Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O valor do tempo


 O valor do tempo

"Só o não fazer bem nenhum é já um grande mal" (S. Francisco de Sales)."

Se observamos atentamente a vida de muitos cristãos, acharemos que eles não parecem estar no mundo para mais nada senão para não fazerem coisa alguma, ou, ao menos, coisas de proveito. Todas as horas do dia e da noite são gastas em atender ao corpo, à sua pessoa, à sua comodidade e bem-estar, sem as empregarem nalguma ocupação útil, sem terem um ideal digno e elevado, sem trabalharem nem pouco nem muito por Deus, pela sua alma, nem pelo bem do próximo. A cama, a mesa, o jogo, a conversa, o passeio, o café, o teatro, as excursões recreativas..., eis aqui o único campo que estes personagens inúteis cultivam; eis aqui os ídolos a quem eles prestam culto. Estão inteiramente dominados pelo vício da ociosidade; levam uma vida só de gozo e moleza; de cristãos não têm senão o nome. 

Sem chegar ao extremo destes, há outra classe de pessoas, principalmente entre as senhoras e moças de certa classe, que passam por boas porque ‘não fazem mal a ninguém’; que praticam, em pequeno grau, a piedade; que ouvem a Missa nos dias de festa (geralmente a que se celebra a hora adiantada, porque costumam levantar-se muito pouco tempo antes dessa hora); que rezam algumas orações que sabem de cor, ao levantar e ao deitar, e poucas mais durante o dia; que pertencem, talvez, a alguma confraria piedosa, a cujos exercícios de regra assistem raras vezes e para passar o tempo; que se confessam e comungam de vez em quando; que acodem a ouvir alguns sermões, se o pregador tem fama e é do seu agrado, ou a alguma grande solenidade religiosa, onde se possam mostrar piedosas e, ao mesmo tempo, satisfazer em parte, o seu desejo de exibição...; mas, afora isto (que, afinal, é tudo muito superficial) não fazem mais. 

Adotar uma vida de piedade sóbria e regrada; abraçar aquelas práticas ascéticas que exigem alguma mortificação ou vencimento de si mesmo; privar-se dos seus gostos, dos seus caprichos, dos seus divertimentos favoritos, das imodéstias e das modas, dos espetáculos profanos, sempre frívolos, frequentemente perigosos, às vezes abertamente imorais; dedicar-se a algum trabalho sério, em que empregar o tempo proveitosamente; impor-se algum sacrifício a favor do próximo; tomar parte nalguma obra de caridade ou de zelo, como, por exemplo, visitar os pobres, ajudar na catequese, atender a alguma outra necessidade espiritual ou temporal da sua paróquia, etc., tudo isto é completamente alheio ao plano de vida que levam as pessoas de que vimos falando. 

Entre o espelho, o passeio, as visitas, alguns entretenimentos levianos, a leitura de romances, a assistência a espetáculos..., entre estas, digo, e outras frivolidades semelhantes, empregam as horas do dia, as de todos os dias, e assim passam as semanas, os meses e os anos, como se vê, numa completa ociosidade; porque esta não consiste só em não fazer nada, mas também em fazer coisas inúteis ou pueris, que não trazem benefício nenhum nem a si nem aos demais, como são todos os passatempos que acabamos de enumerar e outros deste teor. 

Finalmente, entre as pessoas verdadeiramente virtuosas, pode dar-se também, e tem-se dado (se bem que muitíssimo menos acentuado, menos grosseira e mais sutil), certa espécie de ociosidade; pois é tal a índole deste vício, que como filho da preguiça, ataca em menor ou maior grau todos os homens, mesmo os mais espirituais, sendo poucos os que não sintam alguma vez a sua influência perniciosa.

E assim, são efeitos desta ociosidade ou preguiça espiritual essa inapetência, esse tédio que de vez em quando experimentam estas almas no cumprimento das suas próprias obrigações, ou no exercício das práticas de piedade, e que faz com que omitam ou que encurtem ou que vão deixando para depois, ou que executem com frouxidão e negligência o trabalho, a meditação, a recitação do Ofício Divino, o exame particular, a leitura espiritual, as obras de caridade ou de zelo, etc., ocupando-se, entretanto, de outras coisas que são mais do seu agrado, ou em recreação mais do seu agrado, ou em leitura espiritual, as obras de caridade ou de zelo, etc., espirituais, sendo poucos os que são excessivamente prolongadas, ou em conversas e visitas inúteis, ou talvez em divagações da imaginação e do espírito, pensando em coisas quiméricas e inoportunas, e comprazendo-se em fazer castelos no ar, em vez de se aplicarem em coisas de mais próxima realização e em cumprirem com fiel exatidão o plano de vida que costumam ter estabelecida para o devido emprego do tempo. 

