. E lhe foi concedido! Contudo, mesmo sendo sacerdote e o santo que era, teve tentações contra a fé das mais terríveis possíveis. Essas tentações lhe sobrevinham a todo o momento, celebrando a missa, pregando, rezando, ocupando-se dos pobres; todos os embustes que o demônio possa inventar contra a fé lhe vinham continuamente ao espírito. “Tu não és fiel; Deus não existe; o Senhor não está na Eucaristia; o que relatas são contos”.
Que fazer? Deveria ele buscar seu livro de teologia para ver se havia estudado bem todas as lições? Se o tivesse feito teria enlouquecido, pois o demônio é perverso.
O que fez foi o seguinte: pôs em prática esta Décima Segunda Regra. Escreveu um ato de fé com inflamadas palavras, pedindo a Deus a graça de morrer mártir pela fé. Assinou seu escrito e o prendeu com um alfinete de maneira que ficava junto a seu coração e resolveu que cada vez que ele introduzisse a mão e a colocasse sobre seu coração, isso queria dizer que repetia a Deus sua oferenda de morrer mártir pela fé. Assim, em todo momento, dizendo missa, pregando, fazendo o bem, quando tinha estas tentações: “não é certo, o que dizes é mentira, etc.”, o que fazia São Vicente era por a mão sobre o coração, fazendo isso, milhares de vezes, um ato sublime, heroico.
O demônio, vendo que todas estas tentações não o incitavam a pecar, pelo contrário, motivavam-no a realizar atos heroicos, acabou por deixá-lo. Não esqueçam esta regra, é capital nas tentações.
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R.P.L.M. Barrielle CPCR – V. REGRAS PARA O DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS. Tomadas do Livro de Exercícios Esírituais de Santo Inácio de Loyola. Fundación San Pio X. Buenos Aires, 1990. Tradução não oficial de A. José G. C.
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