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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Conselhos de Santa Teresa para a oração




1. Dirige a Deus cada um dos teus atos; oferece-os e pede-Lhe que seja para Sua honra e glória.

2. Oferece-te a Deus cinquenta vezes por dia, e que seja com grande fervor e desejo de Deus.

3. Em todas as coisas, observa a providência de Deus e Sua sabedoria, em tudo, envia-Lhe o teu louvor.

4. Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandone nem as obras de oração, nem a penitência a que está habituado. Antes, intensifica-as, e verá com que prontidão o Senhor te sustentará.

5. Nunca fale mal de quem quer que seja, nem jamais escute. A não ser que se trate de ti mesmo. E terá progredido muito, no dia em que se alegrar por isso.

6. Não diga nunca, de você mesmo, algo que mereça admiração, quer se trate do conhecimento, da virtude, do nascimento, a não ser para prestar serviço. Mas então, que isso seja feito com humildade, e considerando que esses dons vêm pelas mãos de Deus.

7. Não veja em você senão o servo de todos, e em todos contempla Cristo Nosso Senhor; assim O respeitará e O venerará.

8. A respeito de coisas que não lhe diz respeito, não se mostre curioso, nem de perto, nem de longe, nem com comentários, nem com perguntas.

9. Mostrai sua devoção interior só em caso de necessidade urgente. Lembra do que diziam São Francisco e São Bernardo: “Meu segredo pertence a mim”.

10. Cumpra todas as coisas como se Sua Majestade estivesse realmente visível; agindo assim, muito ganhará a sua alma.

11. Que seu desejo seja ver Deus. Seu temor, perdê-Lo. A dor, não comprazer na Sua presença, a satisfação, o que pode conduzi-lo a Ele. E viverá numa grande paz.

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terça-feira, 19 de novembro de 2019

O poder imenso da vida contemplativa





Dez mil hereges, no dizer de uma revelação respeitável, foram convertidos por uma só oração inflamada da seráfica santa Teresa, cuja alma ardendo em amor de Cristo não podia compreender uma vida contemplativa, uma vida interior que se desinteressasse das solicitudes apaixonadas do Salvador pela redenção das almas. 

'Aceitaria o purgatório, diz ela, até ao juízo final, para livrar uma só dessas almas. E que me importaria a duração dos meus sofrimentos, se assim pudesse livrar uma só alma e sobretudo muitas para maior glória de Deus!' E, dirigindo-se às suas religiosas: 'Dirigi para este fim inteiramente apostólico, minhas filhas, vossas orações, vossas disciplinas, vossos jejuns, vossos desejos'.


Tal é, com efeito, a obra das Carmelitas, das Trapistas, das Clarissas. Vede-as seguir a marcha dos apóstolos, alimentá-los com a superabundância de suas orações e de suas penitências. Suas súplicas precipitam-se do alto, num espaço tão dilatado como a marcha da cruz e o brilho do Evangelho, sobre as almas, essas presas divinas! Ou antes, é seu amor oculto, mas activo, que excita por toda parte, no mundo dos pecadores, as vozes de misericórdia.

Ninguém conhece neste mundo o porquê dessas conversões longínquas de pagãos, da paciência heróica desses cristãos perseguidos, da alegria celeste desses missionários martirizados. Tudo isso está invisivelmente ligado à oração de alguma humilde freira. Com os dedos sobre o teclado dos perdões divinos e das luzes eternas, sua alma silenciosa e solitária preside à salvação das almas e às conquistas da Igreja.

Dom J. B. Chautard in 'A alma de todo apostolado' (Edit. Colecção, São Paulo, 1962, pp., 53-54)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Santa Teresa de Ávila fala sobre a Presença Real



Conheço uma pessoa a quem o Senhor deu uma fé tão forte, que quando ouvia alguém dizer que gostava de ter vivido na época em que Cristo, o nosso Bem, estava neste mundo, se ria consigo mesma. Dado que O possuímos, pensava ela, no Santo Sacramento de um modo tão verdadeiro como naquele tempo, que mais podemos desejar? E deitava-se a Seus pés; aí chorava em companhia de Maria Madalena, como se O tivesse visto com os olhos do corpo em casa do fariseu (Lc 7, 36ss). Mesmo quando não sentia devoção, a fé dizia-lhe que Ele estava verdadeiramente ali.

Com efeito, seria preciso ser-se mais estúpido do que se é e cegar-se voluntariamente para sentir a menor dúvida quanto a isto. Não se trata aqui de um trabalho da imaginação, como quando pensamos no Senhor na cruz ou em qualquer outra circunstância da Sua Paixão; aí representamos a coisa em nós mesmos, tal como ela se passou. Aqui, ela tem realmente lugar; é uma verdade certa, e não é necessário ir procurar o Senhor noutro sítio, bem longe de nós. 

Com efeito, sabemos que enquanto a matéria do pão não for consumida pelo calor natural do corpo, o bom Jesus está em nós; consequentemente, aproximemo-nos d'Ele. Quando Ele estava neste mundo, o simples contacto das Suas vestes curava os doentes; por que duvidar, se temos fé, de que Ele continua a fazer milagres quando está tão intimamente unido a nós? Por que não nos daria Ele aquilo que Lhe pedimos, uma vez que está na nossa própria casa?

in 'O Caminho da perfeição', 34/36

sábado, 2 de junho de 2018

O dia em que Santa Teresa D’Ávila venceu o demônio com o poder da água benta

“A partir de muitos fatos, obtive a experiência de que não há coisa de que os demônios fujam mais, para não mais voltar, do que da água benta."

