Sermão para o II Domingo da Quaresma
Pe. Leonardo Carvalho, IBP
1º-03-26
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília-DF
Sermão para o II Domingo da Quaresma
Pe. Leonardo Carvalho, IBP
1º-03-26
Capela Nossa Senhora das Dores
Brasília-DF

“A essência de toda vida verdadeiramente devota é o fiel cumprimento da vontade conhecida de Deus. Essa vontade se manifesta em a) os Mandamentos, b) os conselhos evangélicos, c) para nós, em nossa Regra e nas ordens dos Superiores. Todo o resto é acidental e de maior ou menor importância, conforme nos ajude a fazer o que é substancial” ( União com Deus: Cartas de Direção Espiritual, do Beato Columba Marmion ). E embora isso seja verdade para todos, sem exceção, muitas almas boas precisam da ajuda de um sacerdote de confiança para navegar pelas provações particulares da vida, garantindo, nesse processo, que estejam cumprindo a vontade de Deus. É aqui que entra a direção espiritual, frequentemente elogiada por místicos e santos. A Enciclopédia Católica oferece uma boa definição de direção espiritual, observando as duas maneiras pelas quais o termo é usado:
“No sentido técnico do termo, a direção espiritual é a função do ministério sagrado pela qual a Igreja guia os fiéis para a conquista da felicidade eterna. Faz parte da missão que lhe foi dada nas palavras de Cristo: 'Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações, ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado' (Mateus 28:19 e seguintes). Ela exerce essa função tanto no seu ensino público, seja em palavras ou por escrito, quanto na orientação privada das almas, de acordo com as suas necessidades individuais; mas é a orientação privada que geralmente se entende pelo termo 'direção espiritual'.”
Embora os sacerdotes frequentemente ofereçam algumas palavras de conselho no confessionário antes de conceder a absolvição, isso não se trata de direção espiritual no mesmo sentido. A direção espiritual deve sempre ser feita separadamente, para não privar os outros do tempo limitado disponível para receber a absolvição sacramental, da qual suas almas dependem para a vida.
Em uma época de apostasia e confusão doutrinal , é mais importante do que nunca que os fiéis tenham sacerdotes tradicionais e fiéis que se ofereçam para proporcionar orientação espiritual às almas que buscam a perfeição e que tentam navegar pelo modernismo e pela crise que afetam a Igreja hoje. Infelizmente, a heresia do americanismo, entre outras coisas, minimiza a importância da direção espiritual, como observou o Papa Leão XIII. E essa heresia ainda está muito presente hoje . Mesmo hoje, a maioria dos católicos comuns nos bancos da igreja não tem diretores espirituais e nem sequer sabe o que o termo significa. No entanto, antes desta crise, o Padre Reginald Garrigou-Lagrange escreveu sobre a importância da direção espiritual nas Três Idades da Vida Interior , afirmando:
“Embora não seja absolutamente necessário para a santificação das almas, o acompanhamento espiritual é o meio normal de progresso espiritual. Muitos dos primeiros Padres da Igreja tinham opiniões semelhantes à de Santo Agostinho, que disse: 'Assim como um cego não pode seguir o bom caminho sem um guia, ninguém pode caminhar sem um guia'. Santo Afonso indica 'o principal objetivo do acompanhamento espiritual: a mortificação, a maneira de receber os Sacramentos, a oração, a prática das virtudes, a santificação da ação ordinária'. Sobre as qualidades de um diretor espiritual, São Francisco de Sales escreve: 'Ele deve ser um homem de caridade, conhecimento e prudência'.”
São Francisco de Sales viveu de 1567 a 1622. Enquanto estudava em Paris, foi tomado por um profundo sentimento de desespero e escuridão. O demônio o tentava a abandonar Deus. Francisco não conseguia comer; perdeu peso e ficou muito doente. Finalmente, rezando diante de uma imagem da Virgem Maria e recitando a oração "Memorare" , Francisco foi instantaneamente libertado de seu estado de angústia. A partir daquele momento, consagrou sua vida a Nossa Senhora. Francisco havia se preparado e estudado para se tornar advogado e senador, mas anunciou ao pai que queria ser sacerdote. Sua família aristocrática se opôs veementemente, até que Francisco foi nomeado Preboste, sob o patrocínio do Papa... um cargo prestigioso. Francisco foi ordenado e imediatamente renunciou aos privilégios mundanos aos quais seu cargo lhe dava direito. Dedicou-se a refutar os ensinamentos da Reforma e arriscou a vida para pregar em áreas onde o catolicismo havia sido proibido. Quando Francisco se tornou Bispo de Genebra, introduziu a catequese permanente para todos os fiéis. À noite, ele até caminhava pela cidade e (como um bom “pastor”) entregava panfletos explicando a fé nas casas de suas “ovelhas”, muitas das quais haviam sucumbido às heresias protestantes. Ele vivia com simplicidade e tornou-se amado pelos pobres. Seus ensinamentos e exemplo trouxeram milhares de calvinistas militantes de volta ao seio da Santa Madre Igreja. Com Santa Joana Francisca de Chantal, ele fundou o Instituto da Visitação da Bem-Aventurada Virgem Maria, que permitia que moças e viúvas ingressassem em uma ordem religiosa, sem a disciplina rigorosa de outras ordens. Ele era tão famoso por sua pregação que as pessoas acorriam para ouvi-lo. Seu famoso livro, Introdução à Vida Devota , foi originalmente uma série de cartas para Madame de Charmoisy, a quem Francisco orientava espiritualmente. A escrita é calorosa e acessível. O livro tem oferecido orientação – e continua a fazê-lo – a milhões de buscadores desde sua publicação em 1609. Por conta de sua perspicácia e orientação espiritual, São Francisco é comumente conhecido como o “Doutor da Vida Espiritual” e informalmente como “O Criador de Santos”.
