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sábado, 9 de julho de 2016

O Vaticano II em perguntas e respostas


Quando aconteceu o Concílio Vaticano II?
O Vaticano II foi aberto pelo Papa João XXIII em 11 de outubro de 1962. João XXIII morreu no ano seguinte; mas seu sucessor, Paulo VI, continuou o Concílio e encerrou-o em 8 de dezembro de 1965.

O Concílio durou mais de três anos ininterruptos?
O Concílio Vaticano II compreendeu quatro sessões de menos de três meses, em cujo intervalo os bispos retornavam às suas dioceses. A primeira sessão (11 de outubro a 8 de dezembro de 1962) – a única que se deu no pontificado de João XXIII – não promulgou nenhum documento: dedicaram-se, sobretudo, a descartar o trabalho da Comissão Preparatória.

Qual é o lugar do Vaticano II entre os demais concílios?
O Vaticano II foi o 21° Concílio Ecumênico. Foi, quanto ao número de participantes, o mais importante de toda a História: dois mil bispos ali se reuniram.

Em que o Concílio Vaticano II difere dos Concílios anteriores?
O Concílio Vaticano II declarou não querer ser mais que um “Concílio Pastoral”, que não define as questões de Fé, mas dá diretivas pastorais para a vida da Igreja. Renunciou à definição de dogmas e assim, à infalibilidade que pertence a um Concílio. Seus documentos não são, portanto, infalíveis.

Quais são os objetos ordinários de um Concílio?
Na sua carta de convocação do primeiro Concílio do Vaticano, Pio IX indica que os Concílios Gerais foram convocados, sobretudo “nas épocas de grandes perturbações, quando calamidades de todo gênero se batiam sobre a Igreja e sobre os povos”. Todos os Concílios Ecumênicos do passado foram convocados para vir ao encalço de uma heresia (como foi o caso dos sete primeiros), ou para corrigir um mal então dominante (simonia, cisma, corrupção do clero, etc). Pio IX resume assim os principais fins de um Concílio:
“Decidir com prudência e sabedoria, tudo o que poderia contribuir para definir os dogmas da Fé; para condenar os erros que se espalham insidiosamente; para defender, colocar à luz, explicitar a Doutrina Católica; para conservar e reorganizar a disciplina eclesiástica; para corrigir os modos corrompidos da população.” (Bula de Convocação para o Concílio Vaticano I. AAS, 1868, vol IV, p.5.)

Nunca houve, então, outro Concílio “pastoral” antes do Vaticano II?
Todos os Concílios da Igreja foram pastorais. Mas o foram definindo os dogmas; desmascarando os erros; defendendo a Doutrina Católica; e lutando contra as desordens disciplinares e morais. A originalidade do Vaticano II foi a de querer ser “pastoral” de uma maneira nova, recusando-se a definir dogmas, a condenar erros, e mesmo a apresentar a Doutrina Católica de modo defensivo.

O Vaticano II não promulgou documentos dogmáticos?
O Vaticano II promulgou dezesseis textos: nove decretos, três declarações e quatro constituições. Dentre estas, duas são ditas “Constituições Dogmáticas”: Lumen Gentium(sobre a Igreja) e Dei Verbum (sobre a Revelação). Isso não significa que tenham proclamado dogmas ou que sejam infalíveis, mas apenas que tratam de uma matéria referente ao dogma. O Vaticano II se recusou a definir o que quer que seja de modo infalível; Paulo VI o sublinhou explicitamente em 12 de janeiro de 1966, algumas semanas após seu encerramento:
“Tendo em vista o caráter pastoral do Concílio, este evitou proclamar de modo extraordinário dogmas dotados da nota da infalibilidade.”

A “pastoralidade” do Vaticano II caracteriza-se pela adaptação da Igreja ao nosso tempo?
Todos os Concílios adaptaram a Igreja ao seu tempo. Mas o fizeram anatematizando os erros do dia; punindo os desvios morais ou disciplinares da época; armando a Igreja contra seus inimigos. A adaptação não visava a se conformar com o século, mas a melhor resistir-lhe. Não se tratava de agradar ao mundo, mas de confrontar e de o vencer, para agradar a Deus. João XXIII e Paulo VI procuraram, ao contrário, tornar a Igreja Católica sedutora para o homem moderno.