Santa Teresa D’Ávila é uma religiosa, mística e Doutora da Igreja do século XVI, que em suas memórias relatou como, após uma longa experiência, aprendeu que “não há coisa de que os demônios fujam mais, para não mais voltar, do que a água benta”.
O que não é tão conhecido são as experiências que a levaram a essa conclusão, que a santa descreve em sua autobiografia, o “Livro da vida”.
“Eu estava certa vez num oratório e me apareceu, do lado esquerdo, uma figura abominável; percebi especialmente a boca, porque falava: era horrível. Parecia que lhe saía do corpo uma grande chama, muito clara, sem nenhuma sombra. Disse-me, aterrorizando-me, que eu me livrara de suas garras, mas que voltaria a elas”, revelou Santa Teresa no início do capítulo 31 de sua obra.
Em seguida, assustada, tentar espantá-lo com o sinal da Cruz. O demônio a abandonou, mas logo voltou. Isso aconteceu várias vezes, até que notou que tinha água benta perto: “Isso me aconteceu por duas vezes. Não sabendo o que fazer, peguei da água benta que ali havia e lancei-a para onde essa figura se encontrava. Ela nunca mais voltou”.
Em outro momento, Santa Teresa escreveu que o demônio esteve cinco horas a atormentando “com dores e desassossegos interiores e exteriores tão terríveis que pensei não poder suportar. As pessoas que estavam comigo ficaram espantadas e não sabiam o que fazer, nem eu a que recorrer”.
A santa admitiu que só encontrou alívio depois de pedir água benta e jogá-la no local onde viu um demônio perto. É na explicação desse fato que é dada a conhecer a sua citação mais famosa.
“A partir de muitos fatos, obtive a experiência de que não há coisa de que os demônios fujam mais, para não mais voltar, do que da água benta. Eles também fogem da cruz, mas retornam. Deve ser grande a virtude da água benta”, assinalou.
Mais tarde, assegurou que conheceu o consolo da alma depois de tomar a água, o que lhe gerou “uma espécie de deleite interior” que a confortava.
“Não se trata de ilusão nem de coisa que só aconteceu uma vez, mas sim de algo frequente que tenho observado com cuidado. Digamos que seja como se a pessoa estivesse com muito calor e sede e bebesse um jarro de água fria, sentindo todo o seu corpo refrescar. Penso em quão importante é tudo o que a Igreja ordena, e alegra-me muito ver que tenham tanta força as palavras que comunica à água benta para que esta fique tão diferente da comum”, continuou.
Santa Teresa D’Ávila conta muitas outras histórias sobre o poder da água bento no restante do capítulo.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Lembremo-nos sempre do amor de Cristo


Das Obras de Santa Teresa de Jesus, virgem
(Opusc. De librovitae, cap.22,6-7.14)
(Séc.XVI)

Com tão bom amigo presente, com tão esforçado chefe, tudo se pode sofrer. Serve de ajuda e dá reforço; a ninguém falta. É amigo verdadeiro. Sempre tenho visto claramente que, para contentarmos a Deus e para que nos faça ele mercês, quer que seja por intermédio desta humanidade sacratíssima, na qual declarou Sua Majestade ter posto suas complacências.

É o que muitíssimas vezes e muito bem tenho visto por experiência, e também mo disse o Senhor. Tenho compreendido claramente que por esta porta havemos de entrar, se quisermos que nos mostre grandes segredos a soberana Majestade. De modo que não se queira outro caminho, ainda que se esteja no cume da contemplação. Por aqui se vai seguro. É por meio deste Senhor nosso que nos vêm todos os bens. Ele ensinará o caminho: contemplemos sua vida, porque não há modelo melhor.

O que mais queremos, do que ter a nosso lado tão bom amigo, que não nos deixará nos trabalhos e nas tribulações, como fazem os amigos deste mundo? Bem-aventurado quem o amar de verdade e sempre o trouxer junto de si. Olhemos o glorioso São Paulo de cujos lábios, por assim dizer, não saía senão o nome de Jesus, tão bem gravado o tinha no coração. Desde que entendi isto, tenho considerado atentamente alguns santos, grandes contemplativos, tais como São Francisco, Santo Antônio de Pádua, São Bernardo, Santa Catarina de Sena. Com liberdade havemos de andar neste caminho, entregues às mãos de Deus. Se Sua Majestade quiser elevar-nos à categoria de seus íntimos e confidentes dos seus segredos, vamos de boa vontade.

Quando pensarmos em Cristo, sempre nos lembremos do amor com que nos concedeu tantas graças e da grande ternura que nos testemunhou em nos dar tal penhor do muito que nos ama, pois amor pede amor. Procuremos sempre ir considerando estas verdades e estimulando-nos a amar. Porque, uma vez que nos conceda o Senhor a graça de que este amor nos seja impresso no coração, tudo nos será mais fácil: faremos grandes coisas muito depressa e com pouco trabalho.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Sta Teresa D'Avila sobre o extremo amor com que Jesus se dá na Eucaristia

Vendo o bom Jesus que seu auxílio nos era muitíssimo necessário, buscou um meio admirável por onde nos mostrasse o seu excessivo amor por nós. Em seu próprio nome e no de seus irmãos, fez esta petição: O pão nosso de cada dia nos dai hoje, Senhor."1

Por amor de Deus, irmãs, compreendamos bem o que nosso bom Mestre pede. Para nós é questão vital não passarmos por alto sobre este ponto. Convencei-vos de que destes pouquíssimo e haveis de receber imenso tesouro.

