segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O grave pecado da murmuração explicado por São Filipe Néri

São Filipe perguntou a uma senhora que, na confissão, se acusava frequentemente  de maledicência e murmuração: "Fala desse modo muitas vezes sobre as outras pessoas?" "Muitas vezes, Padre", respondeu a senhora. "Filha, o seu pecado é grave. É necessário que faça penitência. Vá até casa, pegar numa galinha e traga-a até mim, depenando-a ao longo da estrada.”

A mulher obedeceu e apresentou ao santo com a galinha depenada. "Agora", disse São Filipe, "volte pelas ruas de Roma e apanhe as penas da galinha uma a uma." "Mas é impossível, Padre", respondeu a senhora. "Com o vento já estão todas espalhadas, é impossível encontrá-las todas."

"Eu sei", concluiu o santo, "mas queria que entendesse que, tal como se espalham facilmente e incontroladamente as penas de uma galinha levadas pelo vento, também se espalham as falsidades e a sua murmuração em relação à vida das outras pessoas."

domingo, 26 de janeiro de 2020

Escondida por humildade: nem os Anjos conheciam Maria

Maria manteve-se muito escondida durante toda a sua vida; por isso o Espírito Santo e a Igreja chamaram-lhe «Alma Mater»: Mãe escondida e secreta. A sua humildade foi tão profunda, que na Terra nada a seduziu mais poderosa ou mais continuamente do que esconder-se de si própria e de todas as criaturas, para que só Deus a conhecesse. 

Aprouve a Deus, atendendo aos seus pedidos de ocultação, empobrecimento e humildade, esconder a sua concepção, o seu nascimento, a sua vida, os seus mistérios, a sua ressurreição e a sua assunção aos olhos de quase toda a criatura humana. Nem os seus pais a conheciam; e os anjos perguntavam muitas vezes entre si: «Quae est ista? Quem é esta?» (Ct 6,10), porque o Altíssimo a ocultava; ou, se lhes mostrava alguma coisa, escondia-lhes infinitamente mais.

Que coisas grandes e escondidas fez este Deus poderoso nesta Criatura admirável, como ela própria foi obrigada a reconhecer, apesar da sua profunda humildade: «O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas». O mundo não as conhece, porque é incapaz e indigno.

S. Luis Maria Grignion de Monfort in Tratado da verdadeira devoção à Virgem Maria, 1-6

sábado, 25 de janeiro de 2020

A necessidade de atender às desculpas dos outros


Sabes bem desculpar e colorir as tuas acções, mas não queres atender às desculpas dos outros. Seria mais justo que te acusasses, e desculpasses o teu irmão. Se queres ser suportado, suporta tu os outros. Vê quão longe estás ainda da verdadeira caridade e humildade, que só sabe irritar-se e indignar-se contra si própria.

Não tem valor conviver com os que são bons e pacientes, pois isso agrada naturalmente a todos; qualquer pessoa quer de boa vontade a paz, e gosta mais do que pensam como ela. Mas poder viver em paz com os duros e os maus, com os indisciplinados, com os que se nos opõem, é grande graça e acção digna de louvor e corajosa.

Aquele que melhor sabe sofrer, maior paz conseguirá. Este é o que se vence a si mesmo e o senhor do mundo, o amigo de Cristo e o herdeiro do Céu.

in Imitação de Cristo, Livro II, cap. 3

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Conselhos de Santa Teresa para a oração




1. Dirige a Deus cada um dos teus atos; oferece-os e pede-Lhe que seja para Sua honra e glória.

2. Oferece-te a Deus cinquenta vezes por dia, e que seja com grande fervor e desejo de Deus.

3. Em todas as coisas, observa a providência de Deus e Sua sabedoria, em tudo, envia-Lhe o teu louvor.

4. Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandone nem as obras de oração, nem a penitência a que está habituado. Antes, intensifica-as, e verá com que prontidão o Senhor te sustentará.

5. Nunca fale mal de quem quer que seja, nem jamais escute. A não ser que se trate de ti mesmo. E terá progredido muito, no dia em que se alegrar por isso.

6. Não diga nunca, de você mesmo, algo que mereça admiração, quer se trate do conhecimento, da virtude, do nascimento, a não ser para prestar serviço. Mas então, que isso seja feito com humildade, e considerando que esses dons vêm pelas mãos de Deus.

7. Não veja em você senão o servo de todos, e em todos contempla Cristo Nosso Senhor; assim O respeitará e O venerará.

8. A respeito de coisas que não lhe diz respeito, não se mostre curioso, nem de perto, nem de longe, nem com comentários, nem com perguntas.

9. Mostrai sua devoção interior só em caso de necessidade urgente. Lembra do que diziam São Francisco e São Bernardo: “Meu segredo pertence a mim”.

10. Cumpra todas as coisas como se Sua Majestade estivesse realmente visível; agindo assim, muito ganhará a sua alma.

11. Que seu desejo seja ver Deus. Seu temor, perdê-Lo. A dor, não comprazer na Sua presença, a satisfação, o que pode conduzi-lo a Ele. E viverá numa grande paz.

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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

