segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Por que São Vicente de Paulo gostava tanto de servir os pobres

 

Vincent de Paul

Public Domain



São Vicente de Paulo valorizava cada momento com os pobres, acreditando que estava mais perto de Jesus ao servi-los

São Vicente de Paulo colocou o serviço aos pobres acima de quase todas as atividades em sua vida. Ele teve uma vida devota de oração, mas acreditava que mesmo sua prece poderia ser interrompida diante do chamado a ajudar alguém necessitado.

Ele explica seus pensamentos em um manuscrito. Em particular, São Vicente de Paulo acreditava que servir aos pobres estava em união com a missão de Cristo na terra.

Embora em sua Paixão Ele quase tenha perdido a aparência de um homem e tenha sido considerado um tolo pelos gentios e uma pedra de tropeço pelos judeus, Ele mostrou-lhes que sua missão era pregar aos pobres: Ele me enviou para pregar a Boa Nova aos pobres. Também devemos ter esse mesmo espírito e imitar as ações de Cristo, ou seja, devemos cuidar dos pobres, consolá-los, ajudá-los, apoiar sua causa. Cristo quis nascer pobre e escolheu para si discípulos pobres. Ele se fez servo dos pobres e compartilhou a pobreza deles. Ele chegou ao ponto de dizer que consideraria todas as ações que ajudam ou prejudicam os pobres como feitas a favor ou contra Si próprio.

É por isso que São Vicente de Paulo acreditava firmemente que a caridade para com os pobres é uma parte essencial de ser cristão. É uma obra de Deus que devemos fazer, mesmo quando interrompe nosso tempo de oração.

É nosso dever preferir o serviço aos pobres a tudo o mais e oferecer esse serviço o mais rápido possível. Se uma pessoa necessitada precisar de remédio ou outra ajuda durante o tempo de oração, faça o que tiver que ser feito com tranquilidade. Ofereça a ação a Deus como sua oração. Não fique chateado ou se sinta culpado porque interrompeu sua oração para servir aos pobres. Deus não é negligenciado se você deixá-lo para tal serviço. Uma das obras de Deus é meramente interrompida para que outra possa ser realizada. Então, quando você deixar a oração para servir a alguma pessoa pobre, lembre-se de que esse mesmo serviço é realizado para Deus.

Em nossa própria vida, devemos refletir sobre como servimos aos pobres e se fazemos tudo o que podemos para ajudar os menos afortunados entre nós. Pode não ser fácil, mas é um serviço que estamos fazendo ao próprio Cristo.

domingo, 10 de outubro de 2021

Evitemos o orgulho e a vã glória - São Francisco de Assis

 

No amor que é Deus, suplico a todos os meus irmãos – aos que pregam, aos que oram, aos que trabalham manualmente, aos clérigos e leigos – que invistam na humildade em tudo: que não se ufanem, que não encontrem alegria ou se orgulhem interiormente com as boas palavras e as boas acções que Deus diz ou realiza por vezes neles ou através deles. Pois diz o Senhor: «não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem» (Lc 10,20). Convençamo-nos firmemente de que, por nós, só temos erros e pecados. Rejubilemos antes nas provações que temos de suportar na alma e no corpo, e em todo o tipo de angústias e de tribulações neste mundo, com vista à vida eterna.

Irmãos, evitemos o orgulho e a vã glória. Evitemos a sabedoria deste mundo e a prudência egoísta. Pois aquele que é escravo das suas tendências egoístas investe muito esforço e aplicação na formulação de discursos, mas muito menos na passagem aos actos; em lugar de procurar a religião e a santidade interiores do espírito, quer e deseja uma religião e uma santidade exteriores e visíveis aos olhos dos homens. É sobre eles que o Senhor diz: «Em verdade vos digo, receberam a sua recompensa» (Mt 6,5). 


Pelo contrário, aquele que é dócil ao Espírito do Senhor quer mortificar e humilhar aquilo que é egoísta, vil e abjecto na carne. Dedica-se à humildade e à paciência, à simplicidade pura e à verdadeira paz de espírito; aquilo que deseja sempre e acima de tudo é o temor de Deus, a sabedoria de Deus e o amor de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

Primeira Regra escrita por São Francisco, 17

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

OUTUBRO: MÊS DO ROSÁRIO

 



Prezados amigos, leitores e benfeitores, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nesse mês do Rosário, disponibilizamos abaixo os links sobre o Rosário e Nossa Senhora.







quarta-feira, 22 de setembro de 2021

MORTE CONTINUA NO INFERNO

 

Picture-of-HellSicut oves in inferno positi sunt; mors depascet eos — “Como ovelhas são postos no inferno; e eles serão pasto na morte” (Ps. 48, 15).

Sumário. O que os pecadores mais receiam na terra é a morte, mas no inferno será a morte o que mais desejarão e nunca obterão. Ali a morte fará seu repasto nos condenados; mata-os a todos os instantes, mas deixa-lhes a vida para continuar eternamente a infligir-lhes o mesmo tormento. Se quisermos evitar tamanha desgraça, lembremo-nos freqüentes vezes da eternidade no tempo de vida que nos resta, e meditemos nestas duas palavras: Sempre! Nunca! Quantos grandes pecadores se converteram por meio desta meditação e são agora grandes Santos no céu!