Examina-te, querido leitor, e vêm em que grau e proporção pagas tributa à ociosidade pra que resolvas fazer um esforço generoso para a combater e evitar, se queres agradar ao Senhor e adiantar no caminho da perfeição; pois é um dos vícios que mais retardam o progresso na vida espiritual. 'Se entre todas as graças - escreve o preclaríssimo padre Faber - a maior é a perseverança, porque é a que dá às outras um valor durável, a preguiça ou ociosidade espiritual é, pelo contrário, entre todos os vícios que atacam a vida espiritual, o mais pernicioso, porque é a antítese da perseverança' ('O Progresso da Vida Espiritual', cap. XIV).

Certamente, santidade e ociosidade são duas coisas incompatíveis. Se os Santos chegaram ao grau de perfeição que admiramos neles, foi porque nunca estiveram ociosos. Santo Afonso Maria de Ligório fez o voto de não desperdiçar um momento de tempo.

'Compreendemos - escreve por este mesmo motivo o mesmo padre Faber - que um homem como esse, que com toda a sua discrição e humildade, se atreveu a fazer um voto de tal natureza, devia levar uma vida que não podia ter outro fim o de o porém nos altares' (Idem). 

A nós não se nos pede tanto, nem seria prudente que sem uma inspiração muito particular do alto e o conselho de um diretor experimentado, fizéssemos um voto semelhante; mas o que nos exige Nosso Senhor é que evitemos a ociosidade não demos motivos para que possam dizer a nós como aos obreiros da parábola da vinha: 'Como estais aqui ociosos todo o dia?' (Mt XX, 6). 

Que grande pena e que cegueira tão deplorável inutilizar em bagatelas o tempo que Deus nos concede para negociarmos com Ele a nossa salvação e irmos acrescentando o cabedal dos nossos merecimentos, aos quais há de corresponder depois o grau de glória de que gozaremos no Céu! E que linguagem tão insensata a daquelas pessoas que, deixando deslizar a sua vida na ociosidade, se expressam nestes ou em termos semelhantes: 'Vamos a tal ou tal divertimento, a fazer esta ou aquela visita, a ver tal ou tal espetáculo... para evitar o aborrecimento e passar o tempo'. São Bernardo não suportava esta expressão. 'Oh! - exclamava o santo - para passar o tempo que a Misericórdia do Criador te concedeu benignamente para fazeres penitência, para obteres o perdão dos teus pecados, para adquirires a graça, para mereceres a glória!'

Oh! Para 'passar o tempo, em que devias trabalhar com toda a tua diligência para atraíres sobre ti a piedade divina, aspirares à companhia dos anjos e bem-aventurados do Céu, suspirares pela herança divina e chorares tuas iniquidades passadas' (De Diversis, Serm.17). 

A perda de tempo é um grande mal, e um mal irreparável. O tempo que deixamos correr na ociosidade, já não voltará mais. Podemos empregar proveitosamente o tempo presente, único de que dispomos, e o tempo vindouro, que o Senhor se digne conceder-nos; e faremos bem nisso, sem dúvida, para compensarmos de alguma maneira a nossa preguiça e inação passadas; mas fazer que volte o tempo passado, para o empregarmos melhor, isso é já um impossível. 

Pensa nisso, amadíssimo leitor, e pensa além disso, nos graves perigos que traz consigo a perda de tempo, quer dizer, a ociosidade. As Sagradas Escrituras assinalam esta como fonte e mãe de muitos pecados, resumindo a gravidade deste vício nestas palavras do Eclesiástico: 'Muitas são as maldades que a ociosidade ensinou' (Ecl XXXIII, 29). Os mesmos Livros Santos chamam estultíssimo ao homem que entrega ao ócio (Prov XII, 11). E o profeta Ezequiel enumera a ociosidade dos habitantes de Sodoma entre as causas principais da sua depravação e iniquidade (Ez XVI, 49). 

São Bernardo chama à ociosidade 'mãe das frivolidades, madrasta das virtudes, sentina de todas as tentações e maus pensamentos', e acrescenta que 'a luxúria aflige mais e seduz mais o homem quando está ocioso' (De modo bene vivendiSerm. 51). Santo Agostinho, depois de evocar a triste queda de três personagens do Antigo Testamento: Davi, Salomão e Sansão, diz a propósito disto: 'Enquanto estiveram entregues às suas ocupações mantiveram-se santos; mas na ociosidade pereceram' (Ad. Frat. in erem., Serm. 17).'Sempre se viu - escreve um escritor ascético - correr claro e cristalino o arroio pelo declive de uma colina; mas, parando na planície, torna-se limoso; e, mais tarde, agitando-se as suas águas, que encontra nela? Inúmeros répteis: Reptilia quorum non est numerus.Eis aqui o coração do homem que dorme na inércia e na ociosidade' (Pe. Chaignon, Meditações Sacerdotais). 

