segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

ELES TREMIAM DE MEDO ONDE NÃO HAVIA NADA A TEMER

 

medo

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Pe. Frédéric Weil, FSSPX

Os tempos não são mais de festa. Há alguns anos, o medo invadiu nossas sociedades. A esperança está desaparecendo do nossos horizontes em favor de um mundo de incertezas. O católico deve se juntar ao terror que o cerca?

Terror ambiente

Terrorismo, aquecimento global, tensões sociais e raciais, censura, confrontos urbanos, fluxos migratórios e ainda por cima o famoso vírus: estes são os novos avatares do terror contemporâneo que pairam sobre este mundo como pássaros de mau agouro. De novembro de 2015 a 2017, a França passou 2 anos em “estado de emergência” através de 6 prorrogações devido aos atentados. Em janeiro de 2019, a jovem Greta Thunberg falou na cúpula de Davos sobre o aquecimento global: “Quero que entrem em pânico, quero que sintam o medo que sinto todos os dias“, como uma profetisa de um apocalipse sem revelação divina. Mais recentemente o jornal Liberation, em sua edição de 4 de outubro de 2020, publicou um artigo sobre o perigo dos “tranquilizadores” que erraram ao quebrar o consenso do medo. “Eles me assustam muito“, disse um médico sobre essas pessoas. Era preciso temer quem tranquilizava.

As posições se invertem quando se fala em vacina. O campo do medo então se torna o de “tranquilidade” e vice-versa, de modo que não podemos designar de maneira unívoca um campo do medo. Um medo é correlativo a um outro: uma pessoa que não teme o vírus pode temer medidas governamentais, anátemas jornalísticos, crítica de colegas, discussões acaloradas, denúncias da vizinhança, multa ou mesmo a perda de um trabalho.

O que varia é o que tememos: o objeto de nossos medos é um indicativo de quem somos.

Devemos banir o medo?

O Antigo Testamento não tem o monopólio do medo. Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo conheceu o medo no Jardim das Oliveiras: Ele começou a ser tomado de medo e angústia (Mc 14, 33) Mais tarde, os Atos dos Apóstolos nos ensinam sobre a fraude de Safira e Ananias que São Pedro reprovou duramente. Então: Ananias, ao ouvir essas palavras, caiu e expirou. Infundiu-se um grande temor em todos os que o ouviram isto (At 5, 5). São Paulo também diz que devemos trabalhar em nossa salvação com temor e tremor (Fl, 2, 12).

O medo é útil. É bom que a criança tenha medo de fogo. Isso a mantém fora de perigo. Quando ela não o teme, é a mãe que teme pelo filho. Santo Tomás de Aquino observa que as paixões – e, então, o medo – só são ruins “quando escapam ao governo da razão” [1] . O medo é ruim quando não é regulado pela razão: seja pelo excesso ou pela omissão.

Em excesso, existem medos infundados como a lepidofobia: trata-se do medo de borboletas … Também existem medos bem fundamentados, mas excessivos: é preciso ter medo do fogo, certamente, mas não se pode entrar em pânico. O pânico precipita más decisões, muitas vezes piores do que o temido mal. A razão, ao contrário, tem seu tempo.

Por omissão, também é possível não ter medo: “Não temes a Deus?”(Lc, 23, 40) perguntou acertadamente o bom ladrão ao seu comparsa que atacava Nosso Senhor na Cruz. Muitos homens caminham com imprudência em relação à sua perdição eterna.

O salmista denuncia tanto o excesso quanto a falta do insensato que não acredita em Deus: “O temor de Deus não está diante de seus olhos. […] Eles não invocaram o Senhor; tempo virá em que tremerão de temor. “(Sl 14, 3 e 5)

temor de Deus ocupa um lugar importante nas Escrituras. Ele é o “princípio da Sabedoria” (Sl 110, 10). O salmista nos diz que ele é “santo” e “permanece para todo o sempre” (Sl 18,10), mesmo na bem-aventurada eternidade. É até um dom do Espírito Santo (Is, 11, 3).

