segunda-feira, 26 de setembro de 2022

NESSA SEMANA DE ELEIÇÕES…NOSSAS ÚLTIMAS ORAÇÕES

 

CAMPANHA DE ROSÁRIOS A N. SRA APARECIDA PELAS ELEIÇÕES NO BRASIL

Os destinos de uma nação dependem muito mais da vontade divina do que das urnas. Sabemos que o mundo é governado, em primeiro lugar, pela Divina Providência, e que nada acontece na vida dos homens sem que tenha sido vontade expressa de Deus, ou permissão divina. Você, católico, se esqueceu disso?

O estabelecimento do sufrágio universal como forma quase unânime da escolha dos governantes não é suficiente para eliminar a vontade divina como causa principal de uma eleição. Governa aquele que Deus escolheu para governar determinado povo. Se o governante for bom, terá sido escolhido por Deus por mérito do povo, ou para incentivar aqueles homens a serem bons; se for um mal governante, Deus o terá permitido para provar e fazer crescer os méritos daquela nação, ou para castigá-la por conta dos seus pecados. O voto é importante por ser o meio permitido por Deus para determinar a sua santa vontade. Vá às urnas para impedir a volta do comunismo, da corrupção, da mentira.

As provas da intervenção divina nos processos eletivos são inúmeras, e foram alcançadas por meio da oração e do Rosário de Nossa Senhora. A vitória de Lepanto contra a poderosa esquadra turca é um exemplo espetacular da oração do Terço, ordenado pelo Papa São Pio V. A mesma oração tantas vezes pedida por Nossa Senhora levou os franceses a expulsarem os protestantes que pretendiam mudar a religião do seu país, em La Rochelle. Assim também na Áustria e em outros lugares. Aqui no Brasil expulsamos os comunistas já implantados no poder com a oração do Terço, em 1964. Além disso, como devemos entender a morte de Tancredo Neves? A eleição de Fernando Collor contra Lula, ou a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018? Certamente houve nesses casos um querer divino. Infelizmente nosso Brasil não soube tirar proveito espiritual ou político daquelas intervenções divinas.

Os católicos devem compreender que, sem oração, não conseguiremos conter a campanha orquestrada para derrubar o Presidente Bolsonaro. No momento em que a campanha eleitoral entra em sua fase mais difícil, devemos dedicar um esforço real, um sacrifício de nossas vidas, dobrando nossos joelhos na oração. Que Nossa Senhora Aparecida e São Pedro de Alcântara, padroeiros do Brasil, venham em nosso socorro.

Oração diária do Rosário (3 Terços)

Pelo menos a oração diária do Terço, caso não conseguirmos – mesmo com o esforço proporcional – rezar o Rosário

ORAÇÃO PELAS ELEIÇÕES DE 2022 A NOSSA SENHORA APARECIDA

No momento em que o Brasil se encontra na encruzilhada que pode levá-lo de volta ao comunismo e à corrupção, nos prostramos aos vossos pés, ó Rainha do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e por estas humildes orações pedimos que intercedais junto ao vosso Filho pela nossa Pátria ameaçada. Queremos lembrar, ó Senhora, que um dia fostes coroada pela herdeira do trono do Brasil Império, a piedosa Princesa Isabel, a qual vos deixou por escrito este humilde pedido:

Eu, diante de vós, sou uma princesa da Terra, e me curvo, pois sois a Rainha do Céu. E eu vos dou tão pobre presente que seria uma coroa igual à minha. E se eu não me sentar no trono do Brasil, rogo que a Senhora se sente por mim, e governe perpetuamente o Brasil.

Atendei, Senhora, a este singelo pedido, livrando o Brasil dos terríveis inimigos que ameaçam a nossa Pátria e a nossa fé.

Invocamos, igualmente, nesse momento de grandes disputas rasteiras e humanas, a São Pedro de Alcântara, padroeiro do Brasil, pedindo que ensine ao povo brasileiro e a seus governantes a amarem e abraçarem a Cruz de Nosso Salvador na única fé católica, como ele mesmo a abraçou ao ser atraído a ela por cima do povo reunido.

Crux sancta sit mihi lux – que a Santa Cruz seja a minha luz.

Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós.

São Pedro de Alcântara, rogai por nós.

sábado, 24 de setembro de 2022

UM DIA TU TAMBÉM HÁS DE CRER

 

Pin on HistóriaUm jovem, cheio de vida e de ardor, esperava pelo trem que devia conduzi-lo à frente de combate.

Sua irmã, agarrada ao braço, com que não querer deixa-lo partir, murmurou ao ouvido:

– Tu me queres bem irmão?

– Podes duvidar disso?

– Então deves me fazer um favor; e não digas não.

– Que desejas, joaninha; farei tudo o que pedires; que queres?

– Quero pregar esta medalha de Nossa Senhora no forro do teu casaco e tu vais prometer-me que nunca a tirarás…nunca, entendestes?

– É só o que desejas? Sabes que não creio nessas superstições, mas para ver-te satisfeita…

–  Eu creio, que um dia também hás de crer.

O trem chegou. Um abraço, um beijo e o jovem soldado pulou para o vagão.

O comboio retomou o seu percurso…e desapareceu. A mocinha, com o coração a partir-se de dor, voltou para casa.

