quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Vida de tribulações que Jesus Cristo começou a levar desde o seu nascimento

 

Jesus Cristo, o Homem das Dores

Jesus Cristo, o Homem das Dores

Tire o maior proveito desta Meditação seguindo os passos

Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus – “A minha vida tem desfalecido com a dor, e os meus anos com os gemidos” (Sl 30, 11)

Sumário. A vida de Jesus Cristo foi um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, porque tinha continuamente diante dos olhos todas as dores que haviam de atormentá-Lo até à morte. Entre todas aquelas dores, porém, a que mais o afligiu, foi a previsão dos nossos pecados e da nossa ingratidão depois de tamanho amor da sua parte. É, pois, verdade, ó Jesus, que com os meus pecados Vos tenho causado aflição durante toda a vossa vida!

I. Jesus Cristo podia salvar-nos sem padecer nem morrer; mas não quis. A fim de nos fazer conhecer até que ponto nos amava, quis escolher uma vida toda de tribulações. Por isso, o profeta Isaías o chamou: virum dolorum — “Homem das dores”, porque a vida de Jesus Cristo devia ser uma vida toda cheia de dores. A sua Paixão não teve seu princípio no tempo da sua morte, mas sim, no começo da sua vida.

Vede que Jesus, apenas nascido, é posto na manjedoura de uma estrebaria, onde tudo concorria para o atormentar. É atormentado na vista, que não descobre na gruta senão paredes grosseiras e negras. É atormentado no olfato, pelo fedor das imundícies dos animais que ali se acham. É atormentado no tato, pelas picadas da palha que lhe servia de cama. Pouco depois de nascido, vê-se obrigado a fugir para o Egito, onde passou vários anos da infância, na pobreza e no desprezo. Nem diferente foi a sua vida depois em Nazaré; e eis que finalmente termina a sua vida em Jerusalém, morrendo sobre uma cruz, pela veemência dos tormentos.

De sorte que a vida de Jesus foi um martírio contínuo, e mesmo um duplo martírio, por ter sempre diante dos olhos todos os sofrimentos que em seguida deviam atormentá-Lo até à morte. À soror Maria Madalena Orsini, queixando-se um dia a Jesus crucificado, disse-lhe:

“Mas, Senhor, Vós passastes somente três horas pregado na cruz, ao passo que eu já estou sofrendo vários anos” Jesus, porém respondeu-lhe: “Ó ignorante! Que estás dizendo? Desde antes de nascer sofri todas as dores da minha vida e da minha morte.”

II. Não foram precisamente as dores futuras que atormentaram Jesus Cristo, visto que de livre vontade aceitara os padecimentos. O que O afligiu foi a previsão dos nossos pecados e da nossa ingratidão depois de tão grande amor seu. Santa Margarida de Cortona não se cansava de chorar as ofensas feitas a Deus, até que um dia o confessor lhe disse: “Margarida, basta; não chores mais porque Deus já te perdoou.” A Santa, porém, respondeu: “Ah, meu Pai, como poderei deixar de chorar, sabendo que os meu pecados têm afligido o meu Jesus durante sua vida toda?

É, pois, verdade, ó meu doce Amor, que eu também, pelos meus pecados, Vos tenho afligido todo o tempo da vossa vida? Dizei-me agora, ó meu Jesus, o que tenho de fazer, para me poderdes perdoar; que de boa vontade o hei de fazer. Arrependo-me, ó Bem supremo, de todas as ofensas que Vos tenho feito. Arrependo-me e amo-Vos mais do que a mim mesmo. Sinto-me com um grande desejo de Vos amar, sois Vós que me destes este desejo; dai-me portanto também forças para Vos amar muito. Justo é que Vos ame muito, eu que tantas vezes Vos tenho ofendido.

Lembrai-me sempre o amor que me tendes mostrado, a fim de que a minha alma esteja sempre abrasada em vosso amor, sempre pense em Vós, não suspire senão por Vós, e só a Vós procure agradar. Ó Deus de amor, a Vós me entrego todo, eu que em outros tempos fui escravo do inferno. Aceitai-me por piedade e prendei-me com os laços de vosso amor. Meu Jesus, para o futuro quero sempre viver amando-Vos, e amando-Vos quero morrer.