RAZÃO, PAIXÃO E NAMORO

Hoje eu queria lhes falar sobre um tema que tenho pensado e exposto em algumas conferências que andei fazendo por aí. Tema difícil e que eu tenho falado como em uma espécie de laboratório, de reflexão, captando aqui e ali as ponderações das pessoas sábias. É dentro desse espírito que eu lhes trago aqui. Meu intuito é tratar do assunto do namoro de forma racional, buscando as razões profundas que levam os homens a se comportar com respeito, na obediência à Lei de Deus. Não é suficiente, hoje, um padre dizer aos jovens: não façam isso ou aquilo. Quem quer entender, busque a verdade!
Estamos numa fase em que muitos de vocês estão namorando e eu sei o quanto o namoro pode ser um obstáculo à vida católica. E isso importa para mim e para vocês.Como tem acontecido com freqüência, a consciência vai perdendo os parâmetros, os critérios do reto agir, a razão começa a ficar confusa diante de um mundo que vai impondo o pecado para todos e em toda parte.
Alguém já me colocou a coisa nos termos seguintes: eu sei que não posso ter um relacionamento sexual porque é proibido pela Lei de Deus, pelos Mandamentos; mas eu não entendo porque é proibido, para mim parece um exagero.
Esse exemplo mostra a urgência de nós falarmos sobre o assunto. Eu sei que isso pode parecer uma imposição de regras, mas não é assim. O que eu quero é que vocês entendam as razões profundas que levaram Deus e a Igreja a colocarem na Santa Lei esse mandamento: não fornicarás (ou seja, não terás um relacionamento sexual fora do casamento).
De fato, se olharmos para a natureza do homem e da mulher, o modo como os corpos se completam, as reações fisiológicas que acontecem quando os sentimentos e paixões se atraem mutuamente, poderíamos pensar que não há pecado onde tudo obedece tão bem à natureza dos corpos.
Mas um olhar mais profundo sobre a natureza humana nos obriga a considerar que nem só do corpo é feito o homem. Se aquela é a lei da paixão, já não é a lei da razão. A razão é aquilo que nos diferencia dos animais. Somos racionais porque temos uma alma espiritual, capaz de raciocínio, pensamento, conclusões, capaz de errar e de reconhecer que errou, voltar atrás e corrigir, tudo isso é próprio da Inteligência. A inteligência é uma máquina de processar a Verdade! E esse mesmo espírito é também capaz de mover-se em busca do Bem, daquilo que o conhecimento, a inteligência, a razão, nos mostraram como sendo verdadeiro. Essa capacidade de buscar o bem e de possui-lo, está na Vontade livre. A vontade é uma máquina de processar o amor, esse movimento racional que nos leva a buscar o bem racional. (difere do amor paixão, que é aquela atração dos corpos que vimos acima).
Ora, essa natureza composta de corpo e espírito foi criada por Deus. Isso é muito claro porque está revelado por Deus no primeiro livro da Biblia, o Gênesis.
Mas, ao criar o homem à sua Imagem e semelhança, capaz de conhecer e de amar, aconteceu uma coisa incrível: Deus criou a mulher, tirou-a do lado do homem, da sua costela, ou seja, do seu peito, para que ele fosse para ela proteção e amor. Mais do que isso: Deus tomou Eva pela mão e a apresentou a Adão. Isso também está revelado no Gênesis. Deus criou a FAMÍLIA, e determinou assim que fosse pela Família que a sociedade humana se desenvolvesse: “Por isso, deixará o homem seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne” (Genesis , cap. 2). Nesta frase aparece claramente que a união sexual só existe, só foi criada por Deus quando o homem deixa a sua casa e se une à sua mulher, dois numa mesma carne. No capítulo primeiro, aparecera a razão do homem se unir à sua mulher: “Crescei e multiplicai-vos e povoai a terra”, o que dá o significado primeiro, a razão principal da união carnal: povoar a terra, trazer frutos para a nova Família.
Ora, nada disso aparece no namoro. Ninguém saiu da casa de pai e de mãe para se unir à uma mulher, ninguém assumiu a responsabilidade de ganhar a vida para sustentar a Família, ninguém tem relações sexuais com namorada ou namorado para povoar a Família… bem ao contrário, é falsificando a própria beleza do ato conjugal que os jovens fazem isso.  Mas é claro que ninguém vai dizer que estava ali fazendo sexo com o namorado ou com a namorada por razões mesquinhas e carnais. Vão me dizer que é por amor, porque se amam. Mas aqui aparece claramente que esse amor que une um namorado a uma namorada não é o amor da Vontade Livre, aquele amor que é racional, que obedece à Verdade racional e é fruto dessa verdade. O amor que leva os jovens a se unir é o amor paixão, e esse é puramente carnal, animal e bruto. No fundo, só serve para satisfazer os próprios desejos, já que não está fundamentado na verdade da Família. Só a Família nos leva a agir por uma causa superior a nós mesmos. Quando, ao contrário, é fugindo da Família que se tem relações íntimas, então ele só pode ser carnal, e isso é uma espécie de escravidão, contrária à liberdade da Vontade.
Muito bem… vamos supor que vocês entendam, pelo que ficou explicado acima, que o sexo só pode ser praticado quando já se fundou uma Família. Resta então examinar a questão do namoro.
O Namoro
A primeira coisa que constatamos na sociedade atual é que a difusão do sexo livre foi crescendo na mesma proporção em que o casamento foi desmoronando. Quanto maior foi a liberdade dada aos jovens de se encontrarem na intimidade, alegando que todos são muito maduros e livres, maior foi o descaso com a Família. E eu pergunto: não deveria ser o contrário? Se fosse verdadeiro amor o que une os jovens no namoro, e que esse amor fosse racional, fruto da verdade, não deveria empurrá-los a querer sair de casa e fundar uma nova família? Mas não, o que vemos é um horror cada vez maior com a idéia de casamento.
Desapareceu a diferença da função social do homem e da mulher; esta passou a lutar com o homem no mercado de trabalho e já não quer saber da casa, do lar, de filhos, de fraldas, de preparar um jantar gostoso para o marido. Ao contrário, ela está na faculdade, ela só vai poder pensar em casamento (ou melhor, em experiências de viver junto) quando já estiver trabalhando, ganhando dinheiro e se realizando como profissional. Ou seja, ela só vai pensar em viver junto ou em algo parecido com uma Família quando o fato de ter filhos já for um tremendo incômodo, uma atrapalhação, um gasto, um número negativo na conta bancária.
Aí, nesse contexto, é claro, fica fácil se entender que a Família já não conte mais na vida do namoro. O namoro passa a ser, então, a satisfação dos prazeres do corpo através da afeição sentimental para com outra pessoa. (eu não quero entrar em outro detalhe, mas também devemos considerar que, sendo assim, não espanta que tantas pessoas se inclinem a paixões invertidas. Sendo fruto da paixão, esse tipo de atração vai depender também da química dos hormônios e como não há mais critérios morais e espirituais regulando essas paixões, vão se deixar levar pela mesma escravidão da paixão. E uma pessoa que considere normal que os namoros sejam sexuais, se for coerente com esse pensamento, chegará à conclusão que o sexo invertido também é normal, o que repugna à natureza criada por Deus e ao mais simples espírito católico)
É assim que o namoro atual está impregnado de diversos erros e de atos pecaminosos que arrancam a graça do coração. Uma alma católica não pode perder a noção do que seja a amizade de Deus e deve sempre se impor uma análise franca e verdadeira sobre o seu estado de alma antes de se aproximar da Sagrada Mesa, na Comunhão. Antes a morte do que o pecado, dizia São Domingos Sávio.
Namoro Precoce:
O primeiro erro do namoro atual é ser precoce. Tudo inclina a criança a viver nesse ambiente de sensualidade: as roupas que se usa, o corpo que deve aparecer, a vaidade precoce e exagerada, as brincadeiras fomentadas entre crianças pequenas de namorinhos e beijinhos. Tudo leva os pré-adolescentes a mergulharem nos namoros carnais a partir dos dez-doze anos. Como uma criança católica pode viver o mínimo do catolicismo se começa a namorar numa época em que o namoro só pode servir para excitar as paixões? Porque nem mesmo verdadeira afeição se pode ter numa idade dessas! Tudo ali é falso. O corpo não está formado, a inteligência não terminou seu desenvolvimento, a responsabilidade do amor verdadeiro está muito longe de se alcançar, enfim, nada existe de verdade senão a enganação da mídia e dos intelectuais.
Quando se deveria pensar em namoro? … só se deveria pensar em namoro quando, no mínimo, uma abertura verdadeira existisse para um casamento futuro. Sem isso, não faz sentido, porque só servirá para as paixões e para o amor carnal. O que vemos hoje é que todos os jovens se sentem obrigados a namorar porque convivem com isso. A vergonha de parecer diferente (chama-se “respeito humano”) tem mais peso do que o temor de Deus e o risco da condenação eterna.
Namoro excitante:
Outro erro do namoro é fazer com que ele seja uma preparação para o sexo. Muitos jovens católicos, sabendo que o sexo é pecado, se entregam a todo tipo de atos excitantes, de contatos, de beijos sexuais, que já não servem mais para significar um verdadeiro amor, mas sim para satisfazer as paixões mais carnais do corpo.  Ora, o corpo tem suas exigências, a sensualidade tem suas regras, de modo que não se pode entregar a atos de sensualidade que excitam o corpo sem que o corpo leve ao pecado. O grau de excitação pode variar pelo tempo e pelo modo, mas a regra é inexorável.
Além disso, há uma espécie de lei também nas coisas da carne. E essa lei dita que nunca se retorna a um estágio anterior. Uma vez rompida uma barreira, não se volta a um estágio anterior a ela. Sempre que um casal de namorados ousa mais, alcança uma intimidade maior, eles já não conseguirão deixar de usar daquele estágio de aproximação. Até que se chega ao estágio máximo, em que um simples casal de namorados tem uma intimidade de marido e mulher. Já se perde o pudor, a vergonha, já se está pronto para o sexo sem casamento e sem responsabilidade. (entendam essa expressão no sentido exposto acima, da fundação de uma nova família. Não tem nada a ver com o pecado do uso de preservativos para não contrair aids.)
Namoro-escola:
O namoro sexual tem outras conseqüências pecaminosas: ele ensina a pessoa a fazer outros pecados. Como a vida de namoro deixou de lado qualquer regra religiosa ou moral, ao chegar ao casamento, (se chegar) o jovem já vai estar acostumado com uma vida sem Deus, sem comunhão, sem limites. Qual a garantia que se terá de que sua vida de casado vai obedecer às santas regras da religião? Como vai ele ou eles, encarar a necessidade de se obedecer a Deus no que toca o uso do matrimônio? (ou seja, o fato de que o ato conjugal do casal, agora já lícito porque casaram, não pode ser falsificado através de preservativos, remédios, e atos para impedir a gravidez). O jovem casal que não teve forças espirituais para viver na castidade, vai ter forças para viver na santidade do sacramento do matrimônio? Aparentemente não. E aquilo que era só um “namorinho” mais ousado, transforma-se num modo de vida, num estilo anti-católico de viver, onde a carne é a rainha e o espírito foi relegado ao calabouço do castelo interior. A situação da alma é de grave perigo de condenação eterna. E tudo começou num namorinho precoce de adolescentes imaturos.
Como consertar essa situação:
De alguma forma é preciso voltar à Sabedoria da Igreja, porque importa viver sempre na graça de Deus. Não podemos barganhar com as coisas divinas, usá-las ou não usá-las de acordo com nossa vontade. A Majestade Divina exige e nós devemos amorosamente obedece-Lo como a um Pai. Além disso, pesando tudo isso, pesando o passado e o presente, devemos constatar que a salvação eterna é muito mais importante do que alguns momentos de prazer carnal. Por isso vale a pena um esforço. Me parece que alguns pontos são de exigência premente:
– não comecem a namorar cedo. O namoro precoce rompe o momento da juventude que é o momento de fomentar as grandes amizades, de se conhecer as pessoas de modo mais profundo, de se divertir com diversões sadias, em grupos de pessoas boas, animadas e amigas. Nesse ambiente, o rapaz ou a menina que começam a namorar se isolam dos amigos, vão se esconder nos cantos para estar sozinhos, para romperem as barreiras, para se sentirem donos de si. Além disso, o namoro excitante tira a concentração nos estudos, deixa a pessoa irritadiça, desobediente, mentirosa… Começa a ver os pais como inimigos, ferem o 4º Mandamento alegremente… ou seja, um desastre moral se abate sobre ela.
– quando já forem maiores e que aparecer uma pessoa na vida de vocês, antes de começarem a namorar passem um tempo num estágio de vida que, antigamente, se chamava “freqüentação”. Fulano está freqüentando sicrana, se dizia. Nesse estágio, as conversas são mais importantes do que os beijos, o encontro com amigos comuns não atrapalha os dois, ao contrário, só enriquece. Para uma pessoa católica, essa é a oportunidade de se conhecer melhor, de se saber se tal pessoa poderá vir a ser um bom namorado ou boa namorada. Já não importa muito se é a mais bonita da sala, se é o galã de cinema esperado. Esse tempo de freqüentação faz aquele amor de paixão, perigoso e excitante, ir tomando o aspecto real e natural do verdadeiro amor, que é o amor da razão. Então, quando se iniciar a fase de namoro propriamente, de um compromisso, já se terá refletido sobre o que é o bem e o mal, o certo e o errado, tanto nos atos a serem feitos no namoro, como no que se pretende fazer da vida.
– Cuidado com as intimidades exageradas. Hoje já não se beija ou se abraça. O que os namorados fazem é simplesmente uma preparação sexual, e isso não pode ser, é pecado se preparar para pecar; é pecado se colocar em situação próxima de pecado. Quando um casal de namorados se prepara sexualmente, mesmo se eles tiverem, no início, a intenção de não praticar o sexo, serão empurrados e ludibriados pela lei do corpo e da sensualidade. Aprendam a estabelecer os limites para não cair nesse exagero, pois o pecado está ali, de espreita, para dar o bote.
– Quando vocês perceberem que um relacionamento só vai lhes levar aos prazeres do sexo, ficará claro que não tem futuro católico um namoro desses. Isso lhes mostrará que não se deve deixar as afeições crescerem a ponto de se perder as forças de reagir, de voltar atrás e de interromper tal freqüentação ou namoro. Guardem sempre a liberdade sobre as paixões, não se entreguem a fundo num sentimento exagerado que lhes impedirá de ver onde está a verdade.
– Recorram sempre à oração. A alma que não reza está preparando para si o caminho do inferno. Não é possível viver sem pecar se não se pede ajuda a Deus, se não se pensa nos seus mistérios, no Natal, nas dores da Paixão, no Céu onde Ele habita e prepara um lugar para nós. Não faz sentido para um católico, mesmo quando ele está nessa idade das grandes descobertas, de desprezar a Santa Missa e a piedade eucarística, como vemos nas melhores famílias. Os jovens liberados de hoje não são piedosos, não rezam e não amam a Deus. Quando vão à missa, é aquela chateação e obrigação! Isso não é normal. Um jovem de 18 ou 20 anos deve alimentar o desejo das coisas grandes que lhe vem ao coração, descobrindo a grandeza dos mistérios de Deus, da prática das virtudes e da oração.
É possível, quando já se está numa idade razoável, fazer um namoro em que o pecado fique esquecido. Mesmo quando o namorado ou a namorada não forem católicos, ou não forem da Tradição, ainda assim é possível mostrar a eles o quanto um namoro casto respeita a eles mesmos, ajuda aos dois a se conhecerem melhor e prepara as intenções para um futuro cheio de verdadeiras aventuras, quando chegar a hora de entrar na igreja ao som dos órgãos. Acreditem, vale à pena.
Cuidado com o mundo, ele está enganando vocês direitinho.
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Outros dois excelentes textos e um vídeo sobre o assunto estão nos links abaixo:

sábado, 4 de janeiro de 2020

“AÇÃO ENTRE AMIGOS” DE UM BELÍSSIMO ORATÓRIO – PARTICIPEM

Prezados amigos, fiéis, leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.
É com grande alegria que iniciamos hoje mais uma Ação em prol da “Campanha de nossa Capela”, para honra e glória de Nosso Senhor e de Sua Santa Igreja, e por isso contamos com sua generosidade.
Trata-se de uma “Ação entre amigos, fiéis, leitores e benfeitores”, onde sortearemos esse belíssimo oratório aos que quiserem e puderem nos ajudar.
Esse oratório mede 1,20m de altura x 0,60m de largura. Um trabalho incrível!
O VALOR DE CADA NÚMERO É DE R$15,00.
Para isso, é necessário que:
1 – Façam o depósito/transferência do valor correspondente à quantidade de números que estão comprando na conta abaixo (também pode ser feito nas lotéricas);
ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA E CULTURAL SÃO PIO X
CAIXA ECONÔMICA FEDERAL
Agência. 1374
Conta Poupança: 401124-3 (Operação: 013)
CNPJ: 09.385.198/0001-43
2 – Enviem o comprovante, os dados do benfeitor (Nome, Endereço completo e telefone)  e também o(s) número(s) correspondente(s) que escolherem, entre 1 e 1500 (que estão disponíveis nessa planilha), para o email: capela@catolicosribeiraopreto.com
O sorteio será após a Missa do dia 29/03 e será feito pelo padre responsável pela nossa Missão.
Se quiserem saber mais sobre a Campanha de nossa capela, clique aqui.
Os que, por ventura, não puderem adquirir seu(s) número(s), pedimos que, por caridade, rezem por nós, pela intercessão de São José e Nossa Senhora, a quem tanto pedimos.
Contamos com a colaboração de todos.
FONTE:

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

NATIVIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO



Impleti sunt dies ut pareret (Maria); et peperit filium suum primogenitum — “Completaram-se os dias em que (Maria) devia dar à luz; e deu à luz o seu filho primogênito” (Luc. 2, 6).
Sumário. Imaginemos ver a Jesus já nascido na gruta de Belém, e ouvir os anjos cantar glória a Deus e paz aos homens de boa vontade. Quais devem ter sido os sentimentos que então se despertaram no coração de Maria, ao ver o Verbo divino feito seu filho! Qual a devoção e ternura de São José ao apertar contra o coração o santo Menino! Unamos os nossos afetos com os desses grandes personagens.
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Quando Maria Santíssima entrou na gruta, pôs-se logo em oração. De súbito vê uma refulgente luz, sente no coração um gozo celestial, abaixa os olhos, e, ó Deus! que vê? Vê já diante de si o Menino Jesus, tão belo e tão amável, que enleva os corações. Mas treme e chora; segundo a revelação feita a Santa Brígida, estende as mãozinhas para dar a entender que deseja que Maria o tome nos braços. Maria, no auge de santa alegria, chama José. — Vem, ó José, disse ela, vem e vê, pois já nasceu o Filho de Deus. Aproxima-se José, e vendo Jesus nascido, adora-O por entre uma torrente de doces lágrimas.
Em seguida, a santa Virgem, movida de compaixão maternal, levanta com respeito o amado Filho, e conforme a já citada revelação, faz por aquecê-Lo com o calor de seu rosto e do seu peito. Tendo-O no colo, adora o divino Menino como seu Deus, beija-Lhe os pés como a seu Rei, e beija-Lhe o rosto como a seu Filho e procura depressa cobri-Lo e envolvê-Lo nas mantilhas. Mas ai, como são ásperos e grosseiros os paninhos! Além disso, são frios e úmidos, e naquela gruta não há lume para, aquentá-los.
Consideremos aqui os sentimentos que surgiram no coração de Maria, quando viu o Verbo divino reduzido por amor dos homens a tão extrema pobreza. Contemplemos a devoção e a ternura que ela experimentou quando apertava o Filho de Deus, já feito seu filho, contra o coração. Unamos os nossos afetos aos de tão boa Mãe e roguemos a Deus Pai “que o novo nascimento do seu Unigênito feito homem, nos livre do antigo cativeiro, em que nos tem o jugo do pecado” (1) .
Jesus nasceu! Vinde, ó reis, príncipes e todos os homens da terra, vinde adorar o vosso Rei. Mas quem é que se apresenta? … Ah! o Filho de Deus veio ao mundo, e o mundo não o quis conhecer.
Porém, se não vêm os homens, vêm ao menos os anjos adorar o seu Senhor, e cantam jubilosos: Gloria in altissimis Deo, et in terra pax hominibus bonae voluntatis (2) — “Gloria a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade”. Glória à divina Misericórdia, que, em vez de castigar os homens rebeldes, fez o próprio Deus tomar o castigo sobre si, e assim os salvou.  Glória à divina Sabedoria, que achou meio de satisfazer à Justiça, e ao mesmo tempo, de livrar o homem da morte merecida. Glória ao divino Poder, que de um modo tão admirável venceu as forças do inferno.  Glória finalmente ao divino Amor, que induziu um Deus a fazer-se homem e a levar uma vida tão pobre, humilde e penosa. Meu irmão, unamos as nossas adorações às dos anjos e digamos com a nossa santa Madre Igreja:
Gloria in excelsis Deo! Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade. Nós Vos louvamos, Vos bendizemos, Vos adoramos, Vos glorificamos. Graças Vos damos por vossa grande glória, Senhor Deus, Rei do céu, Deus Pai todo-poderoso. Ó Senhor, Filho unigênito de Deus, Jesus Cristo, Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho do Pai: Vós, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós. Vós, que tirais os pecados do mundo, aceitai as nossas súplicas. Vós, que estais sentado à mão direita do Pai, tende piedade de nós. Porque só Vós, ó Jesus Cristo, sois Santo, só Vós o Senhor, só Vós o Altíssimo, com o Santo Espírito, na glória de Deus Pai. Assim seja”. (3) (*III 728)
  1. Or. festi.
    2. Luc. 2, 14.
    3. Miss. Rom.
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I – Santo Afonso

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

A Vinda de Cristo à Alma. Como Preparar-se?



“Eu sou a voz do que clama no deserto” (Jo 1, 23)

Exórdio: o Pregador, outro João Batista

Perguntaram a São João Batista quem era, e ele respondeu:
– “Eu não sou o Messias, nem Elias, nem aquele profeta a quem Deus se referiu ao falar com Moisés: Eu suscitarei um profeta como tu dentre os teus irmãos, e a quem recusar ouvir o que ele disser da minha parte, pedir-lhe-ei contas (cf. Jo 1, 20-21; Dt 18, 18-19). Não sou nenhum desses”, disse São João.
– “Se não és nenhum desses”, disseram eles, “como ousaste impor um novo rito ao povo? Como é que batizas?”
– “Não vos assusteis, porque o meu batismo apenas limpa com água a cabeça e o corpo; a sua função é somente fazer que os que dele se abeiram professem que são pecadores e necessitam de alguém que os limpe dos pecados. (Aquele batismo não era como o nosso, que transmite a graça). Mas no meio de vós está quem vós não conheceis e vos seria conveniente conhecer; esse limpa com água e com fogo, e introduz a mão nas almas, limpando-as de toda a sujidade, e eu sou tão diferente dEle que não sou digno de desatar a correia das suas sandálias; este é aquele que já profetizei e que vos preguei outras vezes, o qual há de vir depois de mim e era antes de mim. É tão superior a mim que eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias nem de servi-lo como escravo”.
– “Não sou quem pensais”, disse João Batista. – “Então quem és?”. E ele disse-lhes: – “Eu sou a voz do que clama no deserto, e este é o meu ofício, a minha honra, a minha dignidade e o meu ser. Eu não sou o Messias, mas a voz do Senhor que quer vir até vós: Endireitai os caminhos do Senhor” (cf. Jo 1, 23).
Pobre de mim e de outros como eu, que temos o ofício de São João Batista sem possuir a sua santidade. O sacerdote, o pregador, anjo – porque “anjo” significa mensageiro -, o pregador é mensageiro de Deus, e Deus fala por sua boca. Somos mensageiros de Deus, anfitriões do rei, mas não sei se é por não sabermos desempenhar este papel, ou por qualquer outro motivo, que os ouvintes nos olham com os meros olhos da carne e atentam apenas para a nossa aparência externa.
Se o pregador começasse por lamentar não ser digno de tal ofício, e suplicasse a Deus que desse às pessoas a graça de virem ao sermão dizendo: – “Vamos ouvir a Deus”; e se vós vos preparásseis para ouvir bem a palavra de Deus – pois, ainda que seja um homem pecador e miserável quem as pregue, como eu, as palavras são de Deus e não dele, e é em nome de Deus que vo-las diz -; se desse modo e com essa fé viésseis ouvir os sermões, de outra forma creríeis no que neles vos é dito e tiraríeis deles outro proveito.
Eu não sou João Batista, mas, por ser pregador, tenho o seu ofício, e digo-vos da parte de Deus e em seu nome que deveis preparar as vossas almas. Deus quer vir morar em cada um dos que estais aqui. Daqui a oito dias terá nascido, e vós ouvireis o seu choro no presépio de Belém.
Pensai quão preocupada e alegre andava a Virgem Maria nestes oito dias, quantas apreensões trazia no seu coração, não como as vossas, pois estareis pensando agora em que comereis na noite de Natal e que roupas usarei. Não andaria ela pensando nisso, mas estaria preparando os paninhos para o Menino que daria à luz. E como o próprio Jesus Cristo disse que “todo aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é minha mãe” (cf. Mt 12, 50), a vossa ocupação nestes oito dias deverá ser preparar-vos.
se Jesus Cristo há de nascer na minha alma, como a prepararei, como a adornarei, para que, mal chegue, a encontre bem preparada? Se até este ponto do Advento fomos preguiçosos e descuidados, nestes oito dias que faltam para o Natal sejamos diligentes em preparar-nos. E já que não o podemos fazer sem receber uma graça do alto, supliquemos à Santíssima Virgem que no-la alcance.