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I. Nesta vida a morte é para os pecadores a coisa mais temida; mas no inferno será a mais desejada. “Eles procurarão a morte”, diz São João, “e não a encontrarão; desejarão morrer, e a morte fugirá deles.” (1) Por isso escreve São Jerônimo: “Ó morte, quão doce serias para aqueles que outrora a acharam amaríssima!” Diz Davi que a morte fará o seu repasto nos condenados: Mors depascet eos. Destas palavras São Bernardo dá a seguinte explicação: A ovelha, quando anda pastando, come apenas a verdura da erva, deixando as raízes; é assim que a morte trata os condenados: mata-os a todos os instantes, mas deixa-lhes a vida para continuar eternamente a matá-los. De sorte que, conclui São Gregório, o condenado morre a todos os momentos sem nunca morrer: Flammis ultricibus traditus, semper morietur.

Quando alguém agoniza no meio de sofrimentos, todos têm compaixão dele. Se ao menos o condenado tivesse uma pessoa que se compadecesse! Mas não; o miserável morre de dor a todos os instantes e nunca haverá quem tenha pena dele. Encerrado numa sombria prisão, o imperador Zenon gritava: Abri por piedade! Como ninguém o atendesse, acharam-no morto de desespero, havendo devorado os próprios braços. Os condenados gritam do fundo do inferno, diz São Cirilo de Alexandria, mas ninguém os irá libertar, ninguém deles se compadecerá. Nemo eripit, nemo compatitur!

E quanto tempo durará este misérrimo estado? Sempre, sempre! Lê-se nos Exercícios espirituais do Padre Segneri que um dia, em Roma, se perguntou ao demônio, na pessoa de um possesso, quanto tempo devia ficar no inferno. Ao que o demônio respondeu com raiva, batendo com a mão numa cadeira: Sempre! Sempre! O espanto foi tão grande, que muitos moços do Seminário Romano que estavam presentes fizeram logo confissão geral e mudaram de vida, feridos por este terrível sermão em duas palavras: Sempre! Sempre!

II. O Bem aventurado João de Ávila converteu uma senhora dizendo-lhe: Minha senhora, pense nestas duas palavras: Sempre! Nunca! É o que nós também devemos fazer se nos quisermos salvar: meditemos freqüentemente nestas duas palavras: sempre e nunca; e nos dias de vida que por ventura nos restem, procuremos viver tendo continuamente em vista a nossa eternidade. Quem vive pensando na eternidade, foge das ocasiões do pecado e procura unir-se cada vez mais a Jesus Cristo por meio de orações freqüentes; quem reza, com certeza se salva, e quem não reza, com certeza se condena.

Ó meu amadíssimo Jesus, se um dia tiver a desgraça de me condenar, estarei para sempre no fogo do inferno longe e separado de Vós. E ai de mim! Sei com certeza que muitas vezes tenho merecido esse inferno. Mas também sei com certeza que Vós perdoais a quem se arrepende e que livrais do inferno aquele que espera em Vós. Vós mesmo me dais esta certeza: Clamabit ad me… eripiam eum et glorificabo eum (2) — “Chamará por mim… livrá-lo-ei e glorificá-lo-ei”. Apressai-Vos, ó meu Senhor, apressai-Vos a perdoar-me e livrar-me do inferno. Pesa-me, ó meu soberano Bem, pesa-me, acima de todos os males, de Vos haver ofendido. Restitui-me a vossa graça e dai-me o vosso santo amor.

Se eu estivesse agora no inferno, não Vos poderia mais amar. Ah, meu Deus! Que tendes feito de mal para que eu Vos odeie? Vós me amastes até morrer por mim; sois digno de amor infinito. Meu Senhor, não permitais que eu me afaste de Vós. Amo-Vos e quero amar-Vos sempre. —Quis me separabit a caritate Christi? (3) — “Quem me separará do amor de Cristo?” Meu Jesus, somente o pecado me pode separar de Vós; porém, não o permitais, eu Vô-lo suplico pelo sangue que derramastes por mim; deixai-me antes morrer. Ne permittas me separari a te. — Maria, minha Rainha e minha Mãe, ajudai-me pelas vossas orações; alcançai-me antes a morte, e mil mortes, do que separar-me eu do amor de vosso Filho. (II* 126.)

  1. Apoc. 9, 6.
    2. Ps. 90, 15.
    3. Rom. 8, 35.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

terça-feira, 21 de setembro de 2021

VANTAGENS DAS TENTAÇÕES

 

Resultado de imagem para bem e malFidelis Deus est, qui non patietur vos tentari supra id quod potestis; sed faciet etiam cum tentatione proventum — “Deus é fiel, e não permitirá sejais tentados mais do que podem as vossas forças; antes fará que tireis proveito da tentação” (I Cor. 10, 13).