Tenho para mim, salvo melhor parecer, que o bom Jesus, considerando o que havia prometido por nós, viu o quanto nos importava cumprir esta sua palavra.

Por outro lado, percebeu as grandes dificuldades que nisto teríamos de superar, por sermos tão vis e inclinados a coisas da terra e termos tão pouco amor e coragem.

Para despertar-nos ele quis então que víssemos quanto nos amava. Isto não uma vez, mas, todos os dias.Resolveu então ficar para sempre conosco. Sendo coisa de tal gravidade e de tanta importância, quis o bom Jesus que essa graça nos fosse concedida pela mão do eterno Pai. Ele sabia muito bem que seu Pai não deixaria de confirmar e aprovar no céu o que ele fizesse na terra.

O Pai e o Filho entre si são ambos uma só e mesma coisa. A vontade de um é a vontade do outro. Contudo era tão profunda a humildade do Filho que, por assim dizer, quis primeiro pedir licença a seu Pai, embora soubesse que era o objeto do seu amor e de sua complacência.

Entendeu perfeitamente que nesta súplica pedia mais do que em todas as outras, porque antevia a morte que o esperava e as desonras e afrontas que havia de padecer.

Que pai haveria, Senhor, que, tendo-nos dado seu filho - e que Filho! - e vendo o estado em que o pusemos, consentiria em deixá-lo entre nós a padecer de novo cada dia? Por certo nenhum, Senhor, senão o vosso Pai, e bem sabeis a quem pedis! Valha-me Deus! que grande amor o do Filho, e que grande amor o do Pai!"

Todavia, já não me admiro tanto do bom Jesus. Tendo dito: faça-se a vossa vontade, e não sendo como nós, havia de cumprir a palavra de modo digno de quem é, com a perfeição de um Deus. Sabia que devia amar-nos como a si mesmo para cumprir a vontade de seu Pai. Assim andava buscando um meio para cumprir este mandamento com a maior perfeição, embora muito à sua custa.

Porém vós, Pai Eterno, como consentistes? Por que motivo quereis ver vosso Filho cada dia em mãos tão indignas quanto as nossas? Por uma vez que assim quisestes e consentistes a seu pedido, bem vistes o estado em que o deixaram.

Como pode vossa piedade presenciar diariamente - sim, diariamente - as injúrias que lhe fazem? E quantas não se devem hoje assacar a este santíssimo Sacramento! Em quantas mãos inimigas não o vê o Pai! Quantos desacatos por parte desses hereges!

Ó eterno Senhor! como admitis tal petição? Por que dais vosso consentimento? Não vos guieis pelo amor de vosso Filho! A troco de realizar plenamente vossa vontade e de nos fazer benefícios, ele se deixará despedaçar cada dia.

Toca a vós, Senhor meu, providenciar o que é justo. A vosso Filho nada parece demasiado. Por que razão todo o nosso bem há de ser à sua custa? A tudo cala, não sabe falar por si, senão só por nós - não haverá quem fale em defesa desse amantíssimo Cordeiro?

Tenho reparado que só nesta petição, ele duplica as palavras. Primeiro diz e pede que nos seja dado este pão cada dia, e depois torna a dizer: Nos dais hoje, Senhor. Apenas para seu Pai, como a dizer-lhe que é nosso, já nos pertence porque o deu uma vez para morrer por nós. Não o torne a levar até o fim do mundo. Deixe-o para nos servir cada dia.

Não há escravo que de boa vontade confesse que o é: e eis que o bom Jesus parece gloriar-se de o ser. Isto vos enterneça o coração, minhas filhas, e vos mova a amar sempre mais o vosso Esposo.

Ó eterno Pai! por certo, bem meritória é esta humildade! Com que tesouro compraremos vosso Filho! Já sabemos que foi vendido por trinta dinheiros, mas, para comprá-lo não há preço que baste! 

Nesta oração faz-se uma só coisa conosco pela participação da nossa natureza. Como Senhor e árbitro de sua vontade, faz ver a seu Pai que sendo ele dono da sua própria vontade, quer dar-se a nós. Assim diz: o pão nosso.

Não faz diferença alguma entre ele mesmo e nós. Entretanto diariamente nós o fazemos em demasia para não nos darmos cada dia por Sua Majestade.

1- A Santa comenta o Pai-nosso como se rezava em seu tempo em língua vulgar, acrescentando: Senhor.

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

10 SABIOS CONSELHOS DE SANTA TERESA D'AVILA


1- Dirige a Deus cada um dos teus atos; oferece-os e pede-Lhe que seja para Sua honra e glória.

 2-Oferece-te a Deus ...cinquenta vezes por dia, e que seja com grande fervor e desejo de Deus.
3-Em todas as coisas, observa a providência de Deus e Sua sabedoria, em tudo, envia-Lhe o teu louvor.

 4-Em tempos de tristeza e de inquietação, não abandone nem as obras de oração, nem a penitência a que está habituado. Antes, intensifica-as, e verá com que prontidão o Senhor te sustentará.

 5-Nunca fale mal de quem quer que seja, nem jamais escute. A não ser que se trate de ti mesmo. E terá progredido muito, no dia em que se alegrar por isso.

 6- Não diga nunca, de você mesma, algo que mereça admiração, quer se trate do conhecimento, da virtude, do nascimento, a não ser para prestar serviço. Mas então, que isso seja feito com humildade, e considerando que esses dons vêm pelas mãos de Deus.