Cristo vem morar na nossa Alma

Não sei se este sermão não será um fracasso como os outros. Sois tão avessos a receber hóspedes que, embora vos digam que deveis preparar a vossa casa, pois Deus quer ocupá-la, não sei se querereis fazê-lo ou se direis:
“Vai em paz, porque não estou agora com disposição para receber hóspedes”
Hoje, porém, tereis de acreditar em Deus e não em mim. Trata-se de um acontecimento tão importante que, se acreditásseis bem nEle, não há dúvida de que seria bem recebido. Sabeis que coisa importante é essa? Que Deus vai descer do céu para fazer-se homem, e, depois de humanado, nascerá num estábulo e ficará chorando, colocado numa manjedoura; e passados oito dias derramará o seu sangue na circuncisão; e depois, quando crescer, será amarrado a uma coluna, despido, e receberá mil açoites, e subirá numa cruz e nela morrerá por nós e para nossa salvação. Ouvi, pois, uma palavra verdadeira e alegre, ouvi uma notícia saborosa e certa: Deus veio ao mundo para salvar os pecadores; Deus não veio para nos condenar, mas para nos salvar.
“Como é possível? A minha consciência me diz que cometi mil pecados, e foi a Deus que eu menosprezei e tive em pouco. É possível que Aquele que esbofeteei e em cujo rosto cuspi venha agora salvar-me?”
Aí está a bondade de Deus: tu o ofendeste e Ele vem buscar-te para te perdoar e pedir que todos vós sejais seus amigos.
Acreditai em mim hoje: não há ninguém dos aqui presentes a quem Deus, para sempre bendito, não queira vir neste Natal. Deus deseja vir a vossa casa e morar convosco! Aquele que está nos céus, e é adorado pelos serafins, Aquele que se encarnou no seio da Virgem Maria, Aquele que há de nascer daqui a oito dias, quer vir a cada um de vós. Deus, na sua misericórdia, vos ilumine para que hoje fique alojado nas vossas entranhas. Irmãos, preparai-lhe as vossas almas, pois Deus quer vir a elas.
Todos os adventos do Senhor são admiráveis. O primeiro advento, que foi Deus ter vindo em carne, quem o poderá contar? A vinda do juízo, quando Deus vier julgar os vivos e os mortos, e enviar uns para o céu e outros para o inferno, quem vo-la poderá contar? Quem vos contará as graças que Deus faz ao homem a cuja alma Ele vem?
Quereis parar e pensar nisto por alguns momentos?
“Se alguém me ama, diz Jesus Cristo, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 23)
Portanto, o Pai, o Filho e o Espírito Santo moram naquele que ama Jesus Cristo e guarda os seus mandamentos.
“Vós sois o templo de Deus vivo” (2 Cor 6, 16), diz São Paulo
Irmãos, Deus mora em vós. Parai e pensai na diferença que existe entre uma alma em que mora Deus e outra em que mora uma multidão de demônios; vemos juntos, e por fora andamos todas da mesma maneira, mas, por dentro, vede quanta diferença: nuns, mora Deus; em outros, o demônio.
Enfim, Deus quer vir a vós, mas se me perguntardes que significa Deus vir a uma alma, não creio que vo-lo saiba responder. Diz São Paulo que os dons de Deus são inexprimíveis (cf. 2 Cor 9, 15). Pois se não é possível exprimi-los, como saberei dizer-vos que significa Deus vir morar numa alma? Experimentai-o e vereis por vós mesmos o que significa. Basta dizer-vos que o hóspede que quer vir a vós é Deus. Irmãos, Deus quer vir a vós.

Cristo traz consigo o Seu Reino…

Senhor, que coisa dura é dizer a um ladrão: “Aí vem o juiz”. Fugirá, como fez Adão ao ouvir a voz do Senhor. Senhor, para que vindes? Ele próprio o disse através de São João:
“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”
O rei vem e traz consigo o reino para que, se existe alguém tão avarento que pense ser pouco a vinda de Deus a ele, e o atraiam outras coisas e por elas se apaixone mais do que por Deus, saiba que Ele traz muitas riquezas e vem conceder-nos grandes mercês. E assim diz:
“Por isso não deixeis de receber-me, pois vos trago tudo o que podeis querer e desejar, e muito mais”
“Que trazeis, Senhor?” O reino de Deus está dentro de vós (Lc 17, 21). Por acaso já compreendestes alguma vez o sentido desta passagem? Sabei que o reino de Deus está dentro de vós. Não penseis que consiste em ter muitas vinhas e muitos olivais. Na alma à qual vier o amor a Deus e ao próximo, aí estará alojado o reino de Deus; dentro da alma que obedecer a Deus, aí se encerrará o reino de Deus. É o próprio São Paulo quem o diz:
“O reino de Deus não está na comida nem na bebida, mas na justiça, na paz e no gozo do Espírito Santo” (Rm 14, 17)
O Rei vem e traz consigo o reino, e o seu reino é de justiça e paz. Quem haverá que não o receba? “Justiça”, nesta passagem, não significa “fazer justiça”, mas uma virtude pela qual um homem se converte de pecador em justo. é o que Isaías dizia vários séculos antes:
“Que os céus derramem das alturas o seu orvalho, que as nuvens façam chover a vitória, abra-se a terra e brote a felicidade e ao mesmo tempo germine a justiça! Sou eu, o Senhor, a causa de tudo isso” (Is 45, 8)
E que querem dizer estas palavras? Que a causa pela qual nos tornamos bons é Jesus Cristo. São Paulo diz que Ele se fez para nós redenção, satisfação, justiça e sabedoria (cf. 1 Cor 1, 30). Não penses, irmão, que és justo pelas tuas boas obrinhas, pelo que fazes, mas sim pelas boas obras e pela paixão de Jesus Cristo. Se unes as tuas boas obras a Ele, Ele as faz meritórias. Nasça, pois, o Cordeiro e, com Ele, a justiça e a santificação.
A paz é uma coisa boa para os casados, se estão brigados. Mas quem não está brigado? Quem não pensa que gostaria de servir a Deus e, ao mesmo tempo, alimenta dentro de si outros pensamentos e outra lei que repugnam e contradizem a Deus? Esses são os que dizem, desconsolados e aflitos: “Ofendi a Deus!“, porque esse é o maior dos tormentos e o maior dos desconsolos.
Que pensáveis? Que o maior dos tormentos é: “Não tenho nada que comer, não tenho nada que vestir, estou sendo caluniado, perseguem-me“, etc? Esse é um sofrimento carnal. A queixa que deveis fazer não há de ser contra aquele que vos caluniou ou vos injuriou, mas contra vós mesmos. Ireis para o vosso canto e, diante de Deus, queixar-vos-eis de vós mesmos, dizendo:
– “Senhor, devo-Te tanto que estaria obrigado a padecer por Ti o mesmo que sofreste por mim, e contudo não suporto uma palavrinha, uma ninharia; queixo-me, Senhor, de mim e da minha pouquidão”
A verdadeira dor é a que faz uma pessoa bater no peito, considerar os seus defeitos e maldades e dizer:
– “Oh, ofendi a Deus! Que longe estou do caminho de Deus!”
Este é o verdadeiro tormento e o maior dos desconsolos, e foi para extingui-los que Deus veio a este mundo. Que diziam os judeus néscios? “O Messias vem para nos dar riquezas, vinhas e olivais“. Mas de que me aproveitaria o Messias se me desse tudo isso, mas não curasse o mal que trago no coração? Deus está de mal comigo. Se o Messias deve ser o meu Messias, cure-me esta chaga que trago no coração, e, se não o fizer, não quero bem algum.