Sumário. É, sobretudo, por três motivos que o Senhor permite que as suas mais queridas almas sejam mais freqüente e fortemente tentadas: para as conservar na humildade, para as desapegar da terra e para as enriquecer de merecimentos. Cada tentação vencida é uma pedra preciosa engastada em nossa coroa celestial. Nem por isso devemos desejar as tentações; mas quando o demônio nos assalta, sem que lhe tenhamos dado ocasião, entreguemo-nos a Deus e não temamos; pois, se Ele nos lança ao combate, dar-nos-á também com a tentação a força para resistir.

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I. Para as almas que amam a Jesus Cristo não há trabalho maior que as tentações; porquanto todos os outros males as levam a unir-se mais a Deus, aceitando-os com resignação, ao passo que as tentações as levam a separar-se dele. — Saibamos, porém, que muito embora todas as tentações que induzem ao mal não venham nunca de Deus, mas do demônio ou de nossas más inclinações, todavia permite às vezes o Senhor, que as suas mais queridas almas sejam mais tentadas.

E permite-o por vários motivos. Primeiramente, afim de que pelas tentações conheçam mais claramente a sua fraqueza. Quando uma alma se acha favorecida de consolações divinas, julga-se apta para sustentar qualquer assalto e para executar qualquer empresa. Mas quando se sente fortemente tentada e se vê à borda do precipício, então é que conhece melhor a sua miséria e a sua impotência para resistir, se Deus a não socorresse.

Mais: as tentações desprendem a alma do mundo e fazem-na desejar a morte, para se ver livre de tantos perigos de ofender a Deus. Assim aconteceu a São Paulo, que, sendo assaltado por uma tentação sensual, afim de que se não vangloriasse de suas revelações, exclamou: Infelix ego homo! Quis me liberabit de corpore mortis huius? (1) — “Infeliz homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?

Finalmente, Deus permite que sejamos tentados para mais nos enriquecer de merecimentos. A água estagnada corrompe-se facilmente. Assim a alma, estando quieta sem combate, acha-se em perigo de se perder por alguma vã complacência em seus merecimentos. — Quando é, porém, agitada pelas tentações, recorre a Deus e à divina Mãe; renova a sua resolução de antes morrer do que pecar; humilha-se e lança-se nos braços da misericórdia divina; numa palavra, é então que pratica as virtudes mais agradáveis ao Coração de Deus e adorna mais a sua própria coroa. Cada vez que vencemos uma tentação, ganhamos uma nova coroa, diz São Bernardo: Quoties vincimus, toties coronamur.

II. Por serem as tentações vantajosas, não se conclua que devamos desejar tentações. Antes devemos pedir a Deus que nos livre delas, especialmente daquelas nas quais vê que seríamos vencidos. É isto o que significa esta petição do Pai Nosso: Et ne nos inducas in tentationem — “Não nos deixeis cair em tentação”. Mas quando Deus permite que nos assaltem, é mister que, sem nos inquietarmos, confiemos em Jesus Cristo e lhe peçamos socorro, e Ele de certo não deixará de nos dar força para resistirmos. Diz Santo Agostinho: Entrega-te a Deus e não temas; pois se Ele te expõe ao combate, por certo não te deixará só, para que caias.

Não nos assustemos, pois, por vermos que um mau pensamento, uma sugestão do mal, não se afasta de nosso espírito e continua a atormentar-nos; basta que os detestemos e procuremos desviá-los. Santa Joanna Francisca de Chantal foi por mais de quarenta anos atormentada de mil tentações; apesar disso fez-se santa. Numa palavra, persuadamo-nos do que diz o Apóstolo: Deus é fiel e não permitirá sejais tentados mais do que podem as vossas forças; antes fará que tireis proveito da tentação, para que possais resistir.

Ó Jesus meu Redentor, espero pelos méritos de vosso sangue que já me tereis perdoado as ofensas que Vos tenho feito; espero ir dar-Vos graças para sempre no paraíso. Vejo que pelo passado desgraçadamente caí e tornei a cair, não tanto pela força das tentações, mas porque me descuidei de Vos pedir a santa perseverança. Esta perseverança Vos peço agora: Ne permittas me separari a te – “Não permitais que me separe de Vós.” — Assim o proponho e prometo. Mas de que me servirá esta minha promessa se me não derdes a graça de recorrer a Vós? Ah! Pelos merecimentos de vossa Paixão, concedei-me a graça de sempre me recomendar a Vós em todas as minhas necessidades. — Maria, minha Rainha e minha Mãe, pelo muito que me amais a Jesus Cristo, rogo-vos que me alcanceis a graça de sempre recorrer a vosso Filho e a vós por toda a minha vida. (*I 838.)

  1. Rom. 7, 24.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Desprezo do mundo com o pensamento da morte

 Tudo é vaidade

Qui utuntur hoc mundo, tamquam non utantur; praeterit enim figura huius mundi – “Os que usam deste mundo, sejam como se não usassem; porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7, 31)

Sumário. A sombra sinistra da morte escurece o brilho de todos os cetros e coroas; faz-nos compreender que o que o mundo estima não é senão fumaça, lodo e miséria. Com efeito, para que servem as riquezas, as dignidades e as honras, já que depois da morte não nos restará nada senão um caixão, dentro do qual nosso corpo se corromperá? Para que serve a beleza e a saúde do corpo, já que afinal não restará nada senão um punhado de pó nojento e alguns ossos descarnados? Nossas obras somente acompanhar-nos-ão para a eternidade. Todavia quão poucos são os que procuram fazer provisão de boas obras?

