segunda-feira, 19 de março de 2012

O Inferno segundo Santa Teresa D’ Avila


1. Havia muito tempo que o Senhor me fazia muitas graças já referidas e outras ainda maiores, quando um dia, estando em oração, achei-me subitamente, ao que me parecia, metida corpo e alma no inferno. Entendi que o Senhor queria fazer-me ver o lugar que os demônios aí me haviam preparado, e eu merecera por meus pecados. Durou brevíssimo tempo. Contudo ainda que vivesse muitos anos, acho impossível esquecê-lo.
A entrada pareceu-me um túnel longo e estreito, semelhante a um forno muito baixo, escuro e apertado. O chão tinha aparência de uma água, ou antes, de um lodo sujíssimo e de odor pestilencial, cheio de répteis venenosos. No fundo havia uma concavidade aberta numa parede, como um armário, onde me vi, encerrada de maneira muito apertada.
2. O tormento interior é tal, que não há palavras para o definir, nem se entende como é realmente. Na alma senti tal fogo, que não tenho capacidade para o descrever. No corpo eram incomparáveis as dores. Tenho passado nesta vida dores gravíssimas. No dizer dos médicos são as maiores que se podem suportar, como, por exemplo, quando se encolheram todos os meus nervos, e fiquei tolhida. Já não falo de outras muitas dores de diversos gêneros e até algumas causa das pelo demônio. Posso afirmar que tudo foi nada em comparação do que ali experimentei.


O pior era saber que seria sem fim, sem jamais cessar.
Sim, repito, tudo mais pode chamar-se nada em relação ao agonizar da alma: é um aperto, um afogamento, uma aflição tão intensa, e acompanhada de uma tristeza tão desesperada e pungente, que não sei como posso explicar semelhante estado! Compará-lo à sensação de que vos estão sempre a arrancar a alma, é pouco. Em tal caso, seria como se alguém nos acabasse com a vida. Aqui é a própria alma que se despedaça. O fato é que não sei como descrever aquele fogo interior e aquele desespero que se sobrepõem a tão grandes tormentos. Eu não via quem os provocava, mas sentia-me queimar e retalhar.Piores, repito, são aquele fogo e aquele desespero que me consumiam interiormente.

Em lugar tão pestilencial, sem esperar consolo, é impossível sentar-se, ou deitar-se, nem há espaço para tal. Puseram-me numa espécie de fenda cavada na muralha. As próprias paredes, espantosas à vista, oprimem, e tudo ali sufoca. Por toda parte trevas escuríssimas.Não há luz. Não entendo como, sem claridade, se enxerga tudo, causando dor nos olhos. Nesta ocasião o Senhor não quis que eu visse mais de tudo aquilo que há no inferno.Em outra visão, vi coisas horripilantes acerca do castigo de alguns vícios. Pareceram muito mais horrorosas à vista. Como não sentia a pena, não me causaram tanto temor como na primeira visão, na qual o Senhor quis que eu verdadeiramente sentisse aquelas torturas e aquela aflição de espírito como se o corpo as estivesse padecendo. Como foi isso, não sei, mas bem entendi ser grande graça do Senhor querer que eu visse, com meus olhos, de onde sua misericórdia me havia livrado.
Verdadeiramente é nada ouvir discorrer, ou ainda meditar, sobre a diversidade dos tormentos, como eu de outras vezes havia feito, embora raramente. A feição de minha alma não é ser levada pelo temor. Lia que os demônios atenazam as almas e lhes infligem outros suplícios. Tudo é nada a respeito da verdadeira pena, que é muito diferente. Numa palavra, é tão diferente quanto o esboço o é da realidade. Queimar-se aqui na terra é sofrimento muito leve em comparação com aquele fogo de lá.