Um diretor espiritual deve ser um sacerdote com formação específica nessa área. A confissão pode fazer parte do processo de direção espiritual, mas a direção espiritual é mais do que apenas a confissão de pecados. Ela também deve incorporar as 14 regras para o discernimento dos espíritos, propostas por Santo Inácio de Loyola. (Essas regras são discutidas por Kevin Roerty na série de vídeos do Centro de Fátima, " Tropas de Choque de Nossa Senhora" , a partir do episódio 46.) Encontre um sacerdote cujo conselho durante a confissão seja ao mesmo tempo desafiador e acolhedor. A direção espiritual deve ajudá-lo(a) a crescer na fé; porém, alguns santos, como Santa Teresa de Ávila, tiveram dificuldade em encontrar a pessoa certa. Um de seus confessores interpretou mal o que acontecia em sua vida de oração e a orientou de forma equivocada. A direção espiritual concentra-se na relação com Deus. Ela também pode abordar falhas de caráter (por exemplo, identificar sua principal falha) e o desenvolvimento de uma virtude. Pode levar tempo para encontrar um padre que possa dedicar o tempo necessário para ser seu orientador espiritual e em quem você possa confiar. Mas ore a Deus por intermédio de Nossa Senhora para que você encontre um padre que o ajude a navegar pelos desafios da vida em meio à confusão dos dias de hoje. São Francisco de Sales expressou isso da melhor forma quando escreveu:
“Na verdade, seu guia espiritual deve ser sempre como um anjo enviado do céu para você – com isso quero dizer que, quando você o encontrar, não deve encará-lo, nem confiar nele ou em sua sabedoria como um homem comum; mas deve olhar para Deus, que o ajudará e falará com você por meio desse homem, colocando em seu coração e em sua boca aquilo que lhe é necessário.”
Que Deus nos conceda esses conselheiros de almas agora, quando são tão necessários.
Como a direção espiritual visa proporcionar uma orientação mais delicada e matizada dentro das especificidades da vida de uma pessoa, muitos sacerdotes incentivam os leigos a primeiro dominarem os fundamentos da vida espiritual. Por exemplo, deve-se eliminar todo pecado mortal e lutar contra os vícios habituais. Deve-se viver a vida sacramental (confissão frequente e Sagrada Comunhão). Deve-se desenvolver uma vida de oração disciplinada e rotineira, que inclua meditação diária. Se esses passos não forem dados, o diretor espiritual não poderá ajudar a pessoa a discernir as nuances da vontade de Deus em sua vida. Isso faz sentido, pois não se pode conhecer a vontade de Deus nas questões mais particulares e subjetivas se não se está seguindo a vontade de Deus nas questões objetivas e óbvias. Por exemplo: um jovem entrando na vida adulta estava tentando tomar uma decisão sobre sua carreira. Ele buscou o conselho de um sacerdote. O sacerdote perguntou sobre as opções que estavam sendo consideradas, que eram várias. O sacerdote então perguntou: “Como cada uma dessas opções será um meio de glorificar a Deus e promover sua santificação?” Isso pegou o jovem completamente de surpresa. Foi uma pergunta inesperada. O padre explicou gentilmente: “Esta deve ser a principal questão em sua mente. Usando a luz da sua razão natural, você deve avaliar cada opção segundo esses critérios e explicá-la para mim. Esse processo eliminará as opções ruins. Somente depois disso você deve começar a buscar qual das boas opções Deus deseja para você. É somente nesse ponto que eu, como diretor espiritual, posso lhe oferecer auxílio.” Muitas vezes, as pessoas procuram um diretor espiritual antes de dar esses passos básicos. No entanto, um diretor espiritual não é o que elas precisam, pois primeiro devem progredir nos fundamentos da vida espiritual, na observância dos Mandamentos de Deus, no cumprimento dos deveres do seu estado e na orientação da sua vida para o que realmente importa: a salvação da sua alma. O que uma pessoa precisa, em primeiro lugar, são os Sacramentos, uma vida de oração regular e o desapego dos bens materiais. Acima de tudo, ela precisa fortalecer sua determinação. Isso se conquista vencendo as tentações e os encantos que a afastam de Deus e perseverando firmemente nos fundamentos da vida espiritual. (Todos esses tópicos também são abordados por Kevin Roerty na série do Centro de Fátima, " Our Lady's Shocktroops" , especialmente nos episódios 1 a 9.)
Nossa Senhora do Rosário, rogai por nós!
Se você ainda não leu a última edição da revista The Fatima Crusader , “Vivendo a Mensagem de Fátima” (CR 135), recomendamos que adquira um exemplar e coloque em prática uma ou duas das mais de vinte práticas espirituais ali detalhadas. Mais de vinte autores diferentes explicam como podemos praticar a conversão, a reparação e a consagração. Por favor, encomende exemplares adicionais, compartilhe-os com outras pessoas e incentive-as a também viver a Mensagem de Fátima. Somente quando um número suficiente de pessoas estiver vivendo a Mensagem de Fátima é que Deus concederá ao Papa e aos bispos a graça necessária para consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

“Amortalhou-O no sudário, e depositou-O no sepulcro”
Sumário. Consideremos como a Mãe dolorosa quis acompanhar os discípulos que levaram Jesus morto à sepultura. Depois de O ter acomodado com suas próprias mãos, diz um último adeus ao Filho e ao sepulcro, e volta para casa, deixando o coração sepultado com Jesus. Nós também, à imitação de Maria, encerremos o nosso coração no santo tabernáculo, onde reside Jesus, já não morto, mas vivo e verdadeiro como está no céu. Para isso é mister que o nosso coração esteja desapegado de todas as coisas da terra.
Quando uma mãe assiste a seu filho que padece e morre, sem dúvida ela sente e sofre todas as penas do filho; mas quando o filho atormentado, já morto, deve ser sepultado e a aflita mãe deve despedir-se dele, ó Deus! O pensamento de o não tornar a ver é uma dor que excede todas as outras dores. Essa foi a última espada que traspassou o coração aflito de Maria.
