sábado, 30 de julho de 2022

INICIAR OS PEQUENINOS NA DEVOÇÃO MARIANA

 



Como fazer as crianças menores amarem a Santíssima Virgem? Recitar o Terço é pedir-lhes muito?

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

“Ó Mamãe, não posso expressar o quanto te amo!” Que mãe não se emocionaria com essas palavras balbuciadas pela filha de quatro anos? É assim que a criança manifesta sua gratidão. Evidentemente, a grandeza do sacrifício materno e seu grande amor permanecem, em parte, escondidos. Mas a criança, mesmo quando pequena, sente o amor presente no coração de sua mãe. Ela vê – ou melhor, sabe — que mamãe está sempre lá… para ela. Se ela cai enquanto brinca: é a mamãe que acode. Se sua noite é interrompida por pesadelos: seu grito é pela mamãe. Ela está com sede ou mesmo doente: sem precisar pensar, ela sabe que mamãe irá ajudá-la.

Sim, mesmo aos olhos da criança, o coração materno é indispensável e sem limites. À sua maneira, ela tenta retribuir demonstrando seu amor. Colhe flores sem caules com muito carinho para oferecê-las à mamãe! “Papai faz isso pela mamãe, eu também farei. Mamãe está doente, cansada. A criança chega com um copo d’água, acompanhando seu gesto com um beijo. “Mamãe faz isso quando estou doente, eu também o farei.

Sabeis muito bem, queridas mães, que vosso filho tem outra mãe, a do próprio Deus. O vosso grande desejo é que ele aprenda a conhecer esta Mãe por excelência que, sem estar visivelmente presente em casa, dá todo o seu afeto maternal a cada um dos seus filhos. Durante as inevitáveis ​​separações entre mãe e filho aqui na terra, que consolo saber que esta mesma Mãe velará por eles!

Como podemos colocar em prática esta verdade e fazer a criança conhecer e amar a nossa Mãe celestial? Ainda tão jovem, será ela capaz de compreender?

Imagens e buquês

Desde a mais tenra idade, os ouvidos do pequeno ouvem o que mamãe e papai estão dizendo. O bebê reconhece rapidamente a voz de seus pais e não demora muito para reconhecer os rostos em sua volta. Não falamos com ele antes mesmo de balbuciar “mamãe“… “papai“? Esses nomes lhe são repetidos várias vezes antes do dia em que os pronunciará. Por que não acrescentar os Santos Nomes de “Jesus” e “Maria” à lista das primeiras palavras? Tire algum tempo para lhe mostrar imagens de sua família celestial: ele não tardará a reconhecê-las.

Em cada etapa do despertar de sua alma, há oportunidades para introduzir canções, belas histórias ou pequenos livros que lhe contam sobre Maria. Além disso, se as estátuas ou imagens da Santíssima Virgem tiverem o lugar de honra na sala, a criança naturalmente dirigirá seus pensamentos para a rainha da família. Cada palavra, cada ação que procede do amor do papai e da mamãe pela Santíssima Virgem não é ignorada. Pelo contrário, a criança batizada considera tudo isso normal e a imita.

São inúmeras as ocasiões para dirigir o coração dos pequeninos: a mamãe coloca o buquê que papai ou a criança lhe ofereceu diante da imagem da Virgem; o papai vai rezar em frente à imagem de Maria depois da Missa do domingo; toda a família vai à procissão de 15 de agosto ou às cerimônias em honra da Virgem Peregrina.

E o terço… Com que idade podemos introduzi-lo? De que maneira? Será pedir muito às crianças? Pensemos nisso.

O rosário dos pequeninos

O terço consiste nas orações fundamentais que todo católico deve conhecer de cor. Que melhor maneira para uma criança aprender essas orações do que repeti-las enquanto reza o terço?

A criança nunca é pequena demais para começar a fazer suas orações matinais e noturnas e para adquirir o hábito de voltar seus pensamentos para Deus, muitas vezes durante o dia. O rosário da família só pode ajudá-lo a fazê-lo.

Assim que percebermos que o pequenino é capaz de aprender a Ave Maria, podemos deixá-lo retirar a primeira parte de uma dezena. Claro, é preciso muita paciência no início, para que ele diga cada palavra com mamãe ou papai. Em um clima de encorajamento, a criança aprenderá mais rapidamente e com mais vontade.