João XXIII e Paulo VI exprimiram essa intenção?
João XXIII declarou, em 14 de fevereiro de 1960:
“O fim primeiro e imediato do Concílio é o de apresentar ao mundo a Igreja de Deus, no seu perpétuo vigor de vida e de Verdade, e com sua legislação adaptada às circunstancias presentes, de modo a ser sempre mais conforme à sua divina missão e estar sempre mais pronta para as necessidades de hoje e de amanhã. Em seguida, se os irmãos que se separaram e que ainda estão divididos entre si virem se concretizar o comum desejo de unidade, poderemos lhes dizer então, com uma viva emoção: é a vossa casa; a casa daqueles de trazem o sinal de Cristo.” (João XXIII, discurso ao Conselho Geral da Ação Católica Italiana, em 14 de fevereiro de 1960).
O Cardeal Montini, futuro Paulo VI, declarava, em abril de 1962:
“A Igreja se propõe, pelo próximo Concílio, a entrar em contato com o mundo (...) Ela se esforçará para ser (...) amável em sua linguagem e na sua maneira de ser.”
E, durante o Concílio, Paulo VI afirmava, em sua encíclica Ecclesiam Suam:
“A Igreja poderia se propor a realçar os males que podem se encontrar no mundo, a pronunciar anátemas e suscitar cruzadas contra eles (...); parecem nos, ao contrário, que a relação da Igreja com o mundo (...) pode se exprimir melhor sob a forma de um diálogo” (§80).

O Vaticano II se quis, desde o início, portanto, como um Concílio de abertura e diálogo?
De fato, os membros da Comissão Preparatória estabelecida por João XXIII, pensavam dever organizar um Concílio normal. Tiveram um enorme trabalho para esboçar esquemas que pudessem servir de base aos debates conciliares. Mas, durante esse tempo, o Secretariado para Unidade dos Cristãos igualmente estabelecido por João XXIII (em junho de 1960), trabalhava em outro sentido. Finalmente, a verdadeira intenção de João XXIII prevaleceu: no início do Concílio, livraram se dos esquemas preparatórios, julgados demasiado “doutrinais”, e o Concílio se comprometeu com a via preparada pelo Secretariado de Unidade.

Como o Secretariado para a Unidade preparou o Concílio?
Sobre a presidência do Cardeal Bea, o Secretariado para a Unidade preparou o Concílio perguntando aos católicos o que esperavam da Igreja. Estabeleceu contatos com os ortodoxos, os protestantes, os judeus, os comunistas e os maçons, e comprometeu-se mesmo a que alguns de seus desiderata fossem satisfeitos.

Quais foram as exigências dos ortodoxos e dos comunistas?
Para contar com a presença de observadores ortodoxos no Concílio, João XXIII se comprometeu à não condenação do comunismo no Concílio. Monsenhor Roche, amigo e confidente do Cardeal Tisserant, testemunha: “O Cardeal Tisserant recebeu ordens formais tanto para negociar o acordo como para supervisionar sua exata execução durante o Concílio. Foi assim que, a cada vez queria abordar a questão do comunismo, o Cardeal, de sua mesa do Conselho da Presidência, intervinha”. (Itinéraires 285, p.157.)