Para melhor considerá-la, voltemos ao Calvário e observemos atentamente a aflita Mãe, que ainda tem abraçado seu Jesus morto e se consome de dor ao beijar-Lhe as chagas. Os santos discípulos, temendo que ela expirasse pela veemência da dor, animaram-se a tirar-lhe do regaço o depósito sagrado, para o sepultarem. Com violência respeitosa tiraram-lh’O dos braços, e embalsamando-O com aromas, envolveram-No em um sudário adrede preparado. Eis que já O levam à sepultura; já se põe em movimento o cortejo fúnebre. Os discípulos carregam o corpo exânime; inúmeros anjos do céu O acompanham; as santas mulheres O seguem e juntamente com elas vai a Mãe aflitíssima, acompanhando o Filho à sepultura.
Chegados que foram ao lugar destinado, a divina Mãe acomoda nele com suas próprias mãos o corpo sacrossanto; e, ó! Com quanta vontade Maria se sepultaria ali viva com seu Jesus! Quando depois levantaram a pedra para fechar o sepulcro, afigura-se-me que os discípulos do Salvador se voltaram para a Virgem com estas palavras: Eia, Senhora, deve-se fechar o sepulcro: tende paciência, vede pela última vez o vosso Filho e despedi-vos d’Ele. Ah! Meu querido Filho (assim deve ter falado então a aflita Mãe), não te hei então de tornar a ver? Recebe, pois, nesta última vez que te vejo, recebe o último adeus de mim, tua afetuosa Mãe.
Finalmente os discípulos levantam a pedra e encerram no santo sepulcro o corpo de Jesus, aquele grande tesouro, a que não há igual nem na terra nem no céu. Diz São Boaventura, que a divina Mãe, antes de deixar o sepulcro, abençoou aquela sagrada pedra. E assim dando o último adeus ao Filho e ao sepulcro, volta para sua casa, mas deixa o seu coração sepultado com Jesus.
Sim, porque Jesus é todo o seu tesouro, e, como disse Jesus: “Onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. E nós, onde teremos sepultado o nosso coração? Talvez nas criaturas? No lodo? E porque não o teremos sepultado com Jesus, o qual, bem que subido ao céu, contudo quis ficar, não morto, mas vivo, no Santíssimo Sacramento do altar, precisamente para ter consigo e possuir os nossos corações? Imitemos, pois, Maria; encerremos os nossos corações no santo Tabernáculo, para não mais o tornarmos a tomar. Entretanto, colocando-nos em espírito com a dolorosa Mãe junto ao sepulcro de Jesus, unamos os nossos afetos com os de Maria e digamos com amor:
Ó meu Jesus sepultado! Beijo a pedra que Vos encerra. Mas ressuscitastes ao terceiro dia. Ah! Pelos méritos de vossa gloriosa ressurreição, fazei com que no último dia eu ressuscite convosco na glória, para estar sempre unido convosco no céu, para Vos louvar e amar eternamente. Eu Vo-lo peço pela vossa paixão, e pela dor que sentiu a vossa querida Mãe, quando Vos acompanhou ao sepulcro.
As promessas de Nossa Senhora para quem medita suas dores
Nossa Senhora revelou à Santa Brígida da Suécia sete promessas para os devotos das suas Dores. Essa devoção, profundamente enraizada na espiritualidade católica, nos convida a unir nossas aflições às de Maria, encontrando nela um modelo de fortaleza e fidelidade a Deus.
Ao contemplarmos seus sofrimentos, aprendemos a perseverar na fé mesmo nas provas, confiando que ela nos acompanha e intercede por nós junto a seu Filho. Com imenso amor materno, Maria promete graças especiais àqueles que acolhem essa devoção com sincera devoção e confiança.
Paz nas dificuldades.
Proteção especial em tempos de tribulação.
Maior compreensão dos mistérios divinos.
Consolo e força nas provações.
Intercessão especial na hora da morte.
Defesa contra os ataques espirituais.
Graça de alcançar a felicidade eterna.
A importância das Sete Dores de Maria na espiritualidade católica
A devoção às Sete Dores de Maria é um convite para meditarmos sobre o sofrimento, mas com uma perspectiva de fé, aprendendo a suportá-lo. Maria, em sua vida, experimentou momentos de dor profunda, mas sempre com confiança inabalável em Deus. Sua entrega e perseverança são um exemplo de como devemos lidar com nossas próprias dificuldades.
Através da meditação dessas dores, aprendemos a suportar o sofrimento com paciência e esperança, unindo-nos aos sofrimentos de Jesus e de Maria. Oferecer nossas dores a Deus, como Maria fez, é um caminho de santificação e de confiança no plano divino. Em cada dor, encontramos uma oportunidade de nos aproximarmos mais de Deus, tornando-nos mais fortes na fé e mais generosos em nossa entrega ao Senhor.
As Sete Dores de Maria são um convite para aprofundar nossa relação com a Mãe de Deus. Por meio dessa devoção, aprendemos a confiar na providência divina, mesmo nos momentos mais difíceis. Maria é um modelo de fé, coragem e entrega, que nos ensina a aceitar a cruz com esperança.
Sua vida é um testemunho de que, mesmo diante da maior dor, a esperança na ressurreição e na promessa divina deve prevalecer. Ela nos convida a segui-la no caminho da cruz, com fé, sabendo que temos o auxílio divino e a ressurreição é uma recompensa final para todos os que perseveram.

“José, depondo-O da cruz, O amortalhou no sudário”
Sumário. Consideremos como, depois da morte do Senhor, dois dos seus discípulos, José e Nicodemos, o descem da cruz e O depõem nos braços da aflita Mãe, que com ternura O recebe e O aperta contra o peito. Se Maria fosse ainda capaz de dor, que pena sentiria vendo que os homens, tendo visto seu Filho morto por amor deles, continuam a maltratá-Lo com os seus pecados? Não atormentemos mais a nossa aflita mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, voltemos arrependidos ao Coração aberto de seu Jesus.
