quinta-feira, 23 de março de 2023

Os três dias de trevas segundo as Escrituras e autênticos depoimentos de santos

 

Corpo da Beata Anna Maria Taigi, igreja de São Crisógono, Roma.
Corpo da Beata Anna Maria Taigi, igreja de São Crisógono, Roma.












 


 O capitulo final do desfazimento da Revolução bem poderá culminar nos chamados “três dias de trevas”.

Eles têm um fundamento bíblico e foram objeto de comentários e/ou visões de almas santas ou privilegiadas.

A revelação particular mais famosa sobre esses três dias de trevas é atribuída à Bem-aventurada Ana Maria Taigi (1769-1837). Veja: A contemplativa da luta entre a Luz e as Trevas

Nos tempos do Bem-aventurado essa visão já tinha notoriedade. Sua versão mais autorizada se lê no processo de beatificação da Beata Taigi.

Encontra-se no testemunho de Mons. Raffaele Natali, confidente da vidente e anotador de suas visões durante décadas. Ele depôs nestes termos:

“No ano de 1818, a Serva de Deus me descreveu a revolução de Roma e tudo o que aconteceu, e em seguida me falou muitas vezes, de um modo muito mais espantoso, dizendo que havia sido mitigada em atenção às orações de muitas almas amadas por Deus, as quais se tinham oferecido a Ele para satisfazer a Justiça Divina.

“Mas [que viria um dia em que] a iniquidade iria marchar em triunfo e muitos crentes 'bons' haveriam de tirar a máscara.

“Que o Senhor queria denunciar a cizânia, porque logo a seguir Ele saberia o que fazer com ela.

“Que as coisas chegarão a um ponto tal, que o homem não será mais capaz de pô-las em ordem, mas que o braço onipotente de Deus haveria de remediar tudo.

“Que as coisas chegarão a um ponto tal,
que o homem não será mais capaz de pô-las em ordem”.
Detalhe de Tentações de Santo Antão,
Jan Brueghel o Velho (1568 - 1625), Museu Nacional de Escultura, Valladolid
“Disse-me que o flagelo da terra havia sido mitigado, mas não o do Céu, que será horrível, espantoso e universal.

“Que Nosso Senhor não o tinha comunicado nem às suas almas mais amadas na terra. Que haveria de chegar inesperadamente e que os ímpios haveriam de ser destruídos.

“Mas que antes de dito castigo, todas as almas que na sua época gozavam de fama de santidade teriam sido sepultadas.

“Que numerosos milhões de homens haveriam de morrer por causa do ferro nas guerras, outra parte em conflitos e outros milhões em mortes imprevistas — entende-se que por todo o mundo.

“Que, em consequência, nações inteiras haveriam de retornar à unidade da Igreja Católica, muitos turcos, gentios e hebreus haveriam de se converter e que os cristãos haveriam de ficar estupefatos, confundidos e admirados vendo seu fervor e observância.

“Numa palavra, ela me disse que o Senhor queria purgar o mundo e Sua Igreja, para o qual preparava uma nova safra de almas que, desconhecidas, haveriam de realizar grandes obras e surpreendentes milagres.

“Disse-me que, depois de a terra ter sido purificada com guerras, revoluções e outras calamidades, começaria o castigo do Céu, o qual culminaria com uma convulsão geral de fenômenos meteorológicos dos mais espantosos trazendo grande mortalidade.

“A Serva de Deus me disse várias vezes que o Senhor lhe fez ver no misterioso Sol o triunfo universal da nova Igreja, tão grande e surpreendente que não podia explicá-lo”

(Proc. Ord. fol. 695-696 apud Mons. Carlo Salotti“La Beata Anna Maria Taigi secondo la storia e la critica”, Libreria Editrice Religiosa, Roma, 1922, 423 págs., pp. 340-342).

Durante grande parte de sua vida, a bem-aventurada Taigi teve sempre presente diante de si um disco dourado, semelhante a um sol, no qual via representados acontecimentos presentes ou futuros.

(cfr. Mons. Carlo Salotti, “La Beata Anna Maria Taigi secondo la storia e la critica — Madre di famiglia e terziaria dell'Ordine della Ss. Trinità”, Libreria Editrice Religiosa, Roma — Scuola tipografica italo-orientale S. Nilo , Grottaferrata, 1922, 423 pp.).




Os três dias de trevas (segunda parte)


O B. Palau comentou com certo pormenor a visão dos
“três dias de trevas”atribuída à Beata Taigi, aproveitando a
versão que havia chegado às suas mãos:

“O fato, escreveu, se anuncia da seguinte forma: enquanto num dia claro e sereno o sol estará em seu percurso, repentinamente se farão trevas tão densas que poderão ser apalpadas e tocadas, as quais cobrirão a face da terra.