Alma devota que lês isto, evita a ociosidade com todo o empenho e diligência (não a confundas com o divertimento moderado e honesto); e ainda que em ti não se ache muito acentuada essa ociosidade e não te julgues em ocasião próxima de te veres induzido por ela às graves desordens que acabamos de apontar, tem presente que, se não aproveitas bem o tempo, se és mais ou menos preguiçosa e negligente no cumprimento dos teus deveres, nas práticas de piedade ou de zelo, que a tua situação e circunstâncias te permitam realizar, não adiantarás na virtude, estarás sempre estacionada e envolta nos mesmos defeitos, e não corresponderás aos desígnios de Deus, que te quer mais trabalhadora, mais diligente no Seu serviço, mais perfeita, mais santa. E no fim da vida te encontrarás muito vazia de merecimentos. 

Resolve-te, pois, a empregar bem o tempo que o Senhor te oferece para te santificares cada dia mais e mais; crescer em graça, em virtude, em méritos e depois na glória por toda a eternidade. 

Se perguntássemos aos bem-aventurados do Céu, que estão agora a desfrutar do Sumo Bem, quanto lhes custou ganhar essa coroa imortal de glória e de felicidade, responder-nos-iam que a tinham conquistado por baixo preço com um curto espaço de tempo, com alguns poucos anos empregados santamente aqui nesta vida. Isto fez dizer a São Bernardino de Sena que, num certo sentido, o tempo é o Céu, visto que com ele se pode comprar o Céu; mais ainda, que o tempo vale tanto como Deus, já que empregar bem o tempo equivale a permutá-lo com a posse eterna de Deus (Serm. 18). 

Procuremos, caríssimo leitor, seguir nisto, como em tudo, os ensinamentos e os exemplos dos Santos, inimigos declarados da ociosidade. Interrogada, um dia, Santa Joana Francisca de Chantal, por que não queria descansar nenhum momento e por que era tão avara do tempo, respondeu: 'Porque já não é meu: consagrei-o ao Senhor, e não posso tirar dele nenhum só instante, sem que cometa uma injustiça contra Aquele a quem pertence'. E São Francisco de Sales, aquele varão apostólico, que tão bem soube empregar os dias todos de sua vida, fecundíssima certamente, em obras de caridade e de zelo pela glória divina e pela salvação das almas, costumava dizer com a mais profunda humildade: 'Quando reflito sobre o emprego que fiz do tempo de Deus, temo que não me queira dar a Sua eternidade, reservada somente aos que fazem bom uso dele'.

Tempo de Deus!

diz o santo. Verdadeiramente, é de Deus e não nosso, porque Ele é que no-lo concede na Sua amorosa Providência para que o consagremos inteiramente a Ele e o empreguemos no Seu divino serviço. Ditosos nós, se assim o fizermos! Que paz interior teríamos durante a nossa vida; que esperança tão doce e consoladora na hora da nossa morte; que galardão tão grande por toda a eternidade!" 

(Da obra: A perfeição cristã, segundo o espírito de São Francisco de Sales)

terça-feira, 9 de abril de 2013

O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida


Valor do tempo


Fili, conserva tempus.
Filho, aproveita o tempo (Sr 4,23)

PONTO I

Diligencia, meu filho, — diz o Espírito Santo, —  em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino  de Sena  que um só momento vale tanto como Deus,  porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna.
O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: Oh! Se tivéssemos uma hora!... Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bem-aventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava plena felicidade, mas,se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até ao dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave-Maria.
E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?...  Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti.
Só dispões do tempo presente para agir... Ó infeliz! — adverte São Bernardo, — por que ousas contar com o vindouro, como se Deus tivesse posto o tempo em seu poder?”. E Santo Agostinho disse:  Como te podes prometer o dia de amanhã, se não dispões de uma hora de vida? “Daí conclui Santa Teresa: “Se não estiveres preparado hoje para morrer, teme morrer mal...