I. O pensamento da vaidade do mundo e que tudo o que o mundo estima não é senão ilusão e engano fez muitas almas resolverem a dar-se inteiramente a Deus. Quid prodest homini, si mundum universum lucretur? (1) – De que servirá ganhar o mundo inteiro a quem tenha perdido a alma para sempre? Penetrados desta grande máxima do Evangelho, quantos jovens se resolveram a deixar parentes, pátria, riquezas, honras, mesmo coroas, para encerrar-se num convento, ou ocultar-se num deserto, afim de só pensarem em Deus! – O dia da morte é chamado dia de perdição: Iuxta est dies perditionis (2). Dia de perdição, sim, porque todos os bens que possamos adquirir nesta terra teremos de deixá-los todos no dia da morte. Pelo que Santo Ambrósio nota com muita sabedoria que erradamente chamamos nossos os bens terrestres, já que não os podemos levar conosco para o outro mundo onde teremos de ficar eternamente. Tão somente as boas obras nos acompanharão e nos consolarão na eternidade.

Todos os tesouros terrenos, as dignidades mais altas, a prata, o ouro, as pedras mais preciosas, perdem o seu brilho quando vistos lá do leito da morte. A sombra sinistra da morte escurece até os cetros e as coroas, e faz-nos compreender que tudo quanto o mundo estima não é senão fumaça, lodo, vaidade e miséria – Com efeito, de que servirão na morte todas as riquezas amontoadas, pois que então nada mais teremos do que um caixão no qual nosso corpo, quando dele nada restará senão um punhado de pó nojento e alguns ossos descarnados?

Que é, portanto, a vida do homem sobre esta terra? Eis como nô-la descreve São Thiago: Vapor est ad modicum parens, et deinceps exterminabitur (3) – “É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanecerá” – Hoje tal personagem é estimado, temido, elogiado; amanhã será desprezado, criticado e amaldiçoado: Vidi impium superexaltatum… et transivi, et ecce non erat (4) – “Vi o ímpio exaltado… e passei, e eis que não mais existia”. Não mora mais na sua fazenda, no seu palácio luxuoso que tinha construído. Onde é que está? Na sepultura, reduzido a pó.

II. Statera dolosa in manu eius (5) – “Tem na mão uma balança enganosa”. Avisa-nos o Espirito Santo que não nos deixemos enganar pelo mundo, que pesa os bens numa balança falsa. Nós devemos pesar os verdadeiros bens, quais são aqueles que em breve devem ter fim. Disse Santa Teresa: Não se deve fazer caso de coisas que acabam com a morte. – Ó Deus, com que ficaram tantos ministros de Estado, tantos generais de exército, tantos príncipes, tantos imperadores romanos, agora que para eles terminou a cena e se acham na eternidade? Periit memoria eorum cum sonitu (6) – “A lembrança deles pereceu com o som”. Representaram papel brilhante no mundo, seu nome estava na boca de todos; e depois que morreram, terminou para eles a cena, o renome e tudo o mais. Feliz, pois, daquele que aos olhos de Deus representou bem o seu papel.

É bem conhecido que mudança de vida operou em São Francisco de Borja a vista do corpo inânime da imperatriz Isabel, formosíssima em vida, mas depois de morta objeto de horror para quem a via. Tomara que todos nós o imitássemos, antes que nos colha a morte! Mas façamo-lo depressa, porque a morte já vem ao nosso encontro, e não sabemos quando chegará. Não permitamos que, das luzes que Deus nos concede agora, só nos reste finalmente o remorso e as contas a dar a Deus, quando tivermos na mão a vela mortuária. Resolvamo-nos a fazer agora o que então quiséramos ter feito e não poderemos mais fazer.

Ó meu Deus! Já tivestes bastante paciência comigo; não quero mais tardar em me dar todo a Vós. Vós me tendes convidado tantas vezes a romper com o mundo e a dar-me todo ao vosso amor! Hoje me convidais uma vez ainda; eis-me aqui, acolhei-me em vossos braços, já que neste momento me entrego todo a Vós. – Ó Cordeiro imaculado, Vós que um dia Vos sacrificastes no Calvário, morrendo por meu amor sobre uma cruz, lavai-me primeiro em vosso sangue, perdoando-me todas as injúrias que de mim recebestes, e depois abrasai-me todo em vosso amor. Amo-Vos sobre todas as coisas; amo-Vos com toda a minha alma. E fora de Vós, que poderia eu achar no mundo mais digno de ser amado e que mais me tenha amado? – Mãe de Deus e minha Advogada Maria, rogai por mim e obtende-me uma verdadeira e constante mudança de vida.