4. Fiquei tão aterrorizada, e ainda agora o estou enquanto escrevo, apesar de terem decorrido quase seis anos. De tanto temor, tenho a impressão de ficar gelada. Desde então, ao que me recordo, cada vez que tenho sofrimentos ou dores, tudo o que se pode passar na terra, me parece nada. Penso que em parte nos queixamos sem motivo. Foi esta, repito, uma das maiores graças que o Senhor me fez. Valeu-me imensamente, quer para perder o medo quanto às tribulações e contradições desta vida, quer para me esforçar em padecê-Ias e a dar graças ao Senhor, por me ter livrado, ao que agora me parece, de males tão perpétuos e terríveis.


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6 comentários:

  1. Que texto maravilhoso! Que história interessante. Eu descohecia essa visão de Santa Teresa.

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  2. Eu não consigo entender a existência do inferno. Quem vai para o inferno? Deus que é infinitamente Bom como pode deixar pessoas irem para o inferno? Se são os que o negam, os que não o aceitam..? Mas não é toda a alma tocada por Deus convertida de imediato? Se Deus pode converte-la como se perdem elas? Também não entendo como vários santos descrevem infernos diferentes... Mas afinal o que é o inferno? se bem que eu prefira muito mais pensar no Céu, pois o inverso perturba-me um pouco.

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    1. A existência do Inferno é DOGMA de Fé. Não é opinável, não depende de ser entendido ou aceito.

      Estabelecido isso, para quem tem dúvidas, deve recorrer à Igreja, que é Mãe e Mestra. Ler os documentos da Igreja, sobretudo anteriores à confusão mental que foi o Vaticano II.

      Os Santos não descrevem "Infernos diferentes", mas nos dão visões diferentes do mesmo Inferno, não segundo as próprias percepções, mas segundo a Divina Providência quis realçar para cada um deles.

      Há diferença entre o que a Igreja ensina e o que os Santos nos dizem. Os Santos nos auxiliam a entender a doutrina, e devemos aproveitar os textos para nossa santificação. Apenas isso.

      Devemos ser santos (pq Cristo ordenou: "sede perfeitos - ou seja santos - como perfeito é o Vosso Pai que está no Céu) não por medo do Inferno (contrição imperfeita), mas por amor a Deus (contrição perfeita).

      O Inferno é uma realidade e um lugar, não um "estado de espírito", como andam propalando. É um lugar. E nas Escrituras se fala claramente dele. O próprio Cristo desceu ao Inferno por 3 dias. Não é metafórico. Duvidar da Verdade contida nas Escrituras é pecado mortal.

      Quem vai ao Inferno? Vai ao Inferno que não vai ao Céu. E quem vai ao Céu? Quem faz a vontade de Deus! Logo, quem NÃO faz a vontade de Deus, vai ao Inferno. Não pq Deus o quer, mas por livre e espontânea vontade, com as próprias pernas! Deus é bom, e é perfeitamente bom. Mas Ele tb é justo, perfeitamente justo. Então, Ele não nos daria uma Lei para depois dizer: "tudo bem, deixa a Lei prá la que resolvi deixar todo mundo ir para o Céu"!!!! Se fosse assim, se esvaziaria o Sacrifício de Cristo na Cruz. Se Deus é bom no sentido sentimental que se lha dá hoje, pq Cristo morreu na Cruz? Não tinha nada melhor para fazer?

      Cristo morreu na Cruz para nos salvar do Inferno.

      A conversão não se dá pelo simples "toque" de Deus, isso é coisa de protestante. A conversão se dá com a recepção dos Sacramentos, principalmente o Batismo. Mas tb é útil o Sacramento da Penitência, com uma boa confissão geral de toda a vida até então, a absolvição, coroando com a Comunhão. Estudar a doutrina e o Catecismo é coisa a não se negligenciar, pq só amamos o que conhecemos. Nós não conhecemos Deus, temos uma imagem fruto de uma vida inteira de pré-conceitos. A Fé é a adesão da razão às Verdades Reveladas (Dogmas), se nem conhece os Dogmas, como pode dizer que tem Fé?

      Aconselho que estude o Catecismo de São Pio X, que contém sã doutrina e explica tudo o que nos convém saber sobre o Inferno: (neste mesmo blog) http://osegredodorosario.blogspot.com.br/2014/08/catecismo-maior-de-sao-pio-x.html

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    2. Eu li em algum lugar que qdo rezamos, nós falamos com Deus, e qdo lemos, Ele fala conosco.