Temendo a Mãe dolorosa, que depois do ultraje da lançada outras injúrias fossem feitas a seu amado Filho, pede a José de Arimatéia, obtivesse de Pilatos o corpo de seu Jesus, a fim de que ao menos morto O pudesse guardar e livrar dos ultrajes. Foi José ter com Pilatos e expôs-Lhe a dor e o desejo da aflita Mãe, e diz Santo Anselmo que a compaixão para com ela enterneceu Pilatos e o moveu a conceder-lhe o corpo do Salvador.
Eis que descem Jesus da cruz. Foi revelado a Santa Brígida, que para o descimento encostaram à cruz três escadas. Primeiro, os santos discípulos despregaram as mãos e depois os pés, e os cravos foram entregues a Maria, como refere Metaphrastes. Depois, segurando um o corpo de Jesus por cima, e outro por baixo, o desceram da cruz. Bernardino de Bustis medita como a aflita Mãe se levanta sobre as pontas dos pés, e, estendendo os braços, vai receber o querido Filho; abraça-O e depois senta-se debaixo da cruz.
Vê a boca aberta e os olhos escurecidos; examina aquelas carnes dilaceradas, aqueles ossos descarnados; tira-Lhe a coroa e examina o estrago feito pelos espinhos naquela santa cabeça; observa as mãos e os pés traspassados, e diz: Ah, meu Filho! A que estado te reduziu o amor para com os homens! Que mal lhes fizeste para assim te maltratarem? Ah! Meu Filho, vê como estou aflita, olha-me e consola-me; mas já não me vês. Fala, dize-me uma palavra e consola-me; mas já não falas, porque estás morto… Ó espinhos cruéis, cravos atrozes, bárbara lança, como pudestes atormentar assim o vosso Criador? Mas, que espinhos, que cravos! Ah, pecadores, exclamava, assim tendes maltratado o meu Filho!
Ó Virgem Santíssima, depois que vós com tanto amor destes ao mundo o vosso Filho para a nossa salvação, eis que o mundo já vo-Lo restitui. Mas, ó Deus! Como mo restituis tu? Dizia então Maria ao mundo. “Meu Filho era branco e vermelho”, não pela cor, mas pelas chagas que Lhe tens aberto. Ele era belo, agora, em vez de belo, é todo deforme; Ele encantava com o seu aspecto, agora causa horror a quem O vê.
Assim se expressava então Maria e se queixava de nós. Mas se agora fosse ainda capaz de dor, que diria? E que pena sentiria, ao ver que os homens, depois da morte de seu Filho, continuam a maltratá-Lo e crucificá-Lo com os seus pecados? Não continuemos, pois, a atormentar esta dolorosa Mãe, e se pelo passado nós também a temos afligido com as nossas culpas, façamos o que ela mesma nos diz: “Pecadores, voltai ao Coração” ferido de meu Jesus; voltai arrependidos, e Ele vos acolherá. Revelou a mesma Bem-aventurada Virgem a Santa Brígida, que ao Filho descido da cruz ela fechou os olhos, mas não pode fechar-Lhe os braços, dando com isso Jesus Cristo a entender que queria ficar com os braços abertos, para acolher todos os pecadores arrependidos, que voltam para Ele.
Ó Virgem dolorosa, ó alma grande nas virtudes e grande também nas dores, pois que tanto estas como aquelas nascem do grande incêndio de amor que tendes a Deus. Ah, minha Mãe! Tende piedade de mim, que não tenho amado a Deus e O tenho ofendido. As vossas dores me dão grande confiança para esperar o perdão. Mas isto não me basta; quero também amar o meu Senhor, e quem me pode alcançar isto melhor do que vós, que sois a Mãe do belo amor? Ah Maria! Vós consolais a todos; consolai-me também a mim.

“A tua vida estará como suspensa diante de ti”
Sumário. Contemplemos a acerba dor de Maria Santíssima no Calvário, obrigada a assistir a Jesus moribundo e ver todas as penas que Ele padecia, sem, contudo, Lhe poder dar alívio. Então a aflita Mãe não cessou de oferecer a vida do Filho à divina justiça pela nossa salvação. Lembremo-nos que pelo merecimento de suas dores cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça. Por isso todos nós somos seus filhos. Ó, como a Virgem exerceu sempre e ainda exerce bem o ofício de Mãe! Mas como nos vemos nós como filhos?
Fogem as mães da presença dos filhos moribundos; e se por acaso alguma mãe se vê obrigada a assistir um filho que está para morrer, procura-lhe todos os alívios que pode dar. Concerta-lhe a cama, para que esteja em posição mais cômoda; serve-lhe refrescos, e assim a própria mãe procura mitigar a própria dor. Ah, mãe a mais aflita de todas as mães, ó Maria! Incumbe-vos o assistir a Jesus moribundo, mas não vos é permitido dar-Lhe algum alívio.
Maria ouviu o Filho dizer: tenho sede; mas não lhe foi permitido dar uma gota de água para Lhe mitigar a sede. Só pode dizer-Lhe, como contempla São Vicente Ferrer: Filho, não tenho senão a água de minhas lágrimas. Via que sobre aquele leito de morte, Jesus, pregado com três cravos de ferro, não achava repouso. Queria abraçá-Lo para Lhe dar alívio, ao menos para O deixar expirar entre seus braços; mas não podia. Via o pobre Filho, que naquele mar de aflições buscava quem O consolasse, como Ele já tinha predito pela boca do profeta Isaías. Mas quem entre os homens O desejava consolar, se todos eram seus inimigos? Mesmo sobre a cruz um O blasfemava e escarnecia de uma maneira, outro de outra, tratando-O como um impostor, ladrão, usurpador sacrílego da divindade, digno de mil mortes.
O que mais aumentou a dor de Maria e a sua compaixão para com o Filho, foi ouvi-Lo sobre a cruz lamentar-se de o Eterno Pai também O ter abandonado: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” Palavras, como disse a Bem-aventurada Virgem à Santa Brígida, que não puderam nunca mais sair-lhe da ideia, enquanto viveu. De modo que a aflita Mãe via o seu Jesus atormentado de todas as partes; queria aliviá-Lo, mas não podia. Pobre Mãe!