Referências:

(1) Mt 16, 26
(2) Dt 32, 35
(3) Zc 4, 15
(4) Sl 36, 35-36
(5) Os 12, 7
(6) Sl 9, 7

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 117-120)

domingo, 19 de setembro de 2021

O compêndio da lei é o preceito da caridade

 Caridade


In his duobus mandatis universa lex pendet et prophetae – “Nestes dois mandamentos está encerrada toda a lei e os profetas” (Mt 22, 40)

Sumário. Eis aí a bela resposta que Jesus deu ao fariseu que lhe perguntou sobre qual era o maior preceito da lei: “Amarás”, disse-lhe, “o Senhor teu Deus de todo o teu coração… Este é o máximo e o primeiro mandamento. E o segundo é semelhante a este: Amarás a teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos está encerrada toda a lei e os profetas.” Meu irmão, como é que praticas o grande mandamento da caridade? Amas a teu Senhor de todo o teu coração?… Amas a teu próximo como a ti mesmo?

I. Estamos no mundo não para entesourar riquezas, nem para obter dignidades, nem para granjear celebridade; mas unicamente para amar a Deus. O amor de Deus é aquela única coisa necessária da qual fala São Lucas, e tudo quanto não se faz para este fim é perder o tempo.

Eis porque Jesus Cristo respondeu ao fariseu que lhe perguntou qual era o preceito fundamental da lei: “Este é o máximo e o primeiro mandamento: Amarás ao Senhor teu Deus” – Diliges Dominum Deum tuum. – E explicando depois a maneira como o devemos amar, acrescenta:

“Amá-lo-ás de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.”

Como observa Santo Agostinho, estas três palavras significam que nenhuma parte de nossa vida ficou deixada a nosso alvedrio, e não nos é mais lícito pormos o nosso afeto em qualquer outra coisa que não seja Deus.

Devemos, pois, amar o Senhor com amor de preferência, isto é, preferi-lo a todas as coisas e estar prontos a perder antes a vida do que a graça divina. Com amor de benevolência, desejando vê-Lo amado de todos e pedindo ao Senhor pela conversão de todos aqueles que não O amam. Com amor doloroso, detestando os nossos pecados, não tanto por termos perdido o céu e merecido o inferno, como por termos ofendido ao Senhor que é a bondade infinita. Com amor de conformidade com a vontade divina, oferecendo-nos muitas vezes a Deus afim de que disponha de nós segundo a sua vontade. Devemos finalmente amar o Senhor com amor paciente, não nos importando mais nem com as ignomínias, nem com os sofrimentos, desejando mesmo sofrer e ser humilhados por amor de Jesus Cristo. É este o amor forte que dá a conhecer os verdadeiros amantes de Deus. Feliz de quem o possui!

II. Quem ama a Deus, amará necessariamente também a seu próximo, porquanto, no dizer de São Gregório, estes dois amores estão de tal modo unidos, que o segundo nasce do primeiro, e o primeiro alimenta-se do segundo. E acrescenta que um abrange o outro, pois que “são dois elos de uma mesma cadeia; dois atos de uma mesma virtude, dois títulos de mérito diante de Deus, que se encontram sempre acompanhados um do outro.”

Eis porque o Senhor, no Evangelho de hoje, depois de explicar o máximo e o primeiro mandamento do amor para com Deus, logo acrescenta, mesmo sem ser perguntado:

“O segundo é semelhante ao primeiro: Amarás a teu próximo como a ti mesmo.”

E conclui com estas palavras:

“Nestes dois mandamentos está encerrada toda a lei e os profetas.”

Como se dissesse que a estes dois mandamentos do amor se referem todos os demais, e que quem observa aqueles guarda também estes. Para que alguém saiba se ama a Deus, e a que degrau de perfeição tenha chegado, basta que examine de que modo ama a seu próximo.

Meu Deus, amo-Vos de todo o meu coração sobre todas as coisas, porque sois infinitamente bom e digno de ser amado. Por amor de Vós amo também a meu próximo como a mim mesmo. Do fundo de meu coração arrependo-me de todos os meus pecados e detesto-os porque Vos ofendi, ó bondade infinita. Proponho antes morrer do que ofender-Vos. – Mas Vós, ó meu Senhor, ajudai-me com a vossa graça, que Vos peço me concedais agora e sempre; e “fazei que eu evite os contágios diabólicos e continue a servir com pureza de alma a Vós, que sois meu Deus.” (1) † Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Or. Dom.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 115-117)

sábado, 18 de setembro de 2021

Maria Santíssima é a esperança de todos

 Maria, nossa doce esperança

In me omnis spes vitae et virtutis – “Em mim há toda a esperança da vida e da virtude” (eclo 24, 25)

Sumário. O Rei do céu deseja sumamente enriquecer-nos das suas graças; mas como da nossa parte é necessária a confiança, afim de aumentá-la em nós, nos deu por Mãe e Advogada a sua própria Mãe, a quem deu todo o poder para nos ajudar. Por isso quer o Senhor que nela ponhamos a esperança de nossa salvação e de todo o nosso bem. Qual não deve, pois, ser nossa gratidão para com a bondade divina! Qual a confiança que devemos ter em Maria!

I. De dois modos, diz Santo Tomás, podemos por a nossa esperança numa pessoa: como causa principal, ou como causa intermediária. Quem espera alguma graça do rei, espera alcançá-la do rei como senhor; ou espera alcançá-la do seu ministro ou válido, como intercessor. Se consegue a graça, consegue-a principalmente do rei, mas por intermédio do ministro. Pelo que, quem pretende obter a graça, tem razão de chamar àquele intercessor a sua esperança.