Gênese do medo

Longe da opinião moderna que opõe o amor ao medo, Santo Tomás de Aquino coloca o amor na origem de toda paixão e, então, do medo [2] . Com efeito, tememos que um mal atinja um ente querido. Quem não ama não teme. Quanto menos nos apegamos ao dinheiro, menos tememos sua perda inesperada. É assim que Santo Agostinho afirma que “as paixões são boas ou más, dependendo se o amor é bom ou mau.” [3]

Um pouco mais adiante, Santo Agostinho enuncia a conhecida fórmula: “DOIS AMORES ERIGIRAM DUAS CIDADES:  o amor de si até o desprezo de Deus, a cidade terrena, e o amor de Deus até o desprezo a si mesmo, a cidade celestial.” [4] Se existem dois amores, então também existem dois medos: um mundano e um outro divino. Um entre o mundo e nosso corpo, o outro entre Deus e nossa alma.

Mas na origem do amor está o conhecimento. Santo Tomás de Aquino observa que nada é amado que não seja primeiro conhecido [5]. Devemos conhecer o bem para amá-lo e devemos conhecer o mal para temê-lo. Devemos ao menos supor conhecer porque o erro também alimenta o amor e o medo.

Assim, existem também diferentes medos, dependendo do que alimenta nossa inteligência: a mídia ou o sermão. O temor de Deus desaparece quando deixamos de ouvir a pregação das verdades divinas ou de fazer leituras piedosas. Sem dúvida, é útil informar-se com certa medida nos meios de comunicação, mas é justo dar a melhor parte à pregação que nos inspira temor pela nossa eternidade e não pelo que se passa (nesse mundo).

Portanto, o medo se extingue quando a tela é desligada. Às vezes é necessário desligar para não cair na espiral do medo: a informação fomenta o medo e o medo faz com que se busque mais informação. Tanto mais que aquele que teme “acredita que as coisas são mais terríveis do que são” [6]. Os filmes de terror nos provam que existe um desejo mórbido de se ter medo, e esse desejo não afeta apenas a ficção. Sabemos que às vezes que o perigo deve ser silenciado para não causar pânico.

Medo e Providência

Santo Tomás mostra que só tememos o que escapa ao nosso poder [7]. O medroso, portanto, procurará recuperar o controle sobre o mal ou confiar em alguém que o controle.

É natural que o homem busque controlar o que está em seu poder. Deus conferiu ele um poder sobre o mundo que desenvolve por meio da tecnologia, especialmente da medicina. Mas aconteça o que acontecer, sempre haverá uma parte das coisas que estará além de seu conhecimento ou poder: “Quem dentre vos pode acrescentar um côvado à sua estrutura?”(Mt, 6, 27)

A partir de então, devemos reconhecer nossos limites e confiar no Pai Eterno que pode fazer tudo. Com medo, a criança é tranqüilizada por seu pai e o cristão se confia a Deus:

Não vos preocupeis [8] com vossa vida […] olhai as aves do céu […] vosso Pai Celeste as sustenta. Porventura não sois vós muito mais do que elas?(Mt, 6, 25-26)

Essa ideia de abandono a Deus se tornou insuportável para o homem moderno que quer acreditar que pode saber tudo e dominar tudo. Estamos acostumados a um mundo asséptico, onde nada vai além de um quadro estabelecido; tudo é suavizado com a ajuda de tecnologias avançadas, de seguros de todos os tipos e de uma administração poderosa, se não invasiva. Armados com o princípio da precaução, procuramos garantir que nada escape ao controle do homem no estado social paternalista, semelhante a Deus Pai.

Nessa perspectiva, não é mais contraditório expulsar alguns promovendo a eutanásia e proibir outros de morrer, mesmo que isso signifique privá-las de toda liberdade. Esses são apenas dois aspectos de um desejo de controlar o que pertence ao único poder soberano de Deus: a vida e a morte.

Mas quando se torna evidente que o homem é mais hábil em restringir a vida do que evitar a morte, quando ele se mostra impotente para conter um vírus mil vezes menor do que um cabelo, tudo o que resta é cair mais violentamente no medo.