Ó Maria, Mãe e Esperança minha, ajudai-me a amar o vosso e meu Deus amado; é esta a única graça que vos peço e de vós a espero.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 99-101)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Na Cruz acha-se a nossa Salvação

 Na Cruz acha-se a nossa Salvação

Lignum vitae est his, qui apprehenderint eam; et qui tenuerit eam, beatus – “É árvore de vida para aqueles que lançarem mão dela; e é bem-aventurado quem a não largar” (Pv 3, 18)

Sumário. Se quisermos salvar-nos, é mister que nos resolvamos a carregar com paciência a cruz que Deus nos manda, e a morrer nela por amor de Jesus Cristo, assim como Ele morreu na cruz por nosso amor. É este também o meio para acharmos a paz nos sofrimentos. Quem recusa aceitar a cruz, de ordinário aumenta-lhe o peso; ao passo que quem a abraça e carrega com paciência, tira-lhe o peso e converte-a em consolação.

I. Na cruz acha-se a nossa salvação, a nossa força contra as tentações, o desapego dos prazeres terrestres; na cruz, em suma, acha-se o verdadeiro amor de Deus. Mister é, pois, que nos resolvamos a carregar com paciência a cruz que Deus nos envia e a morrermos nela por amor de Jesus Cristo, que morreu na sua por nosso amor. Não há outro caminho por onde se entra no céu, senão o da resignação nas tribulações até à morte. — O meio para acharmos a paz nos próprios padecimentos é a uniformidade com a vontade divina. Se não usarmos deste meio, dirijamo-nos aonde quisermos, façamos quanto pudermos, não conseguiremos subtrair-nos ao peso da cruz. Ao contrário, se a carregarmos de boa vontade, a cruz nos levará ao céu, e nos dará a paz nesta terra.

Que é o que faz quem rejeita a cruz? Aumenta-lhe o peso. Mas quem a abraça e carrega com paciência alivia-a e converte-a em doçura. Deus é profuso com as suas graças para com todos aqueles que de boa vontade carregam a cruz para lhe agradarem. O padecimento não apraz a nossa natureza; mas quando o amor divino reina num coração, fá-lo aceitável. — Ah! Se considerássemos bem o estado de felicidade que gozaremos no paraíso, se formos fiéis a Deus em sofrermos sem lamentos os trabalhos da vida, de certo não nos queixaríamos de Deus quando nos envia cruzes. Antes havíamos de lh´as agradecer, e até havíamos de pedir mais sofrimentos ainda. — Se somos pecadores, devemo-nos consolar nas tribulações que vierem e pensar que Deus nos castiga na vida presente; porque é isso sinal certo de que Deus quer livrar-nos do castigo eterno. Ai do pecador que goza de prosperidade na terra! Quem tiver de sofrer alguma grave tribulação, lance um olhar no inferno merecido e toda a pena se-lhe afigurará leve.

II. Se quisermos ser santos, devemos transformar o nosso gosto. Enquanto não chegarmos a achar doce o que é amargoso, e amargoso o que é doce, nunca nos poderemos unir perfeitamente com Deus. Toda a nossa segurança e perfeição está em sofrermos com resignação todas as contrariedades que nos vierem cada dia, e em sofrermo-las para agrado de Deus, o que constitui o fim principal e mais nobre que possamos ter em mira em todas as nossas obras.

Portanto, ofereçamo-nos sempre a Deus, prontos a carregar toda a cruz que nos queira enviar. Conservemo-nos sempre preparados para sofrer por seu amor todo o trabalho, a fim de que, quando nos venha algum, estejamos prontos a abraçá-lo. — Quando se nos afigurar mais duro o peso da cruz, recorramos logo à oração, para que Deus nos dê força para a carregarmos com merecimento. Avivemos então, mais do que nunca, a nossa fé, e lancemos um olhar sobre Jesus crucificado que está agonizando na cruz por nosso amor. Lancemos também um olhar para o céu e lembremo-nos do que diz São Paulo, a saber, que toda a tribulação terrestre, por mais dura que seja, não está em proporção com a glória que Deus nos prepara na vida futura (1).