…Reino de Alegria de Paz

Se vos preparardes para receber este hóspede, Ele é tão poderoso que fará o vosso coração alegrar-se. Se não quereis a Deus por Deus, vede o que Ele traz, vede o reino que traz consigo. Pensais que Ele é pobre? São Paulo escreveu:
“Todas as coisas são vossas: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes, as futuras; tudo é vosso” (1 Cor 3, 22)
Por que chamais pobre a um homem que tem todas as coisas? Dizei-nos, Paulo, por que tudo é nosso? Porque, quando o Pai eterno nos deu Jesus Cristo, o seu Filho, deu-nos com Ele todas as coisas. Esta é a mercê mais alta de todas; este é o espelho em que deves olhar-te: Deus concedeu-nos o seu Filho.
E São Paulo continua:
“Se Deus nos concedeu o seu próprio Filho, como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm 8, 32)
Se Jesus Cristo é nosso, não vos admireis de que o presente e o futuro sejam nossos. Tudo se encerra nesta graça. Não vos admireis de que os santos sejam vossos, pois esse que vem às vossas entranhas é Senhor dos céus e da terra, dos anjos e de todas as coisas. Parai e pensai quem é esse que quer vir à vossa alma, e assim vereis como todas as coisas serão vossas, ou seja, que podereis usar delas para vosso proveito. Sabeis quem é verdadeiro dono dos seus haveres? Aquele que os aproveita para servir a Deus e para proveito próprio e do seu próximo. E se vos parece que é pouco ter a Deus e com Ele todas as coisas, pergunto: o que vos parecerá muito? Que ninguém diga: – “Não quero esse hóspede”, porque, na verdade, a sua vida, por si só, paga bem a pousada.
Mas a maior de todas as coisas que Deus vos dá está por ser dita. Se Ele não vos tivesse concedido a luz da fé, como acreditaríeis num dom tão elevado como é o de que Ele veio para morrer por vós? O que tem mais valor: que Deus se tenha entregado às mãos de verdugos para que lhe fizessem tantas injustiças, ou que se entregue aos corações dos que estamos aqui? Pois se Cristo se entregou à vontade dos que lhe queriam mal, não se entregará aos corações dos que lhe querem bem? Senhor, tanto me amaste que Te entregaste às mãos dos teus inimigos por mim! Praza ao Senhor que creiais nisto.
Que feliz sairá daqui um homem a quem dissessem:
“O rei virá amanhã a tua casa para fazer-te grandes mercês”
Acho que não almoçaria de tanta alegria e preocupação, nem dormiria durante toda a noite, pensando:
“O rei virá a minha casa, como lhe prepararei pousada?”
Irmãos, digo-vos da parte do Senhor que Deus quer vir a vós e que traz consigo um reino de paz, como já ouvistes. Bendita seja a sua misericórdia e glorificado o seu santo nome! Quem vos saberia dizer com que tempero devemos condimentar este manjar? Como? Se Ele é o próprio Deus e o ofendido, e nós homens e os que ofendemos; se é nosso o lucro da hospedagem e Ele quem no-la esta pedindo, seremos nós a desprezá-los? E que pensar se soubermos que Deus está à porta dos corações? Pensais que está longe? Está batendo à porta.

Deus pede que lhe abramos a porta

“Oh, padre! Não é possível que Ele esteja tão perto como dizeis, porque cometi tal e tal pecado e o expulsei para muito longe de mim, e com certeza está muito magoado comigo”
Eis que estou à porta e bato, diz Ele. Se alguém me abrir a porta, entrarei (cf. Ap 3, 20). Pensais que Deus é como vós que, se vos causam um pequeno aborrecimento ou vos perseguem, logo excluís o próximo do vosso amor? E se alguém vos diz: – “Perdoai Fulano porque Cristo vos perdoou”, dizeis: – “Nem mencionai o nome dele na minha frente”. Como podeis pensar que, por vós não perdoardes, Deus também não perdoa? Glorificado sejas Tu, Senhor, pois é isto o que mais cativa os corações humanos! Diz o pecador quando peca:
– “Retirai-vos de mim, Senhor, porque não Vos amo!”
E Deus sai da casa, e põe-se à porta, e fica chamando:
– “Abre-me, minha esposa, minha amiga; ficarei aqui até que, por compaixão, venhas a mim e me abras”
Não minto: Ele nos pede que, por compaixão, lhe abramos a porta!
Que significam estas palavras do Esposo do Cântico dos Cânticos: “Abre-me, minha irmã, minha amiga; a minha cabeça está coberta de orvalho, e os cachos dos meus cabelos cheios das gotas da noite” (Ct 5, 2), senão: “Abre-me, tem compaixão de mim?” É espantoso que Deus nos peça pousada por compaixão e nos diga: – “Abre-me, que não tenho para onde ir“. E quando um coração tocado por Ele toma consciência disso, não há nada que mais o cative de amores ou o derreta. E assim dizia Santo Agostinho (1):
“Eu fugia de Ti, Senhor, e Tu corrias atrás de mim”