PONTO II

Nada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos. Isto deplora São Bernardo, dizendo: "Passam rapidamente os dias de salvação, e ninguém reflete que esses dias desaparecem e jamais voltam”. Vede aquele jogador que perde dias e noites na tavolagem. Perguntai-lhe o que fez e responderá: “Passar o tempo”. Vede o ocioso que se entretém horas inteiras na rua a ver quem passa, ou a falar em coisas obscenas ou inúteis. Se lhe perguntam o que está fazendo, dirá que não faz mais do que passar o tempo. Pobres cegos, que assim vão perdendo tantos dias, dias que nunca mais voltam! Ó tempo desprezado! tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão no transe da morte... Queremos então dispor de mais um ano, mais um mês, mais um dia; mas não o terão, e ouvirão dizer que já não haverá mais tempo (Ap 10,6). O que não daria então cada um deles para ter mais uma semana, um dia de vida, a fim de poder melhor ajustar as contas da alma!... Ainda que fosse para alcançar só uma hora — disse São Lourenço Justiniano — dariam todos os seus bens. Mas não obterão essa hora de trégua... Pronto, dirá o sacerdote que o estiver assistindo, apressa-te a sair deste mundo; já não há mais tempo para ti.
Por isso, exorta o profeta a que nos lembremos de Deus e procuremos sua graça antes que a luz se nos extinga (Ecl 12,1-2). Que apreensão não sentirá um viajante ao notar que se transviou no caminho, quando, por ser já noite, não lhe é possível reparar o engano!... Tal será a mágoa na morte do que tiver vivido muitos anos sem empregá-los no serviço de Deus. “Virá a noite em que ninguém poderá fazer mais nada” (Jo 9,4). Então o momento da morte será para ele o tempo da noite, em que nada mais poderá fazer. “Clamou contra mim o tempo” (Lm 1,15). A consciência recordar-lhe-á todo o tempo que teve e que empregou em prejuízo de sua alma; todas as graças que recebeu de Deus para se santificar e de que não quis aproveitar; e ver-se-á depois privado de todos os meios de fazer o bem. Por isso exclamará gemendo: Como fui insensato!... Ó tempo perdido, em que podia ter-me santificado!... Mas não o fiz e agora já não é tempo de o fazer... De que servem tais suspiros e lamentações, quando a vida está prestes a terminar e a lâmpada se vai extinguindo, vendo-se o moribundo próximo do solene instante de que depende a eternidade?