O terço! Que lição eficaz para o pequenino ter um livro com o qual possa acompanhar a vida de Jesus e Maria ao ritmo dos mistérios do rosário! Depois da oração, que alegria para os pequeninos se revezarem para apagar a vela acesa diante da imagem da Virgem, enquanto os mais velhos levam a sério o privilégio de acendê-la antes da oração familiar!

Convenhamos, o rosário em família exige muito esforço no início. É preciso um horário conveniente, um horário em que todos possam participar (sem escolher o horário em que todos estão cansados!). Deus dá a graça de ser fiel e, pouco a pouco, torna-se um hábito. Será que vinte minutos por dia são tão longos quando se passa com quem se ama realmente?

Nossa Senhora mesmo pediu às três crianças de Fátima que rezassem o terço, e os três videntes, ainda muito jovens, já tinham o hábito de o fazer.

Por fim, admiremos a educação religiosa dada pela Sra. Vianney a seus filhos. Ainda muito pequeno, o Santo Cura ouvia sua mãe falar-lhe sobre o céu, sobre a Santíssima Virgem antes de deixá-lo à noite. Desde que o pequeno João Maria foi capaz — aos três anos — aprendeu com ela a Ave Maria, a oração que nunca cansa a Deus, dizia ele. Anos mais tarde, disse: “A Santíssima Virgem é meu afeto mais antigo. Eu a amava antes mesmo de conhecê-la… Depois de Deus, é obra da minha mãe, ela era tão sábia!”

Fideliter n° 191 – setembro/outubro de 2009

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Somos todos servos inúteis

 

Parecem ter alcançado o grau mais elevado esses que, com todo o coração e sem fingimento, são de tal maneira senhores de si, que nada mais procuram do que ser desprezados, não ser tidos em conta e viver na humildade. 

Enquanto não chegardes aí, pensai que nada fizestes. Com efeito, como somos todos «servos inúteis», nas palavras do Senhor (Lc 17, 10), mesmo que façamos tudo bem, enquanto não alcançarmos este grau de humildade não estaremos na verdade, mas estaremos e caminharemos na vaidade.

Sabes também que o Senhor Jesus começou por fazer antes de ensinar. Mais tarde, haveria de dizer: «Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração» (Mt 11, 29). E quis praticá-lo realmente, sem fingimento. Fê-lo de todo o coração, como era manso e humilde de todo o coração e em verdade. N'Ele não havia dissimulação (cf. 2Cor 1, 19). 

Estava de tal maneira mergulhado na humildade, no desprezo e na abjecção, aniquilara-Se de tal maneira aos olhos de todos, que quando começou a pregar e a anunciar as maravilhas de Deus, e a fazer milagres e coisas admiráveis, ninguém Lhe dava valor, antes O desprezavam e troçavam Dele dizendo: «Não é este o filho do carpinteiro?», e outras coisas parecidas. 

Assim se cumpre a palavra de São Paulo: «Aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a condição de servo» (Fil 2, 7), e não apenas de servo comum, pela encarnação, mas de um servo inútil, através da Sua vida humilde e desprezada.

São Boaventura in 'Meditações sobre a vida de Cristo'

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Nossa Senhora do Carmo e o Santo Escapulário

 



I. A festa de Nossa Senhora do Carmo comemora o dia em que, segundo as tradições carmelitas, o primeiro superior geral da Ordem do Carmelo teve uma aparição da Virgem, na qual a Santíssima Virgem lhe prometeu uma bênção especial para todos aqueles que carregava seu escapulário.

Em 16 de julho de 1251, São Simão Stock se voltou para a Virgem Maria em circunstâncias particularmente difíceis para os carmelitas que estavam se espalhando por todo o Ocidente cristão. A regra, originalmente concebida para ajudar os eremitas do Monte Carmelo na Palestina a atingir a perfeição, foi adaptada às novas necessidades de uma ordem de frades mendicantes dedicados à pregação e ao exercício do ministério sacerdotal. Em 1247 o Papa Inocêncio IV aprovou as novas constituições e em 1252 publicou uma carta em defesa dos carmelitas cujo sucesso provocou a inveja e hostilidade do clero em vários países.

A Bem-Aventurada Virgem Maria, acompanhada por uma multidão de anjos, apareceu a São Simão com o escapulário da Ordem nas mãos e prometeu-lhe sua proteção especial, acrescentando: " Você e todos os carmelitas terão o privilégio de que quem morrer com ele não sofrerá eternamente fogo », ou seja, quem morrer com ele será salvo.