Um dia do mês de Agosto de 1916, os austríacos tomaram de assalto o território comandado pelo jovem capitão.

A maioria de seus soldados tombaram e ele de pé gritava animado: “Viva a Itália!”

E o combate continuou. Soldados corpo a corpo lutavam bravamente. O inimigo teve que fugir, mas o capitão foi atingido em pleno peito.

Correram em auxílio. Levaram-no para o hospital de sangue. Tiraram-lhe a farda para examinar o ferimento e com surpresa verificaram que o capitão não estava ferido.

– Milagre! Milagre! Gritaram os enfermeiro. Realmente, tratava-se de um fato extraordinário. A bala atingira a medalha, partindo-a ao meio. A farda apresentava queimaduras, mas o corpo do bravo militar não sofrera nenhum arranhão,

Poucos meses depois, o nosso capitão já promovido a major por mérito da guerra, sua irmã Joaninha, seus pais e alguns parentes estavam aos pés da Virgem, agradecendo juntos duas grandes graças: a de ter sido salvo da morte e a de estar completamente convertido.

Agora, como bom católico, acreditava em Deus e amava a Virgem que lhe fizera tanto bem.

Como Maria Santíssima é boa! – Frei Cancio Berri

Fonte:
http://catolicosribeiraopreto.com/

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

DEVER DE ESTADO OU DEVERES DE ESTADO

 

O que é esse “dever de estado” que frequentemente é objeto de nossos exames de consciência?

Fonte: Le Seignadou (set/22) – Tradução: Dominus Est

A expressão “dever de estado” não aparece no Evangelho, nem no restante das Sagradas Escrituras. Parece estar ausente dos escritos dos primeiros Doutores da Igreja para aparecer apenas muito tardiamente. Encontramo-la nos escritos de São Francisco de Sales, na Introdução à Vida Devota (especialmente nos capítulos 3 e 8 da primeira parte). Ou ainda no Catecismo de São Pio X: “Por deveres do próprio estado entendem-se aquelas obrigações particulares que cada um tem por causa do seu estado, da sua condição e da situação em que se acha. (…) Foi o mesmo Deus que impôs aos diversos estados os deveres particulares, porque estes derivam dos seus divinos Mandamentos. No quarto Mandamento, sob o nome de pai e mãe, entendem-se também todos os nossos superiores; assim deste Mandamento derivam todos os deveres de obediência, de amor e de respeito dos inferiores para com os seus superiores e todos os deveres de vigilância que têm os superiores sobre os seus inferiores.” (Catecismo de S. Pio X, 3º parte, capítulo 5)

O que pensar disso? O cumprimento do dever de estado é uma obrigação moral descoberta apenas mais tarde?

Uma expressão muito vaga

Na realidade, essa lenta e tardia aparição da palavra se deve à reviravolta da mentalidade do homem moderno. Mais ou menos marcado pela filosofia moderna que se afasta da realidade das coisas, o homem hoje prefere falar uma linguagem abstrata. Ele falará, portanto, do “dever do estado”, expressão geral que tem a vantagem muito interessante de permanecer vaga e confusa… e, portanto, não permitir identificar claramente qual é o dever envolvido. Portanto, como cumprir um dever do qual não conhecemos seus precisos contornos? Como saber se cumprimos nossa obrigação? A expressão “dever do estado”, por mais necessária que seja, não deixa de ser demasiado confusa.

Algumas luzes sobre o assunto serão encontradas quando soubermos que os Antigos, isto é, os escritores da antiguidade greco-romana, e também os primeiros Padres da Igreja, falaram em uma linguagem mais concreta. Seu realismo fazia com que evocassem os “deveres” (no plural) desta ou daquela profissão ou função na sociedade, ou seja, as atitudes moralmente boas a adotar em nesta ou naquela situação. Cícero, por exemplo, assim evoca o que se deve fazer para ser um homem honesto em seu tratado “De officiis”. Santo Ambrósio retomará esta ideia escrevendo “De officiis ministrorum”, enquanto a A Pastoral do Papa São Gregório Magno explica e detalha todos os deveres incumbidos a um Bispo ou a um Superior eclesiástico.