Pasmavam os homens, diz Simão de Cássia, vendo que a divina Mãe guardava o silêncio, sem se queixar no meio da sua grande dor. Mas, se Maria guardava o silêncio com a boca, não o guardava com o coração, porquanto naquelas horas não fazia se não oferecer à justiça divina a vida do Filho pela nossa salvação. Saibamos, pois, que pelo mérito de suas dores ela cooperou para nos fazer nascer para a vida da graça e por conseguinte somos filhos de suas dores: “Mulher, eis aí teu filho”.
Naquele mar de amargura era este o único alívio que então a consolava: o saber que por meio de suas dores nos conduzia à salvação eterna. — Desde então começou Maria a exercer para conosco o ofício de boa Mãe; pois que, como atesta São Pedro Damião, foi pelas súplicas de Maria que o bom ladrão se converteu e se salvou, querendo a divina Mãe recompensá-lo assim pela delicadeza que outrora lhe mostrou na viagem ao Egito. E o mesmo ofício de mãe tem a Bem-aventurada Virgem continuado sempre e continua a exercer. Nós, porém, com as nossas obras mostramo-nos deveras seus dignos filhos?
Ó Mãe, a mais aflita de todas as mães! Morreu, enfim, vosso Filho, tão amável e que tanto vos amava! Chorai; que tendes razão para chorar. Quem jamais poderá consolar-vos? Só vos pode consolar o pensamento que Jesus com sua morte venceu o inferno, abriu o céu fechado aos homens, e ganhou tantas almas. Do trono da cruz reinará sobre tantos corações que, vencidos pelo amor, com amor Lhe servirão. Não recuseis, entretanto, ó minha Mãe, que vos acompanhe a chorar convosco, já que mais que vós tenho razão de chorar pelas ofensas que tenho feito a Vosso Filho. Ah, Mãe de Misericórdia! Em primeiro lugar pela morte de seu Redentor, e depois pelos merecimentos de vossas dores, espero o perdão e a salvação eterna.

“Vimo-Lo, e não havia nele formosura, e por isso nós O estranhamos”
Sumário. Consideremos o encontro que no caminho do Calvário teve o Filho com sua Mãe. Jesus e Maria olham-se mutuamente, e estes olhares são como outras tantas setas que lhes traspassam o Coração amante. Se víssemos uma leoa que vai após seu filho conduzido à morte, aquela fera havia de inspirar-nos compaixão. E não nos moverá à ternura ver Maria que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o conduzem à morte por nós? Tenhamos compaixão, e procuremos também acompanhar a seu Filho e a ela, levando com paciência a cruz que nos dá o Senhor.
Medita São Boaventura que a Bem-aventurado Virgem passou a noite que precedia a Paixão de seu Filho sem tomar descanso e em dolorosa vigília. Chegada a manhã, os discípulos de Jesus Cristo vieram a esta aflita Mãe: um a referir-lhe os maus tratamentos feitos a seu Filho na casa de Caifás, outro os desprezos que recebeu de Herodes, mais outro a flagelação ou a coroação de espinhos. Numa palavra, cada um dava a Maria uma nova informação, cada qual mais dolorosa, verificando-se nela o que Jeremias tinha predito: “Não há quem a console entre todos os seus queridos”. Veio finalmente São João e lhe disse: “Ah, Mãe dolorosa! Teu Filho já foi condenado à morte, e já saiu, levando Ele mesmo a sua cruz para ir ao Calvário. Vem, se O queres ver e dar-Lhe o último adeus, em alguma rua, por onde tenha de passar”.
Ao ouvir isto, Maria parte com João; e pelo sangue de que estava a terra borrifada conhece que o Filho já por ali tinha passado. A Mãe aflita toma por uma estrada mais breve e coloca-se na entrada de uma rua para se encontrar com o aflito Filho, nada se-lhe dando das palavras insultuosas dos judeus, que a conheciam como mãe do condenado. Ó Deus, que causa de dor foi para ela a vista dos cravos, dos martelos, das cordas e dos outros instrumentos funestos da morte de seu Filho! Como que uma espada foi ao seu coração o ouvir a trombeta, que andava publicando a sentença pronunciada contra o seu Jesus.
Mais eis que já, depois de terem passado os instrumentos e os ministros da justiça, levanta os olhos e vê, ó Deus! Um homem todo cheio de sangue e de chagas, dos pés até a cabeça, com um feixe de espinhos na cabeça e dois pesados madeiros sobre os ombros. Olha para Ele, e quase não O conhece, dizendo então com Isaías: “Nós O vimos e não havia n’Ele formosura”. Mas finalmente o amor lhe faz reconhecer e o Filho, tirando um grumo de sangue dos olhos, como foi revelado a Santa Brígida, encarou a Mãe e a Mãe encarou o Filho. Ó olhares dolorosos, com que, como tantas flechas, foram então traspassadas aquelas almas amantes!
Queria a divina Mãe abraçar a Jesus, como diz Santo Anselmo; mas os insolentes servos a repelem com injúrias, e empurram para diante o Senhor aflitíssimo. Maria, porém, segue, muito embora preveja que a vista de seu Jesus moribundo lhe causaria uma dor tão acerba, que a tornaria rainha dos mártires. O Filho vai adiante, e a Mãe tomando também a sua cruz, no dizer de São Guilherme, vai após Ele, para ser crucificada com Ele.
Se víssemos uma leoa que vai após o filho conduzido à morte, aquela fera nos causaria compaixão. E não nos inspirará compaixão o ver Maria, que vai após o seu Cordeiro imaculado, enquanto o levam a morrer por nós? Tenhamos compaixão por ela, e procuremos também acompanhar o Filho e a Mãe, levando com paciência a cruz que nos envia o Senhor. Pergunta São João Crisóstomo, porque nas outras penas Jesus Cristo quis ser só, mas a levar a Cruz quis ser ajudado pelo Cirineu? E responde: não basta para nos salvar só a cruz de Jesus Cristo, se nós não levamos com resignação até a morte também a nossa.