“O céu se apresentará sob um aspecto tão espantoso que, vendo-o, as pessoas fugirão e se esconderão no mais recôndito de suas casas, fechando portas e janelas como no momento de uma tempestade arrepiadora.

“Espectros horripilantes aparecerão nos ares, dando uivos espantosos. Se por um momento a lua abrir caminho entre as trevas, apresentar-se-á vestida de sangue para quem tenha coragem de olhá-la.

“Esses serão dias de ira e de maldição, dias em que o anjo exterminador, como a morte montada em corcel acompanhado pelo inferno, visitará a casa do ímpio, do incrédulo, desse homem que cheio de arrogância desafia a onipotência de Deus, assim como visitou o Egito matando numa noite seus filhos varões primogênitos.

“Perecerão de espanto muitíssimas pessoas, que acreditarão ter chegado o mundo a seu fim, e sentir-se-ão envolvidas por uma noite eterna.

“Horrendas convulsões da natureza anunciarão que Deus seu autor está irritado, e à maneira como uma mulher energúmena se contorce quando o espírito de maldade é expulso de seu corpo, assim a natureza, no ato de expelir de seu seio esses anjos revolucionários, que unidos ao homem iniquo transtornam todas as leis, fará sentir que chegou a hora suprema da renovação.

“Entrando nas casas do ímpio, a morte passará velozmente e com seu alfanje segará anciãos, crianças, homens, mulheres.

“Quem ficar com vida, procurará luz para ver os cadáveres, e o relâmpago descobrirá o rosto amarelo da esposa, da filha, do irmão, do pai.

“Tentará auxiliar o moribundo, procurará fogo, e este se negará a dar luz e calor.

“O justo, aquele que acredita, acenderá a luz e esta arderá ante o Senhor, enquanto orará prosternado por terra, aguardando que o Deus das vinganças conclua sua visita e venha a sua misericórdia.

El Ermitaño 119, carátula
El Ermitaño nº119, carátula
El Ermitaño nº 119, três días de trevas
El Ermitaño nº 119, três días de trevas

“Fechará portas e janelas, e recolhido no oratório com sua família, fazendo jejum, oração e penitência, humilhar-se-á ante o Juiz que castiga o delinquente, enquanto o ímpio perecerá com sua impiedade.

“Nesses três dias será Deus quem batalhará contra os insensatos que agora insultam a sua onipotência.

“O orbe inteiro acompanhá-lo-á montado, para confirmar a verdade católica.

“E retirando-se do campo de batalha, vencedor e triunfante sobre as trevas, jogará os espíritos que as produzem ao fogo eterno do inferno”. (“Tres días de tinieblas sobre el orbe entero”, El Ermitaño, Nº 119, 16-2-1871).

E no número 155 de El Ermitaño, o bem-aventurado carmelita retomava o tema:

“Do processo da própria venerável Taigi foi tirada a predição dos dois grandes castigos, um do céu e outro da terra.

“Terminado este último, que consistirá em guerras, revoluções e outras calamidades, virá o do céu, que segundo outra profecia da mesma Taigi, se explica assim:

“Grandes trevas deverão vir e estender-se por todo o mundo durante três dias e três noites.

“Serão tão espessas, que não se verá absolutamente nada, sendo ao mesmo tempo pestilenciais, e ferirão sobretudo aos inimigos da Religião, sem que por isso se acredite que o açoite atacará somente a esses.

“Enquanto durar, luz alguma fornecerá claridade, fogo algum poderá brilhar e só as pessoas que tiverem velas bentas poderão ver.

Paris em ruínas. Conceito artístico
“Recomenda-se não tratar de penetrar na escuridão do céu durante as trevas, porque toda pessoa que se puser na janela ou sair de sua casa para tentar descobrir o que está acontecendo no firmamento, ficará fulminada no ato.

“Durante todo o tempo que durar a prova se deverá passar em oração, e sobretudo rezar o santo Rosário e aguardar, num estado de prova e de humilhações, que o Senhor nos conceda de novo a sua misericórdia.”

“O próprio diretor espiritual da venerável Taigi, Mons. Raffaele Natali, dizia, em agosto de 1864:

“É muito verdadeiro que a venerável Serva de Deus anunciou o açoite dos três dias de trevas espalhado sobre toda a terra...

“Nestas circunstâncias, as janelas deverão ficar fechadas, devendo-se evitar debruçar sobre elas, e será imperioso rezar o santo Rosário e fazer oração.”