Mas quais são esses “deveres do estado”? Um “estado” é uma situação estável e permanente que afeta uma pessoa. Existem, de fato, vários “estados” e, por conseguinte, outros tantos deveres que lhes são inerentes. Assim, por exemplo, o mesmo homem é ao mesmo tempo criatura em relação a Deus, filho em relação aos pais, pai em relação aos filhos, empregado em relação ao seu patrão, cidadão em relação a sociedade em que vive, membro da Igreja em virtude de seu batismo, etc. Este homem terá, portanto, muitos deveres de estado: rogar a Deus, honrar seus pais, educar seus filhos, obedecer a seu chefe, tomar parte na vida da Igreja e da sociedade, e assim por diante. Encontra-se, além disso, no final de quase todas as epístolas de São Paulo, uma lista de vários conselhos e recomendações dirigidas a cada categoria de pessoas, e isso de acordo com seus respectivos deveres. “Vós, pois, como escolhidos de Deus, santos e amados, revesti-vos de entranhas de misericórdia, de benignidade, de humildade, de modéstia, de paciência; sofrendo-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se algum tem razão de queixa contra o outro; assim como o Senhor vos perdoou a vós, assim também vós (deveis perdoar aos outros).  Mas, sobretudo os fiéis devem viver para o céu. Sem honra, sem valor diante de Deus isto, tende caridade, que é o vínculo da perfeição; e triunfe em vossos corações a paz de Cristo, à qual também fostes chamados para (formar) um só corpo; e sede agradecidos. (…) Tudo o que fizerdes, em palavras ou por obras, (fazei) tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando por ele graças a Deus Pai. Mulheres, estai sujeitas a vossos maridos, como convém, no Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sejais ásperos para com elas. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que se não tornem pusilânimes. Servos, obedecei em tudo os vossos senhores temporais, não servindo só quando sob as (suas) vistas, como para agradar aos homens, mas com sinceridade de coração, temendo a Deus. Tudo o que fizerdes, fazei-o de boa vontade, como (quem o faz) pelo Senhor, e não pelos homens; sabendo que recebereis do Senhor a herança (do céu) como recompensa. Servi a Cristo SenhorAquele, pois, que cometer injustiça, receberá segundo o que fez injustamente; e não há acepção de pessoas diante de Deus (Col, 3,12-25)

Voltar ao real, ao concreto

Devemos então dizer “dever do estado” ou “deveres do estado”? Devemos usar o singular ou o plural nesse contexto? Pode parecer um pouco sem sentido ou inútil debater sobre o assunto… Mas, ao contrário, a questão é importante, não tanto por si mesma, mas por suas consequências. Por um lado, supomos que é mais fácil saber quais são os deveres dos Estados a cumprir quando os consideramos de forma concreta e no plural, do que permanecermos numa linguagem abstrata. Por outro lado, considerar uma ação concreta a ser tomada (rogar a Deus, educar os filhos, fazer o trabalho solicitado pelo patrão, etc.) permite também conhecer mais facilmente se deve agir. 

É a realidade tangível do ato a ser realizado que dita a forma pela qual ele é realizado. O cumprimento dos deveres de cada estado equivale, portanto, ao exercício das virtudes cristãs, que são elas mesmas o cumprimento do decálogo. É mais fácil perceber isso em um exemplo. Na confissão alguém pode acusar-se “por não ter cumprido seu dever de estado“. Fica muito vago… e pode facilmente corresponder a um aluno que não fez um exercício de matemática em aula, a um pai que não dedica tempo para educar seus filhos, ou mesmo a um empregado, que passa várias horas de seu tempo de trabalho em seu celular. A gravidade da ofensa a Deus nesses vários casos não é a mesma, é claro! 

Então, como pode a alma progredir na vida cristã e corrigir seus defeitos se não sabe claramente o que deve fazer e o que deve evitar? É aí que percebemos que há uma vantagem em conversar com ele(padres) sobre seus deveres na vida real, concreta, e sobretudo as virtudes a serem implementadas para cumprir essas obrigações. Com efeito, isso torna a vida moral mais entusiasmante ao apresentá-la em sua verdadeira luz: uma vida que nos conforma a Deus pela virtude; e não uma vida de obrigações do tipo protestante: “faça isso, não faça aquilo!”. 

Além disso, esta forma concreta de encarar as coisas também torna possível compreender com maior clareza o papel que assumimos na vida social. Contrariamente ao individualismo contemporâneo, o homem cristão recorda de que faz parte de um todo, da sociedade, da Igreja, e que deve participar em seu lugar na atividade desse todo. Os diferentes estados que afetam cada homem são as muitas funções que ele deve cumprir em relação aos outros. E está mais conforme à realidade considera-las como responsabilidades em vista um bem comum do que vê-las, simplesmente, apenas como imperativos morais.

São José, modelo de fidelidade aos seus deveres

O Papa São Pio X dirigiu uma oração a São José e na qual pedia-lhe a graça de bem cumprir seu dever de estado. O Santo Pontífice enumera, nessa ocasião, todas as virtudes e qualidades da alma que convém por em atividade a fim de cumprir as obrigações de maneira cristã. 

Glorioso São José, modelo de todos os que se dedicam ao trabalho, obtende-me a graça de trabalhar com espírito de penitência para expiação de meus numerosos pecados; de trabalhar com consciência, pondo o culto do dever acima de minhas inclinações; de trabalhar com recolhimento e alegria, olhando como uma honra empregar e desenvolver pelo trabalho os dons recebidos de Deus; de trabalhar com ordem, paz, moderação e paciência, sem nunca recuar perante o cansaço e as dificuldades; de trabalhar sobretudo com pureza de intenção e com desapego de mim mesmo, tendo sempre diante dos olhos a morte e a conta que deverei dar do tempo perdido, dos talentos inutilizados, do bem omitido e da vã complacência nos sucessos, tão funesta à obra de Deus!

Tudo por Jesus, tudo por Maria, tudo à vossa imitação, ó Patriarca São José! Tal será a minha divisa na vida e na morte. Amém.