 7- Não veja em você senão o servo de todos, e em todos contempla Cristo Nosso Senhor; assim O respeitará e O venerará.

 8- A respeito de coisas que não lhe diz respeito, não se mostre curioso, nem de perto, nem de longe, nem com comentários, nem com perguntas.

 9- Mostrai sua devoção interior só em caso de necessidade urgente. Lembra do que diziam São Francisco e São Bernardo: "Meu segredo pertence a mim".

 10- Cumpra todas as coisas como se Sua Majestade estivesse realmente visível; agindo assim, muito ganhará a sua alma.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Jesus pergunta a Sta Teresa: "Sabes o que é amar-me de verdade?"


Certa vez enquanto fazia oração, senti-me invadida por uma felicidade muito íntima. Todavia considerando-me indigna de tal favor, comecei a pensar que merecia, com maior razão, estar naquele lugar que me estava destinado no inferno. O modo pelo qual nele me vi nunca me sai da memória. Com esta consideração, minha alma começou a inflamar-se mais. Sobreveio-me um arrebatamento de espírito que não sei descrever. Parecia-me estar imersa e repleta daquela majestade que já de outras vezes tenho entendido.

Nessa majestade compreendi uma verdade que é a plenitude de todas as verdades. Não sei dizer como, porque nada vi. Disseram-me - não sei quem, mas bem entendi ser a mesma Verdade: "Não é pouco isto que faço por ti: é uma das maiores graças de que me és devedora. Todo dano que vem ao mundo é porque os homens não conhecem com clareza as verdades da Escritura, da qual nem um til se deixará de cumprir."

Veio-me ao pensamento que sempre o havia crido e que todos os fiéis o crêem. O Senhor voltou a dizer-me: "Filha, quão poucos me amam verdadeiramente. Se me amassem, não lhes encobriria meus segredos. Sabes o que é amar-me de verdade? É compreender que tudo quanto não me agrada é mentira. Claramente verás isto, pelo fruto que sentirás em tua alma e que agora não entendes?"

Assim tem acontecido, Deus seja louvado! Desde então tudo que vejo não ir endereçado ao serviço de Deus, de tal modo me parece vaidade e mentira, que não saberia exprimir até que ponto o entendo. Que lástima sinto pelos que vivem em trevas acerca desta verdade!

Sta Teresa D'Avila, Livro da vida, Cap. 40, n.1-2.

Fonte:

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Citações úteis de S. Teresa d’Ávila

santa-teresa-de-jesus-jose-de-ribera
Digo que muito importa, sobretudo, ter uma grande e muito decidida determinação de não parar enquanto não alcançar, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se suportem os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo. E quantas vezes não acontece de ouvirmos dizer: “Há perigos”, “Fulana se perdeu por aqui”, “O outro se enganou”, “Aquele que rezava muito, caiu”, “Prejudicam a virtude”, “Não é para mulheres, pois podem sobrevir-lhes ilusões”, “Será melhor que vão fiar”, “Deixem de lado essas delicadezas”, “Basta o pai-nosso e a ave-maria”! (Caminho de Perfeição, cap. 21, 2)
4. Outra razão é que o demônio fica com o seu poder para tentar enfraquecido; ele tem tão grande medo de almas determinadas, pois já tem a experiência de que elas lhe fazem grande dano, que aquilo que ordena para fazê-las se perder acaba trazendo-lhes proveito, e aos outros, ficando o inimigo com o prejuízo. Mas não devemos nos descuidar nem confiar nisso, porque tratamos com pessoas traidoras, não ousando o demônio arremeter contra quem está alerta, por ser muito covarde. Se, no entanto, perceber um descuido, provocaria grandes perdas. E, se sabe que alguém é inconstante e não está consolidado no bem, sequer com uma enorme determinação de perseverar, ele não o deixa em paz de dia nem de noite, suscitando-lhe medos e mostrando-lhe inconvenientes que nunca se acabam. Sei disso muito bem por experiência, e assim o soube explicar, e afirmo que ninguém sabe quão importante é isso.
5. A outra razão, muito relevante, é que a alma luta com mais ânimo, pois já sabe que, aconteça o que acontecer, não vai voltar atrás. É como alguém que está numa batalha e sabe que, se for vencido, não lhe perdoarão a vida, e que, se não morrer no combate, morrerá depois. Assim, peleja com maior determinação, querendo vender caro sua vida, como se diz, sem temer tanto os golpes, porque tem em mente que o importante é a vitória, pois dela depende a sua vida.  (Caminho de Perfeição, cap. 23, 4-5)
3. Tende em grande conta este aviso -que importa muito – até que vos vejais com tão grande determinação de não ofender ao Senhor que antes preferiríeis perder mil vidas a cometer um pecado mortal. Quanto aos veniais, cuidai muito para não fazê-los. Refiro-me aos que se cometem com advertência, pois, de outra maneira, quem estará livre de cometer muitos? Mas há uma advertência refletida. E há outra tão rápida que, na prática, cometer o pecado venial e refletir sobre ele são uma única coisa. Sequer chegamos a entender o que fazemos. Deus nos livre de pecado plenamente deliberado, por menor que seja! (Caminho de Perfeição cap. 41, 3)
…deixamos de ir ao côro um dia porque nos dói a cabeça, outro porque nos doeu e outros três para que não nos doa… (Caminho de Perfeição ???) 
Sem dúvida – já que aqueles a quem muito quer Deus leva por caminhos de padecimentos e, quanto mais os ama, maiores são estes (…) É absurdo crer que o Senhor admita como amigos íntimos pessoas comodistas e que não sofrem. (Caminho de Perfeição 18, 1-2)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Desprezo de si e humildade - Sta Teresa D'Avila

A princípio, tudo se nos afigura muito árduo, e com razão, porque é guerra contra nós mesmos. Mas começando a trabalhar, Deus opera tanto na alma e lhe faz tai favores, que ela acha pouco tudo quanto se pode fazer nesta vida.