Minha dolorosa Mãe, pelo merecimento da dor que sentistes ao ver o vosso amado Filho levado à morte, impetrai-me a graça de levar também com paciência as cruzes que Deus me envia. Feliz de mim, se souber acompanhar-vos com a minha cruz até a morte! Vós e Jesus, sendo inocentes, levastes uma cruz muito pesada, e eu pecador, que tenho merecido o inferno, recusarei a minha? Ah, Virgem imaculada, de vós espero socorro, para sofrer com paciência as cruzes.

“Eis que teu pai e eu Te andávamos buscando cheios de aflição”
Sumário. A dor de Maria pela perda de Jesus foi sem dúvida uma das mais acerbas; porque ela então sofria longe de Jesus, e a humildade fazia-lhe crer que o Filho se tinha apartado dela por causa de alguma negligência sua. Sirva-nos esta dor de conforto nas desolações espirituais; e ensine-nos o modo de buscarmos a Deus, se jamais para nossa desgraça viermos a perdê-Lo por nossa culpa. Lembremo-nos, porém, de que quem quiser achar a Jesus, não O deve buscar entre os prazeres e delícias, mas no pranto, entre as cruzes e mortificações, assim como Maria o procurou.
Quem nascer cego, pouco sente a pena de ser privado de ver a luz do dia; mas quem noutro tempo teve a vista e gozou a luz, muita pena sente em se ver dela privado. E assim igualmente as almas infelizes que, cegas pelo lodo desta terra, pouco têm conhecido a Deus, pouco sentem a pena de O não acharem. Ao contrário, quem, iluminado pela luz celeste, foi feito digno de achar no amor a doce presença do supremo Bem, ó Deus! Que tristeza sente em ver-se dela privado.
Vejamos, portanto, o muito que a Maria, acostumada a gozar continuamente a dulcíssima presença de seu Jesus, devia ser dolorosa a terceira espada que a feriu, quando, havendo-O perdido em Jerusalém, por três dias se viu dele separado. Alguns escritores opinam que esta dor não foi somente uma das maiores que teve Maria na sua vida, mas que foi em verdade a maior e mais acerba. E com razão, porque então ela não sofria em companhia de Jesus, como nas outras dores; e porque a sua humildade lhe fazia crer que Jesus se tinha afastado dela por alguma negligência no seu serviço. Por esta razão aqueles três dias lhe foram excessivamente longos e se lhe afiguraram séculos, cheios de amargura e de lágrimas.
“Vistes porventura àquele a quem ama a minha alma?”. É assim que a divina Mãe, como a Esposa dos Cantares, andava perguntando por toda a parte. E depois, cansada pela fadiga, mas sem O ter achado, oh, com quanto maior ternura não terá dito o que disse Ruben de seu irmão: “O menino não aparece, e eu para onde irei?” O meu Jesus não aparece, e eu não sei que mais possa fazer para O achar; mas aonde irei sem o meu tesouro? Ah, meu filho dileto! Cara luz de meus olhos: faze-me saber onde estás, a fim de que eu não ande mais errando e buscando-Te em vão. Numa palavra, afirma Orígenes que pelo amor que esta santa Mãe tinha a seu Filho, padeceu mais nesta perda de Jesus que qualquer outro mártir no tormento que o privou da vida.
Esta dor de Maria, em primeiro lugar, deve servir de conforto àquelas almas que estão desoladas e não gozam a doce presença de seu Senhor, gozada em outros tempos. Chorem, sim, mas chorem com paz, como chorou Maria a ausência de seu Filho. Não temam por isso de terem perdido a divina graça, animando-se com o que disse Deus mesmo a Santa Teresa: “Ninguém se perde sem o conhecer; e ninguém fica enganado sem querer ser enganado”. Se o Senhor se ausenta dos olhos da alma que o ama, nem por isso se ausenta do coração. Esconde-se muitas vezes para ser por ela buscado com mais desejo e amor. Mas quem quer achar a Jesus, é preciso que o busque, não entre as delícias e os prazeres do mundo, mas entre as cruzes e mortificações, como o buscou Maria: “Nós Te andávamos buscando cheios de aflição”.
Além disso, neste mundo não devemos buscar outro bem senão Jesus. Jó não foi, por certo, infeliz quando perdeu tudo o que possuía neste mundo, até descer a um monturo. Porque tinha consigo Deus, também então era feliz. Verdadeiramente infelizes e miseráveis são aquelas almas que perderam a Deus. Se, pois, Maria chorou a ausência do Filho, quanto mais deveriam chorar os pecadores que perderam a divina graça, e aos quais Deus diz: “Vós não sois meu povo, e eu não serei mais vosso”.
Mas a maior desgraça para aquelas pobres almas, diz Santo Agostinho, é que, se perdem um boi, não deixam de procurá-lo; se perdem uma ovelha, não poupam diligência para achá-la; se perdem um jumento, não têm mais repouso; mas se perdem o sumo Bem, que é Deus, comem, bebem e ficam quietos. Ah, Maria, minha Mãe amabilíssima, se por minha desgraça eu também perdi a Jesus pelos meus pecados, rogo-vos, pelos méritos das vossas dores, fazei que eu depressa O vá buscar e O ache, para nunca mais tornar a perdê-Lo em toda a eternidade.

“Toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito”
Sumário. A profecia de São Simeão acerca da Paixão de Jesus e das dores de Maria começou desde logo a realizar-se na fugida que teve de fazer para o Egito, a fim de subtrair o Filho à perseguição de Herodes. Pobre Mãe! Quanto não devia ela sofrer tanto na viagem como durante a sua permanência naquele país entre os infiéis! Vendo a Sagrada Família na sua fugida, lembremo-nos que nós também somos peregrinos sobre a terra. Para sentirmos menos os sofrimentos do exílio, à imitação de São José tenhamos conosco no coração a Jesus e Maria.