Tudo é dito aqui. A fidelidade no cumprimento dos diversos deveres exigidos pelos diferentes Estados é a garantia da salvação. Com a condição de não submeter estes deveres, mas de vê-los em sua verdadeira luz: servir ao Bom Deus na caridade e honrá-Lo desenvolvendo os dons que Ele nos deu. Dessa forma, podemos ter um verdadeiro “culto do dever”, não por um bem próprio, mas porque é o Criador e o Redentor a quem, dessa forma, servimos. Ao chegar a noite de nossa vida, podemos então ouvir-nos dizer: “Está bem, servo bom e fiel, já que foste fiel em poucas coisas, dar-te-ei a intendência de muitas; entra no gozo do teu senhor. (Mt, 25, 21).

Pe. François Delmotte,FSSPX

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Nosso Senhor aparecendo um dia a Santa Teresa, coroado de espinhos

 


𝗡𝗼𝘀𝘀𝗼 𝗦𝗲𝗻𝗵𝗼𝗿 𝗮𝗽𝗮𝗿𝗲𝗰𝗲𝗻𝗱𝗼 𝘂𝗺 𝗱𝗶𝗮 𝗮 𝗦𝗮𝗻𝘁𝗮 𝗧𝗲𝗿𝗲𝘀𝗮, 𝗰𝗼𝗿𝗼𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗲𝘀𝗽𝗶𝗻𝗵𝗼𝘀.
A santa pôs-se a pranteá-lo. Disse-lhe, porém, o Senhor: Teresa, não te deves compadecer das feridas que me fizeram os espinhos dos judeus, apieda-te antes das chagas que me fazem os pecados dos cristãos.
- Reflexão:
Ah, espinhos cruéis, ingratas criaturas, por que atormentais de tal maneira o vosso Criador? Mas que adiante acusar os espinhos? diz Santo Agostinho. Eles foram instrumentos inocentes: nossos pecados, nossos maus pensamentos foram os espinhos cruéis que atravessaram a cabeça de Jesus Cristo. Cuidemos de purificarmos os nossos pensamentos cada vez mais com o auxílio da graça de Deus.
- Referência:
(Meditações sobre a Paixão de Cristo, por Santo Afonso)

"E as almas dos fiéis pela misericórdia de Deus descansem em paz! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!"
"Para Cristo,
por Maria,
em súplicas pelas
almas do purgatório".
🙏🏾
- Jesus e Maria eu vos amo, salvai almas!

terça-feira, 20 de setembro de 2022

O BREVE DE SÃO PIO X PELA BEATIFICAÇÃO DAS CARMELITAS MÁRTIRES DE COMPIÈGNE

 

Bem-aventuradas carmelitas mártires de Compiégne - 17 de julho

As dezesseis Carmelitas Descalças de Compiègne fazem parte daquele seleto grupo de católicos massacrados pelos revolucionários franceses em nome da liberdade, igualdade e fraternidade. O processo de beatificação dessas freiras foi iniciado sob Leão XIII e concluído sob Pio X, enquanto a maçônica Terceira República Francesa novamente travava uma amarga luta contra a Igreja. A beatificação foi celebrada em 27 de maio de 1906. Abaixo está a tradução de alguns trechos do Breve que foi lido por um cônego da Basílica Patriarcal do Vaticano durante a solene função.

Fonte: Radio Spada – Tradução: Dominus Est

Em algum momento faltaram heróis na Igreja e estes não eram apenas homens no auge de suas vidas, mas também mulheres, idosas e até mesmo tenras crianças, que em meio a atrozes tormentos encontraram a morte e deram testemunho da fé cristã. E isso não apenas nas regiões bárbaras, onde os pregadores do Evangelho se esforçam para atrair à verdade os homens que estão trevas e na sombra da morte, mas também entre os povos civilizados e civilizações opulentas. De fato, o odioso inimigo da humanidade, excita e move, em toda parte o ódio do povo contra os discípulos de Cristo. Assim, no final do século XVIII, Paris, na perturbanção geral dos assuntos divinos e humanos, tingiu-se com o fecundo sangue dos mártires. De fato, cresciam cada vez mais os insultos lançados contra a Igreja em nome da liberdade, e sob um regime de terror, toda dignidade pública da religião católica foi removida, os altares foram profanados, sacerdotes e piedosas virgens enclausurados, cidadãos de todas as ordens foram colocados em perigo de vida e miseravelmente assassinados. 

Entre as vítimas desta extraordinária crueldade destacaram-se pelo admirável exemplo dado, dezesseis freiras da Ordem das Carmelitas Descalças, que já haviam sido arrancadas à força do convento de Compiègne, e sofreram uma morte sangrenta por sua constância na fé e nos votos religiosos. As veneráveis ​​servas de Deus, cujo último suplício aumentou o esplendor da Igreja e imprimiu uma mancha indelével aos juízes, foram: Teresa de Santo Agostinho, Maria Francisca de São Luís, Maria de Jesus Crucificado, Maria da Ressurreição, Eufrásia da Imaculada Conceição, Gabriella Enrica de Jesus, Teresa do Santíssimo Coração de Maria, Maria Gabriella de Santo Ignácio, Julia Luisa de Jesus, Maria Enrica da Providência, Maria do Espírito Santo, Maria de Santa Marta, Stefania Giovanna de São Francisco Xavier, Costanza Meunier, Caterina e Teresa Soiron, irmãs alemãs…