“Ignoramos que caráter têm essas predições, porque não sabemos o que a Igreja, única autoridade na matéria, declarou sobre elas.

“É certo que Deus não precisa de meios extraordinários para dar o triunfo à Igreja, mas também é verdadeiro que em seus inescrutáveis desígnios pode querer confundir com prodígios a soberbia e a maldade de seus inimigos.” (“Tres dias de tinieblas”, El Ermitaño, Nº 155, 26-10-1871)

Primeiros “três dias de trevas”: a nona praga do Egito (capítulo X do Êxodo)


Indagava então o santo carmelita: “Isto prega a venerável Taigi. Acontecerá? Poderá ser? Quando? Se vai suceder, em que época se dará?

“Responderemos expondo simplesmente a nossa opinião, filha de profundas meditações.

“1º) Isso aconteceu uma vez, logo pode vir a ser em outra época em que convenha à gloria de Deus. Lê-se no cap. X do Êxodo: Disse Deus a Moisés, estende tua mão ao céu e desçam trevas tão densas que possam ser apalpadas.

“Estendeu Moisés sua mão em direção ao céu, e apareceram horripilantes trevas sobre todas as regiões do Egito, e duraram três dias, de maneira que cada um ficou imóvel onde se encontrava.

“Um homem não via o outro. Só havia luz onde moravam os filhos de Israel”. (“Tres dias de tinieblas sobre el orbe entero”, El Ermitaño, Nº 119, 16-2-1871).

21. O Senhor disse a Moisés: “Estende a mão para o céu, e que se formem sobre todo o Egito trevas (tão espessas) que se possam apalpar.”

22. Moisés estendeu a mão para o céu, e durante três dias espessas trevas cobriram todo o Egito.

23. Durante esses três dias, não se via um ao outro, e ninguém se levantou do lugar onde estava. Ao passo que todos os israelitas tinham luz nos lugares onde habitavam.

24. O faraó mandou chamar Moisés e disse-lhe: “Ide fazer vossas devoções ao Senhor. Somente vossas ovelhas e vossos bois ficarão neste lugar; podeis levar convosco vossos filhinhos.”

25. Moisés respondeu: “Tu mesmo nos porás nas mãos o que precisamos para oferecermos sacrifícios e holocaustos ao Senhor, nosso Deus.

26. Além disso, nossos animais virão conosco; nem uma unha ficará, porque é deles que devemos tomar o que precisamos para fazer nosso culto ao Senhor, nosso Deus. Enquanto não tivermos chegado lá, não sabemos de que nos serviremos para prestar nosso culto ao Senhor.”

27. Mas o Senhor endureceu o coração do faraó, que não quis deixá-los partir. (Êxodo, 10, 21-27)


Moisés estende os braços e o Egito se enche de trevas durante três dias e três noites
infestadas de espectros enlouquecedores.
Gustave Doré (1832 — 1883) , gravura para o Antigo Testamento
No capítulo 17, o Livro da Sabedoria descreve com pormenor o que aconteceu durante os três dias de trevas com que Deus flagelou os egípcios por meio de Moisés:

Sabedoria, 17

1. Em verdade, grandes e impenetráveis são vossos juízos, Senhor; por isso as almas grosseiras caíram no erro.

2. Por terem acreditado que podiam oprimir a santa nação, os ímpios, prisioneiros das trevas e encarcerados por uma longa noite, jaziam encerrados nas suas casas, tentando escapar à vossa incessante vigilância.

3. Depois de terem imaginado que, com seus secretos pecados, ficariam escondidos sob o sombrio véu do esquecimento, eles se viram dispersados, como presa de um terrível espanto, e amedrontados por alucinações.

4. Mesmo o canto mais afastado em que se abrigavam não os punha ao abrigo do terror: ruídos aterradores ressoavam em torno deles, e taciturnos espectros de lúgubre aspecto lhes apareciam.

5. Nenhuma chama, por intensa que fosse, chegava a iluminar. E a luz brilhante dos astros era impotente para alumiar esta noite sombria.

6. Mas aparecia-lhes de súbito nada mais que uma chama aterradora, e, tomados de terror por esta visão fugitiva, julgavam essas aparições mais terríveis ainda.

7. A arte dos mágicos se mostrou ilusória, e esta sabedoria, a que eles pretendiam, evidenciou-se vergonhosamente como falsidade.

8. Aqueles que se jactavam de banir das almas doentes o terror e a perturbação, eram eles mesmos atormentados por um ridículo temor.