(...) Tudo, ou ao menos quase tudo, depende do esquecimento de nós mesmas e de nossas comidades. Quem deveras começa a servir ao Senhor, o mínimo que lhe pode oferecer é a vida, depois de lhe ter dado a vontade. Que há de temer?

(...) Aprendamos a contradizer em tudo a nossa vontade própria. Se empregardes nisto toda diligência, a pouco e pouco estareis no cume sem saber como. Parece demasiada exigência dizer que não tenhamos satisfação em coisa alguma! É porque não se diz a um tempo quantos prazeres e alegrias acarretam esta contradição, e o que se ganha com ela, ainda nesta vida! Quanta segurança!

(...) Acerca dos movimentos interiores haja muita vigilância, especialmente no que se refere às proeminências. Deus nos livre, por sua Paixão, de dizer ou pensar, para deter-nos nisto: "Sou mais antiga", "tenho mais anos", "trabalhei mais", "tratam melhor a outra". Se surgirem tais pensamentos, atalhai-os com presteza. Demorar neles ou pô-los em prática é peste e origem de grandes males. 

(...) Onde houver disputas de honra ou de dinheiro, crede-me, nunca progredirão muito. Não chegareis a gozar do verdadeiro fruto da oração, ainda que tenhais dela muitos anos de exercício - ou, para melhor dizer, de meditação - porque oração perfeita elimina esses ressaibos.

(...) Considere cada um em si o que tem de humildade e verá os progressos que fez. Parece-me que ao verdadeiro humilde, ainda por primeiro movimento, não ousará o demônio tentar em matéria de superioridades. Sagaz como é, teme o golpe. É impossível uma alma humilde não sair com maior fortaleza e aproveitamento na humildade quando é tentada contra ela.

Está claro, nessa tentação ela revê sua vida passada, compara os seus pobres serviços com os benefícios recebidos de Deus, examina seus próprios pecados e o lugar onde merecia estar por eles. Considera também as grandezas que o Senhor realizou aniquilando-se a Si mesmo para nos deixar exemplo de humildade. Isto faz tanto bem à alma, que o maligno não ousa tornar à carga, para não sair com a cabeça quebrada.

Segui este meu conselho e não o esqueçais: para vingar-vos do demônio e livrar-vos depressa da tentação, não vos contenteis em tirar proveito só no interior - grande mal seria se assim não fosse - mas, também no exterior, procurai que os irmãos se beneficiem com vossas tentações.

Assim que a tentação vos assaltar pedi à prelada que vos mande fazer algum serviço baixo, ou fazei-o como puderdes. Nesta matéria vive sempre estudando o modo de dobrar vossa vontade nas coisas que vos contrariam. O Senhor vos fará descobrir as ocasiões, e com isto durará pouco a tentação.

Deus nos livre de pessoas, desejosas de o servir, que se lembram da própria honra! É mau lucro. 

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição, Cap. 12

domingo, 17 de março de 2013

Sta Teresa D'Avila fala sobre o pecado mortal



Antes de passar adiante, quero dizer-vos que considereis o que será ver este castelo tão resplandecente e formoso (que é a alma), esta pérola oriental, esta árvore de vida que está plantada nas mesmas águas vivas da Vida, que é Deus, quando cai em pecado mortal. Não há trevas mais tenebrosas, nem coisa tão escura e negra que ela o não esteja muito mais. Basta saber que, estando até o mesmo Sol, que lhe dava tanto resplendor e formosura no centro de sua alma, todavia é como se ali não estivesse, para participar d'Ele, apesar de ser tão capaz de gozar de Sua Majestade, como o cristão o é para nele resplandecer o sol. Nenhuma coisa lhe aproveita; e daqui vem que todas as boas obras que fizer, estando assim em pecado mortal, são de nenhum fruto para alcançar glória; porque, não procedendo daquele princípio que é Deus, do qual vem que a nossa virtude é virtude, e apartando-nos d'Ele, não pode a obra ser agradável a Seus olhos; porque, enfim, o intento de quem faz um pecado mortal, não é contentar a Deus, senão dar prazer ao demônio o qual, como é as mesmas trevas, assim a pobre alma fica feita uma mesma treva.

Eu sei de uma pessoa a quem Nosso Senhor quis mostrar como ficava uma alma quando pecava mortalmente. Diz aquela pessoa que lhe parece que, se o entendessem, não seria possível que alguém pecasse, ainda que se pusesse nos maiores trabalhos que se possam pensar para fugir das ocasiões. E assim, deu-lhe um grande desejo de que todos o entendessem. Assim volo dê a vós, filhas, de rogar a Deus pelos que estão neste estado, todos feitos uma escuridão, e tais são suas obras; porque, assim como duma fonte muito clara, claros são os arroiozitos que dela manam, assim é uma alma que está em graça, pois daqui lhe vem serem suas obras tão agradáveis aos olhos de Deus e dos homens, porque procedem desta fonte de vida, onde a alma está como uma árvore plantada; nem ela teria frescura e fruto, se não lhe viesse dali; é isto que a sustenta e faz com que não seque, e que dê bom fruto. Assim a alma que, por sua culpa se aparta desta fonte e se transplanta a outra de uma negríssima água e de muito mau odor, tudo o que dela sai é a mesma desventura e sujidade.