Essas veneráveis ​​servas de Deus, decoro e adorno de toda a Ordem sagrada à Virgem Mãe de Deus do Monte Carmelo… quando aquela fúria selvagem contra o nome cristão chegou ao nível máximo, virgens mansas e inocentes, no mês de junho de 1794 foram capturadas e jogadas na prisão. O que as encheu de grande alegria, de fato, por mais uma vez unidas, foram presas como no mosteiro e ali, exercendo tanto quanto possível sua piedade, animaram-se mutuamente para o martírio. De lá, de fato, não muito tempo depois, em 12 de julho, eles foram levadas a Paris. É doloroso dizer o quanto essas mulheres foram atormentadas na longa jornada. Carregadas em carroças desconfortáveis, com as mãos amarradas às costas, cercados por homens armados e forçadas a suportar os insultos e o escárnio da multidão, elas desfrutavam apenas de um consolo: que oferecendo a Deus suas orações, se ofereciam em holocausto. Quando chegaram a Paris, capital da França, foram novamente trancadas em uma horrenda prisão, novamente forçadas a amargos assédios, fome, sede, ar pesado e fétido e à companhia de homens maus. Mas as heroicas filhas do Carmelo não desanimaram nem perderam a força, pois em 16 de julho, véspera de seu suplício, celebram a festa de Nossa Senhora do Carmelo com efusões de alegria, de modo que aos profanos elas pareciam preparar-se mais para as bodas do que para morte. No dia seguinte, levadas a julgamento, sem testemunhas ou defensores, num julgamento improvisado e malfeito, foram condenadas à morte, culpadas apenas por terem permanecido fiéis ao seu instituto e por terem, com notável devoção, venerado o Sacratíssimo Coração de Jesus. Quando a sentença foi publicada, foi incrível o quanto as freiras se regozijaram por estarem prestes a receber a coroa do martírio.  O caminho do tribunal ao local da execução teria sido considerado o caminho do triunfo: de fato, as carmelitas, em profundo silêncio, no meio da multidão, andavam com rostos felizes e alegres, gratas a Deus por tantos benefícios.

Quando, de fato, elas vêem a guilhotina, emitem suas vozes, que se juntariam aos coros dos anjos, e com máximo fervor cantam o hino de invocação ao Paráclito. Assim, a Superiora, Teresa de Santo Agostino, imitando o exemplo dos Macabeus, implora para que seja a última a colocar a cabeça sob a lâmina para encorajar as outras sentenciadas. E assim, aquelas delicadas flores, perfumadas de todas as virtudes, foram guilhotinadas uma a uma pelo carrasco e, tendo derramado o nobre sangue, como suplicou Teresa, encontraram junto ao Altíssimo, graça para os franceses. Poucos dias depois, de fato, aquela voluptuosidade desenfreada do massacre diminuiu consideravelmente e o sangue com a qual os ímpios inundaram aquela nobre região, deixou de correr. 

A fama de tão glorioso martírio, espalhada por toda parte, lançou uma nova luz em razão dos sinais celestes. Portanto, tendo as investigações jurídicas desta causa sido felizmente concluídas, foram levadas à Sagrada Congregação dos Ritos… Nós, por meio do decreto da ja mencionada Sagrada Congregação de Ritos, dado em 24 de junho de 1905, dia sagrado ao Precursor, declaramos ciência do martírio e dos milagres que o ilustraram. Restava apenas saber, como os Veneráveis ​​Nossos Irmãos Cardeais da Santa Igreja Romana, membros da mencionada Sagrada Congregação dos Ritos pediram, se dada a aprovação do martírio, confirmada e ilustrada por Deus com vários sinais e milagres, poderiam seguramente proceder à beatificação das Veneráveis ​​Servas de Deus. Esta dúvida foi proposta por Nosso Venerável Irmão Vincenzo Vannutelli, Cardeal da Santa Igreja Romana e Bispo de Palestrina, Relator da causa, na assembléia geral realizada em nossa presença no último dia 14 de novembro, e todos os presentes, os Cardeais e os Consultores da Sagrada Congregação dos Ritos responderam com um voto afirmativo. De fato, consideramos necessário repetir orações a Deus para obter Dele ajuda Celestial a nós, em um caso de tamanha importância. Finalmente, em 10 de dezembro do ano passado, dia em que a Igreja celebra a Translação da Alma Casa Lauretana (Alma Domo Lauretana) da Bem-Aventurada Virgem Maria, foi celebrado o Sacrifício Eucarístico, com a presença de nosso amado Filho, Luigi Tripedi, Cardeal Diácono da Santa Igreja Romana e Prefeito da Sagrada Congregação dos Ritos, e o já mencionado Venerável Nosso Irmão Cardeal da Santa Igreja Romana Vincenzo Vannutelli, e também o Venerável Irmão Diomede Panici, Arcebispo de Loadicea, Secretário da mesma Congregação, e o Revmo. Pe. Alessandro Verde, Promotor da Fé, declaramos que poderíamos proceder com segurança à solene beatificação das Veneráveis Servas de Deus …