Ó meu Jesus, quanto consolo me dá a vossa palavra: Convertimini ad me, et convertar ad vos (2) — “Convertei-vos a mim, e eu me converterei a vós”. Eu Vos deixei por amor às criaturas e às minhas míseras satisfações; mas agora que deixo tudo e me converto a Vós, estou certo de que não me repelireis, uma vez que Vos quero amar. Recebei-me na vossa graça e fazei-me conhecer o grande bem que sois e o amor que me tendes, a fim de que nunca mais me aparte de Vós. Jesus meu, perdoai-me os desgostos que Vos tenho dado, fazei que Vos ame sempre e nada mais quero. — Ó Maria, recomendai-me a vosso Filho; Ele vos concede quanto Lhe pedis; em vós confio.

Referências:

(1) Rm 8, 18
(2) Zc 1, 3

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 38-40)

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Retrato de um homem que acaba de passar a outra vida

 Retrato de um homem que acaba de passar à outra vida

Auferes spiritum eorum, et deficient, et in pulverem suum revertentur – “Tirar-lhes-ás o espírito, e deixarão de ser, e tornar-se-ão no seu pó” (Sl 103, 29)

Sumário. Imaginemos que estamos vendo uma pessoa que acaba de expirar. Contemplemos nesse cadáver a cabeça pendida sobre o peito, o cabelo desgrenhado, os olhos encovados, as faces descarnadas, o rosto cinzento, a língua e os lábios cor de ferro, o corpo frio e pesado. Quantas pessoas, à vista de um parente ou de um amigo morto, não mudaram de vida e deixaram o mundo!

I. Imagina que estás vendo uma pessoa que acaba de exalar o ultimo suspiro. Contempla esse cadáver deitado ainda no leito, a cabeça caída sobre o peito, o cabelo desgrenhado, banhado ainda no suor da morte, os olhos encavados, as faces descarnadas, o rosto cinzento, a língua e os lábios cor de ferro, o corpo todo frio e pesado. Empalidece e treme quem quer que o vê. Quantas pessoas, à vista de um parente ou amigo defunto não mudaram de vida e deixaram o mundo! — Mais horror ainda inspira o cadáver, quando começa a corromper-se. Não se passaram bem vinte e quatro horas que esse moço morreu, e já o mau cheiro se faz sentir. E preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso; é preciso cuidar que em breve seja levado à igreja e posto debaixo da terra, para que não infeccione a casa toda.

Eis aí em que se tornou esse moço orgulhoso, esse dissoluto! Ainda há pouco acolhido e desejado nas sociedades, e agora feito objeto de horror e de abominação para quem o vê! Os parentes anseiam por fazê-lo levar para fora da casa e pagam aos coveiros para que o levem encerrado num caixão e o entreguem à sepultura. Outrora gabavam-se o espírito, a beleza, o trato fino e bons ditos; mas pouco depois de sua morte perde-se a memória de tudo isso: Periit memoria eorum cum sonitu (1) — “A memória deles pereceu com ruído”.

Ao ouvirem a noticia de sua morte, uns dizem que era homem honrado, outros que deixou os negócios em bom estado; uns lamentam-se, porque o defunto era-lhes útil; outros regozijam-se, porque a morte dele lhes traz proveito. Por fim, dentro em breve, já ninguém falará nele. Desde os primeiros dias os parentes mais chegados não querem ouvir falar dele a fim de não se lhes avivar a saudade. Nas visitas de pêsames trata-se de outros assuntos, e se alguém por ventura fala do defunto, logo os parentes atalham: Por favor, não pronuncieis mais o seu nome. E entretanto, onde é que estará a alma daquele infeliz?

II. Pensai que assim como vós fizestes na morte de vossos amigos, assim os outros farão para convosco. Os vivos aparecerão por sua vez na cena, ocupando os bens e os lugares dos mortos, e destes já não se faz ou quase que não se faz caso ou menção. Os parentes afligir-se-ão ao princípio por alguns dias, mas depressa consolar-se-ão com a parte da herança que lhes couber, de tal sorte que dentro em breve até se regozijarão de vossa morte. No mesmo quarto onde exalastes a alma, e onde fostes julgado por Jesus Cristo, se jogará e se rirá como antigamente. E a vossa alma onde estará então?

