sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Estive na prisão e me visitastes...


A Igreja, durante todo o mês de novembro, após ter honrado e exaltado seus filhos do céu, e invocado sua intercessão, não quer esquecer seus filhos do Purgatório. Dedica a eles a Comemoração dos Fiéis Defuntos, e dá indulgências especiais durante os primeiros oito dias de novembro, e consagra todo este mês a orar pelas almas dos defuntos. No que nos diz respeito, três motivos devem nos levar a interessar-nos por estas santas almas:
1º Primeiramente, porque são almas necessitadíssimas de nossa misericórdia e de nossos sufrágios: Estive na prisão e me visitastes”.
2º Depois, porque um dia nós teremos que encontrá-las no Purgatório (se a bondade de Deus assim o permitir), razão pela qual muito nos interessa saber o que é dessas almas, qual é seu estado, como Deus as trata…
3º Finalmente, porque muitas vezes imaginamos o Purgatório como o lugar da justiça de Deus, de uma justiça inflexível, de uma justiça sem misericórdia: quando, na realidade, é ao contrário uma invenção da misericórdia de Deus, mesmo que seja uma misericórdia em que o homem já não pode mais merecer e deve reparar todos os pecados de sua vida.
Detenhamo-nos neste último ponto, considerando as três razões pelas quais a misericórdia divina se manifesta no Purgatório: • primeiro, no amor que as três Pessoas divinas têm por essas almas abençoadas; • segundo, no amor e na conformidade que essas almas têm para com Deus; • terceiro, no próprio sofrimento que essas almas têm que suportar.
1º Amor de Deus pelas almas do Purgatório.
Antes de tudo, a misericórdia de Deus para com essas almas manifesta-se na predileção que a Divina Providência manifestou em relação a elas. O Senhor as escolheu de tal maneira que lhes concedeu a graça da perseverança final, e as adquiriu para sempre: elas são almas definitivamente salvas. E por essa razão, agora no Purgatório, a Santíssima Trindade olha para cada uma dessas almas sofredoras com imenso amor:
  • Deus o Pai as contempla resplandecente do Sangue de seu Filho, o único e mais precioso preço de sua salvação, e as observa e ama infinitamente em seu Filho crucificado e glorioso.
  • Deus Filho alegra-se em vê-las submersas na vontade de seu Pai, em total consentimento ao amor do Pai.
  • Deus, o Espírito Santo, realiza nelas os toques finais da obra de santificação e aperfeiçoamento sobrenatural, através da dolorosa purificação a que as submete: olha para elas com uma infinita complacência, e derrama-se abundantemente nelas com seus dons e graças.
Em suma, as almas do Purgatório são filhas muito amadas da Misericórdia divina: estão destinadas a serem as joias eternas da Jerusalém celestial.
2º Amor que estas almas têm para com Deus.
O segundo efeito da misericórdia de Deus com as almas do Purgatório é o dom de uma intensa e perfeita vida espiritual, que não poderíamos imaginar nesta terra, exceto nos maiores santos. E, ao contrário de nós:
  • Sua  não é como a nossa, vacilante e frágil, que se deixa tão facilmente seduzir pelas criaturas: aquelas almas estão fixadas em Deus, só olham para Ele e O consideram, e sua fé vem através das provações do Purgatório, aos maiores desprendimentos e renúncias de si mesmas.
  • Sua esperança é firmíssima: sabem que foram salvos para sempre, que certamente possuirão o céu e que já não podem mais perder a Deus por causa do pecado.
  • E sua caridade é ardentíssima, a ponto de converter-se na principal atitude dessas almas, pela qual são purificadas: anseiam por Deus, amam-no como seu todo e com todas as energias de seu ser.
Esta vida espiritual é tão perfeita que produz nelas uma conformidade perfeitíssima com a vontade de Deus: seu abandono em Deus é perfeito, e produz nelas um ordenamento de todos os seus anelos, de todas os seus afetos, de todos os seus desejos.
3º Sofrimentos destas almas.
O terceiro efeito da misericórdia de Deus para com essas almas são os próprios sofrimentos com que as purifica. Para de alguma forma expressar isso, Deus é um fogo devorador, e este fogo, por misericórdia, quer se comunicar às almas para convertê-las em Si mesmo; e as almas são como a madeira que esse fogo inflama. De acordo com a condição das almas, este fogo terá diferentes ações e efeitos:
  • Se as almas já são perfeitas e são em tudo semelhantes a Deus, o fogo da caridade divina opera nelas como sobre lenha já perfeitamente consumida: convertem-se em brasa, na qual o fogo exerce sua ação silenciosa e calmamente, como identificando-se com ela: são as almas glorificadas.