Como cerva, que ferida pela flecha, aonde vai leva a sua dor, trazendo sempre consigo a flecha que a feriu; assim a divina Mãe, depois da profecia funesta de São Simeão, levava sempre consigo a sua dor com a memória contínua da paixão do Filho. Tanto mais, que aquela profecia começou desde logo a realizar-se na fugida que o Menino Jesus teve de fazer para o Egito, a fim de se subtrair à perseguição de Herodes: “Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe, e foge para o Egito.”
Que pena, exclama São João Crisóstomo, devia causar ao Coração de Maria, o ouvir a intimação daquele duro exílio com seu Filho! “Ó Deus”, disse então Maria suspirando, como contempla o Bem-aventurado Alberto Magno, “deve, pois fugir dos homens aquele que veio a salvar os homens?”
Cada um pode considerar quanto padeceu a Santíssima Virgem naquela viagem. A estrada, conforme à descrição de São Boaventura, era áspera, desconhecida, cheia de bosques, pouco frequentada, e sobretudo muito longa, de modo que a viagem foi ao menos de trinta dias. O tempo era de inverno; por isso tiveram de viajar com neves, chuvas e ventos, por caminhos arruinados cheios de lama, sem terem quem os guiasse ou servisse. Maria tinha então quinze anos, e era uma donzela delicada, não acostumada a semelhantes viagens. Que dó fazia ver aquela Virgenzinha com o Menino nos braços e acompanhada somente de São José!
Pergunta São Boaventura: “De que alimentavam-se? Onde passavam as noites?” E de que outra coisa podiam alimentar-se, senão de um pedaço de pão duro, trazido por São José, ou mendigado? Onde deviam dormir, especialmente no extenso deserto pelo qual deviam passar, senão sobre a terra, ao relento, com perigo de ladrões ou de feras em que abunda o Egito? Oh! Quem tivera encontrado aqueles três grandes personagens, por quem as haveria então reputado senão por três pobres mendigos e vagabundos?
Opina Santo Anselmo que os santos peregrinos no Egito habitaram a cidade de Heliópolis. Considere-se aqui a grande pobreza em que deviam viver nos sete anos que ali permaneceram, como afirma Santo Antônio com Santo Tomás e outros. Eram estrangeiros, desconhecidos, sem rendimentos, sem dinheiro, sem parentes. Como diz São Basílio, chegaram com dificuldade a sustentar-se com os seus pobres trabalhos. Escreve Landolfo de Saxônia (e isto seja dito para consolação dos pobres), que Maria se achava em tão grande pobreza, que algumas vezes não tinha nem sequer um pouco de pão, que o Filho lhe pedia, obrigado pela fome.
Ver assim Jesus, Maria e José andarem fugitivos, peregrinando por este mundo, ensina-nos que também devemos viver nesta terra como peregrinos, sem que nos apeguemos aos bens que o mundo oferece, pois que em breve os havemos de deixar e de ir para a eternidade: “Não temos aqui cidade permanente, mas procuramos a futura”. Demais, ensina-nos que abracemos as cruzes, já que neste mundo não se pode viver sem cruz. A Bem-aventurada Verônica de Binasco, Agostiniana, foi levada em espírito a acompanhar Maria com o Menino Jesus na viagem ao Egito, finda a qual lhe disse a divina Mãe: “Filha, acabas de ver com quantas fadigas chegamos a este país; sabe, pois, que ninguém recebe graças sem padecer.”
Quem deseja sentir menos os trabalhos desta vida, deve, à imitação de São José, tomar consigo Jesus e Maria: “Toma o Menino e sua Mãe”. A quem pelo amor traz no coração este Filho e esta Mãe, se lhe tornam leves, quiçá doces e estimáveis, todas as penas. Amemo-los, pois, e consolemos a Maria acolhendo o seu Filho dentro dos nossos corações, que ainda hoje é continuamente perseguido pelos homens com os seus pecados.

“Uma espada transpassará a tua alma”
Sumário. O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, a fim de que as tenhamos de sofrer uma só vez. Maria Santíssima, ao contrário, depois da profecia de São Simeão, tinha sempre diante dos olhos e padecia continuamente todas as penas que a esperavam na Paixão do Filho. Mas se Jesus e Maria inocentes tanto padeceram por nosso amor, como ousaremos lamentar-nos, nós que somos pecadores, quando temos de padecer um pouco por amor deles?
Neste vale de lágrimas, cada homem nasce para chorar e cada um deve padecer sofrendo aqueles males que diariamente lhe acontecem. Mas quanto mais triste seria a vida, se cada um soubesse também os males futuros que o têm de afligir! O Senhor usa esta compaixão conosco, de não nos deixar ver as cruzes que nos esperam, a fim de que, se as temos de padecer, ao menos as padeçamos uma só vez. Mas Deus não usou semelhante compaixão para com Maria, a qual, porque Deus quis que fosse Rainha das dores e toda semelhante ao Filho, teve sempre de ver diante dos olhos e de padecer continuamente todas as penas que a esperavam; e estas foram as penas da paixão e morte de seu amado Jesus.
Eis que no templo de Jerusalém, Simeão, depois de ter recebido o divino Infante em seus braços, lhe prediz que aquele seu Filho devia ser alvo de todas as contradições e perseguições dos homens e que por isso a espada de dor devia traspassar-lhe a alma: “Uma espada transpassará a tua alma”. Davi, no meio de todas as suas delícias e grandezas reais, quando ouviu que o Profeta Natan lhe anunciava a morte do filho, não tinha mais paz: chorava, jejuava, dormia à terra nua. Não é assim que fez Maria. Com suma paz recebeu Ela a nova da morte do Filho e com a mesma paz continuou a sofrê-la; mas ainda assim, que dor não devia sentir o seu Coração!