Nós, movidos pelas orações do nosso amado Filho Francesco Maria Beniamino Richard, Cardeal da Santa Igreja Romana, Arcebispo de Paris, e dos Veneráveis ​​Irmãos Arcebispos e Bispos das dioceses a que pertenciam as mencionadas Veneráveis ​​Servas de Deus, e ainda de toda a Família dos Carmelitas Descalços, por Nossa Autoridade Apostólica, em virtude destas cartas, damos a faculdade de chamar Beata: Teresa de Santo Agostinho, Maria Francisca de São Luís, Maria de Jesus Crucificado, Maria da Ressurreição, Eufrásia da Imaculada Conceição, Gabriella Enrica de Jesus, Teresa do Santíssimo Coração de Maria, Maria Gabriella de Santo Inacio, Julia Luisa de Jesus, Maria Enrica da Providência, Maria do Espírito Santo, Maria de Santa Marta, Stefania Giovanna de São Francisco Xavier, Costanza Meunier, Catherine e Teresa Soiron, irmãs alemãs da Ordem das Carmelitas Descalças; e que seus corpos e relíquias sejam oferecidos à veneração pública dos fiéis; e suas imagens sejam decoradas com os raios sagrados. Além disso, pela nossa mesma autoridade, concedemos que o Ofício e a Missa das Virgens Mártires sejam recitados com orações próprias aprovadas por nós, de acordo com as rubricas do Missal Romano e do Breviário. A recitação deste ofício que concedemos seja feita dentro dos limites das dioceses de Paris e Beauvais, e nas igrejas dos Irmãos e Irmãs da Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, que são chamados Descalços…

Dado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, em 13 de maio de 1906, terceiro ano de Nosso Pontificado. 

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O TRECHO DA EXECUÇÃO DAS FREIRAS PODE SER VISTO ABAIXO

E O FILME COMPLETO AQUI:

sábado, 17 de setembro de 2022

Martírio de Maria Santíssima ao pé da Cruz

 Maria aos pés da Cruz

Stabat autem iuxta crucem Iesu mater eius – “Estava ao pé da cruz de Jesus, sua Mãe” (Jo 19, 25)

Sumário. Do martírio de Maria sobre o Calvário, não é necessário dizer outra coisa senão o que diz São João: contempla-a vizinha à cruz à vista de Jesus moribundo, e depois, vê se há dor semelhante a sua dor. O que mais atormentou a nossa Mãe dolorosa, foi o ver que ela mesma com sua presença aumentava as aflições do Filho e que para grande parte dos homens o sangue divino seria causa de maior condenação. Se Jesus e Maria, apesar de inocentes, sofreram tanto por nosso amor, a nós, que merecemos mil infernos, não desagrade sofrer alguma coisa por amor deles e em satisfação por nossos pecados.

I. Admiremos uma nova espécie de martírio; uma Mãe condenada a ver morrer diante de seus olhos, no meio de bárbaros tormentos, um Filho inocente e amado com todo o afeto. Estava ao pé da cruz (de Jesus) sua Mãe. Como se São João dissesse: Não é necessário dizer outra coisa do martírio de Maria: contempla-a vizinha à cruz, à vista do Filho moribundo, e depois vê se há dor semelhante à sua dor.

Mas para que servia, ó Senhora, lhe diz São Boaventura, ires ao Calvário? Devia reter-vos o pejo, pois que o opróbrio de Jesus foi também o vosso, sendo vós sua mãe. Ao menos devia reter-vos o horror de tal delito, como ver um Deus crucificado pelas suas mesmas criaturas. Mas responde o mesmo Santo: Non considerabat cor tuum horrorem, sed dolorem. Ah! O vosso Coração não pensava no seu próprio sofrimento, mas na dor e na morte do amado Filho, e por isso, quisestes vós mesma assistir-Lhe, ao menos para Lhe mostrar a vossa compaixão.

Oh Deus! Que espetáculo doloroso era ver o Filho agonizante sobre a cruz e, ao pé da cruz, ver agonizar a Mãe, que sofria no coração todas as penas que o Filho padecia no corpo! – Eis aqui como a mesma Bem-aventurada Virgem revelou a Santa Brígida o estado lastimoso do seu Filho moribundo, conforme ela o presenciou:

“Estava meu amado Jesus na cruz, todo aflito e agonizante; os olhos estavam encovados e meio fechados e amortecidos; os lábios pendentes e a boca aberta; as faces descarnadas, pegadas aos dentes e alongadas; afilado o nariz, triste o rosto; a cabeça pendia-lhe sobre o peito; os cabelos estavam negros de sangue, o ventre unido aos rins; os braços e as pernas inteiriçadas e todo o resto do corpo coalhado de chagas e de sangue.”

Ó pobre de meu Jesus! Ó martírio cruel para o coração de uma mãe!

II. Quem se achasse então sobre o Calvário, diz São João Crisóstomo, teria visto dois altares, nos quais se consumavam dois grandes sacrifícios: um no corpo de Jesus, outro no coração de Maria. Mas melhor me parece, com São Boaventura, considerar ali um só altar, isto é, só a cruz do Filho, no qual, juntamente com a vítima do Cordeiro divino, é sacrificada também a Mãe. Por isso o Santo pergunta-lhe assim: O Domina, ubi stas? – “Ó Maria, onde estais?” Junto à cruz? Ah! Mais exatamente direi que estais na mesma cruz, a sacrificar-vos, crucificada juntamente com Jesus.