É de considerar aqui que a fonte e aquele Sol resplandecente que está no centro da alma, não perde seu resplendor e formosura, que está sempre dentro dela, e não há coisa que lhe possa tirar a sua formosura. Mas, se sobre um cristão que está ao sol, se pusesse um pano muito negro, claro está que, embora o sol dê nele, a sua claridade não fará o seu efeito no cristal.

Ó almas remidas pelo Sangue de Jesus Cristo! Entendei-vos e tende dó de vós mesmas! Como é possível que, entendendo isto, não procureis tirar este pez deste cristal? Olhai que, se a vida se vos acaba, jamais tornareis a gozar desta luz. Ó Jesus! O que é ver uma alma apartada dela! Como ficam os pobres aposentos do castelo! Que perturbados andam os sentidos, que é a gente que vive neles! E as potências, que são os alcaides, mordomos e mestres-salas, com que cegueira, com que mau governo! Enfim, como onde está plantada a árvore é o demônio, que fruto pode dar?

Ouvi uma vez a um homem espiritual, que não se espantava do que fazia quem está em pecado mortal, mas sim do que não fazia. Deus, por Sua misericórdia, nos livre de tão grande mal, que não há outra coisa, enquanto vivemos, que mereça este nome de mal, senão esta; pois acarreta males eternos para sempre. É disto, filhas, que devemos andar temerosas e o que temos de pedir a Deus em nossas orações; porque, se Ele não guarda a cidade, em vão trabalharemos, pois somos a própria vaidade.

Dizia aquela pessoa que tinha aproveitado duas coisas da mercê que Deus lhe fez: uma, um temor grandíssimo de O ofender, e assim sempre Lhe andava suplicando que não a deixasse cair, vendo tão terríveis danos; a segunda, um espelho para a humildade, vendo que, coisa boa que façamos, não tem seu princípio em nós mesmos, mas naquela fonte onde está plantada esta árvore das nossas almas, e neste Sol que dá calor às nossas obras. Disse que se lhe representou isto tão calr que, em fazendo alguma coisa boa ou vendo-a fazer, acudia ao seu princípio e entendia como, sem esta ajuda, não podíamos nada; e daqui lhe procedia ir logo a louvar a Deus, e, habitualmente, não se lembrava de si em coisa boa que fizesse.

Santa Teresa D'Avila, Mística e Doutora da Igreja, Castelo Interior.

Fonte:

sábado, 20 de outubro de 2012

A dor de ter ofendido a Deus nas almas santas



Sta Teresa D'Avila, Doutora da Igreja

Parecer-vos-á, irmãs, que estas almas a quem o Senhor se comunica tão particularmente estarão já tão seguras de que hão-de gozá-l'O para sempre, que não terão que temer nem chorar seus pecados; e será um engano muito grande, porque a dor dos pecados cresce tanto mais quanto mais se recebe de nosso Deus. E tenho para mim que esta pena não nos deixará, até que estejamos onde nenhuma coisa no-la possa dar.

É verdade que umas vezes aperta mais que outras, e também é de diferente maneira; porque não se lembra da pena que há-de ter por eles, mas sim de como foi tão ingrata a Quem tanto deve, e a Quem tanto merece ser servido; porque, nestas grandezas que se lhe comunicam, entende muito mais a de Deus. Espanta-se de como foi tão atrevida; chora o seu pouco respeito; parece-lhe coisa tão desatinada o seu desatino, que não acaba nunca de o lastimar, quando se lembra das coisas tão baixas pelas quais deixava uma tão grande Majestade. Muito mais se lembra disto do que das mercês recebidas, sendo elas tão grandes como as ditas e as que estão por dizer; parece que as leva um rio caudaloso e as traz a seu tempo; mas isto dos pecados estão como lodo, pois sempre parece que se avivam na memória e é bem grande cruz.

Sei de uma pessoa que, deixando de querer morrer para ver a Deus, o desejava para não sentir tão habitualmente a pena de quão desagradecida tinha sido a Quem tanto deveu sempre e havia de continuar a dever; e assim lhe parecia não poder haver ninguém cujas maldades pudessem chegar às suas, porque entendia que não haveria a quem Deus tanto tivesse sofrido e tantas mercês tivesse feito. No que toca a medo do inferno, nenhum têm. O de poderem vir a perder a Deus, às vezes aflige muito; mas é poucas vezes. Todo o seu temor é que não as deixe Deus de Sua mão e O venham a ofender, e se vejam em estado tão miserável como se viram em outros tempos, pois de sua própria pena ou glória não têm cuidado; e, se desejam não estar muito tempo no purgatório, é mais para não estarem ausentes de Deus, enquanto ali estiverem, do que pelas penas que hão-de passar.