Ó Jesus, Redentor meu, agradeço-Vos por não me terdes deixado morrer quando estava em desgraça convosco. Ha quantos anos não mereceria estar no inferno! Se eu tivesse morrido em tal dia, tal noite, que seria de mim por toda a eternidade? Senhor, eu Vos agradeço e não quero mais resistir as vossas chamadas. Quem sabe se as palavras que acabo de ler, não são para mim o vosso último convite! Confesso que não mereço misericórdia: tantas vezes me tendes perdoado e eu, ingrato, tenho tornado a ofender-Vos. Mas já que não sabeis desprezar um coração que se humilha e se arrepende, eis aqui um traidor que a Vós recorre arrependido. Por piedade, não me afasteis. Verdade é que Vos ultrajei mais que muitos outros, pois que, mais que muitos outros fui favorecido por Vós com luzes e graças, mas o sangue que derramastes por mim, anima-me e oferece-me o perdão, se eu me arrepender. Sim, meu Bem supremo, arrependo-me de toda a minha alma de Vos ter desprezado. Perdoai-me e dai-me a graça de Vos amar para o futuro. Já demasiadamente Vos ofendi. Não quero empregar a vida que ainda me resta, a ofender-Vos, quero empregá-la a chorar sempre os desgostos que Vos dei, e a amar-Vos de todo o meu coração.

— Ó Maria, esperança minha, rogai a Jesus por mim.

Referências:

(1) Sl 9, 7

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 30-33)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Deus entrega o próprio Filho à morte para nos dar a vida

 O Santo Sacrifício: amor de Deus para com a humanidade

Deus autem, qui dives est in misericórdia, propter nimiam caritatem suam, qua dilexit nos, et cum essemus mortui peccatis, convivificavit nos Christo – “Deus que é rico em misericórdia, por causa da extrema caridade com que nos amou, também quando mortos estávamos pelos pecados, nos convivificou em Cristo” (Ef 2, 4)

Sumário. Pelas nossas culpas nós, pobres pecadores, já estávamos todos mortos e condenados ao inferno. Deus, porém, por causa do imenso amor que tem às nossas almas, quis restituir-nos à vida, enviando à terra o seu Filho unigênito para morrer por nós. Pois dizei-me: Se Jesus Cristo morreu por nosso amor, não é mais do que justo que nós somente para Ele vivamos, e que Ele seja o único senhor dos nossos corações?

I. Considera que o pecado é a morte da alma; visto que esse inimigo de Deus nos priva da graça divina, que é a vida da alma. Assim nós, os pobres pecadores, já estávamos todos mortos por nossa culpa e todos condenados ao inferno. Deus, porém, por causa do imenso amor que tem às nossas almas, quis restituir-nos à vida. Que fez? Enviou à terra o seu Filho unigênito a fim de morrer e com a sua morte recuperar-nos a vida. — É com razão que o Apóstolo chama esta obra de amor: nimiam caritatem, excesso de amor. Com efeito, nunca o homem pudera nutrir esperança de receber a vida de um modo tão amoroso, se Deus não houvera excogitado esse meio de remi-lo.

Estavam mortos todos os homens, e não havia para eles remédio. Mas o Filho de Deus, pelas entranhas de sua misericórdia, desceu do céu a restituir-nos à vida. É exatamente por isso que o Apóstolo chama Jesus Cristo vita nostra, nossa vida. Eis que o nosso Redentor, já encarnado e feito menino, nos diz: Veni ut vitam habeant, et abundantius habeant (1) — “Eu vim para eles terem vida, e para a terem em maior abundância”. Jesus veio e escolheu a morte para si, a fim de nos dar a vida. — É, pois, justo que vivamos unicamente para um Deus que se dignou de morrer por nós. É justo que o único senhor de nosso coração seja Jesus Cristo, porquanto deu o seu sangue e a sua vida para o ganhar. Ó meu Deus, quem será tão ingrato e tão desgraçado que, sabendo pela fé que um Deus morreu para lhe grangear o amor, se recuse a amá-Lo, e renunciando à amizade divina, queira fazer-se, por sua livre vontade, escravo do inferno?