Quais foram os pedidos dos judeus?
No número 1001 da Tribune Juive (1987), Lazare Landau conta:
“Numa noite brumosa e glacial de inverno de 1962-63, atendi a um convite extraordinário no Centro Comunitário da Paz, em Estrasburgo. Os dirigentes judeus recebiam, em segredo, no subsolo, um enviado do papa. Na saída do Shabat, éramos uma dezena para acolher um dominicano de vestimenta branca, o reverendo padre Yves Congar, encarregado pelo Cardeal Bea, em nome de João XXIII, de nos perguntar, no início do Concílio, o que esperávamos da Igreja Católica (...)”.
“Os judeus, mantidos há vinte séculos à margem da sociedade cristã, frequentemente tratados como subalternos, inimigos e deicidas, pediam sua completa reabilitação. Provindos, em linhagem direta, do tronco abrâmico, de onde saiu o Cristianismo, pediam para serem considerados como irmãos, parceiros de igual dignidade, da Igreja Cristã (...).”
“O mensageiro branco – despojado de qualquer símbolo ou ornamento – retornou a Roma, portador das inumeráveis solicitações que reforçavam as nossas. Depois de debates difíceis (...), o Concílio atendeu as nossas expectativas. A declaração Nostra Aetate n° 4 constituiu – Padre Congar e três redatores do texto me confirmaram – uma verdadeira revolução na doutrina na Igreja sobre os judeus (...)”.
“Homilias e catecismos mudariam em poucos anos (...). Desde a visita secreta do Padre Congar, num lugar escondido da sinagoga, durante uma noite muito fria de inverno, a doutrina da Igreja tinha conhecido uma total mutação.”

Quais foram os pedidos dos protestantes e dos maçons?
Em setembro de 1961, o Cardeal Bea encontrou, secretamente, em Milão, o Pastor Willem A. Visser’t Hooft, secretário-geral do Conselho Ecumênico de Igrejas (organismo de origem protestante, de tendência maçônica). A liberdade religiosa foi um dos temas mais importantes do encontro. Mas tarde, em 22 de julho de 1965, na véspera da última sessão conciliar, o mesmo Conselho Ecumênico de Igrejas publicou a lista de suas sete exigências fundamentais em matéria de liberdade religiosa. Todas foram satisfeitas pelo Concílio no documentoDignitatis Humanae.

Que conclusões se pode tirar dessa política de abertura levada a cabo pelo Concílio Vaticano II?
Percebe-se claramente que o Vaticano II não foi um Concílio como os demais. Os textos que promulgou, fruto de um “diálogo” com o mundo, são mais textos diplomáticos ou “publicitários” (destinados a dar uma boa imagem a Igreja) do que textos magisteriais (ensinando com autoridade e precisão Verdades de Fé). Nenhum dos textos conciliares é, de si, infalível.

Qual foi a influencia desse Concílio na Crise da Igreja?
As forças liberais e modernistas, que já minavam a Igreja, conseguiram colocar as mãos sobre o Concílio Vaticano II. Pode-se então dizer, que o Vaticano II foi a faísca que deflagrou uma crise que se preparava já de longa data na Igreja.
A quando podem-se remontar as origens dessa crise?
São Pio X já constatava na encíclica Pascendi, que o modernismo não era um inimigo exterior à Igreja, mas que havia penetrado no interior, apesar de seus adeptos ainda esconderem suas verdadeiras intenções.

O Papa São Pio X não combateu vigorosamente esses modernistas?
São Pio X combateu o modernismo energicamente. Seus sucessores até Pio XII fizeram o mesmo, com mais ou menos vigor; mas não conseguiram verdadeiramente vencê-los. A Encíclica Humani Generis, de Pio XII, condenando o que se chamou “Nova Teologia” (1950), foi aceita exteriormente; mas, nas realidade foi desprezada por muitos. Continuaram a se interessar nas teses condenadas e, nas casas de formação, encorajavam se os futuros padres a fazer o mesmo.

Pode-se dizer que o Vaticano II foi uma revolução na Igreja?
Que o Concílio foi uma revolução na Igreja, alguns de seus defensores clamam-no, eles mesmos. Assim, o Cardeal Suenens fez um paralelo entre o Concílio e a Revolução Francesa, dizendo que o Vaticano II havia sido o 1789 na Igreja. O Padre Yves Congar, teólogo conciliar, comparou o Concílio à Revolução bolchevique: “A Igreja fez pacificamente sua Revolução de Outubro.” (Yves Congar, O.P. Le Concile au jour Le jour. Deuxième session, Paris, 1964, p.215)

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