Eu não teria por seguro, por favorecida que uma alma esteja de Deus, que ela se esquecesse de que nalgum tempo se viu em miserável estado; porque, embora seja coisa penosa, aproveita para muitas coisas. Talvez que, como eu tenho sido tão ruim, me pareça isto, e esta é a causa de o trazer sempre na memória; as que têm sido boas, não terão que sentir; embora sempre haja quebras enquanto vivemos neste corpo mortal. Para esta pena não é alívio nenhum pensar que Nosso Senhor já tem perdoados e esquecidos os pecados; antes acresce à pena ver tanta bondade e fazerem-se mercês a quem não merecia senão o inferno. Penso que foi este um grande martírio em São Pedro e na Madalena; porque, como tinham o amor tão acrescido e tinham recebido tantas mercês e tinham entendida a grandeza e a majestade de Deus, seria bem duro de sofrer, e com muito terno sentimento.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Perdão às Ofensas e o Engodo das Honras



Com esse Alimento celestial - a Eucaristia -, nosso bom Mestre viu que tudo se nos tornava fácil, a não ser por nossa culpa, e poderíamos muito bem cumprir o que dissemos a seu Pai:Seja feita a vossa vontade.

Continuando a oração, que nos está ensinando, agora o bom Jesus pede nos perdoe nossas ofensas, como também nós perdoamos aos que nos têm ofendido, e diz estas palavras: E perdoai-nos, Senhor, as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

Reparai, irmãs, que não diz: "Como perdoaremos". É para nos dar a entender que deve ser fato consumado. Quem pede uma dádiva tão grande como o Pão do céu, quem submeteu sua vontade ao querer divino, já perdoou tudo. E assim diz: "Como nós perdoamos", no passado.

Fique, pois, bem claro: quem sinceramente tiver dito ao Senhor: Faça-se a vossa vontade, há de ter perdoado tudo, ou ao menos, estar resolvido a fazê-lo. Por esse motivo, os santos alegravam-se com as injúrias e perseguições. Tinham algo para oferecer ao Senhor quando se apresentassem para lhe pedir perdão das ofensas cometidas contra ele.

Uma graça tão imensa e de tanta importância, como é perdoar-nos o Senhor nossas culpas, merecedoras do fogo eterno, nos é concedida a troco de tão pouca coisa como é perdoarmos também nós.

Mas, Senhor, gratuitamente me haveis de perdoar, porque tenho tão poucos desses atos insignificantes a oferecer! Aqui vossa misericórdia acha campo! Bendito sejais vós por me suportardes, a mim criatura tão pobre!

Mas, Senhor meu, será que há outras pessoas nas mesmas condições que eu e que não tenham compreendido esta verdade? Se as há, em vosso nome lhes suplico, que se lembrem desta realidade e não façam caso de umas miseriazinhas a que chamam ofensas. Até parece que, como crianças fazemos choças de palhinhas com esses pontos de honra.

Valha-me Deus, irmãs! Se soubéssemos que coisa é honra e o que é perder a honra! Agora não me refiro a vós, pois seria muito triste se já não tivésseis entendido. Refiro-me a mim, no tempo em que prezava a honra, sem entender que coisa era. Ia com os outros. Em quantas pequeninas coisas sentia-me ofendida! Agora me envergonho.

Como falou bem quem disse que honra e proveito espiritual não combinam! Todavia, não sei se o disse a esse propósito. Mas assim é ao pé da letra. Proveito da alma e aquilo a que o mundo chama honra jamais se unem. É de pasmar ver quanto o mundo anda às avessas. Bendito seja o Senhor que nos tirou dele. (...)

Praza a Deus não se condene uma alma por ter guardado esses negros pontos de honra, sem entender em que consiste a verdadeira honra!

E, depois, temos a ousadia de pensar que fizemos muito, quando perdoamos um nadinha qualquer, que nem era ofensa, nem injúria, nem coisa alguma. Como se tivéssemos feito uma proeza, muito convencidas, diremos ao Senhor que nos perdoe, porque temos perdoado! Fazei-nos, meu Deus, compreender que não nos conhecemos e que nos apresentamos diante de vós com as mãos vazias. Perdoai-nos, por vossa misericórdia!

Na verdade, Senhor, todas as coisas acabam e o castigo é eterno. Não vejo obra alguma digna de vos ser apresentada em troca da imensa graça do perdão por vós concedida. Só o podeis fazer em atenção ao vosso Filho que vos pede perdão por nós.

Mas quão apreciado deve ser pelo Senhor este amor recíproco! O bom Jesus bem pudera apresentar a seu pai outras obras e dizer-lhe: "Perdoai-nos, Senhor, porque fazemos austera penitência, ou porque rezamos muito e jejuamos, deixamos tudo por vós e muito vos amamos". Não alega ainda: "Porque daríamos a vida por vós", nem outros possíveis encarecimentos, senão somente: porque perdoamos.

Ele sabe que somos amigos desta negra honra. Por ser a coisa mais difícil de obter de nós e a mais agradável a seu Pai, oferece-a o Senhor, de nossa parte, apresentando-a para alcançar o perdão.

Verificai bem, irmãs, o que diz o bom Jesus: assim como nós perdoamos. Fala como de coisa já feita. Prestai grande atenção a este ponto. Ao sair desta oração, em que a alma recebe de Deus grandes graças na contemplação perfeita, examinai bem se ela está muito resolvida a perdoar e, quando surge a ocasião, se de fato ela perdoa qualquer injúria, por grave que seja - e não certas ninharias que chamam injúrias. Do contrário, não há que fiar de sua oração."

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Como se há de percorrer o caminho que leva à Fonte



"Lutai como fortes até morrer no combate. 
Não estais aqui para outra coisa, senão para pelejar"

Não vos espanteis das muitas coisas que é necessário considerar antes de iniciar esta viagem divina, caminho real para o céu. Indo por ele, ganha-se inestimável tesouro. Não é muito que, a nosso parecer, custe caro. Tempo virá em que se entenda como tudo é nada em comparação de tão grande prêmio.