9. Mesmo quando nada de mais grave os aterrorizava, a passagem dos animais e o silvo das serpentes punham-nos fora de si, e eles morriam de medo. Recusavam até mesmo contemplar essa atmosfera à qual nada podia escapar;

10. porque a maldade, condenada por seu próprio testemunho, é medrosa, e, sob o peso da consciência, supõe sempre o pior,

11. pois o temor não é outra coisa que a privação dos socorros trazidos pela reflexão,

12. porque, quanto menor for em sua alma a esperança de auxílio, tanto mais penosa é a ignorância daquilo de que se tem medo.

13. Eles, durante essa noite de impotência, saída dos recantos do Hades impotente, dormiam num mesmo sono,

14. agitados, de um lado, pelo terror dos espectros, e paralisados, de outro, pelo desfalecimento da alma; pois era um pavor repentino e inesperado o que se abatera sobre eles.

15. E todo aquele que caía sem força, ficava como que preso e encerrado num cárcere sem ferros.

16. Fosse ele camponês ou pastor, ou o operário que se afadiga sozinho no seu trabalho, uma vez surpreendido, tinha de suportar a inevitável necessidade, porque todos estavam ligados por uma mesma cadeia de trevas.

17. O silvo do vento, o canto harmonioso dos passarinhos nos ramos espessos, o murmúrio da água correndo precipitadamente, o estrondo das rochas que se despenhavam,

18. a carreira invisível dos animais que saltavam, os urros dos animais selvagens, o eco que repercutia nas cavidades dos montes: tudo os paralisava de terror.

19. Enquanto o mundo inteiro era alumiado de uma brilhante luz, e sem obstáculo se entregava às suas ocupações,

20. somente sobre eles se estendia uma pesada noite, imagem das trevas que mais tarde os deviam acolher; e eram para si mesmos um peso mais insuportável que esta escuridão.



Os "três dias de trevas" que estão para vir segundo os profetas Isaías, Ezequiel e Joel


Isaías profeta. Vitral da catedral de Edinburgo, Escócia.
Isaías profeta. Vitral da catedral de Edinburgo, Escócia.
“Aquilo que Deus fez pelas mãos de Moisés no Egito pode agora renová-lo no mundo inteiro pelas mãos de um outro homem?, perguntou-se o Beato Palau. E respondeu:

“Sim, pode. Fá-lo-á? Sim. Como se sabe?

“Ouçamos os profetas.

Diz Isaías, cap. XIII: ‘Eis que vem o dia do Senhor, cruel, cheio de indignação, ira e furor. Reduzirá a terra a uma solidão, e exterminará dela os maus.

“As estrelas negarão sua luz, o sol no momento de nascer ficará nas trevas e a lua se vestirá de luto.

“Nesse dia visitarei a maldade do orbe inteiro e minha visita será contra a iniquidade do ímpio. Cessará a soberba dos infiéis, e humilharei a arrogância dos fortes’.

Ezequiel cap. XXXII, descrevendo o castigo do ímpio, diz: ‘o céu ficará encoberto e as estrelas encapotadas com um véu negro.

“A nuvem esconderá o sol e a lua não dará luz, desaparecerá a luz de todos os astros do céu e espalharei as trevas sobre tuas terras’.

Joel, cap. II: ‘haverá no céu prodígios grandes e a terra se encherá de sangue, fogo e vapor de fumaça.

“O sol se converterá em trevas, e a lua se vestirá de sangue, antes que venha o dia do Senhor grande e horrível” (“Tres dias de tinieblas sobre el orbe entero”, El Ermitaño, Nº 119, 16-2-1871).

O B. Palau supunha que o demônio interviria de modo destacado no início dos castigos como instrumento dos mesmos.

Mas, na medida em que eles avançassem, a participação angélica e do próprio Deus se tornariam dominantes. Esses três dias de trevas acontecerão na parte final dos castigos.

E sua mais profunda razão de ser consistiria em confirmar a missão do enviado de Deus:

“De que serviriam os três dias de trevas tais como os prediz a venerável Taigi, se não fossem sinais para dar crédito a uma missão, como o foram as trevas que Moisés atraiu contra os egípcios?

“Sem a mão de um profeta produziriam o mesmo efeito que as epidemias e as guerras.

“Para que o ímpio não as atribua à pura obra da natureza, será necessária uma voz apostólica que as mande e as retire para dar crédito à onipotência do Deus dos católicos, e a verdade do poder da Igreja” (“La cruz”, El Ermitaño, Nº 159, 23-11-1871).

Nessa perspectiva, os três dias de trevas constituiriam o lance determinante da vitória final da Igreja.

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