II. Ó meu Jesus, se Vós não tivésseis aceitado e padecido a morte por mim, teria eu ficado morto no meu pecado sem esperança de me salvar e de poder amar-Vos. Mesmo depois que com a vossa morte me obtivestes a vida, eu muitas vezes tenho tornado a perdê-la voluntariamente pelos meus pecados. Morrestes para Vos assenhorardes do meu coração, e eu, rebelando-me contra Vós, escravizei-o ao demônio. Tenho-Vos desrespeitado e dito que não Vos queria para meu Senhor. Tudo isso é verdade, mas é também verdade que não quereis a morte do pecador, mas que se converta e viva, e Vós morrestes a fim de nos dardes a vida.

Amado Redentor meu, pesa-me de Vos ter ofendido; perdoai-me pelos merecimentos de vossa Paixão. Dai-me a vossa graça; dai-me aquela vida que me adquiristes com a vossa morte, e de hoje em diante reinai como supremo senhor em meu coração. Não, não quero mais que seu senhor seja o demônio, que não é meu Deus, que não me ama e nada tem padecido por mim. Em tempos passados foi ele não o verdadeiro senhor de minha alma, senão o injusto possuidor. Vós só, Jesus meu, sois o meu verdadeiro Senhor, Vós que me haveis criado e remido com o vosso sangue; Vós só me haveis amado e amado tanto. É justo que eu seja unicamente vosso no tempo de vida que me resta. Dizei-me o que quereis que eu faça, pois que eu quero fazê-lo. Castigai-me como quiserdes: aceito tudo. Poupai-me somente o castigo de ter de viver sem o vosso amor; fazei com que Vos ame, e depois disponde de mim segundo a vossa vontade.

— Maria Santíssima, meu refúgio e minha consolação, recomendai-me a vosso Filho; a sua morte e a vossa intercessão são a minha única esperança.

Referências:

(1) Jo 10, 10

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 28-30)

sábado, 4 de dezembro de 2021

Inefável dignidade de Maria Santíssima

 Nossa Senhora e o Sagrado Coração de Jesus

De qua natus est Iesus, qui vocatur Christus – “Da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mt 1, 16)

Sumário. É tão grande a dignidade de Maria como Mãe de Jesus Cristo, que só Deus com a sua sabedoria infinita a pode compreender; mas toda a sua onipotência não pode fazer outra maior. Façamos um ato de viva fé acerca desta divina maternidade; alegremo-nos com a Santíssima Virgem, e aumentemos a nossa confiança nela, porquanto de certo modo nos é devedora da sua altíssima dignidade.

I. Para compreender a altura a que Maria foi sublimada, mister se faria compreender quão sublime é a alteza e grandeza de Deus. Bastará dizer que Deus fez a Santíssima Virgem mãe do seu Filho para ficar entendido que Deus não a pode elevar mais alto do que a elevou. Bem disse Santo Arnaldo Carnotense que Deus, fazendo-se Filho da Virgem, sublimou-a acima de todos os Santos e Anjos. Ainda que: em verdade, ela seja infinitamente inferior a Deus: ao mesmo tempo está imensa e incomparavelmente acima de todos os espíritos celestiais, como fala Santo Efrém. Por este motivo lhe diz Santo Anselmo: Senhora, vós não tendes quem vos seja igual, porque tudo quanto há está acima ou abaixo de vos; só Deus vos é superior, e todos os mais vos são inferiores.

Em uma palavra, é tão grande a dignidade da Virgem, que, se bem que Deus só com a sua sabedoria infinita a possa compreender, todavia, no dizer de São Boaventura, com toda a sua onipotência não pode fazer outra maior — Ipsa est qua maiorem facere non potest Deus — Quem considerar isto, deixará de estranhar porque os santos Evangelistas, que tão difusamente registram os louvores de um João Batista, de uma Madalena, tão escassos se mostram em descrever as grandezas de Maria. Tendo dito que desta exímia Virgem nasceu Jesus: de qua natus est Iesus, não julgaram necessário acrescentar outra coisa; porque neste seu maior privilégio se acham incluídos os demais. Qualquer titulo que se lhe dê, nunca chegará a honrá-la tanto quanto o de Mãe de Deus.