Medo de Deus, medo dos homens

E não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma; mas temei antes aquele que pode lançar no inferno a alma e o corpo. (Mt, 10, 28)

A mesma frase de Nosso Senhor contém as duas injunções contrárias. Não há apenas o famoso “não tenha medo” [9], mas também o “tenha medo”: é um mandamento de Deus. Nosso Senhor nos tranquiliza contra a tanatofobia: o medo de perder nossa vida corporal. Ele nos ordena temer por nossa alma.

O mundo hoje não tem medo de promover e desenvolver o assassinato de bebês durante a gestação, enquanto teme por golfinhos, ursos polares e afins. O medo de revelar o corpo, que se chama de modéstia, desaparece deste mundo enquanto as pessoas se ofendem com qualquer coisa que vá além dos padrões das redes sociais.

Ao contrário, o católico deveria ter menos medo do aquecimento global do que do resfriamento das almas. A descristianização deve preocupá-lo mais do que as tensões sociais ou raciais. Ele deve temer o esgotamento das vocações sacerdotais e religiosas, e não a tirania da opinião e do modo de vida dominante. O católico não deve ter medo de afirmar sua fé por palavras e obras, para que Deus não o reprove por sua fraqueza: “quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos”(Mc, 8, 38). Acima de tudo, ele deve temer a lepra do pecado muito além das doenças físicas.

Nosso tempo está longe da audácia de um São Paulo enfrentando perigos pelo amor das almas: “muitas vezes em viagens, entre perigos de rios, perigos de ladrões, perigos dos da minha nação, perigos dos Gentios, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos dos falsos irmãos, no trabalho e na fadiga, em muitas vigílias, na fome e na sede, em muitos jejuns, no frio e na nudez.“(2 Cor 11,26-27)

Em 1905, ano de combate, o Pe. Janvier OP pregou em Notre-Dame de Paris palavras que parecem ser ditas para o nosso tempo:

[…] O medo dos homens age sobre nossa conduta, impondo-nos atitudes que nossa consciência reprova, a omissão de atos que nossas convicções exigem.

[…] Penetrai nos grupos de nossa sociedade, vereis homens serem obrigados a abandonar seus deveres, a negar sua educação, suas tradições, seus senhores, permanecerem escravos de um punhado de desgraçados dos quais temem. O que a odiosa seita dos maçons não consegue alcançar em nossa geração?

[…] eles temem a crítica de um boletim ruim, a desaprovação de seus eleitores, o que eu sei? A personalidade, a liberdade abandonam-se sob a influência desse sentimento que é decorado com o nome de prudência, que leva à traição, que se chama na psicologia, medo e na moralidade, covardia.

(Pe. Janvier, OP, Exposição da Moral Catolica III – As Paixões, Edição Lethielleux.)

Portanto, não procuremos banir todo o medo, mas busquemos o verdadeiro temor a Deus. O que mais se deve temer é o que um dia Deus dirá de nós: “o temor de Deus não está diante de seus olhos. […] Eles tremiam de medo onde não havia nada a temer.” (Sl 14).

NOTAS:

  1. ST Ia IIæ, q. 24, a. 2
  2. ST Ia IIæ, q. 25, a. 1 e 2.
  3. A Cidade de Deus , l. XIV, ch. 7.
  4. A Cidade de Deus , l. XIV, ch. 28.
  5. Non postest amari nisi cognitum. Ia IIæ, q. 27, a. 2. Santo Tomás retoma Santo Agostinho, citado no mesmo artigo: nullus potest amare aliquid incognitum.
  6. ST Ia IIæ, q. 44, s. 2. corpus.
  7. ST Ia IIæ, q. 42, a. 3: A rigor, não podemos temer o pecado porque ele está em nosso poder, mas devemos temer a tentação.
  8. A exortação para deixar de lado as preocupações é repetida 3 vezes nesta bela passagem do Sermão da Montanha.
  9. “Não tenha medo”, frequentemente aparece na boca do Verbo que se fez carne: quase 12 vezes. Nosso Senhor dá repetidamente a razão para que não haja medo: “Sou Eu“, disse ele.

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