O que mais afligia a nossa Mãe dolorosa, era o ver que ela mesma, com a sua presença, aumentava as aflições do Filho, porquanto, como diz o mesmo santo Doutor, a mesma pena que enchia o Coração de Maria, transbordava para amargurar o Coração de Jesus; e Jesus padecia mais pela compaixão da Mãe, do que pelas suas próprias dores. Acresce que, lembrando-se Maria da profecia de Simeão, já desde então previu que os padecimentos de Jesus Cristo seriam, pela culpa dos homens, inúteis para grande parte deles, e ainda mais, causa de maior condenação: Ecce positus est hic in ruinam et resurrectionem multorum (1) – “Eis que este é posto para ruína e ressurreição de muitos”.

Roguemos à nossa divina Mãe, pelos merecimentos desta sua dor, que nos obtenha verdadeira dor dos nossos pecados e verdadeira emenda de vida, zelo fervoroso pela salvação das almas e uma terna compaixão dos sofrimentos de Jesus Cristo e pelas suas próprias dores. Se Jesus e Maria, apesar de tão inocentes, quiseram sofrer alguma coisa por amor deles. Por isso digamos com São Boaventura:

“Ó Maria, se no passado vos ofendi, vingai-vos agora ferindo-me o coração; se vos servi fielmente, também outra recompensa não vos peço, senão que me firais. Demais indecoroso seria para mim ficar ileso, ao passo que Vos vejo repletos de dores, a vós e a meu Senhor Jesus Cristo.”

Poenas mecum divide – “Reparti comigo as penas”.

Referências:
(1) Lc 2, 34

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 74-76)

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

HÁ UM CORAÇÃO QUE BATE

 

C’è un cuore che batte.

Fonte: Radio Spada – Tradução: Dominus Est

A lei húngara que obriga os médicos a fazer as mulheres que estão prestes a recorrer ao aborto à ouvir os batimentos cardíacos do feto suscitou reações diversas.

Em breve isso acontecerá também na Itália ”, alguns já temem. Talvez…e seria apenas uma gota no mar do mal sobre o qual flutua o aborto estatal: mas nossas feministas podem ficar tranquilas, pois Giorgia Meloni(*) declarou repetidamente que não quer tocar na lei 194 (da Italia), e o mesmo acontece com Matteo Salvini(*) (que, pelo menos, deu crédito às atividades dos Centros de Ajuda à Vida que, desde 1978, salvaram 240.000 crianças e tantas mães do aborto, muitas vezes com meios muito limitados e graças apenas e somente ao voluntariado). Não se preocupe, portanto: aqueles que são majoritariamente suspeitos de querer fazer algo para proteger os nascituros lavaram serenamente as mãos.

Mas voltemos a nós: se um coração bate, qual é o problema?

Os que falam em “crueldade” ao ouvir os batimentos cardíacos e apresentar as funções vitais do nascituro, o que quer exatamente? Existem duas hipóteses: a) a mãe que pede o aborto não sabe o que está fazendo e poderia, assim, ter consciência do ato; b) a mãe que pede o aborto sabe exatamente o que está fazendo e “ter a certeza” da vida do nascituro poderia torná-la plenamente consciente das implicações morais de seu gesto. Em ambas as hipóteses, o problema é, na realidade, apenas um e é chamado de consciência, que é o que nos distingue dos animais.

Toda a ideologia abortista ataca e fere a mulher nas profundezas de sua natureza, faz dela algo que ela não é e as mães que caíram na armadilha do aborto estão bem cientes disso: trata-se de uma mentira oculta pelo medo e que emerge tremendamente no momento em que medo se dissolve. Ora, não permitir que a gestante tome plena consciência da humanidade do concebido, do ser semelhante a ela, mas completamente indefeso, é um ataque violentíssimo à dignidade da mulher: significa escondê-la da realidade, tratando-a como uma pessoa inapta a entender o significado de suas próprias ações.

A mais sentimental ou motivacional propaganda feminista não pode silenciar a voz profunda e natural da consciência de uma mãe que a adverte que matar seu filho é algo maligno e não há justificativa para tal. A consciência de uma mãe é sã, é profunda, pode-se dizer que é inervada em cada fibra da mulher e não tolera, uma vez questionada, ser iludida, enganada, distraída. A consciência de uma mãe não é como a do médico abortista, que sabe bem que há um coração batendo e ainda assim usa o aspirador, destrói o feto e espera o salário no final do mês: esse coração não está no ventre do abortista, não faz a menor parte de sua história.

A mãe sabe que o bebê lhe é confiado para proteção, não para propriedade; a criatura que ela carrega em seu ventre não está sob seu poder, mas sob sua responsabilidade. E em uma cultura que precisamente vive fugindo, a uma velocidade autodestrutiva, da responsabilidade, o batimento cardíaco de um ser humano minúsculo e indefeso é um rugido que varre décadas de artigos de jornais, filmes, transmissões, “soubrettes”, aparições de variados e improváveis personagens.

O batimento cardíaco é a voz do bebê e fala imediatamente à sua mãe: que toda mãe possa ouvi-lo, para reconhecer o maior amor de sua vida. E que ele também seja ouvido por aqueles que, nos corredores da política, da justiça, da ciência, da medicina, têm o poder – e o dever – de proteger a vida do menor entre os menores.