Façamos um ato de viva fé na maternidade divina de Maria, alegremo-nos com ela, agradeçamos a Deus por ela e protestemos que estamos prontos a dar a nossa vida em defesa desta verdade, como de todas as outras que lhe dizem respeito.

II. Diz Santo Anselmo que é mais pelos pecadores do que pelos justos que Maria foi sublimada a Mãe de Deus; do mesmo modo que Jesus disse de si próprio que veio para chamar, não os justos, senão os pecadores. A divina Mãe tem, pois, uma certa obrigação de socorrer os miseráveis que se lhe recomendam, porquanto é a eles que é, por assim dizer, devedora de sua altíssima dignidade: Totum quod habes, peccatoribus debes (1) — Congratulemo-nos, portanto, com Maria, sim; mas congratulemo-nos também com nós mesmos e ponhamos nela toda a nossa esperança.

 Ó Mãe de Deus, eis aqui a vossos pés um miserável pecador, que a Vós recorre e em Vós confia. Não mereço que lanceis sobre mim o vosso olhar; mas sei que, vendo vosso Filho morto para a salvação dos pecadores, tendes um extremo desejo de ajudá-los. Ó Mãe de misericórdia, vêde as minhas misérias e tende piedade de mim. Ouço que todos vos chamam refúgio dos pecadores, esperança dos que desesperam, sêde também o meu refúgio, a minha esperança, o meu auxilio. Deveis salvar-me com a vossa intercessão. Socorrei pelo amor de Jesus Cristo. Estendei a mão a um pobre caído que se recomenda a vós. Sei que é a vossa consolação ajudar um pecador, quando é possível; ajudai-me, pois, já que o podeis fazer. Pelos meus pecados perdi a graça divina e a minha alma. Entrego-me em vossas mãos; dizei-me o que hei de fazer para de novo entrar na graça do meu Senhor; quero fazê-lo sem demora. Ele me envia a vós, para que me socorrais, quer que eu me refugie na vossa misericórdia, a fim de que eu me salve não somente pelos méritos de vosso Filho, mas também pelas vossas orações. A vós recorro; e vós rogai por mim. Mostrais como sabeis valer a quem confia em vós. Assim espero, assim seja (2).

Referências:

(1) Guilh. Paris.
(2) Quem recitar esta oração em dia de Domingo, acrescentando três Ave Marias, em reparação das blasfêmias contra a B. Virgem, ganha 300 dias de indulgência.

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 23-25)


sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Quais sejam os que na verdade seguem a Jesus Cristo

 Sigamos Cristo até o calvário

Si quis vult post me venire, abneget semetipsum, et tollat crucem suam quotidie, et sequatur me – “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 6, 23)

Sumário. Devemo-nos persuadir de que Deus nos conserva no mundo para que suportemos com paciência as tribulações que Ele mesmo nos envia para o nosso bem. Resolvamo-nos, pois, a recusar a nós mesmos aquilo que um amor próprio desordenado nos pede; abracemos de boa vontade a nossa cruz de cada dia; e não nos cansemos de a carregar após Jesus Cristo até ao Calvário, isso é, até a morte.

I. Façamos hoje algumas reflexões sobre estas palavras de Jesus Cristo. Si quis vult post me venire — “Se alguém quer vir após mim.” Jesus não somente quer que a Ele vamos, senão que vamos em seu seguimento. Jesus vai sempre para diante e não pára enquanto não chegar ao Calvário, onde irá morrer. Portanto, se O amamos, devemos segui-Lo até à nossa morte. Por isso faz-se mister que cada um se negue a si mesmo: abneget semetipsum; isso é, recuse a si mesmo o que o amor próprio pede, mas que não é do agrado de Jesus Cristo.

Diz ainda:

Tollat crucem suam quotidie et sequatur me — “Tome a sua cruz cada dia e siga-me.”

