segunda-feira, 26 de julho de 2021

Importância do último fim

 

Caverna em que viveu São Bento

Caverna em que viveu São Bento

Quid prodest homini, si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? – “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26)

Sumário. Eis aí o negócio de todos os negócios, o único importante, o único necessário: o serviço de Deus e a salvação da alma. Quem se salvar, será feliz para sempre e gozará no céu toda a sorte de bens; ao contrário, quem se condenar, será para sempre desgraçado e sofrerá no inferno toda a sorte de males. Mas, como é que este tão importante negócio é tão descuidado da maior parte dos homens?… Ah, meu irmão não sejamos nós do número desses insensatos e não imaginemos que possamos fazer acordar o céu com os pecados.

I. Contempla, meu irmão, de quão grande importância é para ti o conseguires teu último fim. É de uma importância suprema; pois que, se o alcançares e te salvares, serás feliz para sempre, gozarás na alma e no corpo toda a sorte de bens; se, porém, o errares, perderás a alma e o corpo, o céu e Deus; serás eternamente infeliz e condenado para sempre. É este, portanto, o negócio entre todos os negócios, o único importante, o único necessário: Servir a Deus e salvar a alma.

Portanto, meu irmão, não digas mais:

“Por enquanto quero viver para minhas satisfações; mais tarde me darei a Deus e assim espero salvar-me.”

Quantos não foram levados ao inferno por esta falsa esperança! Eles também falavam assim e agora foram condenados e não há mais remédio para eles. – Qual o condenado que se quis condenar? Deus, porém, amaldiçoa ao que peca com a esperança do perdão: Maledictus homo qui peccat in spe. Tu dizes: quero cometer este pecado e depois o confessarei. Mas quem sabe se haverá tempo: quem te garante que não hás de morrer logo depois do pecado? Tu perdes a graça de Deus; e que será se não a puderes mais adquirir? Deus usa de misericórdia com aquele que o teme, não com aquele que o despreza: Et misericórdia eius timentibus eum (1) – “Sua misericórdia é par aos que o temem”.

Não digas mais: com igual facilidade confesso dois pecados como três; não, porque Deus te perdoará dois pecados e não três. Deus suporta, mas não suporta sempre: ut in plenitudine peccatorum puniat (2) – “Afim de castigar na plenitude dos pecados”. Quando estiver cheia a medida, Deus não perdoa mais e castiga ou com a morte, ou com o abandono do pecador, de modo que, ruindo de pecado em pecado, se precipita no inferno. Tal abandono é castigo pior do que a morte.

– Meu irmão, repara bem no que estás lendo. Põe um termo à vida de pecado e consagra-te a Deus, receia que não seja agora o último aviso que Deus te dá. Basta de ofensas; basta de tolerância da parte de Deus. Teme que depois de mais um pecado mortal, Deus talvez não queira mais perdoar-te. Olha, que se trata da alma, que se trata da eternidade.

Este grande pensamento da eternidade – a quantos não fez desapegar-se do mundo, a quantos não fez irem viver num claustro, num deserto ou numa gruta!

II. Considera que o negócio da salvação eterna é o mais descuidado. Pensa-se em todas as coisas, exceto na salvação. Há tempo para tudo, exceto para Deus. Aconselhe-se a uma pessoa mundana que frequente os sacramentos, que faça cada dia meia hora de oração. Responde: Tenho filhos, tenho sobrinhos, tenho propriedades, tenho negócios a tratar. Ó céus! E não tens uma alma? Pois, chama tuas riquezas, chama teus filhos ou sobrinhos para virem em teu auxílio na hora da morte e te livrarem do inferno, se vieres a condenar-te.

Não imagines que possas fazer ir de acordo Deus e o mundo, o céu e os pecados. A salvação não é um negócio que se possa tratar por alto; mister é que te faças violência, mister é que empenhes todas as tuas forças, se quiseres ganhar a coroa imortal. Quantos cristãos se iludiram com a ideia de que mais tarde serviriam a Deus e se salvariam e agora estão no inferno! Que loucura, pensar sempre no que passa tão breve e pensar tão pouco no que nunca terá fim!

Ah! Meu irmão, não sejas do número daqueles insensatos. Se no passado te descuidaste da salvação, começa ao menos agora a pensar seriamente em tua sorte e dize a ti mesmo: tenho uma alma só; se a perder, terei perdido tudo. Tenho uma alma só; se à custa desta minha alma ganhasse o mundo, de que me serviria? Se me tornar uma celebridade, mas perder minha alma, de que me aproveitara? Se amontoar riquezas e engrandecer minhas casa, mas perder a alma, que proveito tirarei? De que serviram as grandezas, os prazeres, as vaidades a tantos que viveram neste mundo e agora ficaram reduzidos a pó numa cova, enquanto sua alma foi relegada ao fundo do inferno? – Se, pois, a alma é minha, se tenho uma alma só, se, perdendo-a uma vez, perco-a para sempre, devo pensar bem seriamente em minha salvação. Este negócio é supremamente importante. Trata-se de ser ou sempre feliz ou sempre infeliz.

Ó meu Deus, confesso, para minha confusão, que até agora fui cego e errei longe de Vos; não pensei em salvar a minha única alma. Ó Pai celestial, salvai-me, pelos méritos de Jesus Cristo: ficarei satisfeito perdendo todas as coisas, contanto que não Vos perca, ó Deus meu! – Maria, minha esperança, salvai-me pela vossa intercessão.

Referências:

(1) Lc 1, 50
(2) 2 Mac 6, 14

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 288-290)

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