PONTO III

Devemos caminhar pela via do Senhor enquanto temos vida e luz, porque esta logo desaparece na morte (Lc 12,40). Então já não é tempo para preparar-se, mas de estar pronto (Jo 12,35). Quando chega a morte, não se pode fazer nada: o que está feito está feito... Ó Deus! Se alguém soubesse que em breve se decidiria a causa de sua vida ou morte, ou de toda a sua fortuna, com que ardor não procuraria um bom advogado, diligenciaria para que os juízes conhecessem nitidamente as razões que lhe assistem, e trataria de empregar os meios para obter sentença favorável!... O que fazemos nós? Sabemos com certeza que muito brevemente, no momento em que menos o pensamos, se há de julgar a causa do maior negócio que temos, isto é, do negócio de nossa salvação eterna... e ainda perdemos tempo? Dirá talvez alguém: “Sou ainda moço; mais tarde me converterei a Deus”. Sabe — respondo — que o Senhor amaldiçoou aquela figueira que achou sem frutos, posto que não fosse estação própria, como observa o Evangelho (Mc 11,13). Com este fato quis Jesus Cristo dar-nos a entender que o homem, em todo tempo, sem excetuar a mocidade, deve produzir frutos de boas obras, senão será amaldiçoado e nunca mais dará frutos no futuro. Nunca jamais coma alguém fruto de ti (Mc 11,14). Assim falou o Redentor àquela árvore, e do mesmo modo amaldiçoa a quem ele chama e lhe resiste... Circunstância digna de admiração! Ao demônio parece breve a duração de nossa vida, e é por isso que não deixa escapar ocasião de nos tentar. “Desceu a vós o demônio com grande ira, sabendo que lhe resta pouco tempo” (Ap 12,12). De sorte que o inimigo não perde nem um instante para desgraçar-nos e nós não aproveitamos, o tempo para nos salvar! Outro dirá: Qual é o mal que faço?... Ó meu Deus! E já não é um mal perder o tempo em jogos e conversações inúteis, que de nada servem à nossa alma? Acaso nos dá Deus esse tempo para que assim o percamos? Não, diz o Espírito Santo: Particula boni doni non te praetereat (Ecl 14,14). Aqueles operários de que fala São Mateus não faziam nenhum mal; somente perdiam o tempo, e é por isso que o dono da vinha os repreendeu: “Que estais aqui todo o dia ociosos?” (Mt 20). No dia do juízo, Jesus Cristo nos pedirá conta de toda palavra ociosa. Todo o tempo que não é empregado para Deus, é tempo perdido. E o Senhor nos diz: “Qualquer coisa que possa fazer tua mão, fá-la com instância; porque nem obra, nem razão de sabedoria, nem ciência haverá no sepulcro, para onde caminhas célere” (Ecl 9,10). A venerável irmã Joana da Santíssima Trindade, filha de Santa Teresa, dizia que na vida dos Santos não há dia de amanhã; só o há na vida dos pecadores, que dizem sempre “mais tarde, mais tarde” e é assim que chegam à morte. “É agora o tempo favorável” (2 Cor 6,2). “Se hoje ouvirdes a sua voz, não queirais endurecer vossos corações” (Sl 94,8). Hoje Deus te chama a fazer o bem; faze-o hoje mesmo, porque amanhã talvez já não terás tempo, ou Deus não te chamará.
E, se por desgraça na vida passada empregaste o tempo em ofender a Deus, procura agora expiar essa falta no resto de tua vida mortal, como resolveu fazer o rei Ezequias: “Repassarei diante de ti todos os meus anos com a amargura de minha alma” (Is 38,15). Deus te prolonga a vida para que resgates o tempo perdido: “Recobrando o tempo, pois que os dias são maus” (Ef 5,16); ou ainda, segundo comenta Santo Anselmo: “Recuperarás o tempo se fizeres o que descuidaste de fazer”.
São Jerônimo diz de São Paulo que, não obstante ser o último dos apóstolos, tornou-se o primeiro em méritos pelos seus trabalhos depois da vocação. Consideremos ao menos que em cada instante podemos ganhar maior cópia de bens eternos. Se nos cedessem a propriedade do terreno que pudéssemos percorrer num dia, ou o dinheiro que pudéssemos contar num dia, que de esforços não faríamos! Pois, se podemos adquirir em um instante tesouros eternos, por que havemos de mal gastar o tempo? O que podes fazer hoje não diga que o farás amanhã, porque o dia de hoje se perderá e não mais voltará.
Quando São Francisco de Borja ouvia falar das coisas mundanas, elevava o coração a Deus com tão santos afetos que não sabia responder quando lhe perguntavam qual era o seu sentir acerca do que haviam dito. Repreenderam-no por isso, e ele contestou que antes preferia parecer homem rude do que perder futilmente o tempo.

 Santo Afonso Maria de Ligório




1 Cor 7, 29
"O que quero dizer é que o tempo é curto..."


"Quando penso no modo como tenho empregado 'o tempo de Deus', temo não me queira dar sua eternidade, pois ele a reserva para aqueles somente que fazem bom uso do tempo" (São Francisco de Sales)
Santa Joana de Chantal consagrara-se a Deus e era tão avara do tempo que, quando lhe perguntaram um dia por que não se dava algum repouso, respondeu: "Porque o tempo não é meu; consagrei-o a Deus, e não posso perder nem um minuto sem cometer uma injustiça contra Aquele a quem pertence".

"O mundo inteiro não é digno de um só pensamento do homem, porque só a Deus ele é devido; assim qualquer pensamento posto fora de Deus é um roubo que se lhe faz" (São João da Cruz, Ditos de Luz e Amor, 114).
"Compreendo perfeitamente aquela exclamação que São Paulo escreve aos de Corinto: 'O tempo se fez curto!' (1 Cor 7, 29), que breve é a nossa passagem pela terra! Para um cristão coerente, estas palavras soam, no mais íntimo do seu coração, como uma censura à falta de generosidade e como um convite constante a ser leal. Realmente é curto o nosso tempo para amar, para se doar, para desagravar. Não é justo, portanto, que o malbaratemos, nem que atiremos irresponsavelmente este tesouro pela janela fora. Não podemos desperdiçar esta etapa do mundo que Deus confia a cada um de nós" (São Josemaría Escrivá - Amigos de Deus, n° 39).

"O tempo vale tanto como o céu, como o Sangue de Jesus Cristo, como o mesmo Deus, porque, bem empregado, põe-nos na posse d'Ele" (São Bernardo de Claraval).

"Nada há mais precioso que o tempo e não há coisa menos estimada nem mais desprezada pelos mundanos" (Santo Afonso Maria de Ligório).

Santo Tomás de Vilanova, arcebispo de Valência e, em geral os santos todos, consideravam a perda do tempo como um furto feito a Deus

A brevidade da vida terrena (cfr. Rm 13, 11-14; 2 Pd 3, 8; 1 Jo 2, 15-17)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...