  • Se as almas são santas, mas têm coisas para purgar, o fogo da caridade divina trabalha nelas como sobre madeira úmida: comunica progressivamente suas qualidades de fogo, mas com violência, com dor diríamos, porque encontra resistência na madeira: emite fumaça, a chama chia: são as almas do Purgatório, que são progressivamente assimiladas pela caridade de Deus, até que essas resistências desapareçam.
  • E se as almas permanecerem tenazmente aferradas ao seu pecado, então o fogo da caridade divina operará sobre elas como sobre lenha incombustível: com violência suprema, sem poder transformá-las em Deus: são as almas do inferno.
Assim, pois, as almas do Purgatório sofrem imensamente. Sua própria vida espiritual lhes inflige esse sofrimento. Com efeito, para as almas que amam a Deus perfeitamente, que estão perfeitamente limpas e abrasadas pela caridade divina, totalmente entregues ao amor que as possui, que as atrai e quer dar-se em plenitude, ver-se impedidas de alcançá-lo e de possuí-lo plenamente é um sofrimento indescritível; é um doloroso enlanguescimento de amor, um exílio longe do Amado, um devorador desejo de possuí-lo; é como uma espera infligida por sua própria conduta: veio o Amado e não estava pronta…
A isto se somam outras penalidades secundárias, segundo a condição de cada alma, tais como: perfeito conhecimento de suas faltas e infidelidades, o que deploram grandemente; remorsos pelas graças não aproveitadas ou desperdiçadas; sofrimento por estarem ali esquecidas e separadas de seus parentes; espera ansiosa por sua libertação do Purgatório, que não sabem quando acontecerá.
Mas, entendamo-lo bem, por causa de sua perfeita conformidade com a vontade de Deus, as almas do Purgatório agradecem a Deus (e quanto!) por estes sofrimentos, e os amam para abandonarem-se à vontade de Deus. Dois são os motivos deste amor:
  • O primeiro é que as almas do Purgatório não querem por nada no mundo apresentarem-se diante de Deus no estado em que se encontram; e se Deus não lhes desse a oportunidade de se purificarem no Purgatório, jamais se atreveriam a comparecer em sua presença, conscientes como são de sua indignidade; e, portanto, vendo como esses sofrimentos as limpam, as purificam, as embelezam, elas os amam de todo seu coração, como um santo nesta vida pode amar a cruz.
  • O segundo é que as almas do Purgatório querem adquirir a semelhança com Jesus Crucificado que não souberam adquirir nesta vida.
Conclusão
Muitas são as lições que as almas do Purgatório nos dão. Não nos esqueçamos de que, se estão nesse lugar de purificação, é porque não cumpriram obrigações que também nos dizem respeito.
  • E primeiro é corresponder ao amor que Deus tem por nós. Se tantas vezes ofendemos a Deus, é porque não somos conscientes, por nossa culpa, nem do amor que Deus tem por nós, nem da imensa majestade de Deus, a quem toda culpa ultraja.
  • Portanto, outra lição que as almas do Purgatório nos dão é compreender a gravidade do pecado, mesmo em suas menores manifestações “veniais”, porque por essas falhas expiam ali com tão terríveis punições: infidelidades à graça, descuidos e negligências voluntárias, faltas cometidas por apego às criaturas, ausência de devida vigilância…
  • Uma terceira lição: as almas do Purgatório estão nos encorajando a amar a Deus de todo o nosso coração, com toda a nossa mente, com todas as nossas forças, como elas fazem agora ao se darem conta que Deus é tudo, e o resto não é nada.
  • Quarta lição: o amor da cruz e dos sofrimentos, que nós evitamos tão cuidadosamente. Que graça Deus nos concederá Deus aceitando-nos no Purgatório, permitindo-nos que soframos algo por Ele, uma vez que teremos sido tão covardes para sofrer algo nesta vida!
  • Quinta lição: obrigação em que estamos de socorrer essas pobres almas. Santo Tomás diz que a prática das obras de misericórdia é regulada em função de dois princípios: o primeiro, a união de uma alma com Deus; o segundo, a necessidade de que esta alma se encontra exposta. Pois bem, as almas do Purgatório, que reúnem as duas condições, são as mais dignas da nossa misericórdia, de nossa ajuda, de nossos sufrágios.
Peçamos às almas do Purgatório a graça de aprender todas estas lições, de modo que, frequentemente nelas pensando nesta vida, e praticando com elas uma generosa misericórdia, recebamos do Senhor o mesmo tratamento, quando chegar nosso momento de também estarmos nesse lugar de purificação.
Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.
Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.
Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu, ainda te amara
E a não haver o inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.
FonteHojitas de Fe, 11 | Seminário Nossa Senhora Corredentora, FSSPX
Tradução
Dominus Est

Nenhum comentário:

Postar um comentário