Nem serviu para lha mitigar o conhecimento que já de antemão tinha do sacrifício a fazer, pois que, como foi revelado a Santa Teresa, a bendita Mãe conheceu então em particular e mais distintamente todas as circunstâncias dos sofrimentos, tanto exteriores como interiores, que haviam de atormentar o seu Jesus na sua Paixão. Numa palavra, a mesma Bem-Aventurada Virgem disse a Santa Matilde, que a este aviso de São Simeão toda a sua alegria se converteu em tristeza.
A dor de Maria não achou alívio com o correr do tempo; ao contrário, ia sempre aumentando, à medida que Jesus, crescendo em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e junto dos homens, se tornava mais amável aos olhos de sua Mãe, e se avizinhava mais o tempo da sua amargosa Paixão. Eis o que a própria divina Mãe revelou a Santa Brígida:“Cada vez que eu olhava para meu Filho, sentia o meu coração oprimido de nova dor e enchiam-se meus olhos de lágrimas”. Ruperto abade contempla Maria dizendo ao Filho enquanto o alimentava: “O meu amado é para mim como uma bolsa de mirra, colocada sobre o meu peito”. Ah, Filho meu, eu te aperto entre meus braços porque muito te amo; mas quanto mais te amo, tanto mais para mim te transformas em ramalhete de mirra e de dor, pensando em tuas penas. Tu és a fortaleza dos Santos, e um dia entrarás em agonia; és a beleza do paraíso, e um dia serás desfigurado; és o Senhor do mundo, mas um dia serás preso como um réu; és o Criador do universo, mas um dia te verei lívido pelas pancadas; numa palavra, tu és o Juiz de todos, a glória dos céus, o Rei dos reis, mas um dia serás sentenciado, desprezado, coroado de espinhos, tratado como rei de escárnio e pregado num infame patíbulo. E eu, que sou tua Mãe, eu, que te amo mais que a mim mesma, terei de ver-te morrer de dor, sem te poder dar o menor alívio: “O meu amado é para mim um ramalhete de mirra”.
Se, pois, Jesus, nosso Rei, e Maria, nossa Mãe, bem que inocentes, não recusaram por nosso amor padecer durante toda a sua vida uma pena tão atroz, não é justo que nós nos lamentemos, se padecemos um pouco; nós que porventura muitas vezes temos merecido o inferno.


A Quaresma é o tempo favorável, o deserto espiritual onde acompanhamos Nosso Senhor em Seus quarenta dias de jejum e oração. No entanto, em 2026, o ritmo de vida parece lutar contra o silêncio necessário para esse período. Muitos fiéis sentem que, por causa do trabalho, dos estudos ou dos cuidados com a família, "não têm tempo" para um retiro em um mosteiro ou casa de oração.
A boa notícia é que a santidade não é exclusividade dos claustros. É possível transformar sua própria casa e sua rotina em um Retiro Quaresmal contínuo. Confira este guia prático para viver uma Quaresma profunda, mesmo com a agenda cheia.

O segredo para quem tem pouco tempo não é rezar "muito" de uma vez, mas rezar sempre.
O Ângelus: Reserve 2 minutos às 6h, 12h e 18h. Essa pausa santifica o dia e nos lembra da Encarnação.
O Santo Rosário Fracionado: Se não consegue rezar o Terço completo de uma vez, reze uma dezena pela manhã, outra no almoço e as demais ao longo do dia. O importante é não deixar a Virgem Maria sem essa rosa diária.
Exame de Consciência Noturno: Antes de dormir, dedique 5 minutos para repassar o dia, pedir perdão pelas faltas e agradecer as graças.

A Igreja nos pede jejum e abstinência, mas podemos ir além com os "sacrifícios ocultos", que são poderosos para domar a vontade.
Jejum Digital (Redes Sociais): Em 2026, o barulho do mundo está no nosso bolso. Experimente desinstalar apps de entretenimento ou definir um horário restrito (ex: apenas 15 minutos por dia). Ofereça esse "vazio" a Deus.
O Sacrifício do "Próximo Passo": Escolha a tarefa que você mais odeia fazer no trabalho ou em casa e faça-a primeiro, sem reclamar, por amor a Jesus.
Silêncio no Trajeto: Se você dirige ou usa transporte público, desligue a música ou o rádio. Use esse tempo para a oração mental ou apenas para ouvir a voz de Deus no silêncio.

Se você não tem horas para ler tratados de teologia, foque em textos que podem ser meditados em 10 minutos:
A Imitação de Cristo (Tomás de Kempis): Leia apenas um capítulo curto por dia. É o livro de cabeceira de quase todos os santos.
O Evangelho do Dia: Utilize um missal ou aplicativo católico para ler o Evangelho da Missa. Tente escolher uma frase e repeti-la mentalmente durante o dia.
As Glórias de Maria (Santo Afonso de Ligório): Perfeito para quem deseja crescer na devoção mariana durante a Quaresma.

Como ensinamos aqui no blog, o ambiente externo reflete o estado da alma.
O Altar Doméstico: Mantenha uma imagem de Nossa Senhora ou um Crucifixo em destaque. Coloque uma pequena toalha roxa para lembrar visualmente que estamos em tempo de penitência.
Música Sacra de Fundo: Enquanto faz as tarefas domésticas, substitua o barulho por Canto Gregoriano. Isso eleva o pensamento sem exigir esforço extra.
| Horário | Atividade | Duração |
| Manhã | Oferecimento do dia + 1 Dezena do Terço | 5 min |
| Almoço | Ângelus + Leitura de um parágrafo da Imitação de Cristo | 5 min |
| Tarde | Mortificação da vontade (não reclamar, evitar doces) | O dia todo |
| Noite | Restante do Terço em família + Exame de Consciência | 15-20 min |
"Não é a multidão das obras que agrada a Deus, mas o amor com que são feitas." — São Francisco de Sales.
Fazer um retiro em casa exige disciplina, mas os frutos de conversão são imensos. Que este tempo quaresmal, sob o manto de Maria e o mistério do Rosário, nos prepare verdadeiramente para a alegria da Ressurreição.