O Rei do céu, por ser a bondade infinita, deseja sumamente enriquecer-nos de suas graças; mas como da nossa parte é necessária a confiança, e com o fim de aumentá-la em nós, deu-nos por Mãe e Advogada sua própria Mãe, a quem deu todo o poder para nos ajudar. Por isso quer que ponhamos nela a esperança de nossa salvação e de todo o nosso bem. – Aqueles que põem a sua esperança unicamente nas criaturas, independentemente de Deus, são sem dúvida amaldiçoados de Deus, como diz Isaías (1). Mas aqueles que esperam em Maria, como Mãe de Deus, poderosa para lhes alcançar as graças e a vida eterna, são bem-aventurados e agradam ao Coração de Deus, que assim quer ver honrada a excelsa criatura que mais que todos os homens e anjos o amou e honrou neste mundo.

É, pois, com razão que chamamos à Virgem a nossa esperança, esperando alcançar por sua intercessão o que não alcançaríamos só com as nossas orações. Oh, quantos soberbos, com a devoção a Maria, acharam a humildade! Quantos iracundos a mansidão! Quantos cegos a vista! Quantos desesperados a confiança! Quantos perdidos a salvação! Numa palavra, afirma Santo Antônio que todo verdadeiro devoto de Maria pode dizer: Venernunt mihiomnia bona pariter cum illa – “Com a devoção a Maria vieram-me juntamente todos os bens” (2).

II. É com razão que a santa Igreja aplica a Maria as palavras do Eclesiástico, chamando-a Mãe da santa esperança, Mater sanctae spei; e quer que quotidianamente todos os eclesiásticos e todos os religiosos, na egrégia oração da Salve Rainha, levantem a voz e em nome de todos os fiéis invoquem e chamem a Maria com este doce nome de esperança nossa. – Tu também, meu irmão, seja qual for o teu estado, põe toda a tua confiança nesta Mãe amorosíssima e dize-lhe frequentemente: Spes nostra, salve – “Esperança nossa, salve!”.

Ó Mãe do santo amor, sabeis que, não contente de se fazer nosso perpétuo advogado junto do Pai Eterno, Jesus Cristo vosso Filho quer ainda que vós mesma intercedais junto dele, para nos obter as divinas misericórdias. Decretou que vossas orações nos ajudariam a salvar, e lhes deu tanta eficácia que são sempre atendidas. Dirijo-me então a vós, ó esperança dos miseráveis. Pelos merecimentos de Jesus Cristo e por vossa intercessão espero salvar minha alma. Tal é minha esperança, e tão longe vai que, se minha salvação eterna estivesse nas minhas mãos, logo iria depô-la nas vossas, porque mais me fio de vossa misericórdia e proteção que em todas as minhas obras.

Ó minha mãe e minha esperança, não me desampareis, como o merecia. Confesso que, assaz de vezes, meus pecados puseram obstáculo às luzes e aos socorros que me obtínheis de Deus. Mas vossa compaixão para com os miseráveis e vosso poder junto de Deus transcendem o número e a malícia de minhas iniquidades. O céu e a terra sabem que não é possível se perca quem é vosso protegido. Esqueçam-se, pois, de mim todas as criaturas, mas vós nunca. Dizei a Deus que sou vosso servo, dizei-lhe que tomais minha defesa, e salvo serei. – Ó Maria, confio-me a vós; e na vida e na morte proclamarei sempre que sois toda a minha esperança depois de Jesus. Nesta esperança quero viver e morrer.

Referências:

(1) Is 30, 2
(2) Sb 7, 11

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 113-115)

terça-feira, 14 de setembro de 2021

14 DE SETEMBRO – FESTA DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

 

ORAÇÃO DO OFÍCIO DA SANTA CRUZ – Sou Todo Teu, MariaMihi absit gloriari, nisi in cruce Domini nostri Iesu Cristi; per quem mihi mundus crucifixus est, et ego mundo — “De mim esteja longe o gloriar-me, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo; por quem o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6, 14)

Sumário. Esta terra é um lugar de merecimentos e, portanto, também de sofrimentos. Para nos exortar à paciência, Jesus Cristo levou uma vida de sofrimentos contínuos, e é a exemplo de Jesus que todos os santos abraçaram as tribulações com alegria, de modo que nenhum deles chegou à glória senão por um caminho semeado de espinhos. Que vergonha para nós! Adoramos a santa Cruz, gloriamo-nos de combater sob este estandarte triunfante, de ser herdeiros dos santos, e somos-lhes tão dessemelhantes! Há de ser sempre assim ? Senhor, enviai-me as cruzes que as minhas culpas merecem, mas dai-me também força para carregá-las com paciência.

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Esta terra é um lugar de merecimentos, e por isso também de sofrimentos. A pátria na qual Deus nos preparou o descanso em gozo eterno, é o paraíso. É pouco o tempo de passar aqui, mas nesse pouco tempo são muitos os sofrimentos a suportar. De ordinário, quando a Providência divina destina alguém a coisas grandes, prova-o também por meio de maiores adversidades. Um dia Jesus Cristo apareceu à Bem-aventurada Batista Varani e disse-lhe que há três benefícios escolhidos que concede às almas, suas prediletas: o primeiro é o de não pecar; o segundo o de praticar boas obras; o terceiro e maior de todos, o de fazê-la sofrer por amor dele.