Este é o amor de Deus pelos pecadores. Fogem dEle, e Ele vai atrás deles
. E assim diz por Jeremias:
“Se um homem repudia a mulher, e ela o abandona para tornar-se mulher de outro, tornará o marido a recebê-la? Não ficará gravemente maculada? Mas se tu, depois de teres fornicado com inúmeros amantes, voltares para mim, diz o Senhor, eu te receberei (cf. Jer 3, 1). Há de o rancor durar eternamente?” (cf. Jer 3, 5)
Os rancores passados passaram, não me magoes mais, sejamos amigos novamente.
As palavras que a alma deveria dizer a Deus, Deus as diz à alma:
“Continuarás a resistir eternamente? Aproxima-te logo, alma; chama-me, se não sabes chorar. Se tens medo, confia, porque sou Eu mesmo quem te ordena. Se os teus pecados te fecham a boca, Eu te direi como deves chamar-me: Meu Pai e guia da minha virgindade” (cf. Jer 3, 4)
E dir-lhe-ás:
– “Agora sou mau, mas lembrai-Vos, Senhor, de que um dia fui bom; lembrai-Vos de que, quando pequenino, me batizaram, e Vos pertenci, e fizeram em mim o vosso sinal”.
– “Fala assim comigo” – responderá o Senhor -, “faze que eu me recorde de que um dia foste meu: chama-me meu Pai, tu és meu”
Irmão, se Deus manda que chames por Ele, é porque quer receber-te. Se te ensina como chamá-lo, como não há de ouvir-te? Vedes aqui a infalível misericórdia de Deus. Embora o tenhamos ofendido, bate à nossa porta e, embora não o queiramos receber, pede-nos que lhe abramos. Que coisa abominável seria deixar o vosso marido bater-vos à porta à meia-noite:
– “Abri, senhora, porque venho ferido da guerra em que combati por vosso amor; venho depois de ter sofrido muito por vós!”
Que mulher seria tão má a ponto de deixar o marido esperando à porta por muito tempo?
Por que não quereis abrir a Deus? Quem estará dentro de ti para não quereres abrir? Algum rufião deves ter em tua casa para não quereres abrir a porta ao teu próprio marido. E se aquele que bate e diz: – “Minha esposa, eu morri por muitos sofrimentos”, é o próprio Deus! Alguma coisa contrária está dentro de ti, por cujo amor não lhe queres abrir. Peço-vos que me digais: o que é que cativa tanto o vosso coração, que por isso não quereis receber a Deus em vossa casa neste Natal?

Deus e o Demônio não podem morar juntos

Mas, se porventura – praza a Deus que não aconteça -, algum dos presentes a este sermão que lhe é pregado da parte de Deus, ao contrário de preparar pousada para Ele, a preparasse para o demônio, seria pior do que um infiel! Que seria dele se dissesse:
– “Neste Natal, tenho de apostar esse dinheiro que guardei até agora?”
Ah, infeliz, então jogas justamente por ser Natal!?
Só posso compreender semelhante situação se pensar que foi o demônio quem inventou essa perversão lá no inferno e depois a trouxe para os homens. Que faremos, dizem os demônios, já que muito perdemos com o nascimento de Cristo? Como poderemos aproveitá-lo para termos algum lucro? E para recuperar o que perderam, ordenam esses jogos. Miserável de ti! Assim pagas a Deus o amor com que veio nascer por ti, numa manjedoura, e assim pagas os sofrimentos pelos quais passou, e o seu choro de recém-nascidos, e o frio que suportou? Isso é coisa do diabo.
Se em algum momento é necessário que sejas bom, é agora; e se antes foste mau, agora tens de ser bom; e se em alguma ocasião jogaste, agora não jogarás. Rogo-vos que me façais esta caridade e me deis este presente pelo amor do Menino e de sua Mãe.
Quem ocupa o vosso coração e impede que Deus entre nele?
– “Ninguém, senhor. Ele chegou em boa hora”.
Bem sei que muitos dizem várias vezes por dia neste tempo do Advento: Vinde, Senhor, e não tardeis. Praza a Deus que não seja da boca para fora. Seria abominável que alguém chamasse por Deus somente com a boca e, com o coração, lhe estivesse pedindo para não vir. E, se já o fizestes, dizei-lhe agora: – “Senhor, ao pedir que viesses falava-te falsamente“; pois Deus não é amigo de burlas, mas da verdade.
Pergunto: Quereis receber a Deus neste Natal?
– “Sim, quero, mas desde que não precise expulsar o outro hóspede que tenho em casa”.
Não sentis vergonha de chamar por Deus tendo um pecado mortal na alma? Quereis colocar Deus ao lado do seu inimigo? Quem ama a Deus só a Ele ama. E deve ter uma faca bem afiada para com ela cortar tudo o que tiver de contrário a Deus, sejam honras, haveres ou qualquer outra coisa. Deveis dizer:
– “Perca-se tudo e fique eu com Deus”.
Portanto, quem quiser receber a Deus na sua alma deve expulsar dela todos os seus inimigos, e quem assim não o fizer ficará sem Deus. Outrora, não se concebia que estivessem juntos no mesmo altar a Arca de Deus e Dagon, o ídolo dos filisteus (cf. 1 Sm 5, 2ss). Será então concebível que Deus more onde mora o pecado? Será aceitável que estejam juntos Ele e o demônio? Deveis fazer Deus sentar-se à cabeceira da mesa e convidar a sair tudo o que possa impedir-lhe a vinda. E assim, se o amardes, Ele virá; caso contrário, não o espereis.
Há outro que diz:
– “Padre, eu o receberei de boa vontade e lhe darei pousada neste Natal, mas depois retornarei os meus hábitos anteriores”.
Irmão, que pensamento é esse? Nem precisas preocupar-te porque, com essa disposição, Ele não virá. Quem o quiser receber deverá fazer um propósito muito verdadeiro e firmíssimo de nunca mais tornar a ofendê-lo.

Como Preparar-se?

Uma palavra para todos os que quiserdes receber a Deus neste Natal:
– “Padre, eu amo a Deus, que farei?”
Se tiverdes a casa suja, varrei-a; se houver poeira, pegai em água e molhai-a.
Haverá aqui alguns que não varrem a casa há dez meses ou mais. Existirá mulher tão desleixada que, tendo um marido muito asseado, fique dez meses sem varrer a casa? Há quanto tempo não vos confessais? Irmãos, não vos pedi na Quaresma passada que vos acostumásseis a confessar-vos algumas vezes ao ano? Pelo menos no Natal, nos dias de Nossa Senhora e em outras festas religiosas importantes do ano, mas penso que vos esquecestes. Praza a Nosso Senhor que não vos exijam contas disso no dia do Juízo. E se disserdes então: “Eu não sabia, por isso não me confessei”, dir-vos-ão: “Bem que vo-lo disseram, bem que vo-lo gritaram, muito se afadigaram em alertar-vos; agora de nada serve puxar dos cabelos porque antes não o quisestes fazer“.
Irmãos, pecamos todos os dias. Se até hoje fostes preguiçosos em varrer a vossa casa, pegai agora na vassoura, que é a vossa memória. Lembrai-vos do que fizestes ofendendo a Deus e do que deixastes de fazer a seu serviço; ide ao confessor e jogai fora todos os vossos pecados, varrei e limpai a vossa casa.
Depois de varrida, molhai o chão.
– “Mas não posso chorar, padre”
E se vos morre o marido ou o filho, ou se perdeis um pouco do vosso dinheiro, não chorais?
– “Claro que choro, padre, e tanto que quase chego ao desespero”
Pobres de nós que, se perdemos um pouco de dinheiro, não há quem nos possa consolar, mas se nos sobrevém um mal tão grande como perder a Deus – pois isso acontece a quem peca -, o nosso coração é de tal forma uma pedra que são necessários muitos pregadores, confessores e admoestadores para que sintamos um pouco de tristeza! Mas valorizas o real perdido do que o Deus que perdes. Quando perdes uma quantia insignificante, não há quem consiga consolar-te, nem frades, nem padres, nem amigos, nem parentes. E, no entanto, não te entristeces quando perdes nada menos que o próprio Deus. Que significa isto, senão que tens tanta terra nos canais entre o coração e os olhos que a água não pode passar?
– “Que me leva a ter o coração tão duro e a não poder chorar?”
De todos os tempos apropriados que há ao longo do ano, este é o mais apropriado para os duros de coração. Valorizai o tempo santo em que estamos, considerai esta semana como a mais santa de todas no ano. É uma semana santa, e se a aproveitardes bem e vos preparardes como já sabeis, certamente vos será tirada a dureza do coração.