Um escapulário (= do latim scapulae , ombros) é um hábito sem mangas, aberto nas laterais, que era usado sobre a túnica, dobrado sobre a cabeça, repousa sobre os ombros, e uma parte solta cai para frente e a outra para trás. . Os beneditinos começaram a usá-lo para o trabalho e também foi adotado, entre outros, pelos carmelitas. É, portanto, o símbolo ou substância do hábito religioso.

No século XIII começou o costume de conceder aos frades a seus benfeitores a participação em suas orações e boas obras. Assim, os carmelitas participavam da promessa da proteção especial da Virgem nesta vida e da salvação na hora da morte aos que levassem o seu escapulário, que por isso se reduzia ao símbolo de duas peças de lã castanha unidas por cordões ou fitas.

A particular proteção de Maria Santíssima para com o Carmelo foi confirmada quando Nossa Senhora apareceu em 1314 ao Cardeal Giacomo Duèse que viria ao Papado em 1316 com o nome de João XXII. A Virgem garantiu uma assistência especial aos que portavam o escapulário do Monte Carmelo, assegurando-lhes que os livraria do purgatório no primeiro sábado após a sua morte. Considera-se que esta promessa, conhecida como "Privilégio Sabatino", foi solenemente promulgada por João XXII no ano de 1322 em um texto muito citado, embora não haja provas documentais confiáveis ​​dela. Numerosos testemunhos posteriores apoiam essa crença:

“Além disso, esta piedosa Mãe certamente não deixará de interceder diante de Deus de acordo com a promessa tradicional do chamado privilégio do sábado, para que aqueles de seus filhos que devem reparar suas faltas no purgatório obtenham o mais rápido possível [ 1] o descanso eterno da pátria » [2] .

Na sexta aparição mariana de Fátima, quando ocorreu o milagre do sol, Lúcia, Jacinta e Francisco viram a Virgem sob a invocação de Carmen com o Menino nos braços e o Escapulário. De facto, as referências ao inferno, ao purgatório, à necessidade de penitência e à intercessão de Nossa Senhora contidas na mensagem de Fátima estão inteiramente de acordo com as promessas do escapulário. No texto que citamos, Pio XII considerou-o um meio de reconhecer a consagração ao Sacratíssimo Coração da Virgem Imaculada.

II. A condição para se beneficiar da promessa principal, a preservação do inferno, é o uso do escapulário, desde que recebido com a devida intenção, e que seja efetivamente usado na hora da morte. Para tanto, admite-se que uma pessoa o use continuamente, no caso de ser privada de seu uso, como pacientes em hospitais. São Pio X concedeu o poder de substituir o escapulário tecido por uma medalha que deve ter o Sagrado Coração de Jesus de um lado e qualquer imagem de Nossa Senhora do outro.

«E, na verdade, não é uma questão de pouca importância, mas da obtenção da vida eterna em virtude da promessa feita, segundo a tradição, pela Santíssima Virgem; é, em outras palavras, o mais importante de todos os negócios e a forma de realizá-lo com segurança. Certamente, o Santo Escapulário é de libré mariana, penhor e sinal de proteção da Mãe de Deus» [3] .

Para beneficiar do “Privilégio Sabatino”, é necessário cumprir três requisitos.

– Costuma usar o escapulário (ou medalha).

– Preservar a castidade, segundo o próprio estado (total, para os celibatários; e conjugal para os casados). Deve-se dizer que esta é uma obrigação de todo cristão, então o privilégio é entendido como aplicável àqueles que habitualmente vivem em tal estado.

– Recite diariamente o Pequeno Ofício de Nossa Senhora. Costuma-se substituí-lo pela recitação diária do Rosário.