Mais belas ainda são as palavras que o mesmo Jesus Cristo dirigiu a Santa Teresa: “Minha filha”, disse-lhe, “pensas porventura que o merecimento está em gozar? Não, está em padecer e amar. Crê, pois, minha filha, que aquele que é mais amado de meu Pai, recebe dele maiores sofrimentos; e o pensar que sem sofrimentos ele admite alguém à sua amizade é uma pura ilusão”. Sendo, porém, que a natureza humana por si mesma aborrece tanto os sofrimentos, o Verbo Eterno, diz São Pedro, baixou do céu à terra para nos ensinar a carregar as nossas cruzes com paciência: Cristus passus est pro nobis, vobis relinquens exemplum, ut sequamini vestigia eius (1).

Jesus Cristo quis, portanto, sofrer para nos animar ao sofrimento, e não só no tempo da sua Paixão, mas durante toda a sua vida. Qual foi a vida do Redentor sobre esta terra? Volve-a, diz São Boaventura, e revolve-a quanto quiseres, desde o princípio até o fim e sempre acharás Jesus pregado na cruz: Volve et revolve, et non invenies eum nisi in cruce. Com efeito, todo o tempo, desde o momento em que tomou a natureza humana até o seu último suspiro, foi um sofrimento contínuo. Que vergonha para nós, que nos gloriamos de seguirmos Jesus Cristo e lhe somos tão dessemelhantes! Adoramos a cruz do Senhor, celebramos as suas festas, gloriamo-nos de combater sob este estandarte triunfante, e somos tão ávidos de prazeres! Há de ser sempre assim?

Animados pelo exemplo de Jesus Cristo, os santos sempre consideraram as adversidades como um tesouro escondido, estimaram-nas mais do que uma partícula do santo Lenho, sobre o qual o Senhor morreu pela nossa salvação. Quantos jovens nobres, quantas donzelas, mesmo de sangue real, distribuíram entre os pobres todas as suas riquezas, renunciaram às comodidades, às honras e dignidades do mundo, e entraram num mosteiro, para abraçarem a cruz de Jesus Cristo e subirem com ele ao Calvário, por um caminho semeado de espinhos!

O Senhor, porém, que nunca se deixa vencer em generosidade e quis recompensar já nesta terra aquelas almas generosas, tornou-lhes muito suaves os frutos da árvore da cruz, que se regozijavam no meio das tribulações; e talvez nunca um mundano se mostrasse tão ávido de prazeres, como os santos o foram de sofrimentos.

Santa Teresa, não querendo viver sem cruzes, exclamava : Ou sofrer, ou morrer. Santa Maria Madalena de Pazzi, ao pensar que no céu não há mais sofrimento, dizia: Sofrer e não morrer. Quando certo dia Jesus Cristo perguntou a São João da Cruz, qual a recompensa que desejava por tudo o que por amor dele tinha sofrido, respondeu: Senhor, não desejo senão mais sofrimentos, mas sofrimentos acompanhados de humilhações e desprezos: Domine, pati et contemni pro te (2).

Meu irmão, não sejas do número daqueles loucos que se assustam à vista da cruz e fogem dela, porque lhe conhecem somente o exterior. Tu, ao contrário, “prova e vê quão suave é o Senhor” — Gustate et videte, quoniam suavis est Dominus (3). Abraça de boa vontade as tribulações que o Senhor te queira enviar, considera atentamente as vantagens que delas te provêm, e também tu dirás: Vale mais uma hora de sofrimentos suportados com resignação na vontade de Deus do que todos os tesouros da terra. Quando a natureza se revolta contra os sofrimentos, lancemos, para nossa animação, um olhar sobre o Crucifixo e digamos com o Apóstolo:

Compatimur, ut et conglorificemur (4) — “Padecemos com Jesus, para também com ele sermos glorificados”.

Sim, meu Jesus, é o que com o vosso auxílio proponho fazer. Se Vós, posto que inocente, quisestes sofrer tanto por mim, e não entrastes na glória senão pelo caminho dos sofrimentos, como poderia eu, pecador como sou e digno de mil infernos, recusar o sofrimento? Ah, Senhor, enviai-me as cruzes que quiserdes, mas dai-me também força para as carregar com paciência por vosso amor. “E Vós, ó Deus, que no presente dia nos alegrais com a anual solenidade da exaltação da Santa Cruz: concedei-me que, conhecendo na terra este mistério, mereça no céu os prêmios da sua Redenção” (5). Fazei-o pelo amor de Jesus e Maria.

1. 1 Pd 2, 21.
2. Lect. Brev. Rom.
3. Sl 33, 9.
4. Rm 8, 17.
5.Or. festi.

Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso

sábado, 11 de setembro de 2021

Maria Santíssima, modelo de Mortificação

 Maria Santíssima, modelo de Mortificação

Manus meae stillaverunt myrrham, et digiti mei pleni myrrha probatissima – “As minhas mãos destilaram mirra, e os meus dedos estavam cheios da mirra mais preciosa” (Ct 5, 5)

Sumário. Na Santíssima Virgem tudo estava em perfeita harmonia, porque estava isenta do pecado original e cheia de graça. A carne obedecia prontamente ao espírito; e o espírito a Deus. Contudo ela foi tão amante da mortificação que se tornou um modelo perfeito desta virtude. Quanto mais mortificados não devemos ser nós que temos tantas más paixões a exprimir e quiçá tantas culpas a expiar. E somos tão delicados e tão amantes de nossa comodidade. A continuarmos assim, como nos poderemos gloriar de ser filhos de Maria?

I. É uma verdade de nossa fé que a Santíssima Virgem, pro ser concebida isenta de pecado, não teve nenhuma desordem interior a combater. Apesar disso, o Senhor quis que em toda a vida ela se portasse de tal forma que se tornou um modelo perfeito de mortificação.

Com efeito, Maria praticou a mortificação interior, conservando o coração sempre desprendido de todas as coisas terrestres: desprendida estava das riquezas, querendo sempre viver pobre e ganhando o sustento com os trabalhos de suas mãos; desprendida das honras, amando a vida humilde e obscura, posto que lhe coubesse o título de nobreza, por ser descendente dos reis de Israel; desprendida afinal dos seus santos pais, porque na idade de três anos os deixou resolutamente, para ir encerrar-se no templo.

Quanto à sua mortificação exterior, na verdade é pouco o que a este respeito sabemos; mas esse pouco é mais do que suficiente para a nossa edificação. Maria mortificava de tal maneira a vista, que tinha os olhos sempre baixos, e jamais os fixava em alguém, como dizem Santo Epifânio e São Damasceno, e acrescentam que desde menina foi tão recatada, que admirava a todos. Que direi da escassez do nutrimento e da redundância dos trabalhos? esta quase excedendo as forças da natureza, aquela lhe quase faltando; esta não lhe permitindo tempo algum livre, aquela continuando os dias em jejum. E quando veio a vontade a refazer-se, a comida foi a mais óbvia só para afastar a morte, não para prestar delícias. Não se deu ao sono senão obrigada pela necessidade, mas quando o corpo repousava, o ânimo vigiava.

Finalmente, quando a Bem-Aventurada Virgem foi mortificada em tudo o mais, bem se infere do que ela mesma revelou a Santa Isabel beneditina, conforme se lê em São Boaventura: “Sabe”, disse-lhe, “que não recebi de Deus nenhuma graça sem grande trabalho, oração contínua, desejo ardente e muitas lágrimas e penitências”. Em suma, foi Maria em tudo mortificada, de modo que foi dito dela que suas mãos destilaram mirra, a qual na explicação dos intérpretes é símbolo da mortificação: Manus meae stillaverunt myrrham.

II. Se Maria, a mais inocente de todas as virgens, quis praticar a tal ponto a mortificação, quanto mais não devemos nós praticá-la, nós que temos tantas más inclinações que reprimir, e quiçá tantos pecados que expiar! Seja, pois, o fruto da presente meditação o exercício da mortificação cristã.

Quanto ao interior, vejamos qual seja a nossa paixão dominante, e esforcemo-nos por vencê-la, pois quem não a subjugar, está em grande perigo de se perder; ao contrário, aquele que vencer a paixão dominante, facilmente vencerá todas as outras.

Pelo que respeita à mortificação exterior, devemos, antes de mais nada, mortificar a vista, por cuja causa já muitos se acham no inferno. Notemos o que diz São Francisco de Sales:

“Não é tanto o ver, como o olhar, que é a causa da perdição”.

— Devemos em seguida mortificar a língua, abstendo-nos de toda a crítica e de palavras injuriosas e livres. Uma palavra livre, embora dita só para rir, pode ser causa de escândalo e de mil pecados. — Em terceiro lugar devemos mortificar a gula, comer para viver, e não viver para comer. Afirma Cassiano que é impossível que não esteja sujeito a muitas tentações impuras o que se farta de comida ou de bebida. — Devemos afinal mortificar o ouvido e o tato, evitando escutar conversas maliciosas e murmurações, e usando de toda a cautela tanto para com os outros como para nós mesmos, fugindo de todo o brinquedo de mãos. Imitando Maria Santíssima, devemos praticar a mortificação em todas as coisas e assim mostrar-nos seus dignos filhos: Filii Mariae, imitatores eius.

Se não te sentires com força para tanto, recorre com confiança a esta Mãe amorosíssima; põe-te debaixo de sua proteção especial e dize muitas vezes com São Bernardo:

 “Lembrai-vos, ó misericordiosíssima Virgem Maria, que jamais se ouviu dizer fosse por vós desamparado algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado o vosso auxílio, e exorado o vosso valimento. Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, ó Virgem das virgens, ó minha Mãe, recorro; a vós me acolho; e gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não queirais desprezar as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo incarnado, mas escutai-as favoravelmente e dignai-vos de atendê-las. Assim seja”[1].

Referências:

(1) Indulg. De 300 dias cada vez, e plenária uma vez por mês, para quem a rezar cada dia

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 92-94)