Massimo Micaletti

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Jesus tratado como o último dos homens

 Jesus desprezado

Vidimus eum… despectum et novissimum virorum – “Vimo-Lo… feito um objeto de desprezo e o último dos homens” (Is 53, 3)

Sumário. Considera a grande maravilha que se viu um dia na terra: o Filho de Deus, feito homem por amor dos homens, foi desprezado por estes mesmos homens, como se fosse o mais vil de todos, e tratado como doido, bêbado, blasfemador e réu de mil mortes. Meu irmão, representemo-nos bem vivamente o nosso maltratado Senhor: demos-Lhe graças pelo muito que por nós sofreu, consolemo-Lo com nosso arrependimento das injúrias que Lhe fizemos, e digamos-Lhe que por seu amor queremos de hoje em diante suportar com resignação as dores, as humilhações e os desprezos.

I. Eis a grande maravilha que se viu um dia no mundo: o Filho de Deus, o Rei do céu, o Senhor do universo, foi desprezado como o mais vil de todos os homens. Afirma Santo Anselmo que Jesus Cristo quis ser desprezado e humilhado nesta terra a tal ponto, que os desprezos e as humilhações que sofreu não podiam ser maiores. – Foi tratado como homem de baixa condição: Não é Ele porventura filho de um carpinteiro? (1) Foi desprezado por causa da sua terra: Pode vir de Nazaré alguma coisa boa? (2) Foi tido por doido: Perdeu o juízo, porque o estais ouvindo? (3) Foi tido por glutão e amigo do vinho: Vejam o homem glutão, que bebe vinho (4). Por feiticeiro: É pelo poder do príncipe dos demônios que Ele expulsa os demônios (5). Por herege: Não dizemos nós bem que és samaritano? (6)

As maiores injúrias, porém, Lhe foram feitas durante a sua Paixão; e particularmente durante a noite em que foi preso pelos Judeus. Quando Jesus declarou ser Filho de Deus, o ímpio Caifás, tratando-O de blasfemo, disse aos demais sacerdotes: “Blasfemou: que necessidade temos agora de testemunhas? Vós mesmos ouvistes a blasfêmia. Que vos parece?” E eles responderam: “É réu de morte.” (7) Então, assim continua o Evangelista, cuspiram-Lhe na face, e o feriram a punhadas, e tratando-o como falso profeta, disseram: “Advinha, Cristo: quem é que te bateu?” (8)

Numa palavra, foi então que se realizou a profecia de Isaías: “Entreguei o meu corpo aos que me feriam, e minhas faces aos que me arrancavam os cabelos da barba; não virei o rosto aos que me afrontavam e cuspiam em mim.” (9) – No meio de tantas ignomínias que nosso Salvador sofreu naquela noite, sua dor foi ainda aumentada pela injúria que Lhe fez Pedro, seu discípulo, renegando-o três vezes, e jurando que nunca o tinha conhecido.

II. Almas devotas, vamos a visitar o nosso Salvador aflito naquele cárcere, onde se acha abandonado de todos, tendo por única companhia os seus inimigos, que porfiam em escarnecê-Lo. Agradeçamos-Lhe o muito que por nós sofreu com tamanha paciência, e consolemô-Lo com nosso pesar das injúrias que Lhe fizemos, visto que no passado nós também fomos do número daqueles que O desprezaram e pelo pecado negamos conhecê-Lo.

Ó meu amável Redentor, quisera morrer de dor ao pensar que amargurei tanto o vosso Coração que tanto me amou. Por piedade, esquecei os desgostos que Vos dei, e lançai sobre mim um olhar de amor, assim como o lançastes sobre Pedro depois da sua renegação; desde então até ao fim de sua vida ele nunca mais deixou de chorar o seu pecado. Ó grande Filho de Deus, ó amor infinito, Vós que sofrestes por esses mesmos homens que Vos odeiam e maltratam; Vós sois o objetivo da adoração dos anjos, a majestade infinita, e seria uma honra bem grande para os homens, se os admitísseis a beijar-Vos os pés. Mas, ah, céus, como é que naquela noite quisestes fazer-Vos ludibrio de uma multidão infame?

Ó meu desprezado Jesus, deixai-me ser desprezado por vosso amor. Como poderei recusar os desprezos, vendo que Vós, meu Deus, sofrestes tantos por meu amor? Ah, Jesus crucificado, fazei-Vos conhecer e fazei-Vos amar; fazei também que eu sempre tenha na mente a vossa Paixão. – Oh céus! Que pena não sofrerão os réprobos no inferno, vendo o muito que o Senhor sofreu para os salvar e que, não obstante isto, se quiseram perder! Meu Jesus, não permitais que eu seja do número daqueles infelizes. Não, nunca mais quero esquecer-me do amor que me mostrastes sofrendo por mim tantas penas e ignomínias. Ajudai-me a amar-Vos e a lembrar-me sempre do amor que me haveis tido. – Ó minha Mãe dolorosa, Maria, peço-vos a mesma graça.

Referências:
(1) Mt 13, 55
(2) Jo 1, 46
(3) Jo 10, 20
(4) Lc 7, 34
(5) Mt 9, 34
(6) Jo 8, 48
(7) Mt 26, 65-66
(8) Mt 26, 68
(9) Is 50, 6

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 71-73)