Nem é preciso advertir, como nos lembra Pio XII, que aqueles que deliberadamente vivem uma vida de pecado agiriam de forma imprudente, julgando erroneamente que, vestindo o escapulário, serão salvos : à preguiça e à preguiça espiritual, já que o Apóstolo nos adverte: “operai a vossa salvação com temor e tremor” (Fl 2, 12) » [4] . No entanto, também não devemos renunciar ao uso do escapulário quando reconhecemos nossa condição de pecadores. O jesuíta São Cláudio de la Colombière, em um sermão sobre Nossa Senhora do Monte Carmelo na Igreja Carmelita de Lyon, disse:

«Não quero lisonjear-te; de modo algum se pode passar de uma vida licenciosa e desordenada à vida eterna, senão pela penitência sincera; mas esse arrependimento sincero dessa forma será facilitado pela mais afetuosa das mães. Quando você menos esperar, brilhará em suas almas um raio de luz sobrenatural que de repente revelará seu engano. Se, apesar de todas essas graças, você persistir em não mudar sua vida, se fechar os olhos a tantas luzes, em uma palavra, se quiser morrer no seu pecado... morrerá nele! Mas você não vai morrer com o Escapulário. Vós mesmos; sim, vós mesmos, antes de morrerdes reprovados e com o santo hábito, vos despojareis dele» [5] .

À Virgem Maria, sob esta invocação do Carmelo, nos acolhemos com a esperança de que Ela avance no momento em que todos os falecidos, e também nós, um dia, possamos ver Deus e viver para sempre com Ele no Céu.

NOTA: Indulgências ligadas ao Escapulário [6]

– Concede-se indulgência parcial quem, portando piedosamente o Escapulário, ou a medalha, faz um ato de união com a Santíssima Virgem ou com Deus através do Escapulário, por exemplo, beijando-o, formulando uma intenção ou um pedido.

– A indulgência plenária (remissão de todas as dores do purgatório) é concedida no dia em que se recebe o escapulário pela primeira vez, e também em outras festas como Nossa Senhora do Carmo, 16 de julho.

Deve-se dizer que as indulgências são recebidas se estiverem reunidas as condições usuais: confissão, comunhão, desapego de todos os pecados, inclusive os veniais, e oração pelas intenções do Santo Padre (costuma-se rezar um Pai Nosso, Ave Maria e Glória).


[1] « Nas citações da "Bola Sabatina" pelos diversos autores, encontram-se várias leituras da mesma (o que prova que não dependem de um único documento imediato). Por exemplo, alguns em vez de ser "sábado" quando a Virgem ajuda os irmãos no purgatório a ler "de repente" (o mais rápido possível), o que parece ser um erro de transcrição, embora isso tenha acontecido na liturgia e nas encíclicas de Pio XII : El escapulario del Carmen »: El escapulario del Carmen .

[2] PIO XII, Carta por ocasião do VII Centenário do Escapulário do Monte Carmelo (11 de fevereiro de 1950)

[3] Ibid.

[4] Ibid.

[5] Oeuvres completes , vol 2-2, 337-406; citado por: El escapulario del Carmen .

[6] Cf. O Escapulário de Nossa Senhora do Carmo

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Guardar silêncio quando somos injustiçados, o conselho de São Vicente de Paulo às religiosas

 

Vejo, minha filha, que considerais que, caso sejamos injustamente repreendidos por alguma falta, será preferível sofrermos a correção sem nada dizer do que justificarmo-nos. Sou inteiramente da vossa opinião, e parece-me que, a não ser que tal silêncio seja pecado, ou afecte os interesses do próximo, é preferível optar por ele: estamos a imitar Nosso Senhor. 

Quantas vezes O acusaram, denegriram a sua vida, criticaram a sua doutrina, vomitaram blasfémias execráveis contra a sua pessoa! E, contudo, ele nunca Se desculpou. Foi levado à presença de Pilatos e de Herodes, mas nada disse para Se desculpar, e acabou por Se deixar crucificar. Nada melhor do que seguir o exemplo que Ele nos deu.
 
Minhas queridas irmãs, dir-vos-ei a este propósito que nunca vi acontecer inconveniente a ninguém por não se ter desculpado - nunca. Não nos compete dar esclarecimentos; se nos imputam alguma coisa que não fizemos, não nos compete defender-nos. Deus quer, minhas filhas, que Lhe entreguemos o discernimento das coisas. 

Ele tratará de, em tempo oportuno, tornar a verdade conhecida. Se soubésseis o bem que faz abandonar nas suas mãos todos estes cuidados, minhas filhas, nunca teríeis a tentação de vos justificar. Deus quer aquilo que nos impõem, e permite-o, sem dúvida para pôr à prova a nossa fidelidade. 

Ele sabe como o recebemos, o fruto que daí retiramos e o mau uso fazemos da situação; e, se permite que continuem a acusar-nos, em breve saberá tornar conhecida a verdade! É máxima verdadeira e infalível, minhas filhas, que Deus justifica todos aqueles que não querem justificar-se.