Tollat, tome: de pouco serve carregá-la forçadamente; todos os pecadores a carregam, mas sem merecimento. Para a carregarmos com merecimento, devemos abraçá-la de boa vontade.

— Crucem, a cruz: sob o nome de cruz vem toda a tribulação, que por Jesus Cristo é chamada cruz, a fim de nô-la tornar doce, com pensar que em uma cruz ele morreu por nosso amor.

Jesus diz: suam, a sua cruz. Alguns, ao receberem qualquer consolação espiritual, se oferecem para sofrer o que tem sofrido os mártires: acúleos, unhas de ferro e lâminas candentes; mas, logo em seguida não sabem sofrer alguma dor de cabeça, uma falta de atenção da parte de um amigo, o enfado de um parente. Irmão meu, Deus não quer de ti que sofras nem cavaletes, nem unhas de ferro, nem lâminas candentes; mas quer que sofras com paciência essa dor, esse desprezo, esse aborrecimento. Tal outro quisera ir a um deserto para sofrer; quisera praticar grandes penitências; entretanto não sabe suportar um seu superior, um seu companheiro de ofício. Deus, porém, quer que ele carregue a cruz que lhe é dada para carregar, e não aquela que ele mesmo escolheu.

Ainda diz: quotidie, cada dia. Alguns abraçam a cruz no princípio, quando ela se apresenta; mas quando dura, dizem: Não posso mais. Todavia, Deus quer que continues a carregá-la com paciência, muito embora fosse preciso carregá-la sem cessar até à morte. Eis aí portanto em que consiste a salvação e a perfeição; consiste em cumprir estas três palavras: Abneget, recusemos ao amor próprio o que não lhe convém. Tollat, abracemos a cruz que Deus nos envia. Sequatur, sigamos as pegadas de Jesus Cristo até à morte.

II. Devemo-nos, pois, persuadir de que Deus nos conserva no mundo, para que carreguemos as cruzes que nos envia; e é isto o que faz a nossa vida meritória. Porque nosso Salvador nos ama, veio sobre esta terra, não para gozar, mas para sofrer, a fim de que lhe sigamos as pegadas: Christus passus est pro nobis, vobis relinquens exemplum ut sequamini vestigia eius — “Cristo padeceu por nós, deixando-nos exemplo, para que sigais as suas pisadas (1). Contemplemo-lo, a Ele que vai adiante com a sua cruz, a fim de traçar-nos o caminho pelo qual devemos segui-Lo, se nos quisermos salvar. Oh! Que grande remédio, dizer a Jesus Cristo em cada aflição: Senhor, Vós quereis que eu carregue esta cruz; aceito-a e quero sofrê-la até quando quiserdes. Assim, e muito mais ainda, o merece Jesus Cristo, que, para nos livrar do inferno, escolheu uma vida de trabalho e uma morte de dor.

Jesus meu, somente Vós pudestes ensinar-nos estas máximas de salvação, de todo contrárias às máximas do mundo, e somente Vós nos podeis dar a força para carregarmos a cruz com paciência. Não Vos peço que me façais isento dos sofrimentos; peço-Vos somente que me deis força para sofrer com paciência e resignação. Pai Eterno, vosso Filho prometeu que nos haveis de dar tudo quanto Vos pedíssemos em seu nome: Amen, amen dico vobis, si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis (2). Eis, pois, o que Vos pedimos: dai-nos a graça de sofrer com paciência as aflições desta vida: atendei-nos pelo amor de Jesus Cristo. — E Vós, ó meu Jesus, perdoai-me todas as ofensas que Vos tenho feito, por não ter praticado a paciência nas cruzes que me enviastes. Dai-me o vosso amor: que me dará força para sofrer tudo por Vós privai-me de todas as coisas, de todos os bens terrestres, dos parentes, dos amigos, da saúde do corpo, de todas as consolações; tirai-me ainda a vida, mas não o vosso amor. Dai-Vos a mim, e nada mais Vos peço. Virgem Santíssima, obtende-me para com Jesus Cristo um amor constante até à morte.

Referências:

(1) 1 Pd 2, 21
(2) Jo 16, 23

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(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 20-23)