
Para a mente humana, as ações de Deus na história muitas vezes parecem absurdas. Quando nações tremem, impérios ascendem e caem, e a religião da civilização fica por um fio, esperamos ações de reis, generais, eruditos ou grandes príncipes eclesiásticos. Particularmente em uma era como a nossa — uma era que testemunhou duas guerras mundiais, terrorismo internacional, ameaças nucleares, migração em massa e o surgimento de tecnologias capazes de remodelar a sociedade da noite para o dia.
Esperamos que gigantes movam as peças gigantes de xadrez no tabuleiro. Esperamos que a história seja dirigida por aqueles que possuem riqueza, influência, exércitos e autoridade. Quando tais figuras nos decepcionam — ou desaparecem por completo — ficamos atordoados e confusos, sem saber o que acontecerá a seguir.
Mas o que o Senhor fez para preparar nosso povo para toda essa loucura? No caso de Fátima e La Salette, Ele enviou a mãe de Cristo para falar às crianças. Então... por que essa decisão? Por que escolher esse meio para nos transmitir informações cruciais?
A Confusão das Pessoas Hoje
O mundo é, obviamente, um caos geopolítico. Temos à nossa disposição ferramentas modernas maravilhosas, mas também existem abusos maliciosos correspondentes. O mesmo acontece na Igreja Católica. Esta Instituição Divina pode alcançar todos os portos e províncias do mundo, mas nunca vimos a Igreja com os problemas que agora temos de enfrentar.
Particularmente na hierarquia católica, vemos que ela já não inspira. A liderança já não nos transmite a confiança de outrora. Bispos e prelados costumavam ser guias firmes através das tempestades da história. A Igreja já foi um guia inabalável que nos ajudava a manter o rumo, independentemente do que acontecesse no mundo. Era uma estrutura antiga que se erguia como um farol de pedra contra as piores tempestades.
E agora? O mais educado a dizer é que os católicos estão desorientados. Há agora muitas controvérsias que antes eram impensáveis. Os fiéis estão perplexos com mensagens contraditórias, disputas públicas e uma aparente relutância da hierarquia em falar abertamente sobre questões de fé e moral. Muitos de nós já percebemos isso, e houve muitas respostas tradicionalistas diferentes a essa crise contínua nos últimos sessenta anos. As pessoas estão sinceramente tentando lidar com isso da única maneira que conhecem.
Essa situação persiste porque ninguém em posição de liderança adequada está disposto a resolvê-la. O dogma claro da Fé, ensinado nas Escrituras e transmitido por dois mil anos, não está mais sendo proclamado explicitamente. Assim, os fiéis se sentem constantemente manipulados.
E o que podem fazer os leigos ou o clero de baixo escalão para mudar isso? Estão à mercê dos outros. Não têm autoridade e não ocupam cargos de influência. As pessoas comuns não podem obrigar ninguém com poder a ouvi-las. Não podem resolver a crise — mesmo sabendo que algo terrível está acontecendo. Só lhes resta receber a Fé, crer nela, perseverar, sofrer e apegar-se ao que as Escrituras e a Tradição lhes ensinam. Este é o destino do católico comum hoje.
Crianças impotentes
Quando digo "crianças indefesas" aqui, parece que ainda me refiro aos leigos confusos do século XXI. Mas não — estou falando literalmente de todas as crianças. Porque as crianças não sabem o que estão fazendo. Elas são as pessoas mais vulneráveis que temos. Elas nem sabem o que não sabem. São tão maleáveis. Tão ingênuas. Tão facilmente enganadas. Elas realmente precisam de adultos para ajudá-las a evitar abusos psicológicos, para que possam crescer e se tornar pessoas plenamente maduras.
Não me interpretem mal. As crianças possuem muitas virtudes. São humildes, confiantes e receptivas. Não são pessoas cínicas, amarguradas e orgulhosas. Não têm aquela arrogância que se acumula na idade adulta. Estão mais dispostas a acreditar no que veem e ouvem — mesmo que isso as coloque em desacordo com tudo ao seu redor. Não é que as crianças sejam exatamente “sábias”, mas sim que são excepcionalmente abertas a receber sabedoria dos outros.
As crianças são receptoras adequadas da graça. Sem dúvida, esta é provavelmente uma das razões pelas quais Nosso Senhor enviou Sua Mãe para falar com os três pastorinhos em Fátima, Portugal. Ou mesmo em La Salette, França.
Filhos de Fátima
Vamos nos concentrar nas crianças de Fátima; consideremos quem elas eram, especificamente. Não eram filhos e filhas de nobres, políticos, eruditos ou membros do clero. Eram crianças pastoras de uma comunidade agrícola pobre, muito distante dos centros de poder político e eclesiástico.
Seus pais pertenciam a uma das camadas mais humildes da sociedade. Estavam à margem de muitas instituições. Não possuíam riqueza significativa, influência, educação formal ou qualquer posição de destaque entre os poderosos. Nenhum funcionário do governo buscaria seus conselhos. Nenhum bispo os consultaria sobre assuntos de Estado. Eram, sob todos os aspectos mundanos, completamente insignificantes.
E, no entanto, foi a essas crianças que o Céu confiou uma mensagem concernente ao destino das nações, à disseminação do erro pelo mundo, à perseguição da Igreja e à salvação de inúmeras almas.
Mas tudo bem: já vimos isso antes, não é? Davi e Golias vêm à mente. O jovem José contra os irmãos que o jogaram no poço é outra história familiar. Ou mesmo o jovem Samuel, a quem Deus falou diretamente enquanto o sacerdote Eli, já idoso, lutava para reconhecer a voz do Senhor. Em todas essas histórias, vemos o tema recorrente de Deus escolhendo os jovens inocentes em vez dos adultos que deveriam saber mais.