São Vicente de Paulo in 'Conversas com as Filhas da Caridade' (18/01/1648)

terça-feira, 26 de julho de 2022

Inefável dignidade de Maria Santíssima




De qua natus est Iesus, qui vocatur Christus – “Da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mt 1, 16)

Sumário. É tão grande a dignidade de Maria como Mãe de Jesus Cristo, que só Deus com a sua sabedoria infinita a pode compreender; mas toda a sua onipotência não pode fazer outra maior. Façamos um ato de viva fé acerca desta divina maternidade; alegremo-nos com a Santíssima Virgem, e aumentemos a nossa confiança nela, porquanto de certo modo nos é devedora da sua altíssima dignidade.

I. Para compreender a altura a que Maria foi sublimada, mister se faria compreender quão sublime é a alteza e grandeza de Deus. Bastará dizer que Deus fez a Santíssima Virgem mãe do seu Filho para ficar entendido que Deus não a pode elevar mais alto do que a elevou. Bem disse Santo Arnaldo Carnotense que Deus, fazendo-se Filho da Virgem, sublimou-a acima de todos os Santos e Anjos. Ainda que: em verdade, ela seja infinitamente inferior a Deus: ao mesmo tempo está imensa e incomparavelmente acima de todos os espíritos celestiais, como fala Santo Efrém. Por este motivo lhe diz Santo Anselmo: Senhora, vós não tendes quem vos seja igual, porque tudo quanto há está acima ou abaixo de vos; só Deus vos é superior, e todos os mais vos são inferiores.

Em uma palavra, é tão grande a dignidade da Virgem, que, se bem que Deus só com a sua sabedoria infinita a possa compreender, todavia, no dizer de São Boaventura, com toda a sua onipotência não pode fazer outra maior — Ipsa est qua maiorem facere non potest Deus — Quem considerar isto, deixará de estranhar porque os santos Evangelistas, que tão difusamente registram os louvores de um João Batista, de uma Madalena, tão escassos se mostram em descrever as grandezas de Maria. Tendo dito que desta exímia Virgem nasceu Jesus: de qua natus est Iesus, não julgaram necessário acrescentar outra coisa; porque neste seu maior privilégio se acham incluídos os demais. Qualquer titulo que se lhe dê, nunca chegará a honrá-la tanto quanto o de Mãe de Deus.

Façamos um ato de viva fé na maternidade divina de Maria, alegremo-nos com ela, agradeçamos a Deus por ela e protestemos que estamos prontos a dar a nossa vida em defesa desta verdade, como de todas as outras que lhe dizem respeito.

II. Diz Santo Anselmo que é mais pelos pecadores do que pelos justos que Maria foi sublimada a Mãe de Deus; do mesmo modo que Jesus disse de si próprio que veio para chamar, não os justos, senão os pecadores. A divina Mãe tem, pois, uma certa obrigação de socorrer os miseráveis que se lhe recomendam, porquanto é a eles que é, por assim dizer, devedora de sua altíssima dignidade: Totum quod habes, peccatoribus debes (1) — Congratulemo-nos, portanto, com Maria, sim; mas congratulemo-nos também com nós mesmos e ponhamos nela toda a nossa esperança.

 Ó Mãe de Deus, eis aqui a vossos pés um miserável pecador, que a Vós recorre e em Vós confia. Não mereço que lanceis sobre mim o vosso olhar; mas sei que, vendo vosso Filho morto para a salvação dos pecadores, tendes um extremo desejo de ajudá-los. Ó Mãe de misericórdia, vêde as minhas misérias e tende piedade de mim. Ouço que todos vos chamam refúgio dos pecadores, esperança dos que desesperam, sêde também o meu refúgio, a minha esperança, o meu auxilio. Deveis salvar-me com a vossa intercessão. Socorrei pelo amor de Jesus Cristo. Estendei a mão a um pobre caído que se recomenda a vós. Sei que é a vossa consolação ajudar um pecador, quando é possível; ajudai-me, pois, já que o podeis fazer. Pelos meus pecados perdi a graça divina e a minha alma. Entrego-me em vossas mãos; dizei-me o que hei de fazer para de novo entrar na graça do meu Senhor; quero fazê-lo sem demora. Ele me envia a vós, para que me socorrais, quer que eu me refugie na vossa misericórdia, a fim de que eu me salve não somente pelos méritos de vosso Filho, mas também pelas vossas orações. A vós recorro; e vós rogai por mim. Mostrais como sabeis valer a quem confia em vós. Assim espero, assim seja (2).