Um Coração de Carne

Disse Deus:
“Farei chegar uns dias em que vos tirarei o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 11, 19)
E esse tempo chegou: a partir do momento em que Verbum caro factum est, em que Deus se fez homem (cf Jo 1, 14). Quando se fez carne, Ele nos deu corações de carne. Quando daqui a oito dias o virdes feito criança recém-nascida, colocada numa manjedoura, vê-lo-eis feito carne, e, por ter-se revestido de uma carne tão branda, Ele se torna brando, e não será difícil que vos dê corações brandos. Aproximai-vos do presépio e pedi com fé:
– “Senhor, já que Te tornaste brando, abrandai o meu coração”
Desse modo, sem dúvida alguma, Deus vos dará água para que laveis a vossa casa cheia de pó.
Que é mais necessário para um hóspede que vos bate à porta morto de fome e de frio e desnudo? É necessário que lhes busqueis alguma comida, alguma roupa, e que o agasalheis. Dir-me-á algum de vós:
– “Padre, Cristo não está reinando no céu? Então já não sente fome nem está desnudo”
Irmãos, embora Ele esteja nos céus, também está na terra – e não apenas no Santíssimo Sacramento -, porque, embora a Cabeça esteja no céu, o Corpo está na terra. Dizei-me: se eu agora vos pregasse que neste Natal Jesus Cristo virá a vossa casa, pobrezinho, desnudo, como nasceu em Belém, não o receberíeis? Não tendes pobres no vosso bairro? Não tendes desnudos à vossa porta? Ora, se viste o pobre, viste Jesus Cristo; se consolas o desconsolado, consolas Jesus Cristo, e foi Ele mesmo quem disse:
“O que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40)
Não te angusties dizendo:
– “Por que nenhuma pessoa em Belém quis receber com afeto o Menino e sua Mãe?
Não te aflijas porque, se receberes o pobre, recebes o Menino e sua Mãe; e se de verdades acreditas nisto, andarás mais solícito em procurar o pobre que está nesta rua, e disputarás aos outros a ocasião de fazer o bem que puderes.
Esmolas, irmãos, esmolas: vesti os desnudos, saciai os famintos, e não vos contenteis com dar umas moedas ou algo mais, mas dai esmolas em quantidade, pois é exatamente assim que Deus vos dá tantas coisas. Não sejais mesquinhos à hora de dar, já que Deus é tão generoso em dar-vos. Não deis moedinhas por Deus, já que Deus vos dá o seu Filho. Dai esmolas para bem receber Cristo neste Natal. Irmãos, esse que vem é amigo da misericórdia; que Ele vos encontre misericordiosos.

O Desejado de todos os povos

– “Falta mais alguma coisa, senhor?”
Sim, falta, e creio que é a mais importante: que saibais que o nome de Jesus é o Desejado de todos os povos. Que pena ver como Deus é pouco amado e desejado! Que pena quando vós tendes um filho doente e, ao lhe servirdes um frango assado e bem temperado, o ouvis dizer:
– “Não suporto este prato, tira-o da minha frente e joga-o fora!”
Se é uma pena que se perca esse prato, que pena não será, para quem o experimente, ver que a suma Bondade não é amada e desejada!
Senhor, que poucos vivem querendo seguir-Te, desejando-Te dia e noite? Que poucos perdem o sono por Ti! Diz Isaías: “A minha alma deseja-Vos durante a noite e o meu espírito procura-Vos desde a manhã” (Is 26, 9); não adormecerei nas vaidades desta vida, mas levantar-me-ei pela manhã para louvá-lo!, os nossos corações desfaleceriam. Um dos nossos maiores erros é não desejar a Deus. Quando a águia está saciada de carne, não quer voltar, mesmo que o dono a chame. Por que sentis tão pouco desejo de Deus? Porque estais saciados de carnes mortas e de víboras.
“Até me esqueci de comer o meu pão” (Sl 101, 5)
Se estais saciados de pecados, é de admirar que não tenhais fome de Deus?
O nome de Jesus Cristo é o Desejado de todos os povos. Antes de ter vindo, fora desejado por todos os patriarcas e profetas; todos suspiravam:
“Senhor, vede como Vos desejamos, vinde remediar-nos!”
Fora desejado pela Santíssima Virgem e por todos.
“Ditosos os que Vos esperam” (Is 30, 18)
Irmãos, se nesta semana vierem bater-vos à porta os pecadores, não os recebais. Dizei-lhes:
– “Sai daqui porque estou esperando um hóspede”
Quem está à espera de Deus colocou um grande freio na sua boca e nas suas obras. O que tens de fazer é suspirar por Deus:
– “Senhor, só Tu és o meu bem e o meu descanso; falte-me tudo, mas não me faltes Tu; perca-se tudo, tudo o que me queres dar, se me der a Ti, pouco me importa que me falte tudo”
Deus quer que o ames tanto como uma mulher bem casada, que pouco se importa de perder tudo, contanto que fique com o marido. Tens a Deus e estás infeliz porque falam mal de ti? Deus deixou casa e mãe, perdeu a honra e a vida, e, desnudo, colocou-se numa cruz por ti. E tu, que tens Deus contigo, ainda dizes que te falta alguma coisa? Que dirá Deus?
– “Tens-me a Mim e não te contentas?”
Deus vem a vós, o Desejado de todos os povos. A que vos sabe? Parece-vos sem sabor? Certamente não foi por culpa dEle. Diz o doente que não pode comer nada cozido. Pois para que achasses mais gosto nEle, Deus foi assado pelos tormentos, nem fogo de amor na cruz; e quanto mais o atormentam, mais descanso é para ti. Já seria delicioso sem isso, mas, para te ser mais saboroso, padeceu tudo. Se considerares o que padeceu por ti e por teu amor, quanto mais o vejas padecer, mais saboroso será para ti. Como é possível que não aches sabor em Deus, se Ele morreu por ti? Deves estar com problemas de estômago e será preciso purga-lo.
Diz o doente:
– “Estou fraco e preciso que cortem a carne, porque não consigo fazê-lo sozinho”
E que foram os açoites, os pregos e o golpe de lança senão os cortes que retalharam aquela carne santa para que, quanto mais atormentada, mais saborosa fosse para ti? Deus está cravado na cruz por ti, e tu não o desejas? Não achas saboroso um Deus morto por ti? Então algum pecado há em ti que te estorva; busca-o, joga-o fora e, ao longo desta semana, faze boas obras.
Confessai-vos, dai esmolas, desejai a Deus, suspirai por Ele de coração:
– “Meu Senhor, dentro da minha fraqueza, preparei-Vos a minha pobre casinha e estábulo; não desprezeis os lugares miseráveis, como não desprezastes o presépio e o patíbulo”
Ele quis nascer num estábulo para que, embora eu tenha sido mau e o meu coração tenha sido estábulo de pecados, confie em que não haverá de menosprezar-me. Senhor, embora eu tenha sido mau, preparei-me o melhor que pude; digo-Vos cheio de vergonha:
– “O meu estábulo está preparado; vinde, Senhor, que o estabulozinho está varrido e livre de pó. Não passo de um estábulo; supra a vossa misericórdia o que falta em mim, proveja ao que não tenho”
E se assim vos preparardes, Ele virá sem falta.
Praza à sua misericórdia que de tal modo nos preparemos para este Natal, que Ele nasça em nós, e nos dê aqui a sua graça e, depois a sua glória. Amém.
Referências
(1) Confissões 2, 3, 7; 10, 27 e 38
(Ávila, São João de. O Mistério do Natal. Prefácio e tradução de Gabriel Perissé. Quadrante 1998, 2ª ed., p. 9-28)