Mas será que a escolha das crianças de Fátima por Deus não é apenas um mero tema? Será que existe uma mensagem ainda mais profunda nessa decisão?
Considerem isto: Deus estava revelando o destino do mundo a essas três humildes crianças camponesas. No entanto, essas jovens almas não tinham autoridade, não ocupavam nenhum cargo importante, não podiam obrigar ninguém com poder a ouvi-las ou levá-las a sério, e certamente não podiam resolver a crise mundial. Elas só podiam receber as graças sobrenaturais de Deus e praticar a Fé.
Se isso lhe parece familiar, é porque eu já disse isso sobre os leigos no início deste artigo.
Impotência tipológica
Assim como as crianças de Fátima, nós, leigos, não detemos nenhuma autoridade. Como elas, tudo o que podemos fazer é receber as graças de Deus e praticar a fé. Elas são nós, e nós somos elas. O exemplo delas foi uma janela, mostrando ao mundo quem seriam os protagonistas no Jogo Final do mundo. Éramos nós.
As crianças de Fátima foram um exemplo de onde estaríamos em todo esse drama mundial do século XXI. Como se Deus estivesse dizendo: “As pessoas daquela época serão tão vulneráveis e indefesas quanto essas crianças”. Lúcia, Jacinta e Francisco não iriam consertar a Rússia, reformar governos ou conduzir corretamente os concílios do Vaticano. Eles estavam sujeitos aos caprichos dos poderosos.
Na verdade, veja o que aconteceu com eles. Foram presos pelo administrador civil maçônico local, interrogados e encarcerados. Ele (e muitos outros) tentaram forçá-los a revelar o segredo que Nossa Senhora lhes havia dado. Ameaçadas de morte, as crianças foram interrogadas repetidamente — e até mesmo colocadas entre os prisioneiros comuns. Suas famílias e vizinhos foram pressionados. As crianças foram acusadas de mentir. A própria família de Lúcia não acreditou nela. Foram ridicularizadas pelos moradores da vila. Consideradas problemáticas, ainda tiveram que carregar essas visões e mensagens pesadas sobre o Inferno e o cataclismo mundial. E Francisco e Jacinta sofreram intensamente com doenças antes de morrerem jovens.
Somos nós.
Nos dias de hoje, estamos fadados a ser presos. Seremos pressionados, interrogados, encarcerados e jogados no meio de criminosos. Nossos pares e familiares nos envergonharão socialmente por nossas crenças. Seremos ridicularizados. E, enquanto tudo isso acontece, carregaremos o fardo pesado de saber exatamente qual é a nossa realidade. E quando chegar o momento da nossa morte, talvez não seja a aposentadoria gloriosa que almejamos.
Somos eles, e eles são nós. Marginalizados, vulneráveis — não oficiais. Há tantas coisas importantes que precisam ser realizadas oficialmente, e as pessoas que reconhecem a realidade do que está acontecendo não podem fazê-lo porque essa não é a nossa função na vida. Esse dilema mostra quem somos e onde estamos. Isso não é algo não planejado ou imprevisto. Deus sabia o que aconteceria nestes tempos que estamos vivendo, e Ele tem nos avisado o tempo todo de muitas maneiras. Talvez nossa situação pareça única, estranha ou não convencional, mas tudo isso aconteceu, como um prenúncio, com as crianças de Fátima. Deus é tão bom que nos avisou sobre isso e nos deu exemplos vivos. Elas eram pequenas, simples e humildes, para que pudéssemos nos identificar facilmente com elas. Mesmo assim, foram heroicas. Precisamos usar o exemplo delas e as instruções do Céu para superar esta crise extremamente difícil e trabalhar pela salvação de muitas almas.
Conclusão
Jesus sabia que estaríamos na situação em que nos encontramos hoje. Ele conhecia nosso nível de inocência, credulidade e suscetibilidade a sermos enganados. Por isso, Ele nos advertiu. Disse para termos cuidado para que ninguém nos seduzisse, pois muitos viriam em Seu Nome, dizendo: "Eu sou o Cristo". E disse que muitos seriam enganados. Nosso Senhor chegou a nos dizer que tais enganadores tentariam nos conquistar com maravilhas e espetáculos.
Mas os exemplos sagrados já nos foram apresentados tantas vezes.
Somos nós que temos que atirar pedras em gigantes. Somos nós que, como José, seremos jogados em um poço e vendidos como escravos, sofrendo no presente sem ainda compreender o propósito por trás disso. Somos o jovem Samuel, ouvindo a voz de Deus em meio à escuridão enquanto as autoridades ao nosso redor lutam para reconhecê-la. E, claro, somos filhos de pastores que, conhecendo o destino da civilização, não podem compelir os "grandes do mundo" a acatarem os avisos do Céu. Somos impotentes diante de forças muito maiores do que nós.
Não estamos sozinhos. Nossa história, a história da humanidade, permanece constante.
A lição de Fátima vai muito além do que qualquer um de nós imagina. O Céu não escolheu as crianças simplesmente porque “crianças são humildes”. O Céu também as escolheu porque elas eram a imagem perfeita dos católicos fiéis que um dia enfrentariam crises muito maiores do que elas próprias.
Assim como Lúcia, Jacinta e Francisco, nós possuímos pouca autoridade. Não podemos dirigir nações. Não podemos governar a Igreja. Não podemos obrigar outros a crerem no que o Céu revelou. Podemos apenas receber a Fé, permanecer firmes em meio à confusão, sofrer o que deve ser sofrido e transmitir e guardar fielmente o que nossos ancestrais nos legaram.
Nesse sentido, as crianças de Fátima não eram meras mensageiras. Eram sinais proféticos vivos. Poderíamos até dizer… outro segredo de Fátima.
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