Referências:

(1) Guilh. Paris.
(2) Quem recitar esta oração em dia de Domingo, acrescentando três Ave Marias, em reparação das blasfêmias contra a B. Virgem, ganha 300 dias de indulgência.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 23-25)


"E as almas dos fiéis pela misericórdia de Deus descansem em paz! — Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno!"
 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Satanás, antes de atacar, examina o vício

 




Satanás, antes de atacar, examina o vício, a inclinação, a parte mais débil de cada pessoa.
Ouçamos a São Leão foi papa entre (440 d.C - 461d.C): Satanás conhece a quem há de abrasar com o fogo da cobiça, a quem há de prender pela gula, a quem há de possuir pela luxúria, em quem há de inocular o veneno da inveja, conhece aquele que há de se turbar pelos arrependimentos, exceder-se pela alegria, sobrecarregar-se pelo temor, e deixar-se seduzir pela administração.
Calcula as inclinações de cada um, descobre os cuidados, esquadrinhas os afetos, busca os meios de prejudicar, explorando, sobretudo, as inclinações do homem.
Satanás disfarça o pecado com a aparência e o nome de doçura, de flores louçãs de felicidade e até de virtude. Oculta o anzol do pecado e, sobretudo, do deleite, a fim de que vos torneis presas deste aguilhão penetrante e mortal, enquanto saboreais um prazer enganoso e envenenado. Satanás impele o homem ao vício passo a passo; começa por fazer-lhe cometer faltas leves, e arrasta-lhe assim a maiores (Homil. ad pop.).
Assim também sugere São Tomás de Aquino:
"Um erro insignificante ao início pode tornar-se grande ao final”.
"Se você se aproximar dele estará pondo a si mesmo em perigo. Relembre-se que o demônio tem somente uma porta pela qual pode entrar na alma: a tua própria vontade." (São Pio de Pietrelcina)
- Referência:
(Tesouros de Cornélio à Lápide)


sexta-feira, 22 de julho de 2022

FIM E FORMA DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

 

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O fim próprio e imediato da educação cristã é cooperar com a graça divina na formação do verdadeiro e perfeito cristão, isto é, formar o mesmo Cristo nos regenerados pelo Baptismo, segundo a viva expressão do Apóstolo: « Meus filhinhos, a quem eu trago no meu coração até que seja formado em vós Cristo ». (63) Pois que o verdadeiro cristão deve viver a vida sobrenatural em Cristo: « Cristo que é a vossa vida », (64) e manifestá-la em todas as suas ações: « a fim que também a vida de Jesus se manifeste na vossa carne mortal » (65).

a) Formar o verdadeiro cristão

Precisamente por isso a educação cristã abraça toda a extensão da vida humana, sensível, espiritual, intelectual e moral, individual, doméstica e social, não para diminuí-la de qualquer maneira, mas para a elevar, regular e aperfeiçoar segundo os exemplos e doutrina de Cristo.

Por isso o verdadeiro cristão, fruto da verdadeira educação cristã, é o homem sobrenatural que pensa, julga e opera constantemente e coerentemente, segundo a sã razão iluminada pela luz sobrenatural dos exemplos e doutrina de Cristo; ou antes, servindo-Nos da expressão, agora em uso, o verdadeiro e completo homem de carácter. Pois que não é qualquer coerência e rigidez de procedimento, segundo princípios subjetivos, o que constitui o verdadeiro caráter, mas tão somente a constância em seguir os eternos princípios da justiça, como confessa o próprio poeta pagão quando louva, inseparavelmente, « o homem justo e firme em seu propósito » (66). Por outro lado não pode haver justiça perfeita senão dando a Deus o que é de Deus, como faz o verdadeiro cristão.

Tal fim eterno da educação cristã afigura-se aos profanos uma abstração, ou antes, irrealizável, sem a supressão ou atrofiamento das faculdades naturais, e sem a renuncia às obras da vida terrena, e por conseqüência alheio à vida social e prosperidade temporal, adverso a todo o progresso das letras, ciências e artes, e a qualquer outra obra de civilização.