      Me pareceu mais proveitoso "ouvir a Deus", pela boca da Igreja. Aqui está o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre o Inferno. Não crer no Inferno é não crer na Igreja e no próprio Cristo que, ao dar as chaves do Reino a Pedro foi claro: as portas do Inferno não prevalecerão. Sim, o Inferno existe! Deus não tem duas palavras. A Revelação se concluiu com a morte do último Apóstolo: São Tomé. Ninguém, nem mesmo os anjos do Céu, ou um dos apóstolos, pode mudar a Revelação. O Inferno faz parte da Revelação.

      Então vamos "ouvir" a Deus:

      39) Foram os Anjos todos fiéis a Deus? Os Anjos não foram todos fiéis a Deus, mas muitos por soberba pretenderam ser iguais a Ele, e independentes do seu poder; e por este pecado foram excluídos para sempre do Paraíso, e condenados ao Inferno

      245) Que nos ensina o último artigo do Credo: na vida eterna? O último artigo do Credo ensina-nos que depois da vida presente há outra, ou eternamente feliz para os eleitos no Paraíso, ou eternamente desgraçada para os condenados no Inferno

      248) Em que consiste a desgraça dos condenados? A desgraça dos condenados consiste em serem para sempre privados da vista de Deus, e punidos com tormentos eternos no Inferno

      249) Por agora são só para as almas os bens do Paraíso e os males do Inferno? Os bens do Paraíso e os males do Inferno, por agora, são só para as almas porque por enquanto só as almas estão no Paraíso, ou no Inferno; mas depois da ressurreição da carne, os homens, ria plenitude da sua natureza, isto é, em corpo e alma, serão ou felizes ou infelizes para sempre

      250) Serão iguais Para os eleitos os bens do Paraíso, e para os condenados os males do Inferno? Os bens do Paraíso para os eleitos, e os males do Inferno para os condenados, serão iguais na substância e na duração eterna; mas na medida, isto é, no grau, serão maiores ou menores, segundo os méritos ou deméritos de cada um

      347) Somos obrigados a observar os Mandamentos? Sim, todos somos obrigados a observar os Mandamentos, porque todos devemos viver segundo a vontade de Deus que nos criou; e basta transgredir gravemente um só deles para merecermos o Inferno

      717) Explicai melhor a diferença entre a dor sobrenatural e a natural. Quem se arrepende por ter ofendido a Deus infinitamente bom e digno por Si mesmo de ser amado, por ter perdido o Paraíso e merecido o inferno, ou então pela malícia intrínseca do pecado, tem dor sobrenatural,porque estes são os motivos fornecidos pela fé. Quem, ao contrário, se arrependesse só pela desonra ou castigo que lhe vem dos homens, ou por algum prejuízo puramentetemporal, teria dor natural, porque se arrependeria só por motivos humanos.

      818) Então não acabará nunca o Sacerdócio católico sobre a terra? O Sacerdócio católico, não obstante a guerra que contra ele move o Inferno, há de durar até o fim dos séculos, porque Jesus Cristo prometeu que as potências do Inferno não prevaleceriam jamais contra a sua Igreja.

      965) Que se entende por Novíssimos? Novíssimos são chamados nos Livros Santos as últimas coisas que hão de a contecer ao homem.

      966) Quantos são os Novíssimos? Os Novíssimos, ou últimas coisas do homem, são quatro: Morte, Juízo, Inferno e Paraíso.

      967) Por que é que esses Novíssimos se chamam últimas coisas que acontecerão ao homem? Os Novíssimos chamam-se últimas coisas que acontecerão ao homem, porque a Morte é a última coisa que nos acontece neste mundo; o Juízo de Deus é o último entre os juízos que temos a passar; o Inferno é último mal que hão de sofrer os maus; e o Paraíso é sumo bem que hão de receber os bon

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    3. Bela explicação

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