Voltando agora aos que o querem seguir sem parar, até o fim, até chegar a beber desta água de vida, direi como se há de principiar.

Importa muito, e acima de tudo, uma grande e firme determinação de não parar até chegar à fonte de água viva, venha o que vier, suceda o que suceder, custe o que custar, murmure quem murmurar, quer chegue ao fim, quer morra no caminho, ou falte coragem para os sofrimentos que nele se encontram. Ainda que o mundo venha abaixo havemos de prosseguir. (...)

Por conseguinte, nada de temores. Nunca façais caso da opinião alheia. Olhai que não estamos em tempo de se dar crédito a todos, mas só aos que realmente se conformam à vida de Cristo. Procurai a limpeza de consciência e humildade, desprezo de todas as coisas do mundo e fé inabalável no que ensina a santa Madre igreja. Ficai seguros de estar no bom caminho. Deixai-vos de temores, repito, onde não há que recear. Se alguém procurar assustar-vos, declarai-lhe humildemente vosso caminho.

Sta Teresa D'Avila, Caminho de Perfeição

segunda-feira, 19 de março de 2012

O Inferno segundo Santa Teresa D’ Avila





1. 
Havia muito tempo que o Senhor me fazia muitas graças já referidas e outras ainda maiores, quando um dia, estando em oração, achei-me subitamente, ao que me parecia, metida corpo e alma no inferno. Entendi que o Senhor queria fazer-me ver o lugar que os demônios aí me haviam preparado, e eu merecera por meus pecados. Durou brevíssimo tempo. Contudo ainda que vivesse muitos anos, acho impossível esquecê-lo.

A entrada pareceu-me um túnel longo e estreito, semelhante a um forno muito baixo, escuro e apertado. O chão tinha aparência de uma água, ou antes, de um lodo sujíssimo e de odor pestilencial, cheio de répteis venenosos. No fundo havia uma concavidade aberta numa parede, como um armário, onde me vi, encerrada de maneira muito apertada.

2. O tormento interior é tal, que não há palavras para o definir, nem se entende como é realmente. Na alma senti tal fogo, que não tenho capacidade para o descrever. No corpo eram incomparáveis as dores. Tenho passado nesta vida dores gravíssimas. No dizer dos médicos são as maiores que se podem suportar, como, por exemplo, quando se encolheram todos os meus nervos, e fiquei tolhida. Já não falo de outras muitas dores de diversos gêneros e até algumas causa das pelo demônio. Posso afirmar que tudo foi nada em comparação do que ali experimentei.


O pior era saber que seria sem fim, sem jamais cessar.
Sim, repito, tudo mais pode chamar-se nada em relação ao agonizar da alma: é um aperto, um afogamento, uma aflição tão intensa, e acompanhada de uma tristeza tão desesperada e pungente, que não sei como posso explicar semelhante estado! Compará-lo à sensação de que vos estão sempre a arrancar a alma, é pouco. Em tal caso, seria como se alguém nos acabasse com a vida. Aqui é a própria alma que se despedaça. O fato é que não sei como descrever aquele fogo interior e aquele desespero que se sobrepõem a tão grandes tormentos. Eu não via quem os provocava, mas sentia-me queimar e retalhar. Piores, repito, são aquele fogo e aquele desespero que me consumiam interiormente.

Em lugar tão pestilencial, sem esperar consolo, é impossível sentar-se, ou deitar-se, nem há espaço para tal. Puseram-me numa espécie de fenda cavada na muralha. As próprias paredes, espantosas à vista, oprimem, e tudo ali sufoca. Por toda parte trevas escuríssimas. Não há luz. Não entendo como, sem claridade, se enxerga tudo, causando dor nos olhos. Nesta ocasião o Senhor não quis que eu visse mais de tudo aquilo que há no inferno. Em outra visão, vi coisas horripilantes acerca do castigo de alguns vícios. Pareceram muito mais horrorosas à vista. Como não sentia a pena, não me causaram tanto temor como na primeira visão, na qual o Senhor quis que eu verdadeiramente sentisse aquelas torturas e aquela aflição de espírito como se o corpo as estivesse padecendo. Como foi isso, não sei, mas bem entendi ser grande graça do Senhor querer que eu visse, com meus olhos, de onde sua misericórdia me havia livrado.
Verdadeiramente é nada ouvir discorrer, ou ainda meditar, sobre a diversidade dos tormentos, como eu de outras vezes havia feito, embora raramente. A feição de minha alma não é ser levada pelo temor. Lia que os demônios atenazam as almas e lhes infligem outros suplícios. Tudo é nada a respeito da verdadeira pena, que é muito diferente. Numa palavra, é tão diferente quanto o esboço o é da realidade. Queimar-se aqui na terra é sofrimento muito leve em comparação com aquele fogo de lá.


4. Fiquei tão aterrorizada, e ainda agora o estou enquanto escrevo, apesar de terem decorrido quase seis anos. De tanto temor, tenho a impressão de ficar gelada. Desde então, ao que me recordo, cada vez que tenho sofrimentos ou dores, tudo o que se pode passar na terra, me parece nada. Penso que em parte nos queixamos sem motivo. Foi esta, repito, uma das maiores graças que o Senhor me fez. Valeu-me imensamente, quer para perder o medo quanto às tribulações e contradições desta vida, quer para me esforçar em padecê-las e a dar graças ao Senhor, por me ter livrado, ao que agora me parece, de males tão perpétuos e terríveis.








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