A semelhante objecção nascida da ignorância e preconceito dos pagãos, mesmo cultos, de outrora — repetida infelizmente com frequência e insistência nos tempos modernos — havia já respondido Tertuliano: «Nós não somos alheios à vida. Recordamo-nos bem do dever de gratidão para com Deus, Nosso Senhor e Criador; não repudiamos nenhum fruto das suas obras; somente nos moderamos para não usar deles mal ou descomedidamente. E assim não vivemos neste mundo sem foro, sem talhos, sem balneários, sem casas, sem negócios, sem estábulos, sem os vossos mercados e todos os outros tráficos. Nós também convosco navegamos e combatemos, cultivamos os campos e negociamos, e por isso trocamos os trabalhos e pomos à vossa disposição as nossas obras. Verdadeiramente não vejo como podemos parecer inúteis aos vossos negócios com os quais e dos quais vivemos (67).

b) Que é também o cidadão mais nobre e útil

Por consequência o verdadeiro cristão, em vez de renunciar às obras da vida terrena ou diminuir as suas faculdades naturais, antes as desenvolve e aperfeiçoa, coordenando-as com a vida sobrenatural, de modo a enobrecer a mesma vida natural, e a procurar-lhe utilidade mais eficaz, não só de ordem espiritual e eterna, mas também material e temporal.

Isto é provado por toda a história do cristianismo e das suas instituições, a qual se identifica com a história da verdadeira civilização e do genuíno progresso até aos nossos dias; e particularmente pelos Santos de que é fecundíssima a Igreja, e só ela, os quais conseguiram em grau perfeitíssimo, o fim ou escopo da educação cristã, e enobreceram e elevaram a convivência humana em toda a espécie de bens. De facto, os Santos foram, são e serão sempre os maiores benfeitores da sociedade humana, como também os modelos mais perfeitos em todas as classes e profissões, em todos os estados e condições de vida, desde o camponês simples e rude até ao sábio e letrado, desde o humilde artista até ao general do exército, desde o particular pai de família até ao monarca, chefe de povos e nações, desde as simples donzelas e esposas do lar domestico até às rainhas e imperatrizes. E que dizer da imensa obra, mesmo em prol da felicidade temporal, dos missionários evangélicos que juntamente com a luz da fé levaram elevam aos povos bárbaros os bens da civilização, dos fundadores de muitas e variadas obras de caridade e de assistência social, da interminável série de santos educadores e santas educadoras que perpetuaram e multiplicaram a sua obra, nas suas fecundas instituições de educação cristã, para auxílio das famílias e benefício inapreciável das nações?

c) Jesus, Mestre e Modelo de Educação

São estes os frutos benéficos sobre todos os aspectos da educação cristã, precisamente pela vida e virtude sobrenatural em Cristo que ela desenvolve e forma no homem; pois que Jesus Cristo, Nosso Senhor, Mestre Divino, é igualmente fonte e dador de tal vida e virtude, e ao mesmo tempo modelo universal e acessível a todas as condições do gênero humano, com o seu exemplo, particularmente à juventude, no período da sua vida oculta, laboriosa, obediente, aureolada de todas as virtudes individuais, domesticas e sociais, diante de Deus e dos homens.

Carta Encíclica Divini Illius Magistri  – Papa Pio XI

(63Gal., IV, 19: Filioli mei, quos iterum parturio, donec formetur Christus in vobis.

(64I Col., III, 4: Christus, vita vestra.

(65II Cor., IV, 11: ut et vita Iesu manifestetur in carne nostra mortali.

(66Horat., Od. 1. III, od. 3, v. 1: Iustum et tenacem propositi virum.

(67Apol., 42: Non sumus exules vitae. Meminimus gratiam nos debere Deo Domino Creatori; nullum fructum operum eius repudiamus; plante temperamus, ne ultra modula aut perperam utamur. Baque non sine foro, non sine macello, non sine balneis, tabernis, officinis, stabulis, nundinis vestris, caeterisque commerciis cohabitamus in hoc saeculo. Navigamus et nos vobiscum et mibitamus, et rusticamur, et mercamur, proinde miscemus artes, operas nostras publicamus usui vestro. Quomodo infructuosi videamur negotiis vestris, cum quibus et de quibus vivimus, non scio.

http://catolicosribeiraopreto.com/

quarta-feira, 20 de julho de 2022

É 𝗻𝗲𝗰𝗲𝘀𝘀á𝗿𝗶𝗼 𝗮 𝗺𝗼𝗿𝘁𝗶𝗳𝗶𝗰𝗮çã𝗼: 𝗱𝗮 𝗰𝘂𝗿𝗶𝗼𝘀𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲, 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗮𝗴𝗶𝗻𝗮çã𝗼, 𝗱𝗮 𝗴𝘂𝗹𝗮 𝗲 𝗲𝘁𝗰...




«Onde não há mortificação, não há virtude»
A) A mortificação da curiosidade:
Os “incentivos” externos da sensualidade desordenada entram em nós
fundamentalmente pelos olhos, e se cozinham na imaginação. No mundo atual, esses incentivos são constantes e agressivos. Por toda a parte há uma estimulação artificial da sensualidade, (pessoas mal vestidas pela rua, outdoors, jornais, revistas, televisão, e especialmente a Internet).
São Gregório Magno (século VI) resumia essa atitude virtuosa dizendo:
«Não é lícito olhar para o que não é lícito desejar» (Moralia, 21,2,4).
B) Mortificação da imaginação:
Atribui-se a Santa Teresa de Ávila a famosa frase: «A imaginação é a louca da
casa». Quando não se evita a lembrança das quedas passadas, nem se domina a
curiosidade, nem se foge rapidamente das ocasiões é muito fácil que a imaginação,
juntamente com a memória, se incendeie com fantasias eróticas, que envolvem a pessoa e chegam a tornar-se num verdadeiro “transtorno obsessivo compulsivo”.
Por isso, faz parte da vigilância sadia conquistar o autodomínio da imaginação,
evitando deixar-nos arrastar por ela como por uma enxurrada. Também neste ponto o “sim” à virtude, exige saber dizer muitas vezes um “não” enérgico aos devaneios sensuais.
C) Mortificação da gula:
«A gula é a vanguarda da impureza» (n. 126).
O abade Cassiano no século V, escrevia no seu manual de espiritualidade intitulado Collationes: «O primeiro combate que devemos empreender é contra o espírito de gula, contra a concupiscência da excessiva comida e bebida ... É preciso frisar que a abstinência corporal não tem outra razão de ser senão conduzir-nos à pureza do coração».
Os excessos na comida, e sobretudo na bebida, insensibilizam a alma, fazem com
que a dimensão corporal abafe a espiritual. A idolatria do prazer material do homem,
através dos excessos no comer e no beber puxa para a escravidão do sexo.
A devoção a Maria é essencial ao combate a tais males...
Finalmente, o grande meio para conquistar a virtude da castidade (santa pureza dos sentidos) – depois dos Sacramentos – é a devoção filial e confiante à Mãe de Deus e nossa. Quando as tentações contra a castidade se tornam mais fortes e insistentes, invocar filialmente Maria é o melhor caminho para chegar à paz e à vitória. Mãe puríssima, Mãe castíssima, rogai por mim! Quantas vezes esta breve oração tem tido a força e o sabor de vitória!
- Referência:
(A CONQUISTA DAS VIRTUDES Para uma vida realizada. Padre Francisco Faus)


 

terça-feira, 19 de julho de 2022

Santo Antônio e os terríveis combates que tinha de sustentar contra os demônios

 




Um dia quando Santo Antônio, depois dos terríveis combates que tinha de sustentar contra os demônios, dizia a Jesus Cristo:
– Onde estavas, ó bom Jesus? Ubi eras, bone Jesu?
Respondeu-lhe Jesus: – Antônio, estava presente, ; porém, queria te ver combater (Vit. Patr.).
Reflexão:
Quando sofreis, Deus está convosco. O próprio Deus o diz pela boca do Real Profeta: "Estarei com ele em suas tribulações, salvar-lhe-ei e o cumularei de glória. Eu o saciarei com uma vida muito longa, e lhe farei ver o Salvador que enviarei" (Sl 90, 15-16).
Quando assim acontecer, e nossa alma seja mais forte que as Cruzes com a resignação (conformidade) e a paciência, já não as sentirá, e realmente ver-se-á livre delas. Então, exclamava São Paulo, Estou inundado de consolo; transbordo de gozo em meio de todas as minhas tribulações (2 Cor 8, 4). Tenhamos nossa alma unida a Deus pela fé, a esperança e o amor.
- Referência:
(Tesouros do